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3.5.08

Os portugueses e a homossexualidade

Sorbonne, 3 de Maio





















Dia da ocupação da Sorbonne e das primeiras grandes manifestações em Paris. Quase tudo já foi dito, está tudo escrito, num qualquer suplemento de jornal perto de si.

Mais raros são os documentos sonoros. Aqui ficam alguns.



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P.S. - Isto vai mal em termos de francofonia. Deixaram-me escrito num Comentário que o DVD de «La Chinoise» estava à venda em Portugal. Procurei-o hoje (aliás em vão), mas, para me fazer entender, tive mesmo de dizer «La Chinóise».

2.5.08

Um tenebroso pesar

A Assembleia da República aprovou esta manhã um voto de pesar pela morte do cónego Melo, proposto pelo CDS, apoiado pelo PSD e recusado pelo PC e pelo BE. O PS absteve-se, mas cerca de trinta dos seus deputados abandonaram a sala, bem como todos os do BE.

Nem sequer me interessa discutir ou confirmar se o cónego Melo assumiu ou não (parece que sim) a sua pertença ao MDLP (Movimento de Libertação de Portugal), por que razões não chegou a ser julgado, se esteve ou não directamente envolvido no assassinato do padre Max.

Quem tem memória e idade para tal, recorda-se certamente da actuação e das declarações públicas, absolutamente tenebrosas, desta figura que envergonhou a Igreja e o início da nossa democracia.

Sublinho e reforço: o PC ficou na sala e respeitou, de pé, o minuto de silêncio, o PS absteve-se dizendo que «jamais votaria contra o pesar pela morte de alguém». De ninguém? Nem se fosse Salazar? Hitler? Deixou hoje e deixaria, em qualquer circunstância, aprovar, em NOSSO nome, o NOSSO pesar? Porque tenhamos consciência de que foi isso que aconteceu - e que foi expressamente assumido.

Tudo tem limites. Desta vez, foram excedidos.

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P.S. - Numa primeira versão do texto, o CDS referia mesmo o cónego Melo como «um homem de Abril». É a isso que Luís Fazenda se refere no início da intervenção que pode ser vista aqui. Assista também ao minuto de silêncio e veja a triste figura do PC.

Même si vous vous en foutez


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(com ruídos da época...)

1.5.08

Maio





















(1º de Maio de 1974)

Um ano antes, foi bem diferente o último 1º de Maio em tempos de fascismo, retratado nesta circular da CNSPP (Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos), de 9/5/1973:

«Tem-se verificado, nas últimas semanas, um acentuado agravamento da repressão política no nosso país: com o pretexto de impedir quaisquer manifestações públicas por ocasião do 1.º de Maio, procedeu a Direcção-Geral de Segurança à prisão indiscriminada de um elevado número de pessoas, em várias localidades e pertencendo aos mais diversos sectores de actividade profissional. Só durante o período que decorreu de 7 de Abril a 7 de Maio tem a CNSPP conhecimento de terem sido presas 91 pessoas, cujos elementos de identificação se possuem já. Sabe-se, no entanto, que muitas outras dezenas de pessoas foram detidas (...)

No 1.° de Maio, as zonas centrais da cidade de Lisboa e Porto foram teatro de grandes concentrações por parte das forças das diversas corporações policias e parapoliciais (com agentes fardados e à paisana). No Rossio e em toda a área circundante essa presença não se limitou ao papel de intimidação ou de repressão, mas adquiriu características de verdadeira agressão: espancamentos brutais e indiscriminados, grande número de feridos, dezenas de prisões. Dessa agressão foram vítimas muitos trabalhadores, assim como estudantes e outras pessoas que se limitavam a passar pelo local».

Na madrugada desse 1º de Maio de 1973, as Brigadas Revolucionários fizeram explodir engenhos que destruíram dois pisos do Ministério das Corporações, na Praça de Londres em Lisboa. Na véspera, tinham distribuído panfletos convocando para as manifestações do 1º de Maio, em cerca de 200 localidades, através do rebentamento de petardos.

Durante a tarde, foram recebidos telefonemas com falsos alertas de bomba em várias grandes empresas de Lisboa, entre as quais a IBM onde eu então trabalhava. Veio a saber-se depois que se tratara também de uma iniciativa das Brigadas Revolucionárias, cujo objectivo era «libertar» mais cedo os trabalhadores para que pudessem participar na manifestação.


(republicação modificada)

30.4.08

La Chinoise

Mais um ícone de Maio 68. Realizado um ano antes, por Jean-Luc Godard, La Chinoise foi considerado um filme profético.

Para francófilos nostálgicos e não só.

29.4.08

Com perfume de revolução

A revista Marianne (mais uma...) acaba de publicar um dossier especial sobre Maio de 68 (*).

Conhecida pelas suas posições «anti-soissante-huitards», não se afasta significativamente da tradição e adopta uma distância crítica em relação às celebrações em curso e a todo o folclore que as rodeia.

O tom fica dado com o anúncio de que Fauchon, a mais célebre cadeia de restauração francesa, «celebra os 40 anos de Maio 68 com um chá que tem perfume de revolução». Verde, 15 euros, caixa cor-de-rosa com slogans da época (o anúncio vale o tempo de um clique). Comentários para quê.

A favor ou contra 68? Cohen-Bendit ou Sarkozy? Questão absurda, lê-se no artigo introdutório, porque 68 não é propriedade de ninguém, porque há vários Maio 68 – dos estudantes, dos operários, dos libertários, dos... e dos..., porque as mudanças começaram muito antes de 68 e continuaram muito para além dessa data.

Nada de especialmente novo e que não se leia um pouco por toda a parte, mais concretamente desde as comemorações do 30º aniversário, em 1998, e, sobretudo, desde a publicação de May ’68 and its Afterlives de Kristin Ross, em 2002 – obra que continua a ter um papel incontornável em toda esta problemática, citada e recitada por representantes dos mais variados quadrantes e cujo objectivo, segundo o autor, é demonstrar «como o acontecimento em si mesmo foi ultrapassado pelas suas representações, como o seu estatuto de acontecimento resistiu às tentativas de aniquilação, à amnésia social e aos assaltos conjugados dos sociólogos, dos ex-líderes estudantes que, sucessivamente, quiseram interpretá-lo e reclamar o respectivo monopólio».

Ainda na introdução, algumas considerações interessantes sobre posicionamento liberal e posicionamento libertário: nada melhor para mascarar a aceitação liberal no plano económico e no plano social - que vem a desenhar-se desde os anos 80 - do que a postura libertária dos herdeiros de 68. Em paz com o mercado, com a publicidade e com a sociedade de consumo, eles fazem no entanto questão de manter os benefícios intelectuais ligados à ideia de uma qualquer revolução. Au-delà du profit, comment reconcilier Woodstock e Wall Street? - título de um livro que retrata bem este estado das coisas e dos espíritos (**).

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(*) O número da revista em se insere este dossier de dezanove páginas pode ser comprado e «descarregado» na net. Entretanto, também o vi à venda em Lisboa.

(**) Obra de Alain Mamou-Mani, publicada em 1995.

28.4.08

A Tradição da Contestação (2)

Pode ler uma entrevista com o autor, Miguel Cardina, em duas partes (1 e 2). Não perderá o seu tempo.

me referi anteriormente a este livro e foi aqui que soube da existência da entrevista.

Maio de 68 no Cinema


Instituto Franco-Português
5-9 de Maio de 2008


(Filmes legendados em português)

5 de Maio 2008 segunda-feira
21h30 - Loin du Vietnam
> com a presença de Jacques Loiseleux

6 de Maio 2008 terça-feira
19h00 - A bientôt, j’espère classe de lutte
21h30 - Les lip , l’imagination au pouvoir
> com a presença de Jacques Loiseleux

7 de Maio 2008 quarta-feira
19h00 - L’an 01
21h30 - La reprise du travail aux usines wonder e Reprise
> com a presença de Rui Simões

8 de Maio 2008 quinta-feira
19h00 - Un film comme les autres
21h30 - Les amants réguliers
> com a presença de Luís Miguel Oliveira

9 de Maio 2008 sexta-feira
19h00 - Le droit à la parole
21h30 - Mourir à trente ans
> com a presença de Roumain Goupil
e de Augusto M. Seabra


Todas as noites, um prato original inspirado nos slogans de Maio 68 será proposto entre as sessões para “alimentar” o debate. Faça a sua reserva! (mín. 2 dias de antecedência)
21 311 14 00 ou 96 009 94 82

Jantar (prato do dia+bebida): 7,00 Euros
Menú especial estudante: 5,00 Euros

Informação mais detalhada aqui.

27.4.08

Houve alguém que se enganou?























25 de Abril de 1975, Gulbenkian, noite de balanço das eleições para a Assembleia Constituinte. Diálogo entre um jornalista e Otelo Saraiva de Carvalho:

- Que tipo de socialismo preconiza para Portugal?
- Um socialismo português. Com que elementos? Pois, é uma salada.
- Mas o almirante Rosa Coutinho referiu-se aos modelos argelino, peruano, cubano, jugoslavo.
- É isso a salada... (*)


A salada cá está e continua portuguesa, mas com outros ingredientes – para o bem e para o mal.

Uma direita em versão trágico-cómica, um PS que não sabe o quê nem como (Largo do Rato, Is anybody there?), uma «esquerda» enredada entre glórias do passado e cálculos de futuro, um Presidente da República armado em porta-voz de agência de sondagens. Tudo na maior das normalidades que o povo continua sereno.

Melhor, muito melhor do que «dantes»? Certamente. Viemos de longe, de muito longe, o que nós andámos para aqui chegar. Talvez trinta e quatro anos sejam poucos.

E no entanto, ainda assim... Houve talvez aqui alguém que se enganou.

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(*) A. Gomes e J. P. Castanheira, Os loucos dias do PREC, Expresso / Público, Lisboa, 2006, p. 91.