31.3.11

«Entrecheiram-se, hostis, os mil narizes que há neste país»


Em dias como o de hoje, é sempre a Alexandre O’Neill que regresso…


O PAÍS RELATIVO

País por conhecer, por escrever, por ler...

País purista a prosear bonito,
a versejar tão chique e tão pudico,
enquanto a língua portuguesa se vai rindo,
galhofeira, comigo.

País que me pede livros andejantes
com o dedo, hirto, a correr as estantes.

País engravatado todo o ano
e a assoar-se na gravata por engano.

País onde qualquer palerma diz,
a afastar do busílis o nariz:
- Não, não é para mim este país!
mas quem é que bàquestica sem lavar
o sovaco que lhe dá o ar?

Entrecheiram-se, hostis, os mil narizes
que há neste país.

País do cibinho mastigado
devagarinho.

País amador do rapapé,
do meter butes e do parlapié,
que se espaneja, cobertas as miúdas,
e as desleixa quando já ventrudas.

O incrível país da minha tia,
trémulo de bondade e de aletria.

Moroso país da surda cólera,
de repente que se quer feliz.

Já sabemos, país, que és um homenzinho...

País tunante que diz que passa a vida
a meter entre parêntesis a cedilha.

A damisela passeia
no país da alcateia,
tão exterior a si mesma
que não é senão a fome
com que este país a come.

País do eufemismo, à morte dia a dia
pergunta mesureiro: - Como vai a vida?

País dos gigantones que passeiam
a importância e o papelão,
inaugurando esguichos no engonço
do gesto e do chavão.

E ainda há quem os ouça, quem os leia,
lhes agradeça a fontanária ideia!

Corre boleada, pelo azul,
a frota de nuvens do país.

País desconfiado a reolhar para cima
dum ombro que, com razão duvida.

Este país que viaja a meu lado,
vai transido mas transistorizado.

Nhurro país que nunca se desdiz.

Cedilhado o cê, país, não te revejas
na cedilha, que a palavra urge.

Este país, enquanto se alivia,
manda-nos à mãe, à irmã, à tia,
a nós e à tirania,
sem perder tempo nem caligrafia.

Nesta mosquitomaquia
que é a vida,
ó país,
que parece comprida!

A Santa Paciência, país, a tua padroeira,
já perde a paciência à nossa cabeceira.

País pobrete e nada alegrete,
baú fechado com um aloquete,
que entre dois sudários não contém senão
a triste maçã do coração.

Que Santa Sulipanta nos conforte
na má vida, país, na boa morte!

País das troncas e delongas ao telefone
com mil cavilhas para cada nome.

De ramona, país, que de viagens
tens, tão contrafeito...

Embezerra, país, que bem mereces,
prepara, no mutismo, teus efes e teus erres.

Desaninhada a perdiz,
não a discutas, país!
Espirra-lhe a morte pra cima
com os dois canos do nariz!

Um país maluco de andorinhas
tesourando as nossas cabecinhas
de enfermiços meninos, roda-viva
em que entrássemos de corpo e alegria!

Estrela trepa trepa pelo vento fagueiro
e ao país que te espreita, vê lá se o vês inteiro.

Hexágono de papel que o meu pai pôs no ar,
já o passo a meu filho, cansado de o olhar...

No sumapau seboso da terceira,
contigo viajei, ó país por lavar,
aturei-te o arroto, o pivete, a coceira,
a conversa pancrácia e o jeito alvar.

Senhor do meu nariz, franzi-te a sobrancelha;
entornado de sono, resvalaste para mim.
Mas também me ofereceste a cordial botelha,
empinada que foi, tal e qual clarim!

(Feira Cabisbaixa – 1965)
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