31.12.08

E aí vem mais um














A todos os que passarem por aqui, excelente fim de 2008 - não se enganem e não comam as passas antes de tempo que o dia de hoje tem mais um segundo.

Verifico que este é o 692º post que escrevo este ano, o que me assusta como sintoma de pura insensatez - pena que não tenha nenhum modo de saber se alguém leu a maior parte para lhe apresentar agradecimentos e sinceros pedidos de desculpa. Continuarei por aqui à minha maneira, meio a sério meio a brincar.

Festejemos o que houver para festejar. No que me diz respeito, é com uma enorme pena que pensarei amanhã no 50º aniversário da revolução cubana - aquela que foi, para mim, a verdadeira «revolução perdida».

Melhores dias virão. Para a frente é que é o caminho.

A terrível realidade

30.12.08

Aníbal & José

Happy New Year!



Há 40 anos, uma vigília contra a guerra colonial






Este texto foi publicado hoje no Caminhos da Memória. Porque é longo, transcrevo aqui apenas a primeira parte e indicarei onde poderá ser lido na íntegra.

1968 foi de facto um ano alucinante e 2008 não poderia terminar sem que se assinalasse um último 40º aniversário. Em 31 de Dezembro de 1968, cerca de cento e cinquenta católicos entraram na igreja de S. Domingos, em Lisboa, e nela permaneceram toda a noite, naquela que terá sido a primeira afirmação colectiva de católicos contra a guerra colonial, numa actividade formalmente «disciplinada». Com efeito, o papa Paulo VI decretara, em 8 de Dezembro, que o primeiro dia de cada ano civil passasse a ser comemorado pela Igreja como dia mundial pela paz e, alguns dias depois, os bispos portugueses tinham seguido o apelo do papa em nota pastoral colectiva.

Assim sendo, nada melhor do que tirar partido de uma oportunidade única: depois da missa presidida pelo cardeal Cerejeira, quatro delegados do numeroso grupo de participantes comunicaram-lhe que ficariam na igreja, explicando-lhe, resumidamente, o que pretendiam com a vigília:

«1º - Tomar consciência de que a comunidade cristã portuguesa não pode celebrar um "dia da paz" desconhecendo, camuflando ou silenciando a guerra em que estamos envolvidos nos territórios de África.
2º - Exprimir a nossa angústia e preocupação de cristãos frente a um tabu que se criou na sociedade portuguesa, que inibe as pessoas de se pronunciarem livremente sobre a guerra nos territórios de África.
3º - Assumir publicamente, como cristãos, um compromisso de procura efectiva da Paz frente à guerra de África.»

Entregaram-lhe também um longo comunicado [agora online] que tinha sido distribuído aos participantes, no qual, entre muitos outros aspectos, era sublinhado o facto de a nota pastoral dos bispos portugueses, acima referida, tomar expressamente partido pelas posições do governo que estavam na origem da própria guerra, ao falar de «povos ultramarinos que integram a Nação Portuguesa».

(...)
Na íntegra, aqui.


Cantata da Paz por Francisco Fanhais, com versos de Sophia Mello Breyner

29.12.08

Gaza: «choque e pavor»

Um artigo inédito de Alain Gresh. A ler na edição portuguesa de Le Monde Diplomatique.

Islândia, triste símbolo de 2008











Estive na Islândia há vinte anos, por razões profissionais, e detestei. Tudo era terrivelmente sombrio e inóspito, desde o clima, ao invasivo cheiro a enxofre proveniente dos geisers, à ausência de árvores e de qualquer vestígio histórico com forma de monumento. Para não falar da alimentação (difícil evitar salmão do pequeno almoço à ceia) e dos preços disparatadamente altos de qualquer ninharia, obviamente importada. População reduzida, de gigantes - elas esquálidas, eles incarnações actualizadas de vikings - que pouco ou nada produzia e, ainda menos, se reproduzia.

Parecia um país inviável mas o nível de vida ali estava para provar o contrário. Os islandeses faziam gala em falar do seu elevado poder de compra e gabavam-se de ter mais automóveis do que habitantes (e que automóveis!). Explicavam-nos que tudo se devia ao bacalhau e, também e sobretudo, às licenças de pesca vendidas a gentes do mundo inteiro. E nós acreditávamos. Sabe-se hoje que a realidade era, ou passou a ser, bem diferente e as razões estão mais do que explicadas.

Desemprego galopante, 17% de inflação, SUV Range Rover a apodrecer em contentores, 30% dos islandeses, sobretudo jovens, a quererem emigrar (e, ao todo, eles são apenas 320.000). O país torna a parecer inviável. Será que voltará a ser uma pura plataforma para novos nómadas em busca de salmão e aparentados, como o foi durante séculos? Para já, e pela primeira vez, quer entrar rapidamente para a União Europeia - pudera!

Penso sempre neste caso como um dos absurdos mais paradigmáticos deste ano que agora acaba e ninguém faz previsões minimamente optimistas para o que se segue.

Nunca fui jogadora, mas houve uma fase da vida em que, por essa Europa fora, vi muitos amigos ganhar, e sobretudo perder, em todo o tipo de pokers e de roletas. Por acaso, até foi com eles que estive na Islândia onde não existia nenhum casino - julgávamos nós.

Antes e depois




... a vida é mesmo diferente - até pelo número de cafés / dia.

28.12.08

Amásios e namorados














No DN de hoje, Nuno Brederode Santos conta uma bela história. Há que a ler na íntegra, mas aqui fica o que me interessa.

Numa esplanada, algures em Lisboa, quatro «gerontes», reduzidos à condição de fumadores enregelados (como imagino bem a cena, eu que a partilho por vezes, na mesma esplanada, com os mesmos gerontes...) ouvem um jovem falar do «namorado da avó». Gargalhar dos quatro, para quem, em termos de avó, o «maior assomo de convivialidade com homens se cingia a retribuir o “boa noite” profissional de Pedro Moutinho e a “despedir-se com amizade” do engenheiro Sousa Veloso».

Esqueceram-se de várias coisas. Nem as avós são ainda o que eram, nem a palavra «namorado» tem a mesma serventia. É que já não há amantes, amásios, flirts, noivos ou mesmo amigos coloridos. Agora é só namorados - do infantário até à cova! (Com raras excepções, claro, dos que ainda passam pelo cartório, pela igreja ou por Badajoz e que insistem em tratar-se por maridos, mulheres ou esposos.)

Além disso, caríssimos, que conheço há tantos anos que ainda devíamos ter avós por esses tempos, aí vai uma em jeito de feminista, o que nunca me sai muito bem: as gargalhadas seriam tantas se o jovem se tivesse referido à «namorada do avô»? Olhem que talvez não!...

Bora lá ao Amadora-Sintra










O que se passou no dia 26 com a afluência às Urgências, na área da Grande Lisboa, toca as raias do absurdo.

É certo que a gripe anda por aí a caçar portugueses (parece que ucranianos, brasileiros e outros que tais têm escapado...), mas que seja precisamente no dia seguinte ao Natal que se dá a grande invasão cheira um pouco a esturro. Certamente que já se tossiu muito a 24 e 25, mas não dava jeito nenhum levar o velhote ou a criancinha ao banco quando o bacalhau estava ao lume e as rabanadas em cima da mesa.

A 26, foi só decidir quem ia passar o dia à espera de uma aspirina ou a fazer as últimas compras no Colombo.

P.S.1 - Ler o comentário que a Ana Matos Pires deixou na C. de C.
P.S.2 - Vim agora do Colombo. Estavam lá todos os que tinham ido no dia 26 mais os que já que beneficiaram do efeito das asprinas do Amadora-Sintra.

Utilizem para o Magalhães

John Lennon, num anúncio, 28 anos depois de morrer.

27.12.08

Sem compromisso

Quando os PR’s filosofavam

















Na ânsia mal contida com que esperamos o discurso de Ano Novo de Cavaco Silva, sabe bem recordar o nunca assaz apreciado Américo Thomaz que, em cada 1 de Janeiro, nos brindava sempre com as suas mais profundas reflexões existenciais. Qual crise, qual economia! Filosofia pura e dura.

«Decorreu célere, como os que o precederam, o ano que acabou de sumir-se na voragem do tempo. Outro o substituiu, para uma vida igualmente efémera. Nesta mutação constante, afigura-se haver agora um fenómeno de visível incongruência, pois, quando tudo se processa a ritmo que se acelera constantemente, pareceria lógico que de tal circunstância resultasse um aparente alongamento no tempo e não precisamente o inverso.»
E explicou melhor: «Se sempre o presente, mal o é, se torna logo em passado, nunca, como nos nossos dias, tão evidente verdade pareceu mais evidente.»
1/1/66

Alguém diria melhor?

26.12.08

Ainda...

Shaoshan (China) - fiéis celebram 115º aniversário
do nascimento de Mao













Vaticano (Roma) - fiéis esperam mensagem de Bento XVI

Novos missionários













Em nome da ecologia. Mas será que há pachorra?...

24.12.08

Então até amanhã


















Última hora













Mail acabado de receber:

«É o Natal, porra. As comprinhas para milhares de crianças, cujos nomes já nem sei. Não os distingo. Digo: «Vai perguntar à tua Mãe se podes receber o presente que tenho para ti». A criancinha, ansiosa, corre a puxar a saia de uma das minhas primas, «Ah, é filha de Fulana...», digo eu aos meus botões, enquanto o olhinho vagueia pelos embrulhos à procura do conjunto marcado com o nome de Fulana, entre os molhos das várias primas. A brincar, a brincar, é já amanhã. E ainda me faltam dois ou três molhinhos. As gajas (alguns são gajos) reproduzem-se mais depressa do que os coelhos do Zarco.»

23.12.08

«Me Tarzan, you Jane» - ou o papa com medo de uma Gay Parade na Amazónia?















Bento 16 quis dizer à Cúria Romana - e por tabela ao mundo -, pela 50ª vez, o que pensa sobre esta coisa esquisita que são as relações entre seres humanos. Esforço desesperado mas que já nem é grave, de tão frequente é a insistência.

Os jornais trouxeram o mais anedótico: nós, os bem-amados heterossexuais, devemos ser ecologicamente protegidos como florestas tropicais («já que como criaturas da criação temos escrita uma mensagem que não significa contradição da nossa liberdade, mas condições para a mesma»). Mas há muito mais: sexo e casamento (para toda a vida, pois claro) continua a ser só mesmo de menino com menina (os homossexuais pode sê-lo à vontade mas só em pensamento, não sei se em palavras, em obras nem pensar nisso), que ninguém mude de sexo para não «se emancipar da criação e do Criador», mexer em embriões nunca, a malfadada Humanae Vitae é que vale, etc., etc., etc.

Parece impossível, mas não é - no Século XXI, na Europa, em Roma.

(De incesto não se fala, talvez porque, nesse campo, seria mais complicado explicar como as coisas se passaram lá pela família de Adão e Eva...)

P.S. - Com a mania de ir às fontes, fiz copy/paste do Osservatore Romano de ontem, em italiano, e guardei (no dia seguinte «desaparece» e ainda não percebi onde é arquivado). É que, de tão disparatado, pode ser que este discurso venha a ser uma relíquia histórica. Se entretanto sair a versão em português, substituo. Pus a bold o mais importante.

Novas emigrações

O Jakk tem trinta e poucos anos e trabalha na Argélia. Uma coisa são as estatísticas, outra a vida concreta de jovens qualificados que são obrigados a entrar numa dolorosa «globalização». Por isso vale a pena ler esta espécie de balanço de oito meses de uma experiência bem dura, mas que ele consegue descrever com uma notável distanciação.

«Temos uma das mais estranhas formas de viver...na mais improvável das equações... um português...a trabalhar para uma empresa espanhola...para os japoneses...na Argélia...»

21.12.08

O lado jovial da crise












«Uma tribo mundial de rendidos aos prazeres da vida - e se ela os tem!... - tomou a "mão invisível" de Adam Smith, prendeu-se à letra das palavras e confundiu a ideia de um funcionamento autónomo, harmonioso e automático do mercado com a compreensível ambição de um carteirista num comboio suburbano. Depois, mundializaram esta ideia (com a prévia e sensata cautela de tornarem o mundo seu) e entregaram o nacionalismo, que entenderam já não ter préstimo, ao desespero afectivo de um proletariado que minguava. Conheceram todos os mimos: a Louis Vuitton, o Aston Martin Lagonda e a trufa branca. Fomentaram outros, mesmo que salvos da nossa inveja: o ouro maciço num Rolex e o pequeno almoço no recato de um seis estrelas, no Dubai, com a Céline Dion (e direito a fotografia autografada) - ou seja, tudo o que nos faz pele de galinha.»

Nuno Brederode Santos, hoje no DN.

Santa nostalgia














Dizer-se de alguém que é um nostálgico tornou-se, se não um insulto, no mínimo expressão de um certo menosprezo altivo, no máximo complacência caridosa - para a frente é que é o caminho, para trás fica apenas a história dura e crua e um homem nunca chora.

Sentimento absolutamente universal, e que está longe de ser apanágio dos velhos, a nostalgia foi durante séculos tratada como doença ou identificada com sintoma de depressão. Leio agora que estudiosos a consideram «recurso habitual dos fortes» que a ela recorrem para recuperação de golpes dolorosos. E também que traz felicidade, combate a solidão, ajuda em situações de exclusão social, aumenta a auto-estima e restaura uma atitude positiva de estar na vida.

Nostálgicos de todo o mundo, uni-vos, portanto. Porque se é verdade que, em excesso, pode haver efeitos narcóticos, vale a pena não ficar ao nível do Jingle Bells e do Adeste Fideles.

Fonte


Estes é que são os verdadeiros Grandes Portugueses


20.12.08

Vaticano e homossexualidade











Ainda a propósito da proposta apresentada pela França à ONU, não há como ir às fontes: o Osservatore Romano publica hoje um texto em que explicita, uma vez mais, a sua posição.

«Le religioni, per esempio, potrebbero vedere limitato il loro diritto di trasmettere il proprio insegnamento, quando ritengono che il libero comportamento omosessuale dei fedeli non sia penalizzabile, tuttavia non lo considerano moralmente accettabile. E verrebbe così intaccato uno dei diritti primari su cui si fonda la Dichiarazione universale dei diritti dell'uomo del 1948: quello alla libertà religiosa.»

Por outras palavras: o Vaticano quer poder continuar a ensinar que o comportamento livre dos homossexuais é moralmente inaceitável. Como já ensinou que a Terra não gira à volta do Sol.

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P.S. - O link para o Osservatore Romamo deixou de funcionar porque já está online a edição de amanhã, 21/12. No entanto, a transcrição está exacta e o seu conteúdo foi largamente comentado, por exemplo no El País de hoje:

«Las religiones, según el Vaticano, pueden ver limitados su derechos de transmitir sus propias enseñanzas, por ejemplo "cuando consideran que el libre comportamiento homosexual de los fieles no es penal, pero lo consideran moralmente inaceptable".»

19.12.08

Os votos da inefável líder



O maior voo cultural desta senhora deve ter sido a Cartilha Maternal de João de Deus.

Mais um texto sobre o padre Felicidade










Excertos de uma entrevista feita por Diana Andringa em 1990.

Para aguçar o apetite:

«Eu cheguei a ser abordado par celebrar missa pelo D. Duarte Nuno e, no dia seguinte, pelo aniversário da República. E depois pela vitória do Belenenses. E comecei a interrogar-me sobre o que era a missa. Um ornamento barato para interesses mesquinhos. É uma profanação, uma blasfémia.»

«A catequese, como está, é uma forma de criar ateus. Vamos facultar às criança fichas conceptuais. Aos 7 anos sabe aquilo. Aos 15, vomita tudo aquilo e torna-se ateu. Provisoriamente. Porque depois tem filhos, vão para a catequese e ele recupera, não a fé, mas o que vomitou. Infantilizou a fé. Não raciocinou. A Fé cristã é para adultos. Tal como existe, a catequese é uma forma de destruição da Fé.»

Ainda?

No Avante! de hoje:
«Que em Portugal existiu uma ditadura fascista é um facto que muitos «historiadores» tentam, hoje, negar. Nas estantes das livrarias, abundam biografias do ditador Salazar e de inspectores da PIDE – sempre «neutras» e observando, sempre, o lado «humano» dos biografados.»

Que eu saiba, pelo menos recentemente, só foi publicada uma biografia de um inspector da PIDE, da autoria de Irene Pimentel. Esteve aliás na origem de grande animação
neste blogue, precisamente por causa de um forte ataque que lhe foi feito, em artigo assinado por José Casanova e publicado naquele jornal (na mesma linha do parágrafo acima citado) . Mas já lá vão quase dois meses - tudo leva a crer que na Soeiro Preira Gomes há coisas difíceis de digerir!

P.S. - Posso andar distraída, mas nunca mais vi, no Avante!, artigos de opinião assinados por José Casanova.

18.12.08

Canções de dor de corno (1)

Há vários dias que penso seguir o repto da D. Ester: depois das canções de amor, venham as de dor de corno.

Aqui vai a primeira - Tony de Matos em «Lado a lado» - com letra e tudo (gentileza de um leitor...).




Lado a Lado

Somos dois caminhos paralelos
Vamos pela vida lado a lado
Doidos que nós fomos
Loucos que nós somos
Não sei qual é de nós mais desgraçado

Lado a lado, meu amor
Mas tão longe
Como é grande a distância entre nós
O que foi que se passou entre nós os dois
Que nos separou
Por que foi que os meus ideais
Morreram assim, dentro de mim

Ombro a ombro, tanta vez
Mas tão longe
Indiferença entre nós quem diria
Custa a crer que tanto amor
Tão profundo amor tenha acabado
E nós ambos, sem amor
Lado a lado

Fomos no passado um só destino
Fomos um amor desencontrado
Doidos que nós fomos
Loucos que nós somos
Não sei qual é de nós, amor, mais desgraçado

Desabafo

«A líder social-democrata garantiu que sozinha não consegue dar a vitória ao partido nas eleições legislativas de 2009.»

E por isso escolhe bem as companhias.

Entusiasmo chinês













Durante o discurso de Hu Jintao, nas comemorações do 30º aniversário do início das reformas de Deng Xiaoping.

«Hu Jintao ha prometido una mayor participación ciudadana en los asuntos políticos para 2020, año que ha fijado para lograr una "sociedad moderadamente acomodada".»
Ler o resto.

Qum sabe...


17.12.08

Evocação do padre Felicidade

José da Felicidade Alves morreu no dia 14 de Dezembro de 1998, com 73 anos. Realizou-se ontem uma sessão, organizada pelo Centro de Reflexão Cristã e pelo Centro Nacional de Cultura, onde amigos de velhas lutas se reencontraram e o recordaram.

Com uma vida atribuladíssima, foi uma das figuras centrais da oposição dos católicos à ditadura, sobretudo a partir de meados da década de 60 e é como tal que aqui será recordado. Não se estranhe que continue a chamar-lhe «padre Felicidade»: faço-o unicamente porque foi como ele sempre desejou ser tratado - até ao fim.

Texto na íntegra aqui.

«Vendilhões do templo»









Manuel António Pina, hoje no JN:

«Se a coisa, congeminada no Ministério das Finanças, for avante, depois do Forte de Peniche transformado em pousada, veremos um dia destes uma loja Ikea na Torre de Belém e um hotel de charme no Mosteiro de Alcobaça (e porque não no da Batalha?); Rui Rio poderá, finalmente, vender a Torre dos Clérigos em "time-sharing"; e António Costa, em Lisboa, fazer dos Jerónimos um centro comercial. Governados por mercadores sem memória e sem outra cultura que não a do dinheiro, faltava-nos ver a nossa própria História à venda. Em breve, nem Cristo (quanto mais nós) terá poderes para expulsar os vendilhões do Templo porque eles já terão comprado o Templo e já lhe terão dado ordem de expulsão a Ele.»

Isolacionismo e vitimização

29 de Novembro, J. de Sousa, na abertura do Congresso do PC:
«Será com o reforço do PCP e o desenvolvimento da acção e da luta de massas que se rasgam os caminhos de uma política alternativa e uma alternativa política. Com quem? (...) Nunca será um acto, nem surgirá por geração espontânea ou de entendimentos artificiais pensando mais no poder do que na política. Será um processo tanto mais realizável e mais próximo quanto mais força tiver o PCP.»

14 de Dezembro, Comunicado do Comité Central do PC:
«O CC do PCP alerta para manobras que, a exemplo das protagonizadas pelo BE e Manuel Alegre, se assumem com um carácter sectário e divisionista, determinadas pela obsessiva intenção de disputar influência ao PCP e conter o seu reforço e crescimento, contribuem para branquear o Governo do PS, a sua política, quem a pratica e sustenta, e são na prática comprometedoras da necessária convergência de forças democráticas e de esquerda para uma ruptura com a política de direita e a aplicação de uma política alternativa de esquerda.»

Alegrem-se, lisboetas

Natal é tempo de circo.

16.12.08

Je sais

Ele há coisa extraordinárias

Uma delas é que Manuel Alegre (ainda) seja militante do PS, a outra que Vital Moreira (ainda) não o seja.

Agora os bichos












Barney, o cão de Bush, tem uma secção especial na página da Casa Branca, os americanos discutiram acesamente se Obama devia comprar um cão de luxo ou adoptar um rafeiro, Putin pôs um GPS na cadela para melhorar a controlar (atavismos...).

Vem isto a propósito de uma petição destinada à AR, que corre por aí e já tem mais de 7000 assinaturas, exigindo que as despesas com veterinários sejam dedutíveis no IRS.

Declaração de interesses: adoro cães e já gastei somas avultadas com os respectivos clínicos. Mas não vejo por que razão os meus compatriotas deveriam amenizá-las. Ninguém é obrigado a ter cão, gato, cobra ou periquito. São bons para o ego dos donos? Certamente, tal como ir aos saldos ou, pelo que oiço, usar baton no caso das mulheres.

Não sei a taxa de natalidade destes bichos está ou não a diminuir, não me parece que ninguém esteja a importar gatos ucranianos (agora me lembro que há um cão polaco no meu prédio!...), mas deles não depende certamente nem o futuro deste país, nem a solução para a Crise. Haja deus!

14.12.08

Dia histórico









...foi o que Marcelo Rebelo Sousa concluiu das afirmações de Manuel Alegre, no encerramento do Fórum «Democracia e serviços públicos» que um conjunto de organizações de Esquerda organizou hoje, na Cidade Universitária em Lisboa.

É talvez demasiado cedo para saber se foi ou não um dia histórico, mas é verdade que Manuel Alegre foi mais claro do que nunca: «A reconfiguração da esquerda implica a capacidade e a vontade de construir uma perspectiva alternativa de poder.»

Eu estava lá e ouvi. Como ouvi tudo o resto que foi dito nos três discursos da última sessão que quase encheu a Aula Magna. Não concordei nem com 50% do que foi dito. E, no entanto, saí convencida de que por ali estava a passar a esperança de um futuro um pouco melhor para Portugal. Não só, e talvez nem tanto, pelos oradores e pelos seus discursos, mas pela assistência. É que não se viam apenas bloquistas, alegristas e renovadores, mas dezenas ou mesmo centenas de «tresmalhados» como eu, que têm em comum algumas utopias, mas que sabem também que é urgente que algo aconteça a curto prazo.. E que nada, mas absolutamente nada têm a ver com congressos no Campo Pequeno ou com a maioria absoluta daquele senhor que nem sei quem considera como o 6º mais elegante do mundo.


P.S. - De acordo com Daniel de Oliveira.
E já agora: são os blogues de direita que, aparentemente, estão a dar maior importância ao evento. Curioso...

«O PPD pode correr com o Sócrates»












«Eu faço, daqui, em nome do PSD/Madeira, um apelo às bases do partido para que se livre dessa gente toda, para que afastem as personagens dos últimos anos e meses e que faça um ressurgimento do partido: o velho PPD/PSD de Sá Carneiro e de Cavaco Silva. (...) O PPD pode ganhar as eleições, o PPD pode correr com o Sócrates».
Jornal da Madeira

«E se quem pode o mais pode o menos, o Presidente, que ainda tem meios e poderes para intervir na vida das regiões e que, com os olhos postos nos Açores, já se dirigiu ao país inteiro, teria as oportunidades que quisesse para varrer a testada da instabilização, provocatória e permanente. Que o PSD não o faça, que nenhum líder nacional tenha coragem (que hoje é já força) para o fazer, é problema dele e dos seus filiados. Mas o respeito pelo património político nacional cabe a quem os portugueses votaram para o efeito. E não há improviso doutrinário que nesta matéria os engane».
Nuno Brederode Santos, no DN

Mas Cavaco Silva mantém-se num silêncio sepulcral. Talvez com uma difusa esperança no tal PPD ressurgido.

13.12.08

É de homem!

Europa, Portugal, Grande Lisboa, 2008

Declaração de voto apresentada pelo deputado municipal João Rêgo de Carvalho, eleito pelo PSD, na Assembleia Municipal de Odivelas.

  (Clicar)

Canções de amor (4)














Regressemos então às melhores canções de amor. Se é para recuar, hoje fica esta:

«Gosto de ti» (1936)

Ainda a propósito do sexo das bloggers













Uma comunicação feita recentemente num encontro de blogues - Os bloggers têm sexo? Contributo para o mapeamento da participação feminina na blogosfera - deu origem a uma polémica neste blogue. A questão voltou hoje à ordem do dia a propósito do I Congresso Nacional de Ciberjornalismo.

A Jonas já fez o trabalho todo, contou a história, pôs todos os links, poupou-me imenso esforço. Acaba assim:
«Sabem que mais, senhoras investigadoras? Vão para a cozinha. Ou isso ou crochet.»

12.12.08

O Museu de Peniche - ainda

Referi aqui, há alguns dias, uma visita ao Museu da Resistência de Peniche. Uma das alunas que fez parte do grupo que acompanhei conta as suas impressões em post publicado nos Caminhos da Memória. Bem elucidativo.

Shame on you, stôres

Bento XVI em Portugal





















Não foi a Fátima, mas deu uma mãozinha nas vindimas do Douro. A ICAR sempre, sempre ao lado do povo!

Juro que não é montagem.
(Clicar para ver melhor.)

11.12.08

Mocidade Portuguesa












Depois da Feminina, chegou a vez da Masculina:

Joaquim Vieira, Mocidade Portuguesa. Homens para um Estado Novo, A Esfera dos Livros, 2008, 278 p.

Maginífico. Para ver, ler e não esquecer.

Movimento Esperança Portugal

O Movimento Esperança Portugal (MEP) já tem algum tempo de vida, mas o seu nome voltou agora à baila com a nomeação de Laurinda Alves como cabeça de lista para as eleições europeias. Gostos não se discutem, cá por mim começaram mal porque detesto a figura pública, o seu inenarrável blogue e muitas outras coisas. Consolo-me assinando por baixo o texto de um mail ontem recebido: «Sim, por favor dêem algo que fazer à rapariga - o mais longe possível do país». E dá também para a blogosfera se divertir: vão ver o que é o C.A.L.A. que vale a pena.

Adiante porque quero falar a sério. Li as 78 páginas do programa do MEP. Como acontece com todo e qualquer partido, está lá tudo, sobre todos os assuntos, com conteúdos não significativamente diferentes de todos os outros que se dizem «ao centro».

O que impressiona neste caso, da primeira à última página, é a linguagem e o que ela revela. Será provavelmente uma originalidade desejada, mas arrepia porque parece mais um Tratado sobre Virtudes destinado a escuteiros do que qualquer outra coisa - «... um projecto de matriz humanista, na sua expressão personalista», que «tem na pessoa humana o princípio, o centro e o fim de tudo» (p. 9), que quer «cultivar uma sociedade de confiança» (p 11), que acredita «mais em pontes do que em rupturas», que prefere «vitórias partilhadas a vencedores e vencidos», que se diz «famílio-cêntrico» (p. 36), sem dizer se é explicitamente contra a despenalização do aborto (mas subentende-se que sim).

Não quero deixar de transcrever os títulos das «sete prioridades da acção política» (p. 27): «Mesa com lugar para todos»; «Uma sociedade de famílias»; «Cultura de pontes»; «Desenvolvimento humano sustentável»; «Democracia mais próxima do cidadão»; «Um mundo interdependente e solidário».

Tudo se agrava (digo eu) quando é definida «uma visão integrada da Economia e do Trabalho» nos seguintes termos: «É fundamental promover uma aliança entre trabalhadores (incluindo gestores aos vários níveis), empresários, accionistas e outros actores relevantes, para se atingirem vitórias comuns» (p. 46). Harmonia, paz e amor, portanto. Começo a sentir que me tomam por parva.

Para finalizar e resumir, o MEP propõe para Portugal, no século XXI: «SER MELHOR», «em tudo, sempre e independentemente da circunstâncias». Fialmente, o admirável mundo novo!

À primeira vista não dá para levar muito a sério, mas pode vir a ter a sua importância. Há sempre um PRD no horizonte, pronto a rivalizar com D. Sebastião.

Hino do MEP:

10.12.08

Capelanias hospitalares - Carta da Associação Ateísta Portuguesa

(Recebida por mail)

Exmo. Senhor.
Presidente da Comissão da Liberdade Religiosa
Dr. Mário Soares

Senhor Dr. Mário Soares:

A Associação Ateísta Portuguesa (AAP) vem junto de V. Ex.ª, solicitar o seu empenhamento para que seja declarado nulo o novo acordo de colaboração entre o Ministério da Saúde e a Igreja Católica, por violar a laicidade a que o Estado é constitucionalmente obrigado.

O novo acordo de colaboração entre o Ministério da Saúde e a Igreja Católica, no sentido de regular a assistência religiosa nos hospitais, levanta sérias preocupações a dois níveis. Por um lado, porque se aparenta justificar numa suposta eficácia terapêutica que terá a participação de padres católicos no processo de recobro. Por outro lado porque representa uma intromissão inaceitável do Estado nesta matéria tão pessoal que é a religião.

A Sra. Ministra da saúde Ana Jorge anunciou em Fátima que o acordo com a igreja católica se justificava porque a saúde «não é só o tratamento físico», mas a «espiritualidade entra neste campo global»(1). No entanto, mesmo que o bem-estar dos doentes não resulte só da terapia e da medicação, não é verdade que exija uma espiritualidade no sentido de crença religiosa ou dependência do sacerdócio. Muitos doentes encontrarão todo o conforto e consolo nos seus familiares, nos seus amigos e na competência e empenho dos técnicos de saúde que os acompanham. A religião não é uma componente necessária da terapia.

Além disso, a espiritualidade religiosa não é necessariamente o catolicismo. Só se justificaria por razões médicas celebrar este acordo específico com a Igreja Católica se houvesse evidências concretas que esta religião não só é eficaz no recobro dos pacientes como é mais eficaz que as outras religiões que não estão cobertas por este acordo. Não há indícios que assim seja.

Quanto ao direito de acompanhamento religioso este acordo tenta resolver um problema inexistente. O direito de receber apoio espiritual já está garantido nas visitas hospitalares, nas quais o doente pode receber familiares, amigos ou sacerdotes da sua religião sempre que tais visitas não comprometam a sua recuperação. Por isso o que parece estar em causa neste acordo não é o direito à assistência religiosa mas sim quem financiará este encargo, se a Igreja Católica ou se o contribuinte. O que põe em causa outros direitos do doente.

Põe em causa o direito do doente, enquanto doente, que o Ministério da Saúde promova uma utilização eficiente dos recursos de que dispõe. E estes não são tão abundantes que o salário de um capelão não faça falta para equipamento, técnicos de apoio, de enfermagem ou médicos. Põe em causa o direito do doente, enquanto crente, que o Estado não se intrometa na religião nem favoreça umas em detrimento de outras. E põe em causa o direito do doente, enquanto contribuinte, que o seu contributo para o Estado seja usado com justiça para ajudar aqueles que mais precisam em vez de subsidiar a Igreja Católica, uma das organizações mais opulentas de Portugal.

(1) - Agência Ecclesia, Acordo entre Ministério e Capelanias Hospitalares

Confiando no empenhamento de V. Ex.ª na defesa da laicidade, condição essencial para a defesa da liberdade religiosa, apresento-lhe, em nome da Associação Ateísta Portuguesa, os melhores cumprimentos.


Odivelas, 10 de Dezembro de 2008

Carlos Esperança
(Presidente)

Se é ele que o diz...

Bela imprensa

Um título do DN de hoje:

«Chefe da ETA urinou nas calças quando o prenderam em França»

ONU - há 60 anos

Em 10 de Dezembro de 1948, os países-membros da ONU aprovaram a Declaração Universal dos Direitos Humanos, com 48 votos a favor e 8 abstenções. A iniciativa surgiu como uma reacção às atrocidades cometidas durante a Segunda Guerra.

(P.S., como resposta a uma pergunta formulada num comentário. Abstenções: União Soviética, Bielorússia, Ucrânia, Polónia, Checoslováquia, Jugoslávia, Arábia Saudita, e África do Sul.)

9.12.08

Estaline, a fénix sempre renascida











ADENDA (*)




«Nos inquieta la amplia difusión de recetas para el renacimiento de Rusia por la vía de una modernización autoritaria o incluso la dictadura y la propaganda de una violencia justificada desde el punto de vista histórico con muchos millones de víctimas y purgas sociales», diz-se na resolução final de uma conferência, realizada há poucos dias em Moscovo, e na qual representantes de perto de cem instituições chamaram a atenção para a reabilitação da figura de Estaline por parte do governo russo.

Branqueamento das vítimas:
«En las esculturas, capillas, cruces y obeliscos dedicados a las víctimas, éstas son tratadas como si hubieran sufrido una catástrofe natural.»

E também:
«El 12% de simpatizantes de Stalin registrados en sondeos de los años noventa se ha convertido en más de un 50% en esta década, mientras la represión masiva ha sido marginada al inconsciente colectivo.»

É melhor não andarmos distraídos.

Fonte

(*) Nem de propósito:
«Le PC de Saint-Pétersbourg veut canoniser Staline».

8.12.08

António Alçada e a aventura da Moraes














(Também publicado em Caminhos da Memória)

Muito se tem escrito sobre António Alçada Baptista desde que se soube que morreu ontem, com 81 anos. Quase tudo foi dito sobre o intelectual, o escritor, o conversador sedutor, o católico progressista, o homem da província que dizia de si próprio, com a distância e a ironia que sempre o caracterizaram: «Na minha visão da infância e da adolescência, Salazar era o procurador, em Lisboa, dos meus avós, dos meus pais, dos meus tios e dos padres.»

Tem-se referido também que foi o fundador da revista O Tempo e o Modo. Mas importa recuar um pouco e lembrar o que ele próprio considerou a sua grande «aventura». Explica-a bem num capítulo daquele que, no meu entender, foi o seu grande livro: A pesca à linha. Algumas memórias (1). Pouco virado para a advocacia e apaixonado por livros, descobriu em 1958 que estava à venda a Editora-Livraria Moraes e não hesitou em comprá-la. Nesse ano de tantas esperanças em Portugal, depressa reuniu à sua volta um grupo de jovens recém-licenciados católicos - Pedro Tamen, João Bénard da Costa e Nuno Bragança, entre outros - e assim começaram, em conjunto, uma verdadeira e bela «epopeia», sempre difícil, mas que acabou por dar frutos inestimáveis: várias colecções de livros, aparentemente impensáveis no Portugal de Salazar e Caetano, e duas revistas, O Tempo e o Modo e a Concilium.

É como um todo que a actividade da Moraes, desde o fim da década de 50, deve ser entendida - e não isolando um ou outro sector, mesmo O Tempo e o Modo, como tantas vezes acontece. Porque a Moraes foi muito mais do que uma editora, foi todo um movimento em que se empenharam, a vários níveis, muitas dezenas ou centenas de pessoas, numa abertura cultural e política tornada em grande parte possível pela visão, pelo arrojo e pelo desprendimento de António Alçada Baptista.

A face da Moraes hoje menos conhecida é, talvez, o conjunto das suas magnificas colecções de livros. É impossível enumerar tudo o que foi produzido durante mais de três décadas: centenas de obras de autores portugueses e de traduções, escolhidas seguindo critérios rigorosos, com uma qualidade gráfica excepcional para a época e com uma lista de tradutores de um nível que provoca hoje a maior das admirações: Jorge de Sena, Alexandre O'Neill, Nuno Bragança, Maria Velho da Costa, Fernando Gil e dezenas de outros. Traduzir para a Moraes era também um meio de acrescentar uns tostões (bem poucos) às nossas magríssimas bolsas - e digo «nossas», porque também me foi dada essa possibilidade. Quantas vezes para que o resultado obtido fosse pura e simplesmente proibido e apreendido nas livrarias, com todas as respectivas consequências financeiras.

Para que tudo isto não ficasse esquecido e não fosse desaparecendo com os seus protagonistas, foi editado em 2006, pelo Centro Nacional de Cultura, um pequeno mas lindíssimo livro precisamente intitulado A aventura da Moraes. Nele são resumidas muitas histórias com alguns pormenores deliciosos, enumeradas com detalhe as colecções de livros, seus autores e tradutores, explicadas as origens e as actividades de O Tempo e o Modo e da Concilium (2).

Qual o balanço geral: utopia e fracasso? Deixo a palavra a António Alçada: «Nunca me passou pela cabeça que tínhamos nas mãos uma empresa comercial sujeita a critérios de rentabilidade e julgava que, como nós, alguns milhares de portugueses estavam ansiosos por livros. (...) Mas «esta aventura falhou porque a camada da sociedade portuguesa a quem ela se dirigia recusou frontalmente a sua colaboração e não esteve disposta a correr nenhum risco nem, na prática, se sentiu minimamente solidária com o esforço que estava a ser feito.»

Por isso, a Moraes acabou por fechar em 1980. Mas não é de todo a memória de fracasso que guardamos todos os que lá vivemos uma bela história, não só de combate mas também de cultura, de solidariedade e de amizade, pelo menos até ao 25 de Abril. Por isso voltámos a reunirmo-nos ontem e hoje - já faltaram uns tantos, mas estivemos lá os que ainda pudemos responder à chamada.


(1) António Alçada Baptista, A pesca à linha. Algumas memórias, Editorial Presença, Lisboa, 2000, pp. 59-72.

(2) A aventura da Moraes, Centro Nacional de Cultura, Lisboa, 2006, 110 p. Declaração de interesse e de interesses: estou afectivamente ligada a este livro porque acompanhei de perto a sua elaboração, coordenada por Isabel Tamen, e também porque para ele contribuí como autora de um dos seus oito capítulos.

César das Neves e a História

Às vezes dá para brincar com o que César das Neves escreve à 2ª feira no DN. Nem é hoje o caso, quando se refere à situação actual da Igreja:

«Nesta intensa história, o presente surge como uma das melhores épocas, interna e externamente. No interior vive-se paz doutrinal e vigor apostólico. (...)
Mas não serão reais os sinais de decadência da Fé? Que dizer da crise de vocações, redução do culto, perda de influência religiosa? Esse problema reside, não na Igreja, mas na Europa. A Igreja vive no mundo como sempre. Foi o velho continente que abandonou as suas referências culturais e se debate na triste desorientação civilizacional.»

Verdadeiro monumento em defesa do mais puro e duro conservadorismo: a Igreja está bem e recomenda-se porque não muda, não evolui, «vive no mundo como sempre». Mal estão todos os outros, os «desorientados».

Tal como na velha anedota em que a Maria olha extasiada para o seu Zé que não acerta o passo com o pelotão: «Vês como ele marcha bem? Porque é que os outros não conseguem?»

7.12.08

Canções de amor (3)

Nas mais belas de sempre, não poderia faltar uma francesa - Barbara, por exemplo.

Se o disparate pagasse impostos

... o 5 Dias já tinha sido objecto de penhora.

A crise vista do quiosque

Sempre ouvi dizer que as barbearias eram fontes privilegiadas de conhecimento do mundo e das vidas, mas nem sei se ainda o são. O meu termómetro de optimismos ou de crises é o quiosque onde compro jornais e revistas - com muito movimento, numa zona bem burguesa de Lisboa. Nem sei há quantos anos tenho conversas curtas e bem humoradas com quem o gere, ex-emigrante em França que me conhece hábitos e preferências.

De há uns tempos para cá, fui notando algumas mudanças: semblante carregado, pouco tabaco à vista, semanas em que o Expresso não apareceu, atraso de revistas. Até ao desabafo: não está mesmo a conseguir aguentar o barco, já nem consegue pagar aos distribuidores.

Nos últimos seis meses, toda a gente fuma menos, as senhoras desistiram certamente de enfeitar as casas porque as revistas de decoração ficam penduradas nos escaparates, todos parecem ter deixado de se interessar por destinos exóticos, os homens perfumam-se menos e, sobretudo, a venda dos jornais diários teve uma quebra de 50%. Há uns maduros como eu que continuam a comprar «coisas estrangeiras» e só os semanários de 5ª feira a Sábado, até ver, parecem manter-se de boa saúde.

Vou dizer-lhe hoje que Sócrates acredita (?) que «As famílias portuguesas podem esperar ter um melhor rendimento disponível em 2009». Pode ser que isso o ajude a passar a tarde de Domingo - mentiras piedosas, quem as não tem...

6.12.08

El compañero Fidel












Como não só as palavras mas também as ideias são como as cerejas, hoje estou em dia de Cuba.

Muitos jornais disseram que Fidel está disposto a dialogar com Obama, outros afirmaram que nem por isso, mas foram necessárias várias pesquisas para conseguir chegar à fonte - CubaDebate, «Reflexiones del compañero Fidel: NAVEGAR CONTRA LA MAREA», 4/12/2008.

Muitas citações de discursos de Obama, muitas referências às suas últimas escolhas, para terminar assim:

«No diré ahora que Obama es menos inteligente; por el contrario, está demostrando las facultades que me permitieron ver y comparar su capacidad con las del mediocre adversario John McCain, a quien por pura tradición la sociedad norteamericana estuvo a punto de premiar sus “hazañas”. Sin crisis económica, sin televisión y sin Internet, Obama no ganaba las elecciones venciendo al omnipotente racismo. (...)

Alguien tenía que dar una respuesta serena y sosegada, que debe navegar hoy contra la poderosa marea de las ilusiones que en la opinión pública internacional despertó Obama. (...)»

Estranha sensação de «déjà vu», pelo menos de «déjà lu».

Cuba





A não perder, este excelente
número da Visão - História,
de 4/12/2008.

Canções de amor (2)

A melhor canção de amor de sempre? Mas alguém tem dúvidas?

4.12.08

Ficar louco no século XXI












* Enviar um mail ou usar o Messenger para conversar com a pessoa que trabalha na mesa ao lado;
* Usar o telemóvel na garagem de casa para pedir a alguém que ajude a levar as compras;
* Esquecer o telemóvel em casa, ficar apavorado e voltar para buscá-lo;
* Levantar-se pela manhã e quase que ligar o computador antes de tomar o café;
* Conhecer o significado de tb, qd, cmg, mm, dps, k, ...;
* Não saber o preço de um envelope comum;
* Receber a maioria das piadas por e-mail (e rir sozinho);
* Quando o computador pára de funcionar, parece que foi o coração que parou;
* Ler esta lista, concordar com a cabeça e sorrir;

ONDE É QUE ESTÁ A GRAÇA?

Mário Nogueira, o pio

3.12.08

Imagem da noite


Odete Santos, neste preciso momento, na SIC N.
Com boné à Mao, oiço-a dizer que o marxismo está muito vivo e o capitalismo quase morto. E também que é muito feia.

Estou com alucinações

Canções de amor (1)














Outra cadeia voluntária? Estas não falho.

Não será certamente a melhor canção de amor, mas sempre a achei bem sábia.

Não há Resistência que resista

ADENDA (*)









Fui ontem a Peniche, com cinquenta alunos de uma escola secundária de Lisboa, em visita à respectiva Fortaleza.

Já lá tinha estado em circunstâncias diferentes, mas sem ter visitado aquilo que, escandalosamente, dá pelo nome de «Museu da Resistência». O resultado resume-se em duas palavras: vergonha e indignação.

Nada pode justificar o que é mostrado às dezenas de milhares de pessoas que o frequentam por ano, na sua maioria estudantes como os que eu acompanhei - atentos e activamente interessados. Que ninguém venha falar em falta de dinheiro para justificar o miserabilismo escancarado em vitrinas com documentos mal expostos (alguns interessantíssimos), o pavoroso mau gosto da reconstituição dos parlatórios e de uma cela (aquele preso/manequim da rua dos Fanqueiros sentado à mesa e o fato completo, gravata incluída, pendurado à entrada!...) Além disso, em 2008, o audiovisual ainda não passou por ali: nem um slide, um vídeo, um som.

Com meia dúzia de tostões, tudo era melhorado num ápice, mesmo que provisoriamente e à espera de um futuro melhor. O que se vê mostra que ninguém está interessado e prefiro abster-me quanto a hipóteses sobre as possíveis razões. Qualquer grupo de jovens, como os que estavam comigo, faria melhor. (Aliás, vi há alguns meses, numa outra escola secundária, uma exposição sobre o Estado Novo preparada por alunos do 10º ano, incomparavelmente mais cuidada do que este «Museu».)

Assim vamos deixando passar o tempo e as gerações, queixando-nos do desinteresse dos jovens - que só é real quando o alimentamos ou deixamos que outros o alimentem.

(*) A conversa segue também noutros blogues, porque a João (ou a Shyz, como preferirem) foi comigo ontem a Peniche.

1.12.08

Entre o prazer e o poder















(Originalmente publicado em Caminhos da Memória)

No ano em que se celebra o 40º aniversário da encíclica Humanae Vitae, de triste memória e ainda mais triste vigência, Miguel Oliveira da Silva dá-nos um importante contributo para a compreensão da temática em questão.

Médico obstreta-ginecologista, professor de Ética Médica e Bioética na Faculdade de Medicina de Lisboa e licenciado em Filosofia, o autor pergunta se a Igreja não deve reconhecer os seus erros, «se não há uma outra ética da sexualidade compatível com a fé» e «porque se calam nesta matéria tantos dos bioeticistas, crentes e não crentes».

Começa por recordar a «oportunidade perdida» que o Concílio Vaticano II foi em temas relacionados com a sexualidade e o significado dramático da publicação da Humanae Vitae e das reacções que provocou, para depois abordar a problemática do ponto de vista da Bioética.

Regressa por fim à discussão das posições da Igreja e, num capítulo deliciosamente intitulado Quem influencia o Espírito Santo?, refere-se a Yves Congar que se perguntava «por que estranha razão o Espírito Santo influencia apenas ou sobretudo o Papa e não a Igreja no seu conjunto».

O livro tem um excelente prefácio do padre Anselmo Borges, retomado em parte num artigo de opinião publicado pelo mesmo no Diário de Notícias. O seguinte excerto resume bem uma interpretação possível das raízes do que está de facto em causa:

«O que envenenou a relação da Igreja com a sexualidade foi o choque entre o poder e o prazer, porque o prazer pode abalar o poder.
Concretamente, há a doutrina do pecado original, entendido não como o primeiro de todos os pecados - todos pecam -, mas como um pecado herdado de Adão e transmitido por geração, portanto, no acto sexual.»


Para além de todas as leituras, uma coisa parece certa: mesmo os mais cépticos dificilmente acreditariam, em 1968, dois meses depois do Maio francês, que quarenta anos mais tarde o Vaticano teria ainda o mesmo posicionamento relativamente ao controle da natalidade e ao uso de meios contraceptivos. Mas a realidade aí está para provar o contrário e para justificar o carácter oportuno do livro que Miguel Oliveira da Silva agora publicou.

Miguel Oliveira da Silva, A Sexualidade, a Igreja e a Bioéica. 40 anos de Humanae Vitae, Caminho, Lisboa, 174 p.

1º de Dezembro

- A monarquia é o último reduto do patriotismo?
- O último não. O Partido Comunista também é muito patriótico.

Declaração do nosso potencial rei ao Público de hoje.

30.11.08

Assim se vê

















«Eu quero ser bom, mas não de todo o meu coração», terá dito algures uma criança, hoje citada por Manuel António Pina no Notícias Magazine.

Guardei a frase, porque preservo, e cada vez cultivarei mais em mim, uma certa parcela de maldade:

- Contra todos os fundamentalismos ideológicos.
- Contra os que, em nome de um passado honroso, se consideram, sobranceira e autistamente, detentores de certezas únicas e absolutas.
- Contra todos os conservadores, aqueles cuja principal função na vida é manter e defender teorias e práticas inabaladas e inabaláveis. Sejam eles de esquerda ou de direita, não são mais do que agentes que tentam travar a história.

Este blogue (tal como mais uns seis ou sete) resolveu levar para a brincadeira um acontecimento que é difícil abordar a sério com pouca maldade – e eu não disponho de tanta assim. Estou a falar, evidentemente, do congresso do PC. Fui bastante atacada por «brincar» e passo portanto agora para outro plano.

Tudo quanto dissesse seria pouco para explicar as reacções que fui tendo às muitas imagens que vi e aos vários discursos que ouvi durante estes dois dias, porque incarnam precisamente tudo aquilo que rejeito, tendo-me declarado profundamente «contra».

A «força» deste PC apenas me provoca uma profunda tristeza, porque é pouco mais do que o fruto do atraso do meu país. Da crise actual também, explorada à saciedade, contra tudo e contra todos. Sempre em nome de ontens que jamais cantarão.

27.11.08

Nº 228











Não há como cadeias por iniciativa própria. Nem vou até às origens desta: eu venho do Der Terrorist:

-Quem é o teu pai?
-O camarada Estaline.
-E quem é a tua mãe?
-A União Soviética.
-E o que queres ser quando fores grande?
-Órfão.

Foi um prazer, Mr. Bush

No Campo Pequeno?










«Quando estiverem a ler estas linhas, muitos membros do Partido estarão dentro do Campo Pequeno, no XVIII Congresso.»

Até tremi: ressonâncias do PREC. Mas estes estão lá de livre vontade e há muito que o Otelo não canta assim.

26.11.08

Eu ouvi, eu estive lá!

Notícia do jornal Sol:
A Nova Esquerda
Pedroso e Louçã apresentam «manifesto contra a política light»

O deputado socialista e o líder do BE reflectiram em conjunto sobre os caminhos de uma alternativa política, na apresentação do livro A Nova Esquerda, de Celso Cruzeiro. «Um dos mais consistentes manifestos em Portugal contra a política light», chamou-lhe Paulo Pedroso.


O que se passou:
Na última 2ª feira, teve lugar, de facto, o lançamento da obra acima referida. Três pessoas fizeram a apresentação do livro, por esta ordem: Francisco Louçã, Paulo Fidalgo, Paulo Pedroso. Depois falou o autor. No fim, houve duas perguntas postas por pessoas da assistência, às quais cada um dos membros da mesa disse o que entendeu. Ponto final. Louçã e Paulo Pedroso nunca dialogaram entre si, se «reflectiram» foi em conjunto com as largas dezenas de pessoas que estavam na sala, como em qualquer sessão de lançamento de um livro.

Já li entretanto numa Caixa de Comentários que, tendo deixado cair Sá Fernandes, o BE se tinha apressado a fazer este pacto com o PS, contra a política light, via Paulo Pedroso.

É este o jornalismo que temos. Desgraçadamente.

P.S.- E o Público de hoje, 27/11, insiste, em artigo intitulado: «Esquerdas organizam-se em debates...», no meio de notícias detalhadas sobre um encontro que terá lugar em 14 e 15 de Dezembro:
«Já na segunda-feira o deputado socialista Paulo Pedroso e o líder do BE, Francisco Louçã, estiveram juntos no lançamento do livro de Celso Cruzeiro...».

Portanto, se for convidado para falar no lançamento de algum livro, tenha cuidado com as companhias porque pode estar a «organizar-se» sem saber. (Já agora: a jornalista que assina o artigo do Público não estava presente na sala, mas alguém lhe deve ter dito que a sessão foi uma espécie de comício e ela acreditou...)

Também tu, Gramsci?








Um arcebispo romano terá dito recentemente que Antonio Gramsci se converteu ao catolicismo, recebeu os últimos sacramentos e seria devoto de santa teresinha do menino jesus.

A ser verdade, não foi o primeiro – e não terá sido o último – a substituir uma fezada por outra. (Amanhã, vou ler o Avante! com uma atenção redobrada.)

(Fonte)