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15.1.11

Era uma vez na América

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Luxo versus moda


Que a crise não atinge as griffes é mais do que sabido, mas é agora eeconfirmado: as vendas vão bem e recomendam-se e não há stocks indesejados - muito pelo contrário.

Mas clara e cristalina é esta justificação para a não existência de saldos nos Vuitton's deste mundo:

«L'essentiel du ressort de la vente des produits de luxe repose sur la construction de l'excellence sociale des acheteurs (…) Si les marques se mettent à solder, elles deviennent accessibles à plus de personnes, ce qui leur fait perdre une partie de leur valeur.»
«Les marques qui soldent (…) ont une allure de luxe mais ne suivent plus une stratégie de luxe, mais une stratégie de mode».

Sempre a aprender.

(Daqui)
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Terá mesmo de ser explicado como a crianças de 4 anos


O PR candidato afirmou ontem que a reforma da «sua senhora» não chega a 800 euros e que esta depende portanto dele.

Vamos a contas, deixando de lado a odiosa mentalidade revelada no tom e no conteúdo do que foi dito.

A dita senhora foi professora desde 1960 e ter-se-á reformado em 1998 – 38 anos de trabalho, portanto. Desses, passou dois em Moçambique (onde leccionou, mas dou de barato que tenham sido perdidas informações) e três em Inglaterra.

Sobram 33, dos quais mais de 20 «como regente da disciplina de Língua Portuguesa na Universidade Católica Portuguesa» e os outros em colégios e liceus de Lisboa.

Descontou mais de três décadas, como professora do secundário e universitária e recebe menos de 800 euros? «Perderam» a reforma de Maria Cavaco Silva, como o esposo afirmou? Absolutamente impensável – digo eu que também tenho uma composição esquisita de actividade na função pública e privada, passando por três anos no estrangeiro, que me reformei pouco depois e que sei como as coisas funcionam (relativamente) bem ali pelas repartições da Estados Unidos da América. Ou não terá descontado??? Como assim?
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14.1.11

Tecnicidades

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Mais um beato...


O facto de eu sempre ter sentido uma grande antipatia pela figura do papa João Paulo II não ajuda certamente a receber com gaudium et spes a notícia da sua próxima beatificação, primeiro passo para que um dia venha a ser considerado santo.

Anuncia-se, sem rir, que uma freira deixou de ter a doença de Parkinson porque ela e as companheiras intercederam junto do papa recém-falecido, em 2005 – que, por esse motivo, pode já ser nomeado «beato» -, e espera-se que mais alguém candidate um outro feito a milagre para que ele possa, uma vez por todas, ser colocado em altares do mundo inteiro.

Que me desculpem as almas piedosas que por aqui passam - que las hay… -, mas existirá alguma razão para a Igreja continuar a navegar nestas águas de semi-bruxaria, verdadeira ofensa às mentes, apenas para homenagear quem entende?

Ou quer convencer as suas ovelhas de que, a partir de agora e por decisão terrena, João Paulo II foi promovido no reino dos céus e está hierarquicamente mais próximo do CEO, tendo assim mais poder para satisfazer pedidos do aquém? Porque, at the end of the day, é isso que está em causa, certo?
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Hambanine Tatana Cultura


Ou seja: «Adeus Pai da Cultura», foi o que centenas de moçambicanos disseram hoje durante o funeral de Malangatana, em Malatana, Maputo.

Ontem, tiveram lugar cerimónias culturais em sua honra, nas quais se cantou e se dançou, na melhor tradição africana que sempre achei lindíssima. Manguisa Ngewnya, o filho mais novo de Malangatana, não se conteve ao ouvir os músicos cantarem uma das canções preferidas do pai e juntou-se ao grupo no palco improvisado.


(Via Sapo Moçambique, aqui e aqui)

Grandes títulos


Sócrates no Médio Oriente para promover dívida e privatizações.

«Promover a dívida», como sabonetes ou turismo no Allgarve.
E é verdade - essa é que é essa!
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13.1.11

The seventh billion

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(Via Virgílio Vargas no Facebook)
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Cavaco eleito à primeira volta? Longe de estar escrito nas estrelas


Nesta altura do campeonato, interessa ouvir quem sabe e é por isso importante estar atento ao que Pedro Magalhães vai recordando no Margens de Erro.

No caso vertente, analise-se este quadro, onde estão listados os resultados finais e as previsões das sondagens, relativos às Presidenciais de 2001 – precisamente as últimas, antes das que terão agora lugar,  em que um presidente em exercício se candidatou a um segundo mandato.


É certo que Jorge Sampaio ganhou à primeira volta, mas não com a folgadíssima margem prevista. Ninguém se atreveu a atribuir-lhe menos de 63,5% e ele obteve 55,8%.

Ora, segundo os últimos dados de que disponho, não está previsto que Cavaco Silva  ultrapasse 57,1%. Com este comentário: «Neste mês de Janeiro foi interrompida a subida contínua que a popularidade de Cavaco conhecia desde Julho, situando-se agora no patamar dos seus níveis mais baixos.»

Assim sendo, para bom entendedor… les jeux ne sont pas faits.
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Krugman, amigo


Paul Krugman, que já tinha falado de Portugal há três dias, em texto parcialmente criticado pelos Ladrões, insistiu qualificando como «Vitória de Pirro» o sucesso que Portugal ontem festejou: «If you think about the debt dynamics here — the burden of growing interest payments on an economy that is likely to face years of grinding debt deflation — an interest rate that high is little short of ruinous. But it is, indeed, not as bad as people were expecting last week; hence, success. A few more successes and the European periphery will be destroyed.»

Mas o meu objectivo é chamar a atenção para um outro texto de Krugman, este muito longo (treze páginas A4, que vou reler …), divulgado também ontem: Can Europe Be Saved?

Tópicos:
- The Road to the Euro
-The (Uneasy) Case for Monetary Union
- Europhoria, Eurocrisis
- Four European Plotlines
- Out of Many, One?
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Recado


É só para dizer que continuo a actualizar, ali à direita na barra lateral, a (modestíssima) secção Memória Histórica.
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Nem o FMI chega, nem a gente almoça


«(…) Todo o santo dia, todos os dias da semana, o apelo ensurdecedor: "Sobe, sobe, marujinho/ / Àquele mastro real/ Vê se vês falência de Espanha/ O FMI em Portugal." Nunca um país teve tantas almas penadas com a mão em pala e os olhos no horizonte - a posição favorita dos economistas em Portugal. Excepto, claro, quando se trata daquele professor de Economia que é candidato - embora nunca político, porque isso nunca o foi, credo! - e nessa condição de candidato é o único economista do mundo que se faz fotografar em cima do capô de um automóvel a agradecer aplausos. Esse, o do capô, é suficientemente cágado para não apelar: "Acima, acima gajeiro/ Acima ao tope real!/ Topa falência de Espanha/ O FMI em Portugal." Não, esse costuma fazer de conta que quer a nau catrineta chegada a bom porto. Mas em dias, como ontem, em que se acalmam mares e ventos, dias em que surge a ténue esperança de a nau chegar a terra, esse, o cágado, retira a máscara e declara: "Não podemos excluir a possibilidade de ocorrer uma crise grave em Portugal, não apenas no plano económico e social, mas também no plano político." Se é isto um político responsável vou ali e já venho. Vergonha para os políticos portugueses - e falo dos de todos os partidos que estão dispostos a governar - que não souberam apresentar alternativas a este sonso.»

Ferreira Fernandes, no DN.
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12.1.11

Passado mais do que oportuno

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Vem no Der Spiegel e bem me parecia…


… que andam lobos à solta na Alemanha – o resto da Europa que o diga!

Ao Norte mas não muito longe de Berlim, uns tantos veados terão sido as vítimas, para grande desgosto dos donos e tristeza da população.

Acontece que esta não tem outro remédio que não seja «aprender a viver com lobos», já que o número destes tende a aumentar. Por razões várias, entre as quais uma que nunca me teria passado pela cabeça: a reunificação das Alemanhas! Há mais espaço livre já que, nas florestas de Leste, a população diminuiu cerca de 10%, além de que muitos lobos se instalaram em locais anteriormente utilizados para exercícios militares.

Danos colaterais da queda do Muro de Berlim, certamente não planificados como muitos outros…

(Daqui.)
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Nobre dúvida

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Fernando Nobre dixit: «Manuel Alegre, com o seu radicalismo, encostou-se de tal forma a alguns sectores da sociedade, que não tem a mínima hipótese de vencer Cavaco Silva numa segunda volta.»

Em Portugal não vale «encostar» (ao Bloco), na Europa sim?


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Apoio precisa-se


Activista na Itália dos anos setenta. Preso em 1979 e condenado a doze anos de prisão, conseguiu fugir em 1981 e refugiou-se em França e depois no México, onde iniciou a sua actividade de escritor. Em 1982 foi denunciado por um arrependido — ou seja, alguém que em troca de denúncias beneficiava de uma redução da pena — por crimes que não cometeu. Julgado à revelia na Itália em 1988, foi condenado à prisão perpétua com privação da luz solar. Durante a presidência de François Mitterrand regressou a França, onde os tribunais recusaram a sua extradição para Itália. Em França Cesare Battisti continuou a actividade de escritor. A sua situação mudou durante a presidência de Jacques Chirac e, na eminência de ser extraditado para Itália, Battisti conseguiu fugir. Foi preso no Brasil em 18 de Março de 2007. O ministro da Justiça concedeu-lhe asilo político, mas o Supremo Tribunal Federal opôs-se e manteve Battisti na prisão. No último dia do seu mandato, o presidente Lula decretou que Battisti não seria extraditado, mas o Supremo Tribunal Federal continua a manter Battisti preso.

Várias pessoas que no Brasil têm estado activas na defesa de Cesare Battisti temem que o Supremo Tribunal Federal opere um verdadeiro golpe de Estado judicial, ponha Cesare Battisti num avião e o envie para Itália. Há também os optimistas que desde há dois anos dizem que Cesare Battisti será libertado amanhã, se não mesmo hoje.

Mas o que sabemos é que, enquanto Cesare não for libertado, está preso.

Para saber mais sobre o caso de Cesare Battisti leia um relato escrito por ele e leia um dossier de artigos.

Sessão pública sobre o caso de Cesare Battisti:
Teatro da Comuna, na Praça de Espanha, em Lisboa,
no sábado, dia 15 de Janeiro, às 15 horas,
com a presença de Diana Andringa, José Mário Branco, José António Pinto Ribeiro, Leandro Vichi, José Nuno Matos, João Bernardo e outros.

A sessão será transmitida em directo no Passa Palavra.

Comissão de Defesa de Cesare Battisti
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Num mundo terrível


No Haiti, exactamente há um ano, um sismo matou cerca de 230.000 pessoas e deixou 1 milhão e 300 mil desalojadas. Dessas, 800.000 ainda sobrevivem em mais de 1.000 acampamentos e 3.759 morreram vítimas da cólera. Ainda se vão encontrando corpos nos escombros e, em muitos pontos do país, vive-se como se não se tivesse passado entretanto um ano.

Sessenta países comprometeram-se a contribuir com uma ajuda de 5.300 milhões de dólares, e já entregaram metade dessa verba, mas tudo chega às vítimas a conta gotas. Porque muitas das instituições públicas foram desmanteladas pelo sismo, é certo, mas, também e sobretudo, como resultado de uma burocracia de uma lentidão inimaginável e de um exercício do poder política que deixa muito a desejar. Muitas ONG’s desesperam perante os factos, mas sem grande sucesso até ao momento.

Não devia ser possível que realidades destas existissem, em pleno início do século XXI, e que o mundo assistisse, com esta aparente impotência - não numa longínqua e desconhecida ilha asiática, mas em pleno Atlântico, paredes meias com vários paraísos turísticos. Mas existem, é a triste realidade.


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Rios que vão (4)






Rio Yangtze, China (2004)
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11.1.11

«Era uma vez um pintor que havia em Moçambique» - Um texto de DIANA ANDRINGA


Quando Moçambique se despede de Malangatana, um texto de Diana Andringa, incluído no Catálogo da Exposição «Novos Sonhos a Preto e Branco», aberta ao público até 23 de Janeiro, na Casa da Cerca - Centro de Arte Contemporânea, em Almada.


Conheci o Malangatana muitos anos antes de o conhecer.

“Era uma vez um pintor que havia em Moçambique e cujos quadros fotografavam coisas que sabíamos que eram África, mesmo que nunca tivéssemos estado em África...”

E mais uma coisa: “Esse pintor, sabes? Esse pintor é negro.”

Bem que desconfiara, eu, ao olhar os quadros. Mas duvidando: Moçambique não era, então, uma terra que desse a negros a possibilidade de se tornarem pintores.

Era mais comum serem exactamente aquilo que ele foi: babá de meninos, apanhador de bolas, aprendiz de curandeiro... Aprendiz de curandeiro? É isso que explica aquelas formas estranhas entre as pessoas comuns que povoam os quadros?

Não conhecia Malangatana, não conhecia Moçambique, mas aqueles quadros eram-me familiares. Aquelas caras que me olhavam, aqueles olhos onde perpassava medo, susto, dor, mas também – mas sobretudo? – dignidade. E espanto: um espanto de recusar que o Mundo pudesse ser assim, como de facto era.

Espanto igual o meu: e onde, nesse Mundo, nesse Moçambique onde negro, se acaso cidadão – ou seja, não indígena, “assimilado” – o era sempre de segunda classe, fora Malangatana buscar essa capacidade de pintar?

No Catálogo de uma exposição organizada em 1961 – tinha Malangatana uns 25 anos – pelo Núcleo de Arte de Lourenço Marques, Pancho Guedes, depois de referir que os quadros apresentados eram “resultado de pouco mais de um ano e meio de trabalho de ex-criado de bar”, escrevia:

“Malangatana é um pintor natural, completo, nele a composição, a harmonia de cores, não é jogo intelectual: acontece-lhe, tão naturalmente como as histórias e as visões.

Ele sabe sem saber. (...)

Ele é visitado por espíritos; certos quadros são alucinações, fragmentos de um inferno que já foi de Bosh.

Malangatana tem um conhecimento profundo das razões subterrâneas dos homens, o que aliado à sua extraordinária visão formal, produz pintura de uma totalidade tão rara que apesar de ele ser um principiante já é um dos primeiros pintores de África.”


Encruzilhada


Concorde-se ou não com os diagnósticos e com a terapia aconselhada, vale a pena ler a análise de Filipe González sobre a questão europeia, publicada ontem em El País.

«Los ciudadanos de los distintos países se mueven en el desasosiego, cuando no en la frustración, con actitudes de rechazo a las reformas estructurales imprescindibles que se están proponiendo por los distintos Gobiernos, porque piensan que son la consecuencia de una crisis financiera de la que no se sienten responsables. No entienden que el coste de la crisis lo paguen los que no la provocaron, en tanto siguen campando a sus anchas los que nos llevaron a ella.»
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Não há almoços grátis


Resta saber se há mesmo lugares para todos à mesa…

«China se está convirtiendo en un socio político clave para Europa. Todo se desarrolla como si China hubiera decidido desmentir a los pájaros de mal agüero que nos prometían un futuro de aislamiento para Europa a raíz de la nueva dominación chino-estadounidense, el G-2. Pero, por suerte, China parece preferir un G-3. Un juego a tres bandas que permite, entre otras cosas, hacer avanzar en el seno del G-20 la voluntad compartida por China y los europeos de instaurar una mejor regulación y vigilancia del sistema monetario internacional.

Dos factores objetivos explican el enfoque chino: por una parte, no perder un buen cliente para sus exportaciones; por otra, reforzar la zona euro encaja mejor con la doctrina monetaria china, que también es favorable a los movimientos controlados, lo que le permitiría reevaluar su moneda a su ritmo, en lugar de la brutal reevaluación que reclama EE UU. También cabe destacar un indiscutible componente de "revancha histórica" por un país que, en el siglo XIX, conoció un principio de colonización a través de las factorías europeas y hoy compra factorías en Europa. Pero todo esto se inscribe en un contexto de interdependencia bienvenida. Y para los europeos representa la oportunidad histórica de un juego más abierto, de una Europa a la que China invita a ocupar su lugar, en vez de aceptar verse marginada algún día.»

(Daqui.)
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10.1.11

Voto útil, voto contra


Sempre me insurgi contra a defesa do voto útil em eleições legislativas, porque me recuso a deixar de apoiar e partido com que tenho mais afinidades para escolher um outro, apenas por receio de que um terceiro venha a ser o mais votado: o meu voto tem efeitos na composição das bancadas parlamentares.

Concretamente e apesar de todos os apelos lancinantes de uma certa esquerda, não votei PS em 2009 por causa do simples «pavor» de ver Manuela Ferreira Leite em S. Bento. Não tenho filiação partidária mas mantive o apoio ao Bloco e renová-lo-ia amanhã: a experiência mostra bem que ter uma parte das bancadas da AR à esquerda do PS, com uma presença tão forte quanto possível, foi e é absolutamente fundamental. E como abomino maiorias absolutas, acabei por juntar o útil ao (resultado) agradável.

Em presidenciais, a questão põe-se em termos completamente diferentes porque se trata de um campeonato em que só há um que ganha - ou logo à primeira volta, ou em confronto com um outro, três semanas mais tarde.

Assim sendo, no dia 23, todos os votos de quem não quer Cavaco em Belém por mais cinco anos são «úteis» porque são «contra» a hipótese de ele ganhar imediatamente.

Pode-se escolher qualquer dos outros candidatos e o importante é não ficar em casa. Mas os que votarem em Manuel Alegre poderão fazê-lo por uma de duas razões: por considerarem que ele é o melhor de todos os candidatos em campo - e eu considero -, ou porque Cavaco entrará tanto mais fragilizado na segunda etapa da campanha quanto maior, na primeira, for a votação no seu único potencial adversário. E isso conta.

Depois, para 13 de Fevereiro, … as contas não serão difíceis.

(Publicado também aqui.)
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Para a eternidade


Fiquem então descansados, historiadores e memorialistas, porque nada disto se vai perder ao longo dos tempos - «isto» sendo conteúdo de blogues, páginas do Facebook, perfis de Twitter e tudo o mais que adiante aparecerá, que ficará protegido em túmulos virtuais para alguém mais tarde consultar.

Vêm aí os e-túmulos, alimentados por energia solar (ecologia oblige…) e acessíveis a partir de um simples telemóvel com bluetooth. Muito mais atractivos do que as sinistras pedras de mármore em campas rasas, não sei se a ocupar prateleiras em jazigos, mas certamente ornamentáveis com fotografias tiradas do Facebook ou de posts de um qualquer blogue.

Claro que já surgiram as primeiras discussões sobre direitos de acesso: deve este ser reservado a familiares dos autores ou não, com que regras de protecção de privacidade, que defesas contra hackers devem ser garantidas, etc., etc. etc.

O que não é dito é se o Facebook continuará activo entre e-túmulos, dando aos seus habitantes a possibilidade de criarem grupos do tipo «we are dead».

Tudo matéria para reflexão sobre o que aí vem, mais dia menos semestre.

(Daqui, via Virgílio Vargas no Facebook)
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Uma bela alegoria que dispensa muitas explicações


«Uma epidemia abateu-se sobre um bairro, ameaçando sobretudo as casas periféricas, mais frágeis. Apesar de a vida do bairro ser gerida entre as famílias, segundo processos democráticos por todos estabelecidos, os moradores das casas do centro, mais poderosos, entenderam ordenar aos moradores da periferia o que deviam fazer para evitar (ou curar) a epidemia. Num claro abuso de poder face às regras vigentes, não se limitaram portanto a dizer que era preciso estancá-la, acrescentando como o deviam fazer. E a todo o momento lembravam os restantes moradores que o incumprimento das suas orientações clínicas poderia acarretar, em última instância, a expulsão da comunidade.»

Continua aqui.
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Agachar


(A propósito das notícias sobre entrada do FMI em Portugal, por «desejo» da Alemanha e da França.)

«O primeiro-ministro "desvaloriza" e o presidente da República "desconhece". Este, num repente de dignidade nacional (que diabo!, estamos em período eleitoral), estranha que a notícia tenha surgido sem o caso ter sido discutido no "palco próprio" que, segundo a presidencial opinião, será, não o país, mas as... "instâncias comunitárias".

Ou seja, Alemanha e França já decidiram que seremos governados pelo FMI e aqueles que elegemos para nos governarem ainda não sabem de nada. Nem eles nem (pois o marido é sempre o último a saber) o país, a quem será cobrada a factura.

A tragicomédia tem ainda um terceiro protagonista, o líder do PSD que, na excitante perspectiva de vir aí um tutor, quer eleições, convicto de que ele próprio será seu melhor e mais cumpridor lugar-tenente do que o actual primeiro-ministro.

Gerada nas cinzas convulsas da humilhação do Ultimato Inglês, é a vez de a medíocre República que hoje temos se agachar, também ela sem o mais leve assomo, já não digo de orgulho, mas de soberania.»

Manuel António Pina, no JN.
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9.1.11

Vítor Alves - Morreu o Capitão Diplomata


Um texto de Mª Manuela Cruzeiro, escrito para este blogue.

Era o mais sereno e discreto dos Capitães de Abril, na verdade Major, alguém que se imaginava melhor nos corredores da carreira diplomática do que nas unidades militares, mesmo que fosse na sala de oficiais.

Oficial do Estado Maior, levou para a conspiração a dose de realismo, moderação e autoridade que refreasse os excessos de optimismo dos jovens capitães. Membro da Direcção da Comissão Coordenadora do MFA (juntamente com Otelo e Vasco Lourenço), integrou o núcleo duro do Movimento, desempenhando o delicado papel de mediador nas difíceis negociações do Programa do MFA, um texto que faria do 25 de Abril algo muito diferente de um clássico golpe militar.

Essa imagem colou-se-lhe. Será sempre o capitão diplomata. Controlado nas palavras e nas emoções, nunca se vangloriou do seu protagonismo pessoal e muito menos quis louros que não lhe pertencessem, sempre fiel à curta declaração que fez na primeira conferência de imprensa na noite de 25 de Abril de 1974: «Não houve um só chefe. Fomos todos nós!»

O seu low profile manteve-se, quase fazendo esquecer uma brilhante carreira político-militar, que atravessou todas as fases da Revolução: integrou o Conselho da Revolução durante toda a sua vigência, foi membro do Conselho de Estado, figura destacada do Grupo dos 9, além de ser o militar de Abril com mais intenso percurso político: Ministro sem pasta do 2º e 3º governos provisórios, Ministro da Defesa Nacional e da Comunicação Social no 4º Governo Provisório, Ministro da Educação e Investigação Científica no 6º Governo Provisório.

Morreu num período de profunda crise nacional e, consequentemente, de vertiginosa actividade noticiosa - razão (ou pretexto?) pela qual a sua morte não passará de breve apontamento nos grandes meios de informação. Já assim aconteceu com outros seus companheiros. É pena, é injusto, é indesculpável um país despedir-se assim de um dos seus melhores.

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Cavaco e a laicidade


Foram tantos e tão graves os acontecimentos vividos nos últimos tempos, e tudo se passou de uma forma a tal ponto vertiginosa, que a visita de Bento 16 a Portugal parece ter-se realizado há uma eternidade, quando ainda nem sequer decorreram nove meses desde que teve lugar.

Mas, neste momento de balanço crítico do actual mandato do presidente da República, convém lembrar o que foi então o seu comportamento em termos de falta de respeito pela laicidade da República, a que os portugueses tinham direito.

Muitas vozes tentaram fazer-se ouvir desde que foi anunciada a visita e as circunstâncias em que a mesma decorreria como, por exemplo, a tomada de posição de 5.550 pessoas que assinaram uma Petição, da qual retiro dois parágrafos mas que se encontra online na íntegra:

«Desejamos deixar claro que, se em Portugal há católicos dos quais uma fracção, mais ou menos importante, se regozijará com a visita de Joseph Ratzinger, há também católicos e não católicos para quem o carácter oficial da visita papal, o seu financiamento público e a tolerância de ponto concedida pelo Governo, são agressões perpetradas contra os princípios de laicidade do poder político que a própria Constituição da República Portuguesa institui.

Esta infracção da laicidade a que estão constitucionalmente vinculadas as autoridades republicanas torna-se ainda mais gritante e deletéria quando consideramos que se celebra este ano o Centenário da Implantação da República, de cujo legado faz parte o princípio de clara separação entre Estado e Igreja, contra o qual atentará qualquer confusão entre homenagens a um chefe de Estado e participação oficial dos titulares de órgãos de soberania em cerimoniais religiosos.»

O que se passou na realidade é do conhecimento público, mas a própria página da Presidência da República (verdadeira bíblia, permanentemente citada por Cavaco Silva…) registou para a eternidade que o presidente foi esperar o papa ao aeroporto de Lisboa, o recebeu com Honras de Estado nos Jerónimos e depois em Belém, assistiu à missa no Terreiro do Paço em Lisboa, às cerimónias em Fátima e foi à despedida no aeroporto Sá Carneiro, no Porto.

O exagero que tudo isto representou, em especial a participação nos actos religiosos, não como cidadão católico mas com estatuto de chefe de Estado (ou não estaria registada e ilustradíssima na página da Presidência...), foi, no meu entender, absolutamente inadmissível.

Num outro registo, recorde-se também como lamentável a presença de toda a família do presidente na cerimónia que teve lugar no Palácio de Belém, numa clara sobreposição do plano oficial com o familiar. Este vídeo notável ficará guardado no nosso anedotário - e não só.


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Entretanto no Brasil


Já falei em tempos do caso Cesare Battisti, escritor italiano, antigo membro de um grupo de luta armada, muito activo nos últimos anos da década de 70.

Embora se tenha declarado inocente, foi condenado a prisão perpétua em 1987 por vários crimes que lhe foram atribuídos, partiu a tempo para França e depois para o México, regressando mais tarde a Paris onde viveu e trabalhou. Acabou por ter de fugir para o Brasil antes que se concretizasse a decisão do Conselho de Estado francês que autorizou a sua extradição, na sequência de um terceiro pedido feito por Itália (depois dos dois primeiros terem sido recusados). A mesma solicitação viria a ser feita ao Brasil, onde Battisti foi preso preventivamente em 2007.

Um dos últimos actos de Lula da Silva como presidente foi recusar a extradição de Battisti, mas a direita brasileira não desiste e tenta ganhar a questão no plano jurídico. Todos os pormenores sobre este caso, actualizados hoje no Passa Palavra.
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Um tema que regressou

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