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15.3.14

As Cidades e as Praças (54)



Praça da Independência (Granada, 2014)




 
(Para ver toda a série «As Cidades e as Praças», clicar na etiqueta «PRAÇAS».)
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Angola, 15 de Março de 1961



Foi nessa data que se deu o ataque da UPA no Norte de Angola, naquele que foi considerado o primeiro acto para a libertação do país e que marcou o chamado «dia do terror». O vídeo resume bem os acontecimentos.

Foi também nesse dia que, pela primeira vez, os Estados Unidos votaram positivamente uma moção contra Portugal no Conselho de Segurança da ONU.
Nos primeiros dias de Março, o próprio Kennedy, através do embaixador em Lisboa, envolveu-se pessoalmente na questão, insistindo com Salazar para que Portugal anunciasse publicamente o princípio do autodeterminação e independência de Angola. Diz Franco Nogueira (Salazar – A resistência, Vol. V, p.211) que, no fim de uma reunião com o embaixador Elbrick, Salazar terá concluído: «Ouvi-o atentamente e agradeço-lhe a sua visita. Muitos cumprimentos ao Presidente Kennedy. Muitos boas tardes, senhor embaixador.» E nada mudou na posição portuguesa, como é sabido.
Assim se chegou a 15 de Março, quando Libéria, Ceilão e República Árabe Unida apresentaram um projecto de resolução no Conselho de Segurança, que sublinhava os perigos que a situação em Angola representava para a paz e para a segurança mundiais e exigia expressamente reformas que pusessem fim ao colonialismo. Kennedy deu instruções para que os Estados Unidos votassem positivamente, juntando-se assim aos três proponentes e à URSS. Cinco votos a favor, portanto, mas seis abstenções (França, Inglaterra, China, Chile, Equador e Turquia): a resolução não obteve a maioria de votos necessária para ser aprovada, mas as relações dos Estados Unidos com o salazarismo ficaram profundamente afectadas. Quanto a Angola, esperaria mais 14 anos para ser independente.


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Houve alguém aqui que se enganou



Há 40 anos, militares preparavam-se para sair das Caldas da Rainha, no dia seguinte, na tentativa (falhada) que precedeu o 25 de Abril. Hoje, manifestam-se com faixas pretas
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Lido por aí (4)


@João Abel Manta

* Setenta mais um (Fernanda Câncio)

* A raiva que o manifesto dos 70 provocou (José Pacheco Pereira)

* O regresso da asfixia democrática (Eduardo Oliveira Silva)
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14.3.14

Daqui, desta Lisboa compassiva



Daqui, desta Lisboa compassiva,
Nápoles por suíços habitada,
onde a tristeza vil e apagada
se disfarça de gente mais activa;

daqui, deste pregão de voz antiga,
deste traquejo feroz de motoreta
ou do outro de gente mais selecta
que roda a quatro a nalga e a barriga;

daqui, deste azulejo incandescente,
da soleira de vida e piaçaba,
da sacada suspensa no poente,
do ramudo tristolho que se apaga;

daqui, só paciência, amigos meus!
Peguem lá o soneto e vão com Deus...

Alexandre O'Neill 
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Nobre povo



Muitos não acreditam em sondagens ou pensam que são todas fruto de manipulação propositada. Também há os que preferem sempre enfiar a cabeça num banco de areia. Depois queixem-se.

(Fonte)

Democracias



A humanidade ainda um dia se rirá dos tempos em que sistemas democráticos, pouco imaginativos, desdenhavam da Matemática e assumiam que 50% + 1 = 100% e 100% - 1 = 0%.

(No rescaldo disto.)
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Se Melo Antunes ainda por cá andasse



... 40 anos depois do 25 de Abril, reforçaria, sem qualquer espécie de dúvida, o que afirmou no 10º aniversário da Revolução:

«O 25 de Abril era a grande oportunidade histórica de transformarmos a realidade portuguesa no sentido de uma sociedade mais justa e mais livre. Acho que perdemos essa oportunidade histórica.»

Melo Antunes, Abril de 1984 (citado na Visão de ontem)
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13.3.14

Diálogos em tempos de PREC


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Lido por aí (3)

Prefácio ou Postfácio



Ricardo Araújo Pereira, na Visão de hoje:

«Quem gosta de ficção científica deve ler o prefácio de Cavaco Silva ao livro que reúne os seus discursos. E quem aprecia uma boa noite de sono deve ler os discursos. (...)
Tenho de ir reler o prefácio, porque não dei pela parte em que seres de outros planetas visitam o nosso país e o colocam no caminho do crescimento económico inédito, partindo dos escombros deixados por uma das maiores crises de sempre.»

Na íntegra AQUI.
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É deselegante falar sobre reestruturação da dívida?



«No século XVII era muito deselegante, em Inglaterra, discutir temas considerados polémicos com uma dama. Fosse política, religião, filhos ou dores nas costas. Assim os ingleses desenvolveram a arte de falar sobre um tema neutro, o tempo.

Depois do manifesto dos 70 essa parece ser a reacção da elite que está no poder em Portugal: é deselegante falar sobre uma possível reestruturação da dívida. (...)
Nada como comportar-nos como cordeiros, evitando questionar a caminhada para o redil. O argumento é que, ao ouvir isto, os mercados, qual Zeus, poderão sentir-se ofendidos, e lançar raios a partir do Céu sobre os juros da nossa dívida. Como se os mercados não soubessem que é impossível pagar este volume de dívida ou que é irreal esperar um crescimento acima de 4% para a limitar. (...)

Portanto, o melhor é mesmo falar do clima, do sol e da chuva e não discutirmos o que vai ser de Portugal nos próximos anos. Como se isso fosse um tabu. E quem levanta questões merecesse ser atirado para uma fogueira por bruxaria.»

Fernando Sobral, no Negócios de hoje.
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12.3.14

Um Golpe falhado – 12 de Março de 1959



Estava prevista para a madrugada de 12 de Março de 1959 uma revolta contra o salazarismo, com o país ainda agitado pelo malogro das eleições presidenciais do ano anterior, quando a candidatura de Humberto Delgado abalou fortemente os alicerces do regime. Tratou-se do falhado «Golpe da Sé», assim denominado porque era na catedral de Lisboa que os participantes se reuniam, contando com a cumplicidade do respectivo prior, o padre João Perestrelo de Vasconcelos.

Um grande grupo de militares, cuja figura principal era o capitão Almeida Santos, mas onde apareciam nomes como Varela Gomes e Vasco Gonçalves, e de civis sobretudo católicos, liderados por Manuel Serra, propunha-se realizar um verdadeiro golpe de Estado, tendo previsto o controle de meios de comunicação, transportes, fornecimento de electricidade, etc., etc.

Tudo fracassou devido a fugas de informação e foram detidas mais de 40 pessoas, incluindo o padre Perestrelo e Manuel Serra. Dos detidos, distribuídos pelas prisões de Caxias, Aljube, Trafaria e Elvas, cerca de metade foi julgada. Dois evadiram-se de Elvas e um deles, o capitão Almeida Santos, foi assassinado – episódio que deu origem ao romance de José Cardoso Pires, A Balada da Praia dos Cães. Quanto a Manuel Serra, a páginas tantas hospitalizado no Curry Cabral, conseguiu fugir, vestido de padre, e seguiu directamente para a embaixada de Cuba em Lisboa onde pediu asilo político. Alguns meses mais tarde, utilizando outro estratagema (cortou rapidamente a barba e o cabelo), fugiu de novo, dessa vez para a Embaixada do Brasil, já que o seu objectivo era juntar-se a Humberto Delgado naquele país, o que veio a acontecer.

N.B. – Merecem ser lidos três testemunhos de participantes no Golpe da Sé, compilados pelo Fórum Abel Varzim. 
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Lido por aí (2)

Liberdade, liberdade, cada qual chama-lhe sua

Só o meu Zé é que marcha direito



… terá dito a mulher do único soldado que tropeçava nos seus próprios pés, num batalhão inteiro de passo acertado. 

Desde ontem que a anedota não me sai da cabeça, sempre que Passos Coelho diz algo acerca do Manifesto sobre reestruturação da dívida e das 70 pessoas que o subscreveram. Começou por lhes chamar «irrealistas» e afirmou hoje que se espanta «como é que gente tão bem informada suscita essas questões» e que «pessoas simples» entendem melhor certas realidades.

O primeiro-ministro tinha muitas formas de se defender de um Manifesto mais do que incómodo para a sua péssima governação. Escolheu a pior: rasteirinha, poucochinha – à sua imagem. 
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Cavaco, o esotérico



«Ao longo da vida, alguns têm a oportunidade da sua "estrada de Damasco". E eu acabo de ter a minha em relação a Cavaco Silva. Para interpretar um texto é preciso estar à sua altura, e até agora nenhum comentador percebeu o mistério que se oculta no prefácio de Roteiros VIII. Quando o PR nos pede consenso para 20 anos de servidão voluntária, percebi que era preciso finura hermenêutica. Será que o magistrado supremo pretendia imitar Jonathan Swift, que na sua satírica Modesta Proposta (1729), sugeria o canibalismo infantil para resolver a mendicidade irlandesa? (...)

Afinal, Cavaco é um discípulo da escrita esotérica de Leo Strauss. É adepto de um erotismo semântico, que esconde, revelando. Que oculta, manifestando. O país está à deriva. Mas, revisitar as obras de Cavaco nesta lógica da suspeita interpretativa, promete as delícias de uma nova e iniciática ciência.»

Viriato Soromenho Marques

11.3.14

Lido por aí (1)

Pouco conhecido



... este tema de Zeca Afonso sobre o 11 de Março.
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Neoliberalismo eleitoral


O texto de Sandra Monteiro em Le Monde Diplomatique (ed. portuguesa) deste mês:

Parece que «neoliberal» virou insulto. Quando os mais aguerridos praticantes desta ideologia passam a negar, em tom ofendido, o epíteto, alguma coisa mudou. Parte da mudança será meramente conjuntural e terá a ver com a aproximação das eleições; parte terá maior peso e lastro: a realidade da crise.

A 21 de Fevereiro último, no Congresso do Partido Social Democrata (PSD), o primeiro-ministro Pedro Passos Coelho dedicou boa parte da intervenção inicial a tentar reinventar a história dos anos mais recentes do seu partido e da sua governação para a inscrever na tradição da social-democracia. Para o efeito, negou as acusações de «gente que [nos] apelidou de ser neoliberais»: «Lamento profundamente que haja entre nós pessoas que tenham esta perspectiva» (Público, 22 de Fevereiro de 2014). Ficámos sem saber, pelo discurso, quais são em concreto os traços do projecto neoliberal que rejeita, mas se usarmos o critério da prática também não os encontraremos.

Compreendemos, isso sim, que reivindicar o projecto neoliberal já não faz ganhar eleições. O neoliberalismo queima. E o neoliberalismo na sua fase austeritária queima muito mais. Dois dias antes do Congresso haviam sido revelados os resultados de uma sondagem, encomendada pelo Instituto de Direito Económico, Fiscal e Financeiro (IDEFF) da Faculdade de Direito de Lisboa à Eurosondagem, que vieram estragar o ambiente de festa que tem caracterizado o discurso político e mediático dominantes sobre o «milagre económico», o «país que está muito melhor», a «saída limpa» e a «libertação da Troika». A maioria dos cidadãos não parece acreditar nesta festa. Pensam, pelo contrário que «as políticas de austeridade afundam económica e socialmente o país» (62%) e que «a austeridade veio para ficar, pelo menos uns anos» (64%); ao mesmo tempo, e isto merece toda a atenção, mais de metade dos inquiridos «duvida da existência de propostas credíveis para lhe pôr fim» (Público, 19 de Fevereiro).

São estes os dois elementos que vão estar em jogo nas eleições de Maio para o Parlamento Europeu: por um lado, a compreensão das consequências trágicas e duradouras da austeridade imposta pelos neoliberais (qualquer que seja o seu nome); por outro, a compreensão de que este rumo resulta de uma escolha e que há alternativas credíveis e sustentáveis. A sondagem acima referida parece mostrar que nem as intoxicações mediáticas conseguem convencer das vantagens da austeridade quando se é atingido pela realidade de crescentes reduções de salários e pensões, desemprego, precariedade, empobrecimento, degradação dos serviços públicos e emigração. O drama é que, ao mesmo tempo que sabem que se preparam novos cortes salariais e de pensões logo a seguir às eleições, têm dúvidas sobre a existência de alternativas credíveis.»

Continuar a ler AQUI.
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No dia em que começou o PREC



Também era terça-feira, nesse décimo primeiro dia de Março de 75. Pelas 11:45, o RAL 1 (mais tarde conhecido por RALIS), foi bombardeado por aviões da Base Aérea nº 3 e cercado por paraquedistas de Tancos, na concretização de uma tentativa de golpe de Estado, liderada por António de Spínola.

O que se passou durante o resto desse dia é resumido num documento do Centro de Documentação 25 de Abril e está parcialmente gravado nos vídeos (no fim deste post). Dia que acabou já sem Spínola no país: com a mulher e quinze oficiais fugiu de avião para Badajoz.

11 de Março marca o início do PREC, que viria a durar oito meses e meio – até ao 25 de Novembro. Quem já era adulto lembra-se certamente dos ambientes absolutamente alucinantes de tudo o que se seguiu, sobretudo a partir de 14 de Março quando foi criado o Conselho da Revolução e se deu a nacionalização da Banca e da maior parte das companhias de Seguros.

E não se julgue que foi só a chamada extrema esquerda a aplaudir essas medidas:
«As nacionalizações são saudadas à esquerda e não são contrariadas à direita. O PPD apoiou-as, embora prevenindo que "substituir um capitalismo liberal por um capitalismo de Estado não resolve as contradições com que se debate hoje a sociedade portuguesa".
Mário Soares mostrou-se eufórico, considerando tratar-se de "um dia histórico, em que o capitalismo se afundou". Disse num comício que "a nacionalização da banca, que por sua vez detém (…) a maior parte das acções das empresas portuguesas e, ao mesmo tempo, a fuga e prisão dos chefes das nove grandes famílias que dominavam Portugal, indicam de uma maneira muito clara que se está a caminho de se criar uma sociedade nova em Portugal".» (Adelino Gomes e José Pedro Castanheira, Os dias loucos do PREC, p. 28.)

Foi assim, por mais inverosímil que pareça a 39 anos de distância.

Para quem quiser conhecer ou recordar os acontecimentos:





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10.3.14

Sem risco de me enganar



Se o friso de candidatos for este, o próximo Presidente da República será macho.

(Sondagem i/Pitagórica)

Mais passarinhos que dálmatas



Estava bem longe quando li, de esguelha, que a coligação PSD/CDS queria ir às Europeias com 101 dálmatas, ou algo assim. A única possível razão que me ocorreu, para a escolha do simpático bicho como ícone, foi o facto de uma percentagem razoável desses cães nascer surda.

Mas nem só de dálmatas falou Paulo Rangel, foi também buscar passarinhos. Como Fernando Sobral recorda no Negócios (com data de ontem), «Tweet significa "pio de passarinhos". Como só pode ter poucos caracteres é realmente um pio de passarinho, bem pequeno. Ou seja, é a insignificância das ideias.»

E acrescenta: «Nem PSD, nem PS, nem CDS se preparam para discutir que modelo de País e de sociedade pretendem para Portugal. Desejam apenas piar mais alto do que os outros. (...) Um conjunto de tweets não faz um ninho, nem um modelo que desenhe um Portugal de futuro, que não tenha de ser pobre, sem igualdade de possibilidades para todos, desigual e indigente em termos de ideias e de ideais. Twittar por aí pode ser um exercício perfeito de marketing. Mas só demonstra o grau zero da política em que sobrevivemos.»

É isso. Fechemos os ouvidos como os dálmatas porque vêm aí piadores insuportavelmente barulhentos. 
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Os roteiros de sua Excelência



Ainda não li quase nada, apenas uns excertos do Prefácio. O suficiente para perceber que Pedro Marques Lopes acerta no alvo.

«Andamos para aqui com jogos florais, com amuos no Parlamento, com fitas nas escadarias da Assembleia, com patéticos relógios, com programas eleitorais decorados com cães pintalgados, a fingir que discutimos o futuro da comunidade, e não saímos do labirinto. (...)

É inexplicável a sensação de todos sabermos que estamos a caminhar para o precipício, e continuamos, como se o suicídio fosse a única alternativa. Mas pior é dizerem-nos que temos de ir todos de mãos dadas como se isso fosse o nosso destino. Não é. Não pode ser.»

Na íntegra aqui.
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9.3.14

Estranhos costumes



À hora em que escrevo, já em Lisboa, ainda se vota em El Salvador, na segunda volta das eleições presidenciais.

País com estranhos costumes onde a campanha terminou oficialmente na passada 5ª feira, onde, tal como cá, são proibidas actividades de propaganda depois disso, mas sem que a dita regra seja minimamente respeitada. Por mais que o Tribunal Supremo Eleitoral insista, as caravanas continuam, os dirigentes políticos usam t-shirts com frases contra o adversário, toda a gente dá entrevistas e até o actual presidente terá feito um discurso inapropriado.

Mas, em contrapartida, há uma outra regra de ouro que é sagrada: a «Ley Seca». Em fim-de-semana de eleições, de Sábado a 2ª feira, é expressamente proibido vender qualquer bebida alcoólica, não só em restaurantes, hotéis ou cafés, mas mesmo em supermercados ou outras quaisquer lojas! Mais: há operações stop para detectar o grau de alcoolemia e é-se punido desde que ele não seja rigorosamente igual a zero. É óbvio que a cerveja esgotou em tudo quanto era ponto de venda, na 6ª feira ao fim do dia...

Os salvadorenhos estarão a votar, bem ou mal, mas sóbrios. Ou talvez não.
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