21.12.13

Acordos e seus porquês



José Pacheco Pereira, no Público de hoje, a propósito do acordo Governo-PS sobre o IRC. E não só. 

«É que o acordo sobre o IRC não é sobre o IRC. O IRC, repito, foi o pretexto. Aliás, a pergunta mais simples a fazer, a óbvia, aquela que a comunicação social, se não estivesse subjugada à agenda e aos termos dessa agenda do poder político dominante, faria é esta: por que razão é que um acordo deste tipo não veio da Concertação Social, mas de conversações entre os dois partidos? Por que razão é que o Governo nunca esteve disposto a fazer este tipo de cedências diante da CCP ou da UGT, já para não dizer da CIP e da CGTP, mas está disposto a fazê-lo com o PS? Ou, dito de outra maneira, que vantagem tem o Governo em fazer este acordo com um partido da oposição e não com os parceiros sociais? Ou ainda melhor: o que é que o PSD e o CDS obtiveram do PS que justificou este remendo, aliás, pequeno e de pouca consequência, na sua política? É que, convém lembrar, o Governo não precisava do voto do PS para passar esta legislação, e é por isso que o único ganho de causa é o do Governo. (...)

O PS de Seguro mostrou que não é confiável como partido da oposição e que ou não percebe o sentido de fundo da actual política de “ajustamento”, de que este abaixamento do IRC é um mero epifenómeno, ou, pelo contrário, percebe bem de mais e quer ser parte dela. Inclino-me, há muito, para a segunda versão. Seguro e os seus criaditos diligentes estão ali para servirem as refeições aos que mandam, convencidos que as librés que vestem são fardas de gala num palanque imaginário. Vão ter muitas palmas e responder com muitos salamaleques.» 
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E o Parlamento Europeu ali à vista



Hoje é o dia mais curto do ano e muito em breve, com mais horas de Sol e assim que as festas terminarem, começará uma fase atarefada na corrida para as eleições europeias que são já «depois de amanhã» – daqui a cinco meses, quase nada.

Para além das querelas internas para uma dança de apetecíveis cadeiras, nos partidos «clássicos» e na coligação PSD+CDS, ver-se-á então como é que uma parte da esquerda acabará por se arrumar, com Manifesto 3D legalizado como partido ou nem por isso, com o LIVRE ou sem ele, com o Bloco metido no embrulho ou não, num cenário lançado há poucos dias de uma forma «codificada» (para citar a expressão utilizada ontem por Francisco Louçã para a caracterizar, no programa Tabu da SIC Notícias) e cuja «descodificação» terá de acontecer nas próximas semanas. Esperemos para ver – e para perceber.

Mas o que me faz temer que tudo isto seja ainda mais complicado do que previsto é ler que Marinho Pinto sempre virá a ser cabeça de lista pelo MPT (Movimento Partido da Terra). Caso isso se confirme, é mais do que garantido que vai ultrapassar tudo e todos pela esquerda, por cima, por baixo, por tudo quanto é direcção, num inevitável populismo de que temos sido poupados até agora. As esquerdas, sejam elas quais e quantas forem, que se cuidem...

Alguns acharão que todo este leque de variantes até poderá ser interessante (e divertido...) mas, pelo menos para já, o que vejo parece-me demasiado paroquial para ser suficientemente importante e decisivo para a força que se impunha que tivéssemos na próxima representação portuguesa no Parlamento Europeu. A ver vamos, oxalá esteja enganada.
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O frio não convida


... neste dia mais curto do ano, mas é uma delícia ver como eram as praias da linha, onde alguns dos nossos antepassados passavam férias, nos anos 20 do século passado. 


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13-0, resultado sem dó



«Ontem, no meio da multidão do constitucionalismo, ninguém fez uma conta simples: 13 a 0. Era o essencial do assunto. O Tribunal Constitucional tem de subordinar as leis à Constituição. O TC são dez juízes escolhidos pelos partidos e três pelos próprios juízes - se as votações são renhidas pode suspeitar-se de que o partidarismo teve alguma influência. Mas se a votação for unânime, uma coisa é certa: quem fez a lei é um nabo incapaz de prever o óbvio. Como um chumbo atrasa e prejudica o País, esse governante que nem sabe ver uma obviedade deve ser apontado. O 13 a 0 era para ser dito e passar a outro assunto, 13 a 0 é um resultado sem dó.» 

Ferreira Fernandes

20.12.13

Hoje é dia de recordar


... o espectacular atentado contra Carrero Blanco.



A ler: .Espanha. Carrero Blanco foi morto pela ETA há 40 anos.

Quem então já era «grande» recorda-se-á do slogan que passou a correr imediatamente em Espanha nos meios antifranquistas e que depressa chegou a Portugal: «Arriba Franco, más alto que Carrero Blanco!».
Mais tarde, em Setembro de 1975, quando se deu em Lisboa a ataque à Embaixada de Espanha, foi em português que a frase foi gritada. 
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O país não quer derrubar o governo e o resto são sonhos de Inverno



Sempre que saem resultados de uma nova sondagem, surgem os cépticos que nelas nunca acreditam e que preferem denunciar sinais de manipulação sistemática, como se nenhuma das empresas que as fazem tivessem profissionais honestos e como se não precisassem de credibilidade sustentada para continuarem no mercado. Não é o meu caso e por isso vou olhando para todas as que aparecem.

Hoje foi divulgada mais uma (das habitualmente mais credíveis, na minha opinião), da Eurosondagem para o Expresso e para a SIC, e os resultados falam por si. As variações são muito pequenas, mas, em Dezembro, os partidos da coligação sobem, e o BE também, PS e CDU descem.

Mas muito mais impressionante e significativo é, no meu entender, o segundo gráfico que mostra a evolução das intenções de voto no último ano, de Dezembro de 2012 a Dezembro de 2013.

Apesar de tudo o que aconteceu este ano, o principal partido do governo está exactamente na mesma (e o CDS desceu mas não dramaticamente). Não houve reacção significativa contra a austeridade, que o arrasasse, greves, manifestações e grandoladas não o beliscaram em 2013? Aparentemente não e a explicação mais óbvia, e mais do que provavelmente verdadeira, é que os eleitores não identificam no horizonte qualquer alternativa solidamente credível. E quanto a luz ao fundo do túnel? Pois, não parece haver...

P.S. - Pedro Magalhães continua a publicar as estimativas saídas das sondagens, depois de «deglutidas» e «digeridas» por um agregador, e já tem aqui em conta os resultados desta que saiu hoje. 
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Quem diz Rosalinda diz Rosalindo



Ele também vai ter tempo para ir ver o mar.

(Sugerido por Francisco Seixas da Costa no Facebook)
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Onde isto já vai!



Qual Bagão Félix, qual Pacheco Pereira, qual Manuela Ferreira Leite! Até Alberto João Jardim já disse hoje que o Tribunal Constitucional «chumbou e bem» o regime de convergência das pensões, «porque violava o princípio da igualdade e o princípio da confiança no Estado», e defendeu a «reestruturação da dívida».

É que o rei vai mesmo nu e o governo é uma ilha isolada.
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Da série grandes capas


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19.12.13

Dois em um – Piaf e O'Neill



Pouco terá havido em comum (ou talvez não...) entre Édith Piaf e Alexandre O'Neill, excepto que no dia em que Alexandre nasceu Édith festejou o seu nono aniversário, já pelas estradas de França com os pais, em circos itinerantes, depois de uma aparente cegueira cuja cura foi atribuída a um milagre de Santa Teresa de Lisieux.

Ambos nasceram a 19 de Dezembro (de 1915 e de 1924), ambos foram grandes e todos os pretextos são bons para os trazer de volta. 


De O'Neill:

A história da moral

Você tem-me cavalgado
seu safado!
Você tem-me cavalgado,
mas nem por isso me pôs
a pensar como você.

Que uma coisa pensa o cavalo;
outra quem está a montá-lo.

Alexandre O'Neill, De Ombro na Ombreira, 1969

E este excerto inesquecível de Portugal:

«Ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!»

Quanto a Piaf, escolher é sempre difícil. Uma das mais belas canções sobre Paris e outra das minhas preferidas desde sempre:




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E quanto a apartheid



Ricardo Araújo Pereira regressa ao funeral de Mandela, na Visão:

«Os dirigentes dessas potências, passando por episódios esquizofrénicos mais intensos que o do intérprete, curvaram-se perante o cadáver do homem que ajudaram a manter preso. (...)
[Referindo-se a afirmações de Teresa leal Coelho] Todos os homens da minha família casaram com mulheres cujo idioma é o português, menos o meu primo Serafim que casou com uma belga e por isso não tem a mesma estatura moral que o resto dos Pereiras. Mas, a todos os outros, o matrimónio conferiu perfil de grande estadista.»

Na íntegra AQUI.
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Mais depressa se apanha um Crato do que um coxo




Ontem:
- Evidentemente que a Escolas Superiores de Educação e as Universidades têm características diferentes e critérios de exigência muito diferentes. (...)
- Mas a sua dúvida incide sobre os licenciados nas escolas Superiores de Educação?
- A minha dúvida, neste caso concreto de que estou a falar, que é a preparação, incide sobre esses casos.



(Entrevista na íntegra aqui. Percebe-se perfeitamente que Crato se está a referir às ESE.)

Hoje:
Nuno Crato nega ter criticado politécnicos.

Porreiro, pá!

O destino marca a hora e futuro não tem nome



«Não há segredos que o tempo não revele, escreveu o dramaturgo francês Racine, e por isso estou convencido de que vamos ter de esperar seis meses, alguns dias, várias horas e ainda uns tantos minutos para sabermos onde vai estar Paulo Portas quando o relógio que marca a contagem decrescente para a saída da troika chegar ao zero.

Por essa altura, o mais provável é que o tal relógio, caso ainda exista, assinale a entrada de Portugal na hora Mario Draghi. Ou seja, o momento em que entrarmos no programa cautelar, que ainda é a melhor hipótese de nos safarmos do enorme bico-de-obra em que estamos metidos. (...)

O tempo é uma ilusão, lembrava ainda Einstein, e por isso quem quiser que cultive as suas. Basta não ter um pingo de vergonha na cara. O relógio da contagem decrescente é uma brincadeira de mau gosto e uma desconsideração para com os sacrifícios dos portugueses que Paulo Portas elogia, no seu nacionalismo de loja chinesa. Porque transforma a crise num espectáculo e cria a ilusão de uma saída que não existe.

O destino marca a hora e o futuro não tem dono, cantava Tony de Matos quando a televisão era a preto e branco e já havia relógios digitais, mas só nos foguetões que iam para a Lua que víamos partir na televisão quando chegava ao fim a contagem decrescente em inglês.»  

(O link pode funcionar ou não. Com o Público online, agora, isso depende de várias circunstâncias...) 

P.S. - E por falar em Tony de Matos...
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18.12.13

Que pretende provar a prova (dos professores, claro)?



O jornal i divulga excertos da prova de avaliação, que os professores deviam ter feito hoje e que foi justissimamente boicotada por muitos. Mas para além desta luta contra mais uma teimosia governamental, tão absurda como tantos outras, vale a pena dar uma vista de olhos às perguntas.

Copio uma, a título de exemplo, mas qualquer das outras servia para o efeito:

Item 30
No relatório de uma escola, uma refeição completa inclui: sopa, prato principal, sobremesa e bebida. O relatório disponibiliza uma variedade de sopa, quatro pratos principais diferentes, três variedades de sobremesa e dois tipos de bebida.
30. Qual é o número de refeições completas que estas disponibilidades permitem obter?
(A)24 (B)15 (C)12 (D)9

Confesso a minha perplexidade. O que é que se pretende averiguar especificamente quanto à capacidade dos candidatos para serem PROFESSORES? Chegados a este ponto, por que motivo não devem os médicos responder exactamente às mesmas perguntas, por exemplo para acederem à especialidade? Os militares para não acertarem tiros fora do alvo? Ou os candidatos a deputados para termos a certeza de que têm um QI razoável e que treinaram bastante nos «Descubra as diferenças» dos jornais?

Se a prova serve apenas para eliminar uns milhares de pessoas, era mais honesto recorrer a rifas ou, sei lá..., à velha lengalenga infantil: «Um dó li tá / Cara de amendoá / Um segredo coloreto / Quem está livre, livre está.» Em vez de humilhar e torturar seres humanos.
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BCE e o relógio de Portas


@Luís Afonso

Negócios de hoje.
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Quando Portugal deixou de ser indiano



Foi na manhã de 17 de Dezembro de 1961 que tiveram início as operações militares que levaram à ocupação da cidade de Pangim, capital de Goa, na noite do dia seguinte. O «império português» levou então uma grande machadada com a anexação de parte do seu território pela União Indiana.

Os factos são conhecidos mas vale talvez a pena recordar o célebre discurso que Salazar fez na Assembleia Nacional, em 3 de Janeiro de 1962 (*). É um longo elogio (de 24 páginas A5...) ao «pequeno país» que manteve o seu território «com sacrifícios ingentes», ignorados e combatidos por quase todos e, antes de mais, pela ONU, desde sempre objecto de um ódio muito especial.

Ficam algumas passagens a começar pela primeira frase do texto: «Não costumo escrever para a História e sinto ter de fazê-lo hoje, mas a Nação tem pleno direito de saber como e porque se encontra despojada do estado Português da Índia». Mais: «Não sei se seremos o primeiro país a abandonar as Nações Unidas, mas estaremos certamente entre os primeiros. E entretanto recusar-lhes-emos a colaboração que não seja do nosso interesse directo.» Há que perguntar se vamos no bom caminho «quando se confiam os destinos da comunidade internacional a maiorias que definem a política que os outros têm de pagar e de sofrer».

Amplamente conhecida é a frase que encerra o discurso: «Toda a Nação sente na sua carne e no seu espírito a tragédia que se tem vivido, e vivê-la no seu seio é ainda uma consolação, embora pequena, para quem desejara morrer com ela.» Trágica e heróica como o seu autor.
(*) Estava afónico «com as emoções das últimas semanas» e quem o leu, de facto, foi Mário de Figueiredo.
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17.12.13

A noiva disse «Sim»

Jekyll e Hyde



Infelizmente, é bem verdade...

«PSD e PS são o Hyde e o Jekyll da política portuguesa. Nada os separa, tudo os opõe. Ambos parecem mover-se em sistemas ideológicos diferentes. Na realidade estão os dois sobre a influência do mesmo centro de gravidade: os mercados, a subserviência da política face aos centros financeiros, o colapso das ideologias que estão hoje reféns de serem boas gestoras das finanças públicas. (…)

PS e PSD aplicam a mesma curiosa estratégia: um discurso circular que evita enfrentar a realidade e que esquece que a construção do ânimo de uma nação é uma tarefa colectiva dos cidadãos. Estávamos à espera que Jekyll e Hyde estivessem de lados opostos da barricada? Impossível, como provaram na Alemanha a CDU e o SPD, que no íntimo pensam o mesmo dos países periféricos e da austeridade como fé salvadora das almas penadas. Os regimes europeus estão bloqueados. A diferença é só de riqueza de cada nação.»

Fernando Sobral, no Negócios
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Maria e José não chegam a Belém

A «honra» de Lagarde



«Há praticamente um ano, Olivier Blanchard, um prestigiado académico, economista chefe do FMI, admitiu publicamente o erro que cometera ao subestimar os efeitos contraccionistas da austeridade, juntando-se aquilo que era já a opinião conhecida de alguns técnicos.

Christine Lagarde que, no início de toda esta história, dissera que Portugal não iria apenas sobreviver mas até crescer com o programa de austeridade, foi-se multiplicando em declarações que a distanciavam da austeridade, criando a maior perplexidade em todos os que assistiam à teimosia obstinada da troika.

Se não se podem deixar de ver laivos de hipocrisia ao longo da sua actuação, bem mais grave é a sua última afirmação crítica da austeridade e do seu ritmo: "Dissemo-lo porque é também uma questão de honra para o FMI reconhecer os seus erros quando eles são cometidos ou de reconhecer que alguns temas não foram suficientemente abordados e explorados a fundo".

Que pensar, com efeito, de alguém que pensa que lava a honra da instituição a que preside pela simples admissão de que errou sem sequer pedir, pelo menos, desculpa aos Estados a quem impôs programa errados, ou aos milhões de vítimas dessa política?

No mínimo, que a honra de Christine Lagarde se perdeu.»

Eduardo Paz Ferreira, no Negócios. (O link pode só funcionar mais tarde.)
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16.12.13

Do fundo do baú



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A musa de Ingmar Bergman



As listas de efemérides assinalam uma séria de acontecimentos importantes em dias 16 de Dezembro, desde mortes de personalidades tão diferentes como Afonso de Albuquerque (1515), Rasputin (1916) e Silvana Mangano (1989), até ao início do ataque norte-americano ao Iraque na chamada «Operação Raposa do Deserto» (1998) e ao Massacre de Wiriyamu, em Moçambique, pelos esquadrões especiais de Kaúlza de Arriaga e da PIDE (1972).

No rol de nascimentos, cinco estrelas para Beethoven (1770), obviamente, mas é um outro que me apetece destacar: o da actriz Liv Ullmann, nascida no Japão e que muitos julgam sueca mas que é norueguesa e que faz hoje 75 anos.

Quem não viu e admirou Ingmar Bergman não só mas também através dela, que levante o dedo, quem esqueceu Persona («A Máscara», em Portugal), o seu primeiro filme de 1966 é porque tem a memória curta, quem não reteve as imagens do seu papel em Saraband (2003), o último filme realizado por Bergman, seu marido e companheiro durante décadas, e pai da sua filha Linn Ullmann, não sabe o que perde.

Em documentário datado de 2012 – «Liv & Ingmar» – fala da relação com Bergman e de amor, de cinema e da velhice.






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Qual retoma?



«Não há memória de nenhuma economia ter crescido com políticas de austeridade, que apenas devem servir para regular o excessivo crescimento, altura em que nunca foram aplicadas. Aliás, as políticas sucessivas de cortes de salários e de pensões têm alimentado o ciclo da pobreza em Portugal. Menos rendimento implica menos produtividade, menos investimento e menos consumo. (...)

Vivemos hoje num país mais pobre, mais deprimido e com muitas decisões estratégicas pertinentes para tomar, como a reforma do Estado e a da segurança social. Estas reformas tardam em chegar, enquanto as autoridades monetárias e orçamentais portuguesas e europeias vão gerindo o sistema, sem o reformar, transformando alguns países em "laboratórios de ensaios" de políticas inadequadas que procuram corrigir os erros de uma classe política medíocre, à conta dos sacrifícios dos cidadãos e das empresas que geram valor acrescentado e emprego.

Portugal representa a falência de um sistema em que se baseou a sociedade europeia desde o final da II Guerra Mundial, em que as condições estruturais eram completamente diferentes das do século XXI.» 

Miguel Varela, no Negócios.
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O relógio de Portas e o nosso



Parece que Paulo Portas inaugurou ontem, na Largo do Caldas, um relógio com contagem decrescente para a saída da troika do país. Mais um show off e umas ideias apatetadas.


Antes assim:

«2014 é o primeiro ano em que vamos poder falar de Portugal sem troika Portas. É este caminho, com uma contagem descendente para o final do programa governo com a troika, que dá sentido e dá valor a todos os sacrifícios esforços para o deitar abaixo.» 
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15.12.13

Vivemos acima das nossas expectativas


Claramente. Ou não teríamos esperado muito mais destes quatro. É que nem deu para sorrir...



Mas deu para levantar outra controvérsia.
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O cavalinho do Rossio



Eu nasci portuguesa de segunda, numa cidade linda que dava pelo nome de Lourenço Marques, e vim de lá com pouco mais de nove anos – «retornada» portanto a esta metrópole, muito, muito antes de a palavra «retornado» ser inventada.

Detestei Lisboa desde que pus um pé em terra, depois de uma bela viagem de quase um mês sempre em festa, por essa África acima, no já velho paquete «Pátria» da Companhia Colonial de Navegação. E detestei Lisboa porque se gravaram em mim, para sempre, imagens de uma cidade tristíssima, com pessoas vestidas de preto ou cinzento, a viverem em camadas dentro de prédios, em ruas estreitas, ainda ao som de pregões e de gritos de vendedeiras que espalhavam canastras de peixe pelo chão – tudo coisas que deliciavam a minha mãe, que assim matava saudades da terra dela, e que me horrorizavam e só faziam com que quisesse voltar para a minha. Faltavam-me as acácias vermelhas, a Polana, o calor, os cheiros e sobretudo os grandes espaços.

Mas alguns dias depois de desembarcar levaram-me ao Rossio depois de jantar e rendi-me. Era Verão e a praça pareceu-me enorme, estava cheia de gente e de anúncios luminosos que me deixaram boquiaberta. Um, entre todos, maravilhou-me: um cavalinho todo iluminado, que fazia propaganda do Brandy Constantino e que mexia constantemente as patas, que até andava! Nunca vira nada de parecido, disso não havia mesmo na minha terra. O Rossio passou a ser a minha Broadway e o cavalinho reconciliou-me com Lisboa.

(Imagem daqui
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As Cidades e as Praças (53)



Praça Bolivar (Aracataca, 2012)



Igreja de S. José, onde foi baptizado Gabriel García Márquez.


(Para ver toda a série «As Cidades e as Praças», clicar na etiqueta «PRAÇAS».)
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No dia das últimas despedidas a Mandela



... recordem-se as suas palavras em 20 de Abril de 1964, no Tribunal Supremo de Pretória que viria a condená-lo a prisão perpétua. Mandela explica, entre muitas outras coisas, por que motivo recorreu à violência para combater o racismo.

«Llegué a la conclusión de que, puesto que la violencia en este país era inevitable, sería poco realista seguir predicando la paz y la no violencia. No me fue fácil llegar a esta conclusión. Solo cuando todo lo demás había fracasado, cuando todas las vías de protesta pacífica se nos habían cerrado, tomamos la decisión de recurrir a formas violentas de lucha política. Lo único que puedo decir es que me sentía moralmente obligado a hacer lo que hice.

Eran posibles cuatro formas de violencia. Está el sabotaje, está la guerra de guerrillas, está el terrorismo y está la revolución abierta. Optamos por adoptar la primera. El sabotaje no conllevaba la pérdida de vidas y era lo que ofrecía más esperanzas para las relaciones interraciales en el futuro. El resentimiento sería el mínimo posible y, si la estrategia daba sus frutos, el Gobierno democrático podría llegar a ser una realidad. (...)

Los blancos no fueron capaces de responder proponiendo cambios; respondieron a nuestro llamamiento proponiendo los laager, una especie de fortines improvisados. Por el contrario, la respuesta de los africanos fue de ánimo. De repente, volvía a haber esperanza. La gente empezaba a hacer conjeturas sobre cuándo llegaría la libertad. (...)

Esto, por tanto, es contra lo que lucha el ANC. Su lucha es una auténtica lucha nacional. Es una lucha de los africanos, movidos por su propio sufrimiento y su propia experiencia. Es una lucha por el derecho a vivir. Durante toda mi vida me he dedicado a esta lucha de los africanos. He luchado contra la dominación de los blancos, y he luchado contra la dominación de los negros. He anhelado el ideal de una sociedad libre y democrática en la que todas las personas vivan juntas en armonía y con igualdad de oportunidades. Es un ideal por el que espero vivir y que espero lograr. Pero si es necesario, es un ideal por el que estoy dispuesto a morir.»

Longo discurso, na íntegra, AQUI.
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