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6.3.10

Levantai hoje de novo?


Se gostei, como já escrevi, do que Manuel Alegre disse no Maputo sobre a língua portuguesa como factor que nos une às nossas antigas colónias, já o mesmo não se passa acerca de algumas manifestações a que assisti durante a recente visita de Sócrates a Moçambique. Estou a pensar, concretamente, no espectáculo de moçambicanos que, aparentemente com espontaneidade, cantavam o Heróis do Mar ao primeiro-ministro. Fiquei gelada. Não porque o facto em si seja especialmente importante, mas pareceu-me sintomático da complexidade das relações colonizado / colonizador.

Alguém conseguirá imaginar argelinos a entoarem a Marselhesa pelas ruas de Argel, numa qualquer visita de Sarkozy? Dir-me-ão talvez que a diferença abona a nosso favor. Não tenho a certeza: teremos deixado por lá a brandura dos nossos costumes e alguma sunserviência, o que não valorizo positivamente.

Mas é provável que a esquisita seja eu. Também fico transida quando oiço bater palmas em enterros.

P.S. - Eu, colona que nasci como portuguesa de segunda em Moçambique, não sei cantar o hino moçambicano. Mas aqui fica porque sempre o achei lindíssimo.

Largo do Rato


Há 70 anos era assim. Tão pacífico...

Matusalém (30)

5.3.10

Sem hífens


Goste-se ou não da pessoa e do estilo, Manuel Alegre fez ontem um bom discurso em Maputo, por ocasião da entrega do prémio Leya ao escritor João Paulo Borges Coelho. Na íntegra aqui.

Como comenta jpt: «Sim, o culturalismo – mas aceitável, pois discursos protocolares não são os locais para problematizações. E, pelo menos, sem hífens.»

«Isto só vai com um milagre»


«O sol da tarde resplandece no Castelo impassível, cor de oca e de ferrugem, onde flutua sempre uma bandeira preguiçosa. Olhando de fora esta multidão coloidal que adere às esquinas e às fachadas, num calmo exterior de alameda provinciana, ninguém diria que por baixo disto corre um tumulto de lava que pode arrastar-nos e subverter-nos a todos. Uma tropa de ingleses carregados de sacos de golfe passa a caminho do Palace, e olha com espanto esta gente morena e apoquentada que parece tomar a vida a sério ou esperar sempre um milagre que a salve, outras Índias, Brasis, um novo Dom Sebastião ou um terramoto.

A atmosfera, com efeito, não é a dos bons tempos. Não há os gritos, os vivas e morras, a esperança, os pugilatos de há poucos anos. Não há? Isso é o que nós veremos. Há porém expectativa, ansiedade. Não se fala de bombas, afinal o operariado está quieto. Chega a ser suspeito um silêncio assim. ‘Agora, a Campo de Ourique houve coisa!’ Crescem de novo orelhas a escutar: ‘Um grupo de populares manifestou à porta do Batalhão Ferroviário!’ Mas quem são eles, que querem eles?

No terraço dum café-bilhar sujeitos pacatos esforçam-se por consumir em paz a primeira limonada, respirar as brisas da Primavera incipiente, olhando de cima da enxurrada. Outros passam cá em baixo, magistrais, livros debaixo do braço, acenando a cabeça, discutindo o seu vient-de-paraître: são letrados, intelectuais, sábios da letra de forma, alheios ao século, interessados no umbigo do Universo intemporal. O seu reino não é deste mundo.

(…) Há na imensa praça um perpétuo vaivém, os grupos fazem-se e desfazem-se, reconstituem-se mais longe, numa agitação de folhas secas ao vento, incompreensíveis para o leigo e o forasteiro. ‘Mas esperava-se que o governo caísse!’ (Não caiu.) ‘Isto só vai com um milagre!’ murmurou um descrente. Como se nada mais houvesse neste mundo, aquém ou além-fronteiras, só se fala de crise, dissolução, défice, poder, recomposição. E a pergunta elástica lá vai saltando de boca em boca: ‘Ukèkiá? Kèkiá?’»

José Rodrigues Miguéis, O Milagre segundo Salomé.

(Texto divulgado por M. Manuela Cruzeiro em Caminhos da Memória)

E não há mesmo nenhuma organização que nos convoque para uma pequena manifestação de protesto?


Isto é falso: houve, e continua a haver, inúmeros apelos das principais organizações de dissidentes para que cessem as greves de fome.

Matusalém (29)

4.3.10

Vem aí um papa (2) - e vai ter pala


Que um designer tenha imaginação é o mínimo que se possa louvar, que pense em pedras quando se lembra de S. Pedro e do evangelho só peca por falta de originalidade. Que invente mais alguns argumentos olissipo-piedosos para defender o seu projecto é marketing puro, de mau gosto ou não, conforme e consoante.

Agora que alguém, seja que entidade for, religiosa ou autárquica, esteja disposta a pagar 200.000 euros / 40 mil contos por uma tribuna, que não vai ser usada mais do que uma ou duas horas, parecer-me-ia um pesadelo se não fosse aparentemente verdade.

Acredito que isto soe a demagogia, mas não creio que o seja. Com o mundo às avessas, sem saber como nem para onde se virar, com um aumento galopante da pobreza em toda a Europa e em Portugal também, com gente a viver na rua, ali mesmo nas arcadas no Terreiro do Paço, que sentido tem este exemplo dado por aqueles que continuam a dizer que é dos pobres o reino dos céus ou outras belas frases do mesmo quilate? O que tem isto a ver com fé, com devoção, ou seja lá com o que for no domínio do religioso?

Se precisavam de uma pala, que fossem para o Pavilhão de Portugal, onde a do Siza Vieira lá está, belíssima, digna de vinte bentos dezassete ou dezoito. Basta vê-la para parecer bem pindérica a que agora se projecta. Não caberiam tantos milhares de pessoas nas redondezas? O Parque das Nações é grande, tudo se resolveria com ecrãs gigantes espalhados um pouco por toda a parte - e até talvez a Super Bock patrocinasse o evento...

Este país é um colosso


Não só resistiu aos mouros, aos franceses, ao escorbuto nas naus, a 1755 e a décadas de ditadura, como a quatro ou cinco meses de um primeiro-ministro que se explica assim e que escreve neste português técnico.

Conselho desinteressado


… para quem esteja já em estado de depressão ou com tendência para suicídio, também para potenciais serial killers, igualmente útil para os que ainda não decidiram fugir definitivamente deste país: esta noite, mudem rapidamente de canal depois do telejornal da RTP1.

«Que fazer com estas memórias?»

O movimento «Não Apaguem a Memória!» (NAM) e o Centro de Estudos Sociais (CES-Lisboa) organizam, em Lisboa, um Seminário subordinado ao tema “Que fazer com estas memórias?”, a ter lugar nos próximos dias 5 e 6 de Março.

3.3.10

50 anos é muito tempo


Nada de menos fashionable do que falar hoje de Joan Baez. Mas ela aí está e aí anda, com os seus 69 anos e a cantar há 50. Lançou um disco - Day after tomorrow -, está a percorrer Espanha, continua a não separar intervenção social do seu papel de cantora.

Há menos de um mês, participou em «In Performance at the White House: A Celebration of Music from the Civil Rights Movement», que teve lugar na Casa Branca - com um presidente negro na primeira fila, 47 anos depois ter estado com Martin Luther King na Marcha em Washington.

Goste-se hoje ou não, ela faz parte do imaginário de várias gerações, com a autoridade merecida pelo seu activíssimo papel contra a guerra do Vietname, do qual poderia mesmo ter sido vítima durante um longo bombardeamento de Hanói, em 1972.

Para quem ainda goste, duas interpretações do celebérrimo We shall overcome: uma in illo tempore, outra precisamente em 9 de Fevereiro deste ano, na Casa Branca. Os mais sofisticados… que passem à frente.



E entre duas laurentinas


… pode ser que saia o tal apoio a um candidato. Ou não.

Nessa Angola que já foi «nossa»


Não esqueçamos Cuba, mas leia-se o que escreveu Ana Gomes aqui a propósito da prisão do padre Raul Tati, e outros, em Cabinda:
«A verdade é que, até agora, só impende sobre os presos a suspeita de "crime contra o Estado". Uma salazarenta suspeita, num processo a tresandar à metodologia salazarista.»

Leia-se também um artigo de AG publicado há alguns dias no Público: Angola: Sem uma oposição livre não há democracia.

Coisas que me tornam felizes


Ter visto o debate Passos Coelho-Rangel sem conseguir interessar-me nem um minuto pelo mesmo.

Algum deles ganhou?

Matusalém (28)

2.3.10

Engineering Paradise




Rap parody to remind folks that engineering is wicked cool. From John Cohn, IBM Fellow, Mad Scientist and cast member of Discovery Channel's post-apocalyptic survival...

Em Cuba: o próximo?


Enquanto dois dos quatro presos cubanos que entraram em greve de fome depois da morte de Zapato já a abandonaram, os restantes continuam. Mas o caso mais grave parece ser o de Guillermo Fariñas, psicólogo e jornalista, que a faz em casa para exigir a libertação dos mais de 200 actuais presos políticos.

O seu estado de saúde agrava-se, há dois ou três dias Yoani Sánchez dizia, no Twitter, que ele não aguentará muito mais, mas não parece querer ceder às pessões de todos os que lhe pedem que desista. Entre estes, a mãe de Zapata Tamayo: «Están poniendo en riesgo sus vidas ante unas autoridades que no les importa que mueran opositores pacíficos en el reclamo de sus derechos elementales».

(Fonte)

P.S. 1 - Entrevista a Guillermo Fariñas: Hay momentos en la historia en que tiene que haber mártires.

P.S. 2 - 4/3: mais notícias.

Vem aí um papa (1)


Ainda faltam mais de dois meses, mas já começou a levantar-se o véu sobre o muito que nos espera com a visita de Bento 16 a Portugal.

Fiquei hoje a saber que a conferência episcopal está a «negociar» com o governo tolerâncias de ponto ou feriados para as datas em que o papa por aqui andará: 11 e 12 de Maio para Lisboa, 12 e 13 para Leiria e 14 para o Porto. Nada está decidido mas espero para ver - com curiosidade.

Não me recordo de feriados decretados por visitas oficiais de reis ou de presidentes da república (talvez quando Isabel II veio a Portugal, em 1957?) e nem me passa pela cabeça que o governo possa encarar a viagem de um papa numa outra qualidade que não seja a de chefe do Estado do Vaticano.

Claro que nem Bento 16, nem os bispos, nem os católicos portugueses podem ser responsabilizados pelo facto de a senhora de Fátima não ter decidido aparecer num 5 de Outubro para festejar a República, então recentemente proclamada, ou num 1º de Maio com a previsão de que um dia viria a ser feriado em Portugal. Mas isso é um problema deles: da dita senhora e dos seus fiéis.

Assim sendo, e salvo melhor opinião, resta a quem quiser ir até ao Terreiro do Paço, à Cova da Iria, ou à Avenida dos Aliados, a hipótese de gastar uns dias de férias. E não é de desprezar a disponibilidade de 10,5% de desempregados que bem precisam de protecção celestial.


P.S. 1 – Realizo, neste momento, que devo chegar a Lisboa (vinda do Butão...) dois dias antes do início desta epopeia. Azar o meu porque, por pouco, escaparia ao espectáculo, mas felicidade porque não assistirei às duas últimas semanas de preparativos! Garrafa meia cheia, portanto.

P.S. 2 - «O problema é que o mesmo poderá dizer João Gabriel, porta-voz do Benfica, outro Estado dentro do Estado e religião com mais de 7 milhões de fiéis em Portugal e arredores, em vista da participação de "todos" (portistas e sportinguistas incluídos) nos festejos de cada vitória e nas lamúrias de cada derrota.» (Manuel António Pina)

1.3.10

Portugal no espaço

A Espanha às avessas


Falei, há poucos dias, de tudo o que se passa neste momento em Espanha, a propósito da contestação da actividade do juiz Baltasar Garzón.

Entretanto, muito mais foi escrito sobre o assunto, por exemplo Pedestal para el juez.

Hoje, mais um artigo em El País - España al revés -, que coloca bem a questão no seu contexto mais vasto: «La sombra del franquismo está resultando demasiado larga y su propaganda aún produce efectos. Algo en este país no va bien y no es sólo su economía. Esta España nuestra sigue al revés.»

BRICS e PIGS(R)


Os BRICS somam e seguem, a Coca-Cola agradece e, quando acordarmos, os PIGS reconstruídos abrangerão tudo isto.

28.2.10

«La verdad de mi pueblo está en la calle»


«Nuestros hermanos» nunca brincaram em serviço




José Maria Aznar deixou a presidência do governo espanhol há seis anos e «reformou-se da política» aos 51. Ou talvez não.

Já conseguiu entretanto atingir dois objectivos que tinha definido: manter-se jovem e falar inglês. O primeiro revela-se num físico apurado, com uns quilos a menos e abdominais mais firmes, o segundo num sotaque razoável e numa fluência normal. Tudo bem por aí, portanto.

Tudo igualmente bem quanto à vida numa bela casa nova em Marbella, onde flutua, vá lá saber-se porquê, uma enorme bandeira espanhola.

Tudo ainda melhor para a sua conta bancária, já que cobra cerca de 27.000 por cada uma das muitas conferências que faz e dá aulas em Georgetownn, entre muitas outras tarefas – 224 dias fora de Espanha, em 2009, o equivalente a nove voltas ao mundo.

Através de tudo isto, consolida as suas posições neocon, alinhadas com os seus pares americanos e já bem «à frente» dos conservadores europeus.

Há quem ainda se interrogue sobre fronteiras entre uma actividade política privada e simples tráfico de influências privado? Who cares!

Novidade? Nenhuma mas, desta vez, passa-se mesmo aqui ao lado. Por isso, quando leio tudo isto e muito mais, no El País de hoje, fico a pensar que os nossos ex-, PR’s ou PM’s, são verdadeiros meninos de coro! Um vive a esfalfar-se bem ou mal em Bruxelas, outros dois andam pelo mundo a tratarem de tuberculosos ou de refugiados (meu deus…), há quem se tenha retirado para Chelas e quem não descanse enquanto não se vinga de um milhão de votos que lhe roubaram. E chego mesmo a ter simpatia pelo que continua a defender túneis e congressos.

Pode ser que isto acabe com a próxima leva de ex-, que se aproxima talvez mais depressa do que previsto. Aprendam, se faz favor, olhem para nuestros hetmanos e elevem um pouco o nível da nossa presença no mundo!

Excelente para acordar numa manhã de Domingo




(Via Virgílio Vargas no Facebook)