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24.12.11

Natal 2011 (8) - Natal dos simples

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Natal 2011 (7) - Se bem me lembro


O Natal do Sinaleiro, Lisboa

(Daqui.)
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Natal 2011 (6) - Merry Crisis

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Os tempos mudam mas alguns protagonistas ainda andam por aqui

(Clicar e aumentar para ler)

Interrompo a manhã natalícia para divulgar esta pérola que me chegou ontem às mãos. Quando tanto se fala de votos de pesar, ou da falta dos mesmos, e quando a China nos entra literalmente pela casa dentro, lê-se, no mínimo com um sorriso, este texto escrito por Mário Soares, então primeiro-ministro, por ocasião da morte de Mao Tsé Tung. Comentários para quê...

«Em nome do governo português e em meu nome pessoal, peço-lhe que aceite, Senhor Primeiro-Ministro, a expressão das nossas mais profundas condolências pelo desaparecimento do presidente Mao Tsé Tung. O presidente Mao Tsé Tung foi uma personalidade que deixou uma marca na história do nosso século. O presidente Mao Tsé Tung, dirigente do povo chinês na sua longa marcha para a libertação, fundador de uma nova sociedade no centro da Ásia e representante intransigente da luta anti-imperialista, merece o respeito mundial. O seu desaparecimento é uma grande perda para o povo chinês. Mas estamos convencidos de que o seu exemplo manterá a República Popular da China na via de uma sociedade justa e consciente, o que é o objectivo firmemente fixado para o povo chinês.»

In Pekin Information, Nº45, 8 de Novembro de 1976.

P.S. - E um belo complemento que me fizeram chegar agora:
(Clicar e ampliar para ler)
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23.12.11

Natal 2011 (5) - Joy to the world

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Dito por aí (7)

@João Abel Manta

«Na sua compreensão mecânica e sem alma da realidade, os liberais destinam às massas humanas um irrecusável princípio de transumância. Nos gráficos a que rezam e nas curvas que os enlevam, os liberais conseguem vislumbrar uma racionalidade segundo a qual os indivíduos, como o gado, estão condenados a um deslocamento sazonal para locais que oferecem melhores condições. Aliás, para os liberais os indivíduos são uns sortudos: enquanto os rebanhos se têm que deslocar duas e três vezes todos os anos, as pessoas só se deslocam uma ou duas vezes na vida. A essa pastorícia dos humanos, os liberais chamam "ajustamento espacial da mão-de-obra à disponibilidade do factor trabalho".»
José Manuel Pureza, A transumância

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«Os portugueses não precisam que lhes indiquem quando e se devem emigrar - tal como respirar está-lhes no ADN. Os portugueses estão acabrunhados e com medo do amanhã, a última coisa que precisam é que os empurrem para fora do seu país. Eles irão ou não, como entenderem. Eles. Os governantes que se candidataram, ainda há pouco, a governá-los a todos, não podem, agora, querer descartar parte deles.»

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«Parece que há excesso de portugueses em Portugal. Para remediar tão desgraçada contrariedade, o Governo decidiu minguar-nos tomando decisões definitivas. (…)
Acontece um porém: e os velhos? Que fazer dos velhos que enchem os jardins e a paciência de quem governa? Os velhos não servem para nada, nem sequer para mandar embora, não produzem a não ser chatices, e apenas valem para compor o poema do O'Neill, e só no poema do O'Neill eles saltam para o colo das pessoas. Os velhos arrastam-se pelas ruas, melancólicos, incómodos e inúteis, sentam--se a apanhar o sol; que fazer deles?
Talvez não fosse má ideia o Governo, este Governo embaraçado com a existência de tantos portugueses, e estorvado com a persistência dos velhos em continuar vivos, resolver oferecer-lhes uns comprimidos infalíveis, exactos e letais. Nada que a História não tivesse já feito. Os celtas atiravam os velhos dos penhascos e seguiam em frente, sem remorsos nem pesares.»
Baptista-Bastos, A mentira e o desprezo
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Natal 2011 (4) - Shèng Dèn Kuài Lè


(Via Fernando Penim Redondo no Facebook)
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Só estamos um pouco mais atrasados do que a Grécia


… mas é para isto que nos empurram: O êxodo grego para a Austrália.

«Num cenário que faz lembrar a grande corrida ao ouro na viragem do século XX, esta gente viaja até à outra ponta do mundo à procura de uma vida melhor. Ao contrário dos antigos compatriotas, a notoriedade destes novos emigrantes é visível atendendo aos seus diplomas, ganhos à custa de muito esforço em áreas bastante difíceis. "Andaram todos na universidade, engenheiros, arquitectos, mecânicos, professores, bancários, dispostos a fazer qualquer trabalho", afirma Bill Papastergiades, presidente jurista da comunidade. "É um desespero. Estamos todos aterrorizados. Geralmente, chegam apenas com um saco. As histórias que contam são desoladoras e cada avião traz mais", confessou ao Guardian, em entrevista telefónica. (…)

Prevê-se que duas gerações se percam como resultado da grande crise económica grega. A nova diáspora, segundo os especialistas, vai quase de certeza abranger gente mais nova, com boa formação e multilingue, mas incapaz de sobreviver mais tempo num país com uma economia em queda livre, em parte devido às fortes medidas de austeridade que a Grécia foi forçada a aplicar em troca de ajuda.»
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22.12.11

Natal 2011 (3) - Imprevistos

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E la nave va


Em 2004, cheguei à barragem das Três Gargantas, ainda inacabada, depois de três dias num mini-cruzeiro no rio Yangtze. Gostava mesmo de ser capaz de imaginar o que teria então pensado se me tivessem dito que, sete anos mais tarde, a empresa proprietária da dita barragem compraria 21,35 % da EDP...
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Natal 2011 (2) - Antecipação

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Ver também isto.
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Farta


Parecerá lugar-comum mas não é: há muito que um texto não me calava tão fundo como o que Luís Januário publicou ontem no jornal «i». Sobretudo porque estou farta, fartíssima, de ver condenar, banir e ridicularizar tudo o que possa ser, ou parecer, referência a qualquer tipo de «utopias». Quem ouse sequer mencionar a palavra é atirado para o inferno de culpas de todos os males a serem punidos e arrumados para todo o sempre na prateleira dos malefícios da História. Como se o passado paralisasse o futuro neste domínio e esgotasse antecipadamente qualquer hipótese não malévola de acreditar que não estamos condenados a este «tardocapitalismo» que nos desgraça. Como se não fosse obrigatório ir vivendo o dia-a-dia «utopicamente». Tudo em nome do medo do dia de amanhã (como seria bom que fosse igual ao de ontem…), das inevitabilidades, do mal menor, dos consensos e das convergências com as suas indiscutíveis virtudes. Em nome do pavor de males maiores, remenda-se, recua-se, assusta-se e lastima-se. Ou, em alternativa, assobia-se para o lado e fala-se do sexo dos anjos.

Por tudo isso, guardarei como um tesouro este excerto da crónica do Luís:

«Finalmente a solidariedade. Baseada no individualismo e num utopismo pós-histórico. Chamemos-lhe já um paratopismo pós-histórico, porque nos chamarão utópicos os que nos querem conformar com a miserável realidade que preparam e por isso melhor será que nos antecipemos na designação. A nossa paratopia considerará as utopias históricas perigosas e construirá respostas limitadas e de mínima dimensão.

Se as respostas globais falharam, é preciso deixar ao tardocapitalismo a ilusão global. Ocupar-nos-emos dessas infinitas mínimas coisas, sem ambição total, deixando os governos, a sua corte e os seus beneficiários a falarem sozinhos num terreno queimado e cada vez mais rarefeito. Seremos monges e monjas e se for caso disso mendicantes, mas sobreviveremos ou hão-de sobreviver os nossos livros, as nossas cabanas, como a cabana de Walden, onde Thoreau pensou a desobediência civil, a nossa música, as esculturas de madeira talhadas como as figuras de Baselitz, com gorros onde se lê ZERO e relógios nos punhos assinalando a hora quase final em que escrevemos estas crónicas.»
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21.12.11

Natal 2011 (1) - É o que se pode arranjar

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Objectivos

Uma exposição em Lisboa: «A Poster For Tomorrow»


(Contributo de Jorge Pires da Conceição.)

Está patente ao público no CIUL – Centro de Informação Urbana de Lisboa (situado no 1º piso do Picoas Plaza, Rua Viriato), a exposição dos 100 cartazes seleccionados no concurso internacional de 2011 da Poster For Tomorrow, este ano subordinado ao tema «O Direito à Educação».

«A Poster For Tomorrow» é uma associação não governamental criada em França em 2009 e que pretende através da comunicação gráfica despertar a cidadania dos povos e abalar a consciência social das sociedades politicamente constituídas. Adoptou como prática principal (para além das workshop pan-africanas) o lançamento anual dum concurso internacional sob cada um dos Direitos Humanos consagrados na Declaração Universal dos Direitos do Homem, sendo por isso o 10 de Dezembro de cada ano a data de referência para a exposição simultânea em diversas cidades de todo o mundo.

Reproduzem-se as palavras de Hervé Matine, o fundador de «A Poster4Tomorrow»: «O futuro do nosso planeta está nas nossas mãos. Se quisermos criar um mundo melhor onde todos queiramos viver juntos, temos de nos dotar de uma consciência social e participar activamente no debate social. Assim, os sítios das redes sociais constituem-se hoje como a ferramenta mais eficaz colocada à nossa disposição. O nosso sucesso enquanto iniciativa independente deve-se a cada ligação estabelecida e transmitida através destes media. A internet é actualmente o nosso media para amanhã”.

Lisboa recebeu a 1ª edição deste concurso em 2009, sob o tema «The pencil is mightier then the sword», referente ao Direito à Informação, mas não expôs o do ano passado, «Death is not justice», sobre o Direito à Vida. No entanto, nos 100 cartazes seleccionados em 2010. figuravam três trabalhos de jovens artistas gráficos portugueses. Embora com atraso, conseguiu-se trazer a Lisboa a edição deste ano, com o apoio e a responsabilidade da UNICEF Portugal, da Fundação Gonçalo da Silveira e da secção portuguesa da UNESCO.

A exposição poderá ser visitada todos os dias úteis, das 10 às 20 horas, até 30 de Dezembro.
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Portugal e Grécia

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Entrevista ao economista Costas Lapavitsas que esteve na Convenção de Lisboa e explicou as vantagens de uma Auditoria Cidadã à Dívida Pública.
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20.12.11

Quando ouvi o ministro Relvas…


… comentar as afirmações «muito claras e objectivas» do primeiro-ministro sobre a necessidade de os portugueses emigrarem, dizendo que «todos os dias se encontram homens e mulheres portugueses que tiveram dificuldades perante as actuais circunstâncias de viver em Portugal e partiram para outros países» e que os mesmos «são uma fonte de orgulho»; e, sobretudo, quando chamou «conservadores» àqueles que não partilham estas suas lapidares convicções, pensei imediatamente numa cantiga que a minha mãe trauteava quando eu era pequenina. Marinheiros e aventureiros, sempre os primeiros – e que um dia hão-de voltar.


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«Arriba Franco…


… más alto que Carrero Blanco» – dizia-se em Espanha, em 20 de Dezembro de 1973 (e repetia-se em Portugal).


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O Facebook é uma arma

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Pouco antes das 22:00 de 19/12, divulguei aqui (post imediatamente anterior a este) a «Carta aberta ao Senhor Primeiro Ministro», publicada por Myriam Zaluar no Facebook. À hora a que escrevo, 12:00 14:00 18:00 22:00 10:00  de 21/12 14:20 de 22/12, 5.536 7.682 12.177 15.780  19:370 24.433 leitores acederam directamente à Carta no blogue, numa maioria absolutamente esmagadora através do Facebook (onde 1.278 1.799 2.743 3.572  4.266 5.187 pessoas já partilharam o link). Porque o fluxo continua, irei actualizando estes dados.

Cada vez me convenço mais de que aqueles que diabolizam o Facebook não sabem realmente do que estão a falar…
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19.12.11

Carta aberta ao Senhor Primeiro Ministro


Este texto foi publicado hoje no Facebook por alguém que conheço pessoalmente. Tal como conheço o pai. Foi escrito pela Myriam, como podia ter sido escrito por dezenas de pessoas com quem lido diariamente ou quase. Sinto uma enorme revolta, mas pouco mais posso fazer do que dar-lhe este espaço.

Exmo Senhor Primeiro Ministro

Começo por me apresentar, uma vez que estou certa que nunca ouviu falar de mim. Chamo-me Myriam. Myriam Zaluar é o meu nome "de guerra". Basilio é o apelido pelo qual me conhecem os meus amigos mais antigos e também os que, não sendo amigos, se lembram de mim em anos mais recuados.

Nasci em França, porque o meu pai teve de deixar o seu país aos 20 e poucos anos. Fê-lo porque se recusou a combater numa guerra contra a qual se erguia. Fê-lo porque se recusou a continuar num país onde não havia liberdade de dizer, de fazer, de pensar, de crescer. Estou feliz por o meu pai ter emigrado, porque se não o tivesse feito, eu não estaria aqui. Nasci em França, porque a minha mãe teve de deixar o seu país aos 19 anos. Fê-lo porque não tinha hipóteses de estudar e desenvolver o seu potencial no país onde nasceu. Foi para França estudar e trabalhar e estou feliz por tê-lo feito, pois se assim não fosse eu não estaria aqui. Estou feliz por os meus pais terem emigrado, caso contrário nunca se teriam conhecido e eu não estaria aqui. Não tenho porém a ingenuidade de pensar que foi fácil para eles sair do país onde nasceram. Durante anos o meu pai não pôde entrar no seu país, pois se o fizesse seria preso. A minha mãe não pôde despedir-se de pessoas que amava porque viveu sempre longe delas. Mais tarde, o 25 de Abril abriu as portas ao regresso do meu pai e viemos todos para o país que era o dele e que passou a ser o nosso. Viemos para viver, sonhar e crescer.

Cresci. Na escola, distingui-me dos demais. Fui rebelde e nem sempre uma menina exemplar mas entrei na faculdade com 17 anos e com a melhor média daquele ano: 17,6. Naquela altura, só havia três cursos em Portugal onde era mais dificil entrar do que no meu. Não quero com isto dizer que era uma super-estudante, longe disso. Baldei-me a algumas aulas, deixei cadeiras para trás, saí, curti, namorei, vivi intensamente, mas mesmo assim licenciei-me com 23 anos. Durante a licenciatura dei explicações, fiz traduções, escrevi textos para rádio, coleccionei estágios, desperdicei algumas oportunidades, aproveitei outras, aprendi muito, esqueci-me de muito do que tinha aprendido.

Há 50 anos, mais ou menos a esta hora

Desenho de Dias Coelho

José Dias Coelho tinha 38 anos e era membro do PCP na clandestinidade quando foi assassinado pela PIDE, no dia 19 de Dezembro de 1961, junto ao Largo do Calvário, em Lisboa, numa rua que tem hoje o seu nome. Que a memória destes factos não seja apagada

Zeca Afonso dedicou-lhe A morte saiu à rua.



Luta armada no marcelismo (1969-1974)


Exposição A Voz das Vítimas, Antiga Cadeia do Aljube
4.ª feira, dia 21 de Dezembro de 2011, às 18h

O recurso à luta armada foi uma opção relevante da oposição ao regime ditatorial, designadamente no consulado marcelista, que antecedeu o 25 de Abril de 1974.

O lançamento de acções armadas como via para o derrube do regime e de apoio às lutas de libertação dos povos coloniais foi uma das expressões dos debates ideológicos e políticos que marcaram essa fase final do regime fascista.

A diferente natureza das organizações envolvidas nessas acções corresponde à pluralidade do posicionamento político dessas iniciativas – cuja influência se alargou a momentos posteriores.

Intervenções de:
  • Fernando Pereira Marques - LUAR (Liga de Unidade e Acção Revolucionária) 
  • Carlos Antunes - BR (Brigadas Revolucionárias) 
  • Raimundo Narciso - ARA (Acção Revolucionária Armada).
Na sessão, será distribuído um folheto com a caracterização sintética de cada uma das organizações e, bem assim, a lista das respectivas acções armadas.
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Factos e evidências


«No final da década de 90, David C. Korten (…) chegou a uma síntese que escandalizou o redil do pensamento formatado e único. (…): "Nos anos 80, o capitalismo triunfou sobre o comunismo; nos anos 90, vai triunfar sobre a democracia". Foi necessário passar uma década para que a ideia se transformasse numa constatação não só inegável mas até mesmo palpável: a crise e as medidas alegadamente anticrise estão a trazer consigo cada vez mais autoritarismo, supressão de direitos humanos e repressão.

Portugal é um cadinho provinciano da experiência. A austeridade - num País que vende em saldo um banco onde o Estado enterrou e vai continuar a enterrar milhares de milhões - atinge a classe média e estratos mais pobres da população, reforçando o nada honroso título português de campeão europeu da desigualdade. (…)

Quase três décadas após 1984, estamos em vias de banir as palavras perigosas. Está na hora de voltar à leitura de George Orwell, ajudando a prever, e a prevenir, o pior dos mundos, seja qual for a cor do totalitarismo. A ditadura dos mercados confirma as mais soturnas previsões.»

João Paulo Guerra, Capitalismo.Na íntegra AQUI.
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18.12.11

Salazar e a anexação de Goa

@João Abel Manta

Exactamente há 50 anos, o «império português» levou uma grande machadada com a anexação de parte do seu território pela União Indiana. Informação não falta hoje para nos recordar os acontecimentos, em quase todos os meios de comunicação social.

Mas tenho à minha frente o texto do célebre discurso que Salazar fez sobre o assunto na Assembleia Nacional, em 3 de Janeiro de 1962 (lido, relido e por mim sublinhado…), e não resisto a trazê-lo para aqui (*). É um longo elogio ao «pequeno país» que manteve o seu território «com sacrifícios ingentes», ignorados e combatidos por quase todos e, antes de mais, pela ONU, desde sempre objecto de um ódio muito especial do ditador. Não se desse o caso de o texto ser tão longo (24 páginas A5), digitá-lo-ia; assim, ficam algumas passagens.

Desde logo, a primeira frase: «Não costumo escrever para a História e sinto ter de fazê-lo hoje, mas a Nação tem pleno direito de saber como e porque se encontra despojada do estado Português da Índia». Escrever para a História…

«Não sei se seremos o primeiro país a abandonar as Nações Unidas, mas estaremos certamente entre os primeiros. E entretanto recusar-lhes-emos a colaboração que não seja do nosso interesse directo.» Ainda sobre as Nações Unidas, dirá também que «na melhor das hipóteses se encontram antecipadas de séculos em relação ao espírito dos homens e das sociedades», e que há que perguntar se vamos no bom caminho «quando se confiam os destinos da comunidade internacional a maiorias que definem a política que os outros têm de pagar e de sofrer».

Mas a cereja em cima do bolo é mesmo a frase trágica e heróica com que o discurso acaba e que, essa sim, é amplamente conhecida: «Toda a Nação sente na sua carne e no seu espírito a tragédia que se tem vivido, e vivê-la no seu seio é ainda uma consolação, embora pequena, para quem desejara morrer com ela.»

Com a releitura de tudo isto, volta a recordação do ambiente tenebroso em que este país viveu durante décadas. Que deixou marcas profundas.

(*) Estava afónico «com as emoções das últimas semanas» e quem o leu, de facto, foi Mário de Figueiredo.
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Quando já não houver dinheiro para pagar telemóveis, volta-se atrás…

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Professores, a nova prioridade na lista das exportações


Quando os meus pais emigraram para Moçambique porque as condições de trabalho na «metrópole» eram muito más, na primeira metade do século passado, levavam na bagagem uma «Carta de Chamada». Tratava-se de um documento assinado e enviado por um comerciante ou um funcionário público local, que se responsabilizava pelo candidato a emigrante. E nem sempre era de fácil obtenção.

Ainda há hoje alguns entraves para assentar arraiais, por exemplo em Angola, mas a «cooperação» promovida pela nossa diplomacia económica, com o dr. Portas ao leme, oleará os circuitos e tentará encher charters com professores destinados a Luanda ou a S. Paulo.

Tudo isto a propósito destas inacreditáveis declarações do primeiro-ministro, que merecem ser ouvidas e vistas.



Se preferirem em versão televisiva: «Você é o elo mais fraco. Adeus!»

(Regressa, Alexandre Miguel Mestre, porque estás perdoado.)
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Dia zero da Auditoria Cidadã


A Convenção da «Iniciativa para uma Auditoria Cidadã à Dívida Pública» decorreu ontem em Lisboa, com a participação de centenas de pessoas. 

Uma parte do dia foi ocupada por um conjunto de curtas e excelentes apresentações feitas por elementos de um Grupo Técnico que há largos meses vem a preparar o arranque desta iniciativa em Portugal, bem como por intervenções de convidados estrangeiros com grande experiência neste domínio.

A partir de meio da tarde, foi aberto um longo debate no qual foram abordadas questões de ordem geral relacionadas com o tema em questão, após o que foi apresentado o texto final da Resolução do encontro, depois de nele serem integradas algumas propostas de alteração recebidas através do site nos dias que precederam a Convenção ou no decorrer da mesma.

Finalmente, procedeu-se à votação do referido texto e à ratificação da Comissão de Auditoria proposta à Convenção de que faço parte com orgulho e para o trabalho da qual contribuirei, como puder e como souber.


1. Resolução da Convenção de Lisboa
Auditoria cidadã à dívida pública
Conhecer para agir e mudar

Salários e pensões confiscadas, trabalho adicional não pago, mais impostos sobre o trabalho e bens básicos de consumo, mais taxas sobre a utilização de serviços públicos, menos protecção no desemprego, cedência a privados de bens comuns pagos por todos — tudo justificado pela necessidade de servir a dívida pública sem falha. Dizem-nos que cortar despesa pública, aumentar impostos e taxas, degradar o nível de provisão e de qualidade dos serviços públicos para servir a dívida sem falha, é “a única alternativa”. Mas como pode ser alternativa o que não chega sequer a ser uma solução? A austeridade, o nome dado a todos os cortes e confiscos, não resolve nenhum problema, nem sequer os da dívida e do défice público. Pelo contrário: conduz ao declínio económico, à regressão social, e depois disso à bancarrota. É chegado por isso o momento de conhecer o que afinal é esta dívida, de exigir e conferir a factura detalhada. De onde vem a dívida e porque existe? A quem deve o Estado? Que parte da dívida é ilegítima e ilegal? Que alternativas existem para resolver o problema do endividamento do Estado? Tudo isso incumbe a uma auditoria à dívida pública. Uma auditoria que se quer cidadã para ser independente, participada, democrática e transparente.

(Continuar a ler no site da IAC.)


2. Comissão da Auditoria Cidadã

Adelino Gomes / Albertina Pena / Alexandre Sousa Carvalho / Ana Benavente / António Avelãs / António Carlos Santos / António Romão / Bernardino Aranda / Boaventura Sousa Santos / Eugénia Pires / Guilherme da Fonseca Statter / Henrique Sousa / Isabel Castro / Joana Lopes / João Camargo / João Labrincha / João Pedro Martins / João Rodrigues / José Castro Caldas / José Goulão / José Guilherme Gusmão / José Reis / José Soeiro / José Vitor Malheiros / Lídia Fernandes / Luís Bernardo / Luísa Costa Gomes / Manuel Brandão Alves / Manuel Carvalho da Silva / Manuel Correia Fernandes / Maria da Paz Campos Lima / Mariana Avelãs / Mariana Mortágua / Martins Guerreiro / Octávio Teixeira / Olinda Lousã / Pedro Bacelar de Vasconcelos / Raquel Freire / Ramiro Rodrigues / Sandro Mendonça / Sandra Monteiro / Sara Rocha / Ulisses Garrido / Vítor Dias
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