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10.1.09

A televisão que não temos

Este post mais parece escrito por Pacheco Pereira mas paciência.

O jornal da 20:00 de ontem da RTP1 levou 27-minutos-27 a mostrar-nos o frio em Portugal. Tenho pena de não ter anotado quantos repórteres, por esse país fora, fizeram as mesmas perguntas a dezenas e dezenas de pessoas. Ou de não ter decorado, com todo o pormenor, a identificação das estradas onde era difícil circular. Às 0:00, na Sic N, o panorama não foi muito diferente.

Absolutamente patético. Quando o mundo está como está e acontecem coisas vagamente importantes ali para os lados de Gaza e de Israel, tudo isso passou para segundo ou para terceiro plano – mas ficámos sem quaisquer dúvidas quanto às previsões das temperaturas para Carrazeda de Ansiães.


P.S. - Por outras e muito melhores palavras:
«Volta o pivot, para, enfim, sabermos do parlamento, ou da crise na Europa, ou da empresa em dificuldade, ou do martirológio de Gaza, ou da vaga de fundo de Soares Franco. Mas não: “vamos agora ligar a Fulana, que se encontra em Lugar de Mourejos”. (...) A quase meia hora que lá vai, somada à certeza de que ainda faltam estradas bloqueadas, limpa-neves e gente simpática que visita idosos, parece-nos - e é – mais longa do que qualquer cerco de Lisboa. As pálpebras descem devagar, como, no último mastro, a bandeira do vencido. A cidadania escoa-se num negrume consentido (e, afinal, libertador).»

9.1.09

Religião em Espanha – Autocarros para todos os gostos

À imagem do que já acontece em Londres, circularão em Barcelona, a partir de 2ª feira, autocarros com o slogan:
«Probablemente Dios no existe. Deja de preocuparte y disfruta de la vida.»

Uma igreja evangélica já reagiu e vai responder com:
«Dios sí existe. Disfruta de la vida en Cristo.»

(Fontes 1 e 2)

Os espanhóis não brincam em serviço: 7,6% dizem-se ateus (versus 3,9% de portugueses que se declararam «sem religião» - agnósticos ou ateus, em princípio - no censo de 2001).

Kamasutra revisitado


8.1.09

What else?

Mr. Clooney veio certamente passar o Natal entre os portugueses para tentar vender milhares de máquinas Nespresso. Estes acreditaram que o poder de compra ia aumentar em 2009, como lhes garantiu o primeiro-ministro, e compraram mesmo.

Nos serões de amigos, discute-se a crise? Não: compara-se o sabor Livanto com o Vivalto, aconselha-se o Roma para os galões da manhã e o Decaffeinato Lungo para depois de jantar. Discute-se por mail a vantagem do modelo Top-line sobre o Essenza. Tenta-se combinar um encontro? Vem a resposta: «OK, mas primeiro tenho de ir comprar café.»

Sim, porque os portugueses estão a descobrir um novo ritual: ir passar algum tempo numa loja Nespresso. Claro que é possível encomendar pelo telefone ou pela net, mas há que estar em casa para receber, comprar pelo menos 100 unidades de cada vez quando ainda nem se percebe as diferenças entre as doze variedades existentes - e ser membro do Clube, evidentemente.

Além disso, perder-se-iam os diálogos fascinantes que acontecem nas longas filas de espera das raras e sofisticadas lojas. Começa-se na rua, enregeladamente e, ao fim de quase uma hora, cada vizinho é já um amigo. O senhor da frente explica-me que não comprou a Lattissima porque estava esgotada, a senhora de trás conta que ofereceu três máquinas no Natal e que vem hoje entregar os vouchers que dão direito ao bónus, a que se segue dá-me conselhos quanto a limpeza e manutenção dos componentes.

Com a aproximação dos primeiros lugares da fila, é fatal como o destino, toda a gente se queixa do tempo de espera a um empregado aprumadíssimo: que têm de abrir mais lojas ou mais balcões, que ir também para Massamá e para Alcabideche, que é preciso vender em todos os centros comerciais. Ele vai dizendo que não, que a tendência do mercado é exactamente a oposta porque entrámos na era da internet. E como era eu que estava então na primeira posição da fila, explicou-me com o ar mais solícito deste mundo: «A senhora vai ver: quando souber usar a internet, nunca mais quer outra coisa». Engoli em seco e quando ia perguntar-lhe se já andava pelo Twitter, vagou o balcão nº 4 e lá tive mesmo de avançar.

E porque há quem não conheça a máquina:



Leituras compulsivas

Na rede, mas para além da blogosfera:

Hedonismo
2ª a 6ª feira – Manuel António Pina
Domingo – Nuno Brederode Santos

Masoquismo
2ª feira – João César das Neves
5ª feira – Muitos


E hoje é 5ª feira.

Portanto, Manuel António Pina:
«É fácil ter ideias claras e a preto e branco sobre o que se passa em Gaza sentado diante da TV, vendo o que se quer ver e fechando os olhos ao resto.»

Mas também:
«Por este facto, a inserção da banca no sector empresarial do Estado, é uma questão que continua na ordem do dia.(...)
Os fundamentos que levaram àquela nacionalização
[em 1975] se mantêm intactos. A este propósito aconselhamos, vivamente, a leitura do preâmbulo do DL 132-A/75 de 14 de Março, o diploma pelo qual a banca foi nacionalizada.»


«O PCP afirma-se como o verdadeiro promotor da convergência de todas as forças políticas e sociais que querem a ruptura com a política de direita e uma alternativa de esquerda para Portugal.»
Os links estão postos para não pensarem que estou a delirar.

The Madoff Affair...

7.1.09

Encantos da blogosfera
















O Arcebispo de Cantuária transferiu-se directamente do defunto Atlântico para o activíssimo 5 Dias. Baralhado com tão vertiginosa viagem, houve quem me perguntasse hoje se ele era... o Nuno Costa Santos!!!

E a resposta é: «Credo! Não, não é!»

Obama e o Vaticano








Defensor acérrimo da família tradicional, Bush esteve sempre muito próximo dos dois últimos papas e, apesar de protestante, chegou a ser considerado por muitos como o «primeiro presidente católico dos Estados Unidos». Com Obama, defensor do direito ao aborto e de investigações sobre células, o panorama anuncia-se bem diferente.

Um influente cardeal norte-americano qualificou o dia da eleição de Obama como «terramoto cultural», a culminar uma campanha «extremista e oposta ao direito à vida». Mas, entre os católicos, há muito quem se regozije por ele prometer contribuir para a diminuição do número de abortos em vez de se limitar a querer proibi-los.

Mais uma acha para muitas fogueiras que se avizinham e esta talvez não seja pequena. Só faltam treze dias.

(Fonte)

A crise














by Mr. Vítor Constâncio

P.S. - Ler: Optimismo é questão de perspectiva (Ferreira Fernandes, no DN)

6.1.09

Até sonhei com o Twitter

A mais inocente troca de mails é um perigo quando a João está pelo meio: não descansa enquanto não sabe responder, arma uma confusão monumental e depois vai dormir descansada e deixa os outros às cabeçadas contra vários muros.

Foi assim que acabei por me inscrever ontem no dito Twitter. Primeiro ninguém me encontrava, depois lá me viram, começou a dança de «following» e de «followers», andei como uma mosca tonta a tentar entender onde estava metida. Ainda não percebi muito, prevejo outra noitada, mas lá chegarei.

Parece que é incontornável e que até terá sido importante para seguir, minuto a minuto, a entrevista de Sócrates. Esta convence-me: ter-me-ia talvez distraído num espectáculo de umbiguismo incómodo.

P.S. - Estive quase para pôr Comments Off neste post: não me façam muitas perguntas porque não saberei responder a quase nada!...

Delitos e opiniões

Nada melhor do que um post sobre a entrevista de Sócrates como pretexto para saudar o Delito de Opinião, um novo blogue com dois dias de existência. Através da Ana Cláudia que conheço há muito tempo (quase dois anos é uma eternidade...) e do Pedro Correia de quem não perco um texto, desejo a todos que nos ajudem a ter boas opiniões - tão delituosas quanto possível, evidentemente.

5.1.09

Barthes na China de Mao

A revista Le Magazine Littéraire deste mês inclui um conjunto de artigos sobre Roland Barthes, do qual importa destacar um dossier relacionado com uma viagem que fez à China, em 1974. Dele faz parte a pré-publicação de excertos de uma obra sua inédita que será publicada dentro de um mês, Cahiers du voyage en Chine. Com Roland Barthes viajou, entre outros, Philippe Sollers, agora entrevistado por LML.

Quando este tipo de excursões político-culturais de grupos de intelectuais se multiplicavam e tinham rituais muito específicos, não é grande o entusiasmo manifestado por Barthes.

«Palestra mortal, comparação passado/presente. Olho para o meu copo de chá: as folhas verdes abriram e formam uma camada no fundo do copo. Mas o chá é muito ligeiro, insípido, apenas uma tisana, é água quente.»

«Um facto incontestável : o aferrolhar completo da informação, de toda a informação, da política ao sexo. O mais espantoso é que esse ferrolho resulta, ou seja que ninguém, seja qual for a duração da estadia, consegue forçá-lo em qualquer ponto.»


P.S. - Em Rue89, pode ser lido um extenso artigo sobre este dossier de LML.

2009 em números redondos
















Ficando pelo século XX e citando apenas algumas efemérides:

1929, 24 de Outubro - 5ª feira negra na Bolsa de Nova Iorque.
1939, 1 de Abril - Fim da Guerra Civil de Espanha.
1939, 1 de Setembro - Invasão da Polónia, início da II Guerra Mundial.
1949, 1 de Outubro - Proclamação da República Popular da China por Mao Tse-Tung.
1959, 1 de Janeiro - Revolução Cubana.
1989, 4 de Maio - Última manifestação de estudantes na Praça Tiananmen.
1989, 9 de Novembro - Queda do muro de Berlim.

Matéria para muitos posts, portanto...

4.1.09

Sobre Israel e sobre Gaza
















Gostaria de ter pelo menos uma certeza e nem isso
consigo: a de não ser obrigada a tomar partido.

A pílula (ainda...) vista do Vaticano










No Osservatore Romano de hoje, é publicado um artigo de Pedro José María Simón Castellví, presidente da Federação Internacional da Associação de Médicos Católicos, significativamente intitulado «A Humanae Vitae, uma profecia científica». Nele são revelados mais efeitos maléficos do uso da pílula: ela é anti-ecológica e, nessa medida, também responsável pela infertilidade masculina!!!

Faltava esta acusação contra as mulheres: serem responsáveis pela diminuição do número de espermatozóides...

Fica a citação do Osservatore Romano (4/1/2009), já que o link pode deixar de funcionar:

«Un altro aspetto interessante riguarda gli effetti ecologici devastanti delle tonnellate di ormoni per anni rilasciati nell'ambiente. Abbiamo dati a sufficienza per affermare che uno dei motivi per nulla disprezzabile dell'infertilità maschile in occidente (con sempre meno spermatozoi nell'uomo) è l'inquinamento ambientale provocato da prodotti della "pillola". Siamo qui di fronte a un effetto anti-ecologico chiaro che esige ulteriori spiegazioni da parte dei fabbricanti. Sono noti a tutti gli altri effetti secondari delle combinazioni fra estrogeni e progestinici. »