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23.3.13

A testemunha



A ler, com muita atenção, este texto de Maria José Morgado, publicado no Expresso de hoje (sem link). Mal, muito mal, vai um país cujos cidadãos perderam a confiança nos magistrados e nos tribunais.

«A procuradora sentiu o peso esmagador da inoperância da justiça para o combate a este tipo de corrupção perante a falta de confiança nos magistrados e nos tribunais.» A procuradora esperava pela testemunha mergulhada na serenidade mental dos momentos incandescentes. Sabia que tanto podia ter a prova completa de um crime de corrupção em marcha como o fracasso total das provas.

A testemunha, coautora de um crime de corrupção, havia-lhe pedido uma reunião para a denúncia do caso. Só assim seria possível conhecer as profundezas da história, fazer prova em tribunal e ter uma condenação justa.

Quando ela entrou lembra-se de ter reparado também na sua calma alinhada, no olhar aparentemente decidido.

A história rocambolesca podia ter um desfecho simples com a colaboração ativa da testemunha. Um interminável martírio de burocracias absurdas para obter um mero licenciamento dependente de muitas decisões, muitos estudos e agora em fase final. O decisor final propunha à testemunha o pagamento de uma comissão de 150.000 euros a troco do licenciamento dali a três dias. A testemunha oscilava entre a tentação egoísta de pagar para pôr fim a cinco anos de via-sacra de repartições públicas ou fazer a entrega à polícia da vil criatura, com custos porventura superiores ao do suborno pedido.

A procuradora explicou-lhe com clareza as vantagens do estatuto legal de proteção de testemunhas colaboradoras com a justiça, que beneficiaria de causas de exclusão da ilicitude desde que entregasse voluntariamente provas importantes. Era importante manter o encontro para o pagamento do suborno combinado entre ambos e nesse dia as autoridades prenderiam a pessoa em causa a coberto da sua revelação. Também lhe explicou que seria o único desfecho justo para um caso tão repugnante cuja punição dependia exclusivamente da sua colaboração espontânea e legal. A testemunha pediu um dia para pensar e voltou no dia seguinte. Chorava de revolta. Declarou que só confiava na pessoa à sua frente, que tinha medo de ser colaboradora num processo sujeito a tramitações infindáveis, a perseguições da comunicação social, a uma duração indefinida para no fim arriscar ser condenada por causa de uma colaboração que se viraria contra ela diante do tribunal inseguro perante as peripécias da prova e a ausência de confissão do decisor público corrupto. Pediu-lhe para esquecer para sempre tudo o que lhe tinha dito, inclusive o seu nome. Despediram-se com tristeza inexplicável.

A procuradora sentiu mais uma vez o peso esmagador da inoperância da justiça para o combate a este tipo de corrupção perante a falta de confiança das pessoas nos magistrados e nos tribunais. Perante uma certa tendência para tratar os arrependidos como traidores e bufos desprezíveis. Lembrou-se dos ensinamentos do juiz Falcone durante a investigação da máfia siciliana ao beneficiar da portentosa colaboração dos arrependidos que lhe entregaram toda a organização mafiosa. Conta-se que o fizeram por confiarem cegamente naquele homem.

Sentiu com amargura que havia um oceano intransponível de dificuldades entre aqueles que querem fazer justiça e a própria justiça — a falta de confiança na justiça.»
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Ainda há quem diga que o Bloco não é pioneiro?


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Óscar Lopes



Sobre o co-autor da História da Literatura Portuguesa, que tantas gerações nunca se cansaram de ler e de consultar, já quase tudo foi escrito, desde que a sua morte foi ontem anunciada. Do resistente ao fascismo e da sua militância no Partido Comunista, também.

Vale a pena ler uma entrevista que deu ao Público em Agosto de 1999, ele que nasceu no ano em que aconteceu a revolução bolchevista e em que muitos acreditam que uma Senhora apareceu em Fátima. Menino de coro na infância, activista com Vitorino Magalhães Godinho e outros socialistas, entrou para o Partido Comunista em 1944 e nele permanceu até à morte.

«Eu sei que não sou Napoleão, nem talvez doido, nem crítico, nem ensaísta, nem mesmo essencialmente professor, linguista ou político, assim como nunca me revejo, num estilo ou numa visão pessoal do mundo, a não ser pelas limitações ou pontos mortos a que se sujeita tudo aquilo que temos o ensejo e a gana de fazer algum dia. Não confio em qualquer título de auto-reconhecimento, porque tanto as nossas imagens a um espelho polido como as nossas imagens que os olhos alheios nos devolvem estão, não apenas erradas na sua simetria axial, mas medusadas pelo reflexo inverso do nosso próprio olhar que fita, e fixa, essas imagens.

Nunca me senti a fazer crítica: apenas se trata de obedecer a uns impulsos, sempre complicados e em conflito, no sentido de continuar, de algum modo, os movimentos também conflituais de que um texto é feito, ou de que mais evidentemente participa. Não faço linguística: trata-se apenas de, com a mais rigorosa metodologia disponível, reflectir sobre certos gestos do nosso espontâneo modo de falar, gestos que têm que ver com relações especiais de tempo, de atitude e de referência da comunicação social possível. Também não sou político por vocação: apenas nasci num povo em que a luta de classes só não será evidente para uma certa cegueira de espírito, e comungo de uma nação periodicamente renegada por classes dirigentes, que há precisamente seis séculos ardiam em fidelidade dinástica castelhana, há quatro séculos se queriam integrar no grande império pluricontinental dos Habsburgos, e que hoje se pretendem entusiasmados por uma Europa problemática, uma Europa muito diferente daquela que, no Canto III d'Os Lusíadas, avança, em 15 estrofes, desde os Urales até «onde a terra acaba e o mar começa», ao passo que a nova Europa, a que afinal ainda não pertencíamos detém-se no Oder e ainda parece ter a capital militar no Pentágono.»

[Excerto da alocução na entrega do Prémio Jacinto do Prado Coelho (1984), atribuída pela Associação de Críticos Literários em Maio de 1985, transcrita e actualizada in Cifras do Tempo, editorial Caminho, 1990]

(Texto via Rui Almeida no Facebook) 
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22.3.13

Impressionante




On May 28, 2008, Adam Le Winter and Director Jeff Orlowski filmed a historic breakup at the Ilulissat Glacier in Western Greenland. The calving event lasted for 75 minutes and the glacier retreated a full mile across a calving face three miles wide. The height of the ice is about 3,000 feet, 300-400 feet above water and the rest below water.

Chasing Ice won the award for Excellence in Cinematography at the 2012 Sundance Film Festival and the Best Documentary from the International Press Association. It has won over 30 awards at festivals worldwide. Still playing in theaters nationwide. 
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O bloco central apresenta o seu programa de governo




Roubado ao Porfírio Silva (título do post incluído).
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A ordem dos factores nem sempre é arbitrária

O que pertence ao povo



«O que está em causa em Portugal não é censurar um governo que nunca existiu. A urgência em Portugal não é a de baralhar as cartas gastas, para dar de novo. O inadiável em Portugal é permitir que o povo possa transformar a sua revolta em semente política de futuro. Os portugueses têm de ir às urnas para, serenamente, dizerem se querem, ou não, seguir pela estrada de destruição a que conduz a continuação do Ultimato da Troika. (...)

Uma votação maciça contra a agonia inútil do programa da Troika será a base de um novo contrato social. Será a nova fonte de legitimidade. O governo que vier ficará vinculado por um mandato claro: só será válido um rumo europeu que proteja e alargue as liberdades constitucionais, que garanta e aprofunde os direitos económicos e sociais, incluindo o direito ao trabalho. Ao votarmos esmagadora e pacificamente contra o Ultimato daremos também um sinal de esperança concreta para os outros povos europeus, incluindo o povo alemão. A democracia foi inventada na Europa clássica. A dignidade da pessoa, na Europa cristã. A ideia de que a liberdade é mais forte do que a opressão está no ADN da Europa moderna.»

Viriato Soromenho-Marques

Sempre atenta!


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21.3.13

Carta aos desempregados



Ricardo Araújo Pereira, na Visão, mais sério e acutilante do que nunca.

«Antigamente estávamos todos a viver acima das nossas possibilidades. Agora estamos só a viver, o que aparentemente continua a estar acima das nossas possibilidades. Começamos a perceber que as nossas necessidades estão acima das nossas possibilidades. A tua necessidade de arranjar um emprego está muito acima das tuas possibilidades. É possível que a tua necessidade de comer também esteja. (...) Viver é um mal caríssimo.»

Na íntegra AQUI.
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«Guia de entrega»» de Américo Tomás e Marcelo Caetano



Numa tertúlia organizada pelo movimento «Não apaguem a memória!», no passado Sábado, no café Vavá, em Lisboa, muitas pessoas levaram objectos relacionados com a memória dos tempos da ditadura e falaram sobre os mesmos.

Uma dessas pessoas foi Martins Guerreiro, militar de Abril, que mostrou e leu um documento que depois lhe pedi pelo seu interesse histórico!

Como é sabido, no dia 26 de Abril de 1974, Américo Tomás, Marcelo Caetano, Silva Cunha e Moreira Baptista seguiram de avião, de Lisboa para o Funchal. Esta é a «DECLARAÇÃO DE ENTREGA DOS EX-MEMBROS DO GOVERNO». assinada pelo Governador Militar. (Clicar na imagem para ler.)

A «mercadoria» ficou depositada e seguiu mais tarde para outros destinos.
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Obviamente, pois claro



Fonte Luminosa, Lisboa, 21/3/2013
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Hoje ainda não é 1 de Abril



A ser verdade, é oficial: não estou psicologicamente preparada para rever e voltar a ouvir Sócrates. 

No estado em que tudo isto está, não vislumbro neste regresso prematuro qualquer benefício para a castigada pátria bem-amada. Está tudo suficientemente confuso para que não seja útil introduzir mais um pau em várias engrenagens.

Shame on you, RTP.
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20.3.13

Francisco, papa dos pobres?



Ao ler que, em Chipre, a Igreja Ortodoxa põe o seu espólio à disposição do governo para salvar a economia, é-me impossível não «regressar» ao Vaticano e não rebobinar as centenas de horas televisivas que nos entraram pela casa dentro, nem deixar de pensar nas dezenas ou centenas de páginas de jornais que pagámos, para seguirmos, até à exaustão, tudo o que se relacionou com a eleição do novo papa.

Não que o personagem não seja simpático, bem pelo contrário, mas pela demasiada importância que está a ser dada a símbolos secundários que não são mais do que isso mesmo – símbolos – , como sapatos castanhos e não vermelhos, cruz de ferro, mitra já usada, etc., etc., etc. E, também, a todas as ilacções feitas a partir da sua proverbial modéstia, das viagens em transportes públicos ou da comida que fazia sozinho, algures em Buenos Aires.

Bem mais importante será talvez retermos algo do que já foi dizendo e que pode resumir-se numa das suas primeiras exclamações como papa: «Como quereria uma Igreja pobre, ao serviço dos pobres!» O que pode vir isto a significar concretamente, como pode esta frase ser mais do que uma afirmação virtuosa e apenas reveladora de um estilo próprio de retórica?

Dê-se tempo ao tempo e não se espere, obviamente, que o Vaticano e todos os seus quase incomensuráveis bens sejam vendidos, em hasta pública, ou hipotecados para diminuir a fome no mundo, durante as próximas semanas. Mas ouvir uma frase destas, no estado em que o mundo está, dita em Roma, que é bem mais coração da Europa e da sua história do que Bruxelas, não deveria poder deixar de ter consequências palpáveis. Porque fausto e fortuna não rimam, nem nunca rimarão, com pobres e com pobreza. Será por aqui que algo de novo acontecerá, que poderá vir a tal «revolução» do papa Francisco?

Sem cinismo, nem sarcasmo, e embora que com pouca esperança, estou genuinamente expectante. Até porque só assim posso tentar compreender o entusiasmo que por aí vai com este novo papa, mesmo entre empedernidos ateus e agnósticos.
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Ela aí está



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RTP: Comunicado de Nuno Santos, hoje despedido



Comunicado publicado esta manhã no Facebook.

Fui despedido da RTP. A decisão acaba de me ser comunicada pelo Conselho de Administração da Empresa à qual dei o melhor de mim próprio durante quinze anos.

Travarei a partir de hoje uma luta sem quartel, nos tribunais e em outros foruns, contra este saneamento anunciado e agora oficializado. A honra dos homens não se atira impunemente aos cães.

Recebi, pois, a decisão do Dr.Alberto da Ponte sem surpresa. Era para mim claro que tal iria suceder desde que fui ilegalmente suspenso no passado dia 7 de Dezembro, acusado de delito de opinião, após a minha audição perante os deputados da Comissão de Ética na Assembleia da República.

De facto, o presidente do CA da RTP, na sequência do apelidado "inquérito" interno instaurado a pretexto da manifestação de 14 de Novembro, afirmou publicamente, à saída da ERC e na Assembleia da Republica, que não seria accionado qualquer procedimento de natureza disciplinar contra nenhum trabalhador da RTP.

Foi só num momento posterior ao depoimento que prestei no Parlamento que tal acção foi desencadeada, exclusivamente por alegado delito de opinião, algo que está banido da ordem jurídica portuguesa desde a entrada em vigor da Constituição da República em 1976.

Por consequência, trata-se, como referi na altura, de uma decisão meramente política, concertada minuciosamente pelo descredibilizado CA da RTP com outras entidades, como se provará em sede própria.

Nas ultimas semanas, pessoas responsáveis e credíveis, dentro e fora da RTP, tentaram chamar o Dr. Alberto da Ponte à razão e ao mais elementar bom senso.

Os jornalistas da RTP, através do Conselho de Redacção, exprimiram uma posição clara contra o meu silenciamento; A Comissão de Trabalhadores apontou de forma incisiva a inconsistência do chamado "processo", desde a fase dita de "inquérito" até ao processo disciplinar com vista ao despedimento,; A ERC, numa deliberação tomada por unanimidade, contrariou o chamado "inquérito" interno exortando a empresa a definir regras em vez de se concentrar obsessiva e caprichosamente no mero ataque ad hominem.

Individualmente, de forma pública ou privada, muitas personalidades da vida portuguesa procuraram também evitar o assassinato de carácter pessoal e profissional de que fui alvo.

Todavia, na vaidade do seu isolamento, a equipa do Dr. Alberto da Ponte executou até ao fim o plano previamente traçado, fazendo-o, aliás, em simultâneo com outras acções lesivas dos interesses da RTP e dos seus Trabalhadores para as quais chamei a atenção no Parlamento e que estão hoje, infelizmente, à vista de todos.

Não confundo a RTP com uma gestão temporária e esquecível. Uma empresa com cinquenta e seis anos de história tem, por isso mesmo, condições para sobreviver ao plano de desmantelamento material e moral em curso. É a fase mais difícil que jamais vivemos mas conheço bem a força e a fibra dos profissionais da RTP.

Dei o melhor de mim mesmo, durante quinze anos, no período entre 1985 e 2012, à Rádio e Televisão de Portugal.

Exerci com idêntico entusiasmo e sentido responsabilidade tarefas de assistente de realização, atendendo telefonemas e transportando discos, como os mais altos cargos nas Direcções de Informação e Programas. Fi-lo com resultados e de forma consistente. Nem todos poderão dizer o mesmo. 
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Quem quer acabar com a Europa?



«Mais um país que vê que a Europa lhe virou as costas e que sente que o empréstimo que vai receber não é de um parceiro na União mas sim de um agiota. E o sentimento anti-euro cresce. Cresce no Chipre, tal como cresce na Grécia, onde o país continua a sofrer os efeitos de uma austeridade prolongada, como cresce em Itália, onde os eleitores preferem votar em Berlusconi do que aceitar os candidatos pró-euro. Como provavelmente crescerá em Portugal, onde depois da conferência de imprensa do que resta do ministro das Finanças os cidadãos estarão cada vez mais descrentes em relação à bondade das receitas definidas pela Europa.

Impávidos e serenos perante os resultados desastrosos desta conjugação de austeridade em cima de austeridade, os políticos do Norte da Europa continuam a revelar a sua pequenez, preocupados apenas com as justificações que têm de dar ao eleitorado em relação ao apoio financeiro a outros países.

E assim, de ‘bailout' falhado em ‘bailout' falhado, vão dando o sinal de que acham que o projecto europeu terá ido longe de mais, e que o grande objectivo é manter apenas uma zona comercial.
Jean Monnet, um dos arquitectos da agora União Europeia, dizia que não havia outro futuro para os europeus que não fosse o da união. Os actuais líderes estão dispostos a provar que estava errado.»

Rúben Bicho

19.3.13

Grandes árvores (3)




As duas primeiras fotografias são de The great banyan tree, Jardim Botânico Acharya Jagadish Chandra Bose Indian, em Howrah, nos arredores de Calcutá.

Mais árvores do mesmo jardim:





(Calcutá, 2010)

(Para ver a série, clicar na Label: ÁRVORES)
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Chipre: como se chegou até aqui



Um texto de hoje num blogue do Público.esLa tramoya: Qué pasa en Chipre y por qué – explica, sinteticamente e com clareza, como se chegou à actual situação explosiva.

Una brevísima historia 

Chipre mantuvo desde los años noventa una economía modesta y relativamente saneada gracias a su oferta de turismo tradicional. Sin embargo, entre 2001 y 2008 su PIB creció un 3,7% de media, bastante más que el de la mayoría de los países de la Unión, mientras que su deuda pública se mantuvo baja, sin ni siquiera llegar, cuando estalló la crisis, al 60% exigido por la UE.

Pero a partir de 2010-2011 las cosas se pusieron mal para la banca chipriota, las agencias de calificación rebajaron la nota a Chipre y el 26 de junio de 2012 el gobierno solicitó formalmente una ayuda a la Unión Europea. Lo que había pasado en esos años de crecimiento y las razones de la caída son muy parecidas a lo ocurrido en otros lugares de Europa.

Chipre entró a formar parte del euro en 2007 pero había vinculado su moneda con la europea desde antes. Eso le permitió tener tipos de interés reales muy bajos y como al mismo tiempo ofrecía impuestos muy ventajosos (en realidad, actuaba como un auténtico paraíso fiscal) registró grandes entradas de capital que le permitían crecer mucho. Muchas de ellas (algunas estimaciones dicen que entre el 30 y el 40% del total de los depósitos) procedentes de los oligarcas rusos que blanqueaban allí su dinero, y también del Reino Unido e incluso (cuando estalló la crisis) de Grecia.

Los bancos canalizaron la entrada de esa gran cantidad de liquidez y la dedicaron en su mayor parte a financiar una burbuja inmobiliaria muy parecida a la de España. Y a partir de 2008-2009 a comprar grandes volúmenes de deuda griega que era muy rentable por la presión que los mercados ejercían sobre el país heleno (los bancos chipriotas dedicaron a ello el equivalente al 25% del PIB de Chipre).

Los economistas neoliberales, y entre ellos las autoridades europeas, habían estado considerando en los años de bonanza que un sector bancario super desarrollado y los impuestos muy bajos eran una gran virtud de la economía de Chipre (lo mismo que decían de Irlanda). La realidad se encargó de poner su sabiduría en su sitio: cuando en 2011 se realizó una quita de la deuda griega (como será inevitable que vaya ocurriendo en otros países), los bancos chipriotas quebraron. Y los bajos impuestos solo se tradujeron en un mayor incremento de deuda y en casi una nula capacidad de maniobra cuando la dinámica se torció y los gastos públicos tuvieron que elevarse (entre otras cosas, porque el desempleo se disparó). Y en medio de todo eso, no se puede olvidar que también hubo (como en otros países europeos y también aquí en España) un banco central dirigido por cómplices de los banqueros que no dijeron nada cuando se estaba larvando el desastre.

E assim se chegou à intervenção da troika. 
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Resgate que mata



«Aprendemos que, perante a grosseria de Schäuble (o ministro alemão das Finanças, que agora se diz inocente...) no Eurogrupo, toda a gente se calou, e que o pormenor deste roubo aos aforristas no Chipre foi detalhado com a cumplicidade de P. Moscovici, o seu homólogo francês. Aprendemos que Berlim está definitivamente possuída pela desmesura que conduz ao abismo. Aprendemos que nos outros 16 países da Eurozona parece não existir um único governante com coragem para dizer "basta!". A juntar ao défice de liderança política e à estupidez económica, somam-se a apatia moral e níveis patologicamente baixos de testosterona.»

Viriato Soromenho-Marques

(Não esquecer que o nosso inefável Vítor Gaspar também esteve na reunião do Eurogrupo.)
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Au revoir, adios, bye bye, adeus!



Um texto de Helena Pato, escrito para este blogue. 

Talvez a minha atenção se tenha centrado demasiado no Ministro das Finanças, devido ao facto de a sua incompetência ficar escancarada nas conferências de imprensa. A todo o passo, anuncia, com um mesmo desplante vil e monocórdico, que afinal não foi como previra e que vai ter de tomar novas medidas, que lhes permitam atingir as novas metas. Metas que, daqui por uns meses – todos o sabemos de antemão – nos anunciará que afinal não foram cumpridas e au revoir… É uma desfaçatez arrogante, esta do «quero, posso e mando», já fora dos contornos do regime democrático, própria de um Estado Autoritário, onde o poder político é exercido sem passar cartão aos cidadãos. «Come e cala», que nós vamos-te informando, com antecedência, que terás menos pão, daqui em diante. A figurinha vai às televisões e, numa contenção de quem acusa contrariedade, fala com os jornalistas, sabendo que é o preço que tem de pagar para continuar a ser ministro – uma contrariedade que se obriga a vencer já que, tecnocrata sediado em Bruxelas sem experiência política, se sentiu, subitamente, a incorporar a alma financeira de Salazar. O feitiço terá ultrapassado as suas próprias expectativas e fê-lo reincarnar com o poder de converter à pobreza um povo e de reduzir a pó os principais pilares da nossa economia. Mexe e remexe o caldeirão da austeridade, enquanto a sua autoridade deve iluminar os restantes ministros, que não sabem de finanças, nem consta que tenham biblioteca...

Que fazer? Exigir a demissão de Vítor Gaspar? Ah não! Não basta.

No Governo, outros ministros – que não sabem de finanças nem consta que tenham biblioteca – cativados pelo dom encantatório de Vítor Gaspar e de Passos Coelho e afeiçoados ao mundo financeiro, aplicam, com fervor revolucionário, os ditames da troika. Vão pressurosos às televisões deitar poeira para os olhos da populaça – todos por um e um por todos, que a barca está a afundar. Pois que se corta, que não há dinheiro. Pois que apoios sociais já eram. Pois que somos fantásticos, a nata dos cristãos, uns pobrezinhos solidários, diferentes da Grécia. Pois então que se contentem com um extraordinário plano de emergência de uns míseros cobres para um milhão de desempregados, pois que se consolem com a sopinha das Misericórdias, que orem com a ministra para que chova, e roguem ao Papa Francisco (desde logo, pai dos pobres e, agora, a lembrar que a mensagem mais forte do Senhor é a misericórdia). Pois que o povinho se acalme (ou que se indigne ordeiramente, comportadamente, que cante a Grândola!). Fogem do povo ordeiro, que o medo é apanágio dos fracos. E adios, hasta siempre!
Outros acólitos do primeiro-ministro, de rabinho entre as pernas, depois de consumada a desgraça nas casas que governam, desapareceram no nevoeiro, de certo, por quererem poupar a cara à imundície em que colaboram. Onde está o Crato dos planos inclinados televisivos (tão práfrentex) e catedrático da cadeira de Estatística? Outros, de estrangeiro em estrangeiro, lá vão fazendo a vidinha e, de olhos em Álvaro, fingem que acreditam na recuperação económica.
«Ó Relvas vai estudar!» - Haverá quem dê a cara na defesa de um ministro tão desqualificado, que ninguém consegue falar dele sem juntar mais uma anedota ao seu curriculum? Possivelmente, não. E, no entanto, Relvas é o retrato robot de muitos dos ministros do Governo de Passos Coelho: a incompetência, a ignorância, o autoritarismo, a arrogância, a irresponsabilidade e a mediocridade.

Que fazer? Exigir a remodelação do Governo de Passos Coelho? Ah não! Não basta.

Passos Coelho foi eleito com um programa – de direita, naturalmente – sufragado por uma maioria, em que não terão faltado néscios, agora arrependidos… Rapidamente o ultrapassou, confiante na entrada directa para o Quadro de Honra de Merkel, com que tinha sonhado. E, com a maior bravura, passo a passo, lançou-se num projecto ideológico que deixaria invejosos Marcelo Caetano e os seus condiscípulos, ainda que contentes e orgulhosos da reviravolta. Rodeou-se de um escol de economistas entendidos (oh, oh, se são!) que o escudam, na primeira linha: António Borges que transitou do FMI para o Goldaman Sachs, para voltar ao FMI e, daí, dar um saltinho ao país de origem, onde, dia sim, dia não, deixa breves e magras mensagens, que soam como provocações. Carlos Moedas saiu da Goldman Sachs e veio criar, nesta nossa exaurida pátria, a sua própria empresa de gestão de investimentos, para se tornar, agora, no dinâmico e jovem secretário de Estado responsável pelo acompanhamento do programa de empobrecimento, que nos entra pela casa dentro, à hora dos telejornais. Iluminado pelo mundo financeiro, ilumina: adivinham-se-lhe as certezas a 100%, quando alguma dúvida perpassa pela mente do ministro da tutela ou do primeiro-ministro.
Passos Coelho trocou o país pelos interlocutores do FMI e pelos ouvidos dos contramestres da Europa. Lava-lhes as alcatifas, espalha-lhes flores nos corredores, e coloca-se à porta do quarto, vestido de rendas serviçais. Entretanto, sem esmorecimento, tem sempre à mão mais uma medida de austeridade que lança sobre os contribuintes. Quem, com Abril, veio do nada ao nada torna. Adeus democracia económica! E a Constituição Portuguesa? PSD/CDS Borrifam-se. E as esmagadoras manifestações, vozes legítimas do povo nas democracias? Passos Coelho assobia para o lado. O que lhe importa é pagar os milhares de milhões de euros das “falências” de bancos, resultantes de jogatanas financeiras. O Povo que paga a crise está sugado até ao tutano. Pelo meio, há algumas promessas deste governo, amancebado com a troika por amor e interesse? Sim, há: estão garantidos o desemprego a galope e décadas de austeridade. Desenvolvimento e economia? Adiados. Adios, futuro! Adios vida!
Não podiam ser maiores a falta de credibilidade, a falta de legitimidade politica e ética destes senhores, para governar. (Continuar a ler...)

18.3.13

Há 142 anos

Angela – igual a si própria



Comentando a recente decisão dos líderes da zona euro quanto à aplicação de taxas aos depósitos bancários em Chipre, Angela Merkel afirmou, num evento político alemão, que «desse modo, os responsáveis irão fazer parte desse acordo e não apenas os contribuintes de outros países». (Sublinhe-se a palavra «responsáveis» que não está no texto por erro de tradução: há quem o tenha confirmado na fonte).

Ou seja, para a pessoa com maior poder nesta triste Europa, todos os cipriotas, mesmo os que até podem ter conta bancária apenas para receber um baixo salário, devem ser atingidos por uma sobretaxa nos seus depósitos, porque são «responsáveis» pelo estoiro do superdimensionado e desmedidamente ambicioso sistema bancário do país, devido em parte à crise na Grécia, e também por Chipre se ter transformado num paraíso fiscal para oligarcas russos. Expressão apenas infeliz? Pela boca morre o peixe e é mesmo isso que ela pensa destes povos miseráveis do Sul: que eles são irresponsáveis.

Entretanto, multiplicam-se notícias e contranotícias sobre possíveis alterações ao que foi aprovsdo em Bruxelas na passada sexta-feira, o que só demonstra a ligeireza com que decisões desta importância são tomadas, aparentemente em cima do joelho.

Independentemente das taxas que vierem a ser fixadas, é esta medida muito diferente, quanto aos efeitos práticos no bolso de cada um, de aumentos de impostos ou de cortes de salários? Não, mas é mais um tabu que cai e que abala a confiança de todos os europeus: o seguro das contas bancárias, a (agora ignorada) garantia de que eram invioláveis até um determinado tecto. E isto é muito mais grave do que possa parecer. Porque fica-se sm saber o que poderá vir a seguir.

Para além de tudo isto, no caso concreto, os líderes europeus parecem não desistir de entregar a Grécia e Chipre à Rússia (*), mais tarde ou mais cedo.

A Europa, tal como a conhecemos, já acabou. Quantos dias terá o que resta? Só isso é que não sabemos.

(*) Gazprom oferece-se para resgatar Chipre.

Custe o que custar!



«Restasse um pingo de bom senso, sobrasse uma réstia de vergonha, tivesse ainda o mínimo de respeito pelos cidadãos e Vítor Gaspar não hesitaria um segundo: após a conferência de imprensa de sexta-feira, dirigia-se a São Bento e entregaria a sua carta de demissão ao primeiro-ministro.»
Pedro Marques Lopes

Hoje, foi assim:




Este post será partilhado na página Demissão do Facebook.
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Para além de pastéis de nata




Não sei se estes números contam para o volume de exportações, mas acrescento que, no caso de algum país precisar de governantes, também podemos expedir uma palete deles, com primeiro-ministro incluído. 
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17.3.13

Faria hoje 68 anos



Elis Regina que nasceu em 17 de Março de 1945. Considerada por muitos a melhor cantora brasileira de sempre, morreu com apenas 36 anos.

Nos «anos de chumbo» da ditadura brasileira não se coibiu de a criticar, em declarações e nas canções que interpretava, tendo escapado à prisão pela popularidade de que gozava. Participou numa série de actividades de renovação política e cultural e em movimentos a favor da Amnistia de exilados brasileiros. «O bêbado e a equilibrista» funcionou como uma espécie de hino dessa luta:



Duas clássicas:





Mais:



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Dizem que isto é uma espécie de democracia

Invista no seu novo banco



Enquanto é tempo!

«Os lideres da eurozona falarão do negócio como algo que reflete as circunstâncias únicas que rodeiam Chipre, exatamente como fizeram com a reestruturação da dívida Grega no ano passado. Mas se o leitor for um depositante num país periférico que parece precisar de mais dinheiro da eurozona, qual seria o seu cálculo? Que nunca seria tratado como as pessoas em Chipre, ou que havia sido estabelecido um precedente refletindo a exigência consistente dos países credores de uma repartição do peso do fardo? A probabilidade de grandes e desestabilizadores movimentos de dinheiro (para notas e moedas, senão para outros bancos) foi desencadeada.» 

Daniel Bessa: «Estamos todos a evitar anunciar a bancarrota»
«Estamos todos no país a tentar evitar o momento final do anúncio ao mundo da bancarrota e do incumprimento. Não estou a dizer que estamos em cima desse momento, mas, infelizmente, estamos hoje mais perto do que estávamos há dois meses, estamos mais perto do que estávamos há dois anos. E, portanto, é isso que estamos a tentar evitar.»

Luís Menezes Leitão: O "corralito" europeu
«Torna-se cada vez mais evidente que o euro foi um colossal embuste e que a União Europeia é neste momento uma ditadura sem qualquer suporte democrático. Quando os países decidiram aderir julgavam que se estava perante um espaço de segurança e liberdade, em que a propriedade das pessoas fosse respeitada. Se neste momento é possível na Europa confiscar os bens das pessoas e decretar um "corralito" como em qualquer república sul-americana, é manifesto que a União Europeia já não está em condições de resolver os problemas dos cidadãos europeus. E se é assim mais vale que a mesma acabe depressa.»
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Chipre: o impossível acontece



Este texto de José Maria Castro Caldas, publicado pela IAC, fica aqui na íntegra – por motivos que julgo serem absolutamente óbvios...

O Chipre está falido porque a sua banca sobre-dimensionada estoirou, em parte devido ao impacto da reestruturação grega no seu sistema bancário.

Reunidos na sexta-feira, os ministros das finanças da zona euro esperaram pelo encerramento dos mercados para aprovar o plano de resgate ao Chipre (ver nota do Ecofin).

Esse plano contém uma cláusula inesperada e sem precedentes na UE: uma taxa de 6,75% sobre o valor dos depósitos até 100 000 euros (supostamente garantidos pelo Estado em todas as eventualidades, incluindo a falência do banco) e de 9,9% para depósitos acima de 100 000 euros. Em troca os depositantes «confiscados» receberiam ações dos bancos. Os bancos estarão fechados pelo menos no fim-de-semana e na segunda-feira. Nesse período as contas serão purgadas do valor da taxa.

Os depósitos acima de 100 000 incluem muitas contas de cidadãos russos habituados a recorrer Chipre como lavandaria. Diz-se que o parlamento alemão jamais aprovaria um «resgate» à banca cipriota que deixasse incólumes os seus clientes russos.

O que há de extraordinário aqui não é o confisco das contas gordas, russas ou não, nem a relutância alemã em salvar bancos-lavandaria. Extraordinário é o confisco aos pequenos aforradores cipriotas. Neste ponto a responsabilidade parece ser do novo governo conservador cipriota. Este governo teria preferido distribuir o mal pelas aldeias, em vez de o situar acima do limite garantido de 100 000, para preservar o «prestígio» de Chipre como porto de abrigo de piratas financeiros. Mesmo assim será interessante saber até que ponto os credores dos bancos cipriotas, inclusive os credores alemães, irão também sofrer perdas. É cedo para ter certezas quanto à perigosidade dos demónios que esta decisão da EU libertou. Fico-me por citações de duas notícias de jornal. A primeira do grego Ekathimerini, a segunda do britânico The Economist.

Lê-se no Ekathimerini:

«A notícia do acordo foi recebida com choque em Chipre, já que o recém-eleito Presidente Nikos Anastasiades e os seus conselheiros económicos haviam dito ser contra a ideia de uma taxa sobre os depósitos.

Anastasiades reunirá o governo e encontrar-se-á com lideres políticos rivais no Sábado à tarde e dirigir-se-á à nação no domingo.

O candidato presidencial Giorgos Lillikas apelou a um referendo acerca da aceitação ou rejeição pelos cipriotas da taxa sobre os depósitos. À falta do referendo exigiu a convocação imediata de nova eleição presidencial.

Lillikas disse também que estava em conversações com economistas acerca da criação de um plano para o abandono do euro por parte de Chipre e o regresso à libra cipriota.

O secretário geral do Partido Comunista de Chipre (AKEL), Andros Kyprianou, disse que o seu partido está a considerar aconselhar Anastasiades a convocar um referendo ou retirar Chipre da zona euro.

Desde a manhã de sábado, os cipriotas formaram filas nos bancos para retirar dinheiro e algumas caixas multibanco ficaram sem notas para entregar aos clientes.»

Lê-se em The Economist:

«Os lideres da eurozona falarão do negócio como algo que reflete as circunstâncias únicas que rodeiam Chipre, exatamente como fizeram com a reestruturação da dívida Grega no ano passado. Mas se o leitor for um depositante num país periférico que parece precisar de mais dinheiro da eurozona, qual seria o seu cálculo? Que nunca seria tratado como as pessoas em Chipre, ou que havia sido estabelecido um precedente refletindo a exigência consistente dos países credores de uma repartição do peso do fardo? A probabilidade de grandes e desestabilizadores movimentos de dinheiro (para notas e moedas, senão para outros bancos) foi desencadeada.» 
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