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20.6.09

Delírios no Douro

















Já chamaram muitas coisas a Pacheco Pereira, mas «Loira do Regime» é no mínimo original e deve-se ter ouvido uma enorme gargalhada perto da igreja da Marmeleira.
Normalmente, «a loira» é a estúpida, mas aqui não: Luís Filipe Menezes quer que imaginemos o personagem em questão travesti de Anita Ekberg, o que não é fácil, e diz depois umas tantas coisas sem nexo aparente e que não parecem ter nada a ver com a pessoa em causa. Dá ideia que gostou daquelas frases e as «engatilhou» numa direcção, mas que podia também estar a falar de Pinto da Costa, de Mahmud Ahmadinejad ou do cachorro do presidente Obama.

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Luís Filipe Menezes, em entrevista ao jornal «i»:
«Está a falar do combate do Dr. Pacheco Pereira, que o acusa de aparelhismo?
Pacheco Pereira é a loira do regime.
O que é isso?
Não é nada de depreciativo. Quando nos lembramos do "La Dolce Vita", de Fellini, nenhum de nós se lembra do Marcello Mastroianni, mas lembramo-nos da bela sueca a tomar banho na Fontana di Trevi. Cada filme, cada país, cada circunstância, cada momento histórico, tem a sua loira do regime. No nosso momento histórico, o meu companheiro Pacheco Pereira é a loira do regime. Ele só quer centrar todas as atenções nele, independentemente daquilo que esteja em causa. É evidente que a loira do regime é sempre má actriz. Quando se lhe dá um papel importante dá sempre para o torto - mas esteticamente é fantástica.»


P.S. - Entretanto no Abrupto, JPP critica, com toda a razão, o sensionalismo do jornal.

Burkas ou não













Só vejo certezas quando se discute a questão do porte da burka no Ocidente, trazida de novo para a ordem do dia em França, por cinquenta e oito deputados de todas as tendências, que propõem a sua proibição. Trata-se de uma reacção à aparente viragem na posição de Sarkozy que apoia Obama quando este defende que o uso da burka deve ser permitido no caso de se tratar de «uma escolha livre» da mulher (o que não será fácil comprovar, convenha-se…) Por outro lado, parece evidente que uma proibição generalizada teria como resultado que as «vítimas» se fechassem em casa.

Nada mais fácil do que concordar com os dois argumentos, certamente os politicamente mais correctos. Mas não deixa por isso de ser verdade que se trata de um fenómeno que, embora marginal, traz consigo a marca de um fundamentalismo do qual as mulheres continuam a ser as principais vítimas e que fazê-las quebrar esse cerco é certamente um dever das sociedades que as acolhem. Além de que o hábito faz também o monge , «em Roma, sê romano», etc., etc.

Enfim , dúvidas existenciais de quem não é especialmente sensível ao valor supremo da liberdade religiosa e, muito menos, à contribuição das religiões para o progresso do mundo e o avanço das civilizações.

P.S. 22/6 - A discussão continua acesa, em França.

19.6.09

Chico Buarque

Parece impossível, mas já tem – faz hoje – 65 anos. Lê aqui um trecho do seu último livro, Leite derramado, recentemente publicado em Portugal pela Don Quixote.

Entretanto na Birmânia
















Aung San Suu Kyi faz hoje 64 anos e corre na internet uma campanha com o objectivo de chamar a atenção do mundo, uma vez mais, para a situação em que se encontra a líder birmanesa. Detida pela última vez no passado dia 14 de Maio, está agora numa prisão que é célebre pelas suas péssimas condições.
Numa página do Facebook e num site criado propositadamente para a efeméride, vídeos e mensagens do mundo inteiro, bem como uma nota biográfica.

18.6.09

É ter na alma a chama imensa











Depois de uma moção de censura e de uma entrevista na SIC, todo o país está hoje em suspenso, à espera da decisão de José Eduardo Moniz! Felizmente que já se sabe que ele tem garantias: «se perder volta para a TVI, se ganhar exercerá o cargo de consultor do grupo para a Península Ibérica». Além disso, ainda bem que o seu salário, «na ordem dos 50 mil euros líquidos mensais, vai ser sustentado por um grupo de investidores estrangeiros» (já agora, que sustentem também o de Manuela Moura Guedes, se não for pedir muito).

Entretanto, vejo um Rangel (grande família, muitas famílias?...), que até conheço de andanças bem diferentes, falar agora em nome do «Movimento Benfica, Vencer, Vencer». Pois que venha o Moniz juntar-se a Jesus para que se vença – afinal o Glorioso é mesmo o melhor mesmo quando não parece, eu sou praticamente da casa e gosto de ver os amigos felizes. Desde que não se lembrem de modernices e que os sons eternos continuem a entrar pelas minhas janelas adentro.





P.S. - Afinal Moniz não avança. Quem é que estará contente? Não faço mesmo a menor ideia...

Faltavam estes para baralhar as sondagens

Uma fotografia para guardar













Tudo se passa como se o mundo fosse incapaz de prestar atenção a mais de um acontecimento e como se, nos últimos dias, só o Irão existisse. Sem nada retirar ao dramatismo dos factos, talvez não tivesse sido mau que os órgãos de comunicação social deste Ocidente semi-distraído tivessem prestado mais atenção aos quatro países BRIC que esta semana se reuniram algures na Rússia.

Responsáveis por 65% do crescimento mundial, profundamente diferentes uns dos outros, tanto nas características dos seus sistemas políticos com no ritmo do próprio crescimento, Brasil, Rússia, Índia e China «põem em causa a hegemonia ocidental, e sobretudo americana, na marcha do mundo. Sem no entanto alinharem no sonho dos altermundialistas: reclamam cogestão da mundialização, não a sua substituição. (…) Os ocidentais podem estar a ignorar, à sua custa, as dinâmicas que animam este conjunto, apesar das suas fortes contradições. É o reflexo de um mundo em que já não controlam tudo».

(Fonte, entre outras)

Reflexões talvez úteis, no dia em que os europeus se preparam para confirmar a renomeação de Durão Barroso, fingindo acreditar que ele tem o mínimo de carisma necessário para o que aí está e para tudo o que inevitavelmente se vai seguir.

17.6.09

Abstenção nas europeias? Mas houve quem votasse duas vezes…


















Soube-se agora que pelo menos um cidadão votou duas vezes no passado dia 7, uma com o Cartão de Cidadão e outra com o BI, em locais diferentes porque estava recenseado em ambos. A CNE veio hoje dizer que ocorreram mais casos, não se sabe exactamente quantos, mas em número necessariamente residual, e explica que o facto se deve a falhas em recenseamentos anteriores. Acrescenta: «A credibilidade das eleições só seria posta em causa se, generalizadamente, os cidadãos eleitores tivessem votado duas vezes. Então isso seria uma grande tristeza.» Tristeza? Ouvi em trânsito, na TSF, e nem queria acreditar. Mas está aqui.

Por razões profissionais, estive tecnicamente envolvida nos processos eleitorais das décadas de 70 e de 80 e nunca me passaria pela cabeça que, em 2009, pudessem ainda ocorrer casos como este - ou seja, que a verificação da consistência dos dados do recenseamento, a nível nacional, não fosse ainda absolutamente rigorosa e exaustiva.

P.S. - Outra dúvida? É possível ter-se simultaneamente Cartão de Cidadão e BI válido?

P.S. 2 - Não resisto a transcrever uma frase deixada pelo João Gaspar na Caixa de Comentários: «enfim, o cartão do cidadão é a pior invenção de sempre desde o rebobinador de cassetes».

Irão - A força da net


Ontem, os Guardas da Revolução (Pasdarans) ameaçaram intervir, exigindo que blogues e sites retirem tudo o que seja susceptível de «criar tensões». Por outro lado, os meios de comunicação social estrangeiros foram impedidos de filmar manifestações.

Luta inglória, no entanto, porque é inviável controlar o que se passa a nível de Youtube, Facebook e Twitter. É impossível identificar onde e por quem foi filmado o que aparece pouco depois na net e, para impedir a actualização do Twitter por SMS, seria necessário ter permanentemente parada toda a rede de telemóveis. Num «país de bloggers», a liberdade vai encontrando os seus caminhos.

Ler, por exemplo.



16.6.09

«Le plat pays» é também isto

Na belíssima Estação Central de Antuérpia

A outra esquerda














Os resultados das recentes eleições europeias trouxeram uma evidente dor de cabeça ao PS de Sócrates: a derrota foi mais expressiva do que se pensava, atingindo mínimos históricos; a direita ficou-se pelos 40%, o que torna pouco atraente o discurso choroso do "voto útil"; e a esquerda à esquerda do PS cresceu significativamente, com particular destaque para o Bloco, que ascendeu a terceira força política e triplicou o número de eleitos.

Curioso tem sido o modo como as hostes do partido do governo têm interpretado o desaire eleitoral. Algumas almas incomodadas chegaram mesmo a comparar o resultado do Bloco de Esquerda à ascensão da extrema-direita em alguns países da Europa, englobando ambos na categoria difusa dos "votos de protesto". Deixando de lado a comparação provocadora e a incapacidade de perceber a sólida dinâmica de crescimento do Bloco, a verdade é que o raciocínio é ilustrativo do modo como alguma elite política gosta de se ver a si própria: ou nós ou o caos.

Pela enésima vez, Augusto Santos Silva, o arauto do Reino, agita o fantasma da esquerda totalitária, amante dos gulags e desrespeitadora da democracia. Para além da "esquerda democrática" - obediente à NATO, incapaz de repensar o país, a Europa e o mundo num contexto de "crise" e esquecida da sua raison d'être - situar-se-ia esta "outra esquerda", espécie de lobo mascarado de cordeiro no âmago das "instituições".

Alguma razão terá Santos Silva: esta é mesmo "outra" esquerda. Uma esquerda que se sabe herdeira da história do socialismo mas que olha para o passado sem preconceitos nem medo de se transformar numa estátua de sal; uma esquerda que prefere debater ideias e apresentar propostas alternativas ao invés de responder ao chavão da "governabilidade"; uma esquerda que no dia seguinte às eleições resolveu colocar um cartaz a lembrar o flagelo do desemprego e os 200.000 homens e mulheres que, nesta situação, permanecem sem qualquer subsídio. Pensando bem, talvez seja mesmo isso que os assuste.

Um texto de Miguel Cardina

Agora os BRIC










Quando se reúnem os quarto países (Brasil, Rússia, Índia e China) responsáveis por 65% do crescimento mundial, vale a pena ler este artigo de Lula da Silva: Los países BRIC llegan a la mayoría de edad.

15.6.09

Depois, queixem-se!














Depois de Cavaco Silva, José Sócrates, PSD e CDS, chegou agora a vez de PS e Vital Moreira (afinal…) apoiarem a candidatura de Durão Barroso.
* «"A posição do nosso Governo, com a qual o PS se identifica, é de apoio ao actual presidente da Comissão ", afirmou hoje o líder do grupo parlamentar do PS.»
* «Eurodeputado Vital Moreira apoiará recandidatura de Barroso à presidência da Comissão Europeia.»

Entretanto, o passado de Durão Barroso é «revisitado» um pouco por toda a parte na Europa.
* «José Manuel Barroso, le caméléon»
* «Del maoísmo a la guerra de Irak»
* «José Manuel Barroso. Un favori mal aimé»
* «Ultralibéral aujourd’hui, maoïste hier, la boussole de JM Barroso : l’anticommunisme!»
Neste último caso, com esta pérola:
«M. Barroso a toutefois tenu à plaider la cohérence de son parcours politique : "J'ai choisi les prochinois parce qu'ils étaient les plus anti-communistes". »

Comentários para quê...

A RTP que temos













Aconteceu uma vez mais: a RTP1 só falou do Irão às 20:38 , depois do intervalo. Mas PORQUÊ???? E ATÉ QUANDO???

Quando o futuro existia

É este o subtítulo de um livro (*) que resultou de longas conversas à volta da mesa de vários jantares, entre quatro portugueses (três, mais rigorosamente, já que o quarto se naturalizou belga), todos nascidos na década de 40. Todos também emigrantes de longa duração, que começaram por recusar sobretudo a guerra colonial, que foram profissionalmente muito bem sucedidos no exílio e que optaram por continuar a viver até hoje fora do país, embora com ele mantenham ligações mais ou menos frequentes, conforme os casos e as diferentes fases da vida.

Antes de mais, importa realçar, positivamente, esta modalidade de narrativa de memórias em grupo, sob a forma oral, que serve bem os objectivos que os intervenientes se propõem: partilhar e discutir, detalhadamente, experiências e visões diferenciadas do mundo, da Europa e de Portugal, no passado e no tempo presente - longuíssimos diálogos que nos proporcionam uma leitura fácil e agradável, mas que deixam adivinhar que muitas e muitas horas de trabalho se passaram entre o gravador e o papel…

José Morais (neuropsicólogo), Manuel Paiva (físico), Jorge de Oliveira e Sousa (politólogo) e Amadeu Lopes Sabino (advogado) nunca chegam a encontrar-se com «Godinho» , o misterioso personagem que, ironicamente, está na origem do título ao livro. Dos quatro testemunhos, os dois mais interessantes são, no meu entender, o de José Morais que nos dá um fidelíssimo retrato das vicissitudes por que passou como membro do Partido Comunista (até dele sair e depois emigrar) e, principalmente, o de Amadeu Sabino.

Complexo é o percurso deste ex-PC, depois MRPP, UDP de passagem, hoje liberal assumido, europeísta com um entusiasmo que nem parece deixar lugar para quaisquer reservas quanto à actuação da Comissão Europeia (onde, aliás, é alto funcionário). O seu testemunho ilustra bem o que foi a segunda metade da década de 60, e o início da de 70, para uma parte significativa da juventude estudantil portuguesa, no caso concreto para a que foi seduzida pelo «maoísmo europeu» que era «uma utopia, uma ficção, que nada tinha a ver com o maoísmo chinês», mas que «exerceu uma força e um impulso imensos na revolução das mentes dos que o praticaram» (p. 298).

«A autodestruição da social-democracia»











João Rodrigues, no jornal «i»:

(…) «A crise poderia ser uma oportunidade para a reforma igualitária das instituições do capitalismo em que este movimento político se havia especializado há algumas décadas atrás, mas em vez disso é acompanhada pelo seu esgotamento político numa União dominada pelas direitas e pela apatia política.
Uma lição da crise é que a crise não ensina nenhuma lição, ou seja, a crise nunca gera respostas políticas automáticas, nem de esquerda, nem de direita. Tudo depende da luta das ideias e das políticas. No entanto, é preciso notar que estas lutas ocorrem num quadro que não é neutro. Na realidade, o liberalismo económico está inscrito nas regras e nas práticas económicas europeias. Este é o grande paradoxo europeu das últimas décadas: a social-democracia trabalhou para a destruição das condições institucionais - pleno emprego com direitos, sindicatos fortes, propriedade pública de sectores estratégicos ou controlo dos fluxos económicos - que tinham garantido a sua hegemonia e que favoreciam todos os imaginários socialistas.»

A ler na íntegra.

Irão

A força da resistência.



14.6.09

Ah Grande Português…

















Cristiano Ronaldo foi entrevistado por uma revista de desporto francesa (So Foot) e algumas das suas declarações estão a ter grande eco, sobretudo na imprensa espanhola. Bem humilde, o nosso herói diz que deseja «reescrever a história do futebol» e que só se sente mal quando joga mal - o que, «felizmente, é raro acontecer». Quanto a apupos, eles que venham: «Gosto de ver ódio nos olhos das pessoas». Assim sendo: «Sou Cristiano Ronaldo e posso ganhar mais do que ninguém.»

A glória vai ser curta. Quem funciona assim com a cabeça, acabará por trocar também os pés.

Ficar em casa














A taxa de abstenção, a nível europeu, foi de 57%, uns pontos abaixo daquela que se verificou em Portugal. Sabe-se agora que, da análise dos resultados de vinte inquéritos entretanto realizados, se pode concluir que o que está em causa não é o sentimento europeu propriamente dito, mas sim «incompreensão», «indiferença», «afastamento», «recusa» em relação às instituições europeias. «A única assembleia plurinacional eleita por sufrágio universal directo [o Parlamento Europeu], a primeira e única no mundo nesta situação, simboliza, manifestamente, uma Europa demasiado tecnocrática e opaca. A abstenção massiva é na realidade um voto de sanção contra o esoterismo das instituições europeias».

Nada de especialmente novo, mas que se tornou agora apenas mais evidente, com a relevância dos números a demonstrá-lo uma vez mais. Bem a tempo para que sejam introduzidas alterações de fundo e de forma – ou estaremos a dizer o mesmo, fatídica e inevitavelmente, no fim dos cinco anos que agora vão começar. Talvez com mais danos colaterais.

(Fonte)