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11.12.10

Desigualdades & inseguranças


Em Le Monde Diplomatique deste mês, um excelente artigo de Sandra Monteiro. A não perder.

CIMEIRA DA OTAN, GREVE GERAL
As desigualdades são a maior insegurança

No final de Novembro, com poucos dias de intervalo, Portugal foi palco de dois acontecimentos que mostram bem como existem, em linhas gerais, duas narrativas em disputa sobre o que se entende por segurança. O primeiro foi a Cimeira da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), que teve lugar em Lisboa a 19 e 20 de Novembro, e o segundo a Greve Geral de 24 de Novembro, a maior que o país conheceu em toda a sua história. A Aliança Atlântica privilegia uma concepção de segurança como resposta político-militar a ameaças que, em qualquer parte do globo, ponham em causa os interesses estratégicos dos seus Estados-membros. O movimento de contestação às políticas de austeridade que se traduziu na Greve Geral entende a segurança como a construção de sociedades de bem-estar, processo em que é dada prioridade ao combate às desigualdades socioeconómicas.

A primeira narrativa toma como um dado a existência, e até a multiplicação, de ameaças à segurança (das convencionais às sanitárias e ambientais), não actuando sobre as suas causas e acabando por recorrer a meios que tendem até a agravar os problemas A segunda narrativa procura intervir sobre as causas fundamentais da insegurança que corrói as sociedades (das assimetrias de rendimentos à injustiça fiscal, ao desemprego ou à pobreza), inserindo-se numa história de movimentos sociais que tem sido responsável pelas configurações de sociedades mais estáveis e morais, mais coesas e seguras, que conhecemos. (…)

É a clarificação de posições divergentes que dignifica a informação e o debate de ideias e que permite que os cidadãos participem na democracia como coisa sua. A imagem meramente ritualista dos acontecimentos, seja ela positiva ou negativa, que ignora os seus contextos e o que de substantivo neles está em jogo, assemelha-se, na melhor hipótese, a esses alimentos-lixo que podem dar alguma satisfação momentânea mas são vazios de nutrientes ou, na hipótese pior (mas realista), esconde a imposição mediática de falsos consensos políticos que só traduzem uma relação de poder. E, nas condições actuais, bem se sabe de que lado está o poder, o dos que tudo podem fazer, sem nunca pagarem por isso, porque outros são sempre chamados a pagar a factura. Até que um dia a devolvam ao remetente, de preferência com juros de mora e indemnização por danos causados.

(Na íntegra aqui.)
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Espantoso

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Neve em Paris, de novo e a sério.


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Deve ser dos nervos…


… ou a explicação está na última frase?
«Uma das medidas em cima da mesa é a criação de um fundo para financiar os custos do despedimento. A solução, inspirada no modelo espanhol, impedirá os patrões de usarem o argumento dos elevados custos do despedimento como justificação para não criar novos postos de trabalho. Dessa forma, o Governo pretende também influenciar os indicadores internacionais, que colocam Portugal entre os países onde as rescisões individuais de trabalhadores efectivos são mais dispendiosas.»

Será que isto não é óbvio?
«É uma ideia totalmente peregrina que vai no sentido contrário ao necessário, que é gerar emprego. Serve apenas para que os patrões possam despedir sem encargos e depois contratar com mais precariedade e piores condições de trabalho.»

(Daqui)
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Samba Wikileaks

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(Via Rui Tavares no Facebook)
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10.12.10

A memória é uma coisa lixada!



«Na véspera e no próprio dia [1 de Maio de 1973], a Pide DGS efectuou dezenas de prisões preventivas em Lisboa, no Porto, Margem Sul e noutras terras.»
Avante! clandestino, Maio de 1973, p.3.
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Em Oslo, sem Liu Xiaobo


Texto lido por Liv Ullmann, hoje em Oslo, durante a cerimónia de «entrega» do Prémio Nobel da Paz. Trata-se do discurso que Liu Xiabbo fez durante o seu julgamento, em 23 de Dezembro de 2009, antes de ser condenado, dois dias depois, a onze anos de prisão e dois de privação de direitos políticos.

I Have No Enemies: My Final Statement

In the course of my life, for more than half a century, June 1989 was the major turning point. Up to that point, I was a member of the first class to enter university when college entrance examinations were reinstated following the Cultural Revolution (Class of ‘'77). From BA to MA and on to PhD, my academic career was all smooth sailing. Upon receiving my degrees, I stayed on to teach at Beijing NormalUniversity. As a teacher, I was well received by the students. At the same time, I was a public intellectual, writing articles and books that created quite a stir during the 1980s, frequently receiving invitations to give talks around the country, and going abroad as a visiting scholar upon invitation from Europe and America. What I demanded of myself was this: whether as a person or as a writer, I would lead a life of honesty, responsibility, and dignity. After that, because I had returned from the U.S. to take part in the 1989 Movement, I was thrown into prison for "the crime of counter revolutionary propaganda and incitement." I also lost my beloved lectern and could no longer publish essays or give talks in China. Merely for publishing different political views and taking part in a peaceful democracy movement, a teacher lost his lectern, a writer lost his right to publish, and a public intellectual lost the opportunity to give talks publicly. This is a tragedy, both for me personally and for a China that has already seen thirty years of Reform and Opening Up.

When I think about it, my most dramatic experiences after June Fourth have been, surprisingly, associated with courts: My two opportunities to address the public have both been provided by trial sessions at the Beijing Municipal Intermediate People's Court, once in January 1991, and again today.

Twenty years have passed, but the ghosts of June Fourth have not yet been laid to rest. Upon release from Qincheng Prison in 1991, I, who had been led onto the path of political dissent by the psychological chains of June Fourth, lost the right to speak publicly in my own country and could only speak through the foreign media. Because of this, I was subjected to year round monitoring, kept under residential surveillance (May 1995 to January 1996) and sent to Reeducation Through Labor (October 1996 to October 1999). And now I have been once again shoved into the dock by the enemy mentality of the regime. But I still want to say to this regime, which is depriving me of my freedom, that I stand by the convictions I expressed in my "June Second Hunger Strike Declaration" twenty years ago I have no enemies and no hatred. None of the police who monitored, arrested, and interrogated me, none of the prosecutors who indicted me, and none of the judges who judged me are my enemies. Although there is no way I can accept your monitoring, arrests, indictments, and verdicts, I respect your professions and your integrity, including those of the two prosecutors, Zhang Rongge and Pan Xueqing, who are now bringing charges against me on behalf of the prosecution. During interrogation on December 3, I could sense your respect and your good faith.

Politicamente incorrecta me confesso


Vai grande o burburinho porque Carlos César decidiu tirar partido das prerrogativas que a autonomia regional lhe confere e «compensar», em termos salariais, algumas categorias de açorianos que dele dependem.

De Belém a S. Bento, da Quadratura do Círculo à grande maioria dos mais insuspeitos jornalistas e comentadores, grassa uma indignação praticamente unanimista contra o presidente do governo dos Açores, em nome da fidelidade devida às decisões do seu partido e, sobretudo, da solidariedade necessária entre ilhéus e patrícios do Continente.

Mesmo muitos que consideraram que não se resolvem crises como aquela que atravessamos com cortes no poder de compra, já tão limitado, dos trabalhadores portugueses, parecem agora considerar que a decisão do governo de Sócrates / Barroso se tornou repentinamente «justa» porque alguém decidiu não a respeitar. E, num hábil jogo de cintura, condenam Carlos César acusando-o de agir movido por intenções eleitoralistas, no seu território e não só. É bem provável que o faça. E daí? De más intenções também está o paraíso cheio.

P.S. – Acabo de ler que, ontem, Manuel Alegre defendeu a decisão do Governo Regional dos Açores. Até que enfim!
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Concentração em Apoio à WikiLeaks


No próximo sábado, e em consonância com todo um movimento internacional de mobilização, convidamos todos os cidadãos que pensam que a liberdade de expressão e o livre acesso à informação são direitos inalienáveis, a concentrarem-se a partir das 15h no Largo do Chiado, em Lisboa.

Apelamos ao fim do bloqueio da Wikileaks que tem vindo a suceder por parte de várias empresas; apelamos ainda à não extradição de Julian Assange pelos riscos de vir a ser desrespeitado o seu direito a um julgamento justo devido a pressões internacionais.

Mas a WikiLeaks é mais do que uma pessoa, a WikiLeaks somos todos nós. Todos aqueles que acreditam na liberdade de expressão e na transparência da informação.

Todos somos a WikiLeaks.

Movimento de Apoio à Wikileaks

(Daqui)
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9.12.10

YES!!!


International Committee against Stoning: A historical success for humanity


P.S. - Infelizmente, a notícia da libertação de Sakineh não se confirma. Muito pelo contrário...
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Oslo, 10/12/2010


Amanhã, às 12:00 (hora de Portugal), terá lugar a cerimónia de entrega do Prémio Nobel da Paz, atribuído este ano a Liu Xiaobo. A cerimónia pode ser seguida, em directo, na página da Nobelprize Organization.

Nem o laureado, actualmente detido, nem qualquer familiar estarão presentes, já que foram impedidos pelo governo chinês de sair do país, o mesmo tendo acontecido a alguns activistas chineses que pretendiam deslocar-se a Oslo.

Um grande número de pessoas – pelo menos 250, segundo a Amnistia Internacional – está com residência fixa, tem os telefones cortados, foi forçado a sair de Pequim ou impedido de viajar para o estrangeiro, por causa da cerimónia de amanhã. Desde hoje, está bloqueado o acesso a CNN, BBC e NRK (norueguês).

É a primeira vez que se verifica tal situação (ausência do premiado e de familiares), desde 1936, quando as autoridades nazis tiveram a mesma atitude relativamente a Carl von Ossietzky, também agraciado com o Nobel da Paz.

Amanhã, Liu Xiaobo estará simbolicamente representado por uma cadeira vazia. Dezanove outras ficarão também por ocupar: as dos países que corresponderam ao apelo de boicote lançado por Pequim.

P.S. - A ler: The Nobel Crackdown, um longo artigo sobre a atribuição do prémio e suas consequências na China.
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Neva em Paris


Há 10 cm de neve em Paris, o que não acontecia desde há alguns anos, o humor não falta à chamada (desenho) e recordam-se invernos de outras eras (vídeo).


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O «Bispo Vermelho»


Manuel Martins esteve à frente da diocese de Setúbal durante vinte e três anos, numa fase dificílima da região em termos de condições sociais de toda a espécie. Foi um dos bispos portugueses mais decentes das últimas décadas, sempre frontal e nada pacífico - ou não tivesse ficado conhecido como o «Bispo Vermelho» - e não é agora nada meigo na escolha das expressões para qualificar a acção do governo na fase actual da vida do país.

Alguns excertos de declarações recolhidas ontem pela Lusa.

«Como é que um governo se considera legítimo quando permitiu que um país chegasse a esta situação, que pela comunicação social parece de uma miséria absoluta.».

«Aquilo que é fundamental num estado social este governo está a matar, com as exigência que põe, com os benefícios que retira.»

«Nós estamos assim na situação em que vemos um trabalhador no fundo de um poço, não sei de quantos metros, e era preciso salvá-lo, mas estamos numa situação em que nem corda temos para lhe atirar.»

«É uma economia diabólica, desgraçada, hiper super liberal, que tem lá no alto da pirâmide meia dúzia de homens que mandam no mundo e muitas vezes desgraçam o mundo (…), o poder político está inteiramente dependente do poder económico.»

«Há muita coisa escondida. Bem sei que há coisas, como na própria família, que não se revelam por inteiro, mas a transparência faz parte da democracia.»

Muito, muito longe da linguagem da caridadezinha, certo?

(Fonte)
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8.12.10

Antes que o dia acabe

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John Lennon, 1940-1980



(Via Luís Novaes Tito no Facebook)
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Sócrates & Barroso

A Associação Fórum Manifesto organiza no próximo dia 11 de Dezembro, Sábado, às 21h na Livraria Ler Devagar, uma conversa com Miguel Portas sobre a crise económica mundial e o papel da União Europeia.
Portugal num colete de forças económico em que é insuportável estar com o Euro e, insuportável viver sem o Euro.

Num contexto em que o controlo das políticas económicas a partir de Bruxelas através dos PEC, dos PNR (Planos Nacionais de Reforma) e das sanções aos governos ditos incumpridores. A grande questão que se levanta neste momento é: será possível existir uma moeda única sem um orçamento europeu suficientemente forte para colmatar as divergências entre Norte e Sul, superavitários e deficitários? Na prática, Bruxelas passará a ter direito de veto sobre os orçamentos, sobrepondo-se aos poderes dos deputados nacionais, e tudo indica que as sanções venham a ser quase automáticas apesar das divergências que ainda possam existir entre os 27.

Lx Factory – Livraria Ler Devagar
(R. Rodrigues de Faria 103 – Alcântara)

(Daqui)
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Na China, Nobel da Paz em contrafacção


Amanhã, véspera da entrega do Nobel da Paz, atribuído em Outubro a Liu Xiaobo, será dada na China a primeira versão do «Prémio Confúcio da Paz» a Lien, um antigo vice-presidente de Taiwan. Entre os outros nomeados, contavam-se Nelson Mandela, Bill Gates (?!) e Mahmoud Abbas. Velhos hábitos de clonagem não se perdem facilmente!

Como tem sido noticiado, dezanove países corresponderam ao apelo de Pequim e não estarão presentes, em Oslo, na próxima 6ª feira – tudo boa gente, evidentemente!...

(Fonte)
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Uma imagem que dispensa 1.000 palavras


(Via Passa Palavra)

Entretanto, e para além da avalanche de textos e notícias internacionais, três recomendações de leituras «caseiras»:

* Rui Tavares, O nosso teste
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7.12.10

Bloco aloja cópia de Wikileaks


«O Esquerda.net decidiu responder positivamente ao apelo da Wikileaks e pôs à disposição da organização dirigida por Julian Assange um servidor para alojar um espelho (mirror) do site. Este espelho será uma cópia do site Wikileaks, e será administrado pela sua equipa, não tendo a redacção do Esquerda.net qualquer interferência ou acesso ao seu conteúdo.»

(Ler texto na íntegra)
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A rádio é uma arma


Aung San Suu Kyi, em liberdade desde 13 de Novembro, tem agora um programa semanal de perguntas e respostas na Radio Free Asia, difundido parcialmente em birmanês todas as sextas-feiras à noite.

Trata-se de uma oportunidade única de diálogo da líder com os seus concidadãos que enviam as questões por mail ou por telefone, da diáspora ou do interior. Estima-se que 20% da população adulta do país consiga ouvi-lo, por incapacidade técnica do governo para bloquear os broadcasts. E não será fácil, neste momento, proibir Aung de participar nesta iniciativa, dadas as pressões internacionais.

Tudo isto pode parecer trivial, mas a verdade é que a maioria dos birmaneses nunca imaginou ouvir um dia, na rádio, Aung discutir pontos de vista e responder a perguntas.

Será que Patrick, o excelente e lúcido guia que me acompanhou há um ano, ouvirá a RFA? É muito provável que sim.

(Fonte)

Dois excertos, em inglês, do primeiro programa:

You have suffered for many years in the struggle to bring democracy to Burma. And, as you are well aware, the Burmese people are also suffering greatly. Do you have any words of guidance for them? Was there any one thing in particular that helped keep you strong in your darkest days?


Is the military junta that has ruled Burma for so long now any different today than it was in the past? Do you have any reason to believe they won’t just re-arrest you tomorrow?

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Jacques Delors dixit


«Os 16 membros da zona do euro não foram capazes de uma verdadeira cooperação. Não percebem que têm um bem comum para gerir: o euro.»

É necessário que sejam criados «obrigações públicas europeias, não para cobrir os deficits, mas para financiar as despesas futuras» , «fundos de ajuda conjuntural a serem utilizados em fases de crescimento fraco» e « um fundo de amortização, que cobriria uma parte do deficit de cada um dos 16 estados».

São indispensáveis sanções contra os Estados negligentes: «As mais lógicas seriam privar de fundos – parcial e temporariamente - os países que não praticassem uma política sã.»

«Não são os banqueiros que receberam dos Estados, como empréstimos ou garantias, 4.589 biliões de euros, que podem ditar aos governos os comportamentos que estes devem ter. A política tem de ser a última referência.»

«Pessimista activo», prevê o pior se «a Europa se deixa levar, atravessada como está, hoje, por ondas populistas e nacionalistas. Será o declínio garantido, mesmo se os líderes não estejam conscientes da realidade. E mesmo o melhor aluno da classe europeia [a Alemanha] ficará depenada...»

(Excertos de uma entrevista a ser publicada em Le Monde, com data de amanhã.)

A ler também:
* Helmut Schmidt: «L'Europe manque de dirigeants»
* Mário Soares: «Líderes da UE são incapazes e só pensam em dinheiro»
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Para uma nova economia


Uma tomada de posição pública

Apresentamos esta tomada de posição pública no momento em que acaba de ser aprovada a política orçamental para 2011. Como todos reconhecem, as medidas adoptadas têm carácter recessivo. Mesmo que no curto prazo, permitissem conter a especulação financeira sobre a dívida externa e as necessidades de financiamento do Estado e da economia portuguesa, tal política, só por si, não abriria caminho ao indispensável processo de mudanças estruturais de que o País carece para alcançar um desenvolvimento humano e sustentável a prazo. Importa responder no curto prazo visando e construindo o longo prazo.

Reconhecemos que é necessária e urgente uma mudança profunda no paradigma da economia nacional, mas também europeia e mundial. Estamos todos envolvidos na busca de soluções. Os economistas em particular têm a responsabilidade de contribuir para encontrar respostas para os desafios da transição que marcam o mundo contemporâneo e, de modo particular, o nosso País.

A crise tem carácter sistémico e dimensão global, com contornos específicos na Zona Euro, traduzindo-se em maior pobreza, desemprego, crescentes desigualdades de riqueza e rendimento, baixa propensão ao investimento e fraco dinamismo da produção.

(Ler texto da Petição, na íntegra, e assinar AQUI)
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6.12.10

Malditos controladores?


Embora inicialmente mais ocupada em saber se o espaço aéreo espanhol abriria ou não para eu passar e regressar hoje a Lisboa (regressei e sem um minuto de atraso…), tive depois ocasião de ler páginas e páginas de vários jornais espanhóis, durante dois longos voos.

1 - É verdade que os controladores aéreos espanhóis ganham principescamente? Muito provavelmente, mas alguém o foi permitindo, ao longo das mais de três décadas de democracia, por razões mais ou menos eleitoralistas. Não o conseguiram de metralhadoras na mão.

2 - Estavam em curso, pelo menos há um ano, negociações sobre esta questão (40% de redução salarial pretendida pelo governo, o que é duro de roer por mais elevada que seja a maquia) e, também, sobre o número máximo de horas de trabalho.

3 – No passado dia 3, véspera de uma longa ponte a nível nacional, o Conselho de Ministros decidiu encerrar a questão. Porquê nesse dia tão crítico? Ouvi a pergunta feita por vários jornalistas, sem que algum tivesse recebido uma resposta satisfatória do governo de Zapatero (ou de Rubalcaba?). Os controladores não estavam à espera desse desfecho, já que, na véspera, tinham anunciado uma greve para fim de Dezembro como protesto contra a privatização parcial da AENA, simultânea com outra, de pilotos em litígio com o governo a propósito da duração máxima de trabalho. Porquê, então, sobretudo nesse dia? «Está claro que enfrentarse a este colectivo es relativamente barato por su impopularidad. El Gobierno ha optado por recuperar autoridad aprovechando el bajo coste de oportunidad del enfrentamiento.»

4 – Os controladores reagiram intempestivamente com abandono dos postos de trabalho? Sem dúvida (já lá vou).

5 – O que fez Rubalcaba e sus muchachos (Zapatero recolheu-se nos bastidores…)? Subiram brutalmente a parada, decretaram estado de alarme por quinze dias e «militarizaram» os controladores. E já vieram dizer hoje que, muito provavelmente, irão prolongar a situação por dois meses! Bem significativa a frase do dito Rubalcaba: «Quien le echa un pulso al Estado pierde». Será?

Resumindo: quem desencadeou a crise no pior dia para o fazer foi o governo, como foi ele que respondeu a uma greve «radical» com um autoritarismo feroz. O futuro próximo revelará as consequências, mas o PSOE foi o principal responsável pela mudança de cenário e de patamar.

Reacções? Com honrosas excepções, as que encontrei por cá à chegada, na blogosfera «de esquerda», foram de aprovação tácita das medidas do governo espanhol, com distanciamento em relação aos controladores (direito à greve, sim, mas by the book ou de «pobrezinhos», nunca de gente bem paga) ou, em muitos casos, um ensurdecedor silêncio (alô, Arrastão?). Porquê exactamente? Ainda não percebi bem – ou percebi bem demais?...

Claro que as greves e outras manifestações «legais» continuam a ter o seu papel, mas não são suficientes e existirão outras. Porquê? Porque não estamos a viver em período normal mas sim em circunstâncias em que «o “estado de alerta” não só já está declarado como se transformou em rotina social», como muito bem observa o João Tunes.

E «greves selvagens», com foi decidido qualificar esta, são talvez uma forma relativamente amena do que está para vir. Habituemo-nos, é a vida!
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E porque hoje é 2ª feira


… e duas semanas sem crónicas de César das Neves alteram excessivamente as minhas rotinas, a elas regresso em dia de boa colheita.

O tema é sexo, papa, preservativo e cigarros com filtro, para se concluir, uma vez mais, que «a Igreja é contra o adultério, prostituição, promiscuidade e fornicação.» («Fornicação» em sentido estrito / restrito, claro, de relação entre pessoas não casadas porque, caso contrário, lá se iriam as criancinhas…)

A ler na íntegra, mas com relevo para um ou outro excerto.

«No pecado gravíssimo do sexo fora do matrimónio, o preservativo torna-se um detalhe. Quem despreza o sexto mandamento, cometendo adultério ou recorrendo à prostituição, não tem escrúpulo de violar essa outra regra menor. A Igreja opõe-se às campanhas de promoção do preservativo, não por repúdio fanático do instrumento, mas porque esse meio, pretendendo proteger a saúde, promove a promiscuidade e aumenta o risco de sida.» Copiei bem: o preservativo «aumenta o risco de sida».

«A sociedade hoje anda viciada em libido, como de tabaco há anos.» Venha a proibição, do tipo «a libido mata».

Cereja em cima do bolo: o preservativo ao nível das revoluções da História. «A França de setecentos e a Rússia de novecentos quase se destruíram na embriaguez da revolução. Agora a cultura preservativa ameaça as sociedades que inquinou.» Nem mais. Afinal a culpa da «crise» actual é esta e não o nervoso dos mercados.

(Fonte)
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Estão a rir de quê?


Aconteceu algo engraçado, na minha ausência, que me tenha escapado?
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5.12.10

Episódio controladores

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Não é das melhores adaptações, mas fica para documentar a história.


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