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13.11.10

Entretanto a Birmânia, já com Aung


Como previsto, Aung San Suu Kyi deixou de estar em prisão domiciliária, aparentemente (embora ainda sem certezas) com a total liberdade de acção e de movimentos, que exigiu. Apareceu às 5.000 pessoas que a esperaram longas horas perto da sua casa, voltou a entrar para reunir com os principais responsáveis do partido, fará amanhã um longo discurso quando forem 12:00 em Rangun (8:30 em Lisboa).

É grande a expectativa, não só quanto ao carácter relativamente moderado, ou não, do que disser, como às diferentes reacções que suscitará nos seus seguidores, tantas são as esperanças – certamente irrealistas – que, desde há tanto tempo, depositaram no que hoje aconteceu.

Os analistas e os responsáveis pelas organizações ligadas à defesa dos direitos humanos insistem para que a pressão internacional não abrande, não só quanto à exigência de libertação dos mais de 2.000 presos políticos existentes nas cadeias da Birmânia, como também pela segurança da própria Aung e até pela sua liberdade: ao menor pretexto, pode ser de novo detida, como foi o caso, por várias vezes, no passado.

De sublinhar que este «respeito» pelo fim do prazo, que hoje foi atingido, não deve ser interpretado como um sinal de viragem ou de fraqueza do regime, mas antes como um golpe publicitário depois das recentes eleições, destinado a melhorar a sua imagem no resto do mundo.

Não só continuam de pé todas as repressões em termos de liberdades políticas propriamente ditas, como há que ter sempre presentes duas outras realidades, pouco comentadas nos últimos dias.

Por um lado, uma corrupção ímpar a todos os níveis, desde as fortunas dos militares de topo e dos seus amigos, até ao simples acto de tirar um passaporte ou de efectuar um carregamento de telemóvel. E as brutais desigualdades sociais que daí decorrem, obviamente, num país riquíssimo em recursos naturais, onde a maioria esmagadora da população vive miseravelmente.

Por outro lado, «os maus amigos». Para além da Rússia e da China que é, naturalmente, quem mais ordena em termos comerciais, há a Coreia do Norte, com a qual a Birmânia estreitou muitíssimo as relações nos últimos anos e que está a custear a construção de um misterioso conjunto de túneis, suspeitando-se fortemente que os mesmos se destinam a desenvolvimento de programas nucleares.

Situação bem complexa e grave, portanto.

Aguardemos o que diz amanhã a «senhora» - ou a «Tia Suu», como lhe chamavam vários jovens, hoje, perto de sua casa.
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Quem o diz é o padre Anselmo Borges


«Anuncia-se uma greve geral. É preciso dar um sinal forte a todos, traduzido nestas palavras: protesto, luto, reflexão. Protesto contra a irresponsabilidade, mentira e injustiça. Luto, porque o essencial das decisões já vem de fora - Bruxelas, Berlim, FMI. Reflexão: para onde queremos ir?
Mas, quando se reflecte mesmo e se pensa na actual situação e, por exemplo, na teatralização inquietante da vida político-partidária, assalta-nos esta pergunta terrível: onde está a alternativa? Este é o drama e o perigo.»
DN.

E também uma grande oportunidade – digo eu.

(Foto: Rua do Carmo, em Lisboa - via Paulete Matos no Facebook)
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Testemunho


Francisco Louçã fez ontem anos e agradeceu as muitas mensagens de parabéns que recebeu,com este texto que publicou no Facebook e que merece ser divulgado.

Duas ou três coisas que sei da vida

Não sei como agradecer as generosas mensagens que me mandaram. Mas lembro-me de algumas coisas que a vida me tem ensinado.

Sei que tenho uma dívida. Estive uns breves dias preso em Caxias com alguns amigos, por causa de um protesto contra a guerra na passagem do ano de 1972. Desses camaradas, um deles, que já morreu, Francisco Pereira de Moura, só o voltei a encontrar muito mais tarde, quando regressei à faculdade. Tinha sido convicto católico conservador, membro da Câmara Corporativa, mas olhou para o seu país e fez frente à ditadura. Foi por isso o primeiro candidato da oposição, foi preso, voltou a ser preso. Foi demitido de professor universitário. Chegou ao 25 de Abril, foi libertado e foi ministro, e saiu quando achou que o seu tempo tinha chegado, para voltar a dedicar-se à sua paixão, o ensino. Ele sabia da dívida que tinha para com o país, o trabalhador explorado, o pobre, a mulher sem direitos, as pessoas sem dignidade. E sabia que essa dívida se paga sempre, de todas as formas. Eu sei que todos temos essa dívida.

Sei que a coragem é infinita. Estive no Chile, no Paraguai e na Argentina quando as ditaduras se tinham instalado. Encontrei padres católicos nas organizações clandestinas, trabalhadores massacrados pela vida e que se riam do desespero, os companheiros de Miguel Henriquez assassinado numa casa de Santiago, as mães da Praça de Maio que iam buscar os seus filhos que já tinha sido torturados e mortos, os índios que me falavam guarani para preservar a sua última identidade. Estive na Colômbia, e os advogados e sindicalistas que dirigiam o partido que apoiei já foram assassinados pelas milícias do narcotráfico. Para todos eles, a luta era a respiração, tudo por todos, tudo pelos outros. Aprendi que a coragem é infinita.

Sei que ninguém é feliz sozinho. Que as pessoas são imperfeitas, que buscar o génio é uma quimera, que nos cansamos uns aos outros, que há muita tristeza nas vidas, que o amor pode morrer na praia da vida quotidiana, que nunca reconhecemos quando perdemos a oportunidade de sermos generosos uns com os outros. E, no entanto, move-se, essa vagarosa terra que somos todos. E encontramos um sorriso onde não tínhamos esperança. Só agora, tão tarde, compreendo porque é que os revolucionários de 1789 escreveram "fraternidade" na bandeira tricolor. E sei que é a mais difícil das liberdades.

Sei que tudo o que existe não pode ser verdade. Foi o que me ensinou Ernst Bloch, um dos filósofos que mais aprecio e que, quando era meia-noite no século XX, o nazismo triunfava e a guerra crescia no horror infinito, veio escrever que há realidades que não são verdade. Os monstros do passado, as "forças não contemporâneas", que um dia Goya pintou a propósito da repressão pelas tropas francesas na Espanha ocupada, e que depois renasceram em todas as guerras, dos guettos da Faixa de Gaza aos bairros bombardeados no Afeganistão ou ao muceques da cidade mais cara do mundo, Luanda - esses monstros do passado não são verdade. Mas Berlusconi e Sarkozy querem expulsar os imigrantes ou prender os ciganos e Sócrates acha que o silêncio é a diplomacia certa, Cameron despede meio milhão de funcionários públicos, ao Tejo chegam dois submarinos comprados com o favor da corrupção. Sei que os monstros do passado não são verdade.

E sei que ninguém tem a última palavra.
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Notícias de uma Cimeira (1)


O cão de Obama terá uma coleira de cortiça portuguesa.
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I'm as mad as hell

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(Via José Moura no Facebook)
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12.11.10

Reciclagem «avant la lettre»


Na década de 40, a indústria cinematográfica passou a usar um processo de tratamento das películas dos filmes, que, depois de uma banho químico, eram transformadas em verniz para as unhas ou graxa para sapatos.


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À espera de Aung


A esta hora, já é dia 13 de Novembro na Birmânia - data limite para a libertação de Aung San Suu Kyi e consta que a respectiva ordem já terá sido assinada pelo governo. Mas nada está garantido até porque Aung só a aceitará se não lhe forem impostas quaisquer limitações.

São importantes as próximas horas - para ela e para esse martirizado país.

Entretanto, a «senhora» é esperada nas ruas de Rangun.
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Dizer sem dizer


Bem a propósito do que escrevi há dois dias, sobre a convocatória do VI Congresso do Partido Comunista de Cuba:

«Cuando se crece descifrando cada línea aparecida en los periódicos, se logra encontrar en medio de la retórica el grano de información que la motiva y la pizca de novedad que ésta oculta. De ahí que los cubanos seamos sabuesos de lo no expresado, peritos en descartar la palabrería y hallar –muy en el fondo– las reales razones que la mueven. El Proyecto de lineamientos para el VI Congreso del Partido Comunista es un buen ejercicio con el que afinar nuestros sentidos, un ejemplo paradigmático para evaluar la práctica de decir sin decir, que se ha constituido aquí en discurso de estado. (…)

La desconfianza es difícil de vencer y si un gobierno hunde una economía nacional con su voluntarismo y sus descabellados programas, tiene poca credibilidad al anunciar que quiere salvarla. Decepciona que ni una línea refiera a la ampliación de derechos civiles, entre los que se incluye la erradicación de las limitaciones migratorias que sufrimos los cubanos para entrar y salir de nuestro propio país. Tampoco hay una palabra sobre la libertad de asociación o de expresión, sin las cuales las autoridades se seguirán comportando más como los capataces de una fábrica que como los representantes de su pueblo.»

Yoani Sánchez
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Lamentos


«Almeida Santos, presidente do PS, lamenta, referindo-se às medidas recessivas do OE para 2011, que o Governo, por ter feito "aquilo de que o país precisa" (palmas) "[vá] perder popularidade, [vá] perder votos, porventura [vá] perder o poder".

Há mais gente, a crer nos jornais, que também lamenta. Jardim, por exemplo, lamenta que o Estado seja "ladrão". E Manuela Ferreira Leite, lamenta que estejamos (sinal da Cruz) a viver "um espírito de PREC". Quando as coisas correm mal a factura acaba sempre, mesmo quase 40 anos depois, por cair em cima de Vasco Gonçalves...

O Estado é um "ladrão" e o assustador fantasma do PREC levantou-se do túmulo para assombrar Jardim e Ferreira Leite porque um e outro não poderão, a partir de Janeiro, continuar a acumular a cornucópia de pensões e salários que recebem do Estado. Ora, esclarece Ferreira Leite, "se recebem é porque trabalharam" e trabalham (o que, como se sabe, não acontece com os funcionários públicos nem com os idosos com pensões de miséria congeladas).

Nem Almeida Santos, Ferreira Leite ou Jardim lamentam, até onde é visível a olho nu, que, como denunciam os bispos, haja quem acumule "remunerações, pensões e recompensas exorbitantes" quando "ao lado estão pessoas a viver sem condições mínimas de dignidade". Isso, para Almeida Santos, é "aquilo de que o país precisa" e, para Ferreira Leite, um "tratamento inevitável". Não é caso para lamentos.»

Este texto de Manuel António Pina, no JN de hoje, leva-me a um comentário ad latere: considero absolutamente insuportável ouvir ou ler o «choradinho» de muitos, certamente atingidos por corte de salários e subidas de impostos, mas que nem sequer deram muito por isso até agora, continuam a ter a mesma vida mais do que confortável, mas dizem que estão já a contar os cêntimos - o Facebook parece por vezes um verdadeiro muro de lamentações! Tipicamente português, marcas do fado que nos marca o destino ou algo de semelhante. Mas será bem mais desejável um pouco de decoro quando tantos milhares perderam já o emprego e não sabem como viverão amanhã. Ou não?
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As Cidades e as Praças (33)



Praça Syntagma, Atenas (1989)
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11.11.10

Violência em escalada?


É difícil acreditar mas parece que é verdade: as tão badaladas seis viaturas, que a PSP receberá dentro de dias, são «verdadeiros blindados de guerra, idênticos aos usados pelos americanos e ingleses no Iraque» - e não simples «viaturas de transporte pessoal com protecção balística», como o ministro da Administração Interna garantiu na AR.

Chegarão ou não a tempo da sinistra Cimeira que transformará Lisboa numa cidade sitiada, mas o seu destino final será «a guerra» nos chamados bairros problemáticos.

A aquisição para este fim é justificada pelos ataques de que os polícias têm sido vítimas, por armas com calibre de guerra. Acontece que julgo que não se vêem tanques conduzidos por moradores das ruas da Amadora, do Monte da Caparica ou da Quinta do Mocho. E que todos sabemos o que se passa quando se responde a violência subindo a parada, mesmo que apenas intimidatória ou preventivamente.

É por isso legítimo interrogarmo-nos sobre o significado destes factos e sobre a intenção por trás dos mesmos. Pretende-se o quê? Fomentar e reforçar atitudes xenófobas, para começar nos próprios polícias? Sejamos claros: os que vivem nesses bairros são, fundamentalmente, negros e de outras minorias étnicas, é contra eles que os tanques da PSP poderão avançar. Alguém mede as consequências e assume a responsabilidade pela evolução de tudo isto?

Há três ou quatro meses, assisti a um debate em que estavam presentes algumas dezenas de moradores desses bairros – negros, todos eles, naturalizados portugueses em muitos casos, já nascidos alguns na Maternidade Alfredo da Costa. Contaram histórias, muitas histórias. Retenho uma: a de um pai cujos filhos, crianças, se recusam a sair de casa com medo dos polícias armados que passaram a estar por tudo o que é esquina, mesmo que nada de especial se passe ou seja previsível. Quando virem chegar o primeiro tanque que o governo do engenheiro Sócrates deixará como legado securitário do seu reinado, farão o quê, essas crianças? E o que se espera que sejam dentro de dez ou quinze anos? Pacíficos e dóceis eleitores? Haja juízo – não me parece que seja pedir muito!


Vive-se e faz-se música nos «bairros problemáticos»:


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Com dedicatória aos senhores do G20 (2)

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Porque também com símbolos se faz História


… seria uma maravilha se o governo de Berlusconi caísse porque ruiu a Casa dos Gladiadores, na Rua da Abundância, em Pompeia.

(Notícia)
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Com dedicatória aos senhores do G20


Em ponto mais do que morto.

(Via Passa Palavra)
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10.11.10

Já foi mentira de 1 de Abril!

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Neste caso, na televisão francesa, em 1/4/1972:


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Para além de um congresso


Como tem vindo a ser noticiado, Raúl Castro convocou, para a segunda quinzena de Abril, o VI Congresso do Partido Comunista de Cuba, no qual serão definidas as novas directivas económicas para o país, depois da recente decisão de alargar o campo de actividade da iniciativa privada.

Anunciou também que:
«El Congreso no es sólo la reunión de quienes resulten elegidos como Delegados, sino también el proceso previo de discusión por parte de la militancia y de toda la población de los lineamientos o decisiones que serán adoptados en el mismo. (…)
Por tal motivo el sexto será un Congreso de toda la militancia y de todo el pueblo, quienes participarán activamente en la adopción de las decisiones fundamentales de la Revolución.»


Porque lhe manifestei a minha perplexidade perante esta sua «crença», e porque a resposta não me convenceu, insisto. Podia referir um sem número de temas, mas limito-me a uma única questão:

Como é que se pode acreditar que um governo deseja mesmo «a participação de todo o povo» nas decisões e ao mesmo tempo não quer, em solo cubano, cidadãos seus que disse que libertaria e não liberta? Em 7 de Julho passado, depois de uma mais do que discutível intermediação de bispos cubanos e de políticos espanhóis, houve um compromisso público de libertar 52 opositores, do Grupo dos 75, num prazo máximo de quatro meses (prazo agora expirado, portanto). Foi entretanto concedida a liberdade a todos os que aceitaram partir para Espanha ou para os Estados Unidos, e até a outros não incluídos no grupo inicial, mas não aos que afirmaram recusar sair de Cuba – esses, os tais 13, continuam presos. Todos classificados como «prisioneiros de consciência» pela Amnistia Internacional.

Que sentido faz proibir algumas saídas como, por exemplo e repetidas vezes, viagens pontuais de Yoani Sánchez ao estrangeiro e, ao mesmo tempo, obrigar outros a partir sob pena de continuarem encarcerados? É assim que se «envolve o povo»? É isto admissível em qualquer tipo de democracia? Necessário para a construção do socialismo???
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Mr. President, I presume


«Na semana que passou, o candidato Cavaco desperdiçou uma bela oportunidade para não alardear o estilo viscoso e rasteiro do seu eleitoralismo. Como um abutre salivando por carniça, despejou no «twitter» resumo do que extraiu do debate parlamentar sobre o Orçamento: “Vejo com muita apreensão o desprestígio da classe política e a impaciência com que os cidadãos assistem a alguns debates.”

Com uma só bicada, ensacou por junto todos os partidos e deputados que intervieram no debate, quando, em rigor só lhe seria legítimo verberar os que ele, Cavaco, tanto se esforçou por amigar: o PS/Governo e o PSD/Belém. CDS, PCP, Bloco de Esquerda e Verdes produziram intervenções dignas e pensadas, chegando mesmo a reprovar o desmando argumentativo do Arrufo Central. Mereciam ser excepcionados e louvados pelo dito magistrado de influência, mas como o pensamento deste voa tão alto como um crocodilo, lá ficaram na roda de serem todos iguais. Só ele, o apreensivo, não. (…)

A rasteira maior foi ter usado o «twitter», uma rede social muito frequentada por jovens, possivelmente os mais carentes de exemplo cívico e de sentido para o seu futuro colectivo, que escusavam de saber que o candidato Cavaco não tem mais filosofia do que um avinagrado motorista de táxi: “São todos iguais.”»

Na íntegra aqui.
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Os «donos do mundo» (re)viram à esquerda?


Título de um artigo publicado hoje em Rue89.

Pascal Lamy, presidente da OMC (Organização Mundial do Comércio):
«Desde há alguns anos que me interrogo sobre as raízes culturais e antropológicas do capitalismo de mercado que é intrinsecamente injusto e cria cada vez mais tensões nos recursos humanos e culturais.»

Jean-Pierre Jouyet, presidente da AMF (Autoridade dos Mercados Financeiros):
«Não vejo por que razão um “trader” deve ganhar duzentas vezes mais que um engenheiro que constrói pontes, a utilidade pública da troca algorítmica de acções parece-me menos imediatamente útil do que a construção de pontes.»

Dominique Strauss-Kahn. Presidente do FMI:
«O crescimento não é tudo, é necessário que crie empregos decentes. Estamos no início de uma nova maneira de ver a economia.»

Se são eles que o dizem… Registo e ganho alento: isto um dia mudará.
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9.11.10

Antes que o dia acabe, mais um 9 de Novembro


A França comemora hoje o 40º aniversário da morte do General de Gaulle.

Um pretexto para divulgar este magnífico documentário sobre a libertação de Paris, em 25 de Agosto de 1944. Nesse dia, De Gaulle entrou triunfalmente na capital francesa (na foto) e fez, no Hotel de Ville, um curto discurso (início ao minuto 23:57 do vídeo) do qual ficou uma frase para a História: «Paris outragé ! Paris brisé ! Paris martyrisé ! mais Paris libéré!»


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Um outro 9 de Novembro - «É apenas fumaça!»

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Numa tarde de Domingo, há 35 anos, a pouco mais de duas semanas do 25 de Novembro de 1975, PS  e PPD convocaram uma manifestação para o Terreiro de Paço, de apoio ao VI Governo Provisório e ao primeiro-ministro Pinheiro de Azevedo. Também presentes o CDS e o PPM.

Enquanto Pinheiro de Azevedo fazia um violento discurso contra os «esquerdistas», deflagraram granadas de fumo e de gás lacrimogéneo, e alguns tiros, que assustaram muitos mas não conseguiram alterar a lendária calma do primeiro-ministro. E as imagens ficaram para a história.



P.S. - Será necessário dizer que EU NÃO ESTAVA no Terreiro do Paço?
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Raiva


13:00, hoje, parque de estacionamento da Loja do Cidadão das Laranjeiras, em Lisboa. Uma mulher portuguesa, de cerca de 40 anos, vestida normalmente sem sinais exteriores de pobreza, nem qualquer sintoma aparente de adicção, pediu-me esmola. Dei-lha, desajeitadamente, e percebi que ela não queria falar. Limitou-se a agradecer e foi-se embora com o sorriso mais triste deste mundo. Um enorme murro no estômago: não estava à espera desta realidade tão depressa.


Dois milhões de contos. Espero que ninguém venha defender que é normal, porque aviso já que nem estou com paciência para argumentar.
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O fim de um muro, que mudou o mundo


O 20º aniversário da queda do Muro de Berlim foi celebrado em 9 de Novembro de 2009 com um conjunto de iniciativas e de publicações que todos temos ainda presentes. 

Mas como nem só de números redondos se alimenta a memória, republico hoje um conjunto de fotografias e pequenos vídeos (estes especialmente interessantes), entre os quais um com um excerto do discurso de J.F.Kennedy, em 26/6/1963, onde se ouve a célebre frase: «Ich bin ein Berliner». (Ver na totalidade do ecrã.)



A ler: este texto de Mikhail Gorbachev, publicado há um ano em El País:
20 años después del Muro la historia continua
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De volta, as queridas cadeias


Desta vez a do Prémio Dardos que me chegou através da Paula Cabeçadas e do seu Suite de Ideias.

Vai direitinho para a Helena, não só mas também pelo trabalho que tem tido a responder a comentários neste blogue…

«O Prémio Dardos é o reconhecimento dos ideais que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc.... que, em suma, demonstrem a sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre as suas letras e as suas palavras. Estes selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre blogueiros, uma forma de demonstrar o carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web.»

P.S. - Detectei mais uma nomeação: muito obrigada ao Luís Novaes Tito e à sua bela Barbearia.
Agradeço também ao T. Mike do João olhos no mar e ao Pedro Correia do Delito de opinião.
(Com pedidos de desculpa para os que me tiverem escapado.)
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8.11.10

Pare, veja e compre

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A leitura do primeiro romance de João Paulo Guerra é um prazer e também uma excelente surpresa porque vem cobrir uma grave lacuna do que (não) se vai publicando entre nós: ficção de qualidade, baseada em factos reais do nosso período revolucionário de 74 e dos tempos que se seguiram.

O tema central do livro é a descrição detalhada de uma conspiração ligada à Gládio, uma rede internacional de serviços de informações, de origem italiana mas que actuou em vários países, Portugal incluído. Factos, e consequências dos mesmos, muito pouco divulgados e desconhecidos mesmo de quem julga ter vivido por dentro revoluções e contra-revoluções e que se passaram não só em Lisboa mas, também e muito, em Madrid, Luanda, Itália e Açores.

O texto parte de um facto, também real, e esse sim na memória de muitos: a morte de um homem em 1 de Maio de 1964, nos Restauradores, durante as habituais correrias de fuga à polícia, em mais uma tentativa de manifestação, proibida mas «sagrada» todos os anos naquela data. No romance, esse homem é pai de Paulo, a figura central do livro, então com 12 anos e que assiste à cena que o vai marcar para o resto da vida. Na realidade, trata-se de um episódio presenciado por João Paulo Guerra, na altura estagiário do Rádio Clube Português, que registou os sons mas viu o gravador ser apreendido pela polícia.

O 25 de Abril, o assalto à PIDE no dia seguinte, o 1º de Maio e muitas outras descrições, através dos olhos de «Paulo», levarão uns a recordar e muito outros, mais novos, a conhecer detalhes e ambientes.

A não perder. À espera do que certamente se seguirá na obra do autor.

João Paulo Guerra,Romance de uma conspiração, Edições Oficina do Livro, 236 p
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Para a Agenda


AUDITÓRIO DA LIVRARIA LER DEVAGAR
ESPAÇO LXFACTORY | ALCÂNTARA | LISBOA
PROGRAMA

SÁBADO 13 NOVEMBRO
10.00 h – Abertura
10.30 h - Cartas de um preso político para a sua filha
Ana Barradas
11.00 h - O PCP e a PIDE perante a homossexualidade
São José Almeida
11.30 h – Debate
12.00 h – Almoço
14.00 h - Desertar contra a guerra colonial – os núcleos de desertores na Europa
José Manuel Lopes Cordeiro
14.30 h - Um maoísmo português?
Miguel Cardina
15.00 h - A segunda vaga do movimento operário português
Ângelo Novo
15,30 h - Debate

DOMINGO 14 NOVEMBRO
10.00 h - O PCP e a Revolução Democrática Nacional
Jorge Nascimento Fernandes
10.30 h - Os Cadernos de Circunstância e o jornal Combate
Ricardo Noronha
11.30 h - Debate
12.00 h - Almoço
14.00 h - O PCP e o V Governo
Raquel Varela
14.30 h - Do 25 de Abril do Povo à 3ª cisão do PCR/UDP e a constituição da Política Operária
António Barata
15.00 h – Debate

Leitura para eurocêntricos


«E como a memória é curta, convém sempre dar uma espreitadela à floresta antes de descascar a árvore. No caso da China, o apelo à memória adquire especial relevância, por um motivo muito simples: o Ocidente é vulgarmente amnésico em relação à importância das civilizações não-europeias e enferma geralmente do "mal colonial" (ou "arrogância imperial", para ser mais exacto) que tende a considerar a civilização europeia como o centro do mundo (…)

Desenganem-se todos, meus caros: a China tem uma história de 4 milénios, na qual comunismo ou capitalismo são meros acidentes de percurso, episódios momentâneos, e não é a primeira vez que domina a economia mundial; nós é que, durante muito tempo e sempre preocupadíssimos com o nosso umbigo, achámos que não, que quem marcava o compasso eram as cascas de noz com que passávamos as Tormentas, as armaduras do Albuquerque e as cruzes de S. Francisco Xavier. Depois, para épocas mais recentes, iludimo-nos com o "55 Dias em Pequim" e as imagens de uma China faminta de arroz e vestida de uniforme azul à Mao. O acordar da ressaca é sempre desagradável.»

Façam o favor de ler, na íntegra, o texto do Paulo Pinto.

Destaco: «comunismo ou capitalismo são meros acidentes de percurso, episódios momentâneos». E não só na China – assim o espero!...
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Uma data importante para a História


Há 50 anos, em 8 de Novembro de 1960, John Kennedy foi eleito presidente dos Estados Unidos, vencendo Richard Nixon por 0,2% dos votos.

O facto será hoje objecto de notícias mais ou menos detalhadas, nos jornais do fim-de-semana foram já muitos os copy / paste da Wikipedia.

Três vídeos da época:

A escolha dos candidatos:


A vitória de Kennedy em 8/11/1960:


A tomada de posse em 21/1/1961:

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As Cidades e as Praças (32)




Praça Luza, Dubrovnik (2010)
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7.11.10

Do parolismo



Para quê fazer exercícios de redacção quando encontro já escrito o que pensei várias vezes durante estes dois dias:

«O que é doloroso, a mediocridade dolorosa de ver, aloja-se em dois pontos: por um lado a ideia de que Portugal é a portagem para a entrada na África “lusófona”, a ideia transportada para a tv da perenidade do olhar colonial – e como tal para os países africanos onde se recebem as estações portuguesas, com os efeitos óbvios na opinião popular e nos agentes políticos. O parolismo destas elaborações é total. E não há meio disto terminar, nem mesmo quando a realidade as mostra totalmente anacrónicas. Sim, as negociações de Cahora Bassa mostraram essa triangulação. Sim, diz-se que as andanças da banca portuguesa em Angola também comportam essa tríade (no sentido literal e no sentido metafórico). Mas é um absurdo insistir nessa tecla do “facilitador” Portugal. Pois a China não precisa de “facilitadores”; pois o tempo do Portugal “protector”/”potentado” passou (só alguns comentadores e meia dúzia de intelectuais socialistas é que ainda não se descolonizaram). E, finalmente, e o mais importante, entender Portugal como facilitador das relações entre China e os países africanos – para além de menorizar o país – é um contrasenso político. A articulação portuguesa, e a europeia, com os países africanos passa pela condicionalidade política. Exactamente o contrário da prática chinesa. Este discurso “facilitador” (que é do comentador Rogeiro mas também dos políticos portugueses) é uma radical contradição. E avançam-no sem qualquer hesitação. Não é apenas a falta de princípios mas a elaboração (e em discursos oficiais, como o de Sócrates há uns anos e como o do PR agora, para além dos de agentes menores) de uma total ausência de norte. Um desnorteio político. Uma incompetência.»
jpt, no ma-shamba.
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Conselhos úteis (4) - Prudência


«Cuidado com aquele que tem a língua doce e uma espada à cintura. Um inimigo declarado é perigoso, mas um falso amigo é pior.»

(Conselho chinês, na hora do adeus a Hu Jintao)
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Entretanto, hoje na Birmânia


As urnas fecharam em Myanmar, às primeiras horas do dia de hoje em Portugal, nas primeiras eleições gerais dos últimos vinte anos, depois de Aung San Suu Kyi ter vencido as últimas sem que, como é sabido, tivesse ocupado o cargo que lhe era devido.

Ainda em prisão domiciliária, apelou para o boicote às urnas e parece ter sido ouvida, já que, aparentemente, terá reinado a indiferença e sido reduzida a afluência às urnas dos cerca de 28 milhões de eleitores.

Foram trinta e sete os partidos inscritos, numa aparente «democracia» para o resto do mundo ver, sabendo-se que, na prática, só contam duas formações políticas intimamente ligadas aos militares que têm dominado ferreamente o país. Sem cobertura jornalística nem observadores estrangeiros, não eram esperadas grandes fraudes eleitorais, excepto em «chapeladas» de votos se a abstenção tiver sido escandalosamente alta.

Depois de cinco décadas de ditaduras brutais, de vagas de repressões culminadas em banhos de sangue, com mais de 2.000 presos políticos, com um terço da população abaixo do limiar da pobreza, Myanmar é um país riquíssimo em recursos naturais (gás, madeiras de várias espécies, pedras preciosas de primeira qualidade, etc., etc.).

Vão libertar muito em breve Aung - «a senhora», como lhe chamam carinhosamente os birmaneses -, os militares deixam de dominar oficialmente o país, já que tiveram de despir o uniforme para poderem concorrer ao acto de eleitoral de hoje, algo está a ser feito porque é necessário romper o isolamento internacional e admitir um certo grau de liberalização económica para atrair investimento estrangeiro.

Mas o caminho a percorrer é longo e este país, lindíssimo e terrível, merece toda a atenção do resto do mundo. Estive lá há um ano e gostava de poder regressar um dia a uma terra livre, sem corrupção nem cenários de miséria gritante. Talvez.

(Fonte), entre outras.
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