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17.10.09

Pobre galo!

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A ilusão de que se deixa uma marca na História
















«Afinal, o que fará correr tanto tantos políticos? Lá andam eles e elas a palmilhar o país de cima abaixo, de lés a lés. Dormirão bem e o suficiente? Têm de ouvir o que ninguém gosta. Beijam quem lhes não agrada, enrugadas e mal cheirosas. Apertam mãos sujas. Nas famosas arruadas - que palavra que tão mal soa! -, esbanjam sorrisos, têm de sorrir, sorrir sempre, mesmo sem vontade. Têm de fazer promessas que sabem não poder cumprir. Em vez de esclarecerem os cidadãos, tentam tantas vezes enfeitiçá-los com discursos de sofistas. Claro que a política também é jogo, mas há tanta intriga e inveja e cilada que o espectáculo é, por vezes, pícaro e deplorável...

O poder traz prestígio, mesmo que suposto. E benesses de todo o género. E sedução e luxos e exposição e fama. E precedências e continências nas paradas e guardas de honra. E dinheiro e convívio com os grandes deste mundo. E a ilusão de que se deixa uma marca na História. E a imposição da própria vontade. E a aparência da imortalidade pelos feitos. O poder - quem o repetiu foi um político nosso, famoso - é o maior afrodisíaco.»

Quem o diz é o padre Anselmo Borges, no DN de hoje.

Dundo, memória (anti) colonial











(N.B, - Este texto foi escrito pelo meu amigo Jorge Martins que mo enviou para publicação neste blogue. Que fique como incentivo para que não percam o filme de Diana Andringa, que eu só verei na próxima 6ª feira.)

Começou o doclisboa 2009. Folheando o programa, encontramos, como de costume, muitos motivos para fazer uma aliciante calendarização de visionamentos até ao dia 25. E, para quem acha sempre que a juventude não adere a projectos culturais de qualidade, basta dar uma saltada à Culturgest, por exemplo, para constatar que o doclisboa ganhou definitivamente a juventude.

No que aos meus interesses diz respeito, bastou dar uma breve vista de olhos aos filmes da competição portuguesa para me deter em três deles, a saber: 48, de Susana de Sousa Dias; Com que Voz, de Nicholas Oulman e Dundo, Memória Colonial, de Diana Andringa. O primeiro procura, a partir de fotografias de ex-prisioneiros políticos, revisitar a ditadura portuguesa e “mostrar os mecanismos através dos quais um sistema autoritário se tentou auto-perpetuar”.

O segundo propõe-se fazer uma biografia do compositor dilecto de Amália Rodrigues, Alain Oulman, perseguido pelo salazarismo e exilado em França, com um motivo acrescido de interesse pessoal, que reside no facto de o biografado ter ascendência judaica, o que poderá permitir uma eventual leitura de influências judaicas no fado, a dita canção “nacional”.

Finalmente, Dundo, o documentário de Diana Andringa. Fui vê-lo na sessão de estreia (repete no dia 23 na Culturgest às 18.30h) e queria deixar aqui as minhas impressões. Ao contrário dos seus anteriores trabalhos, por exemplo Geração de 60; Aristides de Sousa Mendes, o Cônsul Injustiçado; Era uma vez um Arrastão; As Duas Faces da Guerra, onde a autora revelou determinantes preocupações sociais e políticas, este projecto é mais intimista.

A sua revisitação às raízes é contada na primeira pessoa. Pode detectar-se uma continuidade da ideia do último filme, As Duas Faces da Guerra (2008), na medida em que reequaciona a relação colonizador/colonizado. Perante um certo desencanto pela perda de um mundo “nostálgico” do tempo da soberania portuguesa, um dos entrevistados no actual Dundo apela para o regresso dos ex-colonizadores, agora que já são reconhecidos como pessoas.

No entanto, o fio condutor de Dundo é uma tentativa de apaziguamento interior de Diana Andringa, que, tendo como interlocutora a sua filha Sofia, procura fazer as pazes com um sentimento de culpa ilegítimo de uma criança que viveu anos felizes em Angola, situação tributária dos privilégios do colonizador branco e de “apartheid” disfarçado, mas que Diana só percebeu mais tarde. Regressou ao hospital onde nasceu e à casa onde viveu parte da sua juventude plena de boas recordações e espantou os seus interlocutores com a sua brancura africana. E, confesso, tenho uma enorme inveja de ver o brilhozinho nos olhos de todos os portugueses que viveram em África, sobretudo em Angola, quando recordam esses anos.

Diana afirma que não consegue dissociar-se da sua dupla (múltipla) identidade angolana e africana. Como Amin Maalouf, nunca se despojou das suas raízes africanas, nem deseja tal coisa. E é essa a maior riqueza humana: a multiplicidade de pertenças. Diana Andringa nunca terá que optar, mas o Dundo ocupa-lhe um sentimento maior, como é natural. Vê-se isso claramente quando se convive com ela e plenamente no filme. O que me pareceu foi que a jornalista, a activista, a antifascista, a anti-colonialista, conseguiu com este documentário “regressar” finalmente de Angola a Portugal, em paz consigo própria, uma vez que a primeira saída lhe ficara amargurada. Este segundo regresso do Dundo terá constituído a sublimação de uma culpa que não teve do colonialismo de que usufruiu, mas que combateu assim que teve consciência dele. Mas, uma coisa é saber isso, outra coisa bem diferente é fazer as pazes consigo mesma, apaziguar o seu alter-ego e concluir que agora já pode regressar pacificamente a Portugal, deixando uma segunda marca da sua presença no Dundo. Diana Andringa passou o testemunho à sua filha e encerrou um capítulo da sua vida, que estava aberto há décadas. Um documentário a não perder, preferencialmente ao lado de ex-residentes no Dundo.

16.10.09

Quanto a sondagens, estou quase a dar razão ao dr. Portas













Apesar do meu passado católico, aqui me confesso: nunca li a Bíblia de fio a pavio. Talvez tenha tentado, mas aquilo tem mais personagens do que os romances do Agualusa e quase tantos crimes como o 2666…

Ora diz-se que 9,7% dos portugueses o fizeram. Um milhão? Mas alguém acredita nisso? E têm pelo menos a certeza de que os inquiridos sabiam o que era isso de «Bíblia»? Não estariam a confundir «Bola»?

P.S. – Também nunca li as Páginas Amarelas e tenho pena.

José Manuel Pureza
















Nem mais: já está! Na noite das legislativas festejei a sua eleição para a AR, hoje regozijo-me – e de que maneira – ao saber que será o novo líder parlamentar do Bloco.

(É compulsivo: há dez minutos que não paro de imaginar futuros diálogos com Sócrates – lá passarei umas tardes em frente da tv…)

Chamar a Deus Pinheiro Plácido Domingo é manifesto exagero


… porque a cantiga é outra. Mas leiam um texto delicioso de Ferreira Fernandes, hoje no DN.

A festa

O Frágil será pequeno, vão até lá e não se arrependerão.

Eu tenho mesmo MUITA pena de estar esta noite bem longe de Lisboa e por isso aqui fica um abraço especial para a FIA, o drmaybe e o Jorge c.

Democracia e poder local

















Realiza-se anualmente, desde 2007, uma Semana Europeia da Democracia Local (SEDL). O documento que acabo de pôr online (versão em castelhano) dá uma ideia precisa da iniciativa, num conjunto de fichas relacionadas com os projectos previstos, sobre temas ligados à democracia de base.

Registe-se que, entre os 47 países membros, há 13 que não têm qualquer organização com relações regulares com a SEDL – entre os quais Portugal.

Ainda no rescaldo das eleições autárquicas, e quando tanto se fala deste tipo de problemáticas, talvez não seja mau prestar alguma atenção ao que existe e que pode – e deve – ser conhecido, aproveitado e divulgado.

(A informação em que se baseia este post foi-me enviada por Jorge Conceição, um dos leitores mais activos deste blogue.)

15.10.09

Dúvidas

… e argumentos do Pedro.

Onde pára a nossa história?












O Público publicou ontem um longo artigo que me trouxe imediatamente à memória «o crime de Lourosa», uma história de que me recordava mais ou menos vagamente, sem nunca ter conhecido os seus contornos exactos.

Chegou então a Lisboa, de boca em boca, o relato de uma rocambolesca desordem em que teriam estado envolvidos um padre, a população de uma aldeia, a GNR e talvez mortes. Pensámos que existiriam motivos políticos para que o substituto do bispo do Porto, então no exílio, retirasse o pároco de Lourosa, mas verifico agora que nem sequer terá sido o caso: há quarenta e cinco anos, nesta nossa terra, reprimia-se com violência – e matava-se – quem ousava manifestar-se com persistência.

Curiosamente, estes acontecimentos datam de 14 de Outubro de 1964, dia em que foi atribuído o Prémio Nobel da Paz a Martin Luther King.

Nós também




Quando mais valia estar calado do que dizer disparates

14.10.09

Mais lambuzadela, menos lambuzadela

Se apreciam os pensamentos e os conselhos de Laurinda Alves, não deixem de ler o que ela escreve hoje no «i».
E depois passem pelo der_terrorist.

Este grande senhor também ganhou um Prémio Nobel da Paz


Foi atribuído a Martin Luther King em 14 de Outubro de 1964.

«Aceito o Prémio Nobel da Paz num momento em que 22 milhões de negros nos Estados Unidos estão envolvidos numa batalha criativa para encerrar a longa noite da injustiça racial. Aceito este prémio em nome de um movimento de direitos civis que está avançando com determinação e um majestoso desprezo pelos riscos e perigos de estabelecer um reino de liberdade e um sistema de justiça. Estou ciente de que uma pobreza debilitante e asfixiante aflige o meu povo e o acorrenta ao degrau mais baixo da escala económica. Portanto, devo perguntar porque é que este prémio está a ser concedido a um movimento que é comprometido com uma luta incessante; a um movimento que não conquistou a própria paz e fraternidade que é a essência do Prémio Nobel. Depois de pensar a esse respeito, concluí que este prémio que recebo em nome desse movimento é um reconhecimento profundo de que a não-violência é a resposta à questão moral e política crucial de nosso tempo: a necessidade do homem superar a opressão e a violência sem recorrer à violência e à opressão (...).

Ainda creio que superaremos tudo isso. Essa fé dá-nos a coragem de enfrentar as incertezas do futuro. Dá forças aos nossos pés cansados enquanto continuamos a nossa marcha rumo à cidade da liberdade. Quando os nossos dias se tornarem lúgubres e cobertos por nuvens e as nossas noites se tornarem mais escuras que mil meias-noites, saberemos que estamos vivendo no tumulto criativo de uma civilização genuína que luta para nascer.»


(Excertos do discurso proferido em Oslo, em 10 de Dezembro de 1964)

Ficaram os Manifestos












«Se hoje Liedson marcar 5 golos (4 contra Malta e um na própria baliza) e amanhã aparecer um abaixo-assinado contra o "brasileiro" que traiu o nosso guarda-redes, vou ficar atento.»

Ferreira Fernandes, a propósito dos protestos generalizados, e até petições, contra o anúncio do Pingo Doce e as afirmações de Maitê Proença.

Um puro disparate. Mas sem um quarto acto eleitoral nem um novo discurso de Cavaco, enquanto não há nomes de ministros para discutir nem Carvalho da Silva convoca os militantes socialistas para uma manifestação, o povo podia indignar-se contra o quê?

13.10.09

Perturbações revolucionárias em Coimbra





















Com um protesto veemente aqui da periferia: esperamos que a editora não despreze os mouros, se digne organizar uma sessão de lançamento em Lisboa e garanta que Outubro também esteja à venda nas livrarias das nossas kasbahs.

Pacto prolífico de virtude

Não sei se um senhor que escreve no Público, e que dá pelo nome de Gonçalo Portocarrero de Almada, é director espiritual da drª Manuela Ferreira Leite, mas se não é podia sê-lo.
Em O matrimónio natural, património mundial, há esta, entre muitas outras pérolas:

«O casamento, mais do que amor ou união, é o pacto em virtude do qual a mulher se capacita para ser mãe, a palavra latina que, muito significativamente, é a raiz etimológica do termo matrimónio.»

Mais uma: «Também na linguagem popular, um casal não são dois machos ou duas fêmeas, mas um de cada, precisamente porque só essa união é prolífica.»

Isto mereceria uma análise mais cuidada, nomeadamente sobre as confusões na utilização dos termos «casamento» e «matrimónio» - mas, com franqueza... leiam o texto na íntegra, que a mais não me sinto obrigada.

(Está bem entregue a Vice-presidência da Confederação Nacional das Associações de Família!)

No rescaldo de Domingo
















Não era minha intenção escrever agora sobre a derrota do Bloco de Esquerda nas eleições autárquicas, mas não param os comentários e os mails em que me pedem (estou a ser meiga…) que o faça «já», vá lá saber-se porquê. Assim seja.

Mesmo excluindo o caso especial de Lisboa, fiquei admirada com a baixíssima percentagem de votos no Bloco? Gostaria que este tivesse um vereador na CML? Certamente que sim e não fui a única. Já muitos, bem mais qualificados do que eu, apontaram causas, deram conselhos, adivinharam futuros. Não vou por aí.

É-me totalmente indiferente que, dentro de quatro anos, o Bloco tenha vereadores em mais trinta Câmaras ou presidentes de Assembleias Municipais em Alguidares de Baixo e no Pulo do Lobo. Também pouco me interessa saber se Luís Fazenda deve tentar ser um pouco menos leninista ou Louçã mais sorridente.

Aquilo que espero, não agora mas desde há alguns anos, é que uma força de esquerda, menos marcada do que outras por passados absolutamente louváveis mas inevitavelmente pesados, possa servir de mola para que algo de novo nasça - como resultado de fracturas várias, certamente, mas com um vigor suficientemente significativo para romper com este anátema de vivermos num país que vota à esquerda e é governado (quase sempre) à direita.

O sucesso do Bloco nas europeias e nas legislativas fez-me crer que tudo isto poderia acontecer mais depressa do que expectável? Com certeza. Mas não é a derrota nas autárquicas, grande e indesmentível, que é neste momento o mais grave, mas sim o seu aproveitamento em mais do que prováveis guerrilhas, umas internas outras atiçadas do exterior, que poderão ajudar a matar quase à nascença esforços positivos e louváveis, e que poderão acabar por comprometer o que parecia possível.

Se isso vier a acontecer, será mais uma oportunidade perdida e é lamentável. Mas outras virão. Retomo um dos meus lemas preferidos: nada leva a crer que o mundo acabe nos tempos que aí vêm.


P.S. – Exprimi-me mal no penúltimo parágrafo e recebi reacções por mail. Não pretendo de modo algum dizer que o Bloco não deva discutir internamente o que se passou em toda esta fase eleitoral – claro que sim e só se os seus dirigentes fossem inconscientes é que não o fariam. Espero apenas que essas discussões não paralisem tudo o resto.

12.10.09

Countdown













Falta um mês, os guias já chegaram do Amazon e vou viver agarrada ao Google. A viagem vai começar…

Primeira novidade: dizem-me que não há ATM’s nem se aceita cartões de crédito. Terei de levar dólares num saquinho de pano - talvez em chita…

«Aqui impera a comédia»












Mário Soares dixit:

«La buena relación afectiva entre Soares y Sócrates, de 52 años -"me trata como si fuera su padre"-, no le impide al fundador del PS admitir las diferencias políticas entre ambos. "Estoy a la izquierda de Sócrates. Él era blairista, y yo he sido crítico de Blair desde el primer día. Me decepcionó su apoyo a la reelección de José Manuel Durão Barroso, le dije que fue un gran error".

Soares cree que la relación del primer ministro con el presidente no será fácil, y reconoce que temió un conflicto institucional a raíz de los ataques de Cavaco Silva al Gobierno y al Partido Socialista después de las legislativas. "Pero, a diferencia de España, en Portugal raramente ocurren tragedias, exceptuando las naturales. Aquí impera la comedia, cuando no la farsa"».

Comédia ou farsa, como se preferir. A prova? A questão das alegadas escutas regressa hoje ao Prós & Contras…

E se…?













À medida que se aproxima a data que será comemorado o 20º aniversário da queda do muro de Berlim, multiplicam-se os textos não só sobre o facto propriamente dito como acerca de todo o contexto histórico em que o mesmo ocorreu.

Le Figaro de hoje publica uma longa entrevista a Mikhaïl Gorbatchev, que merece ser lida. Explica a visão que o levou a abrir o país, a devolver a liberdade de movimento aos cidadãos, a reintroduzir a liberdade de expressão e de religião. «Naquela época, não tinha nenhuma hesitação, sabia que era esse o caminho a seguir. E acreditei que, assim, seria possível preservar a União Soviética. (…) Tinha todas as razões para crer que a perestroika era apoiada pela maioria.»

O golpe de Estado de 1991 deitou por terra estas esperanças e Gorbatchev diz agora que foi demasiado confiante e que deveria ter sido mais firme para evitar o pior. Tê-lo-ia conseguido ? Poderia existir hoje algo a meio de caminho entre o império de Estaline e o de Medvedev? Nunca saberemos o que seria – é matéria para a chamada História Virtual, mais do que discutível, mas pela qual há muito que tenho um irresistível fascínio.

11.10.09

Será que para a próxima terei de votar em Freixo de espada à Cinta?
















Há milhares de eleitores (ninguém sabe quantos…), portadores de cartão de cidadão, que vão hoje votar numa freguesia que não é a sua, por erro da responsabilidade da Direcção geral da Administração Interna.

Três observações:

1 – Este facto tem implicações directas nos resultados das autárquicas, já que se vota também para a Junta de Freguesia.

2 – Aparentemente, o erro deve-se ao facto de a atribuição do local de voto ter sido feita tendo em conta o código postal, e não o nome da freguesia, e à crua realidade de haver muitas freguesias que partilham o mesmo código postal. Quem programou a nova aplicação desconhecia certamente este facto mas, também, que existe uma possibilidade chamada «pesquisa alfabética» que devia ter sido obrigatoriamente utilizada, no mínimo, na fase de testes de validação e consolidação dos dados (se é que alguém ainda sabe o que isto significa) – há quarenta anos ela era muito complexa, mas foi engenhosamente aplicada desde a emissão dos primeiros Bilhetes de Identidade em computador.

3 – Certamente que o erro foi detectado, pelo menos, nas últimas eleições europeias, altura em que foram utilizados os novos cadernos eleitorais. Em mais de quatro meses, não foi possível corrigir a falha e emitir novas listagens? É uma vergonha.

(Fonte)

Outras maratonas eleitorais












Vem aí mais uma noite eleitoral, mas nem a panóplia tecnológica com que tudo se passa hoje me faz esquecer os bastidores das eleições na década de 70. Por motivos profissionais, estive envolvida no apuramento dos resultados das votações, e respectiva divulgação, e é certamente difícil para as novas gerações imaginarem, sequer, a dificuldade, o pioneirismo e o stress com que tudo se passava.

Para começar, depois da contagem dos votos, os resultados eram introduzidos manualmente duas vezes: primeiro, descentralizadamente (julgo que nas capitais de distrito), em aparelhos de telex que os enviavam para Lisboa; depois, numas outras máquinas que os transmitiam para o computador central do Ministério da Justiça – tudo isto demorava horas, sobretudo quando se tratava de eleições autárquicas onde o número de dados era muito mais elevado.

Nem entro na descrição da complexidade que era programar antecipadamente, de raiz, sem software «pré-fabricado», todas as validações e cálculos necessários para o apuramento, e passo para a noite eleitoral propriamente dita. Tudo se processava no centro de informática do Ministério da Justiça, de onde os resultados eram transmitidos, unicamente, para a RTP e para a Gulbenkian (onde se concentravam VIP’s e jornalistas). Aí eram visionados em sinistros terminais a verde e verde (recorde-se que ainda não tínhamos PC’s…) – depois, pelo menos nos primeiros anos, passava-se de novo ao manual ou à pura oralidade.

Nem sei quantas directas terei feito nestes três locais, mas era na RTP que se viviam as maiores emoções. Parecerá hoje impossível, mas a emissão da noite eleitoral de 25 de Abril de 1975, coordenada por Carlos Cruz, teve início às 19 horas e terminou… às 24 do dia seguinte – durou trinta horas. Não sei exactamente em que ano, Joaquim Letria dirigiu as operações, a partir do Estúdio 2 no Lumiar. Tinha atrás dele, preso a uma cortina, um gráfico de cartão, onde ia deslocando manualmente um ponteiro. O «drama» que vivi, durante toda a noite, foi passar dezenas de vezes por trás da dita cortina sem tropeçar num colossal emaranhado de cabos espalhados pelo chão nem tocar na cortina, o que nem sempre era possível – quando isso acontecia, o gráfico abanava e os espectadores viam em casa…

Poderia contar dezenas de histórias, mas resumo só mais uma. Por ocasião de umas eleições autárquicas, talvez as primeiras, no dia seguinte à tarde ainda faltavam os votos de uma freguesia do Norte. Localmente, ninguém conseguia encontrar o presidente da respectiva mesa, mas o inesperado aconteceu: ele acabou por chegar, em pessoa, ao Ministério da Justiça em Lisboa. Trazia a urna ainda fechada e tinha deixado à porta… o cavalo!

Factos como este são hoje puramente anedóticos, mas podem ser úteis para nos apercebermos de que o início desta etapa da nossa história democrática ainda está «à vista» e que trinta e cinco são, afinal, muito poucos anos.