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17.8.13

Chuvinha londrina



Está frio, chove e, assim de repente, quase julguei ter aterrado na capital de um país islâmico, tantas são as mulheres de cabeça tapada. Verdadeiramente impressionante. 
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16.8.13

Vou ali e já volto



Daqui a algumas horas, pela fresquinha e à procura de fresquinho, não vou sair da Europa, nem sequer preciso de adiantar ou atrasar o relógio, mas pelo menos deixarei a zona euro: rumo ao reino de suas majestades britânicas, para ver algumas terras de Inglaterra e outras tantas da Escócia, em menos tempo do que seria necessário, mas ainda assim...

Irei dando algumas notícias por aqui e estou certa de que, quando regressar, vou encontrar muitos mais belíssimos outdoors com candidatos a autarcas e novas fotos dos biquínis de Judite de Sousa. Espero que não haja briefings do governo durante a próxima semana, porque não gosto mesmo de falhar nem um, e que o dr. Portas não peça de novo a demissão porque isso pode fazer baixar o valor do euro e eu estarei a pagar tudo em libras.

And you'll always have football. 
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E quanto ao Egipto

Basta pouco, poucochinho p'ra alegrar



... uma existência singela. 
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Pretas com bolinhas amarelas?



Com os candidatos às autárquicas a fugirem das suas cores partidárias como o diabo da cruz, é bem possível que, nas próximas presidenciais, os «outdoors» tenham bandeiras portuguesas pretas com bolinhas amarelas. 
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«Reforma» por carta



«A relação dos portugueses com o Estado é longa e reverente. Desde há muito que se criou no país uma relação de dependência de todos os sectores da sociedade civil face à mão segura do Estado. O ouro, a pimenta e os escravos nunca serviram para acumular riqueza. O Estado apropriou-se dos dividendos, distribuiu-os pelos que tinham melhores conexões com isso, criou monopólios e comprou terra. Deu escassa atenção ao comércio e nenhuma à indústria. O dinheiro foi parar aos bancos criados na Alemanha e na Inglaterra e serviram para alimentar a Revolução Industrial nesses países. O cíclico penar da dívida e do défice começou. Portugal perdeu o comboio do progresso e nunca mais o voltou a apanhar. Sem uma sociedade civil forte e sem a criação de empresas nacionais com capitais próprios (o Marquês de Pombal bem o tentou, mas os resultados foram escassos, até porque as rendas eram mais vantajosas do que o risco), o Estado entronizou-se como a salvação dos portugueses. (...)

Os novos ventos liberais dos anos 80 chegaram tarde a Portugal, mas aterraram em força com o Governo de Passos Coelho. Com a desculpa das imposições da troika, o executivo diz estar empenhado numa "reforma do Estado". Como se sabe a única "reforma" que se pretende é o despedimento de dezenas de milhares de funcionários públicos às cegas. A ideia não é reformular o Estado de forma que cumpra as suas obrigações e que tenha uma efectiva força política num mundo onde ele a tem perdido. Não é criar um Estado moderno: é simplesmente abater funcionários.

Não é esse o objectivo com estas cartas que o Governo manda a pressionar os funcionários a rescindir os contratos. Porque o Governo não tem a intenção de reformar nada. Quer simplesmente destruir a esfera pública, numa missão puramente ideológica. É a "missão Letónia" para Portugal. A "reforma" faz-se através da política de circulares e não das decisões estratégicas.»

Fernando Sobral (sem link)
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15.8.13

Haja esperança

Uma frágil corda



«A ideia de que o número de 1,1% - que apanhou de surpresa vários economistas, já que as previsões admitiam um cenário muito mais grave - é um factor de redenção do Memorando da troika é falaciosa. Um país que disparou no desemprego, mandou os seus jovens emigrarem, pontapeou reformados, despede sumariamente funcionários públicos, corta à bruta nas prestações sociais, não é seguramente uma prova da validade do Memorando. Até aqui, as políticas europeias em curso encarregaram-se de rebentar com a Europa - com a Alemanha como excepção. Se mudarem, Portugal pode ter esperança de que 1,1% de crescimento se reflicta na vida das pessoas - em mais emprego. A corda a que nos agarramos é de uma grande fragilidade.»

Ana Sá Lopes

Querido mundo, nosso mundo


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Mas que data!



É um mar de acontecimentos que teve lugar em 15 de Agosto, desde o (hipotético) primeiro contacto entre europeus e chineses quando sete barcos portugueses chegaram ao delta do Rio das Perolas à abertura do festival de Woodstock, passando pela independência da Índia, a fundação da ordem dos jesuítas, a inauguração do canal do Panamá e a separação das duas Coreias.

Quem quiser que festeje o que quiser, sem esquecer também que foi nesta data que morreu René Magritte e que assassinaram Macbeth, rei da Escócia. Quanto a nascimentos também não estamos nada mal já que vieram a este mundo, em 15 de Agosto, o nosso queridíssimo Santo António, Napoleão e, num registo mais modesto, Sylvie Vartan e o inesquecível António Silva. E é ele que recordo porque numa comédia vivemos nós e esta vida são dois dias...



E claro que é feriado porque se festeja a assunção de Nossa Senhora, que hoje seria imediatamente travada por um míssil Patriot, por violação do espaço aéreo, como alguém bem lembrou esta manhã
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Bom dia!



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14.8.13

Anos 70



Fotografia de Alfredo Cunha, divulgada no Facebook, com a seguinte legenda:

«Portugal, anos 70 do Século XX, não gostaria de voltar a este País,mas infelizmente estamos cada vez mais perto...»
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Leitura indispensável para não se embandeirar em arco com o fim da recessão



Esta, de um texto de Gustavo Cardoso, divulgado hoje no Público online. Alguns excertos «para abrir o apetite:

«As diferentes agências de notícias, TV’s e jornais, tanto internacionais como portugueses, preparavam-se na terça-feira para anunciar o fim da recessão na Europa. Por exemplo, o Financial Times escrevia que parecia claro que a pior crise económica em tempo de paz – desde a grande recessão – estava terminada para a Europa. (...)

As boas notícias não resolvem o maior problema de todos, maior porque é-o em número de actores individuais e colectivos neste processo que assumiu o nome técnico de “grande recessão”e que na gíria se denomina “crise”, ou seja, os problemas dos cidadãos europeus e das pequenas e médias empresas europeias.

Porque governar só faz sentido se for feito para as pessoas e não para grandes organizações (as quais poucas pessoas envolvem) e porque a riqueza e o emprego só se gera (pelo menos na Europa) por via dos milhões de pequenas empresas, esta indicação de crescimento que alegra Governos e grandes empresas não deve trazer grande felicidade a todos nós, pois não resolve ainda os nossos problemas. (...)

Mas (...) há outro problema não resolvido, o do emprego. Porquê? Porque todos os analistas e gestores financeiros sabem (embora acredite que nem todos os governantes europeus o tenham presente) que é perfeitamente possível, no curto prazo, crescer o lucro das empresas despedindo pessoas – ou reduzindo salários quando possível - e que esse é o manual de gestão utilizado na maioria das grandes empresas globais para apresentarem resultados aos seus accionistas mesmo em tempo de recessão. (...)

Ficar contente, mesmo que contente com cautela e precaução, por regressarmos, no actual contexto, à performance das grandes empresas no pré2008 e às taxas de crescimento de “0.qualquercoisa%”é mau, muito mau mesmo. (...)

Ou seja, se nada mais fizermos (e contentes ficarmos) com o que está a surgir no radar apenas podemos esperar que, em Portugal e na restante Eurozona, tenhamos menor capacidade de criar riqueza, assistamos ao incrementar da tendência de concentrar a riqueza num cada vez menor número de pessoas e de grandes empresas, diminuindo assim a capacidade de criação de emprego e criando uma sociedade assente em cada vez maiores desigualdades, no medo de deixar de pertencer às classes médias (cada vez mais frágeis) e no condicionamento de facto do livre acesso ao empreendedorismo e à liberdade empresarial.» (O realce é meu.)
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O «novo» governo



«Se alguém sai diminuído desta recomposição [do governo] é o actual primeiro-ministro (...) sobretudo porque perdeu o seu ideólogo e o inspirador da essência do seu discurso. O técnico Vítor Gaspar falava, estabelecia e anunciava as políticas financeiras pela voz de Passos Coelho.

Ao perder esse apoio, aquele discurso ficou vazio; as ideias liberais conservadoras mantêm-se – a bravata de cumprir o MoU porque esse era o seu programa de governo! – mas o vazio revela-se no facto desse posicionamento ter deixado de ter substância (como ficou claro na carta de demissão de Gaspar). O primeiro-ministro não tem um discurso autónomo que suporte a ideologia que assume e defende. Daí esta mais que aparente transferência de liderança do Governo de Passos para Portas. (...)

A nossa dívida não pode ser paga nos termos e no tempo que foram ficando expressos nas sucessivas revisões do memorando: os nossos interlocutores não são os técnicos da troika. O reescalonamento da dívida compatível com o pagamento aos credores e com a permanência no euro exigem uma subida no patamar negocial. As negociações, que devemos desenvolver e a que temos direito, têm de ser feitas com e nos centros de poder comunitários: Conselho, Comissão e Parlamento. (...)

Temos, enfim, de encontrar, em Portugal e na UE, negociadores à altura.»

José Maria Brandão de Brito
(O link pode só funcionar mais tarde.)
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A memória é uma coisa lixada!


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Não esquecer que hoje é o dia da nossa grande Padeira



... que, com seis dedos em cada mão, bem podia regressar a cavalo na sua pá, não para matar sete castelhanos, mas, sei lá, talvez para liquidar sete swaps, sete estátuas, sete milhões de mosquitos, ou sete..., sete...???? 
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13.8.13

Antiguidades

Ainda sobre a estátua do Cónego Melo: «Alô PS?»


(Centro de trabalho do PCP, 11/8/1975) 

Victor Louro, ex-deputado do PCP, filho do historiador Victor de Sá, enviou a António José Seguro a seguinte mensagem, que divulgou no Facebook, e diz-se na expectativa de ver se o PS se demarca ou não.

Caro Dr. António José Seguro

Na sua qualidade de secretário-geral do Partido Socialista e deputado eleito pelo círculo de Braga, quero manifestar-lhe o meu veemente repúdio e a minha apreensão democrática pelo que está a passar-se, mais uma vez sob a batuta de gente do PS, relativamente à famigerada estátua do Cónego Melo.

Não estão em causa as suas opiniões ou tendências políticas - estamos em democracia. O que está em causa é ele ter sido responsável político pelo MDLP, movimento que espalhou o terror no Norte do País em 1975 contra militantes de Esquerda, contra sedes de partidos políticos de Esquerda, responsável pelo assassinato de cidadãos de Esquerda. A Democracia não pode homenagear pessoas deste jaez, porque o seu objectivo era exactamente destruir a Democracia.

Meu Pai, Victor de Sá, foi obrigado nessa altura (como antes houvera acontecido com a PIDE) a refugiar-se para não ser atacado - como foi atacada a sua livraria, à bala, como ainda hoje lá está visível.

Não é apenas Mesquita Machado quem está empenhado nesse acto, nessa afronta à Democracia e aos democratas, especialmente os bracarenses. O silêncio total dos responsáveis do PS, em especial do seu Secretário-Geral, tornam o PS objectivamente cúmplice dessa afronta.

O que pretendem com este acto, em que conseguem a proeza de estarem politicamente sozinhos ? O que os faz correr atrás da memória dessa figura tenebrosa, um dia se saberá. Mas, neste momento, é preciso, é urgente, que o líder do PS ponha cobro a mais esta tentativa desesperada, e respeite a memória daqueles que duramente e corajosamente se bateram contra o fascismo.

Haja vergonha. Haja respeito.
Saudações democráticas
Victor Louro

P.S. – Já em 2008, quando a Assembleia da República aprovou um voto de pesar pela morte do Cónego Melo, o mesmo Víctor Louro enviou uma carta, que então divulguei, ao grupo parlamentar do PS. 
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A Suécia e o multiculturalismo



«A Suécia crê-se uma sociedade homogénea e igualitária. Na realidade, o país tem dificuldade em integrar as suas minorias e a segregação está na ordem do dia. (...)

As imagens [dos motins] que vinham da Suécia deram a volta ao mundo. Um sentimento de raiva num país onde o governo toma conta das pessoas desde o primeiro grito até ao seu último suspiro? Racismo e segregação no país mais igualitário do mundo? Rapidamente se tornou evidente que era verdade. Enquanto o mundo estava distraído, o modelo sueco era posto em causa. A Suécia continua a ser uma sociedade igualitária, mas as desigualdades aumentaram mais do que em qualquer outro país da Europa. (...)

A Suécia concede, todos os anos, cada vez mais vistos de residência, ao contrário de muitos países da Europa, onde esse número baixou. (...)

Em alguns bairros, 80% das pessoas que ali vivem são imigrantes de primeira ou de segunda geração e 50% estão desempregadas, contra os 8% de taxa global de desemprego da Suécia. Um imigrante em cada quatro não acabou a escolaridade. E se 3% das crianças suecas são pobres, essa taxa sobe para os 40% entre as crianças filhas de imigrantes. (...)

Um debate multicultural atrasado
Ullenhag tem a solução: um novo “nós” para a Europa. “Não gosto do facto de, na Europa, o “nós” se referir sempre ao passado. Nos Estados Unidos todas as pessoas que moram em território americano são americanas. Ali, o “nós” está virado para o futuro. É preciso que também seja assim na Europa.”
“Seria tudo muito diferente se começássemos por reconhecer que já não somos o país homogéneo onde toda a gente é igual”, diz o escritor e jornalista Viggo Cavling.
Mas é precisamente isso que a Suécia tem dificuldade em reconhecer, segundo o investigador em imigração Hübinette. “Atualmente, há 19 % de suecos com um ou até mesmo os dois dos seus progenitores de origem estrangeira. Mas ainda não temos consciência disso. É preciso não esquecer que a Suécia nunca teve colónias. É sobretudo por isso que a Suécia é um país nacionalista. Os suecos não gostam apenas de fazer bem, também nos achamos muito bons. Acolhemos voluntariamente os refugiados mas temos dificuldade em reconhecer que os deixamos à mercê de situações inadmissíveis. Temos duas décadas de atraso no debate multicultural.”»

(Daqui)

Cónego Melo – «Ce n'est qu'un début»




1 - Estátua do cónego Melo em Braga foi vandalizada durante a noite




2 - Entretanto:
«O mesmo grupo está a recolher todos os "posts" colocados nas redes sociais para assim dar a conhecer quem são os verdadeiros "fascistas" desta cidade.»


3 - E talvez a melhor solução seja mesmo esta:
Estátua do Cónego Melo vai substituir Lomba nos briefings do Governo

4 - E, porque não, recordar o Zeca:

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O Mascarilha



«Enquanto em Portugal, PSD e PS discutem de forma inflamada quem é que tem "swaps" debaixo da cama, evitando assim discorrer sobre como vamos pagar a enorme dívida portuguesa, a Europa parece uma estátua de gelo. Espera que Ângela Merkel seja reeleita. A seguir virá o novo resgate à Grécia. A seguir olhar-se-á para as contas de Portugal.

A UE colocará, então, a máscara negra na cara e transformar-se-á em "O Mascarilha", o justiceiro das pradarias do sul da Europa. A seu lado surgirá o índio Tonto, papel desempenhado pelo comissário Olli Rehn, que tem como modelo económico a Letónia. (...)

A estratégia de criação de soberanias de ficção, como dizia há dias o filósofo Jurgen Habermas no "Der Spiegel", continua a avançar a todo o vapor, perante a perplexidade dos cidadãos e o silêncio dos líderes políticos entretidos a discutir a bondade dos seus "swaps". Mascarilha e Tonto apontam a direcção. Juntos seguirão o trote do cavalo Silver rumo ao horizonte desconhecido na Letónia criado pela austeridade, com Mascarilha a gritar: "Hi-yo Silver, away"!»

Fernando Sobral no Negócios de hoje (sem link)
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12.8.13

Novas vozes no Brasil (por Lula da Silva)



Concorde-se ou não com tudo, vale a pena ler este texto de Lula da Silva, divulgado no DN de hoje:

«A juventude, conectada nas redes sociais e com os dedos ágeis nos seus telemóveis, tem saído às ruas para protestar em diversas regiões do mundo.

Parecia mais fácil explicar as razões de tais protestos quando eles aconteciam em países sem democracia, como o Egito e a Tunísia em 2011, ou onde a crise económica levou o desemprego juvenil a níveis assustadores, como na Espanha e na Grécia, por exemplo. Mas a chegada dessa onda a países com governos democráticos e populares, como o Brasil, quando temos as menores taxas de desemprego da nossa história e uma inédita expansão dos direitos económicos e sociais, exige de todos nós, líderes políticos, uma reflexão mais profunda.

Muitos acham que esses movimentos significam a negação da política. Eu acho que é justamente o contrário: eles indicam a necessidade de se ampliar ainda mais a democracia e a participação cidadã. De renovar a política, aproximando-a das pessoas e de suas aspirações quotidianas.» 

Na íntegra aqui.
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A luz é como a água



Pelo Natal os meninos tornaram a pedir um barco a remos.
– De acordo – disse o pai –, compramo-lo quando voltarmos a Cartagena.
Totó, com nove anos, e Joel, com sete, estavam mais decididos do que os pais achavam.
– Não – disseram em coro. – Precisamos dele já e aqui.
– Para começar – disse a mãe –, aqui não há água para andar de barco, só há a do chuveiro.

Tanto ela como o marido tinham razão. Na casa de Cartagena de Índias havia um pátio com um molhe sobre a baía e uma doca para dois grandes iates. Em contrapartida, ali em Madrid, viviam apertados no quinto andar do número 47 do Paseo de la Castellana. Mas por fim nem ele nem ela conseguiram escapar, porque tinham de facto prometido aos filhos um barco a remos com sextante e bússola se ganhassem uma medalha no seu terceiro anos da escola primária, e eles tinham conseguido a medalha. Assim sendo, o pai comprou tudo sem dizer nada à mulher, que era mais renitente em pagar promessas. Era um belo barco de alumínio com um fio dourado na linha de flutuação.

– O barco está na garagem – revelou o pai à hora do almoço. – O problema é que não conseguimos trazê-lo pelo elevador ou pela escada, e na garagem não há espaço livre.

No entanto, na tarde do Sábado seguinte, os meninos convidaram os colegas de escola para carregarem o barco pelas escadas, e conseguiram levá-lo até o quarto de empregada.
– Parabéns – disse o pai. – E agora?
– Agora, nada – disseram os meninos. – A única coisa que queríamos era ter o barco no quarto e pronto.

Na noite de quarta-feira, como em todas as quartas-feiras, os pais foram ao cinema. Os meninos, donos e senhores da casa, fecharam portas e janelas, e quebraram a lâmpada acesa de um lustre da sala. Um jorro de luz dourada e fresca como água começou a sair da lâmpada quebrada, e eles deixaram-no correr até que o nível da luz chegou a quatro palmos de fundo. Então desligaram a corrente, foram buscar o barco e navegaram com prazer entre as ilhas da casa.

Gabriel Garcia Márquez, início do conto A luz é como a água, 1978.
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Olhem que dois



Truffaut e Buñuel.
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Quando se fala da segunda reestruturação de dívida grega...



... é bom irmos pondo as barbas de molho, como sói dizer-se.

«Ministro das Finanças helénico admite essa possibilidade, ao mesmo tempo que as revistas "The Economist" e "Der Spiegel" falam do que está a ser omitido ao eleitorado alemão sobre a situação da Grécia. (...)
O "The Greek Reporter" publicou este domingo um balanço arrasador sobre os resultados dos dois programas de resgate à Grécia: o PIB caiu de 233,2 mil milhões em 2008 para 193,7 mil milhões em 2012 e o fardo da austeridade, desde 2009, vai em 122 mil milhões de euros (cortes de salários na função pública, redução de pensões e benefícios sociais, aumentos da carga fiscal e fuga de capitais). O jornal baseia-se em dados do Ministério das Finanças. Os salários no sector público e privado tiveram, em média, um corte de 30%. O rendimento disponível das famílias encurtou-se em 46%. O crédito à economia caiu 34 mil milhões de euros. Os depósitos nos bancos reduziram-se em 75 mil milhões de euros.»

Estado de Excepção



«Em Portugal, a excepção é sempre a regra. Portugal é acusado de ser um Estado de Direito. Falso. É um Estado de Excepção. As regras aplicam-se às maiorias. As excepções a um pequeno núcleo de saltimbancos, que têm direito perpétuo à renda do Estado. Em Portugal, como nos outros países, há crime e há castigo. (...)

O regime vai-se devorando, sem ética e sem moral, como um antropófago. Ainda assim argumenta que há contratos que não podem ser postos em causa e outros que podem ser rasgados. Vive-se um tempo de desprezo pelos portugueses como raramente se viu na história deste país. Estamos numa grave crise. Mas por isso mesmo as excepções deveriam deixar de ser a regra que asfixia o que resta do respeito dos cidadãos pelas instituições.»

Fernando Sobral
(O link pode não funcionar ou só funcionar mais tarde.)
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11.8.13

Regressar aos clássicos


... para esquecer o cónego Melo e o resto.


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Trabalhe para fora cá dentro



Aconselho vivamente a leitura de dois textos de Paulo Moura, incluídos no Público de hoje, sem link para o jornal mas que alguém pôs online na íntegra: «Os call centers vão salvar a economia portuguesa?» e «Se não estás satisfeito, a porta de saída é ali».

Em resumo, explica-se como competências em línguas estrangeiras, boa infra-estrutura tecnológica, salários baixos, desempregados em desespero e boa localização geográfica tornaram Portugal mais atractivo do que a Índia ou o Norte de África para a instalação de mega call centers, uma «oportunidade extraordinária» que pode «salvar a economia portuguesa».

Vale muito a pena ler as descrições sobre as condições de trabalho e de despedimento, para portugueses e não só, em empresas com vários milhares de trabalhadores (4.000 no caso da que é descrita com mais detalhe, 24 línguas de trabalho, todas de falantes nativos).

Já está, mais depressa do que alguma vez pensámos: somos concorrentes dos indianos em trabalho bom e barato. Algo que agrada certamente aos nossos governantes porque fica demonstrado que acertaram (finalmente!) num objectvo: empobrecer a população portuguesa.

Por enquanto em terra, enquanto não se tornar mais vantajoso embarcar toda esta gente numa espécie de cruzeiro fantasma. Passo a explicar. Há cerca de oito anos, foi notícia e causou sensação a existência de um projecto concretizado num navio ancorado a algumas milhas da costa da Califórnia, com 600 programadores indianos que, durante meses sem ir a terra, e muito menos a casa, produziam software para empresas americanas, em regime de outsourcing, em troca de salários baixíssimos. Estando em águas internacionais, esses indianos estavam dispensados de autorização de emigração e de trabalho segundo as leis dos Estados Unidos e, simultaneamente, a sua localização facilitava a rápida e frequente deslocação ao navio de chefes e supervisores americanos. As polémicas não se fizeram esperar e não sei se o projecto teve ou não grande sucesso, mas, aparentemente, continua.

Foi nisso que pensei imediatamente quando li a reportagem de Paulo Moura no Público: quem sabe se, mais cedo ou mais tarde, não embarcam estes milhares de portugueses e não só numa espécie de mega «Call Centers Cruise», ancorado para lá das Berlengas ou onde for necessário, para se livrarem das enfadonhas leis de trabalho que ainda vigoram em Portugal, por mais aligeiradas que estas já sejam e ainda venham a tornar-se em breve. Impossível? Ora! Quais porcos a andar de bicicleta...
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Bem-aventurados são os que ainda se espantam




«Na Câmara, a colocação do monumento foi aprovada com os votos favoráveis do PS e com a abstenção dos vereadores eleitos pela direita. Recorde-se que o secretário-geral do PS, António José Seguro, foi eleito pelo círculo de Braga.» 
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Consistências tóxicas


O texto de Sandra Monteiro em Le Monde Diplomatique (edição portuguesa) deste mês:

«A crise política continua. Tem rostos concretos, que entram e saem do governo, mas também causas mais profundas. As causas conjunturais resultam de termos entrado numa fase nova da crise económica e social: as políticas de austeridade passaram a ser vistas pela população como parte do problema, e nunca da solução, mas apesar disso o executivo anuncia novas escaladas de cortes nas despesas públicas que, a serem aplicadas, teriam efeitos absolutamente devastadores. As causas estruturais prendem-se com práticas já antigas: a promiscuidade e o conluio entre os poderes financeiro e político, ou entre áreas mais agressivas do capital e sectores do Estado cada vez mais permeáveis e mais dependentes desse mesmo capital. Com a crise económica e social a aprofundar-se, o uso e abuso destas portas rotativas por parte de gestores financeiros e detentores de cargos políticos, lesando o interesse público e garantindo lucros privados, gera contradições que manterão a crise política, sejam quais forem os seus rostos.

Os episódios mais recentes da crise política estão a ampliar a compreensão de como opera a engenharia neoliberal – apoiando-se na globalização financeira e na captura do Estado pelos seus gestores e produtos, com a ajuda de instituições europeias e internacionais. Esta percepção pública é fundamental para se entender os interesses divergentes em jogo, que nenhuma «salvação nacional» resolveria, e para que se lute por soluções políticas capazes de afrontar as mil e uma formas de extorsão e de opacidade escondidas atrás da obediência servil aos mercados financeiros.

Durante muito tempo, tudo foi feito para que os achássemos abstractos, quase do reino da ficção. A economia real era a outra, a que produzia os bens e produtos necessários aos nosso consumo, circulação, comunicação, etc.. Nos jornais, as páginas de economia vinham no fim, para especialistas, e as notícias sobre produtos financeiros ou variações bolsistas pareciam ainda mais distantes, para o cidadão comum, do que os engarrafamentos em Lisboa ou no Porto diariamente levados por rádios e televisões a pacatas e recônditas aldeias serranas pareceriam aos seus habitantes. Caímos na armadilha da indistinção entre dualismo e dualidade. Como agora sabemos, não estamos perante dois mundos separados, um «cá» e um «lá», como no dualismo, mas perante realidades interligadas, dualidades, que interagem «aqui» de acordo com interesses e relações de forças.»

Continuar a ler AQUI
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