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12.6.10

O povo canta na rua


(GAC)
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Sem grande alegria em festejos


No 25º aniversário da entrada para a  Europa, os nossos PR’s apareceram bem unidos no pessimismo e não foram meigos nas palavras.

Enquanto, para Ramalho Eanes, «esta Europa é um nada, porque não há empenhamento, liderança, e vontade», Mário Soares insiste na falta de líderes, Jorge Sampaio (no Público, sem link) diz que os sinais dados pelos governos europeus «assemelham-se mais a “tiros nos pés” do que a verdadeiras estratégias» e Cavaco Silva fala de «falta de sentido estratégico».

Bem pode Durão Barroso pedir «liderança e coragem política» aos dirigentes europeus e José Sócrates dizer que «coragem não lhe falta», que ninguém parece sequer entrever qualquer luz ao fundo do mais modesto dos túneis. Uma situação absolutamente imprevisível, há vinte e cinco anos, e para a qual não parece haver solução à vista.

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Com capas e bolos


Qualquer pessoa, com um QI medianamente normal, esperaria encontrar neste livro um conjunto mais ou menos equilibrado de cartas de Salazar para Cerejeira e do segundo para o primeiro.

Há alguns anos, dediquei algum tempo a estudar as relações ente Igreja e Estado nos últimos tempos da ditadura e o tema continua a interessar-me. Embora esperasse encontrar muitos textos já conhecidos – os que se encontram nos arquivos de Salazar na Torre do Tombo, que incluem as missivas que o então presidente do Conselho recebeu e alguns rascunhos das que enviou – convenci-me que (finalmente!) alguém tinha tido acesso ao espólio do cardeal.

Puro engano: dos 95 documentos agora publicados, há apenas 5 cartas (e um telegrama) de Salazar para Cerejeira, precisamente os tais rascunhos que é possível encontrar nos arquivos do primeiro e que eu já conhecia. Tudo o resto são textos e recados de «Manuel» para «António» e longos «anexos» (por exemplo, projectos de revisões da Concordata), quase todos enviados pelo cardeal. Ou seja: na prática, só se encontra metade do que se espera ao ver o livro nos escaparates.

Sei, até por experiência própria, que é grande a pressão na escolha dos títulos para que os mesmos «vendam». Mas creio que os limites foram aqui largamente ultrapassados e não sei a quem poderei reclamar os 19,90 euros que deixei na FNAC.

(Esta obra é o segundo volume de um projecto de investigação sobre «Salazar e os seus correspondentes», coordenado por Fernando Rosas, presidente do Instituto de História Contemporânea, da UNL.)

P.S. - Leia-se o comentário de Rui Almeida e a minha resposta.
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Só na Áustria!



(Via Virgílio Vargas no Facebook)

11.6.10

Outros futebóis

Beatriz Costa, depois de uma grande desgraça no Campeonato do Mundo de 1934
(Espanha-Portugal, 9-0)
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África do Sul: a degenerescência do ANC


No dia em que (quase) todos «se instalam» no tal Cabo, cheios de esperanças, leia-se, pelo menos nos intervalos dos jogos, este texto publicado no excelente «Passa Palavra».

«O ANC, partido que liderou todo o processo de libertação nacional, tornou-se, ao fim destes anos de poder, um perigo evidente para a integridade da sociedade sul-africana. Em vez de um projecto político colectivo de transformação da sociedade, é hoje um instrumento de “progresso pessoal” de uma elite, com o consequente agravamento das desigualdades. (…)

Pode ser verdade que o peixe começa a apodrecer pela cabeça, mas é essencial compreender que a degenerescência do ANC não resulta apenas do aumento do poder de uma elite predadora dentro do partido. Houve um tempo em que se acreditou que o poder era um projecto político colectivo que iria transformar a sociedade de baixo para cima. Agora percebe-se, em todos os níveis do partido, que ele é um meio para a incorporação pessoal numa determinada minoria que se aproveita das crescentes desigualdades da sociedade. De certo modo, este processo, mesmo que conduzindo a uma desracialização da hegemonia, não deixa muito espaço para a esperança numa sociedade melhor, se a isso limitarmos as nossas aspirações.»

Na íntegra, aqui.
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Da irresponsabilidade


O que pensarão as agências de rating, os burocratas de Bruxelas e as senhoras Merkel deste mundo, de um país que o próprio Presidente da República declara «INSUSTENTÁVEL»? Continuarão a sustentá-lo?

Tire-se este actor secundário do nosso filme ou arriscamo-nos a que este figure nas antologias de terror!
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10.6.10

10 de Junho – Do mau gosto?

Vem de longe a comemoração do dia em que Camões foi transladado para o Mosteiro dos Jerónimos, em 1880. Feriado nacional desde os anos 20 do século passado, a data ganhou um novo significado em 1944, quando Salazar a rebaptizou como «Festa de Camões e da Raça», por ocasião da inauguração do Estádio Nacional.

Mais graves, e bem mais trágicos, passaram a ser os 10 de Junho a partir de 1963. Transformados em homenagem às Forças Armadas envolvidas na guerra colonial, eram a data escolhida para distribuição de condecorações, muitas vezes na pessoa de familiares de soldados mortos em combate (fotos reais no topo deste post).

Desde 1978 que não é Dia da Raça e, para além de Portugal e de Camões, passou a festejar-se também as Comunidades Portuguesas. Mas continua a haver condecorações – outras, evidentemente, por motivos totalmente diferentes e por razões certamente muito louváveis. Talvez fosse no entanto possível ter escolhido outro dia para as distribuir, já que é quase inevitável associar qualquer distribuição de medalhas neste dia às trágicas imagens do Terreiro do Paço em tempo de guerra colonial.

Acabo de transcrever parte de um texto que publiquei, neste blogue, exactamente há um ano.

Ao ouvir o discurso de António Barreto na sessão solene desta manhã, tive um sobressalto. Não porque tenha alguma objecção contra o desfile dos antigos combatentes, nem porque não reconheça que o Estado nem sempre os tratou bem.

Mas, primeiro, porque a vertente padre Américo do actual Comissário do evento não tem cabimento: houve «soldados bons e soldados maus», sim e como é óbvio.

Segundo, porque a glorificação patrioteira da noção de «soldado português» (independentemente de ter sido «colonialista», «revolucionário» ou «fascista» - as expressões são do próprio António Barreto) me revolve as entranhas.

Terceiro e regressando a algo que já referi a propósito de condecorações: tivessem escolhido outro dos 365 dias que o ano tem para uma exaltação deste tipo. Porque, para quem já era suficientemente crescido no 25 de Abril, soldados e condecorações em 10 de Junho estarão para sempre associados a uma guerra  muito concreta. E nem ouso pensar que alguém esteja interessado em branquear esta memória.



P.S. - E antes que alguém venha comparar o que escrevi aqui com a minha posição sobre as crianças com fardas da MP em Aveiro: nada a ver! Se tivessem feito uma cerimónia no Terreiro do Paço, encenando-a como o vídeo mostra para se ver «como era», eu aplaudiria.


ADENDA - A ler:  Chega-te para lá, académico decadente e doutrinador falhado
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Novas revoluções chinesas


Ainda a pretexto dos recentes suicídios de empregados da Foxconn (em Schengen, na China), um texto que ajuda a reflectir: New Chinese Revolution: Worker Power Transforms World Economy.

«This scenario might well be called “worker power”, in which a major change in both the Chinese and world economies arises as a result of the – admittedly unexpected, but nevertheless seemingly robust – anger and frustration of the "new" Chinese working class, whose parents' hard work and strenuous effort have, in combination with low wages, made possible both the Chinese and global “economic miracles,” but which now appear to have reached a height of anger, frustration and a point of no return – with results for both China and the world that may be quite a bit different than anyone has been expecting. (…)
They have a different expectation. And once people’s attitudes about being in a factory change, other things will change.»

Para completar, e complicar, registe-se que o Japão depende fortemente de toda esta evolução na China, para a qual começará a olhar mais como um grande mercado de potenciais consumidores do que como uma fonte de mão-de-obra barata.
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(Um artigo de leitura simples e muito esclarecedora, a que cheguei através de J. Nascimento Rodrigues no Facebook.)

Um vídeo com informação adicional:
video
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Tenham esperança que isto vai


O camarada Hugo ainda nos resolve a crise com o José e com o Jerónimo.
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9.6.10

Ler a três tempos



Mesmo só para francófonos (Ver até ao fim)

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E para continuar a falar de História

Circula na net, para recolha de assinaturas, esta PETIÇÃO, mais do que oportuna e importante.

Petição Em favor do ensino da História
Para: Sociedade civil, Professores, Investigadores

Considera que o ensino da História é um instrumento fundamental para que os portugueses possam compreender a realidade envolvente, procurar a realização pessoal, contribuir para o desenvolvimento sustentável e para o aprofundamento da democracia?

Sabe que, para além das reduções do peso curricular impostas nas últimas décadas, as disciplinas anuais de História podem vir a dar lugar a unidades curriculares semestrais de História e Geografia?

Tem conhecimento de que, actualmente, para aceder aos Mestrados em Ensino da História e da Geografia no 3º Ciclo do Ensino Básico e no Ensino Secundário basta ter realizado, numa Licenciatura de três anos (180 ECTS), dois anos (120 ECTS) em ambas as áreas disciplinares (nenhuma das quais com menos de 50 ECTS)?

Subscreva a petição proposta pela Plataforma “História, democracia e desenvolvimento”, dinamizada pela Direcção da Associação de Professores de História, pelo Departamento de História, Arqueologia e Artes da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra; pelos investigadores e docentes António Borges Coelho, António Manuel Hespanha, Filomena Pontífice, Isabel Barca, João Paulo Avelãs Nunes, Marília Gago, Olga Magalhães, Raquel Pereira Henriques e ainda por Artur Santos Silva.


Manifesto “História, democracia e desenvolvimento”

As reformas dos Ensinos Básico e Secundário, Politécnico e Universitário concretizadas em Portugal nas últimas décadas contribuíram para a diminuição do peso quantitativo e qualitativo da historiografia — da história, da arqueologia, da história da arte e das tecnologias delas derivadas — nos currículos escolares. Complementarmente, as sucessivas reformas do sistema de ensino e de formação profissional têm implicado a perda de oportunidades de divulgação e de rentabilização deste conjunto de saberes como vectores fundamentais para o aprofundamento da democracia e para a promoção do desenvolvimento sustentável.

Entre outros exemplos de desvalorização da importância da história no âmbito escolar, salientam-se a menor presença ou a ausência de módulos ou disciplinas de história em muitas das ofertas curriculares, as alterações introduzidas em 2007 na formação inicial de professores (“Processo de Bolonha” e Decreto-Lei nº 43, de 22 de Fevereiro) e a continuada precariedade da formação contínua, a simplificação redutora do perfil funcional dos professores e a sistemática menorização das actividades extra-lectivas e extra-curriculares (visitas de estudo, clubes de actividade, exposições ou núcleos museológicos, modalidades de ligação à comunidade, programas de intercâmbio, etc.).

Devido às transformações entretanto ocorridas — níveis crescentes de integração social global e, ao mesmo tempo, de desigualdade entre regiões e países —, a história é, cada vez mais, um saber indispensável para os indivíduos e para as comunidades. A sua natureza estruturante e carácter extensivo, as múltiplas correlações com a realidade actual pressupõem e justificam, quer uma formação particularmente exigente dos professores, quer um contacto regular dos estudantes com a área de saber em causa. As disciplinas de história podem, assim, contribuir para a promoção de competências gerais, transversais e específicas; para combater a hegemonia da cultura de massas e do absentismo cívico.

Mau grado o suposto acesso universal à informação, a escola e, nesta, as disciplinas de história continuam a desempenhar um papel essencial na aquisição de capacidades de rastreio, selecção e interpretação de dados, experiências de vida e memórias. Porque trabalha com a multiplicidade das facetas das sociedades humanas no espaço e no tempo, a história facilita, pois, o contacto com instrumentos de análise que potenciam o combate às assimetrias socioculturais, que permitem uma efectiva capacidade individual de escolha.

Os saberes de matriz historiográfica são, ainda, economicamente relevantes. Garantem uma base sólida para tecnologias como a didáctica da História e o jornalismo, a arqueologia industrial e o património cultural, a museologia e o turismo cultural, a arquivologia e a biblioteconomia, a conservação e o restauro, a cultura organizacional e a diplomacia, o design e a publicidade, o cinema e a produção de conteúdos multimédia. Enriquecem, também, a generalidade dos outros desempenhos profissionais. Instituições públicas e organizações privadas; empresários e profissionais liberais, gestores e quadros superiores, chefias intermédias e trabalhadores são mais adaptáveis e imaginativos, eficazes e responsáveis, geram maior valor acrescentado de forma continuada quando adquirem, formal ou informalmente, competências históricas.

Quando encaradas de forma objectivante, as disciplinas de história podem, igualmente, contribuir para a formação e a consolidação de uma consciência social aberta, democrática e participativa. Fazem-no contextualizando fenómenos complexos; viabilizando posturas menos alienantes face às problemáticas da multiculturalidade e das identidades (locais, regionais, nacionais e globais; sexuais e etárias, socioeconómicas e socioculturais, político-ideológicas e étnico-religiosas); treinando-nos para lidar com as diferenças e as semelhanças, as mudanças e as permanências, a cooperação e a conflitualidade, as situações de crise ou estagnação e de progresso; tornando conjecturável o relacionamento entre o passado, o presente e eventuais cenários futuros.

Para que o ensino da história corresponda a estas expectativas é, no entanto, relevante que se baseie nos pressupostos epistemológicos, nos conceitos teóricos, nas metodologias de reconstituição e interpretação da “nova historiografia”; numa didáctica promotora da qualidade, da criatividade e da autonomia; numa escola de intervenção globalizante. Urge, deste modo, inverter a tendência descrita e encontrar soluções alternativas, debatendo, nomeadamente, planos curriculares, formação inicial e contínua de professores, legislação de enquadramento da escola e da profissão docente.
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Das tubas, clamor sem fim


Eu detesto comemorações solenes, quase temo não evitar as do 10 de Junho, que são já amanhã, e fujo quando abro o portal oficial da Comissão do Centenário da República.

Mas desde ontem já passei nem sei quanto tempo a discutir - oralmente, por e-mail e no Facebook -, a terrível ameaça que poderá constituir para a defesa da nossa memória histórica o facto de, esta tarde, umas dezenas de crianças de uma escola da Barroca desfilarem com fardas da antiga Mocidade Portuguesa, numa encenação relacionada com a vida em Portugal nos últimos 100 anos.

Mas será que não se pode representar fases «desagradáveis» da História, sem que sejam interpretadas como laudatórias? Há que apagá-las da fotografia à boa maneira soviética? Há algum perigo de fascização daquelas crianças? De quererem passar a vestir-se assim todos os dias, renunciando aos sapatos All Star ou às mochilas da Hello Kitty? E os habitantes de Aveiro vão a correr fundar um partido nazi clandestino, influenciados pelo espectáculo a que assistiram?

Parece-me haver em todo este alarido uma grande vaga de sensacionalismo e de oportunismo bacoco, muito curiosamente alimentado, em grande parte, por quem nunca se mostrou especialmente ocupado, ou preocupado, com vários atentados recentes à preservação da tal memória da nossa história recente.

(Importante ler e também e SOBRETUDO.)

P.S. - Publiquei este post à 1:14 e coloquei-o no Facebook. São 3:00am neste momento, a discussão ainda dura e já lá estão 45 comentários. A blogosfera é bem mais calma e deita-se cedo... Quem tiver acesso, pode ver aqui os comentários no Facebook.
Às 22:45: 83 comentários.
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8.6.10

O pó da simpatia


«A pensar em Madrid, pus-me a imaginar que inventavam o pó da simpatia. Inventavam-no apesar da lei do tabaco – esse pó seria como que uma espécie de rapé – e, a princípio, tinha o seu quê de clandestino. A nova intenção era capaz de transformar um país inteiro. Quem o provasse, mudava imediatamente de humor e não só sorria, como se tornava adoravelmente alegre e simpático, descontraído, atento às opiniões diferentes do próximo: elegante, discreto, inteligente, verdadeiro democrata.

Numa primeira fase, o inventor do pó da simpatia fazia os seus primeiros testes ou experiências com os taxistas de Madrid e, numa semana, mudava-lhes o carácter castiço e grosseiro, convertendo-os em pessoas que escutavam música clássica ou então recitais de poesia. A sua simpatia era tão avassaladora e as suas gargalhadas tão benéficas, que Espanha mudava espectacularmente da noite para o dia, porque eram esses mesmos taxistas de Madrid que contagiavam a revolução dos cravos e o riso: um riso que, por arte do pó mágico, se estendia aos bispos fundamentalistas e ao pessoal da Iberia e acabava de pulverizar literalmente o tradicional mau feitio dos franquistas. E o país inteiro ria e ria. Não se escreviam mais romances sobre a guerra civil e havia uma grande festa na antiga casa trágica de Bernarda Alba.

A revolução chegava a Espanha através das suas bases mais trogloditas e contagiava o reino dos cidadãos. O riso é o fracasso da repressão, ouvia-se dizer por todo o lado. E os taxistas de Madrid e os comandantes da Iberia convertiam-se na elite intelectual mais importante da Europa. E ríamos todos. Os bispos espanhóis também.»

Enrique Vila-Matas, Diário Volúvel.
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João Resina Rodrigues


Morreu há alguns dias o padre Resina. Foi meu colega em Lovaina, onde chegou depois de mim, mas já engenheiro e já padre. Conheci-o bem e recordo-o sempre com a sua proverbial e impecável discrição, modéstia e timidez. Deixo as análises e os elogios para quem com ele lidou nas últimas décadas, o que não foi o meu caso.

Doutorámo-nos na mesma Faculdade e fizemos teses em temas tão próximos (ele sobre Karl Popper, eu à volta de Rudolf Carnap), que o nosso orientador comum - Jean Ladrière, o professor mais extraordinário que alguma vez pensei que pudesse existir – se viu obrigado a evitar sobreposições. Tínhamos ambos por ele - o padre Resina e eu - uma grande amizade e uma profundíssima admiração.

Desapareceu agora o último elo que me ligava a Lovaina e à Lógica. Vítima de uma estúpida queda, segundo parece. Como poderia ser sido vítima de uma outra qualquer estupidez.

(Na foto, o Instituto Superior de Filosofia, em Lovaina)
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Cinzento


Como já aqui o disse, de mil outras maneiras, e Rui Herbon hoje escreve, neste belo texto.

«Enquanto que mentalmente podemos recriar uma imagem de Praga ou Berlim e transformá-la, na nossa câmara escura particular, em preto e branco, é bem mais difícil imaginar com os olhos fechados um postal da Índia ou da China que não esteja carregado de cor. A Europa que se apaga do mapa, deixando de ocupar o umbigo do mundo, e não só geopolítico, mas também económico e moral, guarda como uma relíquia o seu variado repertório de cinzentos. Ao contrário do novo centro mundial, localizado no Pacífico, entre a China e os EUA, os nossos telhados abrigam um estilo que vida que não consegue harmonizar o consciente com o inconsciente, e que conserva intactos dezenas de tons da chamada cor sem carácter ou cor do aborrecimento: cinza, fumo, mofo, névoa, pomba, ardósia ou pérola. Pura melancolia.»
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Brel & Béjart



Ontem, no Facebook, comecei por divulgar este vídeo, recordado pela Madalena Braz Teixeira. Espalhou-se lá e aqui fica também.

Mais um:



Outros?
* Quand on n’a que l’amour
* Rosa

Mas há mais.
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7.6.10

Fique em Portugal, de Janeiro a Janeiro


O dr. Cavaco pediu aos portugueses para passarem férias cá dentro, e não no estrangeiro, para não contribuírem para o aumento da dívida externa do país. De finanças percebe ele, e eu não, mas ainda pedirei a alguém que me explique em que exacta medida contribuí para o referido aumento da dívida, com a minha recente ida ao Butão. Mas adiante.

Se eu tivesse poder para aconselhar o que quer que fosse a quem quer que seja, faria exactamente o oposto: diria a todos os que gostam, e ainda podem (atenção: sei que já não é o caso para uma esmagadora maioria), que viajassem já, para o mais longe possível e que tentassem perceber melhor o mundo e este país visto de fora, porque isso os ajudaria certamente a pensarem de maneira diferente e a vislumbrarem, talvez, como se aprende a abrir saídas em becos.

Mas isto deve soar como chinês aos ouvidos do nosso PR, ele que, na Índia, só comeu arroz e pão porque não gosta de picante, que deu uns trocos à mulher, mas não o cartão de crédito, para ela fazer compras em Istambul e que trepou a uns coqueiros em S. Tomé, certamente para se lembrar da grande epopeia da sua vida, que foi o tempo de tropa em Moçambique. Quem lhe tira a casinha em Montechoro, ou lá onde é, tira-lhe tudo, nesse Algarve onde não ponho os pés rigorosamente há doze anos e onde só penso regressar por algum imperativo absolutamente categórico.

Mas claro que não são preferências ou longitudes que estão em causa, mas sim o princípio da história e a mentalidade que esta revela: assim que ouvi o apelo do nosso primeiro magistrado da nação, imaginei imediatamente o comandante do Titanic, em pleno naufrágio, a pedir aos passageiros que não gritassem para não ficarem roucos.

P.S. - Jornal de Negócios: «Se os portugueses trocassem as viagens ao estrangeiro por turismo cá dentro, ajudariam a reduzir o défice externo em 17,5%. Mas se os estrangeiros os imitassem, e deixassem de vir a Portugal, o mesmo défice subiria 27,2%.»
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Apocalipse Now


Evocando o fim da Guerra do Vietname, há trinta e cinco anos com a rendição de Saigão (30/4/1975), foi agora publicada uma série impressionante de fotografias, algumas delas inéditas, sobre este tremendo conflito que nunca será suficiente recordar (*).

Senti-me de novo transportada para cenários onde estive em Abril de 2009. Por muitos anos que viva, não esquecerei o War Remnants Museum, precisamente em Ho Chi Minh (antiga Saigão, como se sabe), onde se encontram algumas das imagens agora divulgadas, instrumentos de tortura e outros pavorosos testemunhos da ferocidade de que o homem foi, é e será capaz.


Devo dizer que me foi muito difícil percorrer este museu, depois de ter visitado, em Cuchi, os duzentos quilómetros de túneis que serviram de vias de comunicação, de esconderijo, de hospitais e até de salas de parto para os vietnamitas. Escrevi então neste blogue: «o que vi hoje toca os limites do inacreditável ou mesmo do inconcebível.»

Deixo, no fim deste post, dois vídeos - um sobre o Museu, outro sobre os túneis de Cuchi - e algumas fotos de «vestígios» exibidos no jardim do Museu.

Com um sentimento de «raiva» por ter um PR que aconselha, mesmo aqueles que (ainda) têm dinheiro  e gostam de viajar, a que se fechem neste claustrofóbico país. Mas isso fica para mais tarde, porque não quero misturar alhos com mais do que tristes bugalhos.

(*) Foi através de Rui Bebiano que cheguei à colecção de fotos, agora divulgada.

Nem tudo é a preto e branco


Para os interessados na inesgotável discussão sobre a Transição em Espanha, e no paapel de Baltasar Garzón, conselho de leitura:
Ni España ni su justicia han hecho la Transición
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6.6.10

E, por vezes, descobre-se um blogger


Henrique se Sousa foi notícia em 2008, quando saiu do PCP, partido onde ingressou com 18 anos e onde militou durante 39. ( Eleito para o Comité Central em 1979, integrou o núcleo do Secretariado entre 1999 e 2000.)

Foi então divulgada uma carta que dirigiu ao secretário-geral, à Comissão Política e ao Secretariado do Comité Central daquele partido - uma análise serena mas muito crítica das posições ideológicas e das linhas de acção do PCP, que merece ser lida.

Conheci o Henrique «de raspão», uns meses antes de essa carta ter sido escrita, numa dura diatribe em que estivemos em lados contrários de uma barricada, no Movimento «Não Apaguem a Memória». O suficiente para reconhecer nele uma inteligência e uma argúcia fora do comum.

Há dois dias, descobri que escreve num blogue recente – O que fica do que passa – que foi directamente para a lista dos meus «Inevitáveis», ali na barra lateral deste blogue.

Para abrir o apetite, o último post publicado: O sectarismo, doença infantil do comunismo…
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Futebol, a quanto obrigas…

No Brasil, primeiros clientes de uma nova loja que vendeu televisores com desconto, a tempo de se poder seguir o Mundial passo a passo.

Alguns dos espectadores fá-lo-ão de braço ao peito ou de perna estendida (espera-se que não de olhos vendados…), já que foram contabilizados pelo menos cinquenta feridos.


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Entretanto, na China (2)


Como adenda a este meu post, leia-se um importante artigo publicado no Público de hoje: China: a fábrica do mundo também quer ter carro e casa própria
«A China já se está a preparar para produzir em outsourcing daqui a duas décadas. É clara a sua influência em África e o cruzamento com empresários e bancos africanos. Conhecemos poucas marcas mundiais chinesas e podem testá-las nesta região antes de as lançar no mercado global. África será a fonte de mão-de-obra barata (O sublinhado é meu.)
Parece evidente que isto acontecerá. Até quando serão os africanos os elos mais fracos desta terrível engrenagem?
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