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9.2.08

Era Primavera, em Praga

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Numa tentativa quase inglória de libertar espaço em prateleiras para novos livros, encontrei hoje este exemplar de Les Temps Modernes – a mítica revista fundada e dirigida por Jean-Paul Sartre –, inexplicavelmente entalado entre vizinhos que lhe eram totalmente estranhos.

Trata-se de um número publicado em Abril de 1968 e que tem como tema central a Checoslováquia. Quando aí se vivia uma Primavera, não só como estação do ano, mas, também e sobretudo, como tempo de todas as esperanças, de algumas liberdades dadas como adquiridas e de outras que pareciam vir a caminho. Onde nada disso iria durar porque, como é sabido, no dia 20 de Agosto desse mesmo ano, as tropas do Pacto de Varsóvia invadiram Praga e puseram fim a todos os sonhos.

Por todos estes motivos e por mais alguns, ganha um sabor especial a leitura destes textos, quarenta anos e tanta História depois.

O primeiro – «Un socialisme à refaire» –, em jeito de introdução e de sumário dos outros, é de André Gorz (que, como estarão lembrados, se suicidou, juntamente com a mulher, em Outubro de 2007).

Vale a pena lê-lo na íntegra e, como não é muito longo, deixo-o digitalizado aqui. (Clicar para aumentar a imagem.)(*)


(*) Se alguém estiver interessado em algum dos outros artigos, basta deixar um pedido na caixa de comentários ou enviar um mail. Digitalizarei para um outro espaço na net e di-lo-ei aqui.

8.2.08

Aniversário do Referendo




























Jantar na Cervejaria da Trindade, em Lisboa, às 19:30.
Inscrições para:
apfsede@apf.pt

Lugares de culto (1)


Perito Moreno
Calafate, Patagónia (Argentina)



Espanha – Agora são os protestantes




























Já que resolvi seguir a actual saga entre igrejas e política em Espanha, continuo.

Está marcada para dia 1 de Março – uma semana antes das eleições, portanto – uma manifestação convocada por mais de duzentas igrejas protestantes espanholas e delegações de cerca de outros trinta países. O objectivo é, como se pode ler no cartaz acima reproduzido, «ver España cambiada por el poder de Dios».

Os organizadores negam qualquer cariz político do evento, mas vão denunciando «uma política que seculariza, marginaliza e deprecia os valores cristãos e uma família que se desagrega cada vez mais».

Porque marcam o encontro para as vésperas das eleições? Porque é «um momento estratégico», porque «estão a acontecer muitas coisas desagradáveis no país», «porque é um momento para que Deus actue a favor da Espanha». Leia-se: para que Deus guie as mãos dos espanhóis e estes não ponham uma cruz em frente da sigla PSOE.

Obscurantismo serôdio? Certamente. Mas que causa, inevitavelmente, alguns estragos.

Mais detalhes em El Pais e neste site.

7.2.08

Aborto em Itália – Uma iniciativa macabra
















Os directores dos departamentos de obstetrícia de quatro universidades de Roma publicaram, no Sábado passado, um documento em que defendem que os fetos que resultem de interrupções voluntárias da gravidez por motivos terapêuticos (permitidas, em Itália, até às vinte e quatro semanas) devem ser reanimados sempre que apresentem sinais de vida – MESMO CONTRA A VONTADE DOS PAIS, já que o que prevalece é o interesse do «recém-nascido».

Trata-se de mais uma acção que se inscreve na ofensiva «em defesa da vida», por parte de organizações ligadas à Igreja católica. No dia seguinte, Bento XVI apoiou-a expressamente.

Fiquei horrorizada. Nem me apetece comentar.

Notícia detalhada aqui.

6.2.08

«Pessoas abstractas e concretas»

Rui Tavares, no Público de hoje (sem link), a propósito da possível designação de Tony Blair para presidente da União Europeia:

«Do outro lado do mar, os americanos escolhem o seu futuro líder num processo que pode ter muitos defeitos mas que é público e visível. Do lado de cá, a União Europeia prepara-se para escolher como futuro presidente este homem, e fá-lo-á da única maneira a que ele e os seus pares se habituaram: nas costas dos cidadãos. Porque nós somos pessoas abstractas. E no mundo deles só eles realmente existem».

Os nossos justiceiros

















Parece não restar pedra sobre pedra na Justiça em Portugal. Estamos a ser espectadores, mais ou menos atónitos, de um teatro burlesco. Só que o que está em causa é demasiado grave para ter alguma graça.

Depois de revindicações de magistrados, de querelas entre bastonários, de demissões e de substituições, eis que, do alto da independência dos seus poderes, os responsáveis máximos da advocacia e da polícia judiciária vêm a público fazer afirmações gravíssimas. Um diz que o rei vai nu, mas com o peso que a nova função lhe confere e a truculência do seu ADN, o outro sussurra uma enormidade com uma inenarrável pose melíflua.

Os jornalistas esfregam as mãos de contentes, os comentadores também. Na SIC N, José Miguel Júdice acaba de ajudar à festa, comparando Marinho Pinto a Chávez e a Mussolini (se não me engano) e anunciando-o como candidato populista da esquerda nas próximas presidenciais.

O que falta ainda? Há muito que não temos notícias do PGR – deve estar para breve uma qualquer declaração sua, tão bombástica como as dos seus pares.

Entretanto, parece que o mais importante é saber se os actores fizeram bem em falar ou se deveriam ter ficado calados, se um diz ou não nomes, se o outro mancha o bom-nome de Portugal além fronteiras – é o mais se discute. Passa para segundo plano a evidência de que um sector, que já teve fama de credibilidade e de solidez, se encontra agora profundamente degradado, mesmo ao mais alto nível.

Não se percebe qual é o papel do ministro da Justiça no meio disto tudo, se é que tem algum. Lá está, ao abrigo das tempestades, tristonho e calado. À espera de ser substituído por José António Pinto Ribeiro, a acreditar nos boatos que correm nas hostes socialistas. Sem manifestações nas ruas, porque nesta guerra não entram ambulâncias, aulas de substituição ou diminuição do poder de compra.

Enfim, espero não precisar tão cedo de advogados, não tenciono apresentar qualquer queixa à Procuradoria e não estou a ver por que razão a PJ se ocuparia de mim. Oxalá assim seja – porque este mundo está perigoso.

4.2.08

«Dois tristes tigres»

Nuno Pacheco, em Publico, 4/2/2008

«Quando se ouviram as primeiras notícias, houve quem as interpretasse como elogio metafórico ao par de ministros que nessa manhã tomaria posse. (...) Havia mesmo dois tigres à solta, daqueles às riscas, de Bengala mas não trôpegos, que tinham aproveitado uma súbita e inesperada abertura da jaula.(...)

Talvez ainda pudessem espreitar a tomada de posse, só para saber como era (no circo, não havia remodelações, a não ser por morte, tinham-nos nomeado tigres vitalícios)».


Vale a pena ler o texto na íntegra. Pode fazê-lo aqui.

3.2.08

Trocadores

A história conta-se rapidamente, mas só se aplica a lojas grandes e onde se aceitam devoluções com reembolso em dinheiro. É sabido que as percentagens de desconto vão aumentando durante a época de saldos. Assim sendo:

- Vá às compras e traga o objecto com que sempre sonhou, com um desconto de 20%. Compre já porque pode esgotar.
- Regresse à mesma loja alguns dias depois e confirme que ainda há uma peça igual – já com um letreiro de 35%. Diga que quer desistir do que levou no primeiro dia, receba o dinheiro, dê meia volta para disfarçar, faça uma nova compra do mesmo objecto (agora bem mais barato) e pague noutra caixa.
- Tente uma terceira vez, quando o desconto for já de 50%. Pode ser que tenha sorte!

Isto existe e dizem-me que é prática corrente. E eu fico espantada por haver gente com imaginação, tempo, paciência e feitio para coisas destas.

Mas, pensando melhor: os portugueses, comerciantes natos, sempre viveram de trocos, são bons trocadores. De escravos e de especiarias, de mares e de países, de impressões, de piropos, de primeiros-ministros, raramente de clubes mas cada vez mais de favores.

E lá vão avançando assim, séculos fora, mansamente – troca-tintas, q.b.


    «Uma hierarquia integrista, fundamentalista, neoconservadora»