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13.4.13

Mas nem sabe quanto é que vão custar


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O bispo que escreveu a Salazar



António Ferreira Gomes, o bispo do Porto, que, em Julho de 1958, escreveu uma célebre carta a Salazar, morreu há 24 anos, em 13 de Abril de 1989. A carta em questão, muito crítica da situação política, social e religiosa do país, deu-lhe direito a um exílio de 10 anos em Espanha, França e Alemanha, do qual só regressou em 1969, já durante o marcelismo.

É bom recordar que tinham tido lugar, um mês antes, as eleições a que concorreu Humberto Delgado e que o país se encontrava ainda em grande agitação. Para muitos, sobretudo católicos, a conjugação destes dois acontecimentos – eleições com Delgado e carta do bispo do Porto – foi o verdadeiro pontapé de saída para a resistência e luta contra a ditadura, durante as décadas que se seguiram.

Era difícil ter acesso ao texto da carta, mas coloquei-o online na íntegra, já há alguns anos. Trata-se de um documento histórico que não deve ser esquecido. 
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Descubra diferenças e semelhanças


Portugal, Abril 2013


Espanha, Abril 2013

Fontes (1) e (2), leitura aconselhada.

Discurso político e Metalinguagem



Vale a pena ler o que São José Almeida escreve, no Público de hoje (sem link), sobre o tipo de discurso político que nos é imposto e que já nem estranhamos de tão habitual se tornou.

Alguns excertos:

«A política vive hoje de mentiras, de discursos falsos, de manipulação de factos. Demonstração disso é a declaração feita pelo primeiro-ministro no domingo, reagindo ao acórdão do Tribunal Constitucional (TC), que considerou inconstitucional normas do Orçamento do Estado (OE), como a cativação fiscal do subsídio dos funcionários públicos e dos pensionistas e reformados no OE.

Quem lê a declaração escrita que Passos Coelho proferiu e não conhece bem o contexto político do país, nem o sistema político, é levado a pensar que o TC extrapolou as suas funções de fiscalização da constitucionalidade das leis e que, por causa de uma inusitada decisão dos juízes-conselheiros, o país entra em crise orçamental. (...)

O discurso político, hoje, é, de facto,(...) um discurso que simboliza o real, que é feito sobre o real, uma ficção, cujos objectivos não são aqueles que são ditos, mas sim apenas a manutenção do poder no grupo que o conquistou e detém, bem como conseguir a obtenção de maior lucro financeiro para quem possui de facto esse poder e que está por detrás de quem governa. Um lucro que é obtido com o empobrecimento das populações do Sul da Europa.

Estamos assim perante um discurso falso que vive de uma metalinguagem, onde as palavras ditas em cascata, encadeadas uma nas outras pela habilidade e treino discursivo de quem as pronuncia, apresentam uma história que agrada a quem a ouve, porque mostra um mundo de fadas e de soluções de varinha de condão, um futuro radioso de sol na terra, que transformará a Europa numa terra de leite e mel. Mas que, quando analisado o seu conteúdo, quando espremido o palavreado, percebe-se que é oco, que não tem sumo, que é um encadeado de palavras fantasioso, mentiroso, que esconde a realidade e os verdadeiros objectivos de quem fala.

Ora, Sócrates usou a fórmula narrativa porque ele sabe do que fala enquanto artista exímio no uso dessa metalinguagem enquanto primeiro-ministro, tal como Durão Barroso faz antes dele e Passos Coelho e Paulo Portas fazem agora. Uma metalinguagem que é usada também por António José Seguro, que critica o Governo e se apresenta como alternativa, mas recorrendo ao mesmo jogo de sombras da metalinguagem política.

Assim perpetuamos as histórias da carochinha. Porque falar verdade hoje em Portugal era dizer que o objectivo político que está a ser imposto à população portuguesa é o da diminuição do seu poder de compra, baixando o valor do seu trabalho através da redução salarial, do aumento de impostos directos e indirectos e do aumento desemprego. (...)

Pôr fim à metalinguagem poria em causa os interesses dos que realmente detêm o poder. Resta esperar para perceber até quando as populações europeias vão aguentar a situação a que estão a ser submetidas.» 
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12.4.13

Aviso à Navegação



Ali em cima à direita, na Barra Lateral, continuam duas secções, que são atualizadas diariamente, com textos que «repesco» de algumas das minhas leituras, blogosféricas e não só. Não sei se são utilizadas, mas continuarão. 
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Muito provavelmente



@Steve Schapiro
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Lucy in the sky



Três comentadores, três palavras para caracterizar a presente actuação do governo: : psicadelismo, bullying, terrorismo. Completam-se e definem bem o ambiente destes dias que passam.

«O chumbo de várias normas do OE pelo Tribunal Constitucional abriu os diques do psicadelismo do Governo, que começa a estar ao nível do "Lucy in the Sky with Diamonds" dos Beatles. (...)
No tempo da Monarquia Constitucional o regenerador Gomes de Castro dizia que: "adeus bancos, adeus estradas, adeus tudo, tudo, tudo". Com este Governo pode dizer-se: "adeus Estado de direito, adeus desenvolvimento, adeus economia, adeus tudo, tudo, tudo".»

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«Eu sabia que íamos pagar caro o festejo. Perante a decisão do Tribunal Constitucional, era de esperar que Coelho e Gaspar resolvessem ir fazer "bullying" à nação. Foi a única coisa que o bom aluno aprendeu com estes professores: tiveram 20 a Sadismo na Óptica do Utilizador. O Ministro que não acerta uma conta não ia deixar de acertar contas connosco.
Não há gente mais vingativa que esta que nos governa. Só lhes fica mal e é contraproducente, porque a raiva denuncia que o que os move são razões ideológicas. Ninguém fica raivoso por razões económicas.»

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«Este comportamento não denuncia apenas uma genuína cultura antidemocrática. Tem que ser designado pelo seu verdadeiro nome: "terrorismo"! A maioria que governa, que legisla e que chefia o Estado, passou à fase da agressão violenta aos tribunais e aos cidadãos... e o Presidente terá em breve de escolher o seu lado da barricada. Sem emenda nem remorso pelas quatro infrações cometidas contra a Lei Fundamental que todavia juraram cumprir, o Governo foi descendo todos os degraus de decência e passou abertamente ao terrorismo administrativo e financeiro, como se lê no despacho assinado por Vítor Gaspar, onde este se dá por vítima do poder judicial, à semelhança de muitos reclusos a cumprir pena nos estabelecimentos prisionais. A política transformou-se numa obscenidade. Não há diálogo possível com o terrorismo.»

P.S. - Alguns dos links podem só funcionar mais tarde ou amanhã. 
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Yes, Mrs Thatcher


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11.4.13

Seis anos a blogar



Dizem os registos que o «Brumas» nasceu em 11 de Abril de 2007, este é o 6 498º post que publico (parece mentira, mas não é) e foi alimentado não só a partir de Lisboa, mas também de mais de 30 países por onde fui viajando.

Como o povo é quem mais ordena, continuará activo enquanto a clientela quiser – e parece que quer já que o número de visitas quase duplicou durante o último ano.

Se fizerem o favor de continuar a passar por aqui, a gerência agradece. 
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Notas para um discurso



Ricardo Araújo Pereira regressa com um texto-proposta para um futuro discurso de Pedro Passos Coelho.

«O Governo, preocupado com o aumento do desemprego, criou legislação que permitiria reduzir a taxa de desemprego em 50 por cento. Era uma medida corajosa que consistia no seguinte: executar, com um tiro na nuca, 500 mil desempregados. Mais uma vez, o tribunal rejeitou a medida por violar aquilo a que os juízes chamam, naquele jargão jurídico impenetrável, a "lei".»

Na íntegra AQUI.
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Enquanto não somos a Irlanda



... veja lá se não segue o exemplo da Grécia, dr. Gaspar: nos hospitais públicos, o papel higiénico passou a ser mais áspero e em rolos mais estreitos. Abstenho-me de fazer comentários, mas vale a pena lê-los
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Gaspar, o louco



A persona Vítor Gaspar e o seu modo de agir, para além de absolutamente sinistros, tornaram-se a tal ponto insólitos que os comentadores recorrem cada vez mais a comparações e imagens inesperadas para tentarem caracterizá-los. Não conseguem fazer-nos sorrir porque o que está em causa é demasiado grave e nocivo, mas ajudam-nos a compreender a criatura e as suas criações.

«O Homem de Gelo, herói da Banda Desenhada, começou por sentir frio num dia muito quente. Refugiou-se na garagem e esta ficou cheia de neve. Descobriu os seus poderes: podia criar rajadas congelantes, espinhos de gelo que surgem do nada e solidificar a água. (...)
Mais modestamente, o nosso Homem de Gelo, Vítor Gaspar, só quer congelar o Estado. E, a partir daí, congelar o país. Poderá valer-lhe um Nobel qualquer, ou mesmo um lugar no BCE ou no FMI, mas pelo caminho transforma Portugal num inóspito Pólo Norte. (...)
Gaspar pode ter a tentação de querer transformar os portugueses em morsas ou pinguins, mas deveria primeiro ter bom senso. (...) Se não há dinheiro, deve explicar isso aos portugueses. E não transformar as palavras em gelo e as explicações num frigorífico.» 
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«O ministro Vítor Gaspar pertence a uma categoria curiosa de criaturas, que qualquer ministério ou grande empresa deve guardar, cuidadosamente, num gabinete de estudos. (...) Num gabinete de estudos, uma pessoa como Gaspar ajuda a estabelecer limites, a afastar hipóteses, a calibrar escalas. Serve como os canários nas minas, para avisar da proximidade de gases tóxicos.(...) O grande problema é que, com este governo, Gaspar saiu da zona de segurança e ameaça transformar Portugal num campo de teste para armas de destruição maciça.»  
Viriato Soromenho-Marques

10.4.13

Comentários para quê



Maria do Céu Guerra divulgou hoje este texto no Facebook. 

Não sei se este é o meu último espectáculo.

A amargura com que vou estrear este belo texto de Nascimento Rosa – nonagésima produção da Barraca no seu trigésimo sétimo ano de trabalho ininterrupto – não é suportável nem admissível.

Nenhum governo tem o direito de ser tão desproporcionado nas suas medidas e tão arbitrário nos seus fundamentos.

Depois de, nos últimos anos, três dos mais estimados autores teatrais de língua portuguesa –Mário de Carvalho, António Cunha e Armando Nascimento Rosa – nos terem dado a estrear as suas últimas peças, numa prova de confiança que nos enche de orgulho e festa e elas terem sido levadas à cena com êxito e reconhecimento do público e dos próprios autores, depois do nosso trabalho ter viajado no País, na Europa e fora dela recolhendo distinções especiais e um carinho que estes funcionários de quem depende a sobrevivência de companhias como esta estão longe de saber o que é, vemos que os Comissários de Cultura que gastam na administração dos seus sumptuários gabinetes, nas consultas jurídicas que lhes respaldem os embustes e nas embaixadas milionárias em que transportam coisa nenhuma, a grande parte do orçamento que têm para administrar e fomentar a Criação Artística, aguardam ansiosos que «A Barraca» dê o seu último suspiro.

Estamos num país de Inveja e Histórica Mediocridade. Por que razão seria agora diferente? Desviam-se os olhos do vizinho que jaz no passeio, na pressa com que estamos de chegar ao conforto do lar.

Como disse Sttau Monteiro “um país onde se cortam as árvores para que não façam sombra aos arbustos”.

Abotoem-se enquanto podem. Lambam-se com as últimas migalhas. Atrás de tempos vêm tempos. 
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Nós ajudamos, Madame Lagarde

Outubro em Abril



«Quando Serguei Eisenstein realizou "Outubro" e mostrou o assalto ao Palácio de Inverno na Rússia, queria mostrar o triunfo da revolução. "Abril" vai ser realizado em Portugal por Passos e pela troika. Só resta saber quem é Kerensky e Lenine nesta rodagem. O realizador vai ser um Governo remodelado como se fosse uma tropa de choque. (...)

Até agora, Governo e troika não conseguiam ultrapassar os portões da casa da guarda de um Estado que cresceu como um monstro por culpa dos partidos. O Governo de Passos vai, remodelado, transformar-se no soviete dos que querem demolir a administração pública. O laboratório da revolução da troika avança agora para que depois a experiência revolucionária portuguesa possa ser alargada aos países do Sul. O assalto ao Palácio de Inverno faz-se em Abril.»  

Fernando Sobral

Alô, Madrid?



Sempre atrasados em relação a nuestros hermanos? Nem por isso: neste momento é o governo de Rajoy que olha de soslaio para o que se passa do lado de cá da fronteira, já que o Tribunal Constitucional espanhol tem entre mãos vários pedidos de fiscalização de normas, que podem causar um rombo de 16 mil milhões de euros no orçamento. 

O que está em causa? Questões como o corte do subsídio de Natal aos funcionários públicos, uma amnistia fiscal, o congelamento das pensões este ano e cortes na Saúde e na Educação.

Não se pode dizer que as crises dos dias que correm pequem por excesso de originalidade.

(Fonte)

9.4.13

Comunicado do Reitor da Universidade de Lisboa



Fica aqui, na íntegra, para memória futura, esta posição hoje tomada por António Sampaio da Nóvoa, Reitor da Universidade de Lisboa. Nem todos se vergam a um governo prepotente e vingativo.

Não é fechando o país que se resolvem os problemas do país

1. Por despacho do ministro das Finanças, de 8 de Abril de 2013, o Governo decidiu fechar o país e bloquear o funcionamento das instituições públicas: ministérios, autarquias, universidades, etc. O despacho é uma forma de reacção contra o acórdão do Tribunal Constitucional, como se explica logo na primeira linha. O Governo adopta a política do “quanto pior, melhor”. Quem, num quadro de grande contenção e dificuldade, tem procurado assegurar o normal funcionamento das instituições, sente-se enganado com esta medida cega e contrária aos interesses do país.

2. Todos sabemos que estamos perante uma situação de crise gravíssima. Mas é justamente nestas situações que se exige clareza nas políticas e nas orientações, cortando o máximo possível em todas as despesas, mas procurando, até ao limite, que as instituições continuem a funcionar sem grandes perturbações. O despacho do ministro das Finanças provoca o efeito contrário, lançando a perturbação e o caos sem qualquer resultado prático.

3. É um gesto insensato e inaceitável, que não resolve qualquer problema e que põe em causa, seriamente, o futuro de Portugal e das suas instituições. O Governo utiliza o pior da autoridade para interromper o Estado de Direito e para instaurar um Estado de excepção. Levado à letra, o despacho do ministro das Finanças bloqueia a mais simples das despesas, seja ela qual for. Apenas três exemplos, entre milhares de outros. Ficamos impedidos de comprar produtos correntes para os nossos laboratórios, de adquirir bens alimentares para as nossas cantinas ou de comprar papel para os diplomas dos nossos alunos. É assim que se resolvem os problemas de Portugal?

4. No caso da universidade, estão também em causa importantes compromissos, nomeadamente internacionais e com projectos de investigação, que ficarão bloqueados, sem qualquer poupança para o Estado, mas com enormes prejuízos no plano institucional, científico e financeiro.

Na Universidade de Lisboa saberemos estar à altura deste momento e resistir a medidas intoleráveis, sem norte e sem sentido. Não há pior política do que a política do pior.

Lisboa, 9 de Abril de 2013

(Daqui)

Vingança e vaidade


«Há várias coisas que nunca se devem esquecer: esta gente é vingativa e não se importa de estragar tudo à sua volta para parecer que tem razão. Já nem sequer é por convicção, é por vaidade e imagem.»  
José Pacheco Pereira

Luta armada – a última acção antes do 25 de Abril



No dia 9 de Abril de 1974, as Brigadas Revolucionárias realizaram uma acção de sabotagem ao navio Niassa, no momento em que este ia partir para Bissau com um contingente de soldados. A explosão provocou um rombo no casco e um incêndio. As BR avisaram a PSP do Porto de Lisboa, uma hora e quinze minutos antes.

Esta acção contra a guerra colonial teve largo eco na população, sobretudo pelo elevado número de pessoas que se encontrava no cais, na hora da despedida, e há descrições feitas pelos próprios soldados que estavam a bordo: «O dia 9 de Abril de 1974 ficou profundamente marcado por todos os militares que estavam no navio Niassa, na altura encostado no Cais de Alcântara e assim como todos os que se encontravam na plataforma ou na varanda da Gare Marítima, a aguardar a partida que estava marcada para as 18 horas.
Às 17 horas já o embarque tinha sido efectuado e militares dum lado, familiares e amigos do outro, trocavam gestos e sons muito característicos destas alturas.
Notei a presença de homens rã a fazer uma inspecção a todo o casco do navio, mas possivelmente seria só uma rotina.
Eram 17 horas e 15 minutos e nos altifalantes do navio era solicitada a presença de todos os Oficiais, no bar da 1ª classe.
No referido bar encontrava-se um Brigadeiro que nos dirigiu a palavra de uma forma que eu por momentos não sabia se estava a partir ou se tinha chegado.
Passados alguns momentos ouve-se um grande estrondo, acompanhado de um balançar do navio.
Rapidamente saímos para o exterior e deparo com a maior gritaria e situações de pânico, que jamais tinha presenciado.
Todo o Navio foi evacuado e só na altura que todos os militares chegaram ao pé dos seus familiares e amigos, é que a situação ficou mais calma.»
 

Testemunho de Laurinda Queirós, militante das BR (*):
«A bomba foi dentro de um colete meu. Eu tinha um fato com um colete integrado. Nós cortámos o plástico em fatias e enchemos o forro desse colete, que por sua vez, foi dentro do blusão do militar que transportou a bomba para dentro do navio. Lembro-me de nos preocuparmos com o facto de ele ter de se abraçar à família antes de partir. A bomba não ia explodir, mas a carga plástica ia nesse colete que ele levava vestido e, ao ser abraçado, a família podia aperceber-se de algo anormal.»
(*) In Isabel Lindim, Mulheres de Armas, p. 215. 

Era assim a frágil «Branquinha» – pseudónimo da Laurinda na clandestinidade. 
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Ferramentas para Abril


Do Editorial de Le Monde Diplomatique (edição portuguesa) deste mês, por Sandra Monteiro.

«Chegamos a Abril com uma dupla urgência. Por um lado, reconstruir as formas de organização da sociedade que, desde a instauração da democracia, vinham mostrando ser as mais capazes de melhorar as condições de autonomia, igualdade e liberdade da grande maioria dos cidadãos (Estado social e serviços públicos, direitos e leis laborais, políticas de coesão territorial). Por outro lado, construir as formas de integração, europeia e internacional, da economia e das instâncias políticas do país que melhor possam reverter o rumo de empobrecimento e subdesenvolvimento prolongados para o qual estão a ser empurrados cada vez mais países de uma União Europeia disfuncional e, dentro de cada país, um crescente número de cidadãos das classes médias e populares.

Chegamos a Abril com uma dorida certeza. Ela cresce a cada revelação da escalada dos números do desemprego, da precariedade e da pobreza, bem como do défice e da dívida. Que certeza é essa? A de que não haverá um fim para esta crise, e muito menos um fim benigno, com este ou qualquer outro governo que decida, com semblante convicto ou contrariado, impor políticas de austeridade, aceitar as condições de financiamento ditadas pelos credores e abdicar de reivindicar os instrumentos – nacionais e europeus – de política económico-financeira que permitam governar a favor da maioria dos cidadãos. Um governo que não actue simultaneamente na recusa da austeridade, na reestruturação da dívida e na colocação de condições de arquitectura europeia não conseguirá resultados muito diferentes dos actuais. E à crise económica e social, com todos os fenómenos de corrosão e disfuncionamento que ela traz a uma comunidade, só juntará uma crescente crise política. Quanto tempo pode a democracia resistir à constatação, muito agudizada pela crise, de que nos lugares de decisão não há quem represente os interesses dos cidadãos, mas apenas os dos credores financeiros? Quantas vezes poderão os governos, em campanha ou em funções, afirmar que defendem valores e princípios que garantiriam uma vida digna aos povos, se não consubstanciarem essa defesa em políticas que melhorem as condições materiais de vida? E o que vamos nós fazer para que esta crise da democracia representativa resulte num aprofundamento da democracia e não no seu contrário?» 

(Continuar a ler aqui.)
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Linha da frente



«Se Clausewitz nos ensinou que a guerra deve ser a continuação da política, o ministro Schäuble, na sua declaração de ontem sobre Portugal, recordou que a política de austeridade pode ser a continuação da guerra por outros meios. (...)

Há uma guerra Norte-Sul na Europa. E o Norte está a ganhar. Fomos educados na crença de que os Estados europeus viveriam de acordo com os jogos de soma positiva, onde todos cooperam e todos ganham. Foi assim até 2009. A partir daí, sob a batuta de Merkel, os jogos na Europa passaram a ser os de soma nula. Jogos de guerra, onde as perdas de um são os ganhos de outro. (...)

O que está em causa não é derrubar uma coligação, mas reconquistar a liberdade nacional. Tudo está em aberto. Desde uma viragem federal redentora até ao desmoronamento da Zona Euro, e o doloroso regresso às derivas estratégicas e conflitos tribais europeus. O tempo é para pensar estrategicamente. Definir os fins e escolher os meios. Procurar aliados nas outras satrapias, e mesmo no centro imperial. Quando se está na frágil condição de Portugal cometer mais erros seria um crime.»

Viriato Soromenho-Marques

8.4.13

Faria hoje 84 anos



Jacques Brel. Nasceu em 8 de Abril de 1929 e seria hoje um velho de 84 anos se, há 34, não tivesse adormecido, como ele próprio previu. «Les vieux ne meurent pas, ils s’endorment un jour et dorment trop longtemps»:



Um dos meus monstros mais do que sagrados, com um registo especial: tive a sorte de o ver e ouvir, em pessoa, era ele jovem e eu muito mais ainda... Em Lovaina, na Bélgica, num espectáculo extraordinário a que se seguiu, já na rua, uma cena de pancadaria entre valões e flamengos, com bastonadas da polícia e muitas montras partidas à pedrada. Tudo porque Brel, em terra de flamengos, insistiu em cantar um dos seus êxitos – Les Flamandes – onde uma parte das suas compatriotas não é muito bem tratada. Ele era assim.

Uma das minhas preferidas:




E a inevitável:


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Vender tudo, até a honra



«Acena mesmo com um segundo resgate, um dragão voraz. Mas perdeu toda a autoridade: moral e política. No seu discurso ao país, Passos não assume culpas próprias. Só procura desculpas, tornando a decisão do TC o álibi perfeito para os seus falhanços. Procura encontrar inimigos tenebrosos que não o deixam governar: o TC e, em última medida, a Constituição. (...)

É claro que em Portugal há dois poderes: o externo, de quem nos empresta o dinheiro para sobrevivermos, e o legal, nas mãos do TC, do PR e do Parlamento. Mas para ter o dinheiro não temos de empenhar as nossas leis e, em último caso, a nossa razão de ser como nação. E é isso que Passos Coelho julga ser possível: deve-se vender tudo, até a honra (para tempos excepcionais, soluções de excepção, diz), para receber o cheque.»

Fernando Sobral, no Jornal de Negócios (o link pode só funcionar mais tarde ou amanhã)
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Hoje é o dia



I' ll dance on your grave Mrs Thatcher

 

just a lad of sixteen summers
when the mining gates locked
i stood there with my brothers
some with there rifles cocked
just hold on to youe shirt me boys
this is going the hole way
dont you worry was the answer back
were with you arthur all the way



and we, ll dance yes we, ll dance
yes we, ll danceon your grave mrs thatcher



she had come well prepared
with the coal that she, d amassed
everyday she, d try to break us down
take the flag down from the mast
but we stood there all united
exept the scabs down from the south
with there crys for a ballott
taking food from our kids mouths



and we, ll dance yes we, ll dance
yes we, ll dance on your grave mrs thatcher



gone twenty years now since it came and went
but what for i hear you say
twas for the rite to earn a living wage
in this country its the only way
you talk to me about democracy
you ask me why im not proud
its because it killed my father
and cant you see that thats just not allowed



so i, ll dance yes i, ll dance
yes i, ll dance on your grave mrs thatcher 

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A vingança de um primeiro-ministro



Precisei de algumas horas para digerir a imagem e o som que me entraram pela casa dentro, ontem, pelas 18:30. Por muito más que fossem as expectativas quanto ao que Passos Coelho viria dizer, elas foram todas largamente ultrapassadas.
Depois de quase 24 horas de boatos e de teatralizações várias, que foram desde a hipótese de demissão do governo ou, pelo menos do ministro das Finanças, a uma ida a Belém e a um comunicado cúmplice do presidente da República, veio a comunicação ao país mais insuportável que me foi dado ver e ouvir.

Já quase tudo foi dito sobre o inacreditável exercício de vitimização a que assistimos e sobre a tentativa de transformar o falhanço total de quase dois anos de desgoverno num sucesso, apenas posto agora em causa por um efeito marginal provocado pelo chumbo do Tribunal Constitucional.

Mas tão chocante como o conteúdo foi o tom indisfarçado de ameaça em que o primeiro-ministro disse aos portugueses que vem aí o futuro próximo mais negro que imaginar consigam, como se não bastasse a negritude do presente. Pela calada da noite, uma espécie de bruxa má veio amedrontar criancinhas para lhes tirar o sono.

Não só: o discurso de ontem foi um exercício de vingança, não só contra os juízes do Tribunal Constitucional, mas contra tudo e contra todos os que oferecem resistência, por mínima que seja, a um grupo de tresloucados incompetentes que se considera agora com uma legitimidade reforçada. Mas houve um enorme deslize, uma grande lacuna, fruto de imaturidade e de falta de mundo: saber que a vingança é um prato que se serve frio. Assim, quente, é indigesto. E terá efeito de boomerang
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7.4.13

A comunicação ao país


@Pedro Vieira

Ele ralhou muito connosco.
Temo-nos portado mal.
Ele não queria tirar-nos os empregos, os salários, as reformas, as férias. Mas tinha de ser.
Nós não percebemos. Continuámos a querer demais.
Agora tem de nos tirar a saúde e a educação.
É bem feito. Para quem quer o luxo de uma Constituição.
A seguir tira-nos a Constituição (vejam a Hungria).
O amigo de Belém (o amigo do Dr. Dias Loureiro e do BPN, do Duarte Lima e do BIG) deixa.
E nós, deixamos?

(Roubado ao Luís Januário no Facebook)

Por hoje, é tudo.
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Soundtrash do fim da tarde



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Foi há 120 anos



... que nasceu Almada Negreiros, em S.Tomé e Príncipe, em 7 de Abril de 1893.




Sempre: o Manifesto anti-Dantas, por Mário Viegas:



Vale a pena ouvir esta entrevista que Almada Negreiros concedeu ao programa Zip-Zip, em 1969 (ano anterior ao da sua morte):




Aconteceu-me

Eu vinha de comprar fósforos
e uns olhos de mulher feita
olhos de menos idade que a sua
não deixavam acender-me o cigarro.
Eu era eureka para aqueles olhos.
Entre mim e ela passava gente como se não passasse
e ela não podia ficar parada
nem eu vê-la sumir-se.
Retive a sua silhueta
para não perder-me daqueles olhos que me levavam espetado
E eu tenho visto olhos !
Mas nenhuns que me vissem
nenhuns para quem eu fosse um achado existir
para quem eu lhes acertasse lá na sua ideia
olhos como agulhas de despertar
como íman de atrair-me vivo
olhos para mim!
Quando havia mais luz
a luz tornava-me quase real o seu corpo
e apagavam-se-me os seus olhos
o mistério suspenso por um cabelo
pelo hábito deste real injusto
tinha de pôr mais distância entre ela e mim
para acender outra vez aqueles olhos
que talvez não fossem como eu os vi
e ainda que o não fossem, que importa?
Vi o mistério!
Obrigado a ti mulher que não conheço.

In: Almada: O Escritor , o Ilustrador, 1993
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Cada um tem o Magritte que merece



(Imagem via Alex Gozblau no Facebook)
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Incompetência



«Em circunstâncias normais, o Governo negociaria com a troika – explicando que num Estado de direito não se pode atropelar a Constituição, caso os senhores não soubessem –, olharia melhor para as rendas de algumas empresas, tentaria negociar as parcerias público-privadas e não dramatizaria a situação afirmando simplesmente que as instituições democráticas tinham funcionado e que havia de actuar conforme.
A questão é que esta decisão do Tribunal foi a machadada final no núcleo fundamental do Governo e na sua linha política. Esse núcleo constituído por Relvas, Gaspar e Passos Coelho. (...)

O que resta não é bem um Governo, é um conjunto de homens e mulheres descoordenados, vagamente geridos por um primeiro-ministro perdido, sem saber o que fazer e com uma linha política chumbada pela realidade do desemprego, das falências, da miséria, da recessão e, de novo, pela Constituição. (...)

A razão da infelicíssima reacção [à decisão do TC] é tão-só a admissão de incapacidade para governar. A dramatização é resultado da implosão do núcleo central do Governo e da sua política suicida. O Tribunal Constitucional está a ser apenas utilizado como bode expiatório. (...)

Queria apenas recordar a esses cavalheiros e senhoras que os princípios invocados para declarar a inconstitucionalidade das normas foram os da igualdade e proporcionalidade. Não esteve em causa a gratuitidade do ensino ou da saúde ou os tão criticados direitos adquiridos ou coisa do género. Nada disso. Repito: igualdade e proporcionalidade. Alguém está interessado numa Constituição que não defenda estes princípios? E devem os juízes olhar para a "realidade" e esquecê-los?» (O realce é meu.)  

Pedro Marques Lopes