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24.3.12

Carga policial de 22 de Março – Moção de censura aprovada pelos protagonistas de 1962



Texto aprovado por aclamação, por mais de 400 pessoas que se reuniram na Cidade Universitária de Lisboa para comemorarem o 50º aniversário da Crise Académica de 1962:

MOÇÃO

Há 50 anos, a indignação perante uma carga policial sobre estudantes que pretendiam comemorar o Dia do Estudante deu origem ao luto académico que hoje aqui evocamos. 

Há dois dias, vimos nas televisões as imagens de polícias carregando de novo sobre jovens, com uma violência desmedida e desproporcionada. Mais vimos o espancamento de jornalistas, pondo em risco a isenta cobertura da carga policial. 

Os jovens de 1962 não podem tolerar em democracia o que repudiavam em ditadura. Assim, os participantes na Crise Académica de 1962, reunidos na Cantina da Cidade Universitária em 24 de Março de 2012, decidem: 

- Manifestar o seu repúdio pelos actos de violência policial verificados em Lisboa e no Porto a 22 de Março de 2012; 

- Dar conhecimento desse repúdio a Suas Excelências o Presidente da República, a Presidente da Assembleia da República, o Primeiro-Ministro; o Ministro da Administração Interna, o Inspector-Geral da Administração Interno e o Sr. Provedor de Justiça, assim como aos órgãos de Comunicação Social. 

Cantina da Cidade Universitária 
24 de Março de 2012
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A Crise de 1962 vivida também no Secundário



Com autorização da autora, republico este texto de Helena Cabeçadas

 Liceus e Luta Política – 1962/1965

As greves e o movimento estudantil de 1962 despertaram-me para a política e para a luta antifascista. Nessa altura eu tinha 14 anos e estava no Liceu D. Filipa de Lencastre, em Lisboa, mas a minha irmã mais velha já estava no 1º ano do Técnico e participava com entusiasmo no movimento estudantil de contestação ao regime. Eu e algumas das minhas amigas, da mesma idade, fugíamos do Liceu para ir assistir aos plenários, na Cidade Universitária. Não estávamos integradas no movimento associativo liceal e tínhamos imensa pena de não estar ainda na Universidade. Tentávamos disfarçar que vínhamos do Liceu, as batas enroladas dentro das pastas, com receio que os universitários nos mandassem embora. E ficávamos quase em êxtase a ouvir os dirigentes associativos de então, os seus discursos inflamados, tanto mais apreciados quanto mais radicais.

Foi, pois, com grande entusiasmo que, no ano lectivo seguinte (1962/63), já no Liceu Rainha D. Leonor, aderi à Comissão Pró-Associação dos Liceus. Vivia-se, nessa altura, uma certa euforia, apesar das expulsões decorrentes das greves estudantis de 62. Abriam-se brechas fundas no regime – com a guerra colonial nas suas diferentes frentes de luta, o movimento estudantil cada vez mais radicalizado, a grande jornada de luta que fora o 1º de Maio de 1962… tudo isto nos dava a esperança de um fim próximo da ditadura.

Pouco depois, com 15 anos, aderi ao Partido Comunista, a única força política antifascista organizada na altura. Tenho a noção, hoje, de que teria aderido a qualquer outro partido ou grupo organizado antifascista que me tivesse surgido, fosse socialista, comunista ou anarquista, tal era o meu desejo de me empenhar na luta pela liberdade e pela democracia.

Claro que, para nós, adolescentes, era uma aventura excitante estar numa organização clandestina, ter um pseudónimo e actividades secretas tendo, ainda por cima, um objectivo último exaltante: a construção de uma sociedade mais justa, mais livre e mais fraterna. Sentíamo-nos heroínas de filme ou de romance (falo no feminino porque a minha experiência directa se passava, de facto, num universo adolescente feminino). O anticomunismo violento do regime salazarista ainda mais exacerbava a atracção que a actividade clandestina do PCP exercia sobre nós. Claro que ler Marx era uma tarefa difícil e maçadora e Lenine ainda pior, mas também não nos eram exigidas tais leituras que, aliás, não estavam disponíveis porque eram proibidas. Recebíamos o jornal do partido, o “Avante” e tínhamos que o distribuir, às escondidas, nas caixas do correio ou em locais que não dessem muito nas vistas. Era uma tarefa divertida porque tinha os seus riscos, fazíamo-la aos pares e, quando surgia alguém nas escadas do prédio, fingíamos, para disfarçar, que estávamos a namorar.

Hoje é o dia



Passe a publicidade: a «Revista» do Expresso de hoje traz uma longa e excelente reportagem sobre a Crise Académica de 1962, dirigida por José Pedro Castanheira e baseada na visita que tenho vinda a referir.

(Na foto, o grupo que visitou todos os lugares relacionados com os acontecimentos.)
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23.3.12

Silêncios de chumbo


(Chema Madoz)

«Quando os nazis levaram os comunistas, não protestei, porque, afinal, eu não era comunista. Quando levaram os social-democratas, não protestei, porque, afinal, eu não era social-democrata. Quando levaram os sindicalistas, não protestei, porque, afinal, eu não era sindicalista. Quando levaram os judeus, não protestei, porque, afinal, eu não era judeu. Quando me levaram a mim, já não havia ninguém que protestasse.» 

Martin Niemöller

(Recordado aqui, a propósito de uns senhores musculados que andaram por aí à bastonada.)
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22 Março de 2012 / 24 de Março de 1962 – 50 anos e assim estamos



Quem anda às voltas com os factos ligados ao 50º aniversário do Dia do Estudante, e passou a tarde de ontem em manifestações nas ruas de Lisboa, não pode deixar de associar cargas policiais, separadas por cinco décadas, mas que nem por isso se tornaram menos brutais e desproporcionadas. 

Do Castanheira de Moura ao Chiado vão poucas dezenas de quilómetros e, pelos vistos, ligeiras diferenças de comportamento. Não foi para aqui chegarem que muitos lutaram contra a ditadura e o que está a acontecer é absolutamente inadmissível em democracia. 

E quem cala consente, agora como há cinquenta anos. 

P.S. - Para os mais novos que, eventualmente, ignorem factos e referências ao passado, deixo um pequeno relato, tirado de uma entrevista feita a Fernando Rosas e José Medeiros Ferreira, em 1997. 

«José Medeiros Ferreira - Repentinamente, não só há a proibição do Dia do Estudante pelo ministro Lopes de Almeida (…), mas a cidade universitária aparece ocupada pela polícia de choque [24 de Março de 1962]. 
Fernando Rosas – Facto sem precedentes na história do regime. 
José Medeiros Ferreira – Facto sem precedentes, pelo menos para aquela geração de estudantes. (…) E eu lembro-me muito bem, que os dirigentes tinham uma relação de diálogo, como se diria hoje, com o professor Marcelo Caetano, foram a casa do professor Marcelo Caetano que era o reitor da Universidade Clássica (…) dizer o que estava a acontecer, que havia polícia de choque na universidade, na cidade universitária e ele ficou, genuinamente, aborrecido e até irado. Telefonou ao ministro do Interior, Santos Júnior, na nossa frente, pedindo-lhe para ele retirar a polícia de choque e quando desligou o telefone garantiu-nos que a polícia de choque iria retirar (…) Isto é na manhã do dia 24 de Março de 1962, exactamente. Mas quando lá chegamos a polícia de choque, de facto, estava a principiar a entrar nas carrinhas, mas não saíram da cidade universitária. (…) 
José Medeiros Ferreira – (…) Portanto, convocamos os estudantes para a tarde no Estádio Universitário, um outro espaço novo que existia portanto também na cidade universitária. (…) Até por volta das seis horas, a polícia não saiu da cidade universitária. Aliás, cercou de certa maneira de novo o estádio universitário e o professor Marcelo Caetano, talvez pensando que assim resolvia a situação, terá convidado ou pelo menos dito que o melhor era os estudantes irem jantar ao restaurante Castanheira de Moura. (…) A cantina é fechada e (…) quando os estudantes se dirigem para o restaurante há uma carga de polícia muito forte (…). 
Fernando Rosas – Os estudantes saem em manifestação. 
José Medeiros Ferreira – E os estudantes saem em manifestação e são carregados no Campo Grande pela polícia de choque que criou, obviamente, um facto mobilizador muito grande. (…) Imediatamente, os dirigentes associativos promovem uma reunião das reuniões interassociações na Associação de Económicas.»
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Sobre os «conselhos» da PSP aos jornalistas – algumas perguntas



Em Nota difundida ontem à noite sobre os incidentes registados durante a tarde, a PSP alerta para a necessidade de «os jornalistas se identificarem, colocando-se sempre do lado da barreira policial que os separa dos manifestantes em geral»

Quanto à necessidade de identificação, o Sindicato dos Jornalistas já respondeu o que parece óbvio: «Agradecemos essa sugestão da polícia, mas não a transformemos nem em lei nem em norma (…) porque pode ser que a simples identificação atraia agentes agressores seja de que lado for com o objectivo de neutralizar uma testemunha profissional do acontecimento». 

Mais extraordinária parece a necessidade evocada de os órgãos de comunicação social se colocarem do lado da barreira policial! Nem poderiam ou deveriam misturar-se com os manifestantes, entrevistá-los, fotografá-los? Sobretudo: onde era suposto que estivesse, por exemplo, a fotojornalista Patrícia Melo Moreira, cuja fotografia já correu mundo, quando a «barreira policial» era uma multidão de polícias dispersos a atacar tudo e todos? Às cavalitas de um deles?

Além disso: a carga policial de que esta pessoa foi vítima ficava justificada se não se tratasse de uma jornalista mas de uma simples cidadã a fotografar um acontecimento público? 

A PSP encara um direito intocável de qualquer democracia como uma guerra entre trincheiras. Com a diferença que só numa delas pode andar à bastonada. 

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P.S. - Copio um texto deixado por Diana Andringa na Caixa de Comentários: 
«Joana, que bem quadram as fotografias de ontem com o título do teu blogue! Das brumas da memória (1968?69?) surgiu-me a imagem do José João Louro, então jornalista na Vida Mundial, a entrar na redacção, ainda com as marcas bem visíveis de uma agressão policial: "E eu tinha o crachá! Eu tinha o crachá!" (Nesse tempo, era essa a visível identificação como jornalista.) E os mais velhos, troçando-lhe a inocência: "Claro, assim souberam melhor em quem bater!" Tinha ido cobrir uma manifestação... Passaram mais de 40 anos - e o 25 de Abril. Em democracia, é também em nosso nome que a polícia agride manifestantes e jornalistas. Toleraremos em democracia o que repudiávamos em ditadura? (A pergunta vale também para a ideia de ser a Direcção Geral da PSP, e não os jornalistas, a decidir o ângulo de abordagem de um acontecimento...)»
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22.3.12

Passa por mim no Chiado





Não assisti ao pior porque já estava em S.Bento, onde também nem tudo foi «bonito».

Foi uma tarde terrível para a democracia portuguesa – é tudo o que consigo dizer, pelo menos para já.



Fotos daqui.
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Hoje (3)

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Mais uma abstenção violenta


@Paulete Matos

Será que alguém me pode ajudar a perceber se tenho andado distraída e me escapou por isso alguma declaração da direcção, ou de um qualquer porta-voz do PS, sobre a greve de hoje? 

Em Novembro, ainda alguém veio dizer que o Partido Socialista «compreendia» a Greve Geral. Mas agora? Nem uma opinião, uma frasezinha, um adjectivo, um aposto ou continuado? 

Não interessa? Nada têm a ver com o assunto? Pertencem a outro campeonato? Há silêncios que são pesados como chumbo… 
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Hoje (2)

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Hoje



@Gui Castro Felga
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21.3.12

Perfilados de Medo



No Dia Mundial da Poesia, véspera de uma Greve Geral.

Perfilados de medo,
agradecemos o medo que nos salva da loucura.
Decisão e coragem valem menos
e a vida sem viver é mais segura.

Aventureiros já sem aventura,
perfilados de medo combatemos irónicos fantasmas à procura
do que não fomos,
do que não seremos.

Perfilados de medo, sem mais voz,
o coração nos dentes oprimido,
os loucos, os fantasmas somos nós.

Rebanho pelo medo perseguido,
já vivemos tão juntos e tão sós
que da vida perdemos o sentido...

Alexandre O’Neill 

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A voz às mulheres de 1962



Para não os perder de vista nos labirintos nem sempre preservados dos jornais online, aqui ficam mais dois vídeos divulgados pelo Expresso. Foram gravados no passado dia 13, durante a visita aos locais da Crise Académica de 1962, que já anteriormente referi.

No primeiro, Isabel do Carmo sublinha a participação das estudantes nos acontecimentos de há 50 anos.

No segundo, Maria João Geraldo fala da estadia das estudantes detidas no Governo Civil de Lisboa, já detalhadamente relatada neste blogue pela Helena Pato.

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Gostei de ver por dentro um edifício onde nunca tinha entrado e que tem um belíssimo pátio. As celas (muitíssimo rudimentares, diga-se de passagem) estavam vazias quando as visitámos, mas tinham sido utilizadas na noite anterior. Subterrâneos da vida desta cidade, que não conhecemos mas que permanecem vivos apesar do tempo que passa.

Fonte: (1) e (2)

Para além de Lisboa



.. também houve Dia do Estudante, em 1962.

Número especial da revista de Coimbra «A Cabra», em formato pdf. Ler e descarregar AQUI.
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Dizer «Basta!»



Vem de Espanha mas também serve para cá. E é sempre útil regressar às origens – neste caso, recordar as da greve.

«Nem nos dobrarão, nem nos vergarão, nem vão domesticar-nos.» 

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(Daqui)

A gente não te aleija



Amanhã, dia de greve geral, Passos Coelho vai estar na Universidade do Porto, na Sessão Solene que assinala o encerramento oficial das comemorações do Centenário da instituição.

Há quem lhe tenha preparado uma recepção.
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20.3.12

Acredite se quiser



Sem pestanejar, Vítor Gaspar anunciou ontem que Portugal regressará aos mercados daqui a um ano e meio, muito precisamente no dia 23 de Setembro de 2013. 

Ou está em causa a data de abertura de uma qualquer saison dos mercados (o que desconheço), ou o ministro das Finanças vai à bruxa ou é cliente da minha amiga Flávia Monsaraz, ou, o que é bem mais provável, quer tomar-nos por parvos. E nós vamos deixando que ele o faça.

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Em tempos de crise



... sempre se poupa uma sola.
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De maiorias silenciosas percebemos nós



«Nos dias que correm basta ver e comparar como os gregos receberam a austeridade ou como os espanhóis se indignaram. Por cá baixa-se o tom de voz e muda-se rapidamente de conversa quando se fala dos sacrifícios, evita-se o contágio do activista que distribui panfletos, foge-se a sete pés do camarada de trabalho que não se cala e não se rende. Os que levantam a voz e mantêm direita a cerviz constituem uma minoria. A maioria é silenciosa. E no silêncio caberá alguma indignação mas acima de tudo muito medo.» 

João Paulo Guerra no Económico.
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Revisitar o passado



(Jorge Sampaio e Medeiros Ferreira recordam, na varanda da Reitoria, o dia em que convenceram Marcello Caetano a deslocar-se à mesma para falar aos estudantes, em 1962.) 

Há cerca de uma semana, o Expresso convidou um grupo de protagonistas da Crise Académica de 1962 para recordarem os respectivos acontecimentos, percorrendo os diversos locais relacionados com os mesmos: da Cantina Universitária a um quartel da Parede, passando pela Reitoria, pelo Estádio Universitário, pelo Governo Civil e por Caxias.

O jornal começou agora a publicar o que se passou, com a divulgação de algumas entrevistas – hoje a António Ribeiro (filho do mítico professor Orlando Ribeiro) e a Medeiros Ferreira – e incluirá, no próximo Sábado, uma longa reportagem.

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Foi uma iniciativa interessante por parte do Expresso e gratificante para quem nela participou. Fiz parte do grupo e irei comentando alguns episódios, mas quero, desde já, precisar o seguinte: a minha participação na Crise de 1962 foi puramente tangencial porque eu era então estudante em Lovaina e não em Portugal. Por puro acaso, estive umas semanas em Lisboa, o que me permitiu viver a primeira fase da luta. (Mais tarde, quando se deu o episódio da greve da fome e da prisão dos estudantes, no início de Maio, tinha já regressado à Bélgica.)

Para além de assistir a horas e horas de plenários, tive uma «missão» curiosa. Era amiga pessoal dos professores Lindley Cintra e Maria de Lourdes Belchior, dois dos poucos que estiveram sempre do lado dos estudantes, e eles pediram-me que fizesse algumas acções de pequena «espionagem», como, por exemplo, ver se a polícia já tinha encerrado a Cantina numa determinada noite, julgo que na véspera do projectado Dia do Estudante. Não tinha, fê-lo logo a seguir a eu ter sido a última pessoa que lá jantou – vi-a chegar. LC e MLB esperavam-me num carro escondido nas matas próximas, temia-se que fossem presos nessa noite e Lindley Cintra convenceu a Mª de Lourdes a não ir para casa mas sim a «refugiar-se» algures perto de Bucelas. (Inimaginável? Mas era assim...) Para lá fui com ela e de lá vinha, todas as manhãs, para a Cidade Universitária. E ia sabendo as notícias do lado dos professores e transmitindo-lhes o que se passava na rua.

Embora «protagonista» puramente secundária, faço a tal ponto parte daquela geração, e daquela época, que passei, desde há muito, a membro integrante e permanente de um grupo que se reúne pelo menos uma vez por ano (com grande prazer e a maior das honras, devo dizê-lo). E, por isso mesmo, falo agora quase todos os dias deste 50º aniversário.

Os mais novos entenderão dificilmente, julgo, a importância existencial destas realidades para quem as viveu. Mas que tudo isto se tenha passado há 50 anos, isso, sim, é que parece irreal!
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19.3.12

Um, dois, três… vamos lá, outra vez!



Texto de Helena Pato, enviado para republicação neste blogue. 

Mesmo sendo pouco dada a saudosismos, tenho essa noite na memória, e não só eu, pois que quando nos encontramos – os da geração de sessenta – e falamos do antigamente na universidade, vem sempre à baila a prisão dos 1.500. Mil novecentos e sessenta e dois. 

1962 foi um período marcante para todos nós envolvidos, de uma maneira ou outra, na Resistência à ditadura, para o movimento associativo e para o regime. 

Estávamos às centenas, sentados no chão por tudo o que era espaço ocupável na cantina da Cidade Universitária de Lisboa. Reclamávamos a possibilidade de comemoração do Dia do Estudante e havia, na cantina, um grupo de umas dezenas de jovens universitários em greve de fome. Era o culminar de uma luta que vinha de muito antes. 

Pela noite dentro, foram chegando mais estudantes que vinham juntar-se a nós. Isto porque, ao cair da noite, começou a correr que a PIDE ia aparecer e fazer prisões assim que a maioria dos que, durante o dia, ali haviam permanecido fosse para casa. Perante este «diz-se que», quem ia embora não foi e desencadeou-se um movimento de telefonemas (de cabines) para colegas ausentes, a chamá-los «para a frente de batalha». Com excepção das meninas dos lares universitários, quase não ficou colega por contactar. «Liga à Emília, eu falo aos jornalistas do República…» Acordados eles e as famílias pela noite dentro, os apoiantes do movimento associativo começaram a chegar. Viam-se entrar, como que estremunhados. Em alguns casos, tinham-se escapado de sapatos na mão, pelo corredor da casa fora, fugindo ao controlo paternal – elas, sobretudo, que a moral vigente não lhes dava cobertura em saídas nocturnas. Um pé-de-vento. Chegaram muitos. Não admitiam que, no dia seguinte, viessem dizer – como era costume do governo – que apenas uma minoria, sem significado, estava naquela luta. Não era verdade, a Universidade de Lisboa, na quase totalidade dos alunos e muitos, muitos docentes, apoiava os dirigentes do movimento associativo, o que era evidente nas reuniões plenárias em que apareciam aos milhares. Por isso, logo que começou a circular que naquela noite ia tudo dentro, até os habitualmente mais difíceis de convencer a agirem se levantaram da cama e foram para lá. 

O previsto – e que durante a noite era já aguardado por todos – aconteceu mesmo. O regime não aguentou nem a pressão da contestação, em crescendo na universidade, nem a coesão dos dirigentes e do movimento estudantil. 

A vida não lhes corria mesmo nada de feição com as inúmeras greves operárias desse ano e agora eram até os meninos da burguesia a criar-lhes problemas? Só faltava essa… Decidiram cortar o mal pela raiz – que já era tarde – e antes de perderem totalmente o controlo da situação, prenderam de uma assentada 1.500 jovens – na esmagadora maioria, oriundos das classes sociais tradicionalmente afectas ao regime (era, não esqueçamos, a Universidade enormemente elitista do início da década de 60). Zás! Tudo «dentro». Intimidados por esta acção repressiva, talvez os pais tivessem mão nos seus filhos. 

A tomada da Bastilha por Jean-Luc Mélenchon



O candidato do Front de Gauche às próximas eleições presidenciais em França teve ontem os seus 24 minutos de glória na Praça da Bastilha, no dia em que se comemorou mais um aniversário do início da Comuna de Paris. 

Confesso que ouvi os primeiros minutos com dificuldade, a tal ponto me pareceram vazios de conteúdo e insuportavelmente populistas, mas fui mudando de opinião. Goste-se ou nem por isso, concorde-se ou não, a tarde de ontem ficará como um marco importante e como uma peça indispensável no puzzle da actual campanha. 

Ideológico e radical do princípio até ao fim, Mélenchon referiu a primavera dos povos, chamou pelo tempo das cerejas, falou de cravo vermelho ao peito, exprimiu solidariedade com gregos, espanhóis e portugueses, condenou todas as troikas, apelou à insurreição cívica. Mas, sobretudo, nada esqueceu na sua proposta de uma Constituinte fundadora de uma VI República: paridade absoluta, fim dos privilégios do capital, igualdade de direitos entre hétero e homossexuais, direito ao aborto, ecologia, independência da justiça garantida pelo parlamento, etc., etc., etc. Uma pedrada no charco, sem qualquer espécie de dúvida, no marasmo europeu de todas crises.

O discurso deve ser ouvido na íntegra (só para francófonos, pelo menos para já…): 



Claro que os comentários e as reacções não se fizeram esperar e passei umas boas horas a percorrê-los. 

Retenho uma intervenção de François Hollande, já de hoje, em France Info: de «voto útil», passou para «voto eficaz»: «Je n'appelle pas au vote utile. Nous sommes à cinq semaines de l'élection, je dirai à chaque fois que le vote doit être efficace (..) Ma responsabilité : faire gagner la gauche.» 

O voto em Mélenchon não seria inútil mas ineficaz. Palavra de ordem, portanto: «É preciso tornar o voto em Mélenchon útil, votando na eficácia, ou seja em François Hollande.» 

Jogos de palavras que os franceses adoram, mas que exprimem apreensão e algum incómodo, apesar de as sondagens (antes da sessão de ontem) não darem a Méchelon, à primeira volta, mais de 11% de hipóteses. 

Próximos episódios a serem seguidos com atenção. Não só, ou nem tanto, por causa das eleições presidenciais propriamente ditas, mas pelo que poderá ficar deste passo da esquerda à esquerda, em França. 

A ler:
* Libération: Mélenchon trône à la Bastille
* Le Nouvel Observateur: Mélenchon fait rougir de plaisir la Bastille
* Rue 89: A la Bastille, Mélenchon appelle au «printemps des peuples»


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Descolonização portuguesa 1974/1975



Conjunto de entrevistas publicadas pelo ICS (Instituto de Ciências Sociais). Vale a pena visitar este site.
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Não foi propriamente um desconhecido que os portugueses elegeram duas vezes



Agora, aguentem-no!

32 anos, 32 frases 
Vale a pena clicar nas datas e recordar as frases incluídas na Infografia publicada no último número da Visão.
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19 de Março, Dia do Pai? Uma piada de mau gosto



Passa pela cabeça de alguém festejar os pais no dia de alguém que é venerado precisamente por nunca o ter sido: S. José? Se queriam um flavour religioso que marcassem a festividade no dia do Espírito Santo, aka Domingo de Pentecostes…

Isto sou eu a «vingar-me» porque não gosto de dias do que quer que seja...

(Variam as datas por esse mundo fora.)
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18.3.12

Nascimento, vida e morte



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E porque hoje é dia 18 de Março



A Comuna de Paris (1871), para o bem e/ou para o mal.




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Chora não


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A crise académica, 50 anos depois — e agora?



Um importante texto de Jorge Sampaio, Secretário-Geral da RIA (Reunião Inter-Associações) em 1961/1962, publicado ontem no Expresso (sem link). 

Comemora-se agora a o cinquentenário da crise académica de 62. Seria, porém, redutor ficarmos no agridoce conforto de nostalgias, pois essa data – e o que significou – pede-nos sobretudo a pedagogia de um inventário e o dever de um testemunho. E isto porque, ao olharmos para trás, voltamos a sentir que essas foram horas de aprendizagem de vida e de cidadania, de múltiplos desafios, de inevitáveis testes de carácter. Mas foi também um raro momento de unidade, em que muitos descobriram como construir o triunfo da razão sobre a força, ou da justiça sobre a prepotência. 

Vale, por isso, a pena assinalar, sobretudo junto das novas gerações, alguns fundamentos de uma crise académica que lhes parecerão anacronicamente absurdos. Quando em março de 1962 se procurou comemorar o dia do estudante, o regime escondia mal as feridas acusadas pela perda de Goa, pela insurreição em Angola, pelo frustrado assalto ao quartel de Beja, e por vários indícios de desgaste postos a nu pela falhada tentativa do general Botelho Moniz. Tudo isto se começava a refletir numa nova dinâmica do movimento associativo que, em Lisboa, congregava mais de uma dúzia de associações e organismos autónomos, coordenados por uma estrutura informal - a RIA (reunião interassociações). O ato da inauguração do edifício da reitoria dera já um sinal: coubera-me não aceitar, como representante dos estudantes, a censura ao texto que me propunha ler, o que motivaria a ausência institucional do corpo discente na cerimónia. A posterior proibição do dia do estudante atuou como faísca, ao mostrar a face arbitrária do governo, a arrogância do seu comportamento pela recusa do diálogo e pela desautorização do reitor, num atropelo à então débil autonomia da universidade. Depressa se abriram as portas da crise: encerramento de instalações, presença e repetidas cargas da polícia de choque na cidade universitária, maciças concentrações de protesto de estudantes no Estádio Universitário (a que inesperadamente se juntaria o reitor Marcelo Caetano) e na Alameda da Universidade, um justamente famoso jantar de confraternização de estudantes e alguns professores, por convite pouco antes feito pelo reitor devido ao fecho da cantina, o qual originaria nova carga e consequentes correrias. De tanta inabilidade de um governo acossado, surgiria uma inédita unidade de estudantes e professores: demissão do reitor e dos diretores da Universidade Clássica; comunicado do Senado (apenas formado por docentes) defendendo a autonomia universitária; e a decisão, com o magnífico apoio de Coimbra, de iniciar o luto académico. A crise, entre recuos, faltas de palavra e endurecimento do governo, persistiria até julho, e, na barricada universitária, as associações, sob a coordenação da RIA, iriam atravessar dias arrebatados, numa febril cooperação e capacidade organizativa cuja eficácia ainda hoje me surpreende. Foi um tempo repartido por reuniões pela madrugada fora; pela desmontagem das notas oficiosas através de comunicados informativos que a PIDE nunca conseguiu calar; por experiências de alguma incipiente clandestinidade e encontros vagamente conspirativos; pela mobilização de apoios de intelectuais e artistas; e, para vários, o primeiro contacto com a prisão.