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19.7.14

Desta não se lembrou



... quem fez o estudo sobre natalidade para o PSD.

Político japonês sugere aumentar natalidade com preservativos furados.

Manuel Alegria, bits e bytes



A revista Sábado desta semana traz um extensíssimo dossier sobre a vida rocambolesca de um personagem que dá pelo nome de Manuel Alegria, que terá sido adjunto de Sá Carneiro, que tinha fortes ligações à família Espírito Santo e que fugiu do país em 1975, com ou sem uma mala cheia de dinheiro. Tem agora 80 anos, vive em Bruxelas e, de lá, respondeu a uma espécie de entrevista que a Sábado divulga. Devo dizer que os detalhes da história pouco me interessam, mas o nome fez-me recuar nada menos do que 45 anos.

Nos idos de 1969, mais do que fartíssima de dar aulas na secção de Filosofia da Faculdade de Letras de Lisboa (que caracterizar como cinzenta seria considerá-la demasiado garrida), decidi virar-me para a informática, tirar uns cursos e aceitar uma proposta de emprego, a meio tempo, numa empresa que hoje seria de «Outsourcing» e se definia então como um «Service Bureau». SERTE era o seu nome, proprietário, ou pelo menos principal sócio e director executivo, o tal dr. Manuel Alegria. Saíra há algum tempo da IBM (o dossier da Sábado refere o facto) e eu para lá transitei depois de passar um ano no dito «Service Bureau» – uma bela tarimba a que muito fiquei a dever.

Sobre essa experiência, ontem «desenterrada», publiquei há nove anos, num outro blogue, um texto que hoje repesco e altero um pouco. Absolutamente matusalénico para quase todos, julgo que memorialístico para uns tantos. Os factos são todos absolutamente verídicos (mangas de alpaca incluídas), apenas alterei os nomes.

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O Sr. Santos aperta a mão a cada um dos colegas, como todos fazem quando chegam de manhã.
O Sr. Silva vira a página do calendário e enfia as mangas de alpaca pretas, com elástico em cima e nos punhos, para poupar o casaco cinzento que comprou no Natal.
O Sr. Martins tira o meio lápis que já tinha guardado atrás da orelha e pega no escantilhão para continuar a desenhar o complexo fluxograma que colocará mais tarde na corticite a que encosta a cadeira.
A Célia começa a perfurar um programa novo em cartões azuis.
A Leonor queixa-se das insónias da noite anterior.
As duas doutoras verificam cuidadosamente os maços de cartões que a Célia pôs nas suas secretárias e voltam a colocar elásticos em cada um. Nessa noite, seguirão de avião para a Bélgica os seus primeiros programas.

É assim que se prepara a chegada de um novo computador, numa cave de Almirante Reis, numa manhã da Primavera de 1970.
O chamado material clássico e os pesados computadores a cartões, todos cinzentos, continuam a executar as aplicações de salários e de contabilidade dos clientes. Mas não chegam para satisfazer as exigências e a visão que o Dr. José Azevedo tem para a sua empresa, no início de uma nova década.
Por isso vem aí «O» computador que ainda precisará de cartões, mas que terá também discos e bandas magnéticas e 30K bytes (leram bem...) de memória! O espaço já está reservado e devidamente envidraçado, o chão falso colocado e a instalação de ar condicionado não tardará. As duas doutoras foram admitidas por causa dele.

O Sr. Martins explica às doutoras por que razão é preciso utilizar tantas instruções de condensação nos programas: há que poupar meios bytes sempre que possível, todo o desperdício pode ser fatal, mesmo com o grande sistema que aí vem.
O Sr. Silva combina com os outros homens mais uma almoçarada com frango de churrasco e tenta convencer as doutoras a participarem. Fazem sempre campeonatos para verem quem come mais. Elas dizem que talvez para a semana. As perfuradoras levam comida de casa e as doutoras, normalmente, fazem companhia uma à outra num restaurante perto da Praça do Chile.

O Sr. Martins é o chefe da Programação e Análise. Só tem a 4ª classe, mas todos acham que ele é um génio. Nem percebem para que servem doutores, o exemplo do Sr. Martins mostra bem que não são precisos canudos para lidar com computadores. Mas acham uma certa graça a que estejam lá agora duas jovens doutoras. 

A Drª Júlia telefona para o fornecedor do novo computador para que mande buscar os cartões com os programas. Estes serão compilados em Bruxelas. Tem de ser assim já que o dito computador será o primeiro da sua espécie, o maior, o mais rápido a ser instalado em Portugal. Os cartões são entregues a uma hospedeira da TAP, a mesma que, dois ou três dias depois, trará uma pesada listagem com o resultado das compilações e respectivos erros. E o ciclo recomeçará.
O Sr. Santos pergunta a todos se acreditam que o arranque do novo sistema se fará em Maio como previsto. Ninguém responde porque toda a gente duvida.
A Leonor diz à Célia (que é a responsável pela Perfuração, ou seja por ela própria e pela Leonor) que o papel higiénico de reserva não vai chegar até ao fim do mês se não houver um esforço colectivo de poupança.

É 6a feira, 1h da tarde. Os homens atravessam a avenida e vão comer o tal frango de churrasco. Já está calor desde manhã, mas ninguém sabia porque não há janelas na cave de Almirante Reis.
Os eléctricos passam devagar, meios vazios. Os portugueses continuam tristonhos, mas há algo de diferente nas ruas. As raparigas encurtaram muito as saias, há mesmo algumas de hot pants.

As duas doutoras não têm nada que fazer porque as listagens de Bruxelas só chegarão lá para 3ª feira. O tempo custa a passar.
A Célia recorda que há um lanche às 5h no átrio da casa de banho das senhoras porque a Leonor faz anos.
A Drª Júlia telefona ao namorado e combinam ir ao cinema. A Drª Rita pergunta-lhe o que vai ver. Diz que ainda não sabe: parece-lhe demasiado esotérico explicar que será «A Paixão de Joana d’ Arc», numa retrospectiva de Carl Dreyer, no Palácio Foz.
A Leonor diz que está desejando que o dia acabe para ir buscar a filha que só vê aos fins de semana: de 2a a 6a fica em casa dos avós na Malveira.

Acabou o fim de semana, passou-se mais um mês.
É noite e Marcelo Caetano entra pela casa dos portugueses com mais uma «Conversa em Família». Em Alfama, preparam-se as ruas para a noite de Santo António.

O computador chega entretanto. São abertas dezenas de caixotes, os técnicos do fornecedor esticam muitos metros de cabos. Alguns periféricos vêm embrulhados em longos panos prateados e a drª Júlia leva alguns metros para mandar fazer uma minissaia.
Já piscam luzinhas desde a véspera. É muito tarde, quase madrugada, mas ninguém se vai embora. Finalmente o sistema «arranca»! Só compila e só executa um programa de cada vez (modernices de multiprocessamentos só virão mais tarde), mas tem 30 K, é grande, é bonito e fica muito bem na sala envidraçada.
Vem o Dr. Azevedo, abre-se uma garrafa de champanhe. As perfuradoras põem batom, o Sr. Silva tira as mangas de alpaca.

P.S. – O verdadeiro nome do dr. Azevedo é Manuel Alegria. 
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BES: pagar à hora certa



«Resta saber se este anúncio, publicado na mesma semana em que as empresas do Grupo Espírito Santo falharam os pagamentos aos seus credores, já é da responsabilidade da nova equipa ou se se trata da mensagem de despedida da antiga...» – pergunta o Luís Branco, com toda a razão.
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E eis que surgiu uma nova causa



... e esta é verdadeiramente nacional: ser contra ou a favor da mãe de Cristiano Ronaldo. Exemplos de uma ou de outra posição não faltam e as redes sociais exultam. Grande, grande, país! 
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Lido por aí (77)


@João Abel Manta

* Contra a alternância (José Manuel Pureza)

* Não há dinheiro? (José Maria Castro Caldas)

 * El periodismo se enfrenta al reto de los robots que elaboran noticias (Cristina F. Pereda)
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18.7.14

Já vai caindo no esquecimento



... mas Mandela faria hoje 96 anos. 
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Há 78 anos – uma Guerra, aqui mesmo ao lado



Na noite de 17 para 18 de Julho de 1936, teve início a terrível Guerra Civil Espanhola que iria durar quase três anos.

*** Um site precioso.

*** Um dossier especial de El País, publicado em 2011, por ocasião do 75º aniversário.

*** Dois vídeos:






*** Duas canções emblemáticas:




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BES sem ES?



«No passado domingo, o Banco de Portugal convocou para a hora do jantar uma reunião extraordinária do Conselho de Administração do BES para determinar a cooptação dos novos membros para a comissão executiva. (...) Marcar uma reunião para a hora em que está a dar o Alemanha-Argentina diz muito sobre o mundo - à parte - onde esta gente vive. (...)

Na verdade, acho que separar o nome Espírito do Santo do banco é a ideia mais estapafúrdia e inconcebível que já ouvi. Tirar o ES do BES, é como tirar o nome Sintra das queijadas, ou Porto no Vinho do Porto. É mais que um nome, é uma tradição, é o prestígio da marca. O BES, sem a família Espírito Santo, deixa de fazer sentido: nada o distingue dos outros. O que dava sossego, e conforto, aos clientes era, precisamente, o facto do banco pertencer há 150 anos a esta família, a última das grandes famílias tradicionais. O sabermos que, lá em cima, estava o Salgado (e toda a dinastia), o DDT, a olhar por nós. Era o quentinho, como no velho clássico português 'O Pátio das Cantigas' quando as crianças, no meio do alvoroço, são colocadas numa carroça que tem escrito "Salazar", enquanto Vasco Santana declara: "aqui, estão em segurança".

Depois do fim dos Espírito Santo, resta rezar para que a família Santini não se meta num esquema de ponzi, ou nada irá restar dos velhos tempos; e daquele óptimo gelado de baunilha.»

João Quadros
(O link pode só funcionar mais tarde.)
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Lido por aí (76)

17.7.14

Downsizing


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Regresso ao banco-colchão



Ricardo Araújo Pereira, obviamente a propósito do caso BES:

«O cidadão que deseje continuar a comprar bancos fará melhor se tirar o seu dinheiro dos bancos. É mais fácil comprar os bancos a prestações, através dos impostos, do que investir as poupanças todas de uma vez, ficando sem elas. O melhor método, e o mais seguro, parece ser o mais antigo: guardar o dinheiro no colchão (...)
Todos os dias verifico se o meu colchão abriu offshores nas ilhas Caimão, ou se perdeu milhões em Angola. Até agora, nada. Tem sido um bom colchão, não só a gerir os meus activos como a proporcionar suporte lombar – o que os bancos, aliás, sempre negligenciaram.»

Na íntegra AQUI.
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Ai, Portugal...



Domingos Lopes, no Público de hoje: 

«Portugal, em breve, assemelhar-se-á a um campo longilíneo de refugiados ao longo do mar. Sem agricultura, sem pesca, sem indústria que possa competir na UE, Portugal terá nas suas costas uma espécie de deserto a partir dos 30 a 40 quilómetros da costa.

Nesse interior abandonado, quase sem emprego, serviços de saúde, tribunais repartições de Finanças e escolas, os jovens acumular-se-ão sempre e mais na pequena faixa litoral, deixando em risco a própria existência do país que foi herdado dos antepassados. Sem esperança e com uma taxa de mortalidade superior à da natalidade, é o destino do país que está em causa, enquanto nação independente.

Endividado, incapaz de fazer do euro um meio de se afirmar na UE e no mundo, com dirigentes políticos a baterem-se pelas suas coutadas, impotente para ganhar a confiança popular que virou as costas às instituições, Portugal caminha ao sabor dos ventos e entregue aos desígnios dos credores, os verdadeiros donos do país.»
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Lido por aí (75)


@João Abel Manta

* Portugal, campeão europeu (Alexandre Abreu)

* Não haverá mais bebés. Habituem-se (Ana Sá Lopes)

* Is Merkel Thinking of Stepping Down? (Nikolaus Blome)
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Uma excelente sugestão

16.7.14

Sobre as incógnitas no BES e não só




Vale mesmo a pena ouvir o que disse Ricardo Paes Mamede, ontem, na TVI24. (E apertar os cintos!)
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Quando se manifestava em cima de blindados



Não sei se estava tanto calor como hoje, em 16 de Julho de 1975, mas, politicamente, o ambiente era bem mais tórrido do que aquele que se concretiza agora em guerras de números de simpatizantes de alguns e de cisões e contracisões de outros. O povo está bem mais sereno (vá lá saber-se porquê e se para o bem) e quem disser o contrário que levante o braço.

O IV Governo Provisório, chefiado por Vasco Gonçalves, vivia na maior das efervescências o seu último mês, o PS já o abandonara há cinco dias e o PPD fez o mesmo precisamente na madrugada de 16 de Julho. Seguiram-se, no mesmo dia, João Cravinho e Jorge Sampaio, então independentes, que justificaram a decisão num longo documento de 14 páginas, em que concluíam que «a crise geral do sistema» resulta «de a burguesia se mostrar já incapaz de governar e de o proletariado não ser ainda capaz de o fazer». (Sorrisos inevitáveis, a 39 anos de distância...)

Mas o que marcou essa data, sobretudo para quem a viveu, foi uma «manifestação unitária pelo poder popular», que desfilou pelas ruas de Lisboa para exigir a «dissolução da Constituinte», «controlo operário» e a queda do Governo Provisório e a instalação de um Governo Popular. Convocada pelas comissões de trabalhadores e de moradores, contou com a adesão da UDP, CMLP, CRTSM, MES, ORPC (m-l), PRP-BR e AEPPA (Associação de Ex-Presos Políticos Antifascistas). Nada de especialmente novo, para os tempos que iam correndo, não fosse o facto de, pela primeira vez, terem participado centenas de militares fardados e com blindados, Dinis de Almeida incluído.

Noticiava o Diário de Lisboa do dia seguinte: «O traço dominante da manifestação de ontem foi a fusão, no mesmo corpo popular, de trabalhadores e soldados que durante larga parte do percurso ocuparam conjuntamente os veículos militares armados, numa demonstração pública sem precedentes do reforço da linha revolucionária no Exército e da compreensão da sua cada vez maior evolução para uma forma de braço armado do povo.»

O resto do Verão não arrefeceu e... acabou como é sabido.

(Fonte, entre outras) 
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Francisco Louçã: «Duas coisas sensatas, uma boa e outra nem por isso»



Texto publicado no Facebook por Francisco Louçã (com foto incluída) e que vai fazer correr por aí muitos caracteres. Realço o início, já que estou farta, fartíssima, da passadeira vermelha que a comunicação social estende a meia dúzia de gatos – sem nada contra os ditos bichanos, nem contra as pessoas em causa.

«A “desvinculação do Fórum Manifesto” em relação ao Bloco concretizou-se com a saída de Ana Drago do Bloco, com mais três militantes. A notícia é importante, por isso os primeiros passos do novo partido que estão a constituir devem ser analisados com cuidado.

O primeiro foi uma decisão sensata: a Ana decidiu cessar funções como deputada municipal do Bloco. É correto. Alguém que abandona um partido, para criar outro, só poderia ficar com esse mandato se quisesse desrespeitar os eleitores. Esta escolha prova maturidade democrática (e uma bofetada de luva branca a quem procede ao contrário, em benefício da sua carreira).

O segundo passo é explicado num artigo de Daniel Oliveira no Expresso, acerca do “processo confuso e lento para o nascimento de um novo sujeito político, que esteja disponível para construir maiorias de governo”. Este novo partido, explica, deve fazer o que os outros nunca fizeram: concretizar a aliança com o PS para a “governação”. Para isso, evidentemente, tem pela frente uma escolha imediata: não pode propor ao PS que abandone o Tratado Orçamental, mesmo que lamente que este seja um “um atentado à soberania democrática e ao parlamentarismo”. Se pusesse essa condição, a negociação seria uma farsa. António Costa, aliás, já deixou claro que cumpre esses “compromissos internacionais” sem qualquer hesitação. Resta então, explica Oliveira, “rever as metas do Tratado Orçamental”, aceitando-o.

O longo caminho para aqui chegar foi percorrido num ápice. Oliveira, que defendeu a saída do euro como única solução de fundo para Portugal e que considera que o Tratado da austeridade é um “atentado à soberania”, sabia que teria que escolher entre dois caminhos. Ou dá razão ao Bloco e constrói o seu partido no pressuposto de que não é aceitável uma aliança governativa para aplicar esse Tratado e a austeridade que ele representa, ou aceita o Tratado, “um atentado”, rezando para que as suas metas sejam atenuadas, de modo a que a austeridade seja mais leve.

É sempre ilustrativo verificar como esta mudança se processou num relâmpago. O Fórum Manifesto aprovou em dezembro de 2013, há sete meses, uma cuidadosa resolução que criticava o Bloco porque, ao defender a reestruturação da dívida, não concluía que isso conduziria à saída do euro. Mais ainda, explicava – com os votos dos quatro militantes que agora saíram do Bloco e também de Daniel Oliveira – que a União Europeia se transformou num perigo para Portugal:

“Á luz de dois anos de imposição do Memorando de Entendimento, a centralidade do debate europeu na sociedade portuguesa mantém-se, mas assume hoje uma configuração radicalmente diferente. De súbito, a Europa já não surge publicamente como um espaço de modernização social e de desenvolvimento da economia portuguesa. Pelo contrário, é o ator principal de um processo de brutal desvalorização dos rendimentos, de retrocesso de direitos sociais e laborais e de destruição do tecido económico”.

Por isso, o Fórum Manifesto concluía que é preciso preparar a saída do euro:

“Esta opção significa assumir, de forma plena e de princípio, todas as consequências que se associam a um processo negocial com a Troika, incluindo a saída do euro. Mais: apenas assumindo a disposição para ir até às últimas consequências, em resultado de uma convicção consciente e firme sobre a impossibilidade de permanecer num sistema monetário que apenas nos destina a um empobrecimento sem fim, qualquer negociação poderá comportar margens de sucesso.(...) É esse o problema que se coloca em relação ao euro. O euro é, no atual quadro de cor relação de forças políticas, irreformável: correspondeu e continuará necessariamente a corresponder à construção de um fosso intransponível entre centro e periferia europeia, que obrigará a um processo de subdesenvolvimento das economias mais fracas da União. E é justo afirmar que, mesmo que muito mudasse em Portugal e na Europa – e era preciso que muito mudasse em Portugal e na Europa – não há, dentro do euro, futuro para um crescimento económico do país que seja socialmente sustentável”.

Em sete meses, para o Fórum Manifesto, a União Europeia passou de “ator principal de um processo de brutal desvalorização dos rendimentos”, impondo a “convicção consciente e firme sobre a impossibilidade de permanecer num sistema monetário que apenas nos destina a um empobrecimento sem fim”, com um “euro irreformável”, dentro do qual “não há futuro para um crescimento económico do país que seja socialmente sustentável”, para a aceitação do Tratado Orçamental e das regras da austeridade, claro que na esperança da sua moderação.

Como o novo partido leva a sério o seu putativo acordo com o PS e sabe que este é que determina a política e, mais, que a “dona disto tudo”, Merkel, não aceita um governo fora do quadro dos Tratados e da política do empobrecimento, anuncia já que os seus promotores moderam as suas posições anteriores e vão à negociação.

É uma decisão realista e mesmo honesta, porque é explicitada para que toda a gente perceba a mudança, mas é duvidoso que seja uma via nova para a esquerda e para o país: ela anuncia o que vai acontecer a esta “governação” e o que vai fazer a Portugal. Por isso, a sua prudência é simplesmente a desistência de resolver os problemas de Portugal. Aliás, se medirmos esta política pela velocidade alucinante da mudança de posição na questão decisiva para Portugal, então percebemos que passamos a ter mais um exemplo da política que sempre nos governou.» 
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É outro o nó górdio



«Em Portugal, desde há muito, o dinheiro serve para se conseguir poder e o poder serve para se conseguir dinheiro.

As elites transferiam o poder através das eleições e quem o detinha tentava nunca parecer demasiado perfeito, porque a inveja cria demasiados inimigos. Tudo sempre se resolveu pelas ligações, por não se criar riscos políticos, por nunca se ter inimigos reais. (...) Esse tempo de paz silenciosa ruiu algures em 2008 e, como sempre, as ondas de choque só se sentiram em Portugal anos depois.

A chegada ao poder de Pedro Passos Coelho trazia em si, como numa incubadora, um vírus de destruição maciça. Pensaram muitos que ele era algo que acabou por se revelar não ser. O seu alinhamento é com outros centros de poder. Por isso o poder dos banqueiros em Portugal estava condenado. Porque a austeridade foi o nó górdio dos banqueiros portugueses. O nó impossível de desatar, a dívida que não se transforma como a água em algo gasoso. Por isso, uns após outros, têm caído como um castelo de cartas. Hoje são outros mestres da magia que influenciam o poder português. Olhe-se quem faz e desfaz as leis e quem estabelece as ligações no círculo do poder. O fim do poder do GES e de Ricardo Salgado era o resultado de uma inevitabilidade: o controle do dinheiro e do poder faz-se hoje de outras maneiras. O nó górdio ata-se hoje de outra maneira.»

Fernando Sobral, no Negócios.
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15.7.14

Trevas



Os textos de Almada Negreiros são pouco divulgados e não o merecem. Hoje fica aqui este: 

«De dia não se via nada, mas p'la tardinha já se apercebia gente que vinha de punhaes na mão, devagar, silenciosamente, nascendo dos pinheiros e morrendo nelles. E os punhaes não brilhavam: eram luzes distantes, eram guias de lençoes de linho escorridos de hombros franzinos. E a briza que vinha dava gestos de azas vencidas aos lençoes de linho, azas brancas de garças caídas por faunos caçadores. E o vento segredava por entre os pinheiros os mêdos que nasciam.

E vinha vindo a Noite por entre os pinheiros, e vinha descalça com pés de surdina por môr do barulho, de braços estendidos p'ra não topar com os troncos; e vinha vindo a noite céguinha como a lanterna que lhe pendia da cinta. E vinha a sonhar. As sombras ao vê-la esconderam os punhaes nos peitos vazios.

A lua é uma laranja d'oiro num prato azul do Egypto com perolas desirmanadas. E as silhuetas negras dos pinheiros embaloiçados na briza eram um bailado de estatuas de sonho em vitraes azues. Mãos ladras de sombra leváram a laranja, e o prato enlutou-se.

Por entre os pinheiros esgalgados, por entre os pinheiros entristecidos, havia gemidos da briza dos tumulos, havia surdinas de gritos distantes - e distantes os ouviam os pinheiros esgalgados, os pinheiros gigantes.

A briza fez-se gritos de pavões perseguidos. E as sombras em danças macabras fugiam fumo dos pinheiraes p'lo meu respirar.

Escondidas todas por detraz de todos os pinheiros, chocam-se nos ares os punhaes acêsos. Faz-se a fogueira e as bruxas em roda rezam a gritar ladainhas da Morte. Veem mais bruxas, trazem alfanges e um caixão. Doem-me os cabellos, fecham-se-me os olhos e quatro anjos levam-me a alma... Mas a cigarra em algazarra de alêm do monte vem dizer-me que tudo dorme em silencio na escuridão.»

Veiu a manha e foi como de dia: não se via nada.»

Almada Negreiros, Frisos - Revista Orpheu nº1 
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Lido por aí (74)


@João Abel Manta

* Hay Alternativas y se pueden poner en marcha (Juan Torres López)

* Gritaria (Luís Bernardo)

* Salvar al soldado PSOE (Josep Maria Antentas)
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Até onde, futebol?



Google censura no Brasil.

«La ilusión de Brasil se vio truncada tras la abultada derrota frente a Alemania en semifinales. “Derrotados”, “humillados”, “destruidos”, esas fueron algunas de las palabras más buscadas en Google junto al término Brasil. Sin embargo, el buscador no ofreció resultados relacionados con esas palabras, tampoco “vergüenza”, cuando se entraba en Trends, su herramienta para consultar las tendencias dentro del buscador en tiempo real.»
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Merkel versus Poirot



«Hercule Poirot, no "Crime no Expresso do Oriente", tem de descobrir quem matou um passageiro com 12 facadas quando o comboio estava parado devido a uma tempestade de neve.

Durante a investigação são colocadas pistas falsas no caminho de Poirot para mantê-lo fora de cena. Mas, entre álibis forjados, Poirot acabará por descobrir o culpado. Todos, nos últimos anos, têm tentado na Zona Euro mostrar que têm álibis. (...) [Merkel], agora, para calar as críticas sustentadas de Matteo Renzi e a nova aliança França/Itália para a flexibilização da austeridade e aposta no crescimento, veio atirar para a lama um "banco português" (o BES) para mostrar a validade da sua política trituradora.

Hercule Poirot desmontaria o álibi de Merkel. O BES é uma pista falsa para a fragilidade económico e política para os que podem aparecer como culpados. "O Crime no TGV Atenas/Lisboa" continua a ser um mistério, mas já todos sabem quem da Zona Euro e para o fogo lento em que vai queimando as suas últimas energias. Merkel acha que toda a Europa deve funcionar como a sua "mannschaft", a equipa que parece um relógio de cuco. E que as suas palavras devem ser lei, ou mesmo o pensamento único. Escusava era de inventar álibis.»

Fernando Sobral, no Negócios.
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14.7.14

Antes que o dia acabe



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Ingmar Bergman, 14 de Julho



Ingmar Bergman faria hoje 96 anos e morreu há 7. Foi durante alguns anos o meu cineasta de eleição e criou-me um fascínio tal pelos seus filmes, e pelo ambiente em que se passavam, que me fez gastar os primeiros tostões que consegui poupar. Para quê? Para ir a um balcão da TAP comprar um bilhete que me levou até à Suécia.

Pretexto para recordar duas obras «eternas», dos anos 50, entre muitas outras magníficas!






E Saraband, o filme tardio de 2003 – de cortar a respiração, para quem o viu.


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BES: a realidade ultrapassa a ficção



Se nos mostrassem, há poucos meses (ou mesmo semanas), este título, apostaríamos tratar-se de Imprensa Falsa. Mas não: é pura e simplesmente tirado do Expresso diário de hoje.

«A família Espírito Santo pode apenas dispor economicamente de 0,1% do BES, apesar de deter ainda os direitos de voto de 20,1%.»

Monótona é que esta vida não é e previsível ainda menos. O pior é o resto. 
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Está tudo doido?




Lisboa, essa cidade do interior, a centenas de quilómetros de qualquer oceano ou braço de rio! 
«Estância balnear da cidade de Lisboa» – num tanque. Alguém está mesmo a gozar connosco. 
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14 de Julho. Tanto que devemos a esta data!



Tomada da Bastilha, em 1789. Retomo em parte um post antigo, já que não há muito que inovar nestes domínios. Mas talvez tenhamos hoje motivos mais fortes para reconhecermos, sublinharmos e agradecermos o que a Revolução Francesa fez pelas nossas vidas.

Um pouco de música para a recordar.

Um ano mais tarde foi organizada a Festa da Federação, para sempre ligada a uma das canções ícone da Revolução Francesa. Os operários cantavam-na enquanto preparavam o Champ-de-Mars, onde iria ter lugar a comemoração:




Já de 1792, o que viria a tornar-se o hino dos «sans-culottes»:




 
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Lido por aí (73)


@João Abel Manta

* Diário de um cínico (Tiago Matos Silva)

* Ascenso y caída del Espirito Santo (Javier Martín)

* España: Autoritarismo, secuela lógica del capitalismo neoliberal (Xavier Caño Tamayo)
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13.7.14

Prémio de (pouca) consolação



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Argentina «days» – (3)



Pronto: a final do Mundial é daqui a pouco, continuo a fazer figas para que a Argentina ganhe (enquanto há fé há esperança...) e regresso, desta vez, a Buenos Aires.

Poderia escrever dez posts, ou repescar 5 ou 6, mas não me saem da cabeça as árvores desta minha cidade de eleição, onde gostava bem de ter estado mais do que duas vezes e durante muito mais tempo. Não porque não tenha visto troncos e copas bem maiores, e muito mais estranhos e imponentes, mas porque, em Buenos Aires, são muitos, lindos, espalhados por muitos parques, praças e avenidas. E, talvez sobretudo, porque li recentemente um pequeno livro de Ernesto SchooMi Buenos Aires Querido – que lhes dedica algumas páginas magníficas, que me deram ganas de atravessar o Atlântico e palmilhar ruas à procura de plátanos, freixos e outros exemplares de que nem fixei o nome. Fica um excerto:

«Não se sabe se imploram ou ameaçam. Ou uma coisa e outra, à vez. Confesso que não sei o nome destas árvores, tão características de Buenos Aires. No Inverno, nuas como estão, e negras, os seus ramos curvam-se numa caligrafia trágica. Parecem rasgar o céu cinzento; parecem mãos como ganchos, daquelas que os malvados, os bruxos e os monstros ostentam nas historietas e nos desenhos animados. Uma personagem d’ A Prisioneira, um drama do italiano Ugo Betti (tão famoso na década de 50, tão esquecido hoje), diz que, se morresse e lhe fosse possível regressar à sua cidade, a reconheceria de imediato pelas árvores. Creio que o mesmo se passaria comigo.»

E por falar em «Mi Buenos Aires Querido»:


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A esta hora, algures em Roma


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BES salgado



«Bem pode o dr. Salgado mandar dizer que o banco tem uma almofada de 2,1 mil milhões e que a exposição ao GES é de apenas 1,2 mil milhões. Bem pode dizer que o GES é uma coisa e o BES outra, embora os administradores do banco estivessem todos na administração do grupo. Bem pode culpar o contabilista, a crise, a informática, o dr. Álvaro Sobrinho, os jornais e tutti quanti pela evidente falência em que está o Grupo Espírito Santo e pelos enormes problemas que o BES está a enfrentar. A questão, simples, muito simples, é que o tempo do dr. Salgado acabou. E acabou no dia em que a sua ganância o levou a aceitar um presente de 14 milhões de euros. Ou de 8,5 milhões. Um presente que ele nunca explicou à opinião pública, dizendo sobranceiramente que já tinha explicado tudo a quem de direito. (...)

Não, o dr. Salgado não merece ficar nem mais um minuto à frente do banco ou em qualquer dos seus órgãos de gestão. Mostrou não ter os mínimos padrões de ética exigidos para ocupar esses cargos. A ganância matou-o. Ao Banco de Portugal exige-se que remova o cadáver o mais depressa possível do caminho, sob pena de nos afundarmos todos com ele. Ou, mais grave, nos virmos todos a tornar colegas acionistas do dr. Salgado. Livra!» (Realce meu.)

Nicolau Santos, no Expresso diário de 11 de Julho.
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Alguma dúvida?


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