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7.1.12

Again and again...

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O dr. Relvas «voltou a defender que a juventude portuguesa tem na emigração um melhor futuro»

Tal como na cantiga, sem «soidades» na lembrança.


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Ainda a propósito do Golpe de Beja e de um texto de Paulo Varela Gomes


Foi com emoção que li um texto de Paulo Varela Gomes no P2 do Público de hoje, ele que é o filho mais velho de um dos protagonistas da uma das mais importantes tentativas falhadas para derrubar o salazarismo. É também com estas memórias dos filhos das vítimas da ditadura que se tece a nossa História e é absolutamente fundamental que sejam preservadas! Nessa medida, este texto é exemplar.

Não conheço o Paulo pessoalmente. Ou melhor: vi-o uma vez, de raspão, em 1967, quando fui a sua casa ter com a mãe, Maria Eugénia Varela Gomes, para ela me entregar uma carta que o Paulo escrevera ao Papa Paulo VI, poucos dias antes da chegada deste a Portugal, pedindo-lhe que intercedesse pela libertação do pai, então ainda a cumprir os seis anos de pena a que fora condenado por causa de Beja. O objectivo era que a carta em questão fosse entregue na Nunciatura e, por razões que já expliquei em tempos mas que não vêm agora ao caso, era-me fácil desempenhar discretamente a tarefa. A Maria Eugénia acredita que a iniciativa foi eficaz e que à mesma se ficou a dever a redução das medidas de segurança a que o marido estava sujeito, de um ano e meio para seis meses. Nem sei se o Paulo se lembrará dessa carta, mas hoje, ao ler o seu texto, ela «regressou».

Não será fácil a quem nasceu ou cresceu em liberdade «sentir» o significado destes pequenos factos: uma carta de um adolescente que tem o pai preso pela PIDE, uma entrega semi-clandestina de um texto dirigido a um Papa cuja visita não se desejou mas da qual se tentou tirar partido, etc., etc., etc. Mas foi também assim que chegámos à liberdade. E que temos de a defender, como o Paulo tão bem sublinha no fim do seu texto: «A iniquidade não pode vencer.» Texto, belíssimo, que aqui fica na íntegra, já que não se encontra acessível online.


Aquilo que é necessário

Na manhã do dia 1 de Janeiro de 1962, eu, o meu irmão e as minhas duas irmãs fomos acordados, não pelo meu pai ou a minha mãe como era costume, mas por um tio e uma tia. Mandaram-nos vestir um roupão sobre os pijamas e acompanhá-los. Atravessámos a curta distância que separava da casa do meu avô materno a casa onde vivíamos, e à qual nunca mais voltei. Durante semanas só nos disseram coisas vagas. As empregadas do meu avô calavam-se de repente quando passávamos. Soubemos depois que a família não tinha a certeza que o meu pai sobrevivesse aos ferimentos de bala que sofrera no ataque ao quartel de Beja na madrugada daquele dia 1. A minha mãe estava presa. Voltou para casa um ano e meio depois. Ele, ao fim de seis anos. Lembro-me: a minha mãe, a quem não deixaram abraçar os filhos pequenos, encharcando com lágrimas os punhos cerrados de fúria com que agarrava as grades do parlatório de Caxias. O nosso terror. O meu pai, numa cela da Penitenciária de Lisboa, entubado, magríssimo, a voz quase apagada, um fantasma desvanecido contra a luz da janela, aquele homem que eu recordava grande, alegre, garboso na sua farda. Desapareceu de vez a infatigável alegria do meu irmão, um miúdo palrador e de olhos cheios de luz. Ganhou dificuldades de fala e endureceu. Nunca mais encontrou a paz. Por mim, fui adolescente a querer ser homem sem ter para isso pai. Não foi fácil e não se tornou menos difícil depois. As minhas irmãs, eu sei lá, nunca falamos disso. A família juntou-se para nos acolher e ajudar, houve amigos que estiveram à altura da ocasião, mas vivíamos com alguma dificuldade. Quando a minha mãe foi libertada, tinha perdido a profissão que a PIDE a impediu de retomar. Arranjou os empregos possíveis. Dormia pouquíssimo, trabalhava loucamente e aguentou tudo. Só perdeu a juventude e a saúde.

A economia moral do pasteleiro


Façam o favor de ler a crónica de Nuno Ramos de Almeida no «i» de ontem. Assino por baixo.

«A ideia de um capitalismo regularizado pela moralidade dos empresários é interessante, mas não é verdadeira. Estes só pagarão os impostos que a lei os obrigar a pagar. O problema não está na sua falta de moralidade, está num regime que privatiza os lucros e socializa os prejuízos. E numa União Europeia que obriga os trabalhadores por conta de outrem a sacrificar-se e cria escapatórias para os grandes grupos.»

Continuara a ler aqui.
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Dúvidas metafísicas?

Clicar e ampliar para ler.

(Via Fernando Penim Redondo no Facebook)
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6.1.12

Sabor amargo (1)


«Os nostálgicos do PEC IV, europeístas convictos, têm agora de responder a este libelo acusatório da Comissão Europeia. Durante o Governo do Partido Socialista, os 20% mais pobres perderam entre 4,5% e 6% do seu rendimento, ao passo que os 20% mais ricos perderam em média 3%. Isto sem contar com os efeitos devastadores que tiveram, nas vidas dos mais pobres, os cortes nos serviços públicos.»
José Manuel Pureza, (I)moralismos

«A firma Jerónimo Martins (mercearias fias) merece todo o respeito e consideração. Primeiro, porque antigamente comprou azeite a Herculano. Segundo, porque ajuda hoje a divulgar o interessantíssimo pensamento de António Barreto, que por enquanto não vende azeite.»
Vasco Pulido Valente, Pingo amargo, (Público de hoje, sem link)

«Não vivemos apenas num mundo com mais velhos. O nosso mundo envelheceu, tem vergonha e medo de mostrar a sua idade. O que faz a idade não é o tempo mas a vontade de mudar o tempo. Resta-nos ensinarmos os meninos a serem pequenos velhos. E a serem felizes não por gerarem mas por gerirem.»
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Já tardava

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Otelo versus Belmiro


«Otelo é, como se sabe, um criminoso. Cometeu um imperdoável crime na madrugada de 25 de Abril de 1974, que hoje seria punido com 5 a 15 anos de prisão. O MP não abriu, porém, qualquer inquérito. Talvez, que sei eu?, porque não tenha sabido ou nenhum "grupo de cidadãos", dos muitos que não gostaram da coisa, se tenha queixado. (…)

Estranho é que o MP, vinculado pelo seu Estatuto, "a critérios de legalidade e objectividade" e não de conveniência política, não tenha também aberto um inquérito às declarações de Belmiro de Azevedo segundo as quais "quando o povo tem fome, tem o direito de roubar".»

Manuel António Pina, no JN.
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Patos sem cabeça


Em Le Monde Diplomatique (edição portuguesa) deste mês, um texto de Serge Halimi.

«As cimeiras de dirigentes europeus seguem-se umas às outras e falham; a Casa Branca e o Congresso contendem sem resultados. «Os mercados» perceberam e passaram a tratar os eleitos como patos sem cabeça, como meros joguetes das forças que eles próprios criaram e que já não sabem dominar. Porém, enquanto isso – em França, na Rússia, nos Estados Unidos e noutras paragens – preparam-se eleições presidenciais. E estas saturam o espaço cívico e mediático, criando um sentimento irreal de desconexão entre o que se diz e o que se faz. Porque mesmo que já não se espere grande coisa dos candidatos, ou mesmo coisíssima nenhuma, pelo menos eles são conhecidos – os seus percursos, os seus defeitos, os seus aliados, o seu círculo de relações, as suas redes. A atenção da população volta-se portanto mais facilmente para Barack Obama e Newton Gingrich, para Nicolas Sarkozy e François Hollande, do que para os fundos especulativos e as instituições de crédito. Mas para que servem ainda estas personagens?»

Continuar a ler aqui.
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5.1.12

O 18

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A fotógrafa Paulete Matos saiu à rua e lançou este vídeo em defesa da carreira 18, ameaçada de fecho.



Petição a ser assinada aqui por quem quiser associar-se.
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Um país mais ou menos


Título de uma crónica de Ricardo Araújo Pereira na Visão, desde hoje online.

«De acordo com o relatório da Economist Intelligence Unit, Portugal passou a ser uma democracia com falhas. (…)

Quando se define um regime como "democracia com falhas", isso significa que começa a haver demasiadas falhas para tão pouca democracia. O que levanta o problema de saber se um regime pode ser relativamente democrático, isto é, se um bocadinho de democracia é democracia. Assim como aderimos mal à ideia de que determinada pessoa possa ser apenas ligeiramente pedófila, ou estar mais ou menos morta, o conceito de democraciazinha também pode causar alguma estranheza. (…)

Quando é que um regime deixa de ser uma democracia com falhas para passar a ser uma ditadura com falhas? (…) Se se trata de uma ditadura que passou a ter algumas falhas, há a esperança de que esteja a caminhar para vir a ser uma democracia; se, como Portugal, era uma democracia plena e passou a ter algumas falhas... Enfim, é fazer as contas.»
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Quanto a Otelo...


… tudo explicado sobre esta notícia:


O DIAP também vai investigar se aparecer por aí um outro grupo de cidadãos que se queixe de Otelo por ele ter feito o 25 de Abril? Porque não? Haja pachorra!
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Multiplicação dos pobres


Manuel António Pina comenta hoje uma afirmação da Comissão Europeia, veiculada há dois dias pelo Jornal de Negócios, segundo a qual Portugal é o único, entre os países europeus mais afectados pela crise, onde as medidas de austeridade afectam mais os pobres do que os ricos.

Pergunta se «não se justificaria que a austeridade incidisse fortemente sobre os ricos até fazer deles pobres» e acrescenta: «Democratizando a pobreza ao mesmo tempo que democratiza a economia, o Governo realizaria o suave e patriótico milagre da multiplicação dos pobres mais eficazmente do que limitando-se a empobrecer ainda mais os pobres que já são pobres.»

Por outras palavras: se empobrecer mais os pobres não parece estar a resultar para tirar Portugal da crise, não terá chegado o momento de tentar empobrecer também os não pobres? Não é bem um raciocínio pelo absurdo mas quase, mas quando os instrumentos lógicos clássicos já não são suficientes para demonstrar o que quer que seja, há que recorrer a outros menos ortodoxos mas talvez mais eficazes.

P.S. – Mais ou menos a propósito, ler: Aprender com Bismarck.
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Logo à tarde

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4.1.12

A Hungria - de novo autoritária


As notícias que nos chegam da Hungria não são más, são péssimas. Dezenas de milhares de pessoas desfilaram anteontem nas ruas de Budapeste, em protesto contra a nova Constituição que entrou agora em vigor e que é acusada de condicionar liberdades fundamentais e de pôr em causa a independência de instituições como o Banco Central e o Tribunal Constitucional.

O diploma tem como subtítulo do preâmbulo a frase «Deus abençoe os húngaros», reconhece o papel do cristianismo na preservação da identidade nacional, defende que o feto deve ser protegido desde a concepção e não admite o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Além disso, assiste-se, um pouco por toda a parte, ao crescimento de um culto generalizado de nacionalismo que vai, por exemplo, até ao ponto de estarem previstos impostos municipais para quem tenha cães de raça não húngara!




Entretanto, sublinhe-se a importância de uma iniciativa notável de treze antigos dissidentes do regime comunista, alguns deles ironicamente compagnons de route de Viktor Orbán, que acabam de lançar um longo apelo que merece ser lido.

The decline of democracy – the rise of dictatorship
New Year’s message sent by former Hungarian political dissidents
2 January 2012, Budapest

The undersigned, participants of the erstwhile human rights and democracy movement that opposed the one-party communist regime in the 1970s and 1980s, believe that the Hungarian society is not only the victim of the current economic crisis, but also the victim of its own government. The present government has snatched the democratic political tools from the hands of those who could use these tools to ameliorate their predicament. While chanting empty patriotic slogans, the government behaves in a most unpatriotic way by reducing its citizens to inactivity and impotence.

The constitutional system of Hungary has also sunk into a critical situation. As of the 1st of January 2012, the new constitution of Hungary along with several fundamental laws came into force. Viktor Orbán’s government is intent on destroying the democratic rule of law, removing checks and balances, and pursuing a systematic policy of closing autonomous institutions, including those of civil society, with the potential to criticise its omnipotence. Never since the regime change of 1989 when communist dictatorship was crushed has there been such an intense concentration of power in the region as in present-day Hungary. (…)

Europe is at a crossroads too. Hungary is a sad example of what may happen wherever there is a concentration of crisis tendencies, aggravated by attempts to resolve problems caused by an economic and social crisis with authoritarian means and a policy of nationalistic isolation. Instead of prosperity and stability, such a policy can only lead to suppression, conflict and turmoil. The desperate situation of present-day Hungary should be a warning for all of us: if Europe is prepared to help Hungary, it will also help itself.

Na íntegra aqui.

- Dérive autoritaire en Hongrie : que peut faire l'Europe?
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Nunca desprezar bons conselhos!


(Via Henricartoon no Facebook)
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Pingo Doce e CGD – Descubra as diferenças?


A onda de indignação que se ergueu quando se soube que a sociedade Francisco Manuel dos Santos tinha transferido o seu capital para a Holanda, para fugir ao peso dos impostos em Portugal, é mais do que justa, sobretudo se nos recordarmos dos discursos éticos e patrióticos do seu «dono». Os comentadores comentaram, as redes sociais socializaram, pede-se boicotes e reclama-se salários iguais aos dos holandeses para os empregados do Pingo Doce. Tudo bem e assim pode e deve ser.

Mas ainda não percebi por que razão não se assistiu à mesma vaga de fundo, em termos de protesto, quando foi anunciado que, também nos últimos dias de 2011, a Caixa Geral de Depósitos mudou aplicações financeiras para as Ilhas Caimão por ter terminado, na Madeira, a isenção de IRC e uma tributação favorável dos juros para depósitos de cidadãos não residentes. Não me lembro de ninguém ter pedido fecho de contas no banco em questão, nem incitado a uma corrida sistemática a levantamento de depósitos.

E, no entanto, se, no primeiro caso, estamos em presença de um cidadão pouco exemplar na sua conduta, no segundo, tratou-se de um exercício fiscal autofágico do Estado português. (E a Holanda sempre é mais «respeitável» que as Ilhas Caimão, onde as regras de controlo, por exemplo para detecção de lavagem de dinheiro, deixam muito a desejar. Há menos de um ano, ainda figuravam, em Portugal, na lista negra de zonas fiscais.) Menos grave? Porquê, exactamente? Algo deve estar a escapar-me.

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3.1.12

Retrato


«Será que os jornalistas da televisão se dão conta do retrato que fazem do país? Um país resignado, onde o único discurso pertence ao Governo, onde não há opções políticas, reais discordâncias, debates em pé de igualdade, alternativas, revolta, indignidades, hipocrisias? Onde há apenas assaltos para justificar o medo, acidentes para emocionar, pobres para justificar a caridade e governantes tão generosos que dão sete euros por mês aos mais pobres e que nos explicam que não sobra dinheiro para o SNS depois de pagar o juro das dívidas que meteram nos bolsos dos seus amigos?»

Da crónica de José Vítor Malheiros, no Público de hoje - «Retrato de grupo com o país ao fundo»online aqui.
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Dito por aí (10)

@João Abel Manta

«A Europa vive uma crise profunda. A seu ver, o colapso é uma possibilidade? 

No estado actual, é possível. Mas vamos sair desta situação de uma forma ou de outra. Irónico é a Alemanha poder voltar a dominar. É um passo atrás. Entre Agosto de 1914 e Maio de 1945, a Europa, de Madrid a Moscovo, de Copenhaga a Palermo, perdeu quase 80 milhões de pessoas em guerras, deportações e campos de extermínio, fome, bombardeamentos. O milagre está em que sobreviveu. Mas a sua ressurreição foi apenas parcial. A Europa está a passar por uma crise dramática; está a sacrificar uma geração, a dos seus jovens, que não acreditam no futuro. Quando eu era jovem, havia esperanças para todos os gostos: o comunismo, com certeza! O fascismo, que foi também uma esperança, não nos deixemos enganar. E, para os judeus, havia ainda o sionismo. Havia ideologias aos montes... Isso já não existe. Ora, quando a juventude não é tomada por uma esperança, mesmo que ilusória, o que resta? Nada. O grande sonho messiânico socialista conduziu aos gulags e ao socialista francês François Hollande – tomo-lhe aqui o nome como um símbolo, não estou a criticá-lo. O fascismo descambou no horror. O Estado de Israel tem imperativamente de sobreviver, mas o seu nacionalismo é uma tragédia, profundamente contrário ao génio judeu, que é cosmopolita. Pessoalmente, quero ser nómada. Vivo segundo a divisa do Baal Shem Tov, grande rabino do século XVIII: "A verdade está sempre no exílio."»
Entrevista: George Steiner, um certo conceito de conhecimento

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«Se um génio do marketing tivesse como encomenda uma campanha a apelar ao suicídio colectivo, não conseguiria nada potencialmente mais eficaz do que aquilo que na última semana todos pudemos ler, ver e ouvir em todos os jornais, televisões, rádios e locais na Internet onde se debitam notícias e opiniões. Felizmente, quando apanhei os primeiros jornais do Novo Ano, confirmei não ter ocorrido um ataque de histeria generalizado e não estarem as ruas cheias de multidões de corpos sem vida por causa da gente que não quis esperar pelo apocalipse... Quão sensatas são as pessoas, graças a Deus!
O mecanismo que impulsiona esta ideologia da inevitabilidade, do conformismo, da aceitação determinista de um destino fatal, transversal, é uma arma paralisante. Como pode uma sociedade querer melhorar, como pode uma sociedade renovar-se, como pode uma sociedade curar as suas maleitas se, simplesmente, como um doente de cancro terminal vencido pelo cansaço, resigna à luta e aceita o fim que lhe traçam? A quem interessa essa desistência? Quem ganha com essa inércia? Ganha quem não quer mudar o statu quo actual, mesmo se for ele o causador principal da desgraça a que chegámos.»
Pedro Tadeu, A quem interessa que 2012 seja um ano difícil?

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«Palavras não são capazes de expressar o significado do lançamento da Iniciativa para uma Auditoria Cidadã da Dívida de Portugal – IAC - realizado em Lisboa, Portugal, em 17 de Dezembro de 2011, que certamente entrará para a história do país. (…)
O grande destaque do evento foram as brilhantes apresentações de integrantes da IAC – cidadãos portugueses voluntários – que, antes mesmo do início dos trabalhos da comissão, demonstraram plena capacidade de dominar o tema do endividamento público, suas origens e impactos na vida de todos.»
Maria Lucia Fattorelli, Auditoria Cidadã da Dívida de Portugal
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Manifestos & Manifestações

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Seminário internacional

Política, Linguagem e Revolta


20 e 21 de Janeiro de 2012
Teatro Maria Matos

Um pouco por todo o mundo, no último ano e meio, têm vindo a multiplicar-se as movimentações sociais e os conflitos políticos: manifestações, ocupações, motins, acampadas e revoluções, diversas nas suas motivações, formas e efeitos, tal como nas linguagens em que se produzem e exprimem. Não será certamente fácil descortinar um traço contínuo que percorra tamanha variedade. A primeira tentação é o recurso à «crise» como factor explicativo, uma certa ideia difusa de crise, imagem de um mundo que colapsa e se transfigura, mas um olhar mais próximo sobre cada um destes episódios facilmente descobre não uma mas sim múltiplas crises, inúmeros fragmentos de práticas sociais, de experiências políticas, de ideias e ideologias, que se afirmam e/ou rejeitam. Citando, inventando ou transformando conceitos, expressões e imagens com proveniências muito diversas, de antigas tradições populares a uma nova linguagem mediática e cibernética, de repertórios de contestação próprios dos movimentos sociais da modernidade aos termos dos mais recentes debates teóricos, os acontecimentos que hoje vivemos parecem dispensar uma espécie de metalinguagem que os descreva ou os interprete. É neste contexto que a Unipop e o Teatro Maria Matos organizam um seminário de debate sobre a relação entre a palavra e a política, tomando como ponto de partida a discussão sobre a natureza, os limites e as vantagens de uma das formas mais consagradas por que a palavra se faz política, a forma-manifesto, e como ponto de chegada os manifestos, discursos e palavras que têm sido elaborados nas revoltas e revoluções em curso. Para este efeito, reunimos um conjunto de activistas, militantes e teóricos de diferentes proveniências.

A participação no seminário é livre, mas pede-se aos interessados que efectuem uma inscrição prévia, enviando, até dia 18 de Janeiro, um e-mail com o nome para cursopcc@gmail.com.

Sexta-feira, 20 de Janeiro
18h – Apresentação do seminário, pela Unipop

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18h15 – Conversa: O que é um manifesto?
Em Império, obra já apelidada de «manifesto comunista para o século XXI», Antonio Negri e Michael Hardt, retomando a discussão de Louis Althusser sobre os pontos de contacto entre O Príncipe, de Maquiavel, e o Manifesto do Partido Comunista, de Marx e Engels, ensaiam uma definição da forma-manifesto: «Nos nossos dias, um manifesto, um discurso político, deveria aspirar a preencher (…) a função de um desejo imanente que organiza a multidão. Não há aqui, em última instância, nem determinismo nem utopia [como sucederia, respectivamente, com O Príncipe e com o Manifesto do Partido Comunista]: trata-se antes de um contrapoder radical, ontologicamente assente não em qualquer “vazio para o futuro”, mas na actividade real da multidão, sua criação, sua produção e seu poder». Nesta conversa com Antonio Negri pretende-se reflectir sobre o papel do manifesto e a sua relação com a prática política, designadamente à luz das características do ciclo de revoltas do último ano e meio, por ele saudadas como levantamentos insusceptíveis de produzir novas lideranças.

Antonio Negri, filósofo italiano. Autor, entre outros, de Império, Multidão e Commonwealth, com Michael Hardt.

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20h30 – Mesa de Comunicações: A política das palavras
A construção de alternativas políticas tem implicado tentativas de rejeitar, reivindicar ou ressignificar determinadas palavras, num jogo que tanto se trava a nível de conceitos monumentais, como por exemplo democracia, liberdade ou terrorismo, como a nível de expressões mais particulares, como por exemplo em «geração (à) rasca». Estas possibilidades políticas das palavras têm sido, todavia, confrontadas com outras alternativas que frequentemente se fundamentam na crítica ao imperialismo da palavra na política, o qual tornaria esta última a uma ordem emocional particularmente acalentada, por exemplo, em projectos populistas ou em acções directas.

Bruno Monteiro, sociólogo e investigador do Instituto de Sociologia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
Raúl Sánchez Cedillo, licenciado em Filosofia. Tem trabalhado, desde 2000, em projectos de autoeducação, em Madrid. Membro da Universidad Nómada.
Judith Revel, filósofa francesa. Tem trabalhado sobre o pensamento de Michel Foucault e publicado livros e artigos em torno da relação entre a filosofia da linguagem e a literatura nos anos 1950-60 e da passagem da biopolítica à subjectivação entre o final dos anos 1970 e o início dos anos 1980.

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Sábado, 21 de Janeiro

10h – Oficina: Para um Dicionário das Revoltas Actuais
Discussão a partir de um conjunto de manifestos, panfletos e textos reunidos num arquivo vivo do actual ciclo de revoltas e revoluções, procurando discernir pontos de contacto e de contraste entre as revoluções árabes, os protestos na Europa do Sul e nos Estados Unidos ou, ainda, os motins de Londres.

António Guerreiro, crítico no jornal Expresso, tradutor e ensaísta.
Tomás Herreros, professor de Ciência Política Universidade Aberta da Catalunha. Membro da Universidad Nómada.
Miguel Cardoso, doutorando em Literatura Inglesa em Birkbeck College, University of London. Membro da Unipop.

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11h45 – Mesa-redonda: O Movimento dos Indignados – Balanço e Perspectivas
Em Espanha, mas também em Portugal e um pouco por todo o mundo, de Israel aos Estados Unidos, os últimos meses viram emergir uma nova realidade no espaço político e social a que se tem chamado o movimento dos indignados. Este debate visa fazer um balanço dessa experiência e lançar perspectivas de futuro, reunindo-se para o efeito intervenientes nas lutas que têm decorrido em cidades ibéricas, do Porto a Barcelona, passando por Lisboa e Madrid.

Paulo Raposo, antropólogo, professor no Departamento de Antropologia do ISCTE.
Gui Castro Felga, arquitecta.
Javier Toret, investigador e esquizoanalista. Activista do movimento Democracia real ya!, em Barcelona e Membro da Universidad Nómada.
Ricardo Noronha, investigador do Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Membro da Unipop.
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Começou bem o ano de 1960


Álvaro Cunhal, Carlos Costa, Francisco Martins Rodrigues, Francisco Miguel, Guilherme da Costa Carvalho, Jaime Serra, Joaquim Gomes, José Carlos, Pedro Soares e Rogério de Carvalho fugiram da Fortaleza de Peniche em 3 de Janeiro de 1960, numa iniciativa absolutamente espectacular.

«Mesmo que, por qualquer motivo, a fuga tivesse sido abortada na sua segunda fase – o trajecto para os esconderijos na zona de Lisboa -, nem por isso deixaria de poder ser considerada um enorme sucesso político para o PCP e um momento alto contra o regime de Salazar. Poucas fugas de carácter político se lhe podem comparar, mesmo incluindo as mais célebres fugas ocorridas durante a II Guerra Mundial. Na história do movimento comunista, é um acontecimento ímpar.»
José Pacheco Pereira, Álvaro Cunhal. Uma Biografia Política. O Prisioneiro (1949-1960), volume 3, p.724.



P.S. – Desenho de Margarida Tengarrinha, onde pode ser visto o percurso da fuga.
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2.1.12

Também vai ser exportado para a Holanda?


Há que ver sempre o possível lado positivo das notícias!
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50º aniversário do Golpe de Beja - Evocação por 23 participantes


Os subscritores, participantes sobrevivos da Revolta Armada de Beja - cujo quinquagésimo aniversário ocorre no próximo 1º Janeiro – pretendem, através da divulgação pública desta evocação, contribuir para resgatar a “memória apagada” dessa efeméride, remetida como está para o limbo dos acontecimentos avulsos, insignificativos; situação, aliás, em consonância com muitas outras relativas à memória da resistência antifascista; e em contraste flagrante com o desvelo comemorativo dedicado ao chamado Estado Novo, seus personagens e afins.

Na realidade, o combate e a resistência contra a ditadura e o fascismo em Portugal, constituíram um processo histórico contínuo ao longo de metade do séc. XX. Nesse processo insere-se a Revolta de Beja...porque aconteceu e ficou selada em sangue e morte. A sua importância e significado são-lhe conferidos pelo fluxo histórico no seu todo. Não foi um episódio isolado, fora do contexto da luta comum do povo português pela libertação de um regime ditatorial.

Com efeito, no caso da Revolta de Beja, é fácil estabelecer a sua ligação orgânica com o grandioso movimento de massas/levantamento popular provocado pelas eleições presidenciais em 1958; vindo a ser, exactamente, o general Humberto Delgado o impulsionador da Revolta de Beja e, como tal, figurando em 1º lugar na lista dos 87 incriminados pronunciados para julgamento no Tribunal Plenário Fascista.

Na sequência imediata da Revolta de Beja, eclodiu em Março desse mesmo ano de 1962, a revolta estudantil de maiores proporções contra o regime; o 1ºde Maio desse ano foi assinalado pelos trabalhadores e outros sectores da população com a maior força e amplitude de sempre. E o processo histórico continuou, já com a guerra colonial, por mais 12 anos, até 1974.

Tem sido prática corrente, após o derrubamento do fascismo até aos dias de hoje, minimizar a importância e o significado da Revolta de Beja. Obras antigas e recentes, de pretensa intenção histórico/cronológica, nem sequer anotam o acontecido. Mas bastaria ter consultado a imprensa da época para ver em grandes parangonas a dimensão do impacto e do sobressalto que provocou no País e além-fronteiras. O ditador tão emocionado ficou (citando) “com os acontecimentos das últimas semanas” que perdeu a voz e alguém teve de ler-lhe o discurso na sessão da Assembleia Nacional de 3 Janeiro; e cancelada teve de ser a costumada manifestação de desagravo.

Mas não serão certamente a contrafacção histórica ou a posição negacionista, até hoje dominante, que conseguirá alterar o significado patriótico/cívico/ético da Acção Revolucionária de Beja; que conseguirão apagar no registo da história o facto de “ter acontecido”; que abalarão as convicções e o orgulho, mantido sempre enquanto houve/houver alento pelos revoltosos de Beja, por terem dado corpo e presença e não terem recuado na hora de confirmação.

A 50 anos de distância temporal, neste ensejo evocativo os abaixo-assinados sentem-se felizes por poderem afirmar que a Revolta Armada de Beja insere-se, com honra, no processo histórico de luta e resistência do Povo Português contra a ditadura e o fascismo.

Simultaneamente, manifestam óbvia solidariedade, respeito e admiração, para com todas as outras “memórias apagadas”, por idênticos e obscuros propósitos de desvalorização do historial da resistência antifascista portuguesa.

Resta portanto, aos resistentes sobreviventes da Revolta de Beja saírem em defesa da causa pela qual empenharam as suas vidas, que continua a ser a Causa da Liberdade pela Justiça Social, a qual, neste século XXI, corresponde a ser a Causa contra o retrocesso civilizacional, contra o neoliberalismo que retira todos os recursos da economia real para entregá-los ao capital financeiro, avassalando o mundo e ameaçando o destino das gerações vindouras.

Assim foi aqui feito,
Evocando o Cinquentenário da Revolta Armada de Beja.
Em Lisboa, na última semana do ano 2011

ass)
Airolde Casal Simões
Alexandre Hipólito dos Santos
Alfredo da Conceição Guaparrão Santos
António da Graça Miranda
António Pombo Miguel
António Ricardo Barbado
António Vieira Franco
Artur dos Santos Tavares
Delmar Silva
Edmundo Pedro
Eugénio Filipe de Oliveira
Fernando Rôxo da Gama
Francisco Brissos de Carvalho
Francisco Leonel Rodrigues Francisco Lobo
João Varela Gomes
José Duarte Galo
José Hipólito dos Santos
Manuel da Costa
Manuel Joaquim Peralta Bação
Raul Zagalo
Venceslau Luís Lopes de Almeida
Victor Manuel Quintão Caldeira
Victor Zacarias da Piedade de Sousa


(Fotos: Manuel Serra, um dos intervenientes no Golpe (1931-2010) e António Vilar / David de Abreu, os dois caídos civis em combate no interior do quartel.)
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Preço elevado

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O Golpe de Beja, 1 de Janeiro de 1962

(Clicar e ampliar para ler)

O Diário de Notícias (sem link) publica hoje uma reportagem, com excertos de entrevistas a três dos protagonistas e um texto do jornalista João Céu e Silva – O 25 de Abril que falhou em 1962 – que começa assim: «Há 50 anos vivia-se em Portugal o rescaldo de uma revolta civil e militar que poderia ter ditado o fim do regime de Salazar e que até obrigou a que o generalíssimo Franco mandasse avançar uma divisão de blindados até à fronteira de Badajoz para fazer frente aos efeitos da acção armada contra o quartel do Regimento de Artilharia n.º 3, de Beja»

EDMUNDO PEDRO
«Provou-se que éramos capazes de tomar o quartel.»

Antes de Manuel Serra morrer, foi ao hospital dar-lhe a ler o seu trabalho sobre Beja: “Ele leu o capítulo das minhas memórias e disse que era a verdade sobre essa noite.”

Para Edmundo Pedro, o seu papel na Revolta de Beja foi fornecer a componente civil ao movimento que Manuel Serra liderava em nome do general Humberto Delgado, de modo a obrigar os militares a participar no golpe de Beja: “Era muito importante para impedir a hesitação dos militares que, várias vezes, à última hora, estavam à espera uns dos outros e desistiam.” Em Beja, essa componente civil ensaiou duas tentativas de levantamento antes da derradeira e foi, refere, por falta de pessoas suficientes que acabaram por desistir do assalto. A intenção, diz, era que o movimento civil, apoiado no prestígio de Delgado e nas suas relações, tomasse conta do quartel: “Ficou provado que éramos capazes.” Isso confirma-se, justifica, pela reacção das autoridades: “Foi lenta e, apesar de haver tanta gente comprometida, a PIDE desconhecia o que se ia passar. Só o soube naquela noite, e às quatro da manhã já tinham assaltado a casa de onde tínhamos saído. Isto mostra que houve um trabalho conspirativo muito bom, mesmo não tendo sido muito rigoroso.”

O enviado do político que queria derrubar Salazar viera acompanhado de mais dois elementos, José da Silva Graça e Raul Marques, que, ao concluírem pela impossibilidade de fazer o levantamento, se refugiaram na embaixada do Brasil. Segundo Edmundo Pedro, Serra estava quase a fazer o mesmo quando o oposicionista Piteira Santos os pôs em contacto. A partir daí, o ex-preso político do Tarrafal participou activamente da acção, mas considera que “o projecto não estava tão consolidado como se pensava. Nós, civis, provámos que éramos capazes de tomar conta do quartel – quem complicou a situação foram os militares que colaboraram. Levávamos apenas duas pistolas e duas granadas de mão, porque o Manuel Serra dizia que as armas estavam lá dentro. Até podiam ser duas pistolas de plástico que serviriam na mesma!”. Ao fazer o balanço 50 anos depois, Edmundo Pedro não duvida de que sem a sua participação faltariam os meios essenciais para a operação: “Um dia o capitão Vasco Lourenço fez ao Manuel Serra a seguinte pergunta: ‘ Beja foi o quê?’ E este respondeu: ‘ Beja foi o Edmundo Pedro.’ Eu digo que Beja não fui eu, mas muita gente que se sacrificou. O que digo é que se não tenho intervindo não havia Beja.”


VARELA GOMES
«A Queda de Goa Impulsionou militares»

Não quer especular sobre o que poderia ter sido Beja, nem destacar o significado na luta contra Salazar. Quer que fique na História.

O capitão Varela Gomes quase morreu varado por dois tiros à queima- roupa durante a tomada do Quartel de Beja. Uma situação que não lhe custou tanto sofrimento como o esquecimento a que a acção armada está votada pela História. Há dez anos enviou ao presidente Sampaio uma carta a alertar para um “pedido de desculpas” em falta. Desta vez, é um entre os 22 subscritores de um documento assinado pelos que ainda estão vivos, no qual já só se pede que a efeméride não seja apagada. O texto é curto e manifesta o desejo de resgate de uma memória no seu cinquentenário, porque, diz: “Este grupo de rapazes que o assinaram chegaram 50 anos depois firmes na posição ideológica e nunca traíram.”

Varela Gomes recusa protagonismo e pouco quer contar: “Tenho recebido críticas de que não me deveria ter exposto tanto.” Mas, reconhece, “que o fiz porque não me faltou coragem para me acobardar, mesmo que tudo aconselhasse a ser sensato e ir embora”. Recorda que foi contactado em cima da hora e só avisou: “Comigo, não voltam para trás.” No entanto, a acção correu mal: “Chegaram atrasados, falharam os encontros preparatórios e já tinha desmobilizado as unidades. Foi um ensaio geral mau.”

Segundo o militar, o movimento conspirativo estava em bom andamento na altura devido à campanha presidencial de Humberto Delgado, em 1958: “As manifestações que reuniu no Porto foram maiores que as do 25 de Abril e estava-se debaixo da repressão activa.” Era activo politicamente: “Um oposicionista mais do que referenciado por ser o único oficial do quadro permanente que foi candidato contra a União Nacional. Em 1961, tínhamos uma boa rede conspirativa, que foi fortemente ameaçada pela Guerra Colonial. Ficou tudo desnorteado e muitas unidades foram logo para Angola ou estavam a caminho, como era o caso da de Beja, de Évora e de Estremoz, que nos colocava sob uma grande dúvida. A queda de Goa, dias antes, é que deu um forte impulso à participação dos militares.” Acreditava que Delgado iria estar presente na revolta – “Olha quem! Ele vinha e pronto a assumir o comando” –, mas não quer especular sobre o que teria acontecido se o movimento fosse vitorioso: “O Delgado era um espontâneo, mas daquela vez foi espontâneo demais!”


HIPÓLITO DOS SANTOS
«A GNR e a polícia recusaram intervir»

Vai publicar a investigação intitulada ‘A Revolta de Beja’ em que sistematiza os factos do golpe civil e militar.

Tinha 29 anos quando fez de elemento de ligação na terceira tentativa golpista: “Estabeleci o contacto entre militares de Beja e o grupo do Varela Gomes, que estava muito hesitante. Quando se descobre que há um pequeno núcleo de Beja que era contra o regime e que estava disposto a participar, aí tudo muda e decidem ir para a frente.” Economista e quadro da CUF, irmão de um dos militares directamente envolvidos e um dos quatro julgados à revelia: “O meu irmão Alexandre é oficial no Regimento e diz-me o que se estava a passar no interior do quartel. Não era uma sublevação, mas vivia-se um ambiente contra e até tinham estado dois fins de semana de prevenção. O Varela Gomes perguntou-me se o meu irmão aceitaria conversar; fiz o contacto e, a partir daí, os militares decidiram juntar-se ao movimento do Manuel Serra.”Também entra na organização de um processo de agitação em Lisboa e Vale do Tejo para cortar a energia em Lisboa e paralisar transportes e fábricas no dia 2 de manhã. Na sua opinião, o regime estava preso por um fio: “Sentia-se e via-se isso dentro dos quartéis. A natureza do golpe surpreendeu a PIDE porque pensava que se preparava um desembarque de Delgado a sul.”

Da sua investigação, revela, o facto mais inédito é a descoberta de que a GNR e a polícia se recusaram a intervir no quartel, e que foram os tiros dos guardas que mataram o secretário de Estado que foi controlar a revolta.



Na TSF, o depoimento de um outro dos protagonistas, o coronel Eugénio de Oliveira.

P.S. – Os 22 sobreviventes elaboraram um documento por ocasião do 50º aniversário do Golpe, que divulgarei em breve.
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1.1.12

Discursos de presidentes – hoje e ontem


Numa espécie de alucinação, enquanto ouvia agora Cavaco só me vinha à memória a cara de Tomás. Não sei bem o que disse, pareceu-me que nada trouxe de novo e de relevante (defeito meu, certamente…), mas os comentadores já estão a explicar tudo.

Com a alucinação, veio a recordação dos hilariantes discursos que o velho almirante fazia sempre a 1 de Janeiro - «profundos», com um pendor filosófico inquestionável. Fica este excerto do que disse, há 46 anos:

«Decorreu célere, como os que o precederam, o ano que acabou de sumir-se na voragem do tempo. Outro o substituiu, para uma vida igualmente efémera. Nesta mutação constante, afigura-se haver agora um fenómeno de visível incongruência, pois, quando tudo se processa a ritmo que se acelera constantemente, pareceria lógico que de tal circunstância resultasse um aparente alongamento no tempo e não precisamente o inverso. Se sempre o presente, mal o é, se torna logo em passado, nunca, como nos nossos dias, tão evidente verdade pareceu mais evidente.»
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O ano 1 da revolução


No Público de ontem (sem link), São José Almeida terminou o ano deixando-nos uma excelente crónica. Alguns excertos e o texto na íntegra.

«No plano da revolução, o ano de 2011 foi o ano 1. Está em marcha uma revolução imposta pelo poder político e accionada pelo Governo do PSD em coligação com o CDS, um executivo de maioria absoluta, legitimado por eleições democráticas, em que estes dois partidos beneficiaram daquilo que se chama o voto de protesto, a única forma eleitoral que os cidadãos têm para mostrar o seu desagrado pelo desempenho do Governo anterior, liderado pelo PS de José Sócrates. E o paradoxo não deixa de se afirmar nesta solução. Os eleitores votam em protesto com um modelo de governação influenciado por opções neoliberais, que responsabilizam pela perda da sua qualidade de vida, mas acabam a eleger uma maioria que assume frontalmente a sua orientação neoliberal. (…)

O objectivo assumido é cristalino e passa pela desestruturação do que é a herança da revolução do 25 de Abril e o modelo de organização social baseado no Estado-previdência, que tem como paradigma a redistribuição da riqueza, orientada por critérios de justiça social e de igualdade de tratamento pelo Estado. (…)

A mais interessante e socialmente dinâmica novidade de 2011 são os movimentos sociais de novo tipo, em que os cidadãos se juntam por causas políticas e cívicas e pela defesa do seu estatuto e direitos, mas em que já não há reconhecimento cego de hierarquia de poder. Isso foi visível nas manifestações de 12 de Março e na criação de grupos como o M12M ou a Iniciativa para uma Auditoria Cidadã.

A incógnita para o futuro é a de saber que caminho tomará a revolução em curso e o que vai acontecer ao euro e à União Europeia. E também qual o papel que as novas formas de contestação terão na construção de um novo mundo novo. Ou seja, se as saídas da crise serão num sentido regressivo ou progressivo, contra ou a favor das pessoas e se evoluiremos para formas de organização social mais autoritárias ou mais democraticamente participadas.»

Na íntegra:

Ano novo, vida nossa


Um belo texto de José Soeiro no Público de 30/12/2011 (sem link):

«Bateram as doze badaladas e anunciaram que tínhamos ficado em 2011. Na televisão, um comentador explicava: “seria uma irresponsabilidade mudar de ano agora, em plena crise”. O colega de debate, especialista em finanças cronológicas, concordava: “não estamos em tempo de comprar novos calendários, as pessoas têm de compreender que é preciso fazer sacrifícios”.

Claro que nem toda a gente aceitou pacificamente a ideia. Milhares de jovens que iam fazer 18 anos em 2012 organizaram manifestações pelo direito ao futuro: “não queremos ficar com as nossas vidas congeladas”, gritavam nas ruas. Movimentos de cidadãos fizeram uma jornada contra o “recuo histórico” que significava voltar ao passado. Houve uma greve por um novo calendário e por melhores condições de vida. Clandestinamente, alguns começaram a produzir calendários alternativos e a funcionar com as datas de 2012. O Governo explicou que era “totalmente inviável” mudar de ano. Sugeriu que os jovens emigrassem. Perante os protestos, ameaçou prender quem tentasse fazer um ano novo à revelia do acordo estabelecido com parceiros internacionais.

De repente, as praças foram ocupadas pela gente. Fizeram-se músicas, contos, poemas, filmes sobre os futuros possíveis: como seria um ano novo? As pessoas começaram a criar aquilo de que falavam. Aguentaram semanas na rua, numa lenta impaciência. Até que um dia o poder viu-se impotente: já não restava ninguém em 2011.»

(Via Facebook)
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Ano Novo (4) - um clássico

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