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5.1.08

O fanatismo segundo Vasco Pulido Valente

Foto FDV
ACTUALIZADO (*)

Na sua crónica no Público de hoje (sem link), intitulada «O fanatismo da tolerância», Vasco Pulido Valente toma posição sobre os recentes atritos entre o governo espanhol e a hierarquia da Igreja católica.

Segui atentamente esta questão e já a comentei neste blogue.

Entretanto, em resposta aos ataques dos bispos – porque eles existiram, claros e expressos –, o PSOE publicou um comunicado firme, mas calmo e ponderado. Tudo quanto há de mais normal.

Mas VPV vem hoje atacar Zapatero, em termos surpreendentes:

«O fanatismo, o da Espanha (de Zapatero) e o da "Europa", não é novo; e o fanatismo anticatólico também não. É só estranho que este se funde na "diversidade" e o aceitem em nome da "tolerância". Uma "diversidade" imposta e limitada pela força do Estado, que não levanta a mais leve dúvida ou o mais leve incómodo. E uma "tolerância" reservada ou recusada pela ortodoxia oficial, que se tornou o argumento supremo da intolerância. O mundo moderno e a opinião que o sustenta autorizam o que autorizam e proíbem, muito democraticamente, o resto. As democracias, como se sabe, produzem com facilidade aberrações destas. Quem não gosta que se arranje ou se afaste. O Papa Ratzinger previu para a Igreja uma era de quase clandestinidade. Provavelmente não se enganou.»

Li e reli o texto. Fanatismo anticatólico? Qual e de quem? Houve um evento em que as autoridades eclesiásticas chegaram ao ponto de denunciar a existência de laicismo que poria em perigo a própria democracia e é o governo que é fanático?

Que VPV gosta de extremar posições, sabemo-lo todos – faz mesmo parte do seu ADN. Mas neste caso e com esta virulência?


P.S. - Meio a sério, meio a brincar: depois das conversões de Zita Seabra e de Tony Blair, estará para breve o anúncio de mais uma?

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(*) Ler também:
España, frente de batalla contra el laicismo e Rumor de sotanas.

São numerosas as citações do texto de VPV, parciais ou na íntegra, em blogues normalmente conotados com a direita. Curiosamente, não o comentam.

Iowa

Time

3.1.08

A minha Valentine

Morreu Ettore Sottsass, o designer e arquitecto italiano que concebeu a Valentine – uma fabulosa máquina de escrever, pequena, leve, encarnada, lindíssima – que a Olivetti lançou em 1969. Saltou por isso agora para as páginas dos jornais.

Ora eu tenho uma Valentine. Há alguns anos, inchei de orgulho quando vi uma irmã gémea exposta no MoMA de Nova Iorque. Hoje engalanei-a para a fotografia.

Faz parte das minhas brumas e das minhas memórias. Por ela, pelas suas teclas e pela fita azul e encarnada (que ainda lá está), passaram sobretudo muitos escritos clandestinos dos últimos anos do fascismo e alguns textos do PREC. Muitas vezes batidos em estêncil, que se rasgava ao mínimo descuido, ou em várias cópias, com papel químico pelo meio.

O meu filho ainda brincou com ela, os meus netos vê-la-ão como uma espécie de dinossáurio. Mas terá sempre o seu lugar nesta casa. Trabalhou muitas horas, muitas noites, escreveu muitas histórias.

Ainda há bom senso



Fiquei sem saber a continuação da história: Balsemão fez alguma coisa para alterar a situação?

2.1.08

O Tratado de Lisboa em Dez Fichas

A FONDATION ROBERT SCHUMAN publicou um estudo intitulado «O Tratado de Lisboa explicado em 10 fichas», disponível em francês e em inglês.

Trata-se de um documento longo, muito claro e bem esquematizado. Parece-me um bom instrumento de trabalho para / se / quando o tema vier a ser discutido a sério entre nós.

Mas não fiquei convencida quanto à dispensabilidade de referendo para os países que se tinham comprometido a fazê-lo – antes pelo contrário.

Diz-se, por exemplo, a páginas tantas:

«O objectivo da Constituição europeia era aumentar a eficácia das instituições da União, aprofundando o seu funcionamento no plano democrático. Face ao bloqueamento do processo de ratificação provocado pelo “não” da França e da Holanda, na Primavera de 2005, o problema permanecia intacto e tinha de ser resolvido.»
(...)
«Esta mudança de perspectiva, na aparência essencialmente formal, permite responder aos pedidos de países como a Holanda, a República Checa ou o Reino Unido que consideraram, durante a negociação, que era preciso abandonar:
«- os símbolos “constitucionais” (os termos “Constituição”, “ministro europeu dos Negócios Estrangeiros”, “leis” e “leis-quadro”);
- os símbolos da União (bandeira, hino, divisa, etc.)».


Na essência, Constituição e Tratado não diferem. Nada que não se soubesse.

Vejo a Europa como um doente a quem foi diagnosticado um problema cardíaco e que vai ser sujeito a um transplante de coração. Mas, como ele não quer, diz-se-lhe que será um simples bypass.

1.1.08

O fim do fumo


Também em França, entraram hoje em vigor as medidas antitabagistas. Cá, como lá, paremos para pensar - talvez demasiado tarde.

Alguns excertos de um artigo do Libération:

«Quand on entre dans un célèbre café à Saint-Germain-des-Prés où il est désormais interdit de fumer, on se souvient des artistes et des intellectuels qui étaient là, assis à leurs tables, avec leurs cigarettes ou leurs cigarillos. On voudrait nous faire croire, depuis que sur la photographie de Jean-Paul Sartre, on a retiré la cigarette qu’il tenait dans sa main, combien ce siècle passé, pourtant si riche en inventions de la pensée, pourrait laisser le souvenir d’une certaine décadence. (*) (...)

Cette impression de vivre "la fin d’une époque" coïncide curieusement avec le constat d’une disparition ostensible ou sournoise des libertés, au nom d’une optimisation de la gestion de la société. (...)

Nul ne peut ignorer que, derrière l’interdiction de fumer dans l’espace public, se cache une véritable stratégie de l’interdit. (...)

Au nom de la majorité, la résignation collective aux nouvelles figures de l’assujettissement, rendues légitimes par les impératifs de la santé publique, deviendrait alors une mesure idéale des progrès de la démocratie.»

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(*) Trata-se da fotografia acima reproduzida e que foi retocada, como se explica aqui.

31.12.07

O SIM que salvou o ano

Nas quinhentas e uma revistas de 2007 que vão desfilando, há pouquíssimas referências à vitória do Sim no referendo sobre o aborto. Ainda menos à sua importância (*).

Para mim, 11 de Fevereiro foi o dia mais importante do ano em Portugal. Foi nele que se fez realmente a diferença, porque demos então um passo em frente, ética e civilizacionalmente. Contra ventos e muitas marés, os portugueses (poucos, é certo, mas os suficientes) disseram «Basta!» ao obscurantismo e à hipocrisia. Tiraram manchas cinzentas à História.

Sem passadeiras vermelhas nem canetas de prata, festejámos, no Altis em Lisboa e noutros locais por todo o país. Com alegria genuína, depois de uma campanha difícil, com menos recursos (muito menos) do que as imagens das televisões poderiam fazer crer.

Um mês antes do referendo, fui a uma primeira reunião de «voluntários» de um dos movimentos e quase caí de espanto quando constatei que os dedos de pouco mais de uma mão chegavam para contar as presenças. Arregaçámos as mangas e outros se foram juntando (mais «outras», naturalmente ou nem por isso...), mas nunca fomos muitos. Porque a verdade é que, se havia sempre notáveis disponíveis para serem entrevistados, faltavam mãos para tarefas «menores» e pés para calcorrear ruas, gélidas e chuvosas, em épicas distribuições de muitos milhares de panfletos.

Mas «tout est bien qui finit bien» – e foi o caso. Felizmente.

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(*) Excepção – expectável – para a Shyznogud, em Womenage à Trois.

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Declaração conjunta dos Movimentos pelo Sim, Hotel Altis, 11/2/2007:

De que se ri o governo?

...é o título da crónica de Daniel Sampaio na Pública desta semana (sem link).

Alguns excertos (o realce é meu):

«Acima de tudo, perdeu-se a esperança. Ouve-se na rua o ruído de grandes manifestações, mas sobretudo pressente-se a apatia, o desinteresse pela política, a falta de entusiasmo, a indiferença ou desdém para com os membros do governo (odiados ou apenas tolerados, nunca estimados), que se empertigam ao menor sinal de oposição.»

«...na realidade, ninguém se deveria gabar do fecho de uma escola ou do encerramento de um hospital: é preciso perceber que se está apenas a oferecer um binóculo longínquo a quem acaba de perder os óculos



A última imagem é especialmente feliz. Este governo anda a oferecer binóculos, computadores e Novas Oportunidades a quem precisa de óculos, tabuadas e emprego.

30.12.07

Espanha: a Igreja ao ataque

ACTUALIZADO (*)


Realizou-se hoje, em Madrid, uma grande manifestação convocada pelo arcebispo da capital como «Acto de defesa da família cristã» – um milhão e meio de participantes, segundo os organizadores, quarenta bispos e uma mensagem especial de Bento XVI transmitida por videoconferência.

Na prática, e a três meses das eleições gerais, foi um protesto contra o governo de Zapatero, pelas medidas tomadas em vários domínios como divórcio, casamento de homossexuais, aborto e educação para a cidadania. O sistema foi acusado de defender um «laicismo radical» que, ao atacar a família, «leva à dissolução da democracia».

Os problemas das relações entre a Igreja e o governo socialista manifestaram-se desde que este iniciou o seu mandato, em 2004. O El País de hoje traz um interessante artigo sobre o assunto.

Neste momento, a hierarquia eclesiástica está de tal modo aliada ao PP, na oposição, que alguns sectores da Igreja e uma parte da própria direita se sentem incomodados. E isto apesar de alguns recuos por parte do governo:

«Además de renunciar a ampliar la legislación sobre el aborto y a abordar la eutanasia, el Gobierno ha mantenido la asignatura de religión en la escuela - como oferta obligatoria, aunque sin computar a los efectos de la nota final -, y ha estabilizado laboralmente a cargo de las arcas del Estado a los 15.000 profesores de la asignatura, 8.000 de ellos en la escuela pública, que la jerarquía eclesiástica selecciona y despide a su libre albedrío, guiada por criterios tan extravagantes para la moral civil como "vivir en pecado" o divorciarse.»

Assiste-se ao renascer de uma ideologia neotradicionalista que recupera a velha tentação de impor ao conjunto da sociedade as normas morais da Igreja – de uma forma muito intransigente e relativamente agressiva.


Perante tudo isto, os nossos policarpos parecem, apesar de tudo, mais ou menos meninos de coro – digo eu...

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(*) Aconselho a leitura deste texto de Rui Bebiano, o meu comentário ao mesmo e a sua resposta.