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12.4.14

Caballe, 81



Monserrat Caballe nasceu em 12 de Abril de 1933. Julgo que o último concerto que deu, até agora, foi em Novembro de 2013, já em más condições físicas, mas com uma voz ainda possante.

Prefiro recordá-la antes:





E quem não se lembra disto?



Os feridos do dia 25 de Abril


@Alfredo Cunha

Se se recordam recorrentemente os cidadãos assassinados pela PIDE, ao fim do dia 25 de Abril de 1974, na Rua António Maria Cardoso, raramente se noticia que também houve feridos, uns ligeiros e outros graves. Nenhuma razão para que os nomes que são conhecidos não sejam lembrados, 40 anos depois de terem sido também vítimas, nas primeiras horas de liberdade.

• Aarão de Almeida, de 44 anos;
• Adriano de Carvalho, de 37 anos;
• Agostinho Manuel Soares, de 18 anos;
• António José Santos Lima, de 17 anos;
• António Maria da Cruz, de 18 anos;
• António Pereira Esteves, de 35 anos;
• António Ribeiro, de 20 anos,
• Armando Nascimento Pereira Reis, de 26 anos;
• Armindo Fernandes de Oliveira, de 16 anos;
• Camélia Ferreira Pimenta, de 23 anos;
• Fernando Pereira, 17 anos;
• Fernando Simão Martins, de 16 anos;
• Francisco José da Silva Ramos, de 20 anos;
• Joaquim Inácio Ruivães Cristo, de 19 anos;
• Jorge Salgueiro Costa, de 24 anos;
• José Dinis Pereira, de 26 anos;
• José Luís Bernardes Fernandes, de 19 anos;
• José Luís Gutierres, de 19 anos;
• José Valente da Silva Mendes, de 19 anos;
• Luís de Oliveira, de 20 anos;
• Manuel Pereira Alves, de 24 anos;
• Maria da Conceição Neto, de 20 anos;
• Maria dos Anjos Afonso Santos Martins, de 21 anos;
• Maria Manuela Cortes Flores, de 23 anos;
• Rogério Teixeira Figueira, de 21 anos;
• Rogério Paulo Osório, de 18 anos;
• Rui Eduardo Alves Morais, de 19 anos.

(Fonte)

Em O Século, de 26 de Abril, notícia detalhada sobre os mortos e os feridos, ligeiros e graves, que deram entrada naquela unidade hospitalar.

Fica aqui também o som da reportagem do RCP:


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Lido por aí (19)

Factura com NIF em 2019



(Recebido por mail.)

Pedir NIF na factura para habilitar-se a uma viatura de alta cilindrada será apenas o início. Em 2019: Vai ser assim:

- Telefonista: Pizza Hut, boa noite!
- Cliente: Boa noite, quero encomendar Pizzas.

- Telefonista: Pode-me dar o seu NIF?
- Cliente: Sim, o meu Número de Identificação Nacional é o 6102 1993 8456 5463 2107.

- Telefonista: Obrigada, Sr. Lacerda. O seu endereço é na Avenida Paes de Barros, 19, Apartamento 11, e o número do seu telefone é o 21549 4236, certo? O telefone do seu escritório na Liberty Seguros, é o 21 574 52 30 e o seu telemóvel é o 96 266 25 66, correcto?
- Cliente: Como é que conseguiu todas essas informações?

- Telefonista: Porque estamos ligados em rede ao Grande Sistema Central.
- Cliente: Ah, sim, é verdade! Quero encomendar duas Pizzas: uma QuatroQueijos e outra Calabresa.

- Telefonista: Talvez não seja boa ideia...
- Cliente: O quê...?

- Telefonista: Consta na sua ficha médica que o senhor sofre de hipertensão e tem a taxa de colesterol muito alta. Além disso, o seu seguro de vida proíbe categoricamente escolhas perigosas para a saúde.
- Cliente: Claro! Tem razão! O que é que sugere?

- Telefonista: Por que é que não experimenta a nossa Pizza Superlight, com Tofu e Rabanetes? O senhor vai adorar!
- Cliente: Como é que sabe que vou adorar?

- Telefonista: O senhor consultou a página Receitas Gulosas com Soja da Biblioteca Municipal, no dia 15 de Janeiro, às 14:27, e permaneceu ligado à rede durante 39 minutos. Daí a minha sugestão...
- Cliente: Ok, está bem! Mande-me então duas Pizzas tamanho familiar!

- Telefonista: É a escolha certa para o senhor, a sua esposa e os vossos quatro filhos, pode ter a certeza.
- Cliente: Quanto é?

- Telefonista: São 49,99 €.
- Cliente: Quer o número do meu Cartão de Crédito?

- Telefonista: Lamento, mas o senhor vai ter que pagar em dinheiro. O limite do seu Cartão de Crédito foi ultrapassado.
- Cliente: Tudo bem. Posso ir ao Multibanco levantar dinheiro antes que chegue a Pizza.

- Telefonista: Duvido que consiga. A sua Conta de Depósito à Ordem está como saldo negativo.
- Cliente: Meta-se na sua vida! Mande-me as Pizzas que eu arranjo o dinheiro. Quando é que entregam?

- Telefonista: Estamos um pouco atrasados. Serão entregues em 45 minutos. Se estiver com muita pressa pode vir buscá-las, se bem que transportar duas Pizzas na moto não é lá muito aconselhável. Além de ser perigoso.
- Cliente: Mas que história é essa? Como é que sabe que eu vou de moto?

- Telefonista: Peço desculpa, mas reparei aqui que não pagou as últimas prestações do carro e ele foi penhorado. Mas a sua moto está paga e então pensei que fosse utilizá-la.
- Cliente: F******.......!!!!!!!!!

- Telefonista: Gostaria de pedir-lhe para não ser mal educado. Não se esqueça de que já foi condenado em Julho de 2006 por desacato em público a um Agente da Autoridade.
- Cliente: (Silêncio).

- Telefonista: Mais alguma coisa?
- Cliente: Não. É só isso. Não. Espere... Não se esqueça dos 2 litros de Coca-Cola que constam na promoção.

- Telefonista: O regulamento da nossa promoção, conforme citado no artigo 095423/12, proíbe a venda de bebidas com açúcar a pessoas diabéticas.
- Cliente: Aaaaaaaahhhhhhhh!!!!!!!!!!! Vou atirar-me pela janela!!!!!

- Telefonista: E torcer um pé? O senhor mora no rés-do-chão! 
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Vi, vi...



Não vejo, não vejo...
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11.4.14

Sete anos tem o «Brumas»



... e eu também sete, não de pastor mas de blogger.

Ao longo deste tempo, já bem longo, muitas coisas aconteceram, o mundo mudou e eu também. Fui deixando aqui um pedaço da minha vida, das minhas inquietações, de grandes viagens por esse mundo fora, que me encheram a alma e me ajudaram a ver tudo com maior distância. E este é o 7 865º post que publico – parece mentira mas não é!

Agradecimentos a todos os que por aqui passaram, redobrados se continuarem a passar.

La nave va!

Alfredo Cunha - 25A (10)


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Se a Associação 25 de Abril tivesse pedido para cantar, teria sido autorizada?



Ainda há quem tenha bom senso, sem papas na língua.

Vera Jardim considera que a Assembleia da República devia ter feito um esforço especial para dar voz aos militares na sessão solene dos 40 anos do 25 de Abril. Trata-se de um caso muito especial e a forma como a presidente da Assembleia da República se dirigiu aos capitães de Abril não foi «cordial»: foram «declarações ácidas» e não adequadas para responder à Associação 25 de Abril, até por causa da importância da data.

Em declarações à TSF.

Na AR, só se pode cantar???
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Basta um contabilista para governar?



«No dia em que também os salários dependerem de cálculos económicos pré-determinados, a classe política e os partidos deixam de servir para o que seja. Bastam os economistas, os financeiros e os operadores de "software". Se isso fosse aprovado Marco António Costa deixava de ser necessário. (...)

Compreende-se que Marco António Costa faça o elogio da pobreza. Para os outros. No fundo regresso o velho discurso de "todos temos de ser pobres". Mas Marco António Costa quando diz, sem se rir, uma enormidade destas, faz "harakiri". No dia em que também os salários dependerem de cálculos económicos pré-determinados, a classe política e os partidos deixam de servir para o que seja. Bastam os economistas, os financeiros e os operadores de "software". Se isso fosse aprovado Marco António Costa deixava de ser necessário, porque as suas palavras redundariam numa produtividade muito baixa para o país e por isso nunca teria o salário aumentado: quanto muito, seria diminuído.

Marco António Costa vem assim defender o fim dos políticos e dos partidos partidos políticos, porque todas as decisões teriam origem no INE e na Direcção-Geral do Tesouro. Ou seja, Marco António Costa anunciou que quer passar a ser redundante e dispensável. Talvez, no fundo, ele não tenha tido a noção do que disse. Porque, no fundo, o que Marco António Costa disse foi que o sistema democrático é dispensável. Basta um contabilista para governar o país.» (...)

Fernando Sobral, no Negócios
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É como Meca



Ir a Keukenhof em Abril, pelo menos uma vez na vida!

Keukenhof é uma recordação que estará para sempre na minha arca de tesouros – esse jardim absolutamente espectacular, de 32 hectares, onde reaparecem todos os anos milhões de túlipas (e de muitas outras flores). Um festival de cores que as fotos não conseguem mostrar e uma mistura de cheiros, impossível de reproduzir.

Recordado pela Time, ontem.

Mais algumas fotos:



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10.4.14

Sebastião da Gama – teria 90, hoje



O nome de Sebastião da Gama dirá pouco a alguns, outros tê-lo-ão já esquecido, mas alguém me recordou que faria hoje 90 anos.

Morreu novíssimo, com 27, não cheguei a conhecê-lo, mas habituei-me a lidar com a saudade a que alguns, muito próximos dele e de mim, nunca se habituaram. Uma dessas pessoas – Maria de Lourdes Belchior – escreveu um longo prefácio para Campo Aberto e deu-me um exemplar, que tenho aqui à minha frente, com dedicatória, no Natal de 1962. E, dela, sou eu que tenho saudades.

Um poema de Cabo da Boa Esperança.

Meu País Desgraçado

Meu país desgraçado!…

E no entanto há Sol a cada canto
e não há Mar tão lindo noutro lado.
Nem há Céu mais alegre do que o nosso,
nem pássaros, nem águas…

Meu país desgraçado!…
Porque fatal engano?
Que malévolos crimes
teus direitos de berço violaram?

Meu Povo
de cabeça pendida, mãos caídas,
de olhos sem fé
— busca, dentro de ti, fora de ti, aonde
a causa da miséria se te esconde.

E em nome dos direitos
que te deram a terra, o Sol, o Mar,
fere-a sem dó
com o lume do teu antigo olhar.

Alevanta-te, Povo!
Ah!, visses tu, nos olhos das mulheres,
a calada censura
que te reclama filhos mais robustos!

Povo anémico e triste,
meu Pedro Sem sem forças, sem haveres!
— olha a censura muda das mulheres!
Vai-te de novo ao Mar!
Reganha tuas barcas, tuas forças
e o direito de amar e fecundar
as que só por Amor te não desprezam! 
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Colheita 2014



Ricardo Araújo Pereira, a propósito do possível aumento do salário mínimo, anunciado pelo governo:

«O que em Março de 2013 era irresponsável, em Abril de 2014 parece sensato. (...) É capaz de ser uma questão de colheita, como os vinhos. A responsabilidade deste ano já está muito apurada no início de Abril, enquanto a responsabilidade de 2013 ainda estava azeda em Março. Esperemos que o nosso povo tenha o bom senso de recusar este aumento, que só o prejudica, e permaneça intransigente na vontade de continuar a receber um salário que o mantém na mais sensata e responsável miséria.»

Na íntegra AQUI
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Lido por aí (18)

@João Abel Manta

* Os pobres contra os pobres (Tiago Barbosa Ribeiro)

* A oportunidade do Manifesto dos 70 (José Maria Brandão de Brito)

* À beira do precipício (Manuel Maria Carrilho)
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Sem culpas para o Pinóquio



Pensei exactamente o mesmo ao ver este «espectáculo» na AR. É a banalização da política a baixo nível. Já aqui chegámos.

«Hélder Reis, secretário de Estado do Orçamento, num momento de criatividade digna de Walt Disney, virou-se para quem o estava a escutar e disse: “Eu sou como o Pinóquio: quando minto, o meu nariz cresce. Não está a ver o meu nariz a crescer – eu não estou a mentir”. (...)

O secretário de Estado pode-se comparar com Pinóquio, com o Franjinhas, com o Urtigão ou com o Peninha. É um direito que se lhe assiste. Mas, nesse momento para lamentar, estava a falar sobre um assunto sério: o destino dos dinheiros da ADSE. (...) Se a política fosse uma coisa séria neste país, Hélder Reis teria saído do Parlamento como secretário de Estado do Orçamento e entrado no carro ministerial como ex-secretário de Estado do Orçamento.

Mas como cortar salários ou criar impostos é um divertimento neste país, ele continua em funções como se nada se tivesse passado. A questão não é o secretário de Estado estar a dizer mentiras ou verdades. É a forma como fala com aqueles que são os representantes da democracia.»

Fernando Sobral, no Negócios.
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9.4.14

Velhos e novos



Alberto Pinto Nogueira, no Público de ontem.

«O magno problema do Governo são os velhos. (...)

Andaram 40 anos e mais a descontar para reformas e pensões. Deu-lhes agora para exigir as pensões e reformas. Já não têm direito nem ao trabalho, nem às pensões ou reformas.

O que melhor revela a febre esbanjadora dos velhos é o “colaboracionismo” na edificação e reforço do regime democrático. Direitos, liberdades e garantias dos cidadãos. Liberdade de imprensa, de associação e manifestação. Serviço Nacional de Saúde. Educação e ensino para todos. Vias de comunicação. Políticas de defesa efectiva da maternidade e infância. Direito e Processo Penal em que há defesa dos arguidos. Estado de Direito. Com liberdade, sem guerras ou polícia política. Tribunais plenários.

Em 1974, os velhos de hoje já cá estavam. Jovens. Gastadores. Agora que paguem.

Outro magno problema são os novos.

São tão ou mais gastadores que os velhos. Mais de metade não sai de casa dos pais. Nada produzem. Nem bens, nem serviços. Só se servem do que o Governo produz e lhes oferece. Nem todos. Há os amigos e os assessores de 20 anos e mesmo membros do Governo. Sem estes, o país caía no caos e no dilúvio. Aos outros, já foi orientada a grande saída. Emigrar. (...) Não querem trabalhar. Nem há trabalho. Os pensionistas e reformados ocupam tudo quanto é lugar no Estado e nas empresas. Encostam-se às reformas e pensões dos velhos.

O Governo prossegue nas reformas.

Os velhos mais velhos e desossados. Os novos vão para velhos. Cada vez mais desempregados e magrinhos. Por causa dos velhos!»
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Alfredo Cunha – 25A (9)


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Lido por aí (17)


@João Abel Manta


* Ruanda: ano 20 (Viriato Soromenho Marques) 


* Portas rolantes e negócios obscuros (Luís Bernardo)
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A última acção armada contra a ditadura – 9/4/1974



Os principais alvos das organizações de luta armada, que surgiram em Portugal durante o marcelismo, enquadravam-se no protesto contra a guerra colonial. Com uma população desesperada e exausta por partir e ver partir os seus para uma terrível aventura sem fim à vista, tudo o que fosse atingir símbolos da política colonialista da ditadura tinha uma grande repercussão e era objecto de um significativo regozijo, mesmo que discreto e silencioso.

Foi o caso com a acção de sabotagem ao navio Niassa, no dia 9 de Abril, no Cais de Alcântara em Lisboa, no momento em que ia partir para Bissau com um contingente de soldados. Tratou-se de uma iniciativa das Brigadas Revolucionárias (BR) que avisaram a PSP do porto de Lisboa uma hora e quinze minutos antes, para que o navio fosse evacuado.

Há na net vários testemunhos de militares que se encontravam a bordo. Um exemplo:
«Para todos nós que íamos para um cenário de guerra, durante a nossa instrução já tínhamos assistido a rebentamentos de granadas, morteiros etc. mas sempre em situações controladas.
Este rebentamento para todos os presentes foi, surpresa seguida de um descontrole, mas para quem preparou a acção foi controlo completo.
O local onde foi colocado o engenho explosivo assim como a hora da sua detonação foi de tal forma feito a não permitir qualquer baixa, mas não evitou a perda, total ou parcial das bagagens dos companheiros que iam nesse porão.
A explosão verificou-se num dos porões mesmo junto da linha de água, fez um rombo de cerca 80cm nas duas chapas de ferro.
Depois do navio estar completamente evacuado, foi adernado por forma a evitar entrada de água no porão e entretanto começaram a reparação do rombo na parte exterior.
Até à meia noite tivemos de embarcar e na manhã seguinte quando acordamos estávamos no meio do Tejo junto à Ponte.
Neste dia tive oportunidade de me deslocar ao local da deflagração e verifiquei os estragos que provocou.
O rombo interior estava a ser reparado nesta altura.
Na manhã do dia 11 de Abril quando acordámos já navegávamos em alto mar.»

Outro testemunho aqui.

E os preparativos da acção, descritos por quem neles esteve envolvida: 
«A bomba foi dentro de um colete meu. Eu tinha um fato com um colete integrado. Nós cortámos o plástico em fatias e enchemos o forro desse colete, que por sua vez, foi dentro do blusão do militar que transportou a bomba para dentro do navio. Lembro-me de nos preocuparmos com o facto de ele ter de se abraçar à família antes de partir. A bomba não ia explodir, mas a carga plástica ia nesse colete que ele levava vestido e, ao ser abraçado, a família podia aperceber-se de algo anormal.» In Isabel Lindim, Mulheres de Armas, p. 215.
Laurinda Queirós, a «Branquinha», militante das BR, 23 anos em 1974, estudante de Medicina, hoje médica no Porto.

Julgo que tudo isto pode parecer muito estranho para quem tenha hoje 23 anos. Ou mesmo 43. A muitos de nós, então jovens, moldou-nos o resto da vida. 
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O meu país não é deste Presidente, nem deste Governo


Alexandra Lucas Coelho recebeu na segunda-feira o prémio APE pelo romance E a Noite Roda. Excertos do discurso que então proferiu (*).

«Estou a voltar de três anos e meio a morar no Brasil. Um dia, a meio dessa estadia brasileira, pediram-me que gravasse um excerto de um conto de Clarice Lispector para o site do Instituto Moreira Salles. Era um conto em que a protagonista era portuguesa, daí o pedido, que a voz coincidisse com o sotaque. Como detestei aquela portuguesa do conto da Clarice. Tudo na boca dela era inho e ito. Era o Portugal dos Pequenitos com a nostalgia das grandezas. Aquele que diz “cá vamos andando com a cabeça entre as orelhas” mas sofre de ressentimento. O Portugal que durante 40 anos Salazar achou que era seu, pobre mas honesto-limpo-obediente, como agora o governo no poder quer Portugal, porque acha que Portugal é seu. (...)

Este prémio é tradicionalmente entregue pelo Presidente da República, cargo agora ocupado por um político, Cavaco Silva, que há 30 anos representa tudo o que associo mais ao salazarismo do que ao 25 de Abril, a começar por essa vil tristeza dos obedientes que dentro de si recalcam um império perdido.

E fogem ao cara-cara, mantêm-se pela calada. Nada estranho, pois, que este presidente se faça representar na entrega de um prémio literário. Este mundo não é do seu reino. Estamos no mesmo país, mas o meu país não é o seu país. No país que tenho na cabeça não se anda com a cabeça entre as orelhas, “e cá vamos indo, se deus quiser”. (...)

Eu gostava de dizer ao actual Presidente da República, aqui representado hoje, que este país não é seu, nem do governo do seu partido. É do arquitecto Álvaro Siza, do cientista Sobrinho Simões, do ensaísta Eugénio Lisboa, de todas as vozes que me foram chegando, ao longo destes anos no Brasil, dando conta do pesadelo que o governo de Portugal se tornou.

Este país é de todos esses, os que partem porque querem, os que partem porque aqui se sentem a morrer, e levam um país melhor com eles, forte, bonito, inventivo. Conheci-os, estão lá no Rio de Janeiro, a fazerem mais pela imagem de Portugal, mais pela relação Portugal-Brasil, do que qualquer discurso oco dos políticos que neste momento nos governam. Contra o cliché do português, o português do inho e do ito, o Portugal do apoucamento. Estão lá, revirando a história do avesso, contra todo o mal que ela deixou, desde a colonização, da escravatura. (...)

Os actuais governantes podem achar que o trabalho deles não é ouvir isto, mas o trabalho deles não é outro se não ouvir isto. Foi para ouvir isto, o que as pessoas têm a dizer, que foram eleitos, embora não por mim. Cargo público não é prémio, é compromisso.

Portugal talvez não viva 100 anos, talvez o planeta não viva 100 anos, tudo corre para acabar, sabemos. Mas enquanto isso estamos vivos, não somos sobreviventes.»

(* ) Na íntegra no Público (mas o link pode não funcionar) e no Esquerda.net.
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8.4.14

Antes que o dia acabe



... regresso a Jacques Brel que faria hoje 85 anos, com esta fotografia de três «monstros» – Brel, Léo Frerré e Georges Brassens –, que já conheço há alguns anos.

Entretanto, alguém me disse hoje a origem da mesma: uma Mesa Redonda, realizada em 6 de Janeiro de 1969, no único encontro dos três de que há registo. A gravação dura cerca de uma hora e pode ser vista no youtube – uma relíquia. 
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Circo? Temos



«O poder na antiga Roma tinha uma fórmula mágica: pão e circo. Estratégia política, contentava os cidadãos com distribuição de comida, lutas de gladiadores, teatro, desporto e banhos públicos.

Assim os imperadores mantinham a população pacificada. Pão e circo correspondia a cidadãos gordos e felizes. E, nesse tempo, a obesidade não era uma doença pública. Nesta era de austeridade, a política do pão e circo ganhou contornos mais sofisticados. (...)

Faltando pão, o primeiro-ministro atira gás lacrimogéneo para o ar. A questão dos cortes que aí vêem (que continuam a ser um mistério) e a destruição da classe média são deslocalizados pela bondade do primeiro-ministro. Este, finalmente comovido pelo salário mínimo nacional (muito abaixo do grego, por exemplo) deu a boa nova: está disposto a discutir o seu aumento.

Em tempos eleitorais chama-se a isto circo sem pão, coisa habitual no Governo. Enquanto se vai discutir se há 10 ou 15 euros de aumento mensal, folgam os cortes brutais que Passos se prepara para concretizar em 2015.»

Fernando Sobral, no Negócios.
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Porreiros, pá!



José Vítor Malheiros, no Público de hoje, a propósito das conversas entre Barroso e Constâncio sobre o BPN:

«Como é possível que Durão e Constâncio possam contar estas histórias de forma tão imprecisa, baseando-se na sua memória? A Presidência do Conselho de Ministros não guarda registos? O Banco de Portugal não guarda registos? As reuniões não dão origem a actas? Nos Estados Unidos, uma história destas teria trinta memos escritos a sustentá-la, sete actas de reuniões, as agendas de todos os participantes, entradas nos diários dos intervenientes, dias e horas das reuniões e respectivas ordens de trabalhos, registos do que se disse e do que foi pedido e do que foi garantido e por quem.

Mas em Portugal, no meio político, a regra é a informalidade e isso é apresentado como um sinal dos nossos brandos costumes. O problema é que a informalidade é a arma de eleição dos corruptos e dos aldrabões. Os políticos não têm agendas, as reuniões não tem actas, as declarações não têm testemunhas. E, nos raros casos em que esses documentos existem, os protagonistas levam-nos para casa no fim da legislatura como se fossem propriedade sua e não património público e um elemento essencial da responsabilização dos agentes políticos.»
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Os velhos não morrem, adormecem



... cantou Jacques Brel, que nasceu há 85 anos, em 8 de Abril de 1929, e adormeceu há 35, bem antes de envelhecer. «Les vieux ne meurent pas, ils s’endorment un jour et dorment trop longtemps».




Ele que cantou como ninguém um país e uma cidade que também foram meus por empréstimo, e onde não me importava mesmo nada de estar agora.



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7.4.14

Do fundo do baú




Recordado em «Ponto Contra Ponto» (SIC Notícias), ontem, por José Pacheco Pereira.
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Turismo «poucochinho»

Abri a Revista do Expresso do passado Sábado e tive um sobressalto de esperança quando vi que a crónica de Clara Ferreira Alves (CFA) era sobre «Um dia da vida no Camboja» e, ainda mais, ao perceber que ela tinha estado em Tonlé Sap: finalmente, alguém ia certamente partilhar o verdadeiro murro no estômago, que foi, para mim, passar umas horas naquele que é o maior lago de água doce do Sudoeste Asiático, onde vivem milhares de pessoas numa situação de miséria quase inimaginável.

Em barracas, sobre estacas ou flutuantes, acumulam-se famílias cheias de filhos e até de animais, sem quaisquer condições de higiene, com esperança de vida abaixo dos cinquenta anos. Já descrevi várias vezes, neste blogue, que vi pessoas beberem a água poluidíssima do lago (e é com ela que se cozinha e que se toma banho), um curral flutuante amarrado a uma casa com quatro porcos lá dentro, crianças, mais ou menos esfarrapadas, que saltam de tudo o que é buraco e que, frequentemente, caem à água e se afogam. Devo dizer que estas imagens ficaram entre as piores que guardo das muitas viagens que já fiz e que voltei a terra com um sentimento de compaixão e de revolta indescritíveis, pelo horror que vi num país terrível, já tão castigado pela sua História, paupérrimo e quase sem velhos, já que 20 a 25% da população desapareceu em consequência da acção dos Khmers Vermelhos, em apenas quatro anos.

Erro meu quanto ao texto de CFA. Ela diz que «nunca devia ter feito esta viagem» (a Tonlé Sap), não por ter de lá saído impressionada como eu, e como vários amigos que comigo viajavam, mas porque o motor do barco onde a levaram não pegou, porque «o rio é tão estreito que os barcos roçam uns nos outros ou marram, arrancando-se pedaços» e porque teve de «desatar aos berros» até conseguir saltar para um outro barco, onde um russo se transformou em seu salvador até que conseguisse chegar a terra firme. Tudo isto porque tinha decidido armar em esperta (digo eu...) ao fazer a viagem sem aceitar um guia ou integrar um grupo e só depois ter sabido que «há esquemas variados para turistas solitários, sem guia e sem tour oficial. Na estação seca, os turistas são escassos e a fome aumenta». E de que maneira... 

A frieza pura e dura. De uma das nossas mais reputadas cronistas, da qual eu esperava que não se limitasse a fazer este tipo de turismo – tão pequeno, tão «poucochinho». (*)



(*) O texto de CRA pode ser lido aqui.
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Dividir para reinar



Franco Charais colaborou na redacção do programa do Movimento das Forças Armadas, fez parte da Comissão Coordenadora do MFA, Conselho de Estado, Conselho de Revolução e comandou a Região Militar do Centro. Foi um dos signatários do documento do Grupo dos Nove.

Recentemente, uma vez mais, expôs as suas pinturas no Algarve e divulgou esta, ontem, no Facebook, com o seguinte texto:

«A foto do quadro junto, que integrei na exposição na Pastelaria Arade em Portimão, sob o tema 40ª Aniversário do 25ABR74, tem o titulo "Dividir para reinar". Representa a política dos partidos do arco do poder num esforço permanente para manter o povo português devidamente dividido para manter a prerrogativa e blindagem dos ricos, a destruição da classe média, salários baixos e os pobres cada vez mais pobres. Utopicamente, vou mantendo a esperança de que o POVO se una e deixe de ser vencido.» 
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Direito ao trabalho? Onde ele já vai...



«Mario Draghi tem medo. Mais do que do Frankenstein da deflação, dos desempregados que possam vir a percorrer as ruas como fantasmas sem destino. Tem medo daqueles que talvez nunca mais venham a conseguir emprego, os excluídos ou os “falhados” da cultura americana.

Adam Smith, defensor do capitalismo ético, dizia para não se tirar aos pobres a única coisa de valor de que dispunham: o trabalho. É isso que a Europa, dita solidária, ainda mais com esta austeridade cega, está a tirar definitivamente a milhões de pessoas. O problema é que o mundo onde o trabalho era um símbolo ético de existência está a chegar ao fim. (...)

No artigo 58 da Constituição Portuguesa escreve-se: “Todos têm direito ao trabalho”. Erro. Deixaram de o ter. Porque a dinâmica das sociedades de mercado levou a isso. E tal não é analisado nem à direita nem à esquerda. O problema do desemprego só assustará as elites quando for tão amplo que deixe de ser controlável e as sociedades (democráticas ou outras) possam implodir. Esta crise está a funcionar como laboratório de um mundo que ainda não conhecemos como irá funcionar. Mas onde o emprego está a deixar de ser um direito.»

Fernando Sobral, no Negócios.
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A Guerra dos Portos




Recolha de entrevistas a vários estivadores europeus sobre o movimento internacional de solidariedade com o porto de Lisboa.



Mais explicações por um dos protagonistas.
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6.4.14

«E depois do adeus» – 6 de Abril de 1974



Foi nessa noite que Paulo de Carvalho cantou «E depois do adeus» no Festival da Eurovisão, em Brighton, depois de ter vencido o concurso em Portugal.

Se os votos que a canção obteve não foram muitos (ficou em último lugar, ex-aequo com mais três...), nem por isso teve um destino menor: foi a primeira senha para a Revolução, emitida pelos Emissores Associados de Lisboa, às 22h55m do dia 24 de Abril, escolhida precisamente pela sua popularidade e por o seu conteúdo não levantar qualquer tipo de suspeitas.




Já agora, a vencedora dessa noite:


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Em mood de fancofonia



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Notícias delirantes?

Um bebé de nove meses é acusado de assassinato no Paquistão, um cão é chamado a depor como testemunha num tribunal, uma portuguesa faz sucesso com um paté feito com larvas de escaravelhos, Passos Coelho reafirma n'importe quoi e o que nos vale é que o Sol regressou e ainda não paga IMI. 
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Alfredo Cunha - 25A (8)


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As liberdades contra a ditadura e o liberalismo



Acaba de sair o número de Abril de Le Monde Diplomatique (edição portuguesa), que comemora o 40º aniversário da Revolução e o 15º do jornal no nosso país. Para além de muitos outros textos, inclui um vasto dossier sobre as Liberdades Constitucionais (*).

Excertos do texto de Sandra Monteiro «Liberdades contra liberalismo».

«A história da democracia portuguesa, a partir de 1974, é em grande medida a história do confronto entre, por um lado, os valores da igualdade, proporcionalidade, protecção da confiança e dignidade da pessoa humana, que a Constituição protege, e, por outro lado, os valores liberais (em fase neoliberal ou ultraliberal) que cultivam o individualismo sentenciando à pobreza a maioria dos indivíduos, e que enaltecem a liberdade de escolha destruindo a autonomia substantiva dos cidadãos. O projecto liberal traz sempre a liberdade na ponta da língua, mas a sociedade que pretende criar, que está a criar, visa substituir as comunidades por sociedades de seres atomizados, entregues à sua sorte (ou à lotaria da classe em que nasceram). (...)

Hoje, o medo e o desespero que a realidade impõe só podem ser combatidos pela audácia de uma acção colectiva que recuse a liberdade totalitária dos credores, da armadilha da dívida, da Europa monetarista do Tratado Orçamental. São estas alavancas que podem evitar políticas de empobrecimento duradouro, seja por via da redução do poder de compra, seja por via da destruição do Estado social.

As liberdades que precisamos de ocupar, com a nossa presença e acção empenhadas, têm também de estilhaçar, tornando-o plural, o espaço que o liberalismo sequestrou para a sua narrativa do «natural», da «mudança impossível», da «inexistência de alternativas». O campo económico e o dos media são bons exemplos desse regime de quase-monopólio que os liberais querem impor a toda a sociedade, como se sonhassem com uma só lógica económica (a empresarial) e uma só lógica mediática (a da reprodução das narrativas dominantes).»

Na íntegra AQUI.

(*) Também contribuí com um texto sobre «Liberdade de expressão e informação», que divulgarei aqui oportunamente. 
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