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2.8.14

Parece que em Paris houve Sol



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Zeca Afonso – 2 de Agosto de 1929



Eu sei que andamos todos ocupados com os verdadeiros dramas da guerra entre Israel e o Hamas, com as desgraças nos novos pobrezinhos da Comporta, distraídos com um rapaz que vai para Bruxelas ganhar uns trocos, em nosso nome, e com a péssima pré-época do Benfica. Mas que isso não seja suficiente para esquecermos que um dos nossos melhores faria hoje 85 anos – um número redondo, oito décadas e meia.

Duas ou três recordadas, entre muitas outras possíveis:






Mas neste início de Agosto, cinzentíssimo e não só por causa das nuvens, é mesmo tempo para isto:


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Chocolate, esse símbolo do capitalismo



Activistas sul-coreanos soltaram 50 balões com gás hélio, carregados com doces de chocolate para os vizinhos da Coreia do Norte, na cidade fronteiriça de Paju.

O Choco Pie, feito com biscoito, chocolate e marshmallow, foi proibido na Coreia do Norte, depois de ser procurado ao ponto de virar «moeda» e de ser considerado que se transformava assim num «símbolo capitalista».


(E não é que esta notícia, posta a circular no Facebook, provocou reacções de alguns que consideram que a Coreia do Sul devia ter proibido esta acção provocatória contra um estado vizinho???)
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O crime de Elísio Estanque



Elísio Estanque divulgou, no Público de ontem, a sua «Carta aberta de um ex-militante ao secretário-geral do PS».

Fala da expulsão do partido, de que foi alvo, por o seu «nome ter surgido no 12º lugar entre os "suplentes" da candidatura do Movimento Cidadãos por Coimbra (CpC) nas eleições autárquicas de 2013», em Coimbra, e explica os contornos dos factos, em parte já divulgados pela comunicação social.

Mas mais extraordinária é a situação em que se encontra agora e que resumiu no Facebook, em texto que transcrevo:

Excomungados

A Comissão Eleitoral das primárias do PS acabou de esclarecer a minha dúvida. No email que enviei eu informava que tentei inscrever-me Online para esse fim, mas o sistema indicou que sou "militante", o que me deixou em dúvida se, afinal, podia ou não inscrever-me como simpatizante. A resposta veio célere: Não posso.
Conclusão: na sociedade civil, os presos que cometem crimes graves continuam, apesar disso, a ser "cidadãos" para efeitos de voto. Ficamos a saber que no PS, não. O apoio a um movimento independente de cidadãos para uma eleição local é considerado um "crime" que merece a "excomunhão" ao ponto de o ex-militante ser excluído da escolha de um candidato a Primeiro-Ministro. Será que poderei votar nas eleições Parlamentares?... Enfim, sinto-me a entrar no Pátio da Inquisição... em pleno século XVI...
Aqui fica a resposta que recebi (ipsis verbis, incluindo os erros gramaticais... Sem mais comentários):

«Caro Elísio Estanque.
Há data do início do processo de inscrição, o seu nome ainda constava na base de dados fornecida à empresa responsável pela plataforma on-line. No entretanto, a situação foi corrigida pelo DND e as alterações já foram comunicadas.
Assim e nos termos n.º 3 do artº3.º do Regulamento Eleitoral “Não podem participar nas eleições os cidadãos eleitores que se encontram na condição de expulsos do PS.”
Com os melhores cumprimentos,
...
P’la Comissão Eleitoral»
assina uma senhora cujas iniciais são PCP...

Como EE sublinha, nem os presos condenados como criminosos são assim tratados na sociedade civil. Aliás, muitos deles, e de outros que por aí andam, devem estar a receber convites para se inscreverem como simpatizantes do PS, e assim poderem votar nas primárias de Setembro, a crer numa notícia segundo a qual a candidatura de António Costa terá comprado, para esse fim, bases de dados com cerca de quatro milhões de endereços de correio electrónico. (Sei de muitas pessoas que já receberam o dito convite, o que não é o meu caso. Será que fui expulsa do PS sem nunca lá ter entrado?)

Com o Regulamento que criou, ou com esta interpretação na aplicação do mesmo, a Comissão Eleitoral das Primárias, presidida pelo insigne Jorge Coelho, bem pode limpar as mãos à parede. Não sei se lamente, ou se gabe a pachorra, de quem se mantém militantemente em organizações deste tipo, governada por gente tão poucochinha. 
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1.8.14

Lido por aí (87)


@João Abel Manta

* ¿Cómo está… Grecia? (Steffen Stierle)

* Força Argentina e os abutres que vão à merda! (Luís Sepúlveda)

* Ricardo Salgado, o último banqueiro? (Mariana Mortágua)
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Quem escreveu isto, quem foi?

É a vida...



(«A Criada Malcriada» no Facebook.)
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Durão, símbolo do colapso do regime



«Num daqueles momentos que definem um político (que não um estadista, algo que nunca conseguiu ser), Durão Barroso anunciou uma boda aos pobres portugueses.

Divertido, como se fosse o pai severo a distribuir uma esmola, aconselhou de forma severa: "Vinte e seis mil milhões de euros é uma pipa de massa, este dinheiro deve ser bem aplicado. Que se calem aqueles que dizem que a União Europeia não é solidária com Portugal e com os países da coesão, trata-se agora de aplicar bem esses fundos". Depois desta exibição de prepotência, como se ele não estivesse estado dos dois lados da barricada (favorecendo o despesismo em Lisboa e impondo, em Bruxelas, a austeridade cega), o quase ex-presidente da Comissão Europeia mostrou a fibra de que é feita a elite política nacional e europeia. (...) As lamentáveis declarações de Durão Barroso simbolizam o colapso do regime português: a sua falência não só financeira (como evidencia o buraco negro do grupo GES, sequência em larga escala do que foi o BPN), mas também política e moral.

Portugal sempre foi um freguês da dívida. E da escassez de recursos e incapacidade de os acumular e utilizar para criar riqueza. (...) A forma como sempre se encarou a dívida e se resolveu (tal como agora) mostra a fibra dos sucessivos políticos portugueses e a ausência de sentido de dever público que os move. São os impostos (sobretudo sobre o trabalho) que pagam todos os desvarios e benesses. (...)

Olha-se para o descalabro do regime e para a falta de alguém que consiga indicar uma via diferente desta moralmente corrupta, politicamente inepta e financeiramente falida, e fica-se com um amargo de boca. Até quando ficaremos reféns do serviço da dívida e desta geração de líderes indigentes? »

Fernando Sobral, no Negócios de hoje.
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31.7.14

Jean Jaurès – há 100 anos



Jean Jaurès foi assassinado, num café de Paris, no dia 31 de Julho de 1914.

A propósito da efeméride, foram hoje publicados muitos textos, sobretudo em França:
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Um Ricardo (Araújo Pereira) sobre outro (Salgado)



Na Visão de hoje:

«É tempo de serem desmistificadas algumas mentiras descardas que a comunicação social tem divulgado acerca do antigo presidente do BES. Por exemplo. tem sido dito que Salgado recebeu uma prenda de 14 milhões de euros. Não é preciso investigar muito para saber que é falso. De uma vez por todas, as pessoas da classe social a que Ricardo Salgado pertence não recebem prendas, recebem presentes. Também não é verdade que a credibilidade do BES tenha ido pela sanita abaixo. Foi pela retrete. Sejam rigorosos.» 

Na íntegra AQUI.
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Ceci n'est pas une «pipa»


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Uma questão de gravatas



«A crise moral que atravessamos traduz-se nisto: condenamos carteiristas à cadeia em nome da Justiça e tratamos com deferência e apresentamos como exemplo organizações criminosas que operam em grande escala, como os bancos. Não é uma novidade, mas o facto de não ser uma novidade e de continuarmos a tolerar a situação só a torna mais grave. Continuamos a tratar com respeito governos que se apropriam de património público para o vender ao desbarato e que destroem monopólios do Estado para beneficiar interesses privados obscuros – como o Governo português está a fazer com a lotaria.

Por que respeitamos estes ladrões? Por que falamos de bancos e de organizações como a ONU, ou o FMI ou a FIFA ou tantas outras, como se fossem respeitáveis? Por que não exigimos que obedeçam aos padrões éticos e legais que exigimos aos outros? Apenas porque usam gravata e sabem usar talheres? Apenas porque ficaram ricos com o dinheiro que roubaram? Somos assim tão parvos?»

José Vítor Malheiros, no Público de hoje. 
(Link para assinantes e para habilidosos.) 
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30.7.14

Lido por aí (86)

Os nossos encapuzados



Quem sou eu para não levar a sério a justeza das razões da passagem do Partido da Nova Democracia (PND) à «clandestinidade revolucionária» (notícia e vídeo aqui), mas, ao ver isto, é impossível não recuar umas décadas e recordar os SUV (Soldados Unidos Vencerão), em 1975, ou mesmo as FP25 de Abril, dez anos mais tarde.

SUV, Porto, 6 de Outubro de 1975:



FP25, 11 de Dezembro de 1985:



Em termos de encapuzados da nossa história recente, julgo que estamos conversados. Mas qualquer semelhança entre o PND e os outros dois casos só coincide no uso de capuzes. 
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António Costa, quanto custa a «nova leitura» do Tratado Orçamental?



Como já tive ocasião de referir, os posts do blogue Tudo Menos Economia, de Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral, só são acessíveis, na íntegra, a assinantes do Público. Este texto de F. Louçã merece leitura e reflexão e por isso aqui fica:

Explique melhor, se faz favor, quanto custa a “nova leitura” do Tratado Orçamental e “cumprir” a dívida

A justificação de António Costa para não incluir a dívida e a Europa na agenda da conferência de sábado passado é implausível e até atabalhoada: não é simplesmente verdade que sejam questões de curto prazo. A Europa está, o Tratado Orçamental dura o tempo do euro e a dívida impõe o controlo externo das nossas contas até 2045. Nenhum desses problemas é de curto prazo e até surpreende que alguém possa tratá-los como se fossem triviais. Seguro saltou logo sobre a oportunidade e criticou o adversário: “nenhum candidato a primeiro-ministro pode dizer que a dívida pública não é um problema”, e “isso é de um enorme irrealismo. É não conhecer a realidade de um país, (…) a política não pode ignorar as finanças públicas” (segundo o Público, 27 Julho). Mesmo que a solução de Seguro para a crise da dívida seja também uma caixa negra, ficou a ferroada.

E Costa cedeu: depois de evitar estes temas na agenda da conferência, incluiu-os no discurso de encerramento. Ainda segundo o Público, apresentou-se então como “batalhador” na Europa por “uma nova leitura do Tratado Orçamental”, que permita “ajustar as metas ao ciclo económico”. Terá ainda acrescentado que é necessária a “negociação” de modo a “cumprir o serviço da dívida e as necessidades de investimento”, e “refocar o quadro financeiro” europeu. Acrescentou, segundo a mesma reportagem, que sentia “mudanças” nos discursos, tanto de Juncker como do próprio Conselho Europeu.

As coisas estarão portanto a melhorar. A Europa estará atenta e Juncker espevitado, e é possível uma “nova leitura”, para “refocar” e “cumprir”. Só que isso tem dois problemas, sendo o primeiro o que não depende de nós: a Europa tem uma liderança, Merkel. Ela nunca cedeu. Pelo contrário, ao longo da crise impôs soluções sempre mais ameaçadoras, espanejando agora a ideia de um ministro europeu das finanças, mesmo depois de já ter o visto prévio sobre os orçamentos nacionais.

Assim, quando Hollande, há dois anos, lhe bateu à porta com um mandato plebiscitado para alterar o Tratado Orçamental, foi corrido à vassourada. Para uma “nova leitura” do Tratado, é melhor começar a peregrinação a Fátima, porque a Berlim não vale a pena. Concentremo-nos então na segunda dificuldade, a que depende de Portugal. Se o governo das direitas for substituído, e Costa for empossado, o que vai fazer? Ninguém sabe e, pior, ninguém ficou a saber. A “nova leitura” e “cumprir o serviço da dívida e as necessidades de investimento” são enigmas insondáveis.

Bem sei que esta forma de fazer política resultou bem durante tantos anos. Palavras poucas alimentam esperança muita. Mas agora temos o direito – e até a obrigação – de exigir mais, para que o contrato eleitoral seja claro. Depois de três anos de austeridade, alguém que se proponha aliviar o sacrifício tem mesmo de dizer como o vai fazer. Como vão ser os impostos, as pensões e os salários. Que metas propõe. Que instrumentos quer utilizar. Como vai fazer. Quanto custa. Se negoceia a dívida, o que quer alcançar. Quanto quer baixar no pagamento de juros ou de capital. Como vai discutir com os credores. E o que fará quando Merkel disser que não.

Sempre admiti que Costa não se apresentaria com um novo Hollande, repetindo o patético truque de prometer que faria mudar o Tratado Orçamental. Ainda bem que não o faz, porque se da primeira vez foi uma tragédia, da segunda seria uma farsa. Costa apresenta-se de forma mais modesta: quer mudar a “leitura” do Tratado. Aceitá-lo, portanto, e procurar uma folga nas suas entrelinhas. Só que o Tratado é radical e os seus guardadores são mais ainda: o que é que não se percebe na obrigação de reduzir a dívida pública a menos de metade em vinte anos, depois de já se ter privatizado quase tudo (faltam só a TAP, o ouro, a CGD e os hospitais)? Não vejo como uma “leitura” pode mudar o Tratado, porque ele impõe um sistema fechado de austeridade perpétua. Mais ainda. Se o regime de protetorado e o Tratado Orçamental impõem a degradação do país, porque deixamos de poder decidir como povo, então a clareza é mesmo uma condição para recuperar a democracia.

Por isso, Dr. António Costa, explique melhor, se faz favor: qual é a sua a “nova leitura”, a sua negociação e o seu “cumprimento” da dívida e respectiva “refocagem” do quadro financeiro?

Ou, se me permite a franqueza, diga-nos lá, por obséquio, o que quer que para Portugal.
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Como se a festa continuasse no Titanic



«Segundo diz a lenda, quando o Titanic começou a afundar-se a orquestra continuou a tocar para a elite dançante. Como se a festa não pudesse parar.

O problema é que o chá dançante deste Governo acabou. A austeridade sem fim só permite a salvação aos passageiros da primeira classe. Para os outros passageiros, da segunda e terceira classe, só restam bóias de salvação. Mas é evidente que no leme de São Bento sabe-se que o navio governamental acertou em cheio num iceberg. (...)

Enquanto o Governo e a leal oposição só estão obcecados com aquilo a que o rei Lear, de Shakespeare, chamava as "notícias da corte" (quem perde e quem ganha, quem está dentro e quem está fora do poder), à volta só há para oferecer um país corroído e sem futuro. (...)

O Estado, apesar das promessas, continua a aumentar os gastos. Os dislates governamentais são tantos que até já se fala de que Maria Luís Albuquerque rume para comissária europeia como "recompensa" por estes "excelentes" resultados. Nem com um holofote o Governo ou os portugueses vêem qualquer luz no fundo do túnel. Por isso o Governo tem de remover as caras com rugas para que a procissão chegue ao adro das eleições. Como se a festa continuasse.»

Fernando Sobral, no Negócios de hoje.
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29.7.14

Qatar: o cavalo é rei, o imigrado é escravo



Estive de passagem no Qatar, há dois anos, antes de se falar tanto desse país pelas piores razões: as condições em que vivem – e morrem – os trabalhadores estrangeiros que estão a construir infraestruturas para o Mundial de Futebol de 2020.

É um país insólito. Não é fácil imaginar a vida concreta de cerca de 500 mil pessoas que não trabalham porque tudo lhes é proporcionado gratuitamente e que ainda recebem cerca de 35.000 US$ / ano desde que nascem. Todas as tarefas são asseguradas por um milhão adicional de estrangeiros (são agora muitos mais). Constrói-se loucamente, só se vê carros topo de gama e centros comerciais luxuosos, campos de golfe que custam uma fortuna para serem mantidos verdes.

Mas num país onde se criam cavalos, para todo o tipo de competições, com um estatuto absolutamente invejável – alimentação de primeira, habitações com ar condicionado e piscinas privativas – deixam-se morrer seres humanos «porque sim».

Vale a pena dar uma vista de olhos ao dossier que o jornal The Guardian tem publicado, nos últimos dias, sobre o tema e de que o Expresso diário se faz eco hoje.

Há operários imigrados que ganham 7,5 euros por dia, que se queixam de salários em atraso há mais de um ano e de viverem em condições degradantes, em casas cheias de baratas, com colchões rudimentares ou maus beliches. The Guardian descobriu também «um grupo de 65 operários que trabalham há vários meses sem receber salário e que dormem oito em cada quarto, sem água potável nem casa de banho».

Entre 2012 e 2013, 70 trabalhadores estrangeiros morreram em acidentes de trabalho ou ataques cardíacos nas obras de construção de infraestruturas para o Mundial, 144 morreram em acidentes de trânsito e outros 56 suicidaram-se, segundo o balanço oficial do governo do Qatar.

Entretanto, os cavalos banham-se calmamente nas piscinas que partilham com um ou dois camaradas. Há várias, junto das suas casas, para que estejam à vontade e não se incomodem uns aos outros. 
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Gaza / Israel: sem fim à vista



«Dois canhões israelitas disparam de uma base no sul de Israel para a Faixa de Gaza. O primeiro ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, já disse aos seus cidadãos que se preparassem para uma “campanha duradoura” reiterando que o exército irá pressionar os militantes palestinianos que vivem em Gaza. A neutralização dos túneis que ligam Gaza a Israel é um dos objectivos de Netanyahu.» Expresso diário de 29/7.


«Um soldado israelita assiste ao funeral do colega de armas, Liad Lavi, que morreu durante a operação terrestre israelita em território árabe. A comemoração do Eid al-Fitr, a celebração muçulmana que marca, ao longo de três dias, o fim do jejum imposto pelo Ramadão, terminou com a morte de 13 palestinianos e de quatro soldados israelitas. Por sua vez, estas mortes puseram o fim às tréguas não oficiais que Israel e a Palestina acordaram para celebrar o nono mês do calendário islâmico.» Expresso diário de 29/7. 
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Lido por aí (84)

Burro em Pé



No Negócios de hoje, Fernando Sobral recorre à série «House of Cards» para sublinhar algumas características da situação em que nos encontramos.

«De um lado temos a série americana "House of Cards". Aqui, menos remediados, temos o nosso "Castelo de Cartas".

Em inglês, tal como em português, um castelo de cartas é algo sem solidez. Na série, Frank Underwood sabe o que quer e para onde vai. Sabe qual é a "linha certa" para o poder. Mas revela-nos algumas verdades: hoje não existe "um" governo (este é o fruto proibido de negociações de diferentes facções com agendas próprias); o célebre "espírito público" dos políticos é um logro (estes estão voltados para a realização dos seus interesses); a política atrai quem tem capacidade para relações públicas, jogos de poder e troca de favores. Mas sobretudo, mostra que o verdadeiro poder e o poder do dinheiro não são equivalentes. (...)

Grande parte do poder económico português fez-se, durante séculos, a partir de uma aliança entre o poder político e o económico. Mas como a acumulação de capital sempre foi um logro em Portugal, foi-se alterando quem influenciava o poder do Estado. A queda do GES é o capítulo final do poder financeiro junto do Estado político. Hoje são outros grupos de interesses, especialmente quem tem a técnica de estabelecer a arquitectura legal das decisões e liga interesses que podem ser comuns, que influenciam determinantemente o poder executivo. O Governo de Passos Coelho foi o dobre de finados de uma época.»

Assim que comecei a ler o texto de Fernando Sobral, não foi um Castelo de Cartas que visualizei, mas sim o velhinho Burro em Pé que alguns talvez ainda recordem. Jogo infantil, que não existe certamente no iPad ou na Playstation, e onde o engenho específico consiste em tirar uma carta de um baralho em equilíbrio instável sem derrubar as restantes. Se estas caírem, o infeliz jogador é considerado burro tantos anos quantas as cartas derrubadas.
Há quanto tempo andamos a brincar ao Burro em Pé? Há muito e acabamos sempre com as cartas na mão. Nunca mais percebemos que o jogo tem de ser outro. 
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28.7.14

Galeano: novilíngua




El lenguaje 3


En la época victoriana, no se podían mencionar los pantalones en presencia de una señorita. Hoy por hoy, no queda bien decir ciertas cosas en presencia de la opinión pública:

el capitalismo luce el nombre artístico de economía de mercado;

el imperialismo se llama globalización;
las víctimas del imperialismo se llaman países en vías de desarrollo, que es como llamar niños a los enanos;

el oportunismo se llama pragmatismo;

la traición se llama realismo;

los pobres se llaman carentes, o carenciados, o personas de escasos recursos;

la expulsión de los niños pobres por el sistema educativo se conoce bajo el nombre de deserción escolar;

el derecho del patrón a despedir al obrero sin indemnización ni explicación se llama flexibilización del mercado laboral;

el lenguaje oficial reconoce los derechos de las mujeres, entre los derechos de las minorías, como si la mitad masculina de la humanidad fuera la mayoría;

en lugar de dictadura militar, se dice proceso;

las torturas se llaman apremios ilegales, o también presiones físicas y psicológicas;

cuando los ladrones son de buena familia, no son ladrones, sino cleptómanos;

el saqueo de los fondos públicos por los políticos corruptos responde al nombre de enriquecimiento ilícito;

se llaman accidentes los crímenes que cometen los automóviles;

para decir ciegos, se dice no videntes;

un negro es un hombre de color;

donde dice larga y penosa enfermedad, debe leerse cáncer o sida;

repentina dolencia significa infarto;

nunca se dice muerto, sino desaparición física;

tampoco son muertos los seres humanos aniquilados en las operaciones militares:

los muertos en batalla son bajas, y los civiles que se la ligan sin comerla ni beberla, son daños colaterales;

en 1995, cuando las explosiones nucleares de Francia en el Pacífico sur, el embajador francés en Nueva Zelanda declaró:

«No me gusta esa palabra bomba. No son bombas. Son artefactos que explotan»;

se llaman Convivir algunas de las bandas que asesinan gente en Colombia, a la sombra de la protección militar;

Dignidad era el nombre de unos de los campos de concentración de la dictadura chilena y Libertad la mayor cárcel de la dictadura uruguaya;

se llama Paz y Justicia el grupo paramilitar que, en 1997, acribilló por la espalda a cuarenta y cinco campesinos, casi todos mujeres y niños, mientras rezaban en una iglesia del pueblo de Acteal, en Chiapas.


Eduardo Galeano,  Patas arriba. La escuela del mundo al revés.
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TAP: um pouco mais de imaginação



Ouvi hoje Fernando Pinto, CEO da TAP, dizer que aquela companhia se encontra, «na situação actual, em plena normalidade». 50 voos cancelados na última semana? Que ideia! Foram apenas «reestruturados»!

Fica uma proposta: uma nova reestruturação em que as asas dos aviões sejam aproveitadas pata instalar passageiros com desejo de aventura e de chegar ao destino na hora devida. Lá chegaremos!

(Na foto: Centenas de pessoas instalaram-se em cima dos comboios que ligam as aldeias ao aeroporto Railway Station na capital do Bangladesh, Dhaka. Os passageiros viajam para as celebrações do Eid Al- Firt, festival de fim do jejum, que marcam o término do mês de Ramadão na religião muçulmana. Expresso diário de hoje) 
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Lido por aí (83)

Perdidos e não achados



«Para onde quer que nos voltemos, os sinais de que Portugal é hoje um país à deriva são manifestos. Com a saída da troika tornou-se ainda mais evidente que o Governo não tinha qualquer agenda que não fosse fazer a dobragem para português, por vezes com erros dolosos de tradução, das exigências dos nossos credores. Confundindo os efeitos com as causas, a austeridade falhou. Depois de três anos de destruição da economia, do emprego, dos direitos sociais, depois de a própria troika, através do FMI e da Comissão Europeia, ter admitido erros de concepção no memorando (algo que o Governo nunca fez com seriedade e de forma escrita), o País mergulha em cheio num novo turbilhão, que destrói ainda mais a confiança no sistema financeiro. As causas da doença prevalecem sempre sobre os seus sintomas. Se o Governo emudece, deixando-se humilhar (e ao País) no processo da adesão da Guiné Equatorial à CPLP, ou sacudindo os ombros perante o que parecem ser graves erros de gestão na TAP, do lado da oposição, o debate interno no PS desnuda um abismo entre o excesso de pompa retórica e a escassez de ideias alternativas operacionais. Ser oposição de esquerda não dispensa, antes exige o esforço de pensar. É verdade que ainda não temos petardos a rebentar nas ruas, como na I República, mas há algo de profundamente violento no modo como o improviso, a ausência de conhecimento e reflexão, ou a pura sanha destruidora (veja-se a "política de ciência", desenhada com bazuca), tomaram conta dos destinos do País. Estamos no deserto, sem bússola. As nações também podem morrer de sede. Quando lhes falta a promessa líquida do futuro.»

Viriato Soromenho-Marques

27.7.14

Custou mas foi-se!


Há 44 anos.




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Seguro e uma TAP «lusófona»



Talvez por estarmos na silly season, não faltam por aí notícias mais ou menos desnorteadas. Mas confesso que esta excede, na minha opinião, o nível de parvoíce expectável (pardon my french).

António José Seguro terá dito ontem, não sei onde, que a TAP não deve ser privatizada e que Portugal tem de manter 50% do capital, com recurso, para o restante, a injecção de dinheiro oriundo da lusofonia, designadamente de Angola, Moçambique e Brasil.

Porquê? Há alguma relação entre voar com qualidade e falar a mesma língua? O dinheiro de alguns é melhor do que o de outros, só porque o petróleo e o gás deles seguiram a cartilha de João de Deus? Os três países citados são maiores e vacinados e, caso estivessem interessados em participar no capital da TAP, ou em comprá-la, já o teriam feito ou poderão fazê-lo. Mas se por hipótese isso acontecesse, por que raio é que Portugal, o pobre da fita, devia ter supremacia e ficar com as rédeas da empresa e não com 10 ou 15%? Porque pensamos que eles gostam de ajudar os pobrezinhos? Ou porque fomos nós que os «descobrimos» e os colonizámos durante alguns séculos? 
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Lido por aí (82)

Como estamos, os portugueses



«– Insatisfeitos, pessimistas e sem esperança. 96% acham que a situação económica do país é má. Repito, 96%, um número daqueles que se costumam chamar “albaneses”. Só que neste caso é bem português. Ou seja, quase todos os portugueses descrêem do “milagre” económico que, com cada menos convicção, Passos Coelho, Portas e Pires de Lima propagam por todo o lado. Não lêem a imprensa económica, não lêem os blogues governamentais, não lêem os comentadores do Observador, não acreditam no PSD e no CDS, mesmo quando deles fazem parte. Nenhum país da Europa tem estes resultados, nem a Grécia. (...)

– Muito preocupados com o futuro. São gente sábia e razoável e realista e pensam na sua maioria que o “pior está para vir”. Os europeus, pelo contrário, acham que o pior já passou. Os franceses, os cipriotas, os eslovenos, os italianos e os gregos também acham que o pior está para vir, mas acham menos do que os portugueses. Nenhum povo da Europa tem tanto medo do futuro como os portugueses. (...)

– Não acreditam em nada, nem em ninguém. Nem nos políticos, nem na política. Quase que já não acreditam na democracia. Não têm qualquer confiança no actual Governo. 85%, repito, 85%, não têm confiança no Governo. Outro número “albanês”, mas bem português, acima de todos os outros na Europa. (...)

– Cansados de um imenso cansaço, cansados de um desesperante cansaço. Vão para férias, mas não vão ter férias. Podem mergulhar no mar, mas quando se encostam à toalha para secar, a sua cabeça não descansa. (Como é que vou pagar o carro em Setembro? Como é que vou pagar a prestação da casa? Já não posso mais receber aqueles avisos da Autoridade Tributária a explicar por um número infindo de artigos que o meu salário vai ser penhorado. Como é que vou sobreviver com a conta bancária confiscada para pagar o IRS? Como é que vou dizer à minha mulher que saio todos os dias de manhã como se fosse para o emprego, mas há um mês que fui despedido? Será que no meu serviço serei passado para a mobilidade especial? Vou ter de mudar de casa, por que não posso pagar a nova renda que o senhorio me pediu. A nossa filha entrou na universidade, mas onde é que vou arranjar o dinheiro para as propinas? Como é que vou de novo abrir o café, quando devo dinheiro a todos os fornecedores? E como vou continuar a ter o meu empregado de sempre na oficina quando ninguém paga nada? Apetece-me fugir. Fugir.)»

José Pacheco Pereira, no Público de ontem. 
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