Páginas

7.12.13

Ainda Mandela e a posição portuguesa em 1987


Um grande, grande texto de Isabel Moreira: «Honrar Mandela por inteiro: da posição portuguesa».

«O pai da pátria sul-africana que conhecemos hoje não nasceu como político, lutador e líder da resistência no dia em que acabaram os conhecidos 27 anos de prisão. Honrar Mandela apenas “a partir da sua libertação”, sublinhando a opção pessoal e política pela conciliação nacional sem vingança histórica, é trair Mandela e a Política. (...)

Ao contrário das omissões presentes nos vários tributos a Mandela, ao contrário de frases que escutámos como “mas no período anterior à sua prisão não era um pacifista e houve crimes dos dois lados”, é precisamente a atitude de Mandela no contexto histórico de luta armada – o que não é terrorismo – contra o regime do apartheid, contra um sistema oficialmente racista – fundamento para a sua condenação a prisão perpétua – e a atitude de Mandela no momento histórico em que encontra e cria condições para a via da conciliação sem luta que faz deste homem um político e um homem de exceção. (...)

A apologia vazia do pacifismo esquece que quem pega nas armas arriscando tudo por um valor universal – a igualdade – não o faz para cometer crimes, fá-lo para pôr cobro a um sistema que é em si mesmo um crime contra a humanidade.

Por exemplo, quando Cavaco Silva diz que “sempre foi contra a luta armada”, e que até viu “com satisfação” que foi essa a via de Mandela, para além de proferir uma frase que me escuso de qualificar, mostra que condena a via da luta de armada que faz parte do percurso do Mandela, figura a quem adere aparentemente por inteiro mas tristemente pela metade.

Como se percebe, aderir “pela metade” é repudiar.»

Indispensável ler na íntegra
.

Propriedade pública


O texto de Sandra Monteiro em Le Monde Diplomatique (ed. portuguesa) deste mês:

«Neste fim de ano, o governo acelerou o programa de reconfiguração do Estado, uma vez mais com intuitos puramente ideológicos e excedendo as próprias metas definidas pela ultraliberal Troika. É obra. Com a privatização dos CTT – Correios de Portugal e com o processo para liquidar a empresa pública Estaleiros Navais de Viana do Castelo (ENVC), seguida da subconcessão ao grupo privado Martifer, prosseguem as engenharias neoliberais que usam o Estado para transferir para o privado negócios muito lucrativos (ou que passarão a sê-lo), a golpes de reduções salariais, despedimentos, precariedade, falta de segurança, degradação da qualidade de serviços prestados e bens produzidos.

Estes dois processos têm vários aspectos em comum. Um dos mais abordados, e bem, é o nebuloso ambiente de secretismo e insuficiente transparência que nenhuma «urgência» pode justificar e que exige investigações isentas sobre eventuais situações de favorecimento ou ilegalidade. Mas os conluios que desprezam ou lesam o interesse público devem também ser analisados de um ponto de vista propriamente político, avaliando as escolhas de sociedade que estão a ser feitas «em nosso nome».

A montante destes processos está um poder político apostado em desembaraçar-se, formalmente ou na prática, de propriedade pública, que a todos nós pertence. O ataque ao público é diverso. Corrói o Estado social (educação, saúde, segurança social), deteriora condições laborais, recusa investimento público contracíclico e martela na comunicação social as pretensas vantagens da gestão privada. Mas não menos importante do que o ataque aos direitos e serviços públicos é efectivamente a questão da propriedade pública. Porque, como bem se vê, ainda que ela não garanta por si só a prossecução de finalidades do interesse público, pelo menos nasce ancorada a elas e é o melhor garante da possibilidade de se adoptarem estratégias adequadas à sustentabilidade económica e social das comunidades.»

Continuar a ler AQUI
.

We have not seen him




Asimbonanga (We have not seen him)
Asimbonang' uMandela thina (We have not seen Mandela)
Laph'ekhona (In the place where he is)
Laph'ehleli khona (In the place where he is kept)

Oh the sea is cold and the sky is grey
Look across the Island into the Bay
We are all islands till comes the day
We cross the burning water

A seagull wings across the sea
Broken silence is what I dream
Who has the words to close the distance
Between you and me

Steve Biko, Victoria Mxenge
Neil Aggett
Asimbonanga
Asimbonang 'umfowethu thina (we have not seen our brother)
Laph'ekhona (In the place where he is)
Laph'wafela khona (In the place where he died)
Hey wena (Hey you!)
Hey wena nawe (Hey you and you as well)
Siyofika nini la' siyakhona (When will we arrive at our destination)
.

6.12.13

Os correios deviam funcionar em capelistas



É pena que por esse Portugal fora restem poucas capelistas, porque seriam lojas bem mais nobres para os velhos receberem as reformas, que até agora iam buscar a estações de correio, do que mercearias onde lhes entregam o dinheiro entre couves lombardas e pacotes de arroz. (Deviam estar gratos, claro, por ainda lhes «darem» qualquer coisa, mas são esquisitos...)

É que as capelistas já eram vocacionadas para venderem de tudo um pouco, desde jornais, linhas, agulhas, o «Modas e Bordados», santinhos e catecismos, até alguns livros e alguma quinquilharia. E encarregavam-se também de apanhar malhas nas meias de nylon das senhoras. Havia tantas na baixa de Lisboa, que a Rua do Comércio foi popularmente conhecida como «Rua dos Capelistas» durante séculos, o mesmo acontecendo em outras cidades onde o nome se mantém até hoje.

Eram locais de bairro, limpinhos, que bem podiam também vender selos, envelopes e Certificados de Aforro e devia haver por aí empreendedores iluminados que as reabilitassem, agora ao serviço de eficacíssimos gestores privados dos CTT.

Claro que também era possível atribuir as antigas funções dos correios às modernas lojas chinesas, mas isso ficará para mais tarde, quando os herdeiros de Mao Tsé-Tung já detiverem a maioria do capital dos Correios de Portugal. 
.

Algures, numa rua de Lisboa



Cruzamento da Av. da República com a Duque d´Ávila.

(Foto de J. Vasconcelos)
.

Mandela, Passos Coelho e ignorância crassa



Não bastava a vergonha do texto das condolências de Cavaco e eis que o de Passos Coelho prima por uma daquelas calinadas que não o deixaria passar em qualquer prova inventada por Nuno Crato para aceder ao que quer que fosse:  

Não saberá o primeiro-ministro de Portugal, ou algum dos seus colaboradores mais próximos, que Mandela defendeu a luta armada contra o apartheid desde de 21 de Março de 1960, data em que ocorreu o Massacre de Sharpeville, e que em 1961 passou a comandante do braço armado do Congresso Nacional Africano (CNA) até ser preso?

Em Junho de 1980, Mandela enviou ao CNA, da prisão onde se encontrava, a seguinte mensagem: «Unam-se! Mobilizem-se! Lutem! Entre a bigorna que é a ação da massa unida e o martelo que é a luta armada devemos esmagar o apartheid!»

Entendidos?
.

Mandela, Cavaco e vergonha na cara



Ao ser conhecida a notícia da morte de Mandela, ninguém imaginava de certo que o presidente da República Portuguesa não enviasse condolências ao seu homólogo da África do Sul.

Mas podia e devia ter evitado, caso se olhasse ao espelho e tivesse alguma vergonha na cara, afirmações como estas:

«A dedicação de Nelson Mandela aos valores da democracia, da liberdade e da igualdade – nas suas palavras, “um ideal por que espero viver e que espero alcançar, mas, se necessário, é um ideal pelo qual estou preparado para morrer” – invadiu os corações de todos quantos o admiram, na África do Sul ou em outro lugar, incutindo esperança, mesmo diante dos desafios mais difíceis.
A atribuição do Prémio Nobel da Paz a Nelson Mandela e a sua eleição massiva para a mais elevada Magistratura da África do Sul simbolizaram o merecido reconhecimento de um político de causas e uma vitória para os Direitos Humanos no mundo.»

Porquê? Porque hoje é dia para recordar que, tal como enviou condolências ontem «em nosso nome», foi também «em nosso nome» que, em 1987, enquanto primeiro-ministro, mandou que Portugal votasse CONTRA esta Resolução da Assembleia Geral das Nações Unidas, que exigia a libertação de Mandela, então condenado a prisão perpétua. Não foram 50, nem 20, nem 10 os países que o fizeram, mas apenas três (como pode ser verificado neste quadro com o resultado da votação): Estados Unidos, Reino Unido... e Portugal. Cavaco, como sempre bem acompanhado, desta vez por Reagan e Thatcher. Já vieram alguns insinuar que o objectivo foi «proteger» a colónia portuguesa da África do Sul – atitude timorata e mesquinha, típica de um governante servil e também mesquinho, ontem como hoje e como será até morrer. E sobretudo, repito, sem vergonha na cara.

P.S. - A TSF cita um comunicado emitido esta tarde por Belém, no qual é explicada a posição de Portugal na ONU, em 1987. 
. .

Mandela song



.

5.12.13

Mandela na primeira pessoa



«Eu aprendi que a coragem não é a ausência de medo, mas o triunfo sobre ele. O homem corajoso não é aquele que não sente medo, mas aquele que conquista por cima do medo.»

«A minha inspiração são os homens e as mulheres que surgiram em todo o globo e escolheram o mundo como o teatro das suas operações, e que lutam contra as condições socioeconómicas que não promovem o avanço da Humanidade, onde quer que este ocorra. Homens e mulheres que lutam contra a supressão da voz humana, que combatem a doença, a iliteracia, a ignorância, a pobreza e a fome. Alguns são conhecidos, outros não. Essas são as pessoas que me inspiraram.»

No dia em que fez 93 anos:

.

Palavras do ano?



Ricardo Araújo Pereira, a propósito da votação para eleger a palavra do ano, promovida pela Porto Editora.

«Alguém ouviu, no decorrer deste ano, (...) "Filhos de uma grande coadopção!" ou "Se fossem mas era todos para o piropo"?»

Na íntegra AQUI.
.

A esperança é a última a morrer

E o líder da década é...?



Teixeira dos Santos dá uma longa entrevista ao Jornal de Negócios, na qual aborda questões de fundo sobre o estado do país e da Europa, numa perspectiva «relativamente optimista» segundo o próprio. Diz que Portugal tem de «recuperar o tempo perdido» nos catorze anos que já leva de permanência do euro e que «gostaria que a Europa ultrapassasse este período onde os nacionalismos e os interesses nacionais têm dominado e que voltemos à motivação e até à visão e ambição de alguns líderes marcantes que tivemos na história da União Europeia».

E é precisamente nesta questão de líderes, ou falta deles, que me detenho. TS terá afirmado que as grandes transformações sociais e económicas costumam ser conduzidas por líderes carismáticos mas que não consegue identificar uma figura que venha a afirmar-se nos próximos dez anos em Portugal ou na Europa.

E quanto ao passado, mais exactamente quanto à última década, que personalidades identifica como as mais marcantes, quem foram os seus «líderes»? A nível internacional, Barack Obama é «figura incontornável». E em Portugal? TS hesita muito e acaba por decidir: Cristiano Ronaldo! (Note-se que a entrevista foi feita antes do último jogo da selecção portuguesa...)

Ao ler esta «nomeação» de CR7 a minha primeira reacção foi de espanto, a segunda de perplexidade: é que não consigo identificar ninguém que tenha marcado o meu país, pela positiva e decisivamente, durante a última década. TS tem provavelmente razão: é ao pontapé que somos bons.
.

4.12.13

Nunca desprezar a sabedoria do grande marketing

Diana Andringa: Old habits die hard...



Crónica de Diana Andringa, Antena 1, «Última Página», 2 de Dezembro de 2013.

«Tenho à minha frente uma fotografia. Mostra três homens: à direita, na foto, Mari Alkatiri, antigo primeiro-ministro de Timor Leste, olha para fora de campo; ao centro, Luís Campos Ferreira, secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação de Portugal, olha, sorrindo amplamente, para a sua direita – onde Xanana Gusmão, actual primeiro-ministro de Timor-Leste, exibe, aberta frente ao peito, uma camisola da Selecção Nacional Portuguesa de Futebol, com o número 7 – o de Cristiano Ronaldo – que, tudo o indica, o governante português acabara de oferecer-lhe.

A fotografia foi tirada a 29 de Novembro, durante a cerimónia de apresentação pública da Associação de Amizade Timor-Leste/Portugal em Dili.

Luís Campos Ferreira, que, na véspera, acompanhara as cerimónias de celebração da Independência, encontrava-se em Timor-Leste em visita oficial que, segundo fora anunciado por um comunicado do Ministério dos Negócios Estrangeiros, seria “uma oportunidade para abordar o estado das relações bilaterais e as perspectivas de as reforçar em novos domínios económicos”.

Quanto à Associação de Amizade Timor-leste / Portugal, de que tanto Xanana Gusmão como Mari Alkatiri são fundadores, representa a vontade do povo timorense de reforçar as relações com o povo português. Nas palavras de Alkatiri, “todos sabem que as relações entre os povos, os Estados e os governos são as melhores possíveis. É tempo de a sociedade civil se organizar e apresentar propostas claras ao nível educativo, social e económico.”

Olho de novo a fotografia e interrogo-me: é certo que Xanana gosta de futebol e que, em Timor-Leste, se vêem os jogos em que Portugal intervém. Mas será uma cópia da camisola do capitão da selecção portuguesa de futebol o melhor símbolo para reforçar as relações bilaterais entre um país colonizador e uma sua antiga, mas ainda recente, colónia? Talvez que, na próxima visita de um governante espanhol a Portugal, possa oferecer ao primeiro-ministro ou ao Ministro dos Negócios Estrangeiros uma camisola de Iker Casillas?»
.

Finalmente uma boa notícia!



Depois do encerramento de um importante cinema e do anúncio da transformação de um outro em centro comercial, sabe-se agora que a mais antiga sala de Lisboa, na rua do Loreto, vai reabrir como «Cinema Ideal», designação que já teve no passado, depois de abrir, em 1904, como «Salão Ideal».

Espera-se que tenha sucesso esta louvável iniciativa para não deixar morrer culturalmente o velho centro de Lisboa. Que seja, como é anunciado, «um cinema virado para a cidade e a comunidade, que funcione em articulação com a Junta de Freguesia, as escolas e todas as instituições e organizações culturais e recreativas da sua área, sabendo inserir-se numa zona da cidade que conhece uma grande renovação e animação urbana». 
.

Direito à desobediência



Não sou grande apreciadora das crónicas de Baptista-Bastos, mas a que hoje publica no DN é bem certeira:

«Salazar afastou-nos da política. Alegava que percebíamos pouco ou nada dos enredos que determinavam o processo histórico. (...)

Promovia a ascensão dos ambiciosos, sobretudo dos que abjuravam dos ideais, e a história dos seus governos está repleta dessa gente. Alguns, mantinham uma relativa ética republicana, de onde procediam, e do ideário maçónico, do qual se não tinham completamente dissociado.
Esta caracterização tem semelhanças, nada abusivas, com o político actualmente no poder. É apenas uma verificação histórica. Acontece um porém: Salazar era culto e bom manejador da língua. Frequentador, com mão diurna e mão nocturna, dos padres António Vieira e Manuel Bernardes, consumia pelo menos 36 horas a redigir os discursos mais importantes. O que nos calhou agora é aquilo que tem provado à exaustão. Mas a consciência antidemocrática é comum aos dois. Por muito que este encha a boca com a palavra "democracia", ele e sua prática são quase um sacrilégio, enquanto o outro só a proferia raramente e, claro!, para a escarmentar.
Somos responsáveis por um e por outro. Muito respeitadores por quem nos desrespeita, nos violenta e nos agride com mentiras e omissões, os nossos protestos quedam-se na obediência à estrutura "orgânica", por natureza cumpridora e legalista. (...)

Os episódios ocorridos na escadaria do Parlamento, e na "invasão" de quatro ministérios, representam veementes censuras ao recalcamento que este Governo nos aplica. O direito à desobediência impõe-se, quando o poder cria formas e estimula métodos contrários aos princípios das próprias noções de convivência social.» (Realces meus.)
.

3.12.13

O primeiro cartaz



... de À bout de souffle, a primeira longa metragem de Jean-Luc Godard, referida a propósito do seu 83º aniversário
.

Godard – 83?



Sim, Jean-Luc Godard faz hoje 83 anos. Esse grande senhor do cinema desde há mais de meio século, da «Nouvelle Vague», dos «Cahiers du Cínéma», da época em que nos precipitávamos para salas de cinema hoje fechadas desde que um novo filme chegava a Portugal ou, mesmo antes disso, quando assistíamos a duas ou três sessões por dia num qualquer pequeno cinema do Quartier Latin em Paris, é mais do que octogenário.

Tenho bem presente a sua primeira longa metragem – À bout de souffle -, vista na única sala então existente em Lovaina, e como de lá saí também... à bout de souffle. Outras se seguiram, das quais guardo num «cofre» muito especial La chinoise e, sobretudo, para sempre, forever, Pierrot le fou.










Com duas notas inesquecíveis deste último filme: uma canção e uma frase que ficou.



«Qu'est ce que je peux faire ? J'sais pas quoi faire ! Qu'est ce que je peux faire ? J'sais pas quoi faire ! Qu'est ce que je peux faire ? J'sais pas quoi faire!»

Tudo mais do que datado? É bem possível.
.
.

Diálogos improváveis




«James Glassman, economista do banco norte-americano JP Morgan, responde ao Papa Francisco dizendo que a “pobreza não é um fenómeno contemporâneo” e que as economias de mercado estão a fazer mais para pôr fim à pobreza ao nível mundial do que todos os esforços que foram desenvolvidos no passado para erradicar a pobreza.»

Está à vista!!!
.

Dúvida: As pessoas gastaram mesmo «acima das suas possibilidades»?



A IAC publicou recentemente um documento com «10 Perguntas Frequentes sobre a Dívida» e respectivas respostas, simples e sucintas, que ajudam a eliminar muitos «fantasmas». Escolho uma: 

As pessoas gastaram mesmo «acima das suas possibilidades»?

Quando nos dizem “gastámos acima das possibilidades” querem-nos culpar pelo endividamento e preparar-nos para pagar essa “culpa”, custe o que custar. No entanto, o plural no “gastámos acima das nossas possibilidades” é no mínimo um pouco exagerado.

O PIB é muitas vezes descrito como um “bolo” a repartir por diferentes usos. Se olharmos desta forma para o PIB, descobriremos que a parte do “bolo” que foi consumida pelas famílias e pelo Estado aumentou muito pouco entre 1995 e 2007. O que mais mudou na repartição do “bolo” neste período foi o peso das importações devido à substituição de produção nacional por bens e serviços provenientes do exterior. As importações passaram de 34 % do PIB em 1995, para 40 % em 2007.

Quem se endividou? Parte da resposta encontra-se num estudo do Banco de Portugal e do INE chamado Inquérito à Situação Financeira das Famílias 2010, publicado em maio de 2012. Lendo esse estudo fica-se a saber que em 2010:
  • a maior parte das famílias portuguesas (63%) não devia nada aos bancos ou a qualquer outra instituição financeira;
  • a maior parte das dívidas das famílias dizia respeito à aquisição de habitação (24,5 % das famílias portuguesas estava a pagar empréstimos contraídos para adquirir habitação principal); 
  • poucas famílias tinham outras dívidas (3,3% tinham contraído empréstimos para adquirir outros imóveis, 13,3% para outros fins e apenas 7,5% estavam a pagar empréstimos obtidos com cartão de crédito, linhas de crédito e descobertos bancários);
  • quem devia era quem tinha maior rendimento (nos 10% das famílias com maior rendimento, 57,4% das famílias eram devedoras; no grupo das 20% com menor rendimento apenas 18,4 % das famílias estavam endividadas)..

2.12.13

De adiamento em adiamento...



Portugal lança amanhã troca de dívida de 2014 e 2015 por prazo mais longo.

«O objetivo desta estratégia é simplesmente mascarar o desastre que constituiu o programa de ajustamento, à custa da sustentabilidade da dívida no médio prazo. É uma estratégia míope e irresponsável, que visa exclusivamente prolongar a sobrevivência do pior Governo da nossa democracia, atirando os consequências para os vindouros.»
(Daqui)
 
And remember: 2014 e 2015 são anos de eleições!
.
.

Bela imagem do tempo que passa


.

Austeridade, esse pacto suicida



Regresso a Mark Blyth e a mais uma entrevista divulgada hoje no Público: «A austeridade na Europa é um verdadeiro pacto suicida»

Recordo uma outra que já referi e que pode ser ouvida na página da tsf (com tradução simultânea). E remeto para o vídeo (em inglês) que reproduz, na íntegra, a conferência que MB fez em Lisboa, no passado dia 29 de Novembro (57 minutos que não serão desperdiçados).

Do Público de hoje:

«A Suíça funciona, porque eles ficam com o dinheiro que todos querem esconder. Se todos tentarmos ser a Suíça, claramente não vai resultar. Um país pode [querer] ser o próximo campeão das exportações, mas só pode haver um. É o mesmo argumento quando dizem que se tem de ser mais competitivo. Não há dúvida de que dez anos de crédito fácil vindos de excedentes do Norte para os bancos do Sul levaram à bolha imobiliária em Espanha. O maior problema de Portugal dos últimos 20 anos é a demografia e crescimento muito baixo. E agora têm um problema e precisam de uma resposta: o país precisa de um novo modelo económico. Mas não é Bruxelas quem deve decidir, é algo que cabe aos portugueses decidir. (...)

A solução passa pela mutualização e pelo perdão das dívidas. Não nos podemos esquecer que, em 1953, a economia alemã estava de rastos e com o desemprego em alta, e o milagre económico alemão veio com o perdão da dívida em 1953 na Conferência de Londres. É o que se faz quando as economias têm uma dívida, mas os alemães esqueceram-se disso. Acha honestamente que os gregos conseguem pagar a sua dívida? [O caso de] Portugal é exactamente a mesma coisa. (...)

Portugal deve tentar uma reestruturação da sua dívida?
Claramente que sim, basicamente porque não vai conseguir pagá-la. Neste tema, têm-se colocado em primeiro plano questões de moral. “Quem deve, tem de pagar”, é o que se diz. Mas, de um ponto de vista económico, se há muito mais pessoas prejudicadas do que beneficiadas pelo facto de um Estado tentar pagar as suas dívidas, que tipo de resultado global em termos de bem-estar é que vamos ter? Uma atitude moralista muitas vezes não tem bons resultados económicos. Mas a moral é muito apelativa. Todas a gente gosta da ideia de que se tem de pagar as dívidas, desde que não seja a própria dívida.» (O realce é meu.) 
.

Dantes, vinha o padeiro e o leiteiro

Há mar e mar, por vezes sem volta a dar



A propósito do caso dos Estaleiros de Viana do Castelo:

«Alexandre O'Neill converteu uma frase em destino: "Há mar e mar, há ir e voltar". Era esse também o sonho dos navegadores portugueses ou mesmo dos emigrantes quando olhavam para o Atlântico. (...)

Em Portugal, passa-se a vida a falar do mar (...) O problema é que muitas das declarações dos responsáveis políticos sobre o tema é um aglomerado de boas intenções. A grande estratégia marítima nacional, desenvolvida pela sua classe política, centra-se no consumo de lagosta à mesa. É a política da espuma.

Se dúvidas houvesse sobre isso, bastava atentar para a sistemática destruição do património de construção naval em Portugal, de que o recente caso dos Estaleiros de Viana do Castelo é exemplar. Depois de despedir 600 trabalhadores, o ministro Aguiar-Branco veio dizer que esse foi o dia do renascimento. Parecia o discurso de um marinheiro de água doce.»

Fernando Sobral, no Negócios de hoje.
.

1.12.13

O dia a acabar sem defenestrações



... contrariamente às esperanças de muitos. Os conjurados são agora bem mais mansos do que antanho e parecem querer esperar, com confiança, pela irrevogável restauração.

No tempo em que os animais falavam, nesta data íamos a Badajoz comprar caramelos, de preferência marca Solano, porque para os espanhóis não era feriado e nós teimávamos em festejar a nossa independência. Agora o protectorado é outro e não celebramos coisíssima nenhuma. 
.
.

Woody Allen, 78



Woody Allen nasceu em 1 de Dezembro de 1935. Não é fácil acreditar que seja quase octogenário mas é assim... E como recordar é manter vivo o prazer, lembro um dos seus primeiros filmes – «Take the money and run» (1969, «Inimigo Público» em português) –, que nem sei quantas vezes revi, e um dos últimos: «Midnight in Paris» (2011):






Um texto seu, mais do que batido mas genial:

Na minha próxima vida quero vivê-la de trás para a frente
Começar morto para despachar logo o assunto.
Depois acordar num lar de idosos e sentir-me melhor a cada dia que passa. Ser expulso porque estou demasiado saudável, ir receber a pensão e começar logo a trabalhar. Receber logo um relógio de ouro no primeiro dia. Trabalhar quarenta anos até ser novo o suficiente para gozar a reforma. Divertir-me, embebedar-me e ser de uma forma geral promíscuo, e depois estar pronto para o liceu. Em seguida a primária, fica-se criança e brinca-se. Não temos responsabilidades e ficamos um bebé até nascermos. Por fim, passamos nove meses a flutuar num SPA de luxo com aquecimento central, serviço de quartos à descrição e um quarto maior de dia para dia, e depois....voilá!
Acaba tudo com um orgasmo!

 
.

O nosso futuro é o mar


.

Os velhos


@António Cunha

«Um exemplo avulta nos últimos dias, que já vem de trás, mas que ganha uma nova dimensão: o ataque aos velhos por serem velhos, uma irritação com o facto de haver tanta gente que permanece como um ónus para o erário público apesar de já não ser “produtiva”, de não ter saída no “mercado do trabalho”, de estar “gasta”. De ministros que não leram Camões e nem sequer sabem quem são os “velhos do Restelo”, a gente que pulula nesse novo contínuo dos partidos e do Estado que são os blogues, a umas agências de comunicação que são as Tecnoforma dos dias de hoje, boys e empregados de todos os poderes para fazerem na Internet e nos jornais o sale boulot, todos, de uma maneira ou de outra, atacam os velhos, por serem velhos. Numa sociedade envelhecida, isso significa atacar a maioria dos portugueses, em nome de uma ideia de juventude “empreendedora”, capaz de fazer uma empresa do nada só com “ideias”, “inovação” e design, sem os vícios do “passado”, capaz de singrar na vida sem “direitos adquiridos”, nem solidariedade social, imagem que tem o pequeno problema de ser tão mitológica como a Fada dos Dentinhos. (...)

Swift escreveu em 1729 uma sátira sobre a pobreza na Irlanda chamada Uma modesta proposta para evitar que as crianças dos pobres irlandeses sejam um fardo para os seus pais e o seu país e para as tornar um benefício público. Aconselhava os pobres a comerem os filhos, como meio de combater a fome, “grelhados, fritos, cozidos, guisados ou fervidos”. Na verdade, quando se assiste a este ataque à condição de se ser mais velho – um aborrecimento porque exige pagar reformas e pensões, faz uma pressão indevida sobre o sistema nacional de saúde, e, ainda por cima, protestam e são irreverentes –, podia avançar-se para uma solução mais simples. Para além de os insultar, de lhes retirar rendimentos, de lhes dificultar tudo, desde a obrigação de andar de repartição em repartição em filas para obter papéis que lhes permitam evitar pagar rendas de casa exorbitantes, até ao preço dos medicamentos, para além de lhes estarem a dizer todos os dias que ocupam um espaço indevido nesta sociedade, impedindo os mais jovens de singrarem na maravilhosa economia dos “empreendedores” e da “inovação”, será que não seria possível ir um pouco mais longe e “ajustá-los”, ou seja, exterminá-los?»

José Pacheco Pereira