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4.10.14

Mercedes Sosa - sempre



Mercedes Sosa morreu há cinco anos, num 4 de Outubro. Nasceu no Noroeste da Argentina, em San Miguel de Tucumán, cidade onde em 1816 foi declarada a independência do país.

Quando a Junta Militar de Jorge Videla subiu ao poder e se foi tornando cada vez mais agressiva, Mercedes, considerada peronista de esquerda , foi detida durante um concerto em La Plata, em 1979, refugiou-se depois em Paris e em Madrid e só regressou a Buenos Aires, e ao magnífico Teatro Colón, em 1982.

Pretexto para recordar a sua voz fabulosa:






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Nem no tempo do fascismo

Crato, professores e resignação?



O novo episódio da colocação dos professores, concretizado ontem em mais um acto em que Nuno Crato nem cumpriu aquilo a que se comprometera publicamente, ultrapassa tudo o que é admissível.

Centenas (poucas ou muitas) de professores, colocados há algumas semanas e em exercício de funções, foram informados de que, afinal, «não valeu»: irão para outras escolas ou para o desemprego. Mesmo que morem habitualmente em Bragança, tenham alugado casa (e pago rendas adiantadas) em Sintra, matriculado aí os seus próprios filhos, etc., etc., poderão ser obrigados a rumar agora até outras paragens – ou nem sequer dar aulas este ano.

Num país decente, normal, ter-se-ia levantado ontem um grande clamor e milhares de pessoas teriam saído à rua em protesto. Por cá, esse clamor ficou-se pelas redes sociais. Business as usual.

Mas o que me pareceu mais impressionante foi o ar mais ou menos resignado de alguns dos professores atingidos, entrevistados nos telejornais de ontem à noite. Não vi gritos de revolta, apenas consternação e lágrimas contidas. Como é possível que tenhamos chegado aqui?
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O que é o TTIP?


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3.10.14

Para quem gosta de efemérides...

Como se aprende a gerir um país



Excerto de um texto de Nicolau Santos, publicado hoje no Expresso diário:

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Novo ou velho, o PS mantém a sua vocação abstencionista?

Tecnoforma – com humor




«Depois das explicações do PM sobre o caso Tecnoforma, receber dinheiro por trabalhar quase passou a ser falta de educação e egoísmo. Uma pessoa até se sente mal por, ao fim do mês, ir receber o ordenado. (...)

Quanto mais dizem que o caso está resolvido, mais parece que ele aumenta de tamanho - fazia falta um strip, mas o PM não quer mostrar as ceroulas. Depois das respostas do PM, apareceu o advogado da Tecnoforma a dar uma conferência de imprensa, onde avisou que ia processar um membro do Governo. A minha dúvida é se este advogado da Tecnoforma fez aquela conferência gratuitamente. Se assim foi, temos aqui um padrão, que importa destacar.

A seguir à conferência de imprensa, que se seguiu aos esclarecimentos de Passos, vieram as declarações de Cavaco que, tal como no BES, veio garantir que as respostas do PM eram sólidas. Claro que começou por dizer que lhe tinham dito. Cavaco já não arrisca um comentário sem ter primeiro um bode expiatório. Vai acabar a fazer os roteiros recorrendo ao "ouvi no elevador", "disseram-me no cabeleireiro" e "vi na rádio".

Mas ainda não tinha acabado. Depois do PM ter dito que apenas recebeu dinheiro de trabalhos jornalísticos nos anos de 97, 98, 99, e ter escrito que parte desse dinheiro vinha de trabalhos para o Público, a direcção do Público veio dizer que, nesse anos, Passos não fez nada no jornal. Portanto, Passos não recebe dinheiro dos sítios onde trabalha e recebe dinheiro dos sítios onde não trabalhou. É formidável.

Começo a desconfiar que não há um documento, deste senhor, que esteja em condições. Se calhar, nem o BI é verdadeiro. Chama-se Heinz Passos e nasceu em Berlim em 62. A esta hora, o ouro do Banco de Portugal são tijolos com tinta para dourar santas que o Relvas arranjou. O Relvas anda muito sossegado, é melhor ir lá ver.»

João Quadros

2.10.14

Lido por aí (127)

Porteiro do Ritz escreve à Tecnoforma



Ricardo Araújo Pereira, na Visão de hoje:

«Confesso que me comovi quando constatei que a abertura de portas era, finalmente valorizada como merece. Tendo em conta a minha experiência de cerca de 20 anos precisamente nessa área, creio que sou um bom candidato a desempenhar funções na Tecnoforma.»

Na íntegra AQUI.
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Os bustos da polémica



Confesso que tenho assistido, atónita, à polémica sobre a presença de bustos de três presidentes da República do Estado Novo, num total de 19, numa exposição que abre hoje, segundo creio, num corredor da Assembleia da República.

Não sei se tem ou não qualidade que justifique a sua existência (nas fotografias por que passei, algumas pareceram mostrar-me verdadeiros mamarrachos), nem discuto os meandros burocráticos de saber quem estava, ou não, na sessão que a aprovou e quem assinou a respectiva acta sem a ler ou interpretar.

Mas a «revolta» do PCP e do BE, expressa por João Oliveira que qualificou o facto de «branqueamento» do Estado Novo, e por Pedro Filipe Soares que falou de «uma lavagem da imagem do país», tira-me do sério. Se ter cabeças-caricatura de Carmona, Craveiro Lopes e Américo Tomás, durante um mês, num corredor da AR, onde só quase devem passar deputados e empregados, se arrisca a branquear o fascismo, óptimo: temos perigos brandos.

Note-se que diferente seria o caso se estivéssemos a falar de estátuas permanentes de qualquer dessas personalidades no espaço público, porque isso sim seria uma «homenagem» e, por exemplo, sempre achei correcto que Carmona tivesse desaparecido do topo do Campo Grande, em Lisboa. Mas isto?

E já agora: será que está em preparação algum assalto ao palácio de Inverno de Belém para arrancar os retratos destes três presidentes da galeria onde todos figuram?

A herança do Estado Novo não se trata assim nem é assim que alguém a limpa. Ela permanece em cada um de nós quando não somos capazes de honrar a democracia em que vivemos e de a defender daqueles que a ameaçam todos os dias. 
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1.10.14

Lido por aí (126)

E por falar hoje da China



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Hong Kong no 65º aniversário da República Popular da China



Celebra-se hoje o 65º aniversário da proclamação, em Pequim, da República Popular da China por Mao Tsé-Tung. É pena que, do seu mausoléu na tristemente célebre Praça de Tiananmen, não possa ver o que está a acontecer nas ruas de Hong Kong, a quase 2.000 quilómetros de distância. Porque uma coisa é certa: a maioria esmagadora dos que nestas permanecem pensa certamente em Mao e na praça que assistiu, há 25 anos, à resistência e morte de outros jovens como eles.

Sobre Hong Kong, que o mundo segue com a maior das atenções, fica uma nota pictoricamente curiosa e provavelmente inovadora: muitas imagens mostram que os manifestantes usam chapéus de chuva para se protegerem do gás lacrimogénio lançado pela polícia.

Que nada disto acabe em tragédia – é o mínimo que podemos esperar. 
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30.9.14

Se fôssemos internacionalistas como a Mafalda...



A crónica de Diana Andringa, hoje, na Antena 1:

«Já uma vez citei aqui Ramos Rosa, que me disse que, por vezes, a rádio o perturbava, porque as palavras o interpelavam. Também a mim, palavras ou frases lidas ou ouvidas se me impõem, tecendo estranhos laços, criando novos sentidos, perturbando os que pré-existiam... Assim foi, neste início de semana em que a Tecnoforma se mantinha nos noticiários, mas abundavam, sobretudo, as referências aos resultados da votação entre Costa e Seguro.

Primeiro foi um desenho de Mafalda, a contestatária: é o primeiro dia do ano, Mafalda senta-se na cama, plena de expectativa, pergunta: “A fome e a pobreza no Mundo acabaram?” Já levantada, uma outra pergunta: “As armas nucleares foram suprimidas?” Junto à mesa do pequeno almoço, pergunta ao pai: “SIM?” O pai responde, tartamudeando: “Bem, acho que não, filha!” E Mafalda, num imenso grito: “Então para que foi que a gente mudou de ano???”

Não, não é uma indirecta às primárias do PS. É, quando muito, um lamento directo por, quando se discutiu, nas televisões, frente a todos os portugueses, votantes ou não naquele Partido, o nome do candidato a primeiro-ministro, ter havido tão pouco de Mundo nas perguntas e respostas, fosse tudo tão português, tão pequenino, tão claustrofóbico.

E depois, leio no Público a citação de um Relatório da Organização Internacional para as Migrações: “Pelo menos oito pessoas morrem todos os dias ao tentarem encontrar refúgio e melhores condições de vida em países mais ricos, a maioria na travessia do Mediterrâneo entre o Norte de África e a Europa.”

Oito pessoas? É toda a família próxima de grande parte de nós. E o que pensam disso os candidatos a ministros, os ministros, as televisões que dedicam longas horas a notícias de futebol? Não consigo deixar de pensar que, se perdêssemos alguns minutos mais a pensar e a falar disso, se tivéssemos as preocupações internacionalistas da Mafalda, talvez precisássemos de menos drones e menos operações contra o terror.

Ou, talvez, apenas, se por cada programa sobre a bolsa houvesse um outro de poesia...»

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Lido por aí (125)

Sem nenhum RIP

O «novo» PS



«A primeira consequência da vitória de António Costa nas primárias do PS é que vamos deixar de ver e ouvir António José Seguro na televisão. E isso, só por si, é uma bênção. (...) A pose rígida de Seguro, o seu sorriso crispado, sempre em tensão, o seu discurso estereotipado, sempre em torno das mesmas cinquenta palavras, indicavam alguém que se mantém numa auto-vigilância constante, que não se sente bem na sua pele, que receia a todo o momento ser apanhado em falta, que representa um papel que aprendeu mas que não é o seu verdadeiro eu. (...)

Será Costa um líder de esquerda, capaz de levar a cabo uma política de real combate às desigualdades e à pobreza, aos privilégios dos poderosos, à corrupção e aos interesses ilegítimos, de defesa do Estado Social e dos serviços públicos, de defesa do emprego? Talvez. E será capaz de fazer frente aos interesses financeiros que sequestraram o Estado, de defender Portugal na União Europeia, de construir na União as alianças necessárias para inverter as políticas que nos escravizam, de pôr em causa o Tratado Orçamental, de impor aos credores uma renegociação justa da dívida, de pôr sobre a mesa condições de permanência do euro que defendam o interesse nacional? Atendendo ao seu passado e às suas escassas e prudentes declarações políticas sobre estes temas, é muito pouco provável. E o drama é que, sem tomar estas últimas posições, não será possível levar a cabo aquelas primeiras políticas.

Costa irá tentar navegar entre duas águas, enquanto for possível, tal como navegou entre as conjecturas de alianças à esquerda ou à direita. Se for governo, irá provavelmente adoptar políticas fiscais menos penalizadoras dos trabalhadores e políticas sociais mais generosas que o actual governo PSD-CDS e isso será melhor do que o status quo actual, mas será dramaticamente insuficiente. (...)

O que deve fazer a esquerda à esquerda do PS? O seu dever: continuar a defender uma política para as pessoas sem receio de afrontar os poderes ilegítimos da finança, dos mercados e de Bruxelas e demonstrar, em cada momento, a justeza e a justiça das suas propostas — como o fez com a ideia da renegociação da dívida. Se o acordo com o PS de Costa é possível e benéfico, só o futuro o dirá.» (O realce é meu.)  

José Vítor Malheiros

29.9.14

Qualquer relação com a actualidade é pura coincidência



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Lido por aí (124)

Uma senhora de meia idade



É hoje que ela faz 50 anos. E não consta que esteja a festejar a vitória de António Costa.
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Passos Coelho no nosso labirinto



«A dificuldade de Pedro Passos Coelho em explicar claramente uma questão muito simples ilustra perfeitamente porque Portugal, após três anos de austeridade e duas décadas de crescimento aparente sem destino, continua num labirinto. Circula, sem um fim definido. Esgota-se na sua fragilidade, no seu temor psicológico, na sua iliteracia hegemónica. (...)

O fogo lento em que alguém pôs Pedro Passos Coelho a assar mostra a fragilidade da nossa classe política. Não é preciso que faça "striptease bancário" para se ver a transparência do poder político português. Está à mercê das circunstâncias que não domina, da Europa ao dinheiro chinês. Deixou de ter braços armados, um modelo de economia e de sociedade, e até para defender as ilhas Selvagens tem de usar métodos do tempo do Mapa Cor-de-Rosa: para mostrar soberania tem de enviar um navio com a bandeira.»

Fernando Sobral

28.9.14

Lido por aí (123)

Reflexão do dia



Há só uma coisa que me entristece: ver tantos amigos cujos velhos ideais parecem estar reduzidos ao entusiasmo pelo mal menor. Não deve ser gente feliz.
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Há 40 anos e também era Sábado



Também foi num Sábado cinzento. Esteve marcada para 28 de Setembro de 1974 e tinha como objectivo reforçar a posição do presidente da República, António de Spínola, então já em confronto com o governo e com o MFA, não só mas também por questões ligadas à independência das colónias.

Teria sido a chamada manifestação da Maioria Silenciosa e acabou por ser proibida pela Comissão Coordenadora do Programa do MFA. Antes disso, Spínola, que tinha tentado, sem sucesso, reforçar os poderes da Junta de Salvação Nacional, acabou por emitir um comunicado, pouco antes do meio-dia, a agradecer a intenção dos manifestantes, mas declarando que, naquele momento, a manifestação não seria «conveniente».

Os partidos políticos de esquerda (CARP M-L, CCRM-L, GAPS, LCI, LUAR, MDP/CDE, MES,
PCP m-l, PCP, PRP-BR, URML), sindicatos e outras organizações tinham desencadeado, no próprio dia, uma gigantesca operação de «vigilância popular»: desde as primeiras horas da manhã, dezenas de grupos de militantes distribuíram panfletos e pararam e revistaram carros em todas as entradas de Lisboa. Mas não só: foram erguidas barragens, para impedir o acesso à manifestação, em Viana do Castelo, Santo Tirso, Trofa, Póvoa de Varzim, Vila do Conde, Porto, Chaves, Mealhada, Viseu, Guarda, Coimbra, Vila Nova de Poiares, cintura industrial de Lisboa, Grândola e Alcácer do Sal. (*)

Os sinais públicos de ruptura crescente entre o presidente da República e o governo de Vasco Gonçalves e o MFA tinham sido mais do que evidentes, dois dias antes, durante uma tourada organizada pela Liga dos Combatentes, no Campo Pequeno, durante a qual Spínola foi aplaudido e Vasco Gonçalves apupado e, das bancadas, saíam vivas a Portugal e ao Ultramar.

Em 30 de Setembro, Spínola demitiu-se do cargo de presidente da República, sendo substituído pelo general Costa Gomes. Fechou-se assim o primeiro ciclo político do pós 25 de Abril.

(*) Uma enumeração de todas as peripécias que rodearam os acontecimentos, no próprio dia 28 e não só, pode ser lida aqui.) 
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