Páginas

9.5.09

El cantaor

Miguel Poveda

A força da história oral

Maria Manuela Cruzeiro fez uma entrevista de cerca de quarenta horas a um dos principais capitães de Abril, Vasco Lourenço, e propõe-nos um longo caminho bem pelo interior da revolução de 74, desde as fases de preparação até à Constituição de 1976.
Não me alargo em elogios, mais do que merecidos, porque João Tunes já o fez sem poupar nas palavras, e remeto também para tudo o que ele escreveu sobre o livro, com destaque para a clareza com que o papel de Vasco Lourenço nele é evidenciado.
Três apontamentos de leitura apenas.
- Mais de duas semanas depois de o livro estar disponível, registo, com alguma estranheza devo dizê-lo, a ausência de reacções públicas ao mesmo, apesar de algumas personalidades, de grande relevo na história recente do país (como é o caso do general Eanes), não saírem muito bem na fotografia que Vasco Lourenço delas faz.
- Mesmo se VL responde negativamente, e com grande ênfase, quando lhe é perguntado se não houve «uma dose de sorte» no sucesso das operações no dia do 25 de Abril, fica-se com a sensação contrária: ao acompanhar a descrição detalhada de todos os passos da preparação, volta-se a pensar que muitos fios poderiam ter sido quebrados, a tal ponto eles ainda hoje parecem débeis.
- VL diz, e repete à saciedade, que os militares nunca quiseram fazer uma revolução (à partida, nem sequer um golpe militar), mas apenas devolver a liberdade ao povo através de eleições livres. O filme dos acontecimentos, revisto através da leitura deste livro, mostra, com todo o detalhe e com uma clareza impressionantes, como a revolução ultrapassou imediatamente os seus principais agentes e começou de facto, na rua, no próprio dia 25 de Abril.

* Maria Manuela Cruzeiro, Vasco Lourenço, do Interior da Revolução, Editora Âncora, 576 p.

8.5.09

Estaline contra marcianos









Acaba de ser lançado em Espanha um videojogo em que o Exército Vermelho enfrenta uma invasão de marcianos durante a Segunda Guerra Mundial. Tanques contra discos voadores e a possibilidade – teoricamente impossível, absolutamente inesperada e que tanto prazer daria a muitos – de manipular, ao vivo e a cores, o próprio Estaline.
Com a diversão em pano de fundo e como única ideologia, evidentemente.

(Fonte)

Como falamos a democracia?
















Um texto de Mia Couto, a ler na íntegra.

«A questão pode ser assim formulada: como pensar a democracia numa língua em que não existe a palavra “democracia”? Num idioma em que “Presidente” se diz “Deus”? Nas línguas do Sul de Moçambique, o termo para designar o chefe de Estado é “hossi”. Essa mesma palavra designa também as entidades divinas na forma dos espíritos dos antepassados, traduzindo uma sociedade em que não há separação da esfera religiosa. (...)
Os nacionalistas africanos não ficaram à espera que um vocabulário apropriado nascesse nas línguas maternas dos seus países. Eles começaram a luta e essa mesma dinâmica contaminou (mesmo com uso de termos e discursos inteiros em português) as restantes línguas locais».

(Via Lusofilia)

7.5.09

«i», provavelmente

Price / Performance, um critério como outro qualquer: pelo mesmo 1 euro, tempo de leitura gasto com o Público x 2.

«i» por enquanto não se entranha, mas talvez...














As primeiras reacções ao novo jornal denunciam a falta de notícias. Mas «ninguém paga para conhecer o que já sabe», avisa Martin Avllez logo à partida e toda a concepção do jornal parece ter esta premissa no horizonte. Ou seja, assume-se, até certo ponto, que o público-alvo do «i» já foi informado (por jornais, rádio, televisões, internet, sms...) e que procura outra coisa. Uma ideia interessante, à partida. Mas encontra-se o quê exactamente? É cedo para tirar conclusões, mas 72 páginas, com textos por vezes longos, podem ser uma dose diária um pouco violenta para os leitores e, certamente, um ritmo difícil de manter por parte da redacção – independentemente da qualidade dos conteúdos.
Sobretudo porque os objectivos são no mínimo ambiciosos: «devolver a agressividade que os jornais diários perderam, a profundidade que os semanários esqueceram e a sofisticação que as revistas procuram» – o tal ovo de Colombo que afinal todos gostariam de descobrir, não?

6.5.09

Adeus e até ao meu regresso















Pedro Namora, que nos habituou a uma presença constante a propósito de algumas histórias bem tristes, é hoje protagonista de uma outra. Sabe-se que vai ser candidato à presidência da Câmara de Setúbal pelo PPM, porque o PC (mais exactamente a CDU), partido em que militou vinte e seis anos, vai propor alguém que ele classifica como «anticomunista dissimulada».
Entretanto, vai dizendo no seu blogue: «Cada vez me sinto mais próximo, ideologicamente, do meu Partido, o único que verdadeiramente defende os trabalhadores e outras classes sociais desfavorecidas, em Portugal». Procurará ser digno de reaver o seu «estimado cartão de militante» e,«naturalmente, no resto do território nacional», apelará ao voto na CDU (nacional? e no resto mundo?).
Portanto, para ele, Duarte Pio ou Jerónimo de Sousa – who cares? E para o PPM também vale tudo? Não há nem uns pozinhos de diferença entre ter um candidato comunista ou monárquico? Onde isto já vai...
Ao entrar no blogue de Pedro Namora (ainda?) deparamos com Álvaro Cunhal, Lenine e cinco heróis cubanos. Ficarão por lá até que regresse ao partido? E este recebê-lo-á de braços abertos?

P.S. – Não, não acho que o PC seja responsável, nem que deva pedir desculpas a quem quer que seja.

Foi você que pediu para ser espancada?

video

Transições













Que na transição do franquismo para a democracia há ainda muitas «sombras» que os espanhóis estão agora a tentar entender, explicar e desfazer, parece um lugar comum para quem se interessa minimamente por estes assuntos, tão próximos e tão diferentes em Portugal e em terras de «nuestros hermanos».
Foi o que ficou patente num colóquio – mais um – sobre «A memória da Transição», organizado pela Universidade de Valladolid, no qual se frisou de novo que o espectro de uma nova guerra civil, ou de um regresso à ditadura, acabou por enviesar muitas decisões e muitos silêncios e por estar na base de grande parte das dificuldades encontradas na aplicação da actual lei sobre a Memória Histórica.
Durante o colóquio, a grande surpresa terá sido uma única voz discordante, a de Santiago Carrillo, ex-secretário-geral do Partido Comunista Espanhol: para ele, «en la Transición se hizo cuanto se podía y se debía, por lo que creo que está bien hecha». Importa-se de repetir?

(Fonte)

P.S. – A propósito de Transições: estou quase a acabar de ler o livro de M. Manuela Cruzeiro, Do Interior da Revolução, um notabilíssimo documento de história oral, que resulta de uma entrevista de cerca de quarenta horas que a autora fez a Vasco Lourenço. Este livro deveria fazer parte de um plano nacional de leitura obrigatória - pelo menos para «políticos».

5.5.09

Multiculturalismos


















A cruz suástica é sinal de longevidade e a posição da mão representa a Fénix...

(Segundo informação de um guia - em Hue, Vietname)

Quando a desordem se torna ordem















«Quando a desordem se torna ordem, uma atitude se impõe: afrontamento».»
Esta citação que Manuel António Pina faz, no JN de hoje, fez tocar umas longínquas campainhas de feliz memória, que me levaram aos anos 60 e aos célebres pequenos cadernos da editora que foi buscar o nome à referida afirmação de Emmanuel Mounier.
MAP diz que lhe ocorreu «essa epígrafe ouvindo o inenarrável dr. Vitalino Canas reclamar nova maioria absoluta do PS em nome da "estabilidade"». Bastaria ele ter chamado «inenarrável» a Vitalino Canas para ter a minha simpatia e citação. Mas há mais: tal como ele, considero um «afrontamento» que se peça uma nova maioria absoluta em nome da «estabilidade» que temos.
Até porque há muito tempo que penso que a nossa maturidade cívica e democrática só avançará sem maiorias absolutas, com uma aprendizagem de colaboração programática e acordos pontuais entre os partidos que temos – a quem damos o nosso voto e que não são propriamente gangs de bandidos.
As discussões sobre a eventualidade de um Bloco Central, que desde ontem conseguiram ganhar prioridade sobre a gripe suína, tiram-me verdadeiramente do sério. Uns usam-na como uma ameaça a tudo e mais alguma coisa, e reclamarão o «voto útil» para evitar «a desgraça»; outros, para quem viver em estado de consenso é o principal objectivo na vida, desejam-na por isso mesmo como a salvação para todos os males.
Há um pessimismo em tudo isto, uma falta de confiança nos diferentes agentes que estão no terreno e na própria dinâmica da democracia, que não deveriam ser possíveis trinta e cinco anos depois do 25 de Abril – «como se a luta política fosse coisa má», escrevia-me ontem alguém que pensa o mesmo que eu.
Arrojo, audácia, tenacidade precisam-se – para enfrentar e para afrontar tudo o que aí está e o que ainda está para vir.

4.5.09

Não havia necessidade...



Jorge Sampaio, ao Diário Económico.

Texto na íntegra

Chegou 2ª feira e César das Neves com ela










«O mais curioso é quando um assunto a que ninguém ligou nada durante milénios pretende transformar-se de súbito em decisivo, impondo uma única solução como aceitável, que por acaso ninguém nunca considerou razoável. O casamento dos homossexuais é um extremo destes. Sempre existiu homossexualidade e jamais se viu defender que ela fosse equiparável ao casamento, mesmo em sociedades que lhe foram favoráveis.»
Também houve milhões de vítimas de formas de escravatura que hoje ninguém ousa defender. Também se matou e se morreu em nome de diferenças raças, cores e geografias. Também foram necessários anos e anos de lutas para que as mulheres começassem a ocupar o seu lugar nas sociedades. Também a pena de morte existiu durante séculos nas sociedades civilizadas e deixou de existir, ou só existe ainda nalgumas, poucas, perante a reprovação generalizada da humanidade.
Dir-se-á que estas são causas de um outro nível e de uma outra importância. E daí? Nem só de questões absolutamente transcendentes é feita a história e não vislumbro que consequências catastróficas para os séculos futuros podem resultar do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Não deve existir só porque não foi defendido na Grécia antiga ou na corte de D. Afonso Henriques?
O que César das Neves não entende, ou finge não entender, é que o progresso da humanidade existe, entre outras razões, por não se continuar a fazer o que «sempre» se fez – ou ainda andaríamos nus, como Adão e Eva, no paraíso terrestre em que C. das Neves certamente acredita.

3.5.09

Da juventude perdida, em Maio

Um pequeno-grande romance de Patrick Modiano, que nos faz vaguear por Paris, num exercício de memória e amnésia, sem dúvida um tanto melancólico, mas que vale a pena seguir (*).
De uma forma pouco linear, o autor retrata-nos a personagem da misteriosa Louki, através de alguns outros estranhos olhares. Não menos aliciante: leva-nos a ruas e a cafés onde nos reencontramos com a boémia parisiense dos anos 60.

Leitura adequada para estes primeiros dias de Maio, para sempre ligados a Paris e a 68, mesmo se não é de esperar que se repita a febre comemorativa que, há um ano, invadiu uma parte da blogosfera. O aniversário não é agora um número redondo e os ventos não sopram na direcção de efemérides mais ou menos utópicas. Mas não fará mal a ninguém (nem mesmo às justas causas de Bernardinos, Vitais e Vitalinos) recordar que em 3 de Maio, há 41 anos, a Sorbonne foi ocupada e que foi nesse dia que começaram as primeiras grandes manifestações de estudantes.
Regressam portanto Conh-Bendit e Dominique Grange (com ruídos da época...), já que ambos ainda aqui andam pelos meus arquivos.


Intervention de Daniel Cohn Bendit
envoyé par ina









(*) No café da juventude pedida, ASA, 112 p.

Ainda o 1º de Maio e as agressões

De tudo o que li e ouvi, é isto que assino por baixo:
«Quem espera uma palavra de compreensão para a cobardia desta agressão ou das intimidações não podia estar mais enganado. (...)
Importa saber o comportamento de cada partido (dos seus dirigentes) perante o sectarismo e a reacção que cada um teve a este caso concreto. O resto, é da responsabilidade de cada pessoa. A reacção e o comportamento político que cada um teve (...) é que faz escola e doutrina. É a parte política deste episódio. (...)
Vaias e agressões não são a mesma coisa. Responsabilizar os protestos sociais apoiados pelo PCP ou por qualquer outro partido por o que ali aconteceu é um absurdo. (...) Já o clima de sectarismo cada vez mais presente nas manifestações unitárias (os episódios são frequentes) é relevante neste debate. (...)
Parece-me que o PS está a esticar demasiado a corda na vitimização. Já chega. Vital Moreira não teve a sua Marinha Grande. Terá de continuar a fazer campanha.»

Daniel Oliveira
,no Arrastão