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22.5.13

Charles, Charles Aznavour – 89 hoje



Charles Aznavour − ou, mais exactamente, Shahnour Vaghinagh Aznavourian (Շահնուր Վաղինակ Ազնավուրյան) − nasceu em Paris e é francês, de antepassados arménios embora o seu pai tenha nascido em Akhaltsikhe, no Sul da Geórgia.

Para a Arménia terá sempre a nacionalidade dos seus pais emigrantes e é um ícone nacional, não só pelo êxito como cantor, mas também e talvez sobretudo, pela sua acção após o terramoto de 1988. Percorreu o país pouco depois, criou uma Fundação específica para o efeito, que reuniu mais de 150 milhões de dólares, tem estátuas por todo a parte (vi algumas quando lá estive há um ano) e o governo doou-lhe uma casa em Gyumri, a cidade mais arrasada em 1988, onde funciona agora a referida fundação. Os arménios não esquecem.

Para nós, sobretudo os que crescemos a ouvir sempre e sempre as suas magníficas canções, o seu aniversário é uma prenda que nem a crise consegue roubar-nos.

Duas das minhas preferências:






E a espantosa oportunidade de comparar «La Bohème» interpretada quando foi lançada (1966) e 47 anos depois, há meia dúzia de dias, em S. Paulo (16/5/2013):




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Será bonita a festa, pá!



Se o pai do primeiro-ministro é reservado nos comentários sobre a acção do governo («Não sou político, portanto não faço análise política»), o que diria se não o fosse.

Em declarações ao i, António Passos Coelho disserta sobre tudo e mais alguma coisa, mas retenho apenas isto: «Coitado, sabe Deus o que ele passa. Está morto por se ver livre disto. A gente vai fazer uma festa, cá na família, quando ele se vir livre disto. Vamos fazer uma festa, nem queira saber.»

Queremos saber, pois! E mais: já que, embora a contragosto, teremos feito parte da família durante algum (demasiadamente longo) tempo, consideramo-nos desde já convidados. De Vila Real de Santo António a Vila Real de Trás-os-Montes vai um passo de um anão e estaremos lá todos para uma festa de arromba! Conte connosco. 
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A ceia do Estado



Sabe-se agora, que a reunião do Conselho de Estado foi bem mais do que a discussão do pós troika e voltarei mais tarde ao tema. Mas oficialmente foi mais ou menos isto: 

«A paciência como solução política paralisa. Se não há nada que se possa fazer, senão esperar que o divino dê um sinal, convoca-se um chá ou uma ceia. Ou um Conselho de Estado. Para ler o futuro nas estrelas ou nas cartas, porque o presente ninguém deseja soletrar. (...)

Este Conselho de Estado dá a sensação de que a invisibilidade do PR e do Governo, face à incapacidade de sair da espiral recessiva em que estamos, demonstra uma incapacidade política única. Imagina-se o futuro para tornear o nada que se faz sobre o presente. Parece haver uma única política neste momento: esperar que a troika vá embora. E depois? A austeridade, com esta economia anémica criada pelo Governo e pela troika, vai continuar. (...)

Este Conselho de Estado é uma espécie de meteorologista de serviço. O velho manda-chuva. Diz que poderá haver sol, mesmo que todos saibam que vai chover. Prevê chuviscos quando a trovoada não sai de cima de nós. Estas reuniões do Conselho de Estado são a inexistência do regime em forma de conclave político.» 

 Fernando Sobral

 (O link pode só funcionar mais tarde.)
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21.5.13

Democracias

Terra queimada



«A terra queimada é o que sobra depois do fogo. Dois anos depois de a troika ter entrado em Portugal, sobra um país extenuado e devorado pelas chamas. Dizia-se que o sacrifício seria recompensado. A história é reescrita, a cada três meses, como farsa. A recompensa que se oferece aos portugueses é mais impostos e mais austeridade.
Troika e Governo tentaram que a realidade se adaptasse à teoria. Descobre-se que nem a troika nem Vítor Gaspar eram mestres da teoria e sempre ignoraram a realidade.

Governo e troika conseguiram ser tão persistentes como José Sócrates no delírio. Desta vez desarrumaram a economia interna. Criaram impostos como se fosse uma ceifeira debulhadora, tornaram a segurança social um hospício, destruíram qualquer possibilidade de um português fazer contas para o futuro.

O memorando trocou as voltas ao país. Dois anos e o país parece uma boneca em farrapos.»  

Fernando Sobral

(O link pode só funcionar mais tarde.)
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Um Presidente e 18 pastorinhos?



Sem que haja qualquer razão plausível para se imaginar que o jornalista João Pedro Henriques inventou a notícia, sabe-se agora pelo DN que «vários membros do Conselho de Estado defenderam ontem na reunião (...) que Portugal vive uma situação de crise política que só pode ser resolvida com eleições antecipadas, não podendo o pós troika deixar de ser discutido em conexão com a situação atual». E, também, que «Cavaco Silva bloqueou no comunicado final qualquer referência, mesmo de teor genérico, sobre o facto de a atualidade política ter marcado parte importante da discussão», mantendo-se intransigente neste ponto e invocando mesmo «uma norma do regimento do Conselho de Estado que o autoriza a fazer uma "nota informativa" focando apenas "parte do objeto da reunião e dos seus resultados"».

Sobre isto, ocorrem-me dois comentários:

1 – Pelo menos um dos conselheiros de Estado presentes terá infringido a regra de segredo quanto ao que se passou dentro de portas e soprado para a comunicação social o que Cavaco impediu que fosse divulgado. Mas não terá sido «homenzinho» para se identificar publicamente.

2 – O que teria acontecido se alguns dos que terão insistido na divulgação do relato do conteúdo não truncado da reunião se tivessem demarcado do comunicado final, afirmando precisamente que se tinham batido para que ele fosse fiel e não apenas parcial? Teriam sido expulsos do Conselho? Presos? Acusados de desobediência civil? E daí? Não é o mínimo que podia ser exigido pelo menos a alguns deles? Sentem-se bem como ao-autores «daquilo»? Será que, esta manhã, gostaram de se ver quando olharam para um espelho?
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Consta que houve uma reunião do Conselho de Estado


@Paulete Matos

Muito se especulou quando foi anunciado o tema da reunião do Conselho de Estado, que ontem teve lugar («pós troika»?), mas julgo que ninguém terá imaginado o tipo de documento que os conselheiros dirigiram aos portugueses depois de terem estado reunidos durante sete horas.

Nem interessa se «tudo correu bem», com alguns disseram à saída, ou se houve choro e ranger de dentes – é lá com eles. O tema deixou de ter importância para os portugueses que se deitaram mais tarde para ouvirem a leitura de um texto sobre relações com instâncias europeias e a elas dirigido, numa linguagem gelada de gabinete, incompreensível para uma grande maioria dos mortais (who cares?), onde é impossível encontrar qualquer sopro de solidariedade para com um povo em sofrimento e que, nestes momentos e contra toda a racionalidade, ainda tem expectativas de ouvir algo que lhe dê conforto e esperança. Com cinco malfadados parágrafos, deu-se mais uma machadada para aumentar o fosso entre responsáveis políticos e «os outros».

Fica um conselho: para a próxima, discutam o que quiserem mas não emitam comunicado ou não o tornem público. Escrevam-no directamente em inglês e enviem-no aos verdadeiros destinatários e interlocutores. 


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Conselho de Estado: não, não foi ela



Justiça seja feita: não foi certamente a Nossa Senhora de Fátima que redigiu o comunicado da reunião do Conselho de Estado!

Ou será que houve um engano e isto é o resultado de uma outra reunião que terá acontecido numa outra galáxia?

(Todas imagens de «A Portugueza» são de Henrique Nande) 
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20.5.13

Mal vai um país onde já se rouba água benta!




Água benta? Para substituir a Água do Luso? Porque a distribuição nas torneiras já foi cortada por falta de pagamento? Até os ladrões andam nervosos, é o que é. 
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Subsídio para desempregados?



De vez em quando, tropeça-se por acaso em textos com oito décadas que mostram como há mentalidades que vêm de muito longe e que imprimiram carácter.
Os termos utilizados no discurso são hoje diferentes, a sua concretização talvez mais difícil, mas a «ética» subjacente é fundamentalmente a mesma. Ou não?

«O subsídio sem o trabalho compensador desmoraliza os indivíduos, torna-os indolentes, comodistas, completamente inúteis à vida duma sociedade. O subsídio a troco de trabalho, pelo contrário, não desabitua os homens da sua função natural dentro da vida e enriquece o País com o acabamento e a iniciação de obras públicas que são de utilidade para todos. Desta forma, o imposto do desemprego não se torna tão pesado ao contribuinte, porque, além de sarar uma chaga social que o deve incomodar, vai encontrar-se em melhoramentos que ele próprio reclama há muito tempo.»

António Oliveira Salazar, 1932
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Choque de democracias



El País e outros cinco jornais europeus analisam a situação da União Europeia e os perigos do avanço dos populismos e da força dos interesses nacionais.

Um vasto dossier que inclui, para além do artigo principal - Choque de democracias -, muitos outros textos interessantes, entre os quais La solución para Portugal es una salida negociada del euro, fruto de uma entrevista a João Ferreira do Amaral e No es cierto que estas políticas de recortes sean inevitables, com um testemunho de Bruno Cabral (Que se lixe a troika!).

Vale a pena passar por lá.
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«Pós-troika», última aquisição da novinlíngua



«Lentamente, a expressão "pós-troika" vai-se infiltrando no politiquês nacional. O governador do Banco de Portugal alerta para a preparação do "pós-troika", o Presidente da República dedica hoje um Conselho de Estado ao "pós-troika", no Partido Socialista afiam-se as facas para o "pós-troika", nos jornais já se discute o destino do vilipendiado Vítor Gaspar no "pós-troika" – enfim, o termo propaga-se e será, em breve, uma daquelas modas repetidas nos media até à exaustão. O problema, contudo, é que a mera formulação "pós-troika" engana. A expressão parte de uma interpretação errada do papel da ‘troika' e arrisca alimentar uma esperança infundada sobre o futuro imediato de Portugal na Europa. (...)

Portugal sairá do memorando com um rácio de dívida pública superior a 120% do PIB, um sector privado ainda muito endividado, uma economia devassada por falta de investimento, um músculo exportador muito curto e um Estado praticamente por reformar. O memorando serviu mais para fechar o défice externo à bruta e reconquistar a confiança de quem manda na Europa (confiança que, por sua vez, atrai a dos mercados), do que para resolver o problema económico de Portugal na zona euro. (...)

Com ou sem ‘troika' estaremos, então, totalmente dependentes dos credores. Precisaremos deles para assegurarmos financiamento e para arrancarmos cedências profundas nas condições de pagamento da dívida. Não será fácil. Estes credores europeus são cultural e politicamente hostis face ao que entendem ser o "Sul da Europa", com quem lidam por necessidade e com um paternalismo antigo e sem limites.»

Bruno Faria Lopes

É grande a expectativa e faltam poucas horas


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19.5.13

Provisoriamente, o tempo parou para mim



O vídeo já tem algum tempo, mas só hoje o vi. Numa homenagem por ocasião dos seus 80 anos, Fernanda Montenegro recita parte de uma obra de Simone de Beauvoir.



(Via Luís Januário)
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Encargo



No me des tregua, no me perdones nunca.
Hostígame en la sangre, que cada cosa cruel sea tú que vuelves.
¡No me dejes dormir, no me des paz!
Entonces ganaré mi reino,
naceré lentamente.
No me pierdas como una música fácil, no seas caricia ni guante;
tállame como un sílex, desespérame.
Guarda tu amor humano, tu sonrisa, tu pelo. Dalos.
Ven a mí con tu cólera seca de fósforo y escamas.
Grita. Vomítame arena en la boca, rópeme las fauces.
No me importa ignorarte en pleno día, saber que juegas cara al sol y al hombre.
Compártelo.

Yo te pido la cruel ceremonia del tajo,
Lo que nadie te pide: las espinas
Hasta el hueso. Arráncame esta cara infame, oblígame a gritar al fin mi verdadero nombre.

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Rebobinando com humor



Quando se sabe agora que uma neta de Mao Tse-Tung, Kong Tungmei, de 41 anos, é a 242.ª pessoa mais rica da China (e que há muitos muito ricos na actual China...):

«Se Kong Tungmei tinha de acabar como um qualquer herdeiro Rockfeller III, mais valia ter-se poupado estas tolices e Mao ter enriquecido com os direitos de autor [do seu Livro Vermelho].»
Ferreira Fernandes

Confiança = 0



«A descontracção com que se anunciam disposições para depois se voltar atrás, ignorando olimpicamente as expectativas das pessoas, semeando o pânico e a insegurança na população, faz com que os cidadãos percam qualquer tipo de confiança em quem os governa. Neste Governo não são só algumas das normas acordadas com a troika que são facultativas, é tudo facultativo. Tudo pode acontecer, nada é previsível, tudo pode ser alterado dois minutos depois de ser anunciado. Nada parece ser minimamente estudado, tudo parece ser decidido na base dum qualquer achar ou baseado num compêndio mal estudado. (...)

Nunca um Governo fez tanto pelo desprestígio da política e dos políticos. O cidadão pode não concordar com uma decisão, pode até discordar de toda uma linha política. Outra coisa é não ter a mínima confiança em quem lidera o País, não poder acreditar naquilo que o Governo anuncia, porque o mais certo será ser desdito no dia seguinte. (...)

Um Governo em que não se pode confiar, um Governo completamente descredibilizado e que descredibiliza a política e os políticos, um Governo que luta mais internamente do que com a troika ou a crise, um Governo manifestamente incompetente. Este Governo é em si mesmo uma crise política. Mantê-lo é agravar essa crise. (...)

Valha-nos nossa senhora de Fátima, já que o seu devoto Cavaco Silva prefere ver o País a afundar-se a ter de assumir as suas responsabilidades.»

Pedro Marques Lopes

18.5.13

Troika Ano II


Dois anos depois da assinatura do Memorando de Entendimento, a troika, uma equipa de funcionários do Fundo Monetário Internacional e da União Europeia, conjunto de Estados livres e independentes em que Portugal se integra, continua a não prestar contas a ninguém. No decurso das sucessivas visita dos técnicos, o Governo, que responde perante a Assembleia da República e os portugueses, explica-se, presta contas da forma como executa o programa que os técnicos redigiram em três semanas e recebe uma avaliação.

Contra essa anomalia democrática, um conjunto de personalidade de várias gerações, sensibilidades políticas e formações profissionais, avaliam a troika e olham para o futuro de Portugal, na sequência da publicação do livro Troika Ano II, Uma Avaliação de 66 Cidadãos.

O IDEFF e o Instituto Europeu da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa organizam uma sessão, durante a qual será lançado o livro, e que terá lugar no próximo dia 20, com início pelas 9 e 30, no Salão Nobre da Reitoria da Universidade de Lisboa.

Mais informações aqui.

PROGRAMA: 

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Eternos



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Da vazia, sff



Expresso, 18/5/2013
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Um país do avesso



O povo anda perdido: os responsáveis pela República perderam o tino e já ninguém acredita que os comunas comam criancinhas ao pequeno almoço.

Não nos bastava um presidente que fala de santos a torto e a direito e vem agora o líder dos comunistas lembrar-lhe que «é pecado invocar em vão o nome de Maria».

Tenho para mim que algures, num planeta ainda desconhecido, Cunhal e a Irmã Lúcia estão a preparar o almoço de Sábado, ele rezando uma dezena do terço enquanto ela cantarola «A Internacional». 
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17.5.13

Jorge Videla – que a terra seja chumbo



Morreu Jorge Videla, um dos carrascos que governaram a Argentina entre 1976 e 1983 e que foram responsáveis por mais de 30.000 desaparecidos. Condenado em 2010 a prisão perpétua, viu a sua pena aumentada em mais 50 anos, em Julho de 2012, por ter dirigido uma rede que roubava bebés de prisioneiros políticos.

Num artigo intitulado «Nem Freud imaginou isto», Simone Duarte recorda o drama de algumas destas crianças e conclui: «É este o legado do general Videla. Uma geração que desapareceu. Outra que ficou sem saber quem era. E está até hoje a tentar descobrir».

O mundo ficou agora mais limpo. Espero que se dance o tango, pela noite fora, nas ruas de Buenos Aires.
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Este confiará em Nossa Senhora de Lourdes...



François Hollande continua a prometer que, antes do fim do corrente ano, se vai inverter o sentido da curva do desemprego quando este não pára de crescer há 23 meses consecutivos.

Em França, tal como cá, fala-se de quadratura do círculo e de esperança de um milagre... 

(Fonte)

Pode ser que os deuses nos oiçam



«Quando Portugal tem um Presidente que, a propósito da sétima avaliação da troika, evoca Nossa Senhora de Fátima, está tudo explicado. Colocámos o nosso destino nas mãos do divino e da crença e não na capacidade dos portugueses em determinarem o seu futuro. Tal como antes depositávamos a esperança no regresso de D. Sebastião ou num pastor que ordenasse o rebanho, agora a classe política portuguesa parece acampada à espera de um sinal vindo do céu ou dos três reis magos do FMI, da UE e do BCE. Este discurso de colocar as responsabilidades e o poder nas mãos de outros começa a ser a ideologia dominante na elite portuguesa. É a reprodução, como farsa, daquilo que, em "Os Maias", Ega dizia: "Portugal não necessita de reformas, Cohen, Portugal o que precisa é a invasão espanhola". E Cohen, inspirado em Burnay, sorria condescendente, porque ele ganhava de qualquer maneira, a começar pelos empréstimos externos. (...)

O problema é que continuamos a olhar para estudos como os da OCDE e do FMI como cartilhas maternais. Se era para seguirmos estudos, porque nunca aplicámos o de Michael Porter, que tinha um enquadramento teórico e prático para criar um modelo económico para Portugal? Há claramente uma fraca elite portuguesa, que coloca a culpa nos próprios portugueses. Esquecendo-se que foram as suas decisões, motivadas por motivos egoístas, que têm conduzido o país, de aumento cíclico da dívida e do défice, a este estado de ruína. Talvez Cavaco, afinal, tenha razão: coloquemos o destino nas mãos do divino. Pode ser que os deuses nos oiçam…»

Fernando Sobral

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«Temos que ser honestos, a frase do Presidente faz sentido. Se analisarmos bem, a própria Nossa Senhora de Fátima tinha um discurso Cavaquista. Os segredos de Fátima, revelados aos pastorinhos, não passam de um: "depois não digam que eu não avisei." O próprio local onde Nossa Senhora apareceu (uma paisagem campestre) é muito semelhante aos locais onde o nosso Presidente gosta de fazer declarações (feiras agrícolas). A grande diferença entre os dois é que Nossa Senhora conseguiu que os segredos de Fátima estivessem anos sem ser revelados. É a vantagem de não ter Marques Mendes no grupo de videntes.»

João Quadros
 
(Os links podem só funcionar mais tarde.)

Só faltam três dias


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16.5.13

Humberto Delgado, ainda – há 55 anos



No regresso do Porto de comboio, Humberto Delgado foi alvo de uma grande manifestação de apoio em Santa Apolónia, violentamente reprimida pela polícia. O governo de Salazar proibiu a divulgação de notícias que referissem o número de feridos, mas as mesmas apareceram na imprensa estrangeira que começou a dedicar mais atenção a Portugal.



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Elogio da loucura



Ricardo Araújo Pereira, sem faltar à chamada, hoje na Visão.

«O Governo tenta legislar, violando a lei. Um comentador convoca o Conselho de Estado e o Presidente confirma. Parte do Governo propõe uma coisa à Sexta-feira e outra parte propõe o contrário ao Domingo. Um ministro aceita uma medida que tinha considerado absolutamente inaceitável. O Governo apresenta a medida mas, em princípio, não quer aplicá-la.

Tendo em conta que, por defeito profissional, prefiro o caos à ordem, a loucura à sensatez e o absurdo à lógica, vejo-me obrigado a apoiar o Governo – muito contra a minha vontade.» 

 Na íntegra AQUI.
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Fátima, altar da pátria?


@Gui Castro Felga

Longe, muito longe de ser fã do novo cronista do Público - João Miguel Tavares – mas considero que acerta hoje em alvos ainda não mencionados quanto ao comportamento do inefável e devoto mariano que exerce as funções de presidente desta República. Alguns excertos do seu texto (sem link):

«Utilizar a intercessão de Nossa Senhora para justificar uma determinada linha de actuação política e económica só pode significar uma de duas coisas: ou uma manifestação de inadmissível ignorância por parte de um chefe de Estado português; ou uma vergonhosa afronta a todos os que lutaram para que 2013 não fosse igual a 1963 e que, ao contrário de Cavaco, nunca escreveram pelo seu próprio punho numa ficha da PIDE “integrado no actual regime político”. (...)

Factos são factos, e o certo é que a visão sacrificial dos três pastorinhos, toda ela muita penitência, arrependimento e oração, mais a sua explícita mensagem anticomunista, assentou como uma luva no discurso do regime, que com a cumplicidade da Igreja aproveitou, de caminho, para erguer Fátima a “altar do mundo”, reciclando a velha e mitológica ambição de grandiosidade nacional, agora através da via transcendente – já que para a via imanente não havia nem gente, nem dinheiro. (...)

Cavaco Silva não pode desconhecer as tentativas de invocar a mão de Deus, via Fátima, na instauração do regime do Estado Novo. E sabendo isso, vir agora invocar a mão de Nossa Senhora no escrupuloso cumprimento das directivas da troika e da sétima avaliação é de um mau gosto a toda a prova. Seguindo a sua fina linha de raciocínio, e em última análise, meter Deus nos assuntos de César significa neste caso o quê? Significa que é Deus que deseja a austeridade. Como era Deus que desejava o salazarismo. (...)

Não sei se Cavaco está como a irmã Lúcia, e fala com a Virgem à noite nos seus aposentos. Mas se assim for, faça como ela: entre para um convento de clausura, escreva vários volumes de memórias, e deixe a política para quem tem os olhos mais postos na terra do que no céu.» 
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Mais dissenso, sff



«Fala-se muito da necessidade de consenso, mas o que verdadeiramente faz falta é mais dissenso. Ou melhor, o que o alimenta: um efectivo pluralismo de perspectivas sobre a sociedade e uma autêntica diversidade na análise dos seus problemas. E onde hoje essa falta mais se sente é no domínio que, nas última décadas, absorveu quase integralmente a política: na economia.

Existe uma cartilha de onde tudo brota e tudo delimita, que se arroga um estatuto de ciência exata sem, contudo, satisfazer nenhum dos seus quesitos. Quer ela se designe como abordagem neoclássica ou como financismo, o seu estatuto mais parece divino, dado o modo como escapa aos próprios factos que sistematicamente a desmentem, tanto nos seus dogmas centrais como nas suas previsões mais banais.(...)

O mundo de hoje exige outras visões da economia, onde o pluralismo tem de ser a regra: um pluralismo crítico que ofereça aos estudantes (e aos cidadãos em geral) uma perspetiva global sobre a história e os procedimentos nucleares da disciplina. Um pluralismo doutrinário que apresente as várias linhas de pensamento económico existentes, promova a competição explicativa entre as suas argumentações e ofereça uma diversidade de pontos de vista. Um pluralismo interdisciplinar, que valorize os contributos de outras disciplinas e saberes na compreensão e tratamento dos problemas do mundo de hoje, que são cada vez mais polifacetados, interdependentes e complexos.

Tudo isto exige (...) mais dissenso do que consenso. Exige sobretudo que se compreenda que o consenso de que falam os zelotas do financismo divino é um mero garrote para, justamente, impedir que surjam e se trabalhem ideias e propostas alternativas àquelas que, apesar de falharem os seus proclamados objectivos, continuam, todavia, a dominar impunemente o mundo.»  (Os realces são meus.)