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7.5.11

E nem traziam mangas-de-alpaca…


Já nem me lembro há quantos meses (ou serão anos?) não cito José Pacheco Pereira. Mas a primeira parte do seu artigo no Público de hoje (sem link) vai ao cerne de uma questão que pode parecer secundária mas que não o é. A humilhação a que fomos sujeitos na semana que hoje termina não é de somenos importância e é grave.

«Este é um dia estranho. Mais estranho ainda porque a sua estranheza passa despercebida a muita gente. Estamos como que anestesiados, passados, adormecidos, atordoados, escolham o termo. No dia em que escrevo, passaram 24 horas sobre saber-se quem governa Portugal nos próximos três anos. E não somos nós, nem quem escolhemos, nem quem vamos escolher. São “eles”, um deles de olhos azuis, como diz a comunicação social com o seu gosto pela trivialidade, direitinhos, capazes, sóbrios, eficazes, “eles”. Isto é natural? Não é. Pode ser inevitável, mas natural não é. E também não é natural que achemos com tanta facilidade que o é. (…)

Ninguém acha mal, estranho, bizarro, que burocratas, funcionários, sem qualquer legitimidade democrática, apareçam a dizer o que devemos fazer e a comentar com displicência o que fizemos ou não fizemos. Os patrões deles nem sequer se dignaram aparecer. Tinha sido melhor. (…) Seria sido melhor mas nem isso já merecemos, porque achamos bem que o funcionalismo europeu, os burocratas de Bruxelas, dêem conferências de imprensa muito para além do seu mandato e do seu poder. Ah! O estado de necessidade faz engolir a vergonha!».
(O realce é meu.)
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Passos Coelho a estragar as contas



Assim sendo, as combinações teoricamente possíveis para a formação de um governo baixaram, desde ontem à noite: de 10 para 7, se vierem a ser 3 partidos a juntarem os trapinhos, de 10 para 9 se forem necessários apenas 2. Isto vai!

(Com pedidos de desculpa a Garcia Pereira e a José Manuel Coelho por não os ter incluído nos cálculos e a quem foi para Humanidades por não gostar de Matemática…)
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Estive até ao ultimo minuto à espera que falassem do Sócrates

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6.5.11

Se...


Se é possível conservar a juventude
Respirando abraçado a um marco de correio;
Se a dentadura postiça se voltou contra a pobre senhora e a mordeu
Deixando-a em estado grave;
Se ao descer do avião a Duquesa do Quente
Pôs marfim a sorrir;
Se o Baú-Cheio tem acções nas minas de esterco;
Se na América um jovem de cem anos
Veio de longe ver o Presidente
A cavalo na mãe;
Se um bode recebe o próprio peso em aspirina
E a oferece aos hospitais do seu país;
Se o engenheiro sempre não era engenheiro
E a rapariga ficou com uma engenhoca nos braços;
Se reentrante, protuberante, perturbante,
Lola domina ainda os portugueses;
Se o Jorge (o "ponto" do Jorge!) tentou beber naquela noite
O presunto de Chaves por uma palhinha
E o Eduardo não lhe ficou atrás
Ao saír com a lagosta pela trela;
Se "ninguém me ama porque tenho mau hálito
E reviro os olhos como uma parva";
Se Mimi Travessuras já não vem a Lisboa
Cantar com o Alberto...

...Acaso o nosso destino,tac!,vai mudar?

Alexandre O'Neill


(Via Graça Gomes no Facebook)
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Ainda nem temos consciência do que aí vem


Recomendo a leitura deste artigo de Manuel Carvalho, no Público de hoje (sem link, recebido por mail): «Um contrato com muitas letras pequenas».

Não concordo com o autor no pressuposto da inevitabilidade do recurso ao FMI, mas, agora que ele aí está, não embarquemos no suspiro de alívio que ontem varreu o país, como se a árvore das patacas estivesse bem carregada e, agora no nosso quintal, exigisse apenas que a reguemos com algum cuidado para que tudo corra bem. Não vai correr bem, pelo menos para a maioria de nós – e Manuel Carvalho aponta muitas razões –, e resta mesmo saber se as patacas cairão. Ou seja, se o programa de governo, gizado pelos técnicos burocratas da troika, será executado, ou se é sequer exequível , tendo em conta os políticos que o terão em cima das secretárias depois da noite de 5 de Junho. O futuro não é cor-de-rosa, mesmo que o seja nas bandeiras - ou mais alaranjado, com ou sem tons de azul e amarelo pelo meio…

«Custa a entender o ar displicente com que alguns líderes políticos comentaram o acordo entre a troika e o Governo. Um bom acordo, disse José Sócrates, melhor que o PEC IV, acrescentou Passos Coelho, duro mas não trágico, pontuou Teixeira dos Santos. No actual estado de cansaço, de desânimo e de desespero qualquer plano seria bem-vindo, desde que o Estado e o país se salvassem da bancarrota. Mas depois do alívio inicial, vale a pena parar um pouco para constatar que, se não vem aí o fim do mundo, o acordo tem muitas letras pequenas, com as quais prova estar muito longe de ser um remédio sem efeitos secundários.

O plano que se cumprirá até 2013 é hipócrita. Não apresenta nenhuma medida bombástica capaz de arrebatar críticas generalizadas, mas impõe uma série de acções discretas que, em conjunto, talvez sejam piores do que os cenários criados nas últimas semanas pela ansiedade, o mau jornalismo e a propaganda. Globalmente, é mais severo do que tudo o que já foi apresentado. Agora, não é apenas a carga fiscal a ser agravada: todo o Estado social que José Sócrates promete proteger sofre um abalo sísmico, a classe média vai ser cercada por novas despesas e mais impostos, o mundo do trabalho será mais instável, inseguro e potencialmente violento, a recessão vai forçar 120 ou 130 mil portugueses a cair no desemprego. Uma a uma, estas acções não intimidam os mais crentes, mas após uma conta de somar conclui-se que o resultado final é bem mais penoso do que o PS, PSD e PP querem fazer crer.

Bem sabemos que não há alternativa realista a este brutal aperto, nem forma de contestar a imposição externa das bases de um programa de governo ao arrepio da democracia – aliás, além de Paulo Portas, este velho país estropiado pela amargura e o fracasso nem fôlego tem para se preocupar com a soberania. Perante tudo isto, só faltava que os cidadãos começassem a acreditar de que a coisa não é assim tão feia. É feia sim, embora tenha uma máscara. Não haverá cortes de salários, mas acabaram as devoluções do IRS que faziam parte importante do planeamento financeiro das famílias; não há suspensão do 13.º mês, mas quem teve a má ideia de comprar casa vai deixar de poder de deduzir encargos no IRS, vai pagar mais IMI e, como se o acordo não bastasse, vai pagar mais juros. As pessoas pagarão também mais nos transportes, na luz, nos hospitais e quem tiver uma reforma confortável terá de fazer contas. A crise será paga com juros agravados, mas em suaves prestações distintas.

Ao menos fazem-se as reformas que anos a fio de negligência e de cobardia adiaram ou impediram, dirão alguns. É verdade. E muitas dessas mudanças tornarão o país melhor e os portugueses mais conscientes de que não há almoços grátis, nem crédito ilimitado para a vida. Outras, porém, alimentarão o desemprego, deixarão centenas de milhares de pessoas expostas a uma realidade na qual tinham deixado de acreditar e, com as reformas que se anunciam para as autarquias, colocarão 75 por cento do território nacional, onde o poder local é a principal fonte de emprego e de protecção social, bem mais perto da desertificação física e humana.

Serão estes custos inevitáveis? Talvez. Mas encaremo-los na sua crua realidade, sem lirismo nem propaganda. O acordo com a troika vale pela soma do que dizem as letras pequenas do contrato, não pelas medidas que dão bons títulos aos jornais. O resgate financeiro vai ter impactes terríveis e vai exigir mudanças a frio, com o seu inevitável coro de frustração e mal-estar. Podia ser pior, podia ser como na Grécia, sem dúvida. Mas o que a troika nos deixa após estas semanas é uma batalha dura e longa. Não temos alternativa aos seus impactes e podemos aceitar que há que sofrer agora para rir no futuro. Mas temos de acreditar também que, após 15 anos de torpor e de irresponsabilidade política, muitos mais portugueses deixarão de ter um lugar digno no país a que têm direito.»
(Os realces são meus.)
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Homens e tubarões

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(Via Pedro Moura no Facebook)
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Ai, o tempo…


José Milhazes transcreveu hoje no Facebook uma mensagem recebida de um amigo russo:

«Em Portugal, na cidade de Leiria (120 km a norte de Lisboa) vende-se um estádio de futebol com 30 mil lugares e todos os parques e construções adjacentes, bem como o clube de futebol da 1ª Divisão "Sad da União" (Leiria). E tudo isso por... 1,5 milhões de euros. Um estádio com clube ao preço de uma casa nos arredores de Moscovo.»

Talvez por ter estado a ler, até às tantas, mais uns capítulos do livro da Raquel Varela, dei por mim a imaginar como reagiríamos se tivéssemos lido uma notícia destas durante o PREC…

Já agora: o que diziam os jornais em 6 de Maio de 1975? (*)
«Eram 22 horas. Salgado Zenha, Alegre e Alberto Antunes chegam a pé, vindos da Avenida da República, em Lisboa. No interior da sede do PCP, na Rua António Serpa, esperam-nos Cunhal, Pato, Carlos Brito e Carlos Costa. “Estamos à procura de formas de cooperação”, declarou, no final, o líder do PCP. “Foi um primeiro e importante passo”, resumiu, por seu lado, Salgado Zenha. O comunicado conjunto será um pouco mais preciso: “As delegações manifestaram-se pela cooperação dos dois partidos e pela firme defesa das liberdades e das conquistas alcançados desde o 25 de Abril, designadamente as nacionalizações e as medidas de reforma agrária.»

Nem mais. Tão improvável como, daqui a algumas décadas, o FMI 2011 nos parecer uma miragem e termos dinheiro para comprar o Bundestag.

(*) Adelino Gomes e José Pedro Castanheira, Os dias loucos do PREC, Expresso / Público, Lisboa, 2006, p. 106.
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5.5.11

Maio, Nosso Maio

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(Via Passa Palavra)
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É mesmo isso: o FMI à perna

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Não sou especialmente «atreita» a sentimentos patrióticos, bem pelo contrário, mas confesso que a conferência de imprensa dos senhores da troika me estragou o dia, mais do que era previsível.

Para além do conteúdo do Memorando, já conhecido, aquelas intervenções constituíram a proclamação de um verdadeiro atestado de incapacidade e de incompetência passado a um país, ao vivo e a cores. Não porque os diversos discursos tenham trazido alguma novidade, mas porque evidenciaram o que já vinha a incomodar-me nas últimas semanas: o detalhe da intervenção em curso fora dos domínios especificamente económico-financeiros.

Um exemplo quase ao acaso: «3.78. Annually update the inventory of all practising doctors by specialty, age, region, health centre and hospital, public and private sector so as to be able to identify practising, professional and licensed physicians and current and future staff needs by the above categories.»

Outro: «4.10. The Government will continue action to tackle low education attainment and early school leaving and to improve the quality of secondary education and vocational education and training, with a view to increase efficiency in the education sector, raise the quality of human capital and facilitate labour market matching.»

Se quem me empresta dinheiro estabelece condições e prazos de pagamento, certamente que não se sente no direito de me exigir que coma batatas em vez de bifes, que obrigue os meus filhos a fazer os TPCs ou que apague as luzes às 10 horas da noite!

Ora é disso que se trata: estamos perante um verdadeiro programa de governo (com alguns detalhes em aberto para compor o puzzle) e, segundo julgo, num plano e numa escala bem diferentes do que se passou em 1977 e em 1983. Claro que posso estar enganada e traída pelo esquecimento de factos (não creio), mas a leitura de um post que a economista Manuela Silva acaba de publicar (ela que, por dever de ofício, se recorda certamente muito melhor do que eu destas histórias passadas) vem dar-me razão:


É assim - para nossa (maior) desgraça.

(desenho da Gui Castro Felga, claro)
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Democracia sequestrada


Pouco depois de ouvir este senhor & friends explicarem como vão tomar conta de Portugal, chegou-me este texto da Sandra Monteiro, directora da edição portuguesa de Le Monde Diplomatique, publicado hoje na versão online daquele jornal. Abençoada…

Quando chegar o dia 5 de Junho, os cidadãos portugueses vão ser chamados a eleger o poder legislativo. Mas, salvo qualquer surpresa, o verdadeiro poder de legislar terá já sido entregue, por vários anos, ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e ao Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF). Este rumo era previsível a partir do momento em que o poder político, pressionado pelo poder financeiro, enveredou pelas medidas austeritárias. Mais previsível ainda se tornou quando o governo e todo o arco da austeridade, reagindo à escalada da pressão transformada em sequestro, convidaram o sequestrador a assumir as rédeas da governação.

A crónica deste sequestro da democracia era anunciada desde que, com a mais recente crise internacional, a especulação se virou para as dívidas dos Estados periféricos da Zona Euro, com economias mais vulneráveis. Só a construção de entendimentos entre esses países periféricos, acompanhada pela recusa, no plano nacional, de transferir para os cidadãos o pagamento de uma crise originada na esfera financeira e na captura dos recursos públicos pelos interesses privados, poderia ter permitido trilhar um caminho alternativo. Aqui chegados, há quem considere que um cenário possível é ficar à espera da degradação da situação económica e social, até se atingir colectivamente o fundo do poço − uns quantos porque beneficiam directa e indirectamente dessa degradação; muitos outros apenas por desconhecimento, inércia ou profundo desalento.

Mas para quem não se revê nessa postura, ou deseje ganhar ânimo para dela sair, só o fortalecimento de iniciativas e movimentos sociais, com a diversidade de configurações que os cidadãos quiserem e forem capazes de lhe imprimir (da rua e locais de trabalho às redes sociais e cabinas de voto), poderá abrir a esperança de vermos o poder político, por pressão ou convicção, assumir a recusa da austeridade e da intervenção externa. E de o vermos enveredar por uma resposta à crise que passe por políticas públicas de revitalização da economia e do emprego, de redistribuição de rendimentos e de aposta nos serviços públicos e no Estado social, que são as bases de uma sociedade decente e de uma economia moral.

Sem isso, qualquer «união» é vazia e cega, seja ela europeia ou nacional. Os consensos que infernizam a vida da maioria das pessoas tenderão a resultar em conflitos. Em vez de coesão, essas «uniões» e «consensos» só aumentam a corrosão, seja ela social ou territorial. Sabem-no bem os gregos e os irlandeses − como antes deles tantos latino-americanos e leste-europeus −, porque têm um ligeiro avanço em relação a Portugal no «salvamento» que lhes foi imposto. Sabem que o «salvamento» não melhora nenhum dos seus verdadeiros problemas, mas continua a agravar muitos outros.

Estas experiências, já impostas em diferentes tempos e espaços, deviam fazer com que se aprendesse o que parece ser óbvio: o choque neoliberal, apesar da sua retórica salvítica, é desastroso para as economias e para as sociedades. Em vez disso, prefere-se ocupar o espaço público com o matraquear das mesmas ideias e receitas neoliberais, com a cumplicidade de um poder político que ergue a estranha bandeira da impotência ou da iníqua defesa do reforço dos privilégios. Ao que se junta a conivência de uma comunicação social que está mais atenta ao «pluralismo de opiniões» dentro da famosa troika do que dentro da sociedade. Eis algumas dessas ideias e receitas que são repetidas à saciedade.

Soldado que matou Bin Laden será condecorado em segredo

À espera da troika

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Enfim duma escolha faz-se um desafio,
enfrenta-se a vida de fio a pavio,
navega-se sem mar, sem vela ou navio,
bebe-se a coragem até dum copo vazio.
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4.5.11

Outros Maios

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Enquanto os nossos queridos líderes assimilam memorandos


... e enquanto esperamos que nos expliquem ao que vêm e com que vêm, nada melhor do que ir preparando as digestões que vão ser difíceis, muito difíceis.


Balada da ameixa seca

Vai à mercearia e compra ameixa seca.
P’ra o intestino a ameixa é levada da breca!

O mal do Ocidente – quem há que não o sinta? –
É não ter a tripa sempre limpa.

Com seus altos valores, o Ocidente
Dá por demais ao dente, dá por demais ao dente.

Põe-me os olhos nos povos que só comem arroz:
Dão melhores guerrilheiros do que nós.

Um saquitel de arroz, uma viciclet’,
Arma na bandoleira – e lá vai o viet.

«Noss’povo», ao contrário, come o que apanha à mão.
Até parece fome de muita geração!

E larga, já comido, o corpo em qualquer canto.
Sonha Terceiro Mundo e é Europa, entretanto.

Encostado ao sobreiro ou ao ficheiro,
«Noss’povo» já nada tem de marinheiro.

Sua tripa, represa, é trabalhosa.
Sua prosápia já só é má prosa.

Portugal-do-casqueiro à Europa-das-latas
Manda cortiça, vinho, diplomatas.

Espera contrapartidas: sol-e-vistas
É cartaz que atrai muitos turistas.

Mas com a ameixa seca – coisa pouca! –
É que pode acordar sem amargos de boca.

Vai à mercearia e compra ameixa seca.
P’ra o intestino a ameixa é levada da breca!

Alexandre O’Neill
, 1981
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Amanhã

(Clicar na imgaem para ler melhor)
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Osama, Obama e a CIA


Serei talvez ingénua, mas não consigo considerar absolutamente «normais» algumas das declarações do director da CIA, em entrevista à cadeia de televisão NBC. O mundo está cada vez mais perigoso e não só pela possível vingança da Al-Qaeda.

Sublinho dois temas:

A partir do minuto 4:48, Leon Panetta confirma que as ordens recebidas de Obama eram claramente para matar e não simplesmente para prender. Mas claro que, «para cumprir regras», teriam capturado Bin Laden se este tivesse levantado imediatamente os braços e se rendesse… Sabe-se agora que nem sequer estava armado e não parece portanto que fosse uma missão impossível manietá-lo, mantê-lo vivo e julgá-lo. Mas claro que não seria a mesma coisa…

Ao minuto 8:02, o entrevistador pergunta se, nas técnicas de interrogação usadas com presos com vista à obtenção de informações sobre o paradeiro de Bin Laden, se incluiu o waterboarding (simulação de asfixia). O director da CIA confirmou que sim, que essa foi uma das «técnicas de investigação» que esteve em causa. Como se fosse a coisa mais natural deste mundo…



(A ler: Bin Laden Raid Revives Debate on Value of Torture)
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Balanço


Se bem percebi o que Sócrates não veio dizer ao povo, a situação é desesperada mas não é grave.
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3.5.11

Happy birthday, Pete…

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Pete Seeger, 3 Maio 1919






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Austeridade: alternativas?


O Guardian publicou há dois dias um importante texto que merece ser lido na íntegra: Austerity? There is an alternative – a new project for Europe's left. A miséria e a injustiça da deriva austeritária serão uma fatalidade?

«A Europa está numa encruzilhada. As sucessivas vagas de austeridade fiscal têm sido impostas pelas elites europeias e nacionais aos povos da Grécia, da Irlanda e de Portugal, com a Espanha, a Grã-Bretanha e a Itália em fila de espera. Esses programas, quase sem precedentes em termos de gravidade, foram mal debatidos, sem terem em conta opções políticas alternativas ou razões da natureza da crise. Governos, burocratas e especialistas, de competência duvidosa, limitaram-se a declarar simplesmente que "não havia alternativa" e a mandar o público tomar medicamentos. (…)

Dizem-nos que há que escolher entre a partilha das nossas riquezas comuns para vivermos dignamente como seres humanos e mantermos uma política fiscal sólida. É uma coisa ou outra e, assim sendo, o bom senso dita que prevaleça a segunda. (…)

Diz-se aos europeus que, se as medidas catastróficas de austeridade não forem adoptadas imediatamente, e executadas com disciplina marcial, os salários não serão pagos, a poupança será perdida, o mundo chegará ao fim (…)

A postura paternalista das elites governantes não consegue encobrir que a luta contra a austeridade neoliberal é também a luta pela democracia. Além disso, é uma luta contra o enorme défice democrático da UE e pela criação de uma Europa dos povos. (…)

A partir dos conflitos recentes, a esquerda europeia pode ter esperança de ver surgir, como uma rejeição histórica do consenso neoliberal fracturante, novas formas de socialismo que possam ir ao encontro das necessidades das pessoas e das suas exigências de justiça social. (…)

Como contribuição para as tentativas de abordar este problema, o esforço de colaboração internacional feito por Crisisjam, Greek Left Review, New Left Project, ZNet e Irish Left Review pretende contribuir para reunir e disseminar as visões emergentes do movimento da esquerda radical. Temo-nos empenhado em trabalhar com todas as formas de opinião de esquerda possíveis, para apresentarmos e promovermos notícias, opiniões e comentários que expliquem e avancem estratégias, teorias e campanhas alternativas.»
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Para as agendas


Sessões de Apresentação do livro

MANIFESTO DOS ECONOMISTAS ATERRADOS
Crise e Dívida na Europa
10 falsas evidências
22 medidas para sair do impasse

(Actual Editora)

LISBOA, 4 de Maio, 18.30h, FNAC Colombo
Com a presença dos prefaciadores (João Rodrigues e Nuno Serra), apresentação da obra por Daniel Oliveira

COIMBRA, 5 de Maio, 18.30h, Livraria Almedina Estádio
Com a presença dos prefaciadores (João Rodrigues e Nuno Serra), apresentação da obra por José Reis

“No início de Setembro de 2010, um conjunto de destacados economistas críticos franceses, organizados na Associação Francesa de Economia Política, decidiu enviar uma carta aos seus colegas que começava precisamente por traçar um diagnóstico sombrio da paisagem intelectual e política na Europa: a hegemonia das ideias neoliberais não fora posta em causa pela crise, estando os governos europeus e as instituições internacionais apostados em aplicar um conjunto de políticas de austeridade e de «reforma estrutural» que – tal como no passado – conduziriam ao aumento das desigualdades, do desemprego e da instabilidade económica. De seguida, a parte mais importante da missiva: o apelo à subscrição do «Manifesto dos Economistas Aterrados», onde em poucas páginas são desmontadas, de uma forma demolidora, as «falsas evidências» em que assenta o consenso neoliberal e, tão ou mais importante, são apresentadas alternativas de política económica, centradas por um lado no combate ao desemprego e às desigualdades e, por outro, na criação de uma economia europeia mais decente, porque baseada em mercados mais limitados, regulados e devidamente enquadrados por políticas públicas solidárias.”
(Do prefácio: Para lá da Economia Austeritária)
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Da crise e da lama


«Em situação normais (…), somos suavemente impelidos para o futuro e — embora as tecnologias, as personagens e as modas mudem — a linha de tendência parece fazer sentido. Em situações anormais, acontece o que acontece a um carro na lama. Experimentamos explicações, ideologias e líderes como quem mete tábuas debaixo das rodas, à procura de uma que resulte. Deslizamos, rodamos no vazio; e quanto mais nos esforçamos, mais nos afundamos.»

Já tive de recorrer à ajuda de um burro para retirar um carro da lama. Mas não ficou lá.
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2.5.11

Um grande boneco!


No Expresso de Sábado passado.


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Tem a palavra a família do PIDE


Tem início amanhã, em Lisboa, o julgamento de dois ex-directores do Teatro nacional D. Maria II e da autora da adaptação, para teatro, do livro A filha rebelde (de José Pedro Castanheira e Valdemar Cruz), no seguimento de uma queixa em tempos divulgada na imprensa.

Evito considerações pessoais e cito a Nota que uma das acusadas – Margarida Fonseca Santos – difundiu no Facebook:

«Dia 3 de Maio, pelas 9h15, um julgamento que nos remete para os tempos da ditadura…

Margarida Fonseca Santos (autora), Carlos Fragateiro e José Manuel Castanheira (ex-directores do Nacional D. Maria II) – somos acusados, pelos sobrinhos de Silva Pais, dos crimes de difamação e ofensa à memória de pessoa falecida. No seu entender, denegrimos a imagem do último director da PIDE com a adaptação para teatro do livro A Filha Rebelde (de José Pedro Castanheira e Valdemar Cruz), feita para o TNDM em 2007, com encenação de Helena Pimenta.

O Ministério Público não acompanhou a queixa.

Conquistámos, no 25 de Abril, a liberdade de expressão, que está agora posta em causa. Mas, mais grave ainda, esta é uma tentativa de branquear a imagem daquele que foi o responsável máximo da PIDE – a polícia política que perseguiu, torturou e matou muitos opositores ao regime, entre eles o General Humberto Delgado.

Pedimos que divulguem isto aos quatro ventos.»

E divulgado está a ser, com um apelo para que todos aqueles que o possam fazer assistam à sessão de amanhã «em solidariedade, em silêncio e pacificamente, com um cravo vermelho». (2º JUIZO CRIMINAL, 3ª SECÇÃO, Avenida D. João II, 1.08.01 — edifício B – Lisboa)
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Entretanto, o Movimento Cívico «Não apaguem a memória!» acaba de difundir o seguinte comunicado à imprensa:

À Comunicação Social

A direcção do Movimento Cívico Não Apaguem a Memória manifesta a sua profunda indignação perante o julgamento de Margarida Fonseca Santos, Carlos Fragateiro e José Manuel Castanheira. Não está apenas em causa a liberdade de expressão destes prestigiados intelectuais (e o precedente que este caso pode configurar), mas também o desrespeito pela memória de todos aqueles que, durante o fascismo, combateram por um regime democrático.

Sobre a notícia do dia


Recebi um sms de madrugada, mas virei-me para o outro e readormeci. Uma longa falha de electricidade ao princípio da manhã fez com que só chegasse ao «mundo» quando ele já exultava, feliz, por Bin Laden ter sido (alegadamente…) assassinado, num universo liberto do terror dos dez últimos anos e de todos os fundamentalismos do universo.

Vi dezenas de imagens como a que está ali em cima e fiquei transida: a humanidade está, afinal, pior do que a imaginava, poucas horas antes, quando apaguei este computador. A alegria da vingança é um sentimento que algumas culturas orientais praticam, mas muito má conselheira e perigosa a Ocidente.

A pouco e pouco, fui encontrando ecos ao meu desconforto. Quando li este post do Zé Neves e, sobretudo, um grande texto do Paulo Pinto: Bin Laden: preocupação e esperança. Está lá tudo o que eu gostaria de ter escrito. Num outro tom, José Manuel Pureza veio também ao encontro de muito do que penso, em Nota divulgada no Facebook: «Não, não se fez justiça». (*)

O capítulo que se segue é a telenovela já iniciada com a imagem (mal) trabalhada em photoshop, o cadáver atirado ao mar, em simultâneo com promessas de testes de ADN, etc., etc., etc. Para além de outras parvoeiras e da felicidade (óbvia…) dos mercados.

Um dia terrível, em suma: basta percorrer as capas dos jornais americanos. Hesitei em escrever «Shame on you, Mr. Obama!» - mas já está.

(*) Ao anunciar esta madrugada a morte de Bin Laden, Obama proclamou: “fez-se justiça”. Não fez. Justiça far-se-ia se Bin Laden fosse levado ao Tribunal Penal Internacional para ser julgado por crimes contra a humanidade. Mas de um país que insiste em repudiar a jurisdição do TPI para os seus boys não se podia esperar essa lucidez e essa coragem. E, mais que tudo, a morte de Bin Laden deixa por responder uma série de questões incómodas para quem o matou: a origem da Al Qaeda, as ligações sauditas, a bênção americana inicial. Agora criou-se um mártir. Esta never ending story passa para o difícil capítulo seguinte.
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Lançamento especial de um livro há muito esperado

(Clicar para ler)

Como indicado no convite das Edições Afrontamento, será lançado, no próximo Sábado, em Lisboa, Obra Poética de Maria Natália Duarte Silva (Teotónio Pereira).

Se, para muitos, o nome da autora dispensa apresentações, é natural que outros, sobretudo entre os mais novos, precisem de algumas referências, já que ela nos deixou há quarenta anos. Resumo por isso, com algumas modificações, um texto que escrevi há cerca de três anos.

Maria Natália Duarte Silva Teotónio Pereira, originária de uma família burguesa típica, nunca aceitou os valores ditos tradicionais que quiseram impor-lhe. Casou-se pela primeira vez, aos dezasseis anos, com Jaime Salazar Sampaio, e fez então parte de uma roda de artistas e intelectuais (que incluía, por exemplo, Luiz Pacheco).

Divorciou-se alguns anos mais tarde e voltou a casar-se, em 1951, com Nuno Teotónio Pereira - ela agnóstica e ele católico, numa igreja, mas com ritual próprio para situações deste tipo. Como não é difícil imaginar, foi muito negativa a reacção da tradicionalíssima família Teotónio Pereira ao ver um dos seus membros casar com uma jovem divorciada e não católica. Natália viria a converter-se, mais tarde, ao catolicismo.

Concretamente por influência da campanha de Humberto Delgado, e de todo o ambiente criado na sociedade portuguesa, e já integrada nas iniciativas dos católicos que entraram então num novo ciclo na oposição ao Estado Novo, passou a uma fase de grande actividade e teve mesmo um papel decisivo na evolução política do marido.

Sobretudo a partir dos primeiros anos da década de 60, Natália e Nuno foram os grandes impulsionadores de grande parte das iniciativas dos chamados «católicos progressistas» – muitas não teriam pura e simplesmente existido, ou não teriam tido a amplitude que tiveram, sem o empenhamento e a liderança de ambos. Com uma saúde sempre débil, a sua acção exercia-se muitas vezes discretamente na retaguarda, mas com uma eficácia, um espírito combativo e uma tenacidade absolutamente notáveis.

Está na hora de mudar...

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video

... o Passos Coelho!!!

Até o que parece impossível, como o que se ouve neste refrão do hino das legislativas, acontece no PSD!

Espalhou-se a notícia, o site daquele partido ficou inacessível, o vídeo desapareceu de algumas plataformas, mas ainda estava no Youtube quando fiz este download.

Para mais tarde recordar. O «menino guerreiro» está vingado...
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1.5.11

Antes que o dia acabe

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«Cuba: Não estão sós» – Um documento divulgado hoje por vários colectivos cubanos


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Através do João Bernardo, recebi o pedido de me associar à divulgação deste texto sobre a situação em Cuba, difundido hoje por vários colectivos cubanos e outros, entre os quais o Passa Palavra.

Temos que afastar, desde a base e à esquerda, o silêncio e a auto-censura que consagram a impunidade, procurando “não fazer o jogo do inimigo”. Por coletivos cubanos, Colectivo El Libertario (Venezuela), Colectivo Actores Sociales (México) e Passa Palavra.

Terminou o IV Congresso do Partido Comunista de Cuba com a aprovação das reformas liberais (“a cada um segundo o seu trabalho”) anunciadas no âmbito económico, mas também com a redução dos serviços sociais, associados ao aumento da presença de militares e tecnocratas no aparato governamental, enquanto se reduziu por outro lado a participação dos intelectuais e dos trabalhadores.

Tanto na retórica como nos factos, a eficiência, o controle e a disciplina substituem a igualdade, a solidariedade e a participação. E com este pano de fundo se vislumbram sinais repressivos sobre o mundo cultural, que pressagiam um novo retrocesso no exercício das liberdades fundamentais para a população cubana.

Importantes artistas vêm seus nomes embargados por funcionários da cultura, convertidos em censores, que desenvolvem intensas campanhas por todo o país, difundindo falsos rumores e acusações caluniosas. Um prestigioso Centro Teórico Cultural novamente vê sabotadas suas instalações e equipamentos por ladrões que não roubam nada e os quais as autoridades não descobrem ou punem. Poetas e ativistas comunitári@s recebem a visita de agentes policiais que os ameaçam com a acusação de “contra-revolucionários” e também de os colocar diante da “ira popular”, demonstrando assim que esta última não é nem popular nem autónoma ante o poder que a dirige.

O dano à propriedade social, a difamação, a coação, além da violência física e psicológica, não são só condenáveis nos códigos penais de todo mundo, incluindo Cuba, como também manifestações de Terrorismo de Estado. Durante décadas a população cubana deu aos seus filhos e ao mundo a sua melhor energia para construir um país mais justo, com cultura, saúde, educação universal e de qualidade, apesar da irracionalidade e descrença de uma burocracia que sempre apresentou as conquistas como êxito próprio. Deixará a História como marcos do processo cubano a repressão e a mentira, no lugar do heroísmo quotidiano das pessoas? Não é justo que seja assim.

Mas para que isto não ocorra temos que afastar, desde a base e à esquerda, o silêncio e a auto-censura que consagram a impunidade, procurando “não fazer o jogo do inimigo”. As pessoas que hoje vêem sua integridade e trabalho ameaçados pelas acções das autoridades cubanas merecem nosso respeito pois as conhecemos de diferentes momentos e situações. Não são, como apresenta a propaganda oficial, mercenários da CIA, porque apenas sobrevivem com míseras rendas, como a maioria do povo cubano. Quando viajam, investem seus escassos recursos na difusão de sua criação humanista e na aquisição de materiais para continuar seu trabalho, por um país mais culto e livre. Quando recebem nossa ajuda (em forma de um DVD, de tintas ou de uma colecção) é o apoio solidário de trabalhadores, trabalhadoras, artistas e estudantes, que em nossos países também enfrentamos políticas neoliberais e autoritárias do capitalismo, estruturadas em Seattle, México DF, Paris, Caracas, São Francisco e Buenos Aires.

Quão longe estão nossos companheiros daqueles burocratas que percorrem comodamente o mundo em Campanhas de Solidariedade, pagas com o dinheiro do povo cubano, e que na primeira oportunidade escapam para Miami e aparecem arrependidos nas televisões como “lutadores da liberdade”! Que diferente de certos intelectuais “amigos de Cuba” que, ingénuos ou atarefados, confundem os ideais da revolução com as políticas do Estado cubano e negam aos companheiros cubanos os mesmos direitos que reclamam (e até desfrutam) nos seus regimes de democracia burguesa! Que superiores, em obra e espírito, daqueles reformistas autorizados que, envernizando com teoria, justificam cada mudança do regime cubano e fazem (pseudo) críticas abstractas sempre vislumbrando a boa vontade do poder!

O único pecado dos nossos companheiros cubanos é ousar pensar (e transformar) a realidade deles sem esperar as promessas do Estado-Pai nem o Canto de Sereia do Capital global. Crêem em uma vida mais plena, em comunidade, onde o livre desenvolvimento de cada um é condição e medida do livre desenvolvimento de todos. Seus diálogos e aprendizados com nossa lutas altermundistas, piqueteiras e zapatistas, têm expandido seus horizontes e nos permitiram também aprender com seu legado histórico de erros e resistências populares. Representam o legado mais vivo e belo da Revolução cubana, que resiste à morte sob o câncer da burocracia. São marxistas, anarquistas, libertários, martianos, humanistas, feministas, ecologistas, comunitaristas… mas, sobre todas as coisas e qualificações, são pessoas decentes, que têm colocado sua vida em risco e a serviço dos demais. Por isso não os deixemos sós.

Sabemos que as forças da dominação são poderosas, que controlam os cacetetes, o ciberespaço, os castigos, os prémios, os amedrontados e os explorados. Mas nós temos a vergonha e a esperança, contra a qual, como demonstram as rebeliões populares e anti-imperialistas de todo o mundo, não há poder despótico que vença. Tomara que exista na mente dos censores e policiais uma lembrança do compromisso original com o povo cubano que os levou ao poder; mas se isto não acontecer, estamos dispostos a lançar a mais poderosa campanha de solidariedade com todos os recursos da legalidade e da opinião pública progressista mundial. Sabemos que os inimigos estão alertas, que eles não tenham a menor dúvida: Nós também.

Por coletivos cubanos, Colectivo El Libertario (Venezuela), Colectivo Actores Sociales (México) e Passa Palavra.

O mural Cuba Colectiva foi realizado por um grande número de artistas, sob a iniciativa do célebre pintor cubano Wifredo Lam, para o Salão de Maio, em 1967.
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Ícones

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Foi assim

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Muguet