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22.3.08

«Era para matar saudades»
















Diálogo desta tarde, numa pequena livraria de Lisboa, com uma senhora, muito bem aperaltada, que folheava o livro de Irene Pimentel sobre a MPF.

Ela – A senhora sabe se este livro é bom? É que é do meu tempo...

Eu – É bom sim, minha senhora, eu gostei muito.

Ela – Mas diz bem ou mal?

Eu – É um livro de História: relata e comenta os factos.

Ela – Mas acha que a autora gostava da Mocidade?

Eu – Acho que não, que não gostava.

Ela – Ah, então não levo. É que era para matar saudades!


E lá se foi – só com as saudades.
E eu fiquei a rir para dentro e a imaginar diálogos delirantes entre aquela senhora e a Irene.

21.3.08

O que preferia não ter lido


Jorge Sampaio, em entrevista concedida ao jornal Sexta de ontem:

«No nosso século XXI, esquerda e direita tornaram-se conceitos ambíguos. Por isso, sempre que ouço esse género de comentários, interrogo-me, “mas o que significa mais à esquerda ou mais à direita em termos de políticas concretas e sustentáveis?”. A meu ver não podemos ficar reféns de debates ideológicos, cujo conteúdo deixou de ser claro. Importa, sim, contribuir para a renovação da prática governativa e para lhe dar novos conteúdos.»

20.3.08

«Penso que nasci para a PIDE aos 16 anos» – Marcelo Rebelo de Sousa dixit

A excelente reportagem que o Público publicou, no passado dia 14, sobre as reacções de um grande grupo de pessoas (do qual fiz parte) à leitura que fizeram dos seus processos elaborados pela PIDE, inclui o testemunho de Marcelo Rebelo de Sousa (MRS) (*). Confesso que senti logo um certo incómodo por o ver inserido numa história com a qual me parecia nada ter a ver. Mas percebo que a jornalista Clara Viana (CV) tenha querido inquirir pessoas de vários quadrantes. Só penso que teve «pouca sorte» nesta escolha específica, porque MRS tem imaginação fértil e nem sempre consegue dominá-la. Julgo que terá sido o caso.

Entretanto, foi publicado um post em O Tempo das Cerejas sobre o conteúdo de algumas das declarações de MRS, deixei comentários na respectiva Caixa e seguiu-se uma troca de mails (que ainda dura, mais ou menos «triangulada» por mim) com o autor do texto, Vítor Dias (VD), e com a jornalista CV.

Decidi, portanto, sair também das catacumbas.

É natural que MRS tenha processos abertos na PIDE e que lá estejam alguns dos factos que vêm relatados no Público. Mas não todos. Choca, sobretudo, a impressão geral de história oposicionista que quer deixar no leitor. Ninguém é obrigado a ter passados «com bom aspecto», o que não vale é burilá-los.

Por exemplo:
MRS diz que «nasceu para a PIDE» aos 16 anos (o que deve ter acontecido em 1964, já que tem agora 60) porque, enquanto o pai era dignitário do regime, ele pertencia à «oposição liberal». Oposição liberal em 1964? Alguém se lembra do que poderá ter sido? Se pretende referir-se à ala liberal de Marcelo Caetano, essa só nasceu uns cinco anos mais tarde...

Diz também, sem denunciar que se trata de invenção da PIDE, que esta registou que ele, de «ideias perigosas», era visto a colar cartazes e a distribuir propaganda subversiva de madrugada. Cartazes? Como diz VD, só se fossem recreativos. Outros só foram permitidos, e poucos, nas campanhas eleitorais de 1969 e de 1973 e, aí, juro pelas alminhas que nunca ninguém viu MRS do lado das oposições – nem a PIDE. Propaganda subversiva? De que organizações – do PC, do MRPP? Dos católicos progressitas garanto eu que não era.


Enfim...
Não se pode reescrever o passado, Professor Marcelo. Não vale a pena tentar.

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(*) Já me referi a este tema num outro post e o texto integral da reportagem do Público (onde realcei, a vermelho, as declarações de MRS) pode ser lido aqui.

19.3.08

Shame & Scandal

E, já que falei em cantigas, aposto que nem Durão Barroso nem Santos Silva ouviram esta:

Birkin, Durão & Silva

ADENDA (*)

Durão Barroso já em tempos recordara a proibição de ouvir Jane Birkin como símbolo dos tempos de fascismo.

Hoje, diz-nos o DN que foi a censura ao Je t’aime, moi non plus, numa cena do filme Blow-up, que atirou Augusto Santos Silva para os braços do trotskismo.

«Touchée» pelas motivações eróticas do anti-fascismo dos nossos políticos.




P.S. - Li mal o texto do DN: o que terá atirado SS para o trotskismo foi não ver a J. Birkin despida no Blow-up e não a censura à canção Je t’aime, moi non plus. Durão Barroso, esse sim, recordou há alguns meses os tempos em que ouvir aquela canção era «um acto ilícito».

17.3.08

A Tradição da Contestação























Acaba de ser publicado A Tradição da Contestação – Resistência Estudantil em Coimbra no Marcelismo (*), uma obra de Miguel Cardina, que corresponde, «com alguns acrescentos», à dissertação de mestrado que apresentou em 2005.

Trata-se de um livro notável, a vários níveis.

Se o subtítulo situa a obra na geografia e no tempo, uma contextualização sistemática, e minuciosamente documentada, leva-nos para muito mais longe: não se limita nem a Coimbra, nem ao período de 1968-1974. Por um lado, porque os movimentos estudantis, as suas histórias, lutas e características culturais são bem inseridos no panorama político geral, a nível nacional e internacional, e têm presente a evolução do próprio conceito de juventude e do seu papel. Por outro, porque o autor descreve e explica que é na segunda metade da década de 50 que devem ser procuradas as raízes próximas de todas as contestações e dissidências que se seguem.

Apesar de me interessar especialmente pela problemática e pela época, e de ter vivido grande parte do período em questão no meio universitário, aprendi uma série de coisas que desconhecia ou em que nunca tinha parado para pensar – desmérito meu, talvez, mérito de Miguel Cardina, certamente.

Voltando ao livro: à qualidade do conteúdo, alia-se uma escrita impecável, com a vantagem de ser tão fluente que torna difícil interromper a leitura – quase como se de um romance se tratasse –, o que não é muito corrente em estudos deste tipo e constitui uma mais-valia indiscutível. A título de mero exemplo, anotei a clareza com que são descritos, em poucas páginas (102 a 110), os traços comuns do emaranhado dos «novos radicalismos de inspiração marxista» surgidos nos anos 60.


Miguel Cardina prepara actualmente uma tese de doutoramento sobre a construção da esquerda radical durante o Estado Novo.

Teremos a tese e muito mais. Porque é quase com incrudelidade que se lê que este autor nasceu em 1978.

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(*) Angelus Novus Editora, Coimbra, 2008, 258 p.

16.3.08

Rever a vida nos ficheiros da PIDE

ADENDA (*)

O caderno P2 do Público de hoje traz um extenso e excelente «dossier» da autoria da jornalista Clara Viana:

«Nomes, cartas, confissões, rotas de vida. Foram parar à PIDE e ficaram lá».
Trata-se de um trabalho baseado em testemunhos de um certo número de pessoas que consultaram os seus processos na Torre do Tombo e que dizem o que encontraram, o que mais as impressionou. E de outras que preferiram nem os ver.

Quando não nos deixam esquecer Salazar – nas ruas, nos quiosques, em ofertas ou vendas de livros baratos –, é bom continuar a recordar este pesado capítulo da sua «obra». Incontornável, sim, porque não foi «nem boa, nem má» – foi terrível.

Agradeçamos a quem mostra ao grande público que «O arquivo da PIDE continua a ser uma arma que, paradoxalmente, hoje poderá afectar mais as vítimas do que os vitimadores».



Também fui inquirida. Com um pormenor que me dá uma especial satisfação: não conheço a Clara Viana e ela disse-me que chegou até mim porque é leitora deste blogue. Alento para continuar.



P.S. - Vou tentar pôr on line o texto na íntegra. Se conseguir, aviso.

(*) Com a ajuda da Shyz, os textos podem ser lidos aqui.