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12.5.12

O medo vende



Vale a pena ler a crónica de Clara Ferreira Alves, na Revista do Expresso de hoje (sem link), a propósito das eleições em França e, sobretudo, na Grécia. 

Alguns excertos e o texto na íntegra. 

«Há aí alguém a celebrar a vitória de M. Hollande? (…) Falo para os que acreditam que a Europa precisa de contrariar a depressão e o suicídio lento com comprimidos para dormir em doses não mortais, até o bom povo da Europa ficar reduzido a zombie. Se existir um bom povo da Europa. A avaliar pelos resultados eleitorais, existe esse mau povo da Europa que gosta de saudações, suásticas, fardas, ordens e extermínio.  (…) 

O medo vende. O medo das bombas em aviões vende mais do que o medo da austeridade, embora a austeridade seja a política do terror (o que vos vai acontecer se não fizerem o que vos digo, na eterna ordem alemã) e as consequências da austeridade façam mais vítimas que uma bomba num avião. (…) Daqui, deste lugar onde me encontro, Atenas, posso ver com clareza os resultados da austeridade e não estou tranquila. Em duas palavras: não funciona. E não funciona porque não há dinheiro e o povo está zangado. Não funciona porque ao contrário do que diz o ministro alemão dos Negócios Estrangeiros, a Grécia não vai, por milagre, tornar-se mais competitiva nem mais produtiva, apoiando-se nas pequenas e médias empresas (onde é que já ouvi isto?).»

Na íntegra: 

Escrito nos céus



«Os que anunciam a chegada dos coronéis a Atenas estão é a chamá-los para outros países.»
José Medeiros Ferreira

Álvaro?

Catastroika (legendado em português)



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Um primeiro-ministro pateta



As afirmações feitas ontem por Passos Coelho sobre desemprego são preocupantes por todas as razões e por mais uma, para mim não menos importantes do que todas as outras já apontadas por muitos: são patetas e revelam uma total falta de bom senso. E nada há de pior para um país, e até de mais perigoso, do que estar entregue a pessoas patetas. 

No estado em que nos encontramos, afirmar, em público, que «estar desempregado não pode ser, para muita gente, um sinal negativo» e lançar uma crítica sobranceira sobre a falta de empreendorismo dos jovens licenciados (que, na generalidade, terão «aversão ao risco») é, no mínimo, repugnante e não tem desculpa possível. 

Se não é de esperar que todos os governantes sejam geniais ou iluminados, o que se pode e deve exigir, sobretudo em épocas de crise como aquela que atravessamos, é que tenham um mínimo de sensibilidade e até de formação em conceitos básicos que qualquer liderança, seja qual for o nível a que se exerça, não pode deixar de conhecer e praticar. 

Amadorismo e patetice resultam numa mistura explosiva. Is to não pode acabar bem, isto não vai acabar bem. 

Fica o vídeo para memória futura:

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11.5.12

Mikis, uma vez mais



Mikis Theodorakis, sempre igual a si próprio apesar dos seus 85 anos, ainda não baixou os braços e disse hoje que estará presente nas próximas eleições, na «linha da frente», reservando no entanto para mais tarde outras explicações – mais concretamente, dizer como participará e com quem. (O que não impede os comentadores de preverem que apoiará o Syriza.)

No seu entender, nas eleições de 6 de Maio, «os gregos disseram um “não” rotundo aos que os governam e um meio “sim” aos outros.» São necessárias novas eleições «para que este “sim” seja claro». 

Em Fevereiro deste ano, declarou por ocasião de uma ida ao Parlamento grego: «Quero olhá-los nos olhos antes que votem estas medidas de austeridade», «preparam-se para votarem a morte da Grécia».  

Fonte entre outras.


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Cinema



Como forma de protesto contra a política adoptada pelo governo face ao cinema português, as escadarias de S. Bento transformaram-se, há dois dias, numa enorme plateia

Na íntegra, o filme que foi projectado, feito a partir de uma colagem de momentos célebres da história do cinema português: 


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Não, não é inevitável



José Manuel Pureza, hoje, no DN

«Não, não é inevitável. Foi essa a mensagem dada à Europa pelos povos de França e da Grécia. Cada um a seu jeito, porque cada um está em sua condição. Não é inevitável a desconstrução da Europa por um fundamentalismo recessivo, disse com clareza o povo francês. Não é inevitável a punição das vidas das pessoas e a humilhação dos povos como redenção da cupidez do sistema financeiro, disseram com clareza os gregos. (…) 

O dogma da ilegalização de tudo quanto não seja neoliberalismo-custe-o-que-custar sofreu um sério revés em Paris e Atenas. Cabe agora a todos/as os/as que aspiram a uma mudança efectiva transformar essa derrota do adversário numa vitória própria. Para isso é preciso programa, é preciso firmeza sem transigências no essencial e maleabilidade lúcida no acessório, é preciso ouvir as pessoas e garantir-lhes em concreto a dignidade que lhes está a ser roubada. (…) 

Pode estar em germinação uma Europa nova. As escolhas que agora fizermos decidirão o sentido e a densidade dessa novidade. Não, não há inevitabilidades. Tudo está sempre em aberto.» 

Na íntegra aqui
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Quando a morte chega




... à geração dos filhos dos grandes amigos que tivemos neste mundo, tudo vacila.
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Faria hoje 108 anos



Salvador Domingo Felipe Jacinto Dali i Domènech, 1º Marquês de Dalí de Púbol.

Bem podia ainda andar por aí a pintar este mundo, muito mais surrealista do que ele o conheceu.


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10.5.12

Primavera Global



A Primavera Global PT é um movimento de cidadãos, movimentos sociais e diversos colectivos constituído em resposta ao apelo internacional para que as pessoas voltem a sair às ruas entre 12 e 15 de Maio em todo o mundo. 

Até ao momento mais de 40 países e 250 cidades em todo o mundo terão iniciativas a decorrer em Portugal são pelo menos sete as cidades que estão organizar iniciativas neste âmbito – Faro, Évora, Lisboa, Santarém, Coimbra, Porto e Braga. 

Para a capital estão previstas duas grandes iniciativas, uma manifestação no dia 12 que nos levará desde o Rossio até ao Parque Eduardo VII e um Fórum de Ideias, a decorrer entre 12 e 15 de Maio, no Parque Eduardo VII, com um calendário, ainda em construção e aberto, que inclui até ao momento já mais 50 iniciativas (desde teatro, performances, debates/palestras, oficinas, etc.). 

Para mais informações seguem em baixo os contactos e o comunicado de imprensa lido divulgado hoje, às 14h00, no Parque Eduardo VII, em Lisboa. 

Estamos igualmente disponíveis para partilhar convosco um calendário mais detalhado do que já está previsto para o Parque Eduardo VII. 



(Daqui)

Dupont & Dupond

Grécia – Breaking News

Os nossos técnicos de Finanças



A frase que ficará do dia de ontem será certamente a que Vítor Gaspar usou para responder a uma interpelação de Honório Novo na Assembleia da República: «Eu não minto, não engano, não ludibrio». 

Para além de parecer humor negro se nos lembrarmos do que tem sido a política deste governo nos últimos meses, a afirmação tem aquele carácter categórico que caracteriza personalidades desinteressantes e moralistas, mas perigosas, que pretendem transpirar seriedade por todos os poros e que se consideram acima de todas as suspeições – até a de serem considerados «políticos». 

Impossível não recordar o português mais «virtuoso» de sempre, que também afirmava, em 1928: «Represento uma política de verdade e de sinceridade, contraposta a uma política de mentira e de segredo». Ou o nosso nunca assaz celebrado presidente da República, que nunca se engana e que raramente tem dúvidas.

Três técnicos de Finanças, certamente por acaso...

P.S. - A propósito: O estranho caso do Anexo

A propósito da Grécia, ainda



No «i» de hoje, mais um excelente texto do Zé Neves: Elogio da esquerda radical grega.

«Um boi não é um elefante, tal como um tigre não é um elefante, mas estes dois factos não permitem concluir que um boi e um tigre são uma e a mesma coisa. Lamentavelmente, é algo tão elementar como isto que a maioria dos comentadores políticos tem dificuldade em compreender, como mostrou a sua reacção às eleições gregas do último fim-de-semana. Os votos gregos, é sabido, permitiram a coligação Syriza obter um extraordinário resultado eleitoral e também permitiram a um partido neonazi entrar pela primeira vez no parlamento. Ora a coincidência entre estes dois factos bastou para que a generalidade dos comentadores políticos viesse a terreiro alertar contra o perigo do extremismo, procurando meter a esquerda radical e os neonazis num mesmo saco. (…)

Mas a vulgata antitotalitária produz ainda um outro efeito não menos preocupante. Ao não hesitarem em dar como iguais a esquerda radical grega e o partido neonazi grego, mostrando tanto empenho na defesa do liberalismo económico (fortemente atacado pela esquerda radical) como na defesa do liberalismo político (fortemente atacado pela extrema-direita), os liberais de hoje não vêem os seus próprios erros actuais. Ávidos de irmanar a esquerda radical e a extrema-direita, os nossos liberais ignoram, por exemplo, que um dos pontos mais relevantes para a actual ascensão dos neonazis gregos (ou da extrema-direita francesa) é a crescente popularidade da sua mensagem de ódio aos imigrantes. E esquecem que neste particular aspecto, como em vários outros, as políticas levadas a cabo pelos partidos liberais do centro-esquerda e do centro-direita, na Grécia como na generalidade da Europa, estão bem mais próximas das políticas de repressão da extrema-direita. E se quem desta se demarca claramente é pelos nossos comentadores tido como radical, pois então que sejamos todos radicais.»

Na íntegra, aqui.
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9.5.12

A globalização no seu melhor



Escandalosamente roubado aqui.
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Importam-se de repetir?



Ler que responsáveis do partido mais economicista que alguma vez nos governou, desde que tenho memória, «querem começar a medir a Felicidade Interna Bruta dos portugueses, um conceito alternativo ao PIB» soa-me mais ou menos como se me dissessem que o Papa planeia usar fumo de marijuana, em vez de água benta, para baptizar criancinhas.

(Lido aqui)
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«Preocupados» com a Grécia?



O Miguel Cardina publicou hoje um texto no Facebook, que transformou depois em post no Arrastão. Mas deixo-o aqui na íntegra, juntamente com o comentário que fiz (no Facebook).

«E eis que, de repente, muitas almas puras se mostram "preocupadas" com a Grécia, quando este país se encontra a colapsar há largos meses. Os "extremistas", "radicais" e "irresponsáveis" do Syriza são agora aqueles que se esforçam por encontrar um governo e contornar a quadratura do círculo imposta por uma lei eleitoral iníqua - isto depois do centro-direita ter trocado os três dias destinados a formar governo por algumas horas de "árduas" negociações. Mesmo que o cenário muito provável de novas eleições se venha a concretizar - KKE, Verdes e PASOK já afastaram a hipótese de coligação com o Syriza - houve um povo que rejeitou claramente nas urnas a receita da troika que lhes tem vindo a ser aplicada. E isso é bom: para eles, para nós e para que a esperança de uma Europa diferente se mantenha minimamente acesa. Ainda que nada disto esteja escrito nas estrelas.» 

O meu comentário: 

Miguel: 
1-Totalmente de acordo com isto: «é bom: para eles, para nós e para que a esperança de uma Europa diferente se mantenha minimamente acesa». Quaisquer que sejam os desfechos, os gregos em geral, e o Syriza em particular, já fizeram mais pelo que dizes do que talvez sejamos capazes de realizar neste momento. Não nos regozijarmos com isso seria não perceber de todo o que está em causa ou, pior, desejar que a situação calamitosa em que nos encontramos tenha «sucesso». 

2- As «almas puras» de que falas, e que pouco ou nada se ocuparam da Grécia até agora, em vez de aplaudirem os 52 deputados do Syriza, preferem repisar o perigo dos 21 do Aurora. É certo que estes são preocupantes, mas, segundo comentadores insuspeitos, estão a ter um comportamento a tal ponto caricato que podem cavar a sua própria sepultura. (Bem mais hábil, e portanto perigosa, é a Le Pen francesa, mas… é mais «urbana»). 

3-Não vejo suficiente revolta contra a inacreditável pressão da senhora Merkel & companhia para que se chegue ao governo «desejado», custe o que custar. De eleições em eleições até à eliminação do elemento básico e mínimo da democracia, que é a (verdadeira) liberdade de um povo escolher os seus representantes? 
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Se acreditarmos muito numa coisa, ela acabará por realizar-se?



Manuel António Pina, a propósito da «fé cega» de Vítor Gaspar: 

«O método até pode, sabe-se lá, vir a dar certo. Pelo menos deu certo com aquele personagem de Carl Sandburg que comprou o 42 na Lotaria, anunciando que era nesse número que iria sair a "taluda" e que, quando o 42 de facto saiu, perguntado se acertara por palpite ou se usara um método, respondeu algo do género: "Usei um método científico: atirei ao ar o álbum de família e ele caiu aberto na página 7, onde estavam as fotos do meu avô e da minha avó. O meu avô e a minha avó ambos na página 7, estão a ver? Ora 7 vezes 7 são 42..."» 

Não se trata de fé cega mas sim de experiências de receitas a ver se pegam. 

Toda a gente sabe que 7x7 não é igual a 42? Who cares! Os subsídios regressam em 2015, 2018 ou nunca? Who cares! A Igreja é que determina que os «seus» feriados regressam em 2018? Who cares! 

Peanuts…Porque se sabe que, enquanto o povo continuar sereno, a procissão poderá seguir o seu caminho.
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Nem todos perceberão...


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8.5.12

RTP2 – Série «O Tempo e o Modo»



Tem início depois de amanhã, 10 de Maio, pelas 23:30, na RTP2 

«O Tempo e o Modo» é uma série que convida 11 personalidades de geografias e quadrantes sociais diversos. Conversas de 30 minutos, sobre o mundo e o futuro. 

(Eduardo Galeano / Laurie Anderson / Lucrecia Martel / Gonçalo M. Tavares / Suad Amiry / Karen Armstrong / Esther Duflo / Martin Jacques / Vandana Shiva / Braden Allenby / Lula da Silva) 

Realização de Graça Castanheira. 

Primeiro episódio com Eduardo Galeano

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Um deles ainda anda por aí e...



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Grécia: por um prato de lentilhas?



Antonis Samaras, chefe da Nova Democracia, começou por contactar Alexis Tsipras, líder do Syriza, numa proposta formal de coligação para a formação do novo governo grego. Com 108 + 52 deputados, esta seria a única combinação, a dois, que garantiria uma maioria parlamentar (conseguida com metade do número total +1, ou seja 151). 

Como era esperado, Tsipras recusou, as outras iniciativas de Samaras falharam e a estafeta passou para o líder do Syriga. Ninguém crê que ele ou quem se lhe segue (o responsável pelo PASOK) tenham mais sucesso e a Grécia encaminha-se, inevitavelmente, para novas eleições. 

Entretanto, já hoje, Tsipras «descartou a participação de seu partido numa coligação que apoie os ajustes impostos pela União Europeia e o FMI». 

Ainda não li preto no branco, mas já vi e ouvi insinuar, que Tsipras não devia fazê-lo, mas sim renunciar às suas posições de recusa do Memorando, em nome de uma sacrossanta «salvação nacional». E bater-se depois, no Parlamento, com outras forças de esquerda, para amenizar as condições de cumprimento. Mais: que será ele a ficar com o odioso, a «culpa» principal do caos que se anuncia. (Em suma, argumentos semelhantes àqueles dos que ainda hoje condenam a nossa esquerda por não ter aprovado o PEC IV – tinham de vir esses argumentos, era fatal como o destino…) 

Entretanto: 

- É bom recordar que a maioria esmagadora de quem foi votar no Domingo castigou duramente os dois partidos austeritários que têm alternado no governo do país. Aquilo a que assistimos foi «uma rebelião democrática contra um ajuste excessivamente duro», o que não deve ser interpretado como desejo em sair do euro, que é rejeitado pela maioria da população» e também pelo Syriza. Mas não só: rebelião também contra os políticos que governaram o país nos últimos anos e que «sacrificaram o bem-estar público a ganhos políticos e mesmo pessoais»

- Tudo será / já está a ser feito para amedrontar os eleitores: «O Estado grego poderá ficar sem dinheiro no final de Junho se do resultado das eleições não sair um governo sólido e disposto a executar o programa de ajustamento da troika, admitiram ontem três membros do Ministério das Finanças grego.» Serão usadas todas as armas para «recentrar» os votos, em nome da luta contra o caos. Mude-se o povo...

A questão que se põe a partir de agora é a de saber se os gregos terão forças para resistir (porque é de resistência que se trata), mantendo uma posição claramente anti-austeritária nas eleições que se seguem, provavelmente já em Junho. Se a resposta for positiva serão heróicos, como tantas vezes na sua História! Caso contrário, quem for capaz que lhes atire a primeira pedra. Mas continuo a esperar – por eles, por nós, pela Europa – que não troquem a honra e a dignidade por um prato de lentilhas. Mesmo que a fome seja maior que a de Esaú.

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P.S. - Já são públicos os cinco requisitos mínimos definidos pelo Syriza para participação no governo na Grécia:
1) Imediato cancelamento de todas as medidas pendentes de empobrecimento, como cortes nas pensões e salários.
2) Cancelamento de todas as medidas pendentes que vão contra os direitos fundamentais dos trabalhadores, como a abolição dos contractos colectivos de trabalho.
3) Abolição imediata da lei garantindo imunidade aos deputados e reforma da lei eleitoral (principalmente a questão dos 50 deputados bónus para o partido vencedor).
4) Investigação aos bancos gregos e imediata publicação da auditoria feita ao sector bancário pela BlackRock.
5) Uma comissão de auditoria internacional para investigaras causas do défice público da Grécia, com uma moratória em todo o serviço de dívida até serem publicados os resultados da auditoria.
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Não se atrase (2)



(Via Jorge Conceição no Facebook)
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Não se atrase


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7.5.12

«A democracia nasceu em Atenas quando Sólon anulou as dívidas dos pobres»



Há quase um ano, por iniciativa de Mikis Théodorakis, o compositor grego que se transformou num dos símbolos da luta contra a ditadura dos coronéis, e de um movimento de cidadãos independentes por ele criado para resistir «às pressões impostas pelos Estados Unidos, FMI e EU», foi lançado um texto-apelo que merece ser hoje recordado: 

«Nós saudamos as dezenas de milhares, as centenas de milhares dos nossos concidadãos, a maior parte jovens, que se juntaram nas praças de todas as grandes cidades para manifestar a sua indignação aquando da comemoração do memorando (acordo assinado entre o governo grego, a UE, o FMI e o BCE, em Maio de 2010 e desde então regularmente renovado), exigindo a partida do governo da Vergonha e de todos os políticos que geriram o bem público, destruindo, roubando, e escravizando a Grécia. O lugar de todos estes indivíduos não é no Parlamento, mas na prisão. (…) 

Não há outra solução se não substituir o actual modelo económico europeu, concebido para gerar dívidas, e regressar a uma política de estímulo da procura e do desenvolvimento, a um proteccionismo dotado de um controlo drástico da Finança. Se os Estados não se impõem aos mercados, estes últimos engolem-nos, ao mesmo tempo que a democracia e tudo o que a civilização europeia alcançou. A democracia nasceu em Atenas quando Sólon anulou as dívidas dos pobres face aos ricos.»

(Texto integral aqui.)

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«Pathos for Freedom» é uma canção que Mikis Theodorakis compôs para assinalar a união de esforços contra a ditadura militar que governou a Grécia entre 1966 e 1974. Hoje é de novo cantada e há quem explique porquê: «It is because we are counting -- by singing the very same song -- our injuries from the ongoing crisis, from a "non-stop Greek tragedy," according to the beloved title of the world media. At last, little by little, we also restart counting our international friends who have supported us in overcoming this crisis. What we cannot be accused of having invented the tragedy of the world debt crisis. Yes, we invented the tragedy (Thespis), but we also invented the comedy (Aristophanes). We were the pioneers of philosophy (Socrates, Aristotle) and mathematics; the globe owes the terminology of today's medicine, zoology, phytology, astronomy, geometry (Euclid's) and physics (Archimedes) to Greece.»


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Com dedicatória a quem só teme a extrema-direita na Grécia



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Quem o viu e quem o lê…



Catálogo das novas culpas. 

Mas, ao contrário de muitos, eu não estranho.
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Grécia, no dia seguinte



Os gregos votaram ontem «com o coração e com as vísceras», como leio em El País. Chegados ao ponto em que se encontram, foi mesmo disso que se tratou, mas desengane-se quem julgue que deixaram a cabeça em casa. 

Muito claramente, ou se abstiveram (o que é grave mas compreensível e expectável dado o desencantamento com partidos e com política, bem patente nos últimos tempos), ou condenaram, expressivamente, a política de austeridade extrema a que estão submetidos, castigando o centro e fazendo crescer «as pontas» – para além do esperado, é certo. Se é de lamentar, e de olhar com extrema preocupação, que a extrema-direita tenha conseguido eleger 21 deputados, saudemos (eu saúdo…) o Syriza (não anti-europeísta) que vai ter 52. 

Por mais que veja a grande e comovente felicidade dos que ontem embandeiraram em arco a vitória de Hollande (e, sim, ela foi importante porque correu com Sarkozy e introduzirá alguns paus na engrenagem europeia), ninguém me convence que não foi muito mais importante o que aconteceu na Grécia, com todos os riscos implicados no que vai seguir-se. Arriscada está a Europa e esta pedrada no charco só pode fazer-lhe bem. 

Alguns comentários: 

1 - Quebrou-se a alternância no poder (Nova Democracia / PASOK), essa pecha dos regimes parlamentares em que vivemos. Página virada e digo apenas: «Aleluia!» 

2 - Lamente-se a reacção imediata de rejeição, por parte do Partido Comunista, ao apelo do líder do Syriza para uma tentativa de coligação da esquerda. 

 3 - Registe-se a pressa do PASOK em propor a união de todos os que apoiam o Memorando com a União Europeia. Não aprende, apesar de ter perdido cerca de 2/3 dos votos. 

4 - Entre nós, sublinhe-se o silêncio significativo sobre a Grécia (no Facebook foi / é flagrante), por parte dos grandes entusiastas da vitória de Hollande. Não cheguei a perceber o que esperavam ou desejavam: muito provavelmente uma vitória do PASOK, com a Nova Democracia em segundo lugar e uma maioria garantida por ambos no Parlamento, certamente nunca que o que se passou com o Syriga.

Sobre tudo isto, apetece-me para já dizer, como o outro: «Pois é, habituem-se!» 
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6.5.12

Só austeridade? Não, muito obrigada



@Gui Castro Felga

Na Grécia, os partidos apoiantes dos acordos desastrosos a que o país se tem submetido foram duramente castigados, vendo a sua massa eleitoral reduzida a metade ou perto disso. 

Por outro lado, parece confirmar-se que a coligação de esquerda Syriza sai num mais do que confortável – e inesperado – segundo lugar. Terá sido a força mais votada pelos que têm menos do que 55 anos e nas grandes cidades, Atenas incluída. 

Se está longe de se vislumbrar o que será o dia de amanhã em termos governamentais, o de hoje abriu uma nova fase que só pode ser melhor – pior é difícil, se não impossível. 

Da página do Syriza no Facebook, tirei esta afirmação: 
Σήμερα νίκησε η αξιοπρέπεια,η ελπίδα,η αλληλεγγύη. Σήμερα νίκησε ο λαός μας. 
Hoje, ganharam a dignidade, a esperança e a solidariedade. Hoje, ganhou o nosso povo. 

Assino por baixo.


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Um belo Domingo, so far!



Bye, bye, Sarkozy , Merkel a perder eleições regionais e os austeritários a levarem uma banhada na Grécia. 

Não será por acaso que hoje é Dia do Sorriso…

P.S. - France, Greece and Germany election results send austerity shockwaves through Europe
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Et maintenant?




Vale para o vencedor e para o vencido.

P.S. - Do exagero: «Le jour de gauche est arrivé».
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A nossa maior bancarrota


Aconteceu no ano fiscal de 1892-1893, durante o reinado de D. Carlos I, quando o peso da dívida pública no PIB atingiu 124,3%. O último número disponível, para 2011, aponta para 107,8%, segundo dados do Eurostat (de 23 de Abril de 2012). 

Mais detalhes num interessante texto publicado ontem, por Jorge Nascimento Rodrigues, no Expresso online

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 Documento da época:

 
José Dias Ferreira (bisavô de Manuela Ferreira Leite) era chefe do Governo e o ministério da Fazenda estava confiado a Joaquim Pedro de Oliveira Martins (tio-bisavô de Guilherme). 
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A ler



Boaventura Sousa Santos entrevistado por Nuno Ramos de Almeida. Goste-se ou não especialmente do controverso professor de Coimbra (e eu tenho dias…), a não perder.
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«O ponto de viragem» de Vítor Gaspar



Explicado pelo próprio a Abebe Selassié, o senhor do FMI que se ocupa agora de Portugal.  Excerto da Carta Aberta do Comendador Marques de Correia, «Revista» do Expresso de ontem (sem link):

É muito claro explicou devagarinho Vítor Gaspar. Nós, até agora, achávamos que sabíamos o que estávamos a fazer, mas, desde que a coisa se agudizou em Espanha e que o Hollande tem hipóteses de ganhar, já não temos a certeza. Pensamos que, independentemente do que façamos, as coisas seguem o seu destino de forma inelutável. Ora isso é um ponto de viragem, não lhe parece? 

Porquê?
Porque podemos deixar de governar. 

Mas não é o que têm feito até agora?
Sim, é o que temos vindo a fazer. Mas até agora fazíamo-lo por convicção liberal, enquanto a partir de hoje abandonámos essa convicção e estamos desnorteados. Agora, tudo o que sabemos é que não sabemos nada! É uma viragem, é, olá se é, Selassié! 
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