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5.5.12

Se duas eleições não fazem uma Primavera…



… as que terão lugar amanhã, na Grécia e em França, inscreverão certamente o dia 6 de Maio de 2012 como um marco no percurso próximo da Europa. Em The Guardian, diz-se que pode tratar-se do primeiro dia de uma «Primavera europeia», o que, apesar de tudo, me parece talvez um pouco exagerado.

Tudo leva a crer que Hollande baterá Sarkozy (mas, até ao lavar dos cestos…). Embora o meu entusiasmo pelo provável vencedor seja mais do que mitigado, a saída de Sarkozy será um enorme alívio para a França e para a Europa e, nesta segunda volta, nem se põe a questão de voto útil ou inútil, mas sim de voto inevitável. Outra questão será o dia seguinte e as promessas que ficarão por cumprir, mas isso faz parte de muitas regras de vários jogos. 

Interessa-me mais a Grécia. Pela incerteza quanto aos resultados, pelo que está em jogo para um povo martirizado e pela novidade trazida pela ascensão garantida das forças fora do centro – para o bem e para o mal. Diz-se, no artigo acima referido, que é todo o sistema do poder que está à beira de um ataque de nervos, mas que, apesar dos perigos vindos da extrema-direita, a queda das elites gregas marcará o início de uma nova fase que poderá levar a um «fim catártico» da tragédia grega. 

Extremamente significativo é certamente o facto de três partidos anti-austeritários – Syriza, Comunista e Esquerda Democrática – somarem cerca de 40% das intenções de voto, embora com posições diferenciadas em relação à União Europeia e à eventual participação num futuro governo. Uma coisa é garantida: não poderão ser ignorados. 


Será?
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Da esperança



Luís Januário publicou mais uma excelente crónica no jornal i de hoje: O Bill já não diz nada

Partindo da morte de Miguel Portas, e da comoção muito generalizada que a mesma provocou, LJ conta duas histórias sobre criaturas imaginárias, imaginadas, cuja perda é sentida como a de seres absolutamente reais. 

Muitos terão sentido a falta de Miguel Portas, e sobre ela escreveram quase sem o conhecerem, como se de um próximo se tratasse quando na realidade não o era. De repente, dezenas, centenas de pessoas sentiram necessidade de elogiar, de contar um episódio, referir um encontro falhado, um telefonema perdido ou até uma simples reunião em que o avistaram a dezenas de metros. No fundo, era sem dúvida também sobre elas próprias que escreviam. Porque, como diz LJ, «não podemos viver sem pão, sem grupos sociais, sem esperança e sem pessoas de referência que exprimem o que há de melhor em nós, o que em nós ainda acredita». 

Confesso que este texto me ajudou a interpretar a onda gigantesca (para mim inesperada e, porque não dizê-lo, que me apareceu por vezes com laivos de um certo exagero) que se ergueu após a morte de uma figura que, em vida, nem sempre foi tão venerada assim. Aconteceu talvez porque se precisava de uma trégua nos dias amargos que atravessamos, de algo de bom que encarnasse optimismo, confiança no futuro, solidariedade. Terá sido afinal a procura, um pouco desesperada, da tal esperança que se recusa mesmo morrer. 
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Desobediência civil



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Ocupar o comum


 Mais um importante texto de Sandra Monteiro, no número de Maio de Le Monde Diplomatique. (O realce é meu.)

Para os defensores do neoliberalismo, não faz mal acabar com serviços e actividades reconhecidamente eficientes, de qualidade e utilidade social, desde que estejam reunidas pelo menos uma destas condições: que seja um modo de transferir para a esfera do privado recursos que antes pertenciam ao público, promovendo oportunidades de negócio; que seja um modo de eliminar do campo das experiências dos cidadãos formas de fazer em comum que possam favorecer o seu apego a instituições públicas, a finalidades não-lucrativas, a lógicas cooperativas e participativas.

É nesta engenharia de reconfiguração da sociedade que se enquadram o anunciado encerramento da Maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa, ou o despejo da Es.Col.A. da Fontinha, no Porto. Por muito que a violência demolidora da vida em sociedade a que estamos a assistir o possa sugerir, o que está em causa não é, para o projecto neoliberal, acabar com o Estado, mas antes desviá-lo das suas funções sociais e redimensioná-lo à medida da avidez de mercados instáveis e de interesses privados. Não está também em causa acabar com toda e qualquer iniciativa de cidadãos que se mobilizem autonomamente para intervir na sociedade, mas tão-somente a daqueles que o fazem, até em regime de voluntariado, associando a supressão das falhas dos poderes públicos a propostas transformadoras das comunidades que não sejam redutíveis aos valores do pensamento único, à forma económica da troca mercantil e do lucro, ao formato de gestão do «empreendedorismo social». 

O neoliberalismo nada tem contra haver Estado suficiente para parcerias público-privadas desastrosas para o erário público; para tráficos de influências e garantias de proveitosas carreiras; para salvamentos de bancos nacionais impostos por um sistema financeiro internacional que confisca a democracia; para sistemas educativos que formem elites ou para sistemas de saúde que se ocupem dos doentes que não são rentáveis para a medicina privada. O neoliberalismo nada tem contra haver na sociedade autonomia suficiente canalizada para o assistencialismo ou a caridade, desde que essa acção não questione intelectualmente, nem abale através de práticas, o imobilismo trágico das desigualdades socioeconómicas e a irracionalidade de um modelo económico iníquo.

Continuar a ler AQUI.
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4.5.12

Rebobinando



«Um muro diz “SÊ REALISTA, EXIGE O IMPOSSÍVEL!” E esta sentença é a fórmula do mais infinito de uma álgebra política, a nossa, que põe, como todas as álgebras, a meta abstracta para equacionar uma progressão concreta. 

Avançamos, corremos de mais às vezes (não podia deixar de ser), corrigimos, deixando para trás um Portugal burocrático e levantando um país em criação contínua e livre. E o nosso rosto social modifica-se, parece outro; os acontecimentos não nos dão descanso e arrastam-nos, criam mais a seguir. 

Importante é que neste tropel, arraial, sementeira, alvorada, tenhamos descoberto a força criadora do povo e a sua imaginação corajosa. Descobrimos essas coisas frente a frente e no em cima da hora, nós que por vezes tínhamos do povo uma ideia só histórica e mais ou menos iluminada de entusiasmos ou de cepticismos pequeno-burgueses. Mas agora estamos a aprender o país. A televisão, a imprensa, a rádio e os media partidários mostram-nos o fórum dos trabalhadores, ensinam-nos através da produção. Diariamente, os governantes dão conta aos governados e, diariamente também, dos bairros, das escolas e das casernas saem ideias novas, gente ao vivo. Na mais analfabeta das aldeias há soldados que abrem avenidas.» 

Assim via José Cardoso Pires este país (e não só ele…) em Abril de 1975.

(In: E agora, José?, Moraes Editores, pp. 268-269)
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Dégage, Sarko



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«Até os comunistas e os ateus tratam dos pobrezinhos»



Eu juro que este homem existe porque já o vi e ouvi, não só na televisão (há sempre truques possíveis…), mas também em carne e osso. Julgo é que a Conferência em causa deve ter tido lugar em Rilhafoles. 

Sobre o Serviço Nacional de Saúde, não há que enganar: 

– «O problema verdadeiro da Saúde é religioso e quem tem a solução é a pastoral da saúde», 

– «Falar sobre o SNS é como discutir a paz no mundo, a fome em África, a globalização», 

– Os cristãos «não são chamados a serem bonzinhos, mas a serem felizes, mesmo no sofrimento dos hospitais e isso só é possível confiando em Jesus Cristo», 

– E, vá lá...: «Até os comunistas e os ateus tratam dos pobrezinhos» 

Já ganhei a tarde. 

(Via Maria João Pires no Facebook)
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Dito por aí (13)

@João Abel Manta

«O que está a acontecer é que a construção europeia está a passar da fase do risco para a fase da incerteza. A diferença entre os dois conceitos é a base do negócio das companhias de seguros. É possível segurar o risco do acidente de viação, pois posso calculá-lo, mas ninguém segura riscos associados a alterações climáticas, pois aí reina a incerteza. O tempo da Europa, e consequentemente de Portugal, já passou a fase do cálculo, para entrar na entropia da incerteza. O tempo não pertence a Vítor Gaspar, mas ao jogo de dados a que uns chamam deus, e outros azar. Ninguém sabe quando, e se, Portugal voltará aos mercados.» 
Viriato Soromenho-Marques, Do risco para a incerteza

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«Em segundo lugar, nessa cultura a compreensão do trabalhador como titular de direitos é tida como um desvio ideológico passadista e substituída pela apologia de uma "responsabilidade social" feita de distribuição de sobras que minora a raiva e o desespero mas mantém incólume tudo o que os produz. Em Abril, Soares dos Santos revelou que 1500 dos funcionários da Jerónimo Martins têm os salários penhorados por dívidas e alguns até roubam nas lojas Pingo Doce para matar a fome. Isso fê-lo rever a política de salários do grupo e o abuso de recurso à precariedade? Não, num gesto magnânimo, prometeu ajuda em géneros. Eis a responsabilidade social em todo o seu esplendor.» 
José Manuel Pureza, Pingo amargo

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«Entre quatro produtos analisados, apenas no caso da pêra a margem era inferior a 50%, sendo de 40%. “Na alface, 80% do preço final fica na distribuição – um quilo de alface custava, em média, cerca de 40 cêntimos à saída do produtor e quase 1,80 euros no supermercado; na cenoura, a margem de comercialização ficava entre o 55% e os 70%; na maçã, a margem era superior a 50%”, segundo dados publicados no seu sitea. O Observatório [dos Mercados Agrícolas] quer estudar mais alimentos.»

3.5.12

Parcerias Público-Privadas


Auditoria Cidadã solicita à PGR anulação da auditoria às PPP pela Ernst &Young 

A Iniciativa para uma Auditoria Cidadã à Dívida Pública apresentará à Procuradoria-Geral da República, esta quinta-feira, às 15h, toda a documentação necessária para que seja pedido o anulamento do concurso público para a Auditoria às PPP, ganho pela Ernst & Young. A Iniciativa para uma Auditoria Cidadã à Dívida Pública já havia divulgado publicamente o claro conflito de interesses na escolha da empresa Ernst & Young para auditora das Parcerias Público-Privadas do Estado Português. Não tendo havido qualquer consequência para o caso apresentado, este movimento cidadão irá agora procurar proceder à via legal para fazer cumprir não só a lei como a ética no processo totalmente opaco da auditoria às PPPs. Aceitar o resultado de uma auditoria às PPPs realizada por uma parte interessada no desfecho da mesma é garantir que a verdade sobre estes processos que envolverão perto de 50 mil milhões de euros do erário público jamais verá a luz do dia.  

(Daqui.)
 

(10/3/2012)
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Do rio Li ao Pingo doce



Nunca me passaria pela cabeça associar Guilin e o belíssimo rio Li a Alexandre dos Santos e à recente saga do Pingo Doce, até ler a crónica de Ferreira Fernandes de hoje, no DN.

Mas, tal como ele, nunca esqueci o terrível espectáculo que descreve e que eu também vi: a pesca nocturna com corvos-marinhos que são obrigados a mergulhar para apanharem peixes e que depois quase sufocam porque não conseguem engoli-los. Cada um deles é içado para a jangada onde lhe é retirado o peixe da goela, olha para o pescador, aliviado e agradecido, e recebe como recompensa um pedaço de pescado («uma promoção de 50 por cento», diz Ferreira Fernandes). É depois atirado de novo à água e a pesca recomeça.

Uma imagem que dificilmente deixarei de associar aos milhares e milhares de portugueses que, no passado dia 1, receberam a sua meia posta de pescada e que voltaram depois a mergulhar no dia-a-dia, mais ou menos estrangulados.

Regressando a Guilin, lembro-me do inevitável comentário que, como bons turistas, então fizemos perante a crueldade do espectáculo: «Só os chineses!» Engano nosso.

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E agora, Helena?


Carta aberta a Helena Roseta, Vereadora da Habitação da Câmara Municipal de Lisboa 

No dia 25 de Abril, em solidariedade com a Es.col.A da Fontinha no Porto, um grupo de 50 pessoas decidiu ocupar um prédio devoluto na Rua de São Lázaro, em Lisboa. Num primeiro momento tratou-se de um gesto de solidariedade e de recusa face à prepotência autoritária e à arrogância ilimitada de um presidente de Câmara. Mas após algumas horas no interior do edifício, pareceu-nos que permanecer ali, juntos, construir outra ilha de autonomia e de resistência é a possibilidade mais lógica nestes tempos em que procura impor-se em Portugal e na Europa um regime de miséria, de bastonada e de ataque brutal às nossas vidas. Decidimos, em assembleia e por unanimidade, ficar e responder ao apelo que nos chegou dos amigos da Es.Col.A da Fontinha: criar réplicas!

Nesse mesmo dia à noite recebemos a visita da Polícia Municipal, que identificou as pessoas no interior do edifício e nos informou (depois de confirmar hierarquicamente as suas ordens) que seríamos notificados para abandonar o prédio num prazo de 10 dias.

No dia seguinte a imprensa apressou-se a noticiar a nossa acção e a reacção da CML, na voz da sua vereadora da Habitação, que se opôs à ocupação. Helena Roseta adianta que «há várias formas de demonstrar solidariedade, sem ser a de por um pé em cima dos direitos dos outros». A vereadora da habitação procura desacreditar o colectivo enquanto tenta descalçar a bota que é a impossibilidade lógica de se ser simultaneamente solidário com a ocupação da Es.Col.A no Porto e repressivo com um projecto idêntico em Lisboa. Sem nunca explicar que “direitos” e que “outros” são esses que pisamos com esta ocupação, deixa apenas no ar a impressão que a única coisa que estamos a pisar realmente são as contradições da vereadora. Esta carta é, por isso, um exercício de esclarecimento e de memória em três pontos.

Continuar a ler AQUI.
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Menos um



Fernando Lopes, evidentemente. Conheci-o e cruzei-me com ele dezenas, centenas de vezes. Sobretudo quando esta Lisboa era, para muitos, pouco mais do que o Vává e arredores. Sobram cada menos desses muitos.

Tudo já está dito. Recordo Belarmino que vi como se o próprio estivesse a dar-me um murro no estômago. 



Na íntegraAQUI.
 


Amigos pensados: Belarmino

Tiveste jeito, como qualquer de nós,
e foste campeão, como qualquer de nós.

Que é a poesia mais que o boxe, não me dizes?
Também na poesia não se janta nada,
mas nem por isso somos infelizes.

Campeões com jeito
é nossa vocação, nosso trejeito.

Esperam de 1 a 10 que a gente, oxalá, não se levante
- e a gente levanta-se, pois pudera, sempre.

Mas do miudame levámos cada soco!
Achas que foi pouco?

Belarmino:
Quando ao tapete nos levar
A mofina,
Tu ficarás sem murro,
Eu ficarei sem rima,
Pugilista e poeta, campeões com jeito
E amadores da má vida.

Alexandre O'Neill

(Poema de O’Neill recordado pelo Miguel Serras Pereira.) 
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2.5.12

O primeiro mail



Querida avó Joana,

Este é o meu primeiro email. Estou aqui sentado na escada a escrever no meu iPad. Espero que gostes.

Beijinhos,
 J.

(7 anos acabados de fazer. Note-se que o iPad não é dele, mas sim do pai…)
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Democracia ligada à máquina?



Esqueço o 1º de Maio e o Pingo Doce e rebobino até ao tema da semana passada – as ausências na sessão oficial comemorativa do 25 de Abril – porque elas foram o ponto de partida para a crónica de José Vítor Malheiros (JVM) no Público de ontem, que levanta algumas questões fundamentais que não quero deixar passar. 

JVM recorda que «as críticas dirigidas à Associação 25 de Abril e a Mário Soares têm a ver com o facto de, segundo os seus críticos, ser falsa e injusta a acusação segundo a qual a actuação do Governo “deixou de reflectir o regime democrático herdeiro do 25 de Abril configurado na Constituição da República Portuguesa”». A parir daí, tece uma série de considerações sobre a dicotomia «ou há democracia ou não há», generalizadamente aceite mas que é profundamente redutora. Como muitas outras realidades, a democracia tem graus ou diferentes estados de saúde, como se prefira, e, como diz JVM, «até pode respirar, mas ligada à máquina, como é o caso em Portugal.» E concretiza: 

 «Temos partidos políticos, eleições, Parlamento, liberdade de expressão. Só que as coisas não são tão simples como isso. (…) 

Portugal hoje é um bom exemplo de uma situação em que a democracia formal não representa sequer formalmente a vontade do povo. A própria direita aceita aliás sem rebuço que Portugal vive hoje em regime de protectorado, devendo sujeitar-se às imposições da troika. Dizer que isto é democracia representa uma curiosa interpretação, que corresponde a dizer que um prisioneiro que pode escolher a cor das paredes da sua cela é, no fundo, uma pessoa livre e não pode por isso mencionar sequer a sua falta de liberdade. (…) 

É possível falar de democracia quando a Europa que comanda os nossos gestos é dirigida por órgãos que não elegemos? Quando os mercados sem rosto decidem das nossas políticas através dos nossos ministros, que irão contratar daqui a três anos? As eleições, onde elegemos partidos com base em promessas e programas eleitorais rasgados com a maior desfaçatez no dia seguinte, representam a vontade do povo? (…) 

Esta democracia não tem pelo menos umas parecenças com uma ditadura? Não, não digo que seja ela, é claro que se trata de outra pessoa. Mas não há ali umas parecenças de família, a esta luz, quando nos olha de lado?» 

Parecenças de família, que não vale a pena tentar esconder debaixo do tapete. Muito pelo contrário.
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Em exercícios de aquecimento

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… para o debate de logo à noite, os franceses recordam 1988:


(Mais quelle delicatesse!)
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1.5.12

Irresistível!



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Pingo Doce – Os «riots» do dia



Não se registaram incidentes nas manifestações do 1º de Maio, talvez para frustração da PSP, mas a data não passou sem os seus e a polícia acabou por ter de fazer uns biscates.

O comportamento que o Pingo Doce teve hoje corresponde à definição de riot. Os seus proprietários agiram como desordeiros violentos – contra os seus próprios trabalhadores, certamente contra as regras da concorrência, de certo modo «contra» todas as dezenas de milhares de pessoas que, compreensivelmente, se precipitaram para aproveitar os descontos, porque foram objectivamente humilhadas. Ostensivamente contra o Dia do Trabalhador.

À hora de almoço, algures em Benfica, uma família chinesa perguntou-me onde podia encontrar uma loja do Pingo Doce. Vi o mundo do avesso. Shame on us



(Foto TVI) 
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Eu vi



... este povo a lutar.


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Os mártires de Chicago


Sempre



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Quando se comemorou um 1º de Maio com bombas (1973)



Às 2:50 minutos do 1º de Maio de 1973, as Brigadas Revolucionárias executaram uma das suas acções mais espectaculares, da qual resultou a destruição de dois andares do Ministério das Corporações (actual Ministério do Trabalho e da Segurança Social), na Praça de Londres em Lisboa. 

Explicaram mais tarde em comunicado (que pode ser lido AQUI, na íntegra): «O Ministério das Corporações é, por um lado, o instrumento mais directo dos patrões portugueses e estrangeiros, que através dele fixam as condições de trabalho do proletariado – salários, horários – enfim, exploração e repressão (…); e, por outro, um instrumento de exploração directa dos trabalhadores, através da Previdência (…) que fornece serviços de Saúde e Previdência miseráveis.» 

Facto demasiado grave e espectacular para que a censura o silenciasse, foi noticiado nos meios de comunicação social e objecto de todas as conversas, num dia quem que se preparavam manifestações proibidíssimas e precedidas por largas dezenas de detenções nas semanas precedentes (Leia-se a circular da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos, de 9/5/1973.) 

Durante a tarde, foram recebidos telefonemas com falsos alertas de bomba em várias grandes empresas de Lisboa. Veio a saber-se depois que se tratara também de uma iniciativa ligada às Brigadas Revolucionárias, cujo objectivo era «libertar» mais cedo os trabalhadores para que pudessem participar na manifestação. 

Ao fim do dia, foi o cenário habitual, mas especialmente repressivo nesse ano, que o Avante! relatará mais tarde: «Em Lisboa, numerosos trabalhadores se concentraram na Baixa a partir das 19:30, sendo brutalmente carregados pela PSP à bastonada, soco, pontapé, do que resultaram dezenas de feridos que tiveram de receber tratamento no hospital, sendo feitas várias prisões.» (O resto pode ser lido AQUI.) 

Um ano mais tarde… foi a maior festa que imaginar se possa! 
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Há 38 anos foi assim



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30.4.12

Criminalização do protesto - ainda a procissão vai no adro



Passou-se com a Myriam Zaluar, mesmo que ela diga que apenas lhe interessa contar «um caso verídico do ponto de vista de uma mulher qualquer». A mesma Myriam que, há alguns meses, escreveu esta Carta aberta ao Senhor Primeiro Ministro, que eu publiquei neste blogue. 

O «caso verídico» está detalhadamente contado AQUI. Deve ser lido na íntegra. 
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Se isto é o que parece



…ou seja: se João Paulo Guerra foi «dispensado» pelo Económico, é menos um excelente cronista que deixo de ler quase todos os dias. Nada que me espante, confesso… 
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Sempre à Sexta-feira?



Viernes é dia de Vénus, deusa da beleza e do amor, mas nem por isso deixou de ser a escolha de Mariano Rajoy para dar más notícias aos espanhóis.  


Só eu, que até detesto imprevisíveis, é que fico admirada com tal afirmação? Imagino logo 52 pacotes de medidas cruéis, em fila de espera, agendadas para as 0:01 a.m. de cada quinto dia da semana, e os espanhóis a roerem as unhas para saberem quais serão as próximas. E diálogos prováveis de ministros: «as minhas reformas são mais urgentes do que as tuas, espera pela próxima 6ª feira», «eu não quero anunciar isto numa 6ª feira, 13», etc., etc., etc. E quando for feriado? Folga-se? 

Enfim: nem é caso para rir porque a realidade, em Espanha, está cada vez mais parecida com o lançamento de um filme que nós já estamos a protagonizar. E não só à 6ª feira. 
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29.4.12

Lá vai o português



Lá vai o português, diz o mundo, quando diz, apontando umas criaturas carregadas de História que formigam à margem da Europa. 


Lá vai o português, lá anda. Dobrado ao peso da História, carregando-a de facto, e que remédio – índias, naufrágios, cruzes de padrão (as mais pesadas). Labuta a côdea do sol-a-sol e já nem sabe se sonha ou se recorda. Mal nasce deixa de ser criança: fica logo com oito séculos. 

No grande atlas dos humanos talvez figure como um ser mirrado de corpo, mirrado e ressequido, mas que outra forma poderia ele ter depois de tantas gerações a lavrar sal e cascalho? Repare-se que foi remetido pelos mares a uma estreita faixa de litoral (Lusitânia, assim chamada) e que se cravou nela com unhas e dentes, com amor, com desespero, ou lá o que é. Quer isto dizer que está preso à Europa pela ponta, pelo que sobra dela, para não se deixar devolver aos oceanos que descobriu com muita honra. E nisso não é como o coral que faz pé-firme num ondular de cores vivas, mercados e joalharia; é antes como o mexilhão cativo, pobre e obscuro, já sem água, todo crespo, que vive a contra-corrente no anonimato do rochedo. (De modo que quando a tormenta varre a Europa é ele que a suporta e se faz pedra, mais obscuro ainda.) 

Tem pele de árabe, dizem. Olhos de cartógrafo, travo de especiarias. Em matéria de argúcias será judeu, porém não tenaz: paciente apenas. Nos engenhos da fome, oriental. Há mesmo quem lhe descubra qualquer coisa de grego, que é outra criatura de muitíssima História. 

Chega-se a perguntar: está vivo? E claro que está: vivo e humilhado de tanto se devorar por dentro. Observado de perto pode até notar-se que escoa um brilho de humor por sob a casca, um riso cruel, de si para si, que lhe serve de distância para resistir e que herdou dos mais heróicos, com Fernão Mendes à cabeça, seu avô de tempestades. Isto porque, lá de quando em quando, abre muito em segredo a casca empedernida e, então sim, vê-se-lhe uma cicatriz mordaz que é o tal humor. Depois fecha-se outra vez no escuro, no olvidado. 

Lá anda, é deixá-lo. Coberto de luto, suporta o sol africano que coze o pão na planície; mais a norte veste-se de palha e vai atrás da cabra pelas fragas nordestinas. Empurra bois para o mar, lavra sargaços; pesca dos restos, cultiva na rocha. Em Lisboa, é trepador de colinas e de calçadas; mouro à esquina, acocorado diante do prato. Em Paris e nos Quintos dos Infernos topa-a-tudo e minador. Mas esteja onde estiver, na hora mais íntima lembrará sempre um cismador deserto, voltado para o mar. 

É um pouco assim o nosso irmão português. Somos assim, bem o sabemos. 

Assim, como? 

José Cardoso Pires, E agora, José?, Moraes Editores, 1977, p. 19-21. 
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Criadores de escassez



Em El País, Joaquín Estefanía estabelece um paralelo entre o ambiente que se vive nos países do Sul da Europa intervencionados por troikas, ou na iminência de virem a sê-lo, com o existente durante os anos da Grande Depressão. Apesar de todas as diferenças e das devidas distâncias, a comparação é mais do que pertinente.

«Durante la década de los años treinta, cuando los rostros de muchos hombres se tornaron duros y fríos como si miraran hacia un abismo, nuestro hombre advirtió los signos de la desesperanza generalizada que conocía desde niño. Vio hombres buenos destruidos al ver roto su concepto de una vida decente, les veía caminar desanimados por las calles y los parques, con la mirada vacía como añicos de cristal roto; les veía entrar por las puertas de atrás, con el amargo orgullo de los hombres que avanzan hacia su propia ejecución, a mendigar el pan que les permitiera volver a mendigar, y también vio personas que una vez caminaron erguidos mirarle con envidia y odio por la débil seguridad que él disfrutaba.» (Referência a descrições de John Williams, em Stoner.) 

«La Gran Recesión que comenzó en el verano del año 2007 ha dejado de ser planetaria, pero ha adquirido otras características: de EE UU ha pasado al Viejo Continente; de crisis financiera privada ha devenido en una crisis de la deuda pública; su origen estuvo en los abusos y las estafas del sistema financiero en la sombra, y las ayudas estatales al mismo (…) están en el epicentro de buena parte de los problemas de déficit y de endeudamiento de muchos países. (…) 

El paisaje después de una batalla que ya ha durado dos años no puede ser más estremecedor. Las políticas de austeridad extrema y de rigor mortis pueden ser calificadas como “creadoras de escasez”. (…) 

En medio de la Gran Depresión, cuando publicó su Teoría General, Keynes centró el debate principal: “Los dos vicios que marcan el mundo en que vivimos son que el pleno empleo no está garantizado y que el reparto de la fortuna y de la renta es arbitrario y desigual”. ¿Tan poco hemos aprendido en tres cuartos de siglo?» 

Na íntegra aqui
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Tratados Europeus



(Via Helena Romão no Facebook)
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O nosso «Chicago Boy»



A crónica semanal de Miguel Sousa Tavares, no Expresso de ontem (sem link), é demasiado importante, a meu ver, para que seja lida também por quem não teve oportunidade de comprar o jornal. Ainda há muito quem olhe para o ministro das Finanças como um puro técnico, sem agenda ideológica, o que é um erro e constitui um perigo. 

Alguns excertos que me parecem importantes e o texto na íntegra. 

«O ministro derramava sobre nós o seu ar cansado, o seu olhar de mocho sacrificado pela nação, hesitava, tropeçava nas frases, sussurrava verdades evidentes por si sós e para as quais tínhamos de apurar o ouvido para bem escutar. (…) O mago Gaspar, quem sabe mesmo um Salazar democrático, enviado pela senhora Europa para de novo nos pôr as contas em ordem! Quando pouco mais resta, Portugal tem o costume de acreditar em milagres. 

Dez meses passados, começo a pensar que Vítor Gaspar não é um calmante, mas sim um indutor do sono. Anestesiou-nos, adormeceu-nos, fez connosco o velho truque dos economistas, que é o de retirar o adjectivo‘política’ ao nome da suposta ciência conhecida como Economia Política. Ora, como bem sabemos, a economia é demasiado importante para ser deixada apenas a cargo dos economistas – sobretudo, daqueles que, como Vítor Gaspar, pertencem à escola doutrinária que defendeu as teses que nos mergulharam, à escala mundial, na actual crise. (…) 

Nunca acreditem nos economistas ‘apolíticos’: o seu objectivo final é tão político quanto o dos políticos, apenas querem chegar lá por si sós, invocando uma pretensa superioridade técnica que dispensará o controlo político democrático sobre aquilo que vão fazendo. E as situações de emergência financeira, como a que vivemos, são ocasiões privilegiadas para fingir que se dispensa a política, em nome da urgência e em nome da tal superioridade técnica, que, porém, esconde sempre uma agenda política — entre nós, cada dia mais evidente. (…) 

A agenda política do ‘técnico’ Vítor Gaspar e do Governo de que faz parte é clara como água: vem nos livros e nos manuais e repete-se ciclicamente, de cada vez que os “Chicago boys” querem ajustar contas com o que eles chamam o “socialismo” — isto é, a existência de um Estado que não se limite a ser um simples facilitador de negócios privados.» 

Na íntegra: