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16.3.13

Pelo aumento do salário mínimo



Na passada quinta-feira, a presidente da Assembleia da República, Assunção Esteves, recebeu, a seu pedido, uma delegação dos promotores da Petição Pelo aumento do Salário Mínimo Nacional - Uma questão de justiça e de direitos humanos, que foi lançada à subscrição pública a 14 de Janeiro e que recolheu, até hoje, cerca de 6.540 assinaturas.

Integrei essa delegação, juntamente com Manuela Silva, José Manuel Pureza, José Soeiro e Sandra Araújo. Na reunião, que durou mais de uma hora, tanto Assunção Esteves como o presidente da Comissão de Segurança Social e Trabalho, José Manuel Canavarro, também presente, salientaram a pertinência do tema e mostraram sensibilidade em relação aos argumentos apresentados. Segundo declarações de José Soeiro à imprensa, ambos «disseram que iam tratar com muita atenção esta petição, não apenas fazendo-a seguir os trâmites normais, como tentando dar destaque ao debate que se seguirá e que acontecerá em sede de comissão».

(Mais detalhes aqui.)

No fim, Manuela Silva resumiu, para os órgãos de comunicação social, os valores que estão em causa:

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Para mais tarde recordar

Seres híbridos



«Os políticos são punidos pelas eleições e pela história (o nome do primeiro-ministro ficará na sinistra galeria dos anti-heróis da História de Portugal). Os académicos, quando erram, perdem reputação e emprego. Gaspar e os seus colegas da troika pertencem a uma casta híbrida de inimputáveis. Quando lhes são pedidas responsabilidades políticas, dizem: "somos apenas técnicos". Quando lhes são apontados os erros científicos, respondem: "O nosso trabalho está condicionado pela política." Até quando poderá uma democracia suportar ser aterrorizada por incompetentes e irresponsáveis?»

Viriato Soromenhho-Matques

Em jeito de homenagem a Mário Murteira



Mário Murteira morreu ontem, em Lisboa. Não foi só o economista de que todos hoje falam, mas também o resistente à ditadura. Republico um texto sobre a cooperativa Pragma, fundada em 1964 e que viu a sua sede encerrada pela PIDE em 1967. Mário Murteira foi o seu primeiro presidente.

Se é totalmente incorrecto fazer coincidir o início da oposição dos católicos ao salazarismo com a década de 60, não há dúvida que foi nela que se deu a verdadeira explosão de actividades daquela oposição. Dois factores contribuíram decisivamente para que isto acontecesse: dentro da Igreja, as perspectivas de abertura criadas pelo Concílio Vaticano II e o conservantismo da Igreja portuguesa; na sociedade em geral, a ausência de liberdades elementares e a manutenção da guerra colonial, com todas as insuportáveis consequências que arrastou. Ao invocarem a sua condição de católicos em iniciativas cada vez mais radicais, aqueles que o fizeram atingiram um dos pilares ideológicos mais fortes do regime e este foi acusando o toque.

É certo que se tratou de uma oposição que manteve sempre uma certa informalidade organizativa. Concretizou-se em iniciativas e instituições, mais ou menos ligadas entre si através dos seus membros, mas, em parte propositadamente, sem uma estruturação sólida e definida. Daí derivaram fraquezas e forças e, definitivamente, características específicas.

A Pragma foi uma dessas instituições – com uma importância e projecção ainda relativamente desconhecidas. Foi fundada por um grupo de católicos, em Abril de 1964, como uma «Cooperativa de Difusão Cultural e Acção Comunitária». Porquê uma cooperativa? Porque foi a forma de tirar o partido possível de uma lacuna legislativa: as cooperativas não tinham sido abrangidas pelas limitações impostas ao direito de associação e, por essa razão, nem os seus estatutos eram sujeitos a aprovação legal, nem a eleição dos seus dirigentes a ratificação pelas entidades governamentais. Forçando uma porta entreaberta por um lapso do poder, os fundadores da Pragma puseram mais uma peça no puzzle da oposição ao regime – cuidadosa e imaginativamente.

Desde o seu núcleo inicial, a Pragma não se restringiu ao universo «intelectual» e incluiu também sócios provenientes do meio operário, nomeadamente dirigentes e militantes das organizações operárias da Acção Católica. Os horizontes abriram-se rapidamente e muitos dos seus futuros membros nem sequer seriam católicos. Aliás, a Pragma acabou por funcionar também como uma espécie de plataforma aglutinadora de elementos da esquerda não-PC que, por não estarem integrados em qualquer estrutura organizativa, nela identificaram um espaço de debate e de encontro (foi o caso, por exemplo, de muitos activistas das lutas estudantis de 1962).

Subjacente a este novo projecto estava, obviamente, um posicionamento de oposição ao regime como um todo, à falta de liberdades, à guerra de África. Pretendeu-se explorar mais uma janela legal de oportunidades, complementar outras iniciativas, criar possibilidades para acções concretas e úteis, aumentar a consciência política e social de um número cada vez maior de pessoas.



15.3.13

Demissão já, se possível ainda hoje



Muitas palavras para quê? O triste espectáculo a que assistimos em directo esta manhã a partir da Assembleia da República, ou de que fomos tendo notícias ao longo de todo o dia, só podem levar-nos a exigir que este governo se vá embora o mais depressa possível, por manifesta incompetência para gerir o que quer que seja.

Mesmo que não se saiba qual é a melhor cura para um determinado mal, não se insiste em continuar a dar um medicamento a um doente quando se sabe que, garantidamente, este só está a contribuir para piorar, com gravidade, o seu estado de saúde.

Estes números, divulgados hoje no Expresso online, falam por si.



Este texto será partilhado na página Demissão do Facebook, onde se apela a que outros surjam e os leitores cliquem. Desde já deixo esse desafio ao Miguel Cardina, ao Poke, ao Francisco da Silva, ao Renato Teixeira e à Paula Cabeçadas
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Demónios



José Manuel Pureza, hoje, no DN.

«Na mesma semana em que o Parlamento Europeu rejeitou o projeto de orçamento plurianual da União Europeia para o período 2014-2020, o ex-presidente do Eurogrupo Jean-Claude Juncker exprimiu ao Der Spiegel a sua preocupação pelas semelhanças entre as circunstâncias da Europa de há cem anos e o contexto europeu atual. (...)

Perante a vertigem da transformação da violência social em guerra, a Europa unida de hoje é demasiadamente parecida com a Europa segmentada de há um século. (...) Alguém explique a Juncker que o nacionalismo não é uma questão de mau feitio nem nasce do vazio. Alguém lhe explique e às elites de que ele é porta-voz que, há cem anos como agora, o nacionalismo foi o refúgio de massas imensas acossadas por políticas de empobrecimento e humilhação. E que são essas políticas de que Juncker, Barroso, Merkel e o centrão europeu têm sido intérpretes primeiros que nos estão a atirar de novo para as mãos dos demónios da guerra.

Pôr em alternativa nacionalismo e federalismo é um truque. Porque tanto alimenta os demónios da guerra um nacionalismo de portas fechadas como um federalismo que, sob a capa da "supervisão económica e orçamental", amarra os povos a uma austeridade sem fim. Um e outro alimentam-se da mesma espiral de empobrecimento e criam um monstro social pronto a explodir em violência bruta.» 
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15 de Março, uma data a fixar



... ou que seria para fixar, depois da conferência de imprensa desta manhã, se vivêssemos num país normal.

Pedro Marques Lopes, no Facebook: 
«Um Ministro das Finanças consciente no fim desta conferência de imprensa dirigia-se a S. Bento e pediria a sua imediata demissão. Um Primeiro-Ministro normal metia-se no carro e dirigia-se a Belém para anunciar a sua própria demissão ao Presidente da República. Para quem não percebeu: está tudo muito pior, não há um número que tenha batido certo, não há um único sinal de esperança, não há nada de nada de bom.zbrZ Desemprego vai ter um pico de 19% ?????? ou seja, vamos para os 21 ou 22% facilmente.» 

Ver e ouvir Pedro Santos Guerreiro. « É uma geração inteira consumida em austeridade.»

Ler também: O falhanço de Gaspar

Sondagem: um gráfico, uma Nação



Conheceram-se hoje os resultados da sondagem da Universidade Católica para a RTP, Antena 1, Diário de Notícias e Jornal de Notícias, detalhadamente divulgados nestes dois jornais. (Aconselha-se a leitura dos textos e a a visualização dos gráficos.) 

Para além de muitas outras considerações possíveis, penso que a mais evidente, e mais preocupante, se deve focar no facto de a maioria dos inquiridos não ver, na oposição, uma alternativa credível ao actual governo. Só isto pode explicar que o PSD suba quatro pontos, aproximando-se do PS que se mantém, e que todos os outros partidos desçam. Quando 77% dos inquiridos se manifestam negativamente quanto à acção do Governo, e julgam que as medidas em curso não vão tornar o país nem mais competitivo nem mais desenvolvido (60%), mas pensam que nenhuma outra força se comportaria melhor ou da mesma maneira (61%), embora existam alternativas (50%), estamos perante um atestado de incompetência passado a tudo e a todos.

Claro que haverá quem venha dizer, uma vez mais, que as sondagens são mal feitas ou que os portugueses são ignorantes ou masoquistas. Não resolve. O que parece evidente é que algo de muito profundo terá de mudar, não só no rumo da governação como também na forma de as oposições criarem e comunicarem alternativas. Mas que fique claro que esta tarefa não passa – muito pelo contrário –, no meu entender, por iniciativas perigosamente protopopulistas sobre formas de representatividade.
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14.3.13

Grandes Árvores (2)



Royal Botanical Gardens, em Peradeniya, nos arredores de Kandy na Colômbia.


Mais algumas árvores, vistas por esse mundo fora. As três primeiras fotografias são de uma, verdadeiramente gigante, que ocupa cerca de 1600 m2.




Outra, do mesmo jardim:



Outra, algures, na cidade de Colombo:



Kandy e Colombo(2011)

 (Para ver a série, clicar na Label: ÁRVORES)
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O tal Prefácio do Presidentezinho



Ricardo Araújo Pereira, na Visão de hoje.

«"Que farei quando tudo arde?», perguntou Sá de Miranda no século XVT. "Nada", respondeu Cavaco em 2013. (...)
Cavaco diz-nos que o essencial da sua acção é invisível aos olhos. É o Principezinho aplicado à Presidência: o Presidentezinho. Também é pequenino, mas de outra maneira.»

Na íntegra AQUI.
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Alguma dúvida?




«Um dia antes de Passos ser PM , Cavaco foi ao dentista, onde por erro foi –lhe introduzido formol em vez de anestesia, o que fez com que Cavaco ficasse com o actual aspecto rígido, inexpressivo e mudo. Cavaco quer criticar ferozmente Passos, tal como fez a Sócrates mas o embalsamamento não lho permite. Os efeitos só acabarão em 2016, ano em que Cavaco Silva voltará a ser um político interventivo, um dia depois de deixar de ser Presidente da República. » 
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Papa, CEO



Uma leitura interessante de um texto publicado antes da eleição deste papa: Pope, CEO - Management tips for the Catholic church

«The Roman Catholic church is the world’s oldest multinational. It is also, by many measures, its most successful, with 1.2 billion customers, 1m employees, tens of millions of volunteers, a global distribution network, a universally recognised logo, unrivalled lobbying clout and, auguring well for the future, a successful emerging-markets operation.» 
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13.3.13

Francisco: primeiras impressões



«Jorge Mario Bergoglio é um teólogo conservador que se distanciou do movimento da Teologia da Libertação da América Latina.»
«Opõe-se ao aborto e à eutanásia, mantém a posição da igreja relativamente à homossexualidade e condenou fortemente a legislação para permitir o casamento gay na Argentina, introduzida em 2010.»

Mais concretamente:
«Em 2010, já como arcebispo de Buenos Aires, Bergoglio liderou uma campanha do clero argentino com o objetivo de impedir a aprovação, pelo Congresso, de projeto que daria direitos iguais a qualquer tipo de casamento, mesmo entre cônjuges do mesmo sexo. (...)
"Está em jogo a sobrevivência da família: papai, mamãe e filhos. Está em jogo a vida de muitas crianças que serão discriminadas de antemão, privando-as do amadurecimento humano que Deus quis que acontecesse com um pai e uma mãe. Está em jogo uma rejeição direta contra a lei de Deus. Não é apenas um projeto legislativo, mas um ‘movimento’ do Pai da Mentira, que visa confundir e enganar os filhos de Deus". (...).
“É Satanás quem está por trás desta lei, como também por trás do projeto que pretende descriminalizar o aborto”, disse o então cardeal. E repetiu que Deus “desencadeia guerras para que Suas leis sejam impostas”. O projeto acabou sendo aprovado pelo Sendao argentino em 14 de julho de 2010.

Melhor ainda:
«Novo papa já foi acusado de colaborar com a ditadura argentina.»


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Surpresa? Nenhuma. Como comentou Raimundo Narciso no Facebook, «Mas se foi escolhido por quem escolheu os anteriores, o Espírito Santo, não se podia esperar coisa diferente. E já se sabe o Espírito Santo, tal como o Cavaco, raramente se engana.»

Mais vale ir pela via do humor – mesmo que este seja negro. 
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E já que não há notícias da troika...



... mais vale sorrir.

E por falar em troika, nem se sabe o que pensar do que foi há pouco anunciado: em vez de ir na próxima sexta-feira à Assembleia da República, como finalmente tinha sido previsto, «Vítor Gaspar só apresenta resultados da sétima avaliação aos deputados em Abril» (no dia 5).

O governo já ultrapassou todas as marcas na falta de respeito pelos cidadãos que (infelizmente) o elegeram? Ou será que a AR fecha duas semanas para férias da Páscoa?
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Depois de dois fumos negros



... cardeais portugueses decidem acelerar o Conclave. 

A ver se é esta tarde, para mudarmos de telenovela!
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Da inutilidade



Baptista-Bastos, a propósito do Roteiro de Cavaco Silva. Hoje, no DN.

«Estranha conclusão. O homem é o que é: um medíocre brunido, formal e liso. Com penosa disposição li o texto, porque o alarido a tal me impelia. Os habituais tropeços nas preposições, o confuso desalinho com as adversativas, e a ausência total de qualquer ideia. O costume da banalidade, elevado à nobre condição de "tema." (...) As vinte páginas do extraordinário texto são o retrato (haja Freud e a nossa paciência!) da insólita personagem que nos coube na vida. Custa-me dizer isto: mas o dr. Cavaco, o que diz e o que não diz, e não faz, estão longe de poder ser levados a sério. (...)

A pátria está de pantanas, os jovens abandonam o país onde nasceram; os desempregados fazem multidão; os velhos morrem sós, de fome e de miséria; os suicídios aumentam; todos os ofícios e corporações são atravessados pelo despautério de uma política assassina; e a figura que está em Belém demonstra-se incapaz de admitir qualquer conteúdo dos assuntos correntes.

Disse, após mais de um mês de reclusão, que vai ensinar os portugueses a conviver com a crise, e que tem mais experiência política do que a maioria dos seus antecedentes. Perante isto, creio que temos de redefinir a natureza das nossas decepções e os modos de tornar eficazes o que nos indigna
(O realce é meu.)
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12.3.13

Um país manifestante



Soube-se ontem, via PSP, que se realizaram 579 manifestações, em Lisboa, durante o ano de 2012 (1,5 por dia...). Não sei se algumas delas tiveram mais de meia dúzia de pessoas, nem quantas tiveram lugar no resto do país, mas foi certamente muita gente a caminhar por essas ruas fora!

Mas não só de actividades «pedestres» vive o protesto e, se juntarmos manifestos a manifestações (e quem diz manifestos diz também petições), temos uma enorme maré humana que tem vindo a mostrar o seu descontentamento e que pede, ou exige, um sem número de coisas.

Nada contra, antes pelo contrário, e não consigo evitar a sensação de que tudo o que foi feito, ou quase tudo, esbarrou em muros que não devolveram qualquer tipo de eco. «Muros» que são, sobretudo, o presidente da República e o governo, mas também a Assembleia da República – principais ou únicos destinatários de 99% dos protestos e dos pedidos.

Não é por isso de estranhar que tenha surgido hoje outro Manifesto – mais um -, que pretende nada menos do que «democratizar o regime», com uma solução que «passa obrigatoriamente pelo fim da concentração de todo o poder político nos partidos e na reconstrução de um regime verdadeiramente democrático».

Vale a pena olhar para a lista de subscritores e esperemos para ver se as intenções saem do papel e dos ecrãs.
Mas, pelo menos a uma primeira leitura (outras virão), tudo isto parece no mínimo perigoso, já que, se as intenções podem ser excelentes, talvez seja bom não esquecer que há certamente por aí um qualquer Beppe Grillo português, ainda não identificado mas pronto a saltar assim que possível para a boca de cena. E que iniciativas deste tipo podem ser o tapete vermelho que falta estender. 
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É hoje!


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Grandolar o futuro


O Editorial de Le Monde Diplomatique, Março de 2013, por Sandra Monteiro

Estamos a viver uma catástrofe social. A ideologia neoliberal programou-a há mais de duas décadas, quando começou a impor, a larga escala, a financeirização da economia, a liberalização das trocas e a centralização das políticas monetárias. O controlo das escolhas orçamentais dos Estados a que se assiste agora, a pretexto da crise, nos países cujos padrões de especialização produtiva os levaram a endividar-se mais com o exterior – dívida privada e pública – é, no essencial, a tradução de uma tragédia que vem de longe. Uma tragédia que nenhuma regulação do sistema financeiro global quis evitar, que nenhuma estratégia europeia de solidariedade e coesão alguma vez quis impedir. E que foi reforçada por escolhas de governos que não compreenderam bem a dimensão da destruição engendrada, ou que, compreendendo-a, a saudaram.

A maioria dos portugueses e demais europeus não viu esta catástrofe chegar. Os sucessivos governos nacionais e da União Europeia, associados a uma frente constituída por elites financeiras, académicas e mediáticas, muito activa e com poderosas redes no mundo dos negócios privados, foram escondendo a debilitação da estrutura produtiva e o desvio dos instrumentos de política económico-financeira para finalidades contrárias ao bem comum. O espaço do debate público foi ocupado pela retórica da modernidade, da flexibilidade e da competitividade europeias, na verdade mais sinónima de desregulamentações, privatizações e explorações do que de coesão social ou territorial, integração económica e aprofundamento do «modelo social europeu».

A catástrofe social, quando nos atingiu em força, já tinha raízes profundas. Ela não é neste momento comparável, em grau e extensão do sofrimento, à tragédia que nos é mostrada pelas imagens da fome, uma fome silenciosa e esquelética, que associamos ao sul dessa espécie de território que tem sido o Estado social e democrático. Mas já tem todo o peso, e o silêncio, dos cortes que deixaram de ser feitos na margem e ameaçam a sobrevivência. Não apenas a sobrevivência material, com a perda de salário, emprego, prestações sociais, tecto ou comida. Os cortes ameaçam também a sobrevivência emocional, com a perda de familiares e amigos para a depressão, o suicídio, o isolamento ou esse exílio forçado a que chamamos emigração.

Continuar a ler aqui.
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E terá ido?


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11.3.13

Portugal também já foi isto (11/3/1975)



Numa terça-feira de Março de 75, pelas 11:45, o RAL 1 (mais tarde conhecido por RALIS), foi bombardeado por aviões da Base Aérea nº 3 e cercado por paraquedistas de Tancos, no acto que concretizou uma tentativa de golpe de Estado, liderada por António de Spínola. O que se seguiu é conhecido e pode ser recordado.

Nesse dia teve início o PREC que viria a durar oito meses e meio – até ao 25 de Novembro.
Muitos (cada vez em maior número, provavelmente, à medida que os anos vão passando) gostariam de apagar da nossa história este período, preferiam que ela tivesse saltado directamente do 25 de Abril de 74 para o 25 de Novembro de 75. Azar: não conseguirão fazê-lo.

Quem já era adulto lembra-se certamente dos ambientes absolutamente alucinantes em que tudo o que se seguiu, sobretudo a partir de 14 de Março quando foi criado o Conselho da Revolução e se deu a nacionalização da Banca e da maior parte das companhias de Seguros.

Não se julgue que foi só a chamada extrema esquerda a aplaudir essas medidas e nem a direita as contrariou.
O PPD apoiou-as, embora prevenindo que «substituir um capitalismo liberal por um capitalismo de Estado não resolve as contradições com que se debate hoje a sociedade portuguesa».
Mário Soares mostrou-se eufórico, considerando tratar-se de «um dia histórico, em que o capitalismo se afundou». Disse num comício que «a nacionalização da banca, que por sua vez detém (…) a maior parte das acções das empresas portuguesas e, ao mesmo tempo, a fuga e prisão dos chefes das nove grandes famílias que dominavam Portugal, indicam de uma maneira muito clara que se está a caminho de se criar uma sociedade nova em Portugal» (*)

As imagens ajudam a reavivar a memória:


Continuação aqui e aqui.

E julgo que esses patetas, que hoje gabam a Grândola ou tentam em vão cantarolá-la, nem sequer conhecem esta, também do Zeca, que celebra a data de hoje:



(*) Fonte: Adelino Gomes e José Pedro Castanheira, Os dias loucos do PREC, p. 28.
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Chávez: o legado e os desafios



Ainda não escrevi uma única linha sobre Chávez desde o anúncio da sua morte. Mas este texto de Boaventura Sousa Santos, editado hoje pelo Público (sem link) corresponde, quase na totalidade, àquilo que penso. Por isso aqui o deixo. (Os realces são meus).

Morreu o líder político democrático mais carismático das últimas décadas. Quando acontece em democracia, o carisma cria uma relação política entre governantes e governados particularmente mobilizadora, porque junta à legitimidade democrática uma identidade de pertença e uma partilha de objetivos que está muito para além da representação política. As classes populares, habituadas a serem golpeadas por um poder distante e opressor vivem momentos em que a distância entre representantes e representados quase se desvanece. Os opositores falarão de populismo e de autoritarismo, mas raramente convencem os eleitores. É que, em democracia, o carisma permite níveis de educação cívica democrática dificilmente atingíveis noutras condições. A difícil química entre carisma e democracia aprofunda ambos, sobretudo quando se traduz em medidas de redistribuição social da riqueza. O problema do carisma é que termina com o líder. Para continuar sem ele, a democracia precisa de ser reforçada por dois ingredientes cuja química é igualmente difícil, sobretudo num imediato período pós-carismático: a institucionalidade e a participação popular.

Ao gritar nas ruas de Caracas “Todos somos Chávez!”, o povo está consciente de que Chávez houve um só e que a revolução bolivariana vai ter inimigos internos e externos suficientemente fortes para pôr em causa a intensa vivência democrática que ele lhes proporcionou durante anos. Chávez aproveitou o boom dos recursos naturais (sobretudo petróleo) para realizar um programa sem precedentes de políticas sociais, sobretudo nas áreas da educação, saúde, habitação e infraestruturas que melhoraram substancialmente a vida da esmagadora maioria da população. Foi o artífice incansável da integração do subcontinente latino-americano. A sua solidariedade com Cuba é bem conhecida, mas foi igualmente decisiva com a Argentina, durante a crise da dívida soberana em 2001-2002, e com os pequenos países das Caraíbas. Nos períodos mais decisivos da sua governação (incluindo a sua resistência ao golpe de Estado de que foi vítima em 2002), Chávez confrontou-se com o mais agressivo unilateralismo dos EUA (George W. Bush), que teve o seu ponto mais destrutivo na invasão do Iraque. Chávez estava convencido que a América Latina seria o próximo alvo e única maneira de travar os EUA consistia alimentar o multilateralismo. Daí, a sua aproximação à Rússia, China e Irão. Sabia que os EUA (com o apoio da União Europeia) continuariam a “libertar” todos os países que pudessem contestar Israel ou ser uma ameaça para o acesso ao petróleo. Daí, a “libertação” da Líbia, seguida da Síria e, em futuro próximo, do Irão. 

Austeridade ou fim do euro?



A propósito de um livro recente de Juan Francisco Martín Seco, o Público.es publica hoje uma entrevista com o autor. Muito pessimista sobre a situação actual da Europa, JFMS pergunta-se se «vale a pena continuar na via da austeridade ou se devemos procurar romper com a moeda única»

Não é o primeiro, nem será certamente o último, a formular uma alternativa que começa a ser recorrente. Vale a pena ler o texto:

Alguns excertos:

 «Creo que no se debería haber hecho la unión monetaria porque es una ratonera de la que es muy difícil salir. Aquí hay dos opciones: tirar hacia adelante o volver hacia atrás. (...)
La salida hacia atrás sería volver a las antiguas monedas, romper la unión monetaria. Que eso tiene costes graves nadie lo duda, pero es posible que los costes de seguir en el euro sean incluso mayores. (...) En esa tesitura, los escenarios son múltiples: no es lo mismo que salga un solo país o que se rompa el euro y salgan todos, lo que sería mucho menos costoso. (...)
Los que dicen que el euro no se puede romper, que va a permanecer, argumentan que el coste sería altísimo, lo explican diciendo que si se rompiera el euro, las monedas de los países del sur se devaluarían muchísimo y las monedas del norte se revaluarían muchísimo. Pero al decir eso están aceptando que los tipos de cambio que tenemos ahora no son reales. (...)

Yo no sé por dónde va a explotar esto, si va a explotar por Grecia y luego habrá una reacción en cadena, pero yo creo que va a explotar. (...)

Esa es la cuestión: ¿merece la pena seguir por la vía de la austeridad o debemos intentar que se rompa el euro? Porque quizá sea mejor, con todo el coste que debemos asumir, intentar que se rompa el euro. Eso no significa que España se tenga que salir mañana mismo del euro; significa que todo el mundo acepte que la unión monetaria ha sido un gran fracaso y que no se debería haber hecho. Implica un cambio de mentalidad, el de decir 'vamos a minimizar costes y vamos a ver cómo se puede hacer un desmontaje de la unión monetaria igual que se hizo el montaje' y en eso deben confluir España, Portugal, Grecia, Italia e incluso Francia.» 

Na íntegra aqui.
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Só contaram para você



«A suposta "crise terrível" nunca passou de uma invenção de comentadores exaltados. Por acaso a Igreja passa por uma fase particularmente feliz da sua longa história.»

João César das Neves

Greve no Tribunal Constitucional?



Alguém sabe se aquele Tribunal entregou algum pré-aviso de greve? Pelo tempo que está a levar para decidir sobre o OE2013...

Ainda o mundo vai ter um novo papa antes de nós conhecermos a decisão dos meritíssimos juízes! 
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10.3.13

Boris, Boris Vian



Boris Vian faria hoje 93 anos. Escritor, engenheiro mecânico, inventor, poeta, cantor e trompetista, também anarquista, teve uma vida acidentada e ficou sobretudo conhecido pelos livros de poemas e alguns dos seus onze romances, como L’écume des jours e L’automne à Pékin.

Especialmente célebre ficou também uma canção – Le déserteur – , que foi durante muitos anos uma espécie de hino para todos os que recusavam participar em guerras, incluindo muitos portugueses. Lançada durante a guerra da Indochina, foi grande o seu impacto e acabou mesmo por ser proibida por antipatriotismo, na rádio francesa, pouco depois do início do conflito na Argélia.
Nunca esquecerei quando Le déserteur cumpriu a função da mais improvável das marchas nupciais, no casamento de um amigo, em Bruxelas, no fim dos anos 60.


(Serge Reggiani : Dormeur du Val , de Arthur Rimbaud, e Le déserteur de Boris Vian.)
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Manuel Vicente: foi-se um amigo



Todos falam do arquitecto que ontem morreu, da marca que deixou em gerações, da sua truculência lendária, da obra em Macau, da Casa dos Bicos e de tudo o resto. Eu recordo o amigo de décadas.
Nem sei há quantos anos encontrei pela primeira vez o Manuel Vicente, mas aconteceu certamente na década de 60. Lisboa era então uma aldeia ainda mais pequena do que hoje é e navegávamos ambos numa vasta onda de amigos e conhecidos que se cruzavam em iniciativas várias, de lazer e não só.

Hoje podia recordar datas, locais, companhias, um fim-de-semana alongado, um pouco delirante, passado em grupo em Madrid, almoçaradas e ceias tardias. Mas fixo o olhar num quadro que tenho à minha frente: um autoretrato de Malangatana, pintado numa folha do Record, que guardarei como uma relíquia até ao fim dos meus dias e que foi feito no atelier do Manel. Foi lá que conheci o pintor que sempre me tratou por «patrícia» (nascemos na mesma terra) e que, no ano de 72, assentou arraiais em Lisboa e trabalhou entre estiradores e esquadros do seu amigo arquitecto. Era um espaço de encontro e de convívio – inesquecível.

Depois, a vida separou-nos, por tarefas e continentes, e só voltou a reunir-nos, há cerca de quatro anos, quando o Manel me «apareceu» no Facebook como uma prenda caída do céu. A partir daí, à noite, tardíssimo, escrevia ou comentava o que ia lendo, sem papas na língua nem condescendências. 
Comecei recentemente a estranhar a sua ausência, já que o último rasto que me tinha deixado era um desejo de Boas Festas, no último dia de 2012. Até que, ontem, caiu a notícia com toda a brutalidade.

Quando o Malangatana se foi embora, há pouco mais de dois anos, o Manel escreveu-me isto: «Speechless! Um pouco de nós morre sempre com cada grande amigo. Vê lá se te vais aguentando.» Foi ele que não aguentou. 
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No próximo Sábado



A terceira TERTÚLIA NO CAFÉ VÁ-VÁ (Lisboa) terá lugar a 16 de Março.

Desta vez, pretende-se abrir espaço a narrativas pessoais, a partir de «OBJECTOS COM HISTÓRIA» – objectos que evocam lembranças, memórias afectivas, com valor pessoal e simbólico para quem viveu o período do fascismo.
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Da série: «Grandes Títulos»



(Primeira página do Expresso de ontem)

Abençoado jornalismo de referência! Quem terá escolhido, ou deixado passar, um título destes?!

Para que se perceba: o título encabeça uma notícia com este primeiro parágrafo: «A poucos dias de ser conhecido o resultado da sétima avaliação da troika ao cumprimento do memorando em Portugal, o presidente da Comissão Europeia vem a público dar um sinal claro de apoio aos esforços do Governo e confirma que Portugal vai mesmo ter mais tempo para cumprir a meta orçamental- que só terá de baixar de 3 por cento em 2015.»
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