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12.7.14

Neruda, 12 de Julho



Pablo Neruda faria hoje uns mais do que improváveis 110 anos, o que não é razão para se deixar de recordar esse grande, grande chileno, que nasceu em Parral e morreu em Santiago de Chile, com 69 anos, poucos dias depois da tragédia que vitimou Salvador Allende – «de tristeza», diria mais tarde Isabel Allende. pensou-se recentemente que podia ter sido envenenado por ordem de Pinochet, mas a hipótese foi descartada.

Talvez seja pouco conhecido que não se candidatou às eleições presidenciais de 1970 porque considerou que Allende teria mais possibilidade de as vencer, como veio a verificar-se.

Com a sua voz inconfundível, Pablo deixou gravada uma parte da sua poesia.






Poema de 1953, dedicado a Álvaro Cunhal, então a cumprir uma longa pena de prisão:

La lámpara marina
Portugal,
vuelve al mar, a tus navíos,
Portugal, vuelve al hombre, al marinero,
vuelve a la tierra tuya, a tu fragancia,
a tu razón libre en el viento,
de nuevo
a la luz matutina
del clavel y la espuma. Muéstranos tu tesoro,
tus hombres, tus mujeres.
No escondas más tu rostro
de embarcación valiente
puesta en las avanzadas del Océano.
Portugal, navegante,
descubridor de islas,
inventor de pimientas,
descubre el nuevo hombre,
as islas asombradas,
descubre el archipiélago en el tiempo.
La súbita
aparición
del pan
sobre la mesa,
la aurora,
tú, descúbrela,
descubridor de auroras.
Cómo es esto?
Cómo puedes negarte
al cielo de la luz tú, que mostraste
caminos a los ciegos?
Tú, dulce y férreo y viejo,
angosto y ancho padre
del horizonte, cómo
puedes cerrar la puerta
a los nuevos racimos
y al viento con estrellas del Oriente?
Proa de Europa, busca
en la corriente
las olas ancestrales,
la marítima barba
de Camoens.
Rompe
las telarañas
que cubren tu fragante arboladura,
y entonces
a nosostros os hijos de tus hijos,
aquellos para quienes
descubriste la arena
hasta entonces oscura
de la geografía deslumbrante, muéstra-nos que tú puedes
atravesar de nuevo
el nuevo mar escuro
y descubrir al hombre que ha nacido
en las islas más grandes de la tierra.
Navega, Portugal, la hora
llegó, levanta
tu estatura de proa
y entre las islas y los hombres vuelve
a ser camino.
En esta edad agrega
tu luz, vuelve a ser lámpara:
aprenderás de nuevo a ser estrella.”

In Las uvas y el viento, 1954 
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Nos idos de 1971 – a propósito da morte de Charlie Haden



O nome de Charlie Haden (CH) não vem no cartaz, porque não era ainda dos mais notáveis, mas foi ele que ficou ligado a um episódio gravado para sempre na memória dos que assistiram a este primeiro Festival de Jazz em Cascais.

Amália Rodrigues, Zeca Afonso, Alexandre O'Neil e Adriano Correia de Oliveira estiveram entre as 12.000 pessoas que, com dificuldade, conseguiram bilhetes e que viram, com espanto, Haden curvar-se para o microfone e dedicar a canção «Song for Che» aos movimentos de libertação dos negros em Angola e Moçambique. Uma mola pôs as bancadas de pé e os punhos erguidos, quando pendiam já dois panos com as inscrições «Guiné Livre» e «Abaixo Guerra Colonial».



Nos primeiros 7 minutos deste vídeo, o próprio CH relata o que se seguiu: a detenção pela PIDE, o seu espanto («Unbelievable!»), o facto de a polícia lhe ter dito que não devia misturar politica com musica!...



(Mais detalhes aqui.)

Para quem lá esteve – e eu estive – ficou a gratidão por este apoio, num pavilhão mais ou menos inacabado e onde havia uma quantidade inimaginável de pó!

É isso: 20 de Novembro de 1971 foi jazz, sem dúvida, Miles Davis, Ornette Coleman and friends, mas restou sobretudo Charlie Haden e pó, muito pó – como nas nossas vidas, nesses anos de chumbo, que precederam o 25 de Abril. 



P.S. – Aqui, vê-se o incidente:


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O adro é grande e a procissão ainda só começou a sair

Não mostrem isto ao Crato




Decreto 27.279 de 24.11.1936
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11.7.14

Argentina «days» – (2)



Se os lagos andinos, de que ontem falei, são um belo cartão de entrada na Patagónia, há que descer mais, Argentina abaixo, e fazer escala obrigatória em El Calafate, porque é a 80 quilómetros desta pequena cidade que se encontra o famosíssimo Perito Moreno – uma das minhas «paixões» de viajante, diria mesmo que a maior de todas, aquela que, mesmo que tente hesitar, acabo por pôr sempre na primeira linha de qualquer leque de escolhas.

Estende-se desde o campo de gelo Patagónico Sul, perto da fronteira com o Chile, até ao Sul do Lago Argentino, tem 5 quilómetros de largura e atinge 60 metros de altura. Considerado como uma das reservas de água doce mais importantes do mundo, não há palavras nem fotografias que revelem a realidade da sua força imponente, a extrema beleza das cores que vão variando com a intensidade do Sol, o silêncio e o ruído ronco de pequenas (ou grandes...) explosões.




Mas há que continuar a descer até Ushuaia, mesmo na ponta do continente americano, estar preparado para ter neve mesmo que seja Verão e ir até à estação do Fim do Mundo apanhar o pequeno comboio pata a Terra do Fogo.




Depois.... o ideal é mesmo fazer um pequeno cruzeiro de dois ou três dias no Estreito de Magalhães, subir ao Cabo Horn, ver glaciares de todos os tamanhos e feitios e ir desembarcando em pequenas ilhas onde vivem pacificamente milhares de pinguins. Mas cuidado e que ninguém diga a gentes da terra que já tinha visto iguais no Norte da Europa, porque é uma ofensa: pinguins só existem mesmo no hemisfério Sul!



Um conselho? Antes de partir, ler ou reler Patagónia Express de Luis Sepúlveda e, claro, Na Patagónia de Bruce Chatwin (não cheguei a ler este).
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Portugal – Brasil



«No futebol, Portugal e Brasil, também são irmãos de sangue: são humilhados, da mesma maneira, pela Alemanha. Mudam-se os números, mantém-se a sina. Ou o Fado. Ou a Bossa Nova. O Cristo do Corcovado chora da mesma maneira que o que olha para o Tejo.

A diferente dimensão dos dois países, e dos dois Cristos, não evita o destino comum. Talvez fosse bom cantar, em uníssono, "Chega de Saudade" de Vinícius de Moraes e Tom Jobim. O futebol é apenas a metáfora da política e da economia, das ilusões de um destino que quase se cumpre e ficam sempre para lá de um horizonte que nunca se alcança. Chico Buarque sabia isso: o que não tem explicação nem nunca terá. O Brasil, como Portugal, acredita sempre naquele milagre que faz a diferença. Mas é impossível errar de forma sistemática esperando que, no fim, as coisas se resolvam e concretizem de forma bondosa. No mundo do futebol, como da economia ou da vida das sociedades os milagres estão demasiado caros.

Improvisamos e acreditamos na sorte. Ou nos milagres matemáticos. Ou que a União Europeia resolva os problemas por nós, ou que os BRICS tomem decisões à nossa medida. Foi por isso que Portugal entrou no túnel da escuridão e o Brasil tenta equilibrar-se à beira do abismo. Portugueses e brasileiros são bons a improvisar. Mas falta-lhes sempre estratégia e planeamento. E sobra-lhes amiguismo político e económico e corrupção crónica. (...)

Como dizia o Padre António Vieira, "todos os que na matéria de Portugal se governaram pelo discurso, erraram e se perderam". Mas, antes, perderam os seus povos. Porque a humilhação do futebol tem outras raízes. Aquelas que ninguém quer tirar da terra para ficarem à vista. Cruas e cruéis.»

Fernando Sobral, no Negócios.
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Ó Portugal, se fosses só três sílabas!



... e,se não existisses, terias de ser inventado. Sem emenda.

Sondagem acabada de sair. Notícia AQUI.
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Lido por aí (72)

@João Abel Manta

* Os fretes e as falácias da OCDE (Alexandre Abreu)


* Germany's Choice: Will It Be America or Russia? (Markus Feldenkirchen, Christiane Hoffmann e René Pfister) 
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10.7.14

Argentina «days» – (1)




O futebol tem destas coisas: faz-nos tomar partido a favor ou contra uma ou outra equipa, não por considerarmos que tem mais ou menos jeito para chutar a bola mas pelo país de onde vem, leva-nos a sítios de que gostamos ou não, que nos marcaram pela positiva ou nem por isso. Pelo menos comigo é assim, admito que não o seja para os amantes do desporto, puros e duros...

Quando se fala de Argentina, que ninguém me peça para ser imparcial: é um dos países de que mais gosto neste mundo, onde melhor me sinto, nunca me cansarei de recordar o que sofreu com décadas de terríveis ditaduras, lamento que esteja de novo numa crise financeira gravíssima.

Mas é sobre a beleza, única e incomparável, de uma das suas regiões que trago hoje algumas memórias: a dos lagos andinos que ligam a Argentina ao Chile, mais concretamente Bariloche e arredores.

Faz lembrar a Suíça pela paisagem e até por alguma arquitectura, já que foram suíços e alemães que construíram o que agora existe? Certamente. Mas que ninguém diga que esta terra é a Suíça da América Latina, porque a segunda é que é a Bariloche da Europa, a tal ponto isto deixa a anos de luz o que se vê nos Alpes.

Ver para crer, de facto, na beleza desta parte da Patagónia, sobretudo por um conjunto de lagos inigualável em número, variedade, conjugação com montanhas e vegetação e de um azul absolutamente do outro mundo! Vaut le voyage, evidentemente.

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Parabenteados por Cavaco?



«A comoção que provocou o facto de Cavaco Silva não ter endereçado votos de parabéns a Carlos do Carmo é injustificada. (...) Desconfiamos que qualquer coisa está mal na nossa vida quando Cavaco Silva nos distingue. Recordo que Cavaco distinguiu Dias Loureiro com a sua amizade e Oliveira e Costa com o lugar de secretário de estado dos Assuntos Fiscais. (...)

Suponho que haja, neste momento, várias pessoas condecoradas ou parabenteadas por Cavaco a passar por uma indignação semelhante. Porque é que Carlos do Carmo e José Saramago merecem o menosprezo do Presidente e elas não? Que mal fizeram elas ao País para terem caído nas boas graças de Cavaco?»

Na íntegra AQUI.
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Foi assim


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Há quem os tenha no sítio



.... e outros não abrem o bico sobre o assunto e quase só escrevem agora sobre futebol. A reter. 
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2015 e o regresso do Robin dos Bosques



«"Quem era o Robin dos Bosques? Alguém que ia buscar impostos que ilegalmente e imoralmente o xerife de Nottingham arrecadava". A pergunta e a consequente resposta foram verbalizadas por Paulo Portas na já longínqua data de Julho de 2008, nos Açores, durante as jornadas parlamentares do CDS/PP. O xerife, claro está, era o então primeiro-ministro, José Sócrates. "É ele que continua a arrecadar mais impostos, mais receita, à custa dos portugueses".

Desde então, Robin dos Bosques meteu férias e o xerife de Nottingham intensificou a sua actividade de cobrança de impostos, com o desiderato inquestionável de salvar o país e resgatar-lhe a dignidade. (...)

[Mas] vai voltar a Portugal no Outono. Não por causa do Orçamento do Estado, mas porque é nessa altura que se começarão a ouvir os primeiros roncares dos motores partidários, a prepararem-se para o arranque da pré-campanha eleitoral. (...) Nessa altura, com a liderança do PS já definida, o Governo irá marcar terreno com o anúncio de que a carga fiscal será aligeirada em 2015, limitando assim o espaço de manobra da oposição.

O tabu que o primeiro-ministro, Passos Coelho, está a alimentar em relação a uma descida do IRS, não resulta da pressão de Bruxelas nem de pressupostos macroeconómicos. É tacticismo político em estado puro.»

Celso Filipe, no Negócios de hoje.
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9.7.14

Alguma surpresa?



«O Bloco de Esquerda (BE) é, dos partidos contactados pelo PÚBLICO, o único a reagir concretamente às notícias de violações e tortura que persistem naquele país, mesmo depois de os ministros dos Negócios Estrangeiros dos Estados da CPLP terem recomendado a adesão, em Fevereiro.»

Money, money... 
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Como aperitivo para o Argentina – Holanda



... e na esperança de que vençam os latino-americanos, nesta data em que o país proclamou a independência de Espanha (1816) e em que Mercedes Sosa nasceu, há 79 anos – dois acontecimentos, separados por mais de um século, mas ambos ligados a San Miguel de Tucumán, cidade do Noroeste dessa extraordinária Argentina!

Recordemos, então, Mercedes.








E, aqui, com vários «monstros»:


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Há mar e mar, há Rio e Costar.




Mas onde é que eu já ouvi isto? 
Talvez o país queira os dois, de braço dado, para alegria de muitos. E talvez nem fosse mau para acabar com alguns mitos.
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Trabalho: valor, direito e dever?



«Em finais de Dezembro de 1935 a revista "Time" dedicou a sua capa a um trabalhador soviético: Alexei Stakhanov. Mineiro, ele extraíra 102 toneladas de carvão num dia, 14 vezes o volume da cota diária de cada trabalhador.

Estaline fez dele um modelo. Até os americanos o veneraram. Nesses tempos o trabalho era um valor moral, um direito e um dever natural.

Adam Smith, que muitos evocam quando querem falar do liberalismo, tinha deixado a sua grande advertência em "A Riqueza das Nações": não se deveria retirar aos pobres a sua única propriedade, o trabalho. A austeridade dos nossos dias destruiu o valor do trabalho e roubou-lhe a sua alma moral e ética. O emprego ou é precário ou é taxado como se fosse um sinal exterior de riqueza. Portugal é o exemplo deste liberalismo estalinista, onde o Estado pilha toda a riqueza conseguida pelo trabalho. (...)

Em Portugal, o trabalho liberta? Não, neste país os portugueses trabalham para cumprir aquilo que se chamam obrigações fiscais. Em contrapartida, o Estado não é obrigado a ser sensato ou poupado.»

Fernando Sobral, no Negócios.
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Somos assim

8.7.14

Lido por aí (71)

O que Lisboa foi perdendo



A Praça da Figueira começou assim, no terreno das ruínas do Hospital Real de Todos os Santos, depois do terramoto de 1755:



Mais tarde, em 1885, foi inaugurado o novo mercado, cheio de vida durante todo o ano, mas com especial animação em Junho, durante as festas dos santos populares. Lindíssimo, bem podia ser sido preservado e servir hoje a população da cidade (como a Ribeira...), mas acabou por ser demolido em 1949.





Ficou então um espaço vazio. Em 1971, foi lá colocada uma estátua de D. João I, alinhada com a Rua da Prata para poder ser vista do Terreiro do Paço, numa praça relativamente inóspita. Talvez não houvesse necessidade...


(Fonte)
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Tratado Transatlântico? (2)



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Despedimento de jornalistas e direitos dos cidadãos



Crónica de Diana Andringa, ontem, na Antena1:

À hora a que ouvirem esta crónica, estarei a manifestar a minha solidariedade aos jornalistas e outros trabalhadores da Controlinveste, que a empresa entendeu despedir, na linha do que se vem tornando um padrão na solução de problemas empresariais: diminuir o pessoal, fazer mais com menos, substituir trabalhadores permanentes por precários descartáveis.

Como disse, vários destes trabalhadores são jornalistas, mas não é apenas por serem meus camaradas que estarei a protestar contra o seu despedimento, nem o torna mais revoltante que o despedimento de qualquer outro trabalhador. A forma como os mesmos jornais que afixam na primeira página as palavras do Papa Francisco contra o desemprego condenam a esse mesmo desemprego vários dos seus trabalhadores só nesse reforço de hipocrisia é diferente da utilizada em qualquer outra empresa.

A única diferença é que o despedimento colectivo de jornalistas afecta directamente a vida dos seus concidadãos, porque influi em coisas tão importantes como a qualidade do jornalismo, o tempo de pesquisa e de reflexão que a profissão exige, o pluralismo e, também, a independência de pensamento dos que ficam e dos que, precários, substituem os que saem.. Ou seja, porque interfere directamente com os nossos direitos de cidadãos a uma informação livre, plural e responsável.

Manifesto-me, portanto, por solidariedade, mas também por egoísmo. Porque, como cidadã, me sinto com direito a essa informação – livre, plural, responsável – pela qual sucessivas gerações de jornalistas e trabalhadores de informação lutaram e lutam. E porque hoje, 7 de Julho, passam seis anos sobre a morte de um deles, permitam-me que o lembre aqui, porque o nome dos jornalistas se esquece, muitas vezes, demasiado depressa: João Morais Isidro. Jornalista, antigo presidente do Sindicato dos Jornalistas. Meu camarada.

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7.7.14

Tratado Transatlântico?


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BES e a Suíça ali tão perto



Pedro Santos Guerreiro, no Expresso diário (*):

«O Grupo Espírito Santo não é dono só de um banco, o BES. É dono também de um banco na Suíça, o Banque Privée Espírito Santo. É um banco que gere grandes fortunas e que tem muitos clientes portugueses. Nos últimos anos, o banco ganhou ainda mais clientes, porque muita gente teve medo do fim da moeda única e tirou dinheiro não só do país como da zona euro. E a velha Suíça, que inexplicavelmente tem boa fama embora preste os mais opacos serviços financeiros da Europa, acolheu fortunas imensas. E sim, também há fortunas imensas portuguesas. Onde investiu o Banque Privée esse dinheiro? Numa série de títulos. Incluindo em papel comercial do GES, que agora está em “default”. Em incumprimento. Chama-se calote.

Repare-se bem no emaranhado: clientes do Banco Espírito Santo em Portugal transferiram dinheiro para o Banque Privée Espírito Santo na Suíça que foi em parte investido em títulos de dívida da Espírito Santo International, que está falida.

Muita gente achará que é bem feito, os ricos que se lixem. É uma visão errada: a frase “a justiça deve ser igual para todos” também se aplica na lógica inversa à habitual. Mas não deixa de ser irónico que quem tenha querido fugir do risco de o euro desaparecer perca agora dinheiro; e que quem veja na Suíça um porto seguro perceba que a Suíça é uma casa onde senhoras de boa fama praticam actos de mulheres de má fama. Como dizia há mês e meio neste jornal Gabriel Zucman, autor do livro "A Riqueza Oculta das Nações", há €30 mil milhões de portugueses na Suíça. 80% desse dinheiro será, estima ele, de evasão fiscal. Se parte do dinheiro que agora for perdido por clientes do Banque Privée foi não declarado, então sim há um certo sentido de justiça: quem o perder nem vai poder reclamá-lo, pois é dinheiro que, para fugir aos impostos (se não a outra coisa), saiu por debaixo da mesa.» (O realce é meu.)

(*) O link pode não funcionar. 
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Lido por aí (70)

Trabalho sem colectivo


Do texto de Sandra Monteiro em Le Monde Diplomatique (ed. portuguesa, Julho de 2014:

«Desgraçadamente, a crise iniciada em 2008 já dura há tempo suficiente para a investigação científica poder disponibilizar evidência empírica reveladora das consequências de uma ideologia poderosa em acção. O neoliberalismo austeritário, em particular o exercido sobre fundo dos constrangimentos da União Europeia e do euro, tem vindo a reconfigurar de alto a baixo as sociedades que, apesar de todos os defeitos, se estruturavam a partir de valores democráticos e igualitários e dependiam, para os defender, da forma como cuidavam dos seus serviços públicos e das suas protecções sociais e laborais. Neste sentido, a transformação em curso tem um pendor totalizante, sobre toda a sociedade, mas, ao apoiar-se sobretudo numa desvalorização interna, salarial, ganha em ser observada pelo prisma do mundo do trabalho e das relações laborais.

No mês de Junho, o Observatório das Crises e das Alternativas do Centro de Estudos Sociais reuniu, no colóquio intitulado "A Transferência de Rendimentos do Trabalho para o Capital", um conjunto de investigadores que partilharam conclusões sobre a desvalorização do trabalho e sobre a perda de instrumentos na relação laboral que permitiriam contrariar essa desvalorização. Entre muitas outras informações, assustadoras mas não surpreendentes, ficou-se a saber que o peso do trabalho (por conta própria e por conta de outrem) diminuiu de 53,2% do produto interno bruto (PIB), em 2007, para 52,2% do PIB, em 2013, ao passo que o excedente de exploração (indicador que reflecte a remuneração do capital) aumentou, no mesmo período, de 27,8% para 29,7% do PIB (sendo este último valor, aliás, o mais elevado desde 1995). Estes dados, apresentados pelo economista Pedro Ramos, foram depois objecto do seguinte cálculo por parte do «Dinheiro Vivo»: a "crise tirou 3,6 mil milhões aos salários e deu 2,6 mil milhões ao capital"[1].

É certo que a narrativa de quem defende a austeridade diz que todos estes "ajustamentos" e "sacrifícios" são para "consolidar as contas do país" e "resolver o problema da dívida". Mas, passados tantos anos de chumbo, cumprir as metas orçamentais dos tratados europeus continua a ser uma miragem (ou uma tragédia incalculável, se feita, como é previsível, à custa de cortes inimagináveis no trabalho e no Estado social); e a dívida continua a crescer a um ritmo galopante e totalmente insustentável. Para que serviu e serve a crise, portanto? Justamente para concretizar esta transferência de rendimentos do trabalho para o capital, onde cada vez se acumula mais riqueza para gáudio dos grandes accionistas, a pretexto de um "estado de necessidade" que teria apenas a ver com "maus comportamentos" adoptados em Portugal, e não com as regras da arquitectura europeia e monetária.»

Na íntegra AQUI.

[1] 21 de Junho de 2014, disponível aqui.
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6.7.14

Faltava ela


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Racismo de hoje e de ontem



Ouvir Vincent Kompany, capitão da equipa da Bélgica no mundial de futebol, ler uma mensagem contra o racismo antes do jogo com a Argentina, acordou em mim memórias que têm décadas e que já referi algumas vezes.

Estudava eu em Lovaina quando os primeiros estudantes do Congo ainda belga (não muitos) frequentavam também a Universidade. Recém-chegada do cinzentíssimo Portugal de Salazar, conheci-os bem e aprendi muito com eles, diria mesmo que fiquei a dever-lhes a verdadeira compreensão do que era então o colonialismo. Talvez por isso nunca tenha esquecido esta espécie de lengalenga que tinham sido obrigados a decorar na escola primária, no coração de uma África tão negra como eles: «Nos ancêtres les gaulois étaient grands et étaient blonds».

Kompany nasceu em Bruxelas, no belíssimo bairro de Uccle, de pai congolês e mãe belga. Se é certo que a imagem de ontem revela, tristemente, que ainda são necessárias mensagens contra o racismo, ela mostra também que o capitão da equipa belga não é branco – realidade certamente inimaginável para os meus amigos, quando, ainda meninos, foram forçados a «orgulhar-se» dos antepassados loiros que nunca tiveram. 
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Isto é inadmissível




Maya no canal CMTV.

(Via Ana Matos Pires)

Entretanto, a ler: Maya em guerra com médicos.
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Vem aí outro Vítor



Talvez não seja fácil prever o que aí vem com a nomeação de Vítor Bento para tomar conta do BES, independentemente da direcção propriamente dita do banco. Não se trata apenas de um nome entre vários possíveis, mas de alguém da linha mais do que dura em termos da gestão da crise em que o país mergulhou.

Foi um dos primeiros (se não mesmo o primeiro) a afirmar que os portugueses estão a viver muito acima das suas possibilidades, um dos poucos defensores da TSU que não chegou a ver a luz do dia em Setembro de 2012, opositor acérrimo a qualquer ideia de reestruturação da dívida.

No Expresso de ontem, Pedro Santos Guerreiro (PSG) é certeiro nestas observações que, curiosamente (ou talvez não), lembram um outro Vítor, Gaspar pelo lado do pai (*). Bento não vai para o governo, é certo, mas a sua influência extravasará a instituição a que presidirá.

«Os grandes clientes do BES nem vão saber de que terra são. Vítor Bento não é só um novo líder, representa uma nova filosofia. Conhece aquela frase “é preciso um novo paradigma”? Nunca quer dizer nada. Excepto desta vez: é mesmo uma mudança. Bento é um macroeconomista puro, que tem a oportunidade de uma vida de pôr em prática o que sempre defendeu: o fim dos poderes instalados, dos negócios de família, das rendas nos sectores não transacionáveis, dos apoios a investimentos duvidosos do Estado. Está a ver o alcance da opção? Está mesmo? E está a ver o PSD por todo o lado?» 

Além disso, e como tantos já disseram desde ontem, isto é mesmo uma OPA do PSD, com Cavaco Silva no bolso. Diz PSG no mesmo texto:

«Desculpem lá: Bento não tem experiência na banca comercial mas está acima de todas as suspeitas. Mas... um cavaquista como CEO, um ex-deputado do PSD como chairman, um administrador financeiro da confiança de Maria Luís, com um governador social-democrata... Porque tinham de alambazar-se? O PSD tomou conta do BES? Caramba, depois do brilharete de Passos na semana passada... Porquê? A escolha de Vítor Bento resolvia o problema reputacional, escusavam de criar outro.»

Talvez não houvesse necessidade...

(*) Julgo que o link não funciona para não assinantes do Expresso
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