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18.10.14

18 de Outubro de 1936 – Rumo ao Tarrafal



Foi nesse dia que os primeiros presos saíram de Lisboa, no paquete Luanda, com destino ao que viria a ser o «Campo da Morte Lenta», na ilha de Santiago, em Cabo Verde. O Luanda era normalmente usado para transporte de gado proveniente das colónias e os porões habitualmente utilizados para esse efeito foram transformados em camaratas.

Depois de uma escala no Funchal e de uma outra em Angra do Heroísmo, para recolher mais alguns detidos e / ou largar os menos perigosos, e no fim de uma viagem em condições degradantes, foram 152 os que desembarcaram, no dia 29, em fila indiana, antes de percorrerem os 2,5 quilómetros que os separavam do destino final.

Edmundo Pedro é hoje o último sobrevivente deste primeiro grupo que construiu e viveu (durante nove anos, no seu caso) neste campo de concentração. No primeiro volume das suas Memórias, dedica longas páginas à descrição do que foi essa terrível viagem que durou onze dias. (*) O início e o fim:
«E na noite de 18 de Outubro, de madrugada, reuniram-nos em camionetes da GNR. Estas dirigiram-se para o cais de embarque, em Alcântara... No caminho, apesar das ameaças dos soldados, demos largas ao nosso protesto. O nosso vibrante grito de revolta ecoou, ao longo de todo o percurso, nas ruas, desertas, daquela madrugada lisboeta. Cantámos, a plenos pulmões, todas as canções do nosso vasto cancioneiro revolucionário... (...)
A 29 de Outubro de 1936, onze dias depois de termos partido de Lisboa, o velho Luanda fundeou, ao princípio da tarde, na pequena e aprazível baía do Tarrafal. Pouco depois, começou a descarregar a "mercadoria" que transportava nos seus porões... Alguns prisioneiros tinham chegado a um tal estado de fraqueza que só puderam abandonar o barco apoiados nos seus camaradas...»
Depois, foi o que se sabe: histórias de terror, 32 pessoas por lá morreram e o Campo durou até 1954. Foi reactivado em 1961, como «Campo de Trabalho do Chão Bom», para receber prisioneiros oriundos das colónias portuguesas (o ministro do Ultramar era então Adriano Moreira e foi ele que assinou a respectiva portaria) e durou até 1974.

(*) Edmundo Pedro, Memórias, Um Combate pela Liberdade, Âncora Editora, 2007, pp. 350-359.
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Há-de haver um país...


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Pedro Santos Guerreiro, Expresso, 1º caderno, 18.10.2014 (excertos).
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Começo a pensar que houve uma mutação a nível da mente humana




«Há quem esteja a lucrar com o pânico de ébola. Uma empresa americana que produz peluches educativos com a forma de micróbios está sem capacidade de resposta perante a procura de modelos do vírus ébola.»
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5 lições e moral da história



Adaptação de uma «fábula» recebida por mail:

Ladrões entraram num banco numa pequena cidade e um deles gritou: «Não se mexam! O dinheiro pertence ao banco mas as vidas são vossas». Imediatamente todas as pessoas se deitaram no chão em silêncio e sem pânico.

Uma das mulheres estava deitada no chão de uma maneira provocante. Um dos assaltantes aproximou-se dela e disse: «Minha senhora, isto é um roubo e não uma violação. Por favor, procure agir em conformidade».

No decorrer do assalto, o ladrão mais jovem (que tinha um curso superior) disse para o assaltante mais velho (que tinha apenas o ensino secundário completo): «Olha lá, se calhar devíamos contar quanto é que vai render o assalto, não achas?». O homem mais velho respondeu: «Não sejas estúpido! É uma data de dinheiro e por isso vamos esperar o Telejornal para descobrir exactamente quanto dinheiro conseguimos roubar».

Após o assalto, o gerente do banco disse ao seu caixa: «Vamos chamar a polícia e dizer-lhes o montante que foi roubado». «Espere», disse o caixa «antes de fazermos isso vamos juntar os 2 M € que tirámos há alguns meses e dizemos que esse valor também foi roubado no assalto de hoje».

No dia seguinte, foi relatado nas notícias que o banco tinha sido roubado em 3 M €. Os ladrões contaram o dinheiro mas encontraram apenas 1 M €. Um deles começou a resmungar: «Nós arriscamos as nossas vidas por 1 M € enquanto a administração do banco rouba 2 M € sem pestanejar e sem correr riscos? Talvez o melhor seja aprender a trabalhar dentro do sistema bancário em vez de ser um simples ladrão».
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17.10.14

Bem prega o papa Francisco...




«Na segunda-feira, o cardeal Peter Erdö apresentou um documento de trabalho, a relatio, que serviria de base de trabalho para o Sínodo sobre as Famílias, que decorre no Vaticano até ao próximo domingo. Esta quinta-feira, foi a vez de os dez grupos de trabalho apresentarem as suas conclusões. Estas revelam-se demolidoras para com um documento que todos concordaram ser resultado do trabalho de uma semana. (...)
Se o primeiro documento, a relatio, revelava alguma abertura à comunhão e confissão dos casais recasados ou divorciados e ao acolhimento aos homossexuais, muitos dos textos dos grupos falam da indissolubilidade do casamento, consideram que a Igreja se deve manter fiel e não deve permitir que os divorciados tenham acesso aos sacramentos. »
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Lido por aí (139)

Lá foi Zeinal e a PT



«A gigante PT queria ir para o Brasil tomar conta da Oi e acaba comprada pela Oni e Cabovisão. É como se os navegadores portugueses, responsáveis pelos descobrimentos, não passassem do bugio. Depararam-se com um Adamastor de 900 milhões de euros e saltaram das naus. Zeinal é uma Carmen Miranda que, no primeiro show, acabou a levar com fruta. Saiu com um ananás na testa, mais por pontaria do público que por moda baiana. (...)

Confirma-se, Portugal é só cenário. O nosso país é como aquelas cidades falsas de Hollywood, onde filmavam os western. Vai-se a ver e, por trás, não há nada, e está tudo equilibrado com umas estacas. Nem as balas são verdadeiras. Ninguém morre mesmo. Voltam sempre a aparecer. O BES era uma fortaleza de cartão. O Salgado um génio das finanças com traseiras de Dona Branca. Zeinal Bava, um dos "premiados melhores gestores mundiais", não aguentou uma auditoria para se transformar num Godinho Lopes das telecomunicações. É como se um cozinheiro fosse considerado um dos melhores chefes do mundo mas, na realidade, ninguém provava os pratos que ele fazia. (...)

No final desta história, Zeinal Bava deixa a presidência da Oi com um cheque de 5,4 milhões de euros, mas os brasileiros, antes de lho darem, disseram: "agora, vê lá, não gastes tudo em GES ".»

João Quadros
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Dois títulos, uma mesma e triste realidade



«Temos que olhar para as poucas [crianças] que nascem e fazer com que desenvolvam todo o seu potencial. Temos que ter a certeza de que não há negligência, que são bem tratadas, que não há insucesso escolar.»

«Riscos de pobreza ou exclusão social para as crianças foi sempre maior do que para a população total nos últimos anos, revelam dados do INE no Dia Internacional contra a Erradicação da Pobreza. (...) Em Portugal, em 2012, o risco de pobreza passou a atingir 24,4% das crianças, quando essa proporção era de 21,8% em 2011.»

Ou seja: tentar que sejam postas mais crianças à luz do dia neste país, sem que aquelas que existem deixem de ser negligenciadas, ou continuem a alimentar o caudal do risco de pobreza, talvez não seja mais do que insensatez ou populismo barato, de quem usa pensos rápidos para curar doenças graves. 
Por exemplo, diminuir umas décimas no IRS para quem tem filhos é certamente uma medida correcta, mas que não compensa o gigantesco corte de 700 milhões de euros para a Educação no OE2015. Etc. etc., etc. Assim, é óbvio que não vamos lá.
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16.10.14

32 anos sem Adriano Correia de Oliveira



O Adriano tinha apenas 40 anos e morreu há 32, num 16 de Outubro.

Estudante de Direito em Coimbra, aderiu ao PCP na década de 60, foi activista na crise académica de 1962 e participou num elevado número de actividades culturais, sobretudo naquela cidade universitária.

«Trova do vento que passa», com poema de Manuel Alegre, gravado no seu primeiro EP em 1963, viria a tornar-se uma espécie de hino da resistência dos estudantes à ditadura.




Muitos outros temas se juntaram, de um dos nossos mais célebres cantores de intervenção, antes e depois do 25 de Abril.







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Lido por aí (138)


@João Abel Manta

* A roda de oleiro (Viriato Soromenho Marques)

* Sobretaxa IRS: redução para memória futura. E para Governo futuro… (António Bagão Félix )

* We Are Witnessing a Crisis of Wellbeing at Work (David Lammy)
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Um Presidente no reino das fábulas



Ricardo Araújo Pereira, na Visão de hoje:

« Parece-me que [Cavaco] começou a preparar a candidatura ao Nobel da Literatura. Está com uma capacidade de efabulação prodigiosa e com um estilo muito fresco. (...) Esta semana, o Presidente quis esclarecer "uma coisa completamente errada": "Os contribuintes não vão suportar os custos do BES." É uma declaração do domínio da fábula, que é o mundo no qual Cavaco costuma viver. Para o Presidente que vê vacas a sorrir e segreda palavras meigas ao ouvido das cagarras, o tempo em que os animais falavam é hoje. Ora, vigorando na nossa economia a lei da selva, que perspectiva pode ser mais acertada que a de La Fontaine?»

Na íntegra AQUI.
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Orçamento fingidor



«Em Novembro de 1894, o deputado Gomes da Silva, dizia numa sessão parlamentar: "Todos nós sabemos que o discurso da Coroa não passa de uma ficção. Diz-se: o Rei diz. Mas a verdade é que o Rei não diz nada, quem diz é o governo pela boca do Rei". Tantos anos depois, nada mudou.

Substitui-se o Rei por Bruxelas e o resultado é semelhante. Não se sabe se o Governo fala pela boca de Bruxelas, se esta é uma câmara de ressonância do executivo português, se os dois não são as colunas de um concerto ensaiado pela filarmónica de Berlim.

Tudo é tão sinuoso que o OE só poderia ser um Frankenstein: o resultado de diferentes fingimentos. Bruxelas diz que é necessário crescer, mas pede sempre cada vez mais austeridade, o Governo tem de fingir que não pensa nas eleições para que Berlim não o coloque no cantinho dos malcomportados, o BCE tem de fazer golpes de mágica para fazer crer aos mercados que não caminhamos, cegos, surdos e mudos, para o fosso da deflação. (...)

Se Freud convocasse a CE e o Governo para o seu divã nunca mais os deixava sair de lá. A Europa, com os problemas italiano e francês cada vez mais evidentes e com os empresários alemães a investirem nos EUA em vez de o fazerem no seu país, caminha para a estagnação. E todos fingem que esta austeridade salvará tudo. Não salva. É uma bóia que fará naufragar a Europa.»

Fernando Sobral

15.10.14

Lido por aí (137)

Tuc Tuc?



Não só: vêm aí as gôndolas para turistas.
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Mais depressa se apanham vários coxos



... do que se pode acreditar em declarações de responsáveis que nos são apresentados como impolutos e acima de qualquer suspeita.

«Vítor Bento, saiu do Banco de Portugal antes de entrar no banco. (...) E isto porque a lei orgânica do supervisor bancário determina que "[...] é vedado aos membros do conselho de administração e aos demais trabalhadores fazer parte dos corpos sociais de outra instituição de crédito, sociedade financeira ou qualquer outra entidade sujeita à supervisão do Banco ou nestas exercer quaisquer funções" (capítulo XIX, artigo 61.o).O Banco de Portugal disse ao jornal i que "após solicitação do próprio, o conselho de administração [do Banco de Portugal] aprovou a cessação do contrato de trabalho [de Vítor Bento], com efeitos a data anterior ao início das suas funções no BES".»

«Vítor Bento, ex-presidente do BES e o do Novo Banco, nunca perdeu a ligação ao Banco de Portugal enquanto exerceu estas funções. (...) Apesar de ter pedido a reforma antecipada antes de ir para o BES – e de esta ter sido aprovada – nunca assinou os papéis e não perdeu o vínculo. (...) Deste modo, Vítor Bento gozou um mês de férias e está a trabalhar desde segunda-feira para o regulador central português como consultor do conselho de Administração.»

Claro que há assuntos de muito maior gravidade aqui e agora. Mas mente-se, com total impunidade, e nada se passa. Porque uma coisa é certa: durante o tempo em que esteve à frente do banco das borboletas (que, entretanto, desapareceram ou perderam as asas), Vítor Bento fê-lo contra a lei que veda «aos membros do conselho de administração e aos demais trabalhadores [do Banco de Portugal] fazer parte dos corpos sociais de outra instituição de crédito». Com a conivência de Carlos Costa.

Assim vamos, com as orelhas já quase sem cabeça.
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14.10.14

O Outro é, afinal, igual a nós



Crónica de Diana Andringa, hoje, na Antena 1:

«Há cerca de um mês, tive oportunidade de ler no Público um artigo do escritor Michael Muhammad Knight, intitulado "O jihadista que nunca o foi".

Nele, Knight descrevia como, em meados dos anos 1990, vendo na televisão imagens de destruição e sofrimento na Tchetchénia, ponderou pegar numa arma para ir lutar pela liberdade tchetchena e como foram muçulmanos tradicionalistas que lhe recordaram a frase de Maomé, segundo a qual a tinta dos eruditos é mais santa do que o sangue dos mártires.

Mas, sobretudo, Knight explicava que o que o levara a pensar em ir lutar na Tchetchénia não era “raiva muçulmana” ou “ódio ao Ocidente”, mas sim “compaixão” , o desejo de combater a opressão e proteger a segurança e a dignidade de outros. E acrescentava uma frase perturbante: “Não foi nenhum verso que eu tivesse lido nos nossos grupos de estudo do Corão que me fez querer ir lutar, mas sim os meus valores americanos.”

Parece bizarro, quando a barbaridade do auto-intitulado ISIS nos leva a traçar uma tão clara linha de demarcação entre “nós” – os que achamos justo combater a opressão e proteger a segurança e a dignidade dos outros – e “eles”, os impiedosos degoladores que oprimem e desrespeitam a segurança e a dignidade desses outros.

O que é fascinante no artigo de Knight é tornar claro que essa linha de demarcação é muito menos nítida do que gostamos de acreditar. Quando ele, que vive nos Estados Unidos, lembra que cresceu – e cito – “num país que glorifica o sacrifício militar e que se sente no direito de reconstruir outras sociedades segundo os seus parâmetros”, e que interiorizou “esses valores muito antes de pensar sobre a religião”, recorda-nos a velha chamada de atenção de Dylan, para que não se contam os mortos nem se fazem perguntas quando Deus está do nosso lado. E a pensar sobre Hiroshima, Mi Lai, Wiryamu. O que Knigt nos diz é que o Outro é, afinal, igual a nós. E sabê-lo é, talvez, a única forma eficaz de combater o terror.

A prática parece já ter mostrado que as armas, por mais que se multipliquem, não logram pôr-lhe fim.»


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Lido por aí (136)

Riscos de quem sai da sua área de conforto

Os curdos não são de ninguém



«Entre discursos tristes, só resta uma certeza: se a cidade [Kobani] cair, o perigo agiganta-se e milhares ficarão condenados à escravidão. Só os curdos podem salvar a cidade. É deles, e só deles, que dependemos, os que respeitamos a liberdade. Mas, como explica David Graeber no The Guardian, os curdos estão sozinhos: não são de Assad e não têm armas russas, não são de Washington e não têm o seu apoio, não são de Bagdad nem de Ancara e têm as fronteiras fechadas. Só se têm a si próprios e a quem os apoia, no desespero que são estas guerras em que a dignidade humana é o alvo principal.»

Francisco Louçã

13.10.14

Yves Montand – mesmo só um pretexto



... para voltar a ouvir algumas das suas canções inesquecíveis, no dia em que faria 93 anos.

Paris, Paris:






Porque é tempo delas:




E, inevitavelmente:


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E siga o caos



«Numa das cenas de "Uma noite em Casablanca", Groucho Marx é Ronald Kornblow, o novo director do hotel local. Todos os seus antecessores foram assassinados, mas o novo titular revela-se indiferente à conspiração.

Assim, como acção defensiva, diz: "Como primeira medida mudaremos o número das habitações". O subalterno espanta-se: "Imagina-se a confusão!" Ao que responde Groucho: "Imagine-se a diversão!" Esse filme tem hoje uma nova versão: "Uma noite em S. Bento". O caos está instalado.

Quando o Governo de Passos Coelho iniciou a sua missão patriótica de impor a austeridade em nome do liberalismo, instalou uma nova política: transformar a segurança que a sociedade ou a administração pública necessitam num caos permanente. A partir desse dia os portugueses deixaram de ter certezas sobre o que fosse. Tudo muda de um dia para o outro, sem aviso. A desinformação total e contraditória tornou-se a forma de governar. E isso impõe o medo. (...)

O desnorte que o Governo transferiu para os portugueses atinge hoje o próprio executivo, contaminado pela confusão. O debate público entre ministros sobre se é possível baixar a sobretaxa de IRS mostra o nível da alucinação que reina em S. Bento. Groucho Marx poderia ser primeiro-ministro de Portugal. Ao menos tinha piada.»

Fernando Sobral

Lido por aí (135)

IRS e peixe frito de véspera



- Pode dar-me qualquer coisinha, minha senhora?
- Gosta de peixe frito de véspera?
- Claro, gosto muito.
- Então venha cá amanhã. Se sobrar algum do que tenho ali para o jantar, dou-lhe um bocado. 

A anedota é velhinha, mas a história repete-se: se sobrarem alguns euros «fritos» em 2015, o governo promete dar-nos uns cêntimos em 2016.


O cumprimento, extremamente pouco provável, desta nova promessa será responsabilidade de um próximo governo e Pilatos não desdenharia de um decisão deste tipo, por motivos óbvios.

Finalmente, percebe-se por que razão o conselho de ministros esteve reunido 18 horas no último Sábado: foi para chegar a este belo «consenso» (ou «compromisso», como se preferir), entre os que defendiam uma redução de 1% na sobretaxa de IRS já em 2015 e os que a recusavam. Desculpe-se o plebeísmo, mas bem podiam limpar as mãos à parede! 
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12.10.14

Ribeiro dos Santos – assassinado há 42 anos



No dia 12 de Outubro de 1972, a PIDE assassinou José António Ribeiro Santos, militante do MRPP.

Quando ia realizar-se um «meeting contra a repressão» em Económicas, gerou-se uma confusão quando foi identificado, junto das instalações da Associação de Estudantes, um desconhecido que analisava cartazes e tomava apontamentos. Seguiu-se uma série de episódios, resumida por Jorge Costa em texto publicado há alguns anos e agora retomado, que culminou em disparos de revólver por um agente da PIDE – António Gomes da Rocha –, que mataram Ribeiro dos Santos e feriram José Lamego, também ele militante do MRPP (que esteve internado sob prisão no Hospital de S. José, até ser levado para Caxias e aí ser sujeito à tortura do sono).

O assassinato de Ribeiro dos Santos despoletou uma grande reacção em todo o movimento estudantil e marcou-o até ao 25 de Abril. Ainda na noite do dia 12, foi tomada em plenário de estudantes a decisão de paralisar a universidade para permitir a participação no funeral. Este deu lugar a uma forte carga policial, à saída da casa dos pais de Ribeiro dos Santos, perto da igreja de Santos, com a polícia a impedir que os colegas carregassem-se a urna, a pé, até ao cemitério da Ajuda. Houve feridos, algumas detenções e os distúrbios continuaram mais tarde pela cidade.

O que se seguiu? Cito Jorge Costa: «Nos dias seguintes, a universidade está parada. Face ao crescendo de manifestações, são emitidos mandados de captura contra os quatro primeiros dirigentes da AE de Ciências e da direcção cessante da AEIST. Alguns conseguem escapar e permanecer na sombra. Os plenários de 19 e 20 de Outubro são impedidos e toda a cidade se encontra super-policiada. A DGS realiza buscas nas casas de dirigentes associativos e muitos são levados para Caxias. Em Novembro, multiplicam-se as greves estudantis. Para impedir a agitação contínua, Sales Luís encerra o Técnico. Farmácia e Letras também fecham. Muitos dos estudantes suspensos são incorporados no exército colonial. Há muitos estudantes do ensino secundário entre os presos, em Lisboa e no Porto (...). No final de 1972, os estudantes estão em todas as batalhas da "quarta frente" da guerra que condena a ditadura.»
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P.S. – A partir desta página do PCTP/MRPP, tem-se acesso a um conjunto de textos sobre Ribeiro dos Santos e o seu assassinato. 
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Lido por aí (134)

Insuportável



... ler coisas destas! (Público 12.10.2014)
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Da insensatez: uma reunião que dura 18 horas




Não é credível que um grupo de pessoas consiga produzir resultados rigorosos e correctos depois de estar «a trabalhar» durante um período tão longo. Não se trata de um conjunto de super-homens e supermulheres (sabemo-lo bem...), mas de seres humanos que não resistem a 1080 minutos com calma, rigor e discernimento.

Mais: lamento dizê-lo, mas julgo que estamos perante um fenómeno que revela um certo tipo de subdesenvolvimento. Posso estar enganada, mas não imagino nada de semelhante em Inglaterra, na Suécia ou mesmo em França.

Vêm aí erros, correcções, mil rectificativos – que recairão sobre os nossos ombros, evidentemente. No país do Citius e do caos nas escolas, receemos o pior... 
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