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17.11.09

Entre budismos e socialismos















Como em muitos outros países budistas, os monges saem ao nascer do dia e andam pelas ruas da cidade a recolher oferendas, mas dizem-me que a tradição é mais forte no Norte do Laos e especialmente aqui, em Luang Prabang.

Quando o Sol nasce por volta das 5:30, são centenas que percorrem as ruas e recebem comida e dinheiro. Em cada família budista, há todos os dias uma pessoa que reúne o que pode e entrega de madrugada aos monges, na convicção de que o que é dado alimentará (também) os seus próprios antepassados. Se por acaso alguém sonha durante a noite com o que um pai ou um tio pode preferir, procura satisfazer em espécie esse desejo; caso contrário, a base da dádiva é sempre bolas de arroz cozido, fruta ou simplesmente dinheiro.

Diz-me o guia que nos acompanha (fluente em espanhol porque estudou em Cuba) que também ele acredita que os bens recolhidos alimentarão os seus avós. Pergunto de várias formas sugerindo que fala apenas em sentido figurado, insisto, mas a resposta é sempre negativa e absolutamente categórica. Acabo por desistir porque a racionalidade não passa necessariamente por aqui.

Pouco depois, os monges regressam aos templos e comem duas refeições, a última das quais antes do meio-dia, já que, depois disso e até ao dia seguinte, só podem ingerir alimentos líquidos. Os que recolhem alimentos nas ruas são ainda crianças ou extremamente jovens. Os mais velhos terão ficado nos templos mas não são em grande número: num país em que cerca de 50% da população tem menos de 20 anos, a vida de monge é muitas vezes temporária e, muito frequentemente, a única saída para fugir à miséria e conseguir estudar (à velha maneira das idas para o Seminário que tão bem conhecemos por aí).

É sempre difícil comunicar nestes países, em que é raro encontrar-se alguém que ultrapasse o inglês ou o francês absolutamente básico. Restam os guias e um ou outro contacto nos hotéis e não é portanto fácil tomar o pulso ao que se passa a nível político. Não se vêem cartazes com Ho Chi Minh a cada esquina como no Vietname, nem se sente os rastos da destruição dos Khmers como no Cambodja. Para além do que se lê nos livros, consegue-se conversar o mínimo para ouvir que há eleições mas um só partido, que talvez seja melhor assim porque o povo ainda não está preparado para mais, que na Tailândia é uma grande confusão. Que o sistema é parecido com o do Vietname, portanto menos duro e mais tolerante que o da China (com muita liberdade a nível de expressão e circulação, cada vez com mais propriedade privada). Cuba? «Têm muita pressa, nós havemos de lá chegar, mas à nossa maneira. Aqui acreditamos que o capitalismo é a via para o socialismo».

Será?...Mas quem sou eu para os contradizer...

Amanhã? Rumo à Birmânia…

16.11.09

No mercado de «Grande Buda da Paz»














Com ligeiras variantes segundo os países, os mercados asiáticos provocam sempre alguma estranheza aos nossos olhos ocidentais. Luang Prabang não foge à regra. Frutos desconhecidos (dragão, neste caso)

Arroz das mais variadas cores e feitios.















As rãs vendem-se vivas.















Já esquilos e gafanhotos não escapam ao espeto.



























(«Grande Buda da Paz» é a tradução de Luang Prabang)

Pôr do Sol no Mekong








































Domingo, 17:30, menos 7h em Portugal
O primeiro dia acabou ontem nas margens do mítico rio Mekong que já vem de longe quando chega aqui, vai ainda bem para Sul no Laos e segue depois para o Cambodja e Veitname, onde já me tinha encontrado com ele há meia dúzia de meses. Ontem vi-o «de fora», amanhã «navegarei» uma parte do dia.

Em Luang Prabang, todos os caminhos acabam por ir lá parar, mais cedo ou mais tarde.

15.11.09

It was a long way to Luang Prabang














Fui escrevendo isto nos aviões, completei agora já em terra. Pode ser que amanhã haja mais...

Duas horas de sono, despertar às 4h15, primeira paragem em Madrid, o prazer de comprar El País e de ler o Babelia em papel. Segunda etapa em curso - longa, muito longa, terão sido doze horas quando aterrarmos em Bangkok. Faltam neste momento mais ou menos três, penso que estaremos por cima da Índia, houve tempo para dormir, para ler mais umas dezenas de páginas sobre o Laos («o país mais bombardeado do mundo», Lonely Planet dixit) e para tirar proveito da excelência do serviço da Thai, há muito desaparecida das companhias aéreas ocidentais (na foto, as hospedeiras).
Portugal estaria já mais ou menos entre parêntesis não se tivesse dado o caso de não resistir ao título da leitura de uma vizinha do lado: «José Manuel Pureza, um “católico tresmalhado”», «cristão de inspiração marxista». Lá lhe pedi a Visão e regressei durante dez minutos aos «istas» e aos «ismos», mas arrumei-os rapidamente.
(Sábado, 19h de Lisboa)

Depois de algumas horas no gigantesco aeroporto de Bangkok, uma espécie de Centro Comercial do qual o Eng. Belmiro não desdenharia, última etapa, agora num avião a hélice um pouco manhoso, mas não há-de ser nada…
(Domingo, 3h de Lisboa)

Finalmente em Luang Prabang, em merecido descanso antes do primeiro passeio - em tuc tuc. Tudo isto parece paupérrimo, mas deve ter havido por aqui uns saltos tecnológicos porque não existe ar condicionado no hotel (que bem preciso era…), mas há wireless impecável e gratuito em todos os quartos, bem melhor do que o que me calhou em sorte, há três meses, em Paris. È assim…
(Domingo, 6,20 de Lisboa)