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21.5.11

Passa por mim no Rossio


Ontem, foi assim. E hoje vai ser outra vez.


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Prisões para quê?

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Seminário, quarta-feira, 25 de Maio de 2011
sala 340, da Ala Autónoma,

ISCTE-IUL, Av Forças Armadas, em Lisboa

9:30 Apresentação do GIP

10:00 - Nota de abertura
“Prisão: o discurso ambíguo do legislador” por Eduardo Maia e Costa (juiz-conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça)

10:45 1ª sessão - Justiça ou Repressão?
Presidente da Mesa - Diana Andringa (jornalista e membro do GIP))
Imagens da justiça - Mário Contumélias (autor de Justiça à Portuguesa)
Castigo ou tratamento? O caso dos pedófilos - Afonso de Albuquerque (psiquiatra)
Policiamento: caminhos da proximidade - Susana Durão (investigadora ICS)

12:15 - Debate

12:45 - Almoço

14:30 2ª sessão - Estado e Liberdades
Presidente da Mesa - José Mário Branco (músico e membro do GIP)
A aplicação da pena - Edite Sousa (procuradora adjunta)
Um retrato das prisões em Portugal - Almeida dos Santos (visitador de prisões)
Estado Contra Direito - José Preto (autor de Estado Contra Direito)

16:30 - Debate

17:00 – Apresentação e projecção do filme “Sem companhia”*, de João Trabulo

18:30 – Debate com a presença do realizador.

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Documentário, 2010, 85′, 35mm
Fotografia: Miguel Carvalho
Som: Pedro Gois
Produtor: João Trabulo
Produção: Periferia Filmes

Julgados e condenados por vários crimes, Ernesto e Gaspar estão detidos numa prisão de alta segurança no norte de Portugal. SEM COMPANHIA é um filme sobre a juventude perdida de Ernesto e Gaspar e a longa caminhada que os espera quando saírem da prisão. João Trabulo trabalha sobre a fronteira entre o documentário e a ficção, partindo da realidade longamente observada no interior da prisão (a rodagem durou 13 meses) para construir a história do filme com a participação activa dos dois protagonistas e de outros presos, encenando por vezes alguns aspectos das suas próprias experiências em tempo de reclusão. As rotinas na prisão, as conversas entre estes homens e as consequências da lenta passagem do tempo sobre eles. “O desafio foi filmar o incorpóreo e o movimento selvagem destes homens face à sociedade, guiados apenas pela imaginação e pela utopia” (João Trabulo).
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Aparecido

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No nos vamos



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20.5.11

Espanha - O grito mudo

@Samuel Rodriguez

Se nenhum imprevisto acontecer entretanto, quando forem 23:05, em Portugal (uma hora mais tarde em Espanha), sairá da Puerta del Sol um gigantesco «grito mudo» que assinalará o início do Dia de Reflexão que precede as eleições regionais e locais que terão lugar, no Domingo, em terras de nestros hermanos.


Perante esta deliberação oficial, o Movimento 15 de Maio decidiu não convocar manifestações para Sábado, mas «reivindica o direito a reflectir sem interferir no voto», ou seja a manter concentrações e acampamentos.

Regressando ao que está previsto para logo, o Movimento 15 de Maio pede a todos os participantes nas concentrações que levem uma espécie de mordaça e a tirem à hora indicada - cinco minutos depois da meia-noite – para que seja lançado aos céus o tal «grito mudo».

O que acontecerá então, ou mesmo antes, é difícil de prever. Zapatero diz que o governo actuará «com inteligência», não se sabe o que farão as autoridades para que «sejam garantidos todos os direitos e se respeite a jornada de reflexão», mas as últimas notícias vão no sentido de não ser usada violência para dispersar as concentrações. Ainda bem.

Seja como for, o que é absolutamente extraordinário e obsoleto é que estas democracias em que vivemos (tão mal, nos tempos que correm…) insistam nesta disparatada pausa de 24h antes de actos eleitorais para que os seus súbditos «reflictam»!

No caso vertente, como se os espanhóis não tivessem tido matéria e tempo para todas as reflexões deste mundo desde 15 de Maio, com dezenas das suas cidades politicamente activíssimas, com grande parte do mundo de olhos postos em Madrid, Barcelona ou Valência. No momento em que escrevo (6ª feira, 18:20, em Lisboa), existiram, estão em curso ou planeadas, acções de solidariedade com o Movimento 15 de Maio espanhol em 350 cidades de dezenas de países. E insiste-se em proteger o recato dos espanhóis para que votem… em sossego!

No dia em que se sabe que a Espanha reentrou no clube da bancarrota, é impossível não «ouvir», ao longe, os tais célebres acordes da orquestra do Titanic.
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É só para irem vendo


Clique aqui. (Em actualização)
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Sócrates ou Passos? Passo


O título é o de um texto publicado hoje por Daniel Oliveira, no Expresso online, e estou certa de que vai tornar-se viral. Não o retomo por esse motivo, mas sim porque, com uma ou outra pequena diferença de pormenor, o assinaria por baixo.

Destaco:

«Não, lamento, não acho que o PS e este PSD sejam iguais. É verdade que o que Sócrates fará por falta de coragem Passos fará por convicção. Dá, infelizmente, quase no mesmo. Sendo certo que, apesar de serem ambos claramente incompetentes, o primeiro fará o que a troika decidiu e o segundo tentará ir mais longe. E nisso pode haver uma diferença.

Só que uma vitória de Sócrates teria como resultado a sua permanência na liderança do PS. Ou seja, o bloqueio, por mais dois ou três anos, do centro-esquerda e do deprimente panorama político português. E o lento reforço da direita. A médio prazo, a esquerda (eleitorado do PS incluído) acabaria por pagar um preço demasiado alto por esta vitória sem, na prática, ganhar grande coisa.

A questão é esta: se o programa do próximo governo está já decidido, não seria preferível que esta crise servisse para nos livrarmos de Sócrates e iniciar-se uma profunda renovação de toda a esquerda portuguesa? Sem Sócrates tudo ficará em aberto. Com ele, continuará a degradação ideológica e ética do PS e do País. (…)

Isto não está fácil para quem, à esquerda, se resigna ao "voto útil", que, como dizia Adriano Moreira, só é útil para quem o recebe.

A resposta, quanto ao meu voto, é mais simples: nem um nem outro contará com ele. Sou exigente com a democracia e não sou dos que se conforma com a inútil aritmética que transforma o meu voto em arrependimento mais do que certo.»
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19.5.11

Transmissão directa de Madrid (Puerta del Sol)

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(No ar neste momento, 22:00)
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15M - Uma data a fixar


É absolutamente imprevisível o que se vai passar, nos próximos dias, em Espanha e um pouco por toda a Europa (e não só), onde inúmeras «Acampadas» estão em curso ou em preparação – tantas que é difícil estar-se minimamente actualizado. Em Lisboa também terá lugar uma, hoje, a partir das 19h.

E, finalmente (!), parece que os meios de comunicação social portugueses começam a perceber que é mesmo impossível continuarem a não dar importância aos acontecimentos. Porque, a cada hora que passa, em toda a imprensa internacional, chovem notícias, fotos em catadupa e ecos de muitos slogans que se gritam e se escrevem do outro lado da nossa fronteira.

“La calle es gratis”
“Tengo 57 años, hoy ¡por fin! parece que tengo 17”
“Como sabían que era imposible… Lo hicieron”
“Nuestros sueños no caben en sus urnas”
“Yo creo en (casi) todo”
“Si nos gobiernan los mercados, ¿para qué sirve mi voto?”
“Fíate de un banco y dormirás en él”
“Nos han robado hasta la sonrisa”
“No nos callarán hasta que empiecen a escuchar”
“Primero te ignoran, después se ríen de ti, después te atacan, entonces ganas”

Etc., etc., etc.



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Negros Tempos


Um belíssimo texto de Aldina Duarte no «Passa Palavra».

«As notícias da morte de Bin Laden, do filho e dos netos de Kadhafi, os festejos duns e a apatia doutros, tornaram este dia negro, tão negro como os negros anos da minha infância no fascismo.

O fascismo roubou-me a primeira infância. Um dano irrecuperável que dificilmente se perdoa. A tristeza e a pobreza, vizinhas da miséria, inveteradas nos olhos pretos ou castanhos, sempre cansados e tristes, das mães, dos pais, das crianças, dos jovens e dos velhos, tudo era escuro, baço e ressequido, fosse qual fosse o mês do ano. Só nos olhos dos velhos havia o falso fulgor de quem alcançou um pouco de paz, sabendo que a morte se tornava mais próxima do que a vida. A maior parte acreditava que aos olhos de Deus eramos todos iguais, por isso, estar mais próximo da morte significava estar mais perto da dignidade que a vida lhes recusara. Olhos azuis ou verdes nunca os vi no meu bairro.

Refeições da família à mesa não me lembro, porque não havia comida para compor um prato quanto mais uma mesa; não me lembro de fazer anos [festejar o aniversário], nem ninguém da minha família, vizinhos ou colegas da escola primária, durante os meus primeiros sete anos; não havia banheira na casa dos pobres (bairros sociais), para não falar das barracas, onde nem uma sanita ou um lavatório havia; fruteira e mar, por exemplo, eram palavras abstractas; aos seis anos, eu tinha a chave de casa, tinha aulas e não tinha com quem ficar durante as tardes livres até à hora do jantar, quando a minha mãe voltava do trabalho.»

(Ler o resto aqui.)
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Espanha - Quando a História se acelera?


Apesar da chuva, centenas de pessoas mantiveram-se acampadas, mais uma noite, na Puerta del Sol, em Madrid (e, também, noutras cidades de Espanha). Antes disso, milhares tinham enchido a mítica praça, apesar da proibição da Junta Electoral Provincial.

Para quem não anda muito pelas redes sociais, e poderá portanto não ter visto 55 vídeos, 141 fotos e 201 textos sobre este acontecimento multifacetado, e não necessariamente linear, aqui fica um resumo / análise que me parece muito elucidativo.


Escucharás todo tipo de tonterías sobre las movilizaciones de Sol y en muchas ciudades de España: desde la conspiranoia absurda de quienes siempre ven fantasmas detrás de cualquier cosa, hasta la simplificación burda de quien pretende etiquetarlas como antisistema a pesar de tenerlas debajo de la nariz, hasta la estupidez de pretender que se está de acuerdo con aquellos que protestan precisamente contra ti, contra lo que has hecho y contra lo que representas.

Totalmente de acuerdo con Periodismo Humano: aquí está ocurriendo algo grande. Descartadas absoluta y radicalmente las conspiranoias estúpidas, la interpretación es clara y contundente: la gente está saliendo a la calle porque exigen un cambio. Un cambio de fondo en la manera de hacer política, de gestionar la democracia. Perderse analizando las peticiones de unos y de otros es un ejercicio vano: entre las personas que veo en la calle manifestándose, muy pocos apoyarían de manera expresa esas peticiones. Muchos ni se paran a leerlas, porque simplemente no vale la pena: los ciudadanos salen a la calle con una petición transversal, pidiendo un cambio radical, porque los partidos políticos y el sistema ya no les representan. Representan a otros. Sobre las peticiones concretas… eso vendrá más adelante: por ahora, cambiemos. ¿A qué? Es demasiado pronto para saberlo, y solo cabe desear que, sea lo que sea, sea pacífico, ordenado y civilizado. Completamente de acuerdo con la entrada de Antonio Ortiz en este sentido.

Las claves del movimiento que estamos viviendo:

1.El origen, el desencadenante: el momento en que tres partidos mayoritarios, PSOE, PP y CiU, pactan para sacar adelante la ley Sinde, en abierta contradicción con la voluntad de la inmensa mayoría de los ciudadanos, y favoreciendo a un lobby económico de presión. Ojo: eso es únicamente el origen, el detonante: a día de hoy, ya no tiene el menor interés ni relevancia en las protestas. Pero ver los patéticos empeños por “sacar la ley a costa de lo que fuera” con toda la red puesta en su contra y retransmitiéndolo en directo tuvo el mismo efecto, con todo el respeto y pidiendo perdón por la trágica comparación, que el suicidio de Mohammed Bouazizi quemándose a lo bonzo en Túnez. Del activismo en contra de la ley Sinde surgió directamente el movimiento #nolesvotes, además de la cristalización de un patente clima de descontento con toda una manera de hacer política.


Conversa de taxista


3ªfeira, 22h:

«A senhora acha que aquela alemã vai mandar dinheiro para Portugal quando souber que foram hoje 33 aviões do Porto para a Irlanda?»
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18.5.11

Cidade sem muros nem ameias

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As Mulheres no Início do Século XX


Conferência por Ana Vicente

26 de Maio às 17h
Fundação Calouste Gulbenkian
Auditório 3

Ainda é necessário referir numa conferência as mulheres portuguesas do principio do século XX? Não eram elas a maioria da população? Quem eram? O que faziam? O que pensavam?

Abrangendo o período entre 1900 e 1926, Ana Vicente procurará responder a estas perguntas e colocar algumas questões.
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Escrito no Moleskine


«Nos anos de Sócrates passámos de um prioridade que era “Espanha, Espanha, Espanha”, para uma fase de enamoramento com ditadores e demagogos da Líbia à Venezuela, para no fim implorarmos por ajuda ao Brasil, antes de morrermos na praia uma morte europeia.»

Rui Tavares, hoje, no Público.
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Renegociar a dívida - O inviável é inevitável? (*)


Parece que sim. Devagar, devagarinho, políticos e comentadores começam a dizer que talvez, quem sabe, não agora mas…, se calhar terá de ser. Vale a pena ouvir Medeiros Ferreira.

O que até aqui era pura «demagogia», do PCP e do Bloco, a ganhar terreno porque o rei vai nu.

P.S. – E a Grécia aqui tão perto!

(*) Para quem já não se recorde, o texto que ficou conhecido como Manifesto dos 74/74 tinha como cartão-de-visita «O inevitável é inviável».
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17.5.11

Formas de violência

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«Vamos falar da nossa juventude?»

(Clicar para ler)

Informação detalhada aqui.
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O que todos pensamos sem confessar


Manuel António Pina, a propósito das sondagens sobre as legislativas:

«Todos estes resultados foram obtidos ouvindo pouco mais de mil pessoas "com telefone fixo" (em tempos em que o telefone fixo é quase uma raridade arqueológica). E nenhum deles poderá ser confirmado nem desmentido.

Não os conhecendo bem, não ponho em dúvida os métodos estatísticos que, a partir de uma tal amostragem, permitem anunciar resultados, quaisquer que sejam. Mas pergunto-me se alguém se meteria a comprar um carro em segunda mão (e quem diz um carro em segunda mão diz uma estratégia política) confiando neles.»
JN

Um exemplo concreto, uma ilustração? Estas precisões sobre os resultados de mais uma sondagem, baseada numa amostra de 1025 pessoas, tiradas de um artigo do Público de hoje:

«A taxa de respostas à sondagem cifrou-se nos 45,6 por cento. E, entre os que participaram, quase 24 por cento não quiseram responder ou responderam não saber à pergunta “Em que partido votaria?”. Acresce que 50,8 por cento afirmaram ter “a certeza relativamente ao partido em que vão votar”. (…) E é preciso ter em consideração que há uma parte que ainda não decidiu se vai votar. Colocados perante a questão directamente, somam cerca de 17 por cento os inquiridos que confessaram que “tanto pode(m) votar como não votar”, com os que disseram “não ter intenção de ir votar, mas é possível que vá votar” e os que respondem “não estou a pensar ir votar”.»

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Logo em Deauville, essa lindíssima praia normanda…


«Um dia olharemos com espanto para esta época como aquela em que Europa, estreitada entre os curtos interesses e os míopes preconceitos de dois dos seus líderes, resolveu brincar com o desastre em vez optar pela reconstrução contra a crise.»

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O 12 de Março espanhol


… foi a 15 de Maio e teve lugar em mais de 50 cidades espanholas. Se os números de pessoas na rua parecem ter pouco a ver com os portugueses (os organizadores falam de 25.000, na manifestação mais concorrida, em Madrid), o que se passou depois foi bem diferente, já que se seguiram acampamentos em várias localidades. Nas Puertas del Sol, centenas de pessoas pretendiam ficar até ao próximo dia 22 (entre outras razões, para exigir a libertação dos activistas presos no passado Domingo), mas a polícia forçou o fim da concentração, esta madrugada. Ontem, ao fim da tarde, tinha-se realizado uma assembleia com mais de 1.000 participantes.


Mas, lá como cá, defendeu-se a necessidade de «um futuro digno, solidário e sustentável», denunciou-se a destruição da democracia por um «neoliberalismo desumanizador e destrutivo» e os cartazes não eram muito diferentes: «No son rescates, son chantajes. Vuestras crisis nos las pagamos!».

Há dezenas de vídeos na net:


Esta noite, antes do fim, bombeiros foram apoiar os acampados nas Puertas del Sol:


Depois:


(*) Há muita informação na imprensa espanhola. A ler, por exemplo: La indignación inquieta a la izquierda
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16.5.11

Terrorismo: os bons e os maus? – um texto de Diana Andringa


Ainda a propósito da morte de Bin Laden, e pelo que leu neste blogue sobre o assunto, a Diana Andringa recordou-me um texto seu, publicado há dois anos por Ana Gomes no Aba da Causa, e pô-lo à minha disposição para republicação neste blogue. Por ser muito longo, retomo os excertos que me pareceram mais adequados, aconselhando vivamente a leitura na íntegra. E agradeço a sugestão à Diana que sabe que a porta desta casa está sempre mais do que aberta para a receber…

«Alguns meses depois do 11 de Setembro – e gostava que pensassem por um momento como foi fácil levar a opinião pública a sentir-se norte-americana depois desse 11 de Setembro – pediram-me uma intervenção sobre terrorismo. (…) Foi então que me lembrei de um livro, que muitas de vós terão lido, “A Condição Humana”, de André Malraux, da solidão de Tchen no quarto do homem que deve matar, preparando o gesto que o separará para sempre dos outros homens, nauseado por esse gesto que deve cumprir, esse gesto não de um combatente, mas de um assassino. “Assassinar não é só matar...” A dificuldade de tocá-lo mais que de matá-lo, porque tocando a sua carne o homem que dorme retoma a sua natureza humana, e já não é apenas um obstáculo a eliminar, nem mesmo um inimigo, mas alguém que faz parte do mesmo grupo a que o seu sacrificador pertence. Lembrei-me do momento em que, sob o medo do acordar do homem que dorme, Tchen logra fazer o movimento que o levara até aí, o golpe do punhal que busca o coração, e do momento seguinte, aquele em que fica irremediavelmente só, confrontado com o silêncio e essa espécie de vertigem em que mergulhou, para sempre separado do mundo dos vivos, esmagado simultaneamente pelo horror e o gosto do sangue. Senti com ele a vontade de tocar alguém vivo e a necessidade de olhar-se ao espelho, onde a sua face reflectida não mostrava o horror do acto acabado de cometer. (“A criança que se sabia possuída pelo Demónio ia ver no espelho se nada transparecia”, escreveu Guillevic.) E compreendi como, para Tchen, que a morte do intermediário separara para sempre dos outros homens, o terrorismo se impôs como um sentido de vida, o único capaz de o fazer sentir-se na posse completa de si mesmo.

Sei que muitos defendem que é preciso condenar o terrorismo e não compreendê-lo, mas discordo: acho que é preciso ler “A Condição Humana” e compreender Tchen, porque Tchen, como o sabem tantos homens traumatizados por actos cometidos na guerra, tantos assassinos que se não reconhecem no seu crime, vive afinal em cada um de nós.

É em nome de Tchen – ou em nome de Malraux e desse livro admirável sobre a solidão, o absurdo, o horror e a nobreza da condição humana – que cada acto de terrorismo me merece uma reflexão outra que a simples condenação. É fácil condenar, mas não me basta. Preciso de mais, preciso de compreender por que é que alguém escolhe cortar-se assim da Humanidade, por que é que em alguém a Humanidade se esvaíu a tal ponto que se torna capaz de negá-la.

Compreendo assim melhor os atentados suicidas: a solidão de Tchen, a terrível, dolorosa solidão de Tchen, ensinou-me que é mais fácil morrer com o seu crime que sobreviver com ele. E não só para o próprio, porque a violência que se desperta num ser humano pode tornar-se incontrolável mesmo para aquele que a despertou. (…)


Quando a Europa abre fendas


Multiplicam-se as análises sobre a crise europeia, as suas causas, linhas de força, consequências e saídas possíveis. Leitura aconselhada: Cinco razones por las que Europa se resquebraja, de José Ignacio Torreblanca, em El País de ontem.

«Con el futuro del euro en entredicho y el mundo árabe en erupción, los líderes europeos gobiernan a golpe de encuestas y procesos electorales, aferrándose al poder por cualquier vía, aunque para ello tengan que deshacer la Europa que tanto tiempo y sacrificios ha costado construir. Pocas veces el proyecto europeo ha estado tan en entredicho y sus vergüenzas tan públicamente expuestas. (…) De no mediar un cambio radical, el proceso de integración podría colapsarse, dejando en el aire el futuro de Europa como entidad económica y políticamente relevante.»

Cinco temas:

- Um projecto sem gás
- Crise de valores e miopia política
- O fim da solidariedade
- Ausente do mundo
- A rebelião das elites

E um Epílogo:

«¿Se puede romper Europa?

Cada día que pasa, la sensación de que Europa se resquebraja es más real y está más justificada. ¿Se puede romper Europa? La respuesta es evidente: sí, por supuesto que puede. Al fin y al cabo, la Unión Europea es una construcción humana, no un cuerpo celestial. Que sea necesaria y beneficiosa justifica su existencia, pero no impedirá que desaparezca. Igual que un conjunto de circunstancias favorables llevaron de forma bastante azarosa a la puesta en marcha de este gran proyecto, el encadenamiento de una serie de circunstancias adversas muy bien pudiera hacerla desaparecer, especialmente si aquellos que tienen la responsabilidad de defenderla dejan de ejercer sus responsabilidades. Muchos europeístas comprometidos son conscientes de que el peligro de que Europa se deshaga es real, y están sumamente preocupados por el rumbo de los acontecimientos. Sin embargo, al mismo tiempo, temen que alimentar el pesimismo con advertencias de este tipo pudiera acelerar el proceso de ruptura. Pero cuando día tras día vemos cómo las líneas rojas de la decencia y de los valores que Europa encarna son cruzadas por políticos chovinistas que alientan sin escrúpulos los miedos de los ciudadanos, es imposible seguir mirando hacia otro lado. Viendo la claridad de ideas y la determinación con la que los antieuropeos persiguen sus objetivos, cuesta pensar que el mero optimismo será suficiente por sí solo para salvar a Europa de los fantasmas de la cerrazón, el egoísmo, la solidaridad y la xenofobia que la acechan estos días. Sin una determinación y claridad de ideas equivalente de este lado, Europa fracasará. »
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Foi você disse que este vídeo tem 26 anos?

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(Via Rui Almeida no Facebook)
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Mudemos pois de clientelas

No JN, Zita Seabra defende a sua dama, ou seja explica por que é importante que outros governem o país, depois de 5 de Junho. A alternância é quem mais ordena: troca de cadeiras e já está! Tão fácil, afinal...

«A grande vantagem da democracia é exactamente a alternância. Mudar quem está no poder e não eternizar esse poder nas mesmas mãos anos de mais. Nem vale a pena referir as vantagens de afastar clientelas políticas que sem alternância se eternizam, não a servir o país mas a servir-se do poder, mas centralizar a atenção nas políticas, na capacidade de invertê-las, de arrepiar caminho, corrigir erros e injustiças que nos levaram ao abismo onde hoje Portugal se encontra.

A alternância do poder entre Direita ou Esquerda, ou entre conservadores e trabalhistas, é o que move as democracias e as diferencia das ditaduras populistas, muitas vezes assentes em eleições fantoches que eternizam ditadores no poder.»
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15.5.11

É mesmo o tempo delas

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(Versão via Paulo Almeida no Facebook)
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Portugal


Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!

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Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há "papo-de-anjo" que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para ó meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.

Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...

Alexandre O’Neill

E por falar em Buenos Aires


… a que me referi aqui, há dois dias, e que não me canso de elogiar, de recordar, de desejar, um belo texto de Antonio Muñoz Molina, no Babelia deste Sábado.

« De un lado para otro, mirando la ciudad desde las ventanillas de taxis sucesivos, reconociendo lugares como palabras sueltas pero desorientado en una ciudad cuya sintaxis se me olvida por culpa de los viajes demasiado breves y demasiado separados entre sí: calles rectas con ferreterías, con tiendas pequeñas, con cafés, con letreros destartalados, con almacenes de tejidos, con portales de zapateros, con chaflanes enfáticos; plazas grandes con árboles de copas inmensas y estatuas de bronce, algunas de próceres con levita y otras de espadones a caballo; terrazas de edificios de alturas desiguales, perfiladas contra un azul muy limpio, muy suave, un azul que resalta el blanco descuidado de las fachadas; gente de trasluz en el sol de la mañana, gesticulando mientras habla; escaparates de puestos diminutos de cigarrillos y refrescos; un vendedor con una camiseta sucia de la selección de fútbol argentina acodado en el mostrador. Y de pronto las ilimitadas avenidas, 9 de Julio y al fondo el obelisco, la escala abrumadora de Buenos Aires, la desmesura del espacio, las mansiones descomunales, imitaciones ansiosas de París. El blanco y el azul desteñido de las banderas en las fachadas oficiales equivalen al blanco de las fachadas, al azul del cielo. (…)

"Estamos en el Once", dice mi acompañante. Es como estar en el Garment District o en el Lower East Side de Nueva York hace quince o veinte años, con la misma bulla de comercio sin lujo, con una textura de lugares muy usados, de almacenes hondos, de tráfico desordenado, furgonetas de carga y descarga estacionadas en doble fila, casas de comidas y cafés, letreros en caracteres hebreos. "La gente del interior del país viene a comprar aquí", me explica mi acompañante, "en los almacenes baratos al por mayor, para vender en sus tiendas de las provincias". (…)

En Buenos Aires, como en Nueva York, otra ciudad portuaria hecha por inmigrantes, preguntarle a alguien por su origen es disponerse a conocer toda una novela verdadera de viajes y destierros. (…)

El amor por una ciudad es tan inmediato, tan intuitivo, tan irrevocable, como el amor por una persona. Se huele en el aire, se percibe en la luz, en los primeros minutos de la primera llegada. El tiempo, los regresos, los periodos de ausencia, fortalecen su hondura.»
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Bread and Roses

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