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25.10.14

Lido por aí (145)

Auf Wiedersehen, dr. Barroso



Nicolau Santos, no caderno «Economia» do Expresso de hoje:


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Eu ficava logo excluída


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Boa-fé e gente de má-fé



José Pacheco Pereira, no Público de hoje:

«Se há causa a que eu adiro sem reservas é a dos trabalhadores com reformas antecipadas do Metro de Lisboa, que viram as suas reformas cortadas unilateralmente do complemento de reforma que a empresa lhes atribuiu para os incentivar a reformar-se. Não se espantem, parece uma causa laboral como as outras, mas é mais do que as outras. É diferente. (...) É uma causa cívica em que está em jogo um princípio moral que deveria ser a base da nossa sociedade democrática: a boa-fé.

Um dos piores dos meus anátemas contra este Governo é exactamente a destruição dessa boa-fé, como se fosse o acto mais normal do mundo, como quem respira, sem pensar duas vezes, até sem atenção, nem sequer preocupação pelos efeitos não apenas nas vítimas dos seus actos, mas no tecido social e nos laços que unem as pessoas numa sociedade civilizada e numa democracia em que todos somos proprietários e penhores do mesmo poder. Este à-vontade e esta indiferença pelo que é e significa a boa-fé vai ficar como uma mancha para o presente e para o futuro no tónus moral destes tempos. (...)

No dia 1 de Janeiro deste ano, o Governo violou o contrato que tinha feito. O corte unilateral dos complementos de reforma pelo Governo significou reduções de 40 a 60% nas reformas dos trabalhadores. Imaginem acordar no dia seguinte a ganhar menos de metade do que ganhavam no dia anterior e serem já velhos para arranjarem um novo emprego, terem encargos comportáveis quando se tinha uma outra reforma, ou seja, não era “viver acima das suas posses”, e ficarem agora sujeitos a dívidas e penhoras e acima de tudo, mesmo com a reforma por completo, vivia-se no remedeio. Não estamos a falar de gente rica, mas de trabalhadores, daqueles que se espera num país civilizado que engrossem a classe média, educando os seus filhos para viverem melhor do que os pais, acederem a consumos com que os seus avós nunca sonharam. É assim que se cresce, melhora, se avança. É isto que é o melhorismo social, a melhor garantia de um crescimento económico. (...)

Mas o problema que está presente neste caso é um problema de boa-fé, e do papel da boa-fé numa sociedade democrática e que pretende regular-se por regras de conduta civilizadas. Nem sequer pretendo discutir o que isso significa, “civilizadas”, porque toda a gente sabe o que é. E sabe também o que significa a boa-fé: significa que, se quando o governador do Banco de Portugal, seguido pelo Governo, defendeu que devia ser possível antecipar reformas com pagamento dos salários integrais, para afastar das empresas os trabalhadores com mais anos de casa e “que passam a vida nos médicos”, devia colocar-se um cartaz pestífero a dizer: não aceitem o engodo, não acreditem neles, querem enganar-vos e, depois de se reformarem, cortam-vos o que vos prometerem no passado para vos empurrar para a reforma. Como fizeram com os trabalhadores do Metro. Eles são gente de má-fé.»
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24.10.14

Rosa Parks – 24 de Outubro de 2005



Rosa Parks morreu há nove anos. Era costureira, vivia em Montgomery e apanhava todos os dias o mesmo autocarro. No dia 1 de Dezembro de 1955, a parte da frente do mesmo, reservada a passageiros brancos, já não tinha nenhum lugar vago e o condutor ordenou que Rosa se levantasse e cedesse o seu. Recusou e foi presa, facto que desencadeou uma reacção em cadeia, nomeadamente o boicote dos autocarros de Montgomery durante um ano.

Mas não se tratou de um impulso isolado: há muito que RP se recusava a entrar nos autocarros pela porta traseira e que era activista em outras causas, nomeadamente na luta pelo direito ao voto. Ficou ligada, para sempre, juntamente com Luther King e tantos outros, à luta pela emancipação dos negros, sendo muitas vezes qualificada como «the first lady of civil rights» ou «the mother of the freedom movement».


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Lido por aí (144)


@João Abel Manta

* O sexo e a idade (João Taborda da Gama) 


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Renegociar a dívida – uma questão moral



«Foi entre a questão do monopólio dos tabacos (e da dívida externa) e a crise do Crédito Predial que a Monarquia foi deslizando para a República e esta para o Estado Novo. O pântano dos interesses pessoais e de grupo alimentaram sempre as sementes das grandes mudanças.

Quando se olha hoje para a implosão do grupo Espírito Santo e para aquilo que, para já, foi arrastado no furacão (comece-se pela destruição da PT), percebe-se que no centro de tudo está a destruição de uma estratégia para o país sustentada nos interesses particulares de alguns. O que era bom para o BES era bom para a PT e o que era bom para estes era bom para o Estado, incluindo a compra de submarinos, algumas privatizações, algumas escolhas de pessoas para os lugares certos. No meio de tudo isso, facilitadores de negócios prosperaram. (...)

Um modelo de Portugal desintegrou-se perante um Governo que apenas está preocupado com o Orçamento e com o saque de impostos e outro está a tentar nascer (feito de empresas de pequena e média dimensão) que têm como guilhotina em cima das suas cabeças o inexistente crédito, uma burocracia e justiça inclementes e impostos demolidores. Será talvez um país mais flexível mas que tem de lutar contra a falta de jovens quadros que emigraram devido ao convite deste Governo. Mas o grande problema é que nas cinzas do que implodiu com estrondo continuam a existir grandes grupos de interesses que se alimentam deste Estado fraco, que expurga da administração pública os melhores em nome da "reforma", que facilitam contractos e negócios, que aspiram a ganhar a comissão das últimas privatizações e de outras empreitadas gerais. Aí Portugal não mudou. Empobreceu, continuará a estar exangue enquanto não renegociar esta dívida brutal com um serviço da dívida impossível de pagar com este crescimento. A questão é política. É social. É de visão estratégica. Mas, sobretudo, é moral. É, tristemente, uma questão moral.» (Realce meu.)  

Fernando Sobral

23.10.14

PS e abstencionismo



Quatro deputados do Partido Socialista, que há meia dúzia de meses subscreveram o chamado Manifesto dos 74 – Preparar a reestruturação da dívida para crescer sustentadamente –, abstiveram-se hoje, na Assembleia da República, na votação deste projecto de resolução: Pela reestruturação da dívida para crescer sustentadamente.

Se alguém me explicar porquê, com argumentos simples e racionais, contribuirá para a minha sanidade mental. Agradecida.
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Declaração pública de Ricardo Araújo Pereira



... sobre sexualidade depois dos 50: 
 
«Mais se declara que, durante a adolescência, o declarante tinha um amigo chamado Víctor cuja mãe, na altura contando 52 anos, era bem boa. Na companhia da referida anciã passou o declarante tardes muito agradáveis sempre que o pai do supracitado Víctor se encontrava ausente por motivos profissionais, (...)
O declarante disponibiliza-se para, em nome do tribunal, avaliar, caso a caso, o grau de concupiscência de cidadãs de todas as idades, e exarar em relatório oficial as suas conclusões.»

Na íntegra AQUI.
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Ora cá está quem é coerente!

Simplex legislativo



É que nem vale a pena comentar!

«Lei 23/2013, de 5 de Março que “aprova o regime jurídico do processo de inventário, altera o Código Civil, o Código do Registo Predial, o Código do Registo Civil e o Código de Processo Civil”:

Artigo 1º — A presente lei aprova o regime jurídico do processo de inventário, altera o Código Civil, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 47 344, de 25 de Novembro de 1966, e alterado pelos Decretos –Leis nºs 67/75, de 19 de Fevereiro, 201/75, de 15 de Abril, 261/75, de 27 de maio, 561/76, de 17 de Julho, 605/76, de 24 de Julho, 293/77, de 20 de Julho, 496/77, de 25 de Novembro, 200 –C/80, de 24 de Junho, 236/80, de 18 de Julho, 328/81, de 4 de Dezembro, 262/83, de 16 de Junho, 225/84, de 6 de Julho, e 190/85, de 24 de Junho, pela Lei n.º 46/85, de 20 de Setembro, pelos Decretos –Leis nºs 381 –B/85, de 28 de Setembro, e 379/86, de 11 de Novembro, pela Lei n.º 24/89, de 1 de agosto, pelos Decretos –Leis nºs 321 –B/90, de 15 de Outubro, 257/91, de 18 de Julho, 423/91, de 30 de Outubro, 185/93, de 22 de maio, 227/94, de 8 de Setembro, 267/94, de 25 de Outubro, e 163/95, de 13 de Julho, pela Lei n.º 84/95, de 31 de agosto, pelos Decretos –Leis nºs 329 –A/95, de 12 de Dezembro, 14/96, de 6 de Março, 68/96, de 31 de maio, 35/97, de 31 de Janeiro, e 120/98, de 8 de maio, pelas Leis nºs 21/98, de 12 de maio, e 47/98, de 10 de agosto, pelo Decreto –Lei n.º 343/98, de 6 de Novembro, pelas Leis nºs 59/99, de 30 de Junho, e 16/2001, de 22 de Junho, pelos Decretos–Leis nºs 272/2001, de 13 de Outubro, 273/2001, de 13 de Outubro, 323/2001, de 17 de Dezembro, e 38/2003, de 8 de Março, pela Lei n.º 31/2003, de 22 de agosto, pelos Decretos –Leis nºs 199/2003, de 10 de Setembro, e 59/2004, de 19 de Março, pela Lei n.º 6/2006, de 27 de Fevereiro, pelo Decreto –Lei n.º 263 –A/2007, de 23 de Julho, pela Lei n.º 40/2007, de 24 de agosto, pelos Decretos –Leis nºs 324/2007, de 28 de Setembro, e 116/2008, de 4 de Julho, pelas Leis nºs 61/2008, de 31 de Outubro, e 14/2009, de 1 de Abril, pelo Decreto –Lei n.º 100/2009, de 11 de maio, e pelas Leis nºs 29/2009, de 29 de Junho, 103/2009, de 11 de Setembro, 9/2010, de 31 de Maio, 23/2010, de 30 de agosto, 24/2012, de 9 de Julho, 31/2012 e 32/2012, de 14 de agosto, o Código do Registo Predial, aprovado pelo Decreto –Lei n.º 224/84, de 6 de Julho, e alterado pelos Decretos –Leis nºs 355/85, de 2 de Setembro, 60/90, de 14 de Fevereiro, 80/92, de 7 de maio, 30/93, de 12 de Fevereiro, 255/93, de 15 de Julho, 227/94, de 8 de Setembro, 267/94, de 25 de Outubro, 67/96, de 31 de maio, 375 –A/99, de 20 de Setembro, 533/99, de 11 de Dezembro, 273/2001, de 13 de Outubro, 323/2001, de 17 de Dezembro, 38/2003, de 8 de Março, e 194/2003, de 23 de agosto, pela Lei n.º 6/2006, de 27 de Fevereiro, pelos Decretos –Leis nºs 263 –A/2007, de 23 de Julho, 34/2008, de 26 de Fevereiro, 116/2008, de 4 de Julho, e 122/2009, de 21 de maio, pela Lei n.º 29/2009, de 29 de Junho, e pelos Decretos –Leis nºs 185/2009, de 12 de agosto, e 209/2012, de 19 de Setembro, o Código do Registo Civil, aprovado pelo Decreto –Lei n.º 131/95, de 6 de Junho, com as alterações introduzidas pelos Decretos–Leis nºs 36/97, de 31 de Janeiro, 120/98, de 8 de maio, 375 –A/99, de 20 de Setembro, 228/2001, de 20 de agosto, 273/2001, de 13 de Outubro, 323/2001, de 17 de Dezembro, 113/2002, de 20 de Abril, 194/2003, de 23 de agosto, e 53/2004, de 18 de Março, pela Lei n.º 29/2007, de 2 de agosto, pelo Decreto –Lei n.º 324/2007, de 28 de Setembro, pela Lei n.º 61/2008, de 31 de Outubro, pelos Decretos –Leis nºs 247 –B/2008, de 30 de Dezembro, e 100/2009, de 11 de maio, pelas Leis nºs 29/2009, de 29 de Junho, 103/2009, de 11 de Setembro, e 7/2011, de 15 de Março, e pelo Decreto –Lei n.º 209/2012, de 19 de Setembro, e o Código de Processo Civil, aprovado pelo Decreto –Lei n.º 44 129, de 28 de Dezembro de 1961, e alterado pelo Decreto –Lei n.º 47 690, de 11 de maio de 1967, pela Lei n.º 2140, de 14 de Março de 1969, pelo Decreto –Lei n.º 323/70, de 11 de Julho, pelas Portarias nºs 642/73, de 27 de Setembro, e 439/74, de 10 de Julho, pelos Decretos –Leis nºs 261/75, de 27 de maio, 165/76, de 1 de Março, 201/76, de 19 de Março, 366/76, de 15 de maio, 605/76, de 24 de Julho, 738/76, de 16 de Outubro, 368/77, de 3 de Setembro, e 533/77, de 30 de Dezembro, pela Lei n.º 21/78, de 3 de maio, pelos Decretos –Leis nºs 513 –X/79, de 27 de Dezembro, 207/80, de 1 de Julho, 457/80, de 10 de Outubro, 224/82, de 8 de Junho, e 400/82, de 23 de Setembro, pela Lei n.º 3/83, de 26 de Fevereiro, pelos Decretos –Leis nºs 128/83, de 12 de Março, 242/85, de 9 de Julho, 381 –A/85, de 28 de Setembro, e 177/86, de 2 de Julho, pela Lei n.º 31/86, de 29 de agosto, pelos Decretos –Leis nºs 92/88, de 17 de Março, 321 –B/90, de 15 de Outubro, 211/91, de 14 de Junho, 132/93, de 23 de Abril, 227/94, de 8 de Setembro, 39/95, de 15 de Fevereiro, e 329 –A/95, de 12 de Dezembro, pela Lei n.º 6/96, de 29 de Fevereiro, pelos Decretos –Leis nºs 180/96, de 25 de Setembro, 125/98, de 12 de maio, 269/98, de 1 de Setembro, e 315/98, de 20 de Outubro, pela Lei n.º 3/99, de 13 de Janeiro, pelos Decretos –Leis nºs 375 –A/99, de 20 de Setembro, e 183/2000, de 10 de agosto, pela Lei n.º 30 –D/2000, de 20 de Dezembro, pelos Decretos –Leis nºs 272/2001, de 13 de Outubro, e 323/2001, de 17 de Dezembro, pela Lei n.º 13/2002, de 19 de Fevereiro, pelos Decretos –Leis nºs 38/2003, de 8 de Março, 199/2003, de 10 de Setembro, 324/2003, de 27 de Dezembro, e 53/2004, de 18 de Março, pela Lei n.º 6/2006, de 27 de Fevereiro, pelo Decreto –Lei n.º 76 –A/2006, de 29 de Março, pelas Leis nºs 14/2006, de 26 de Abril, e 53 –A/2006, de 29 de Dezembro, pelos Decretos –Leis nºs 8/2007, de 17 de Janeiro, 303/2007, de 24 de agosto, 34/2008, de 26 de Fevereiro, e 116/2008, de 4 de Julho, pelas Leis nºs 52/2008, de 28 de agosto, e 61/2008, de 31 de Outubro, pelo Decreto –Lei n.º 226/2008, de 20 de Novembro, pela Lei n.º 29/2009, de 29 de Junho, pelos Decretos –Leis nºs 35/2010, de 15 de Abril, e 52/2011, de 13 de Abril, e pelas Leis nºs 63/2011, de 14 de Dezembro, 31/2012, de 14 de agosto, e 60/2012, de 9 de Novembro.»

Bagão Félix, aqui.
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22.10.14

Faria hoje 93



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Avós da Praça de Maio – 37 anos



Em 22 de Outubro de 1977, duas avós fundaram, em La Plata, as «Abuelas Argentinas con Nietitos Desaparecidos». O grupo foi crescendo, passou a ser conhecido como «Abuelas de Plaza de Mayo», o seu campo de acção alargou-se e ainda continua a procurar crianças que hoje são adultos e que foram roubadas aos pais durante a ditadura militar, que começou em 1976. Até Agosto de 2104, já tinha sido recuperada a identidade de 115 netos. 

À 5ª feira, poucas ou muitas, juntam-se na dita praça emblemática de Buenos Aires, como tive oportunidade de verificar uma vez – com um nó na garganta.

Hoje, celebram este 37º aniversário do «Dia Nacional do Direito à Identidade», no Teatro Argentino de La Plata. (Mais detalhes aqui.) 
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É você que se preocupa com a Dívida?



Teve lugar esta tarde, na Assembleia da República, o debate sobre duas Petições (a da IAC e a do Manifesto dos 74) e três Projectos de Resolução (BE, PCP e PS), há muito agendado. Apenas foi transmitido pelo canal Parlamento – zero nas três estações de notícias da TV. E nem sequer estavam a falar de futebol! 
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Lido por aí (143)

O sobrolho de Merkel



«Temos finalmente um orçamento. Mas um País desorientado, endividado, desempregado, empobrecido, com a coesão social presa por um fio, sem as finanças públicas consolidadas, descapitalizado, com o acesso aos mercados condicionado.

Onde estávamos em 2011 e onde estamos hoje? Melhor? Alguma coisa melhorou nestes três anos e meio que levamos desta política chamada de austeridade, que por um passe de mágica alemão transformou uma crise bancária global, na crise das dívidas soberanas na Zona Euro?

Ao fim de três anos e meio os nossos governantes lançam para cima da mesa, no seu mais importante instrumento de política económica, um documento ambíguo na aparência, mas no fundo tanto ou mais duro que os anteriores: a receita fiscal prevista nunca foi tão alta como a que se propõe neste OE2015. E o que era a prioridade das prioridades, consolidação das finanças públicas através da "eliminação das gorduras do Estado", limitando a despesa, continua a ser feita, sobretudo pelo lado do aumento da receita. (...)

Entretanto o nosso [Governo] nunca teve um programa que não fosse o imposto pelo MoU da troika. Agora que ela deixou de ser omnipresente, alguém pensou, em ano de eleições, que era possível fazer um pouco diferente. Mas bastou um franzir do sobrolho da Chanceler Merkel para se concluir que a solução era retomar o trilho anterior com alguns números de ilusionismo. Mas, se não tinha programa o Governo tem uma agenda: uma agenda liberal conservadora, pegada com cuspo, que lhe permitiu fanfarronar a adopção do programa dos credores "porque esse era o seu programa" e até o queria ultrapassar. No que pôde, fê-lo.»

José Maria Brandão de Brito

21.10.14

Lido por aí (142)

Orçamento e aprendizes de merceeiros



«O Orçamento do Estado não deve ser comparado com o de uma família ou com o de um pequeno negócio, como uma mercearia, apesar das lógicas metodológicas "contabilistas" serem algo semelhantes, mas não precisam de ser apresentados em "pen", pois não têm tanta complexidade burocrática, traduzida em muitos "megas" ou "quilos" de resmas de papel, rotulados de transparentes e rigorosos: dois "chavões" que são importantes para os contabilistas, mas que nada valem em termos económicos.

O Orçamento do Estado deve ser o espelho de uma estratégia e até de uma ideologia e não um mero instrumento de gestão do "sistema", caso contrário, pode efectivamente ser feito por aprendizes de merceeiros, que sabem já distinguir o "deve" do "haver". Digo aprendizes, porque para ser merceeiro já são necessárias outras competências, que envolvem visão e, pelo menos, estratégia de portefólio de produtos e dimensionamento da oferta. (...)

Não há memória de nenhuma economia ter sido recuperada pela via da austeridade. Menos rendimento gera menos consumo e menos investimento, que por sua vez gera menos produção e menos emprego. Menos motivação e menos força anímica de um povo. Mesmo para quem não é observador da realidade, esta matéria vem nos livros de economia. (...)

Assim continuamos longe, muito longe, da reconciliação com as realidades actuais. Para governar um país, um sistema complexo, é preciso visão, estratégia, sobretudo coragem, senão mesmo é melhor vender salsichas, antes que tenhamos de vender o país.»

Miguel Varela

Se este país não é um manicómio

Número redondo: François Truffaut morreu há 30 anos



Ontem , li algures que François Truffaut morreu em 21 de Outubro de 1984, esta noite sonhei com ele. Mais exactamente, revivi o que de facto me aconteceu em 1968: ter visto Baisers Volés, três vezes seguidas, sem sair da sala de um cinema parisiense.

«Nouvelle Vague», «Cahiers du Cinéma», e tudo o que a estas realidades estava ligado, enchia-nos a cabeça e a alma e ainda regressa hoje ao menor sinal.

E «regressam», também, umas pequenas amostras de alguns dos meus tesouros de baú.








Last but not the least, esta canção inesquecível de «Jules et Jim»!


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20.10.14

Novas Oportunidades



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Nicolau Santos no Expresso diário de 20:10:2014 (excertos). 
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O PS no seu reino do «Nim»



Há três ou quatro dias, recebi um mail de um amigo, entusiasmado com uma notícia que acabara de ler – António Costa avança com reestruturação da dívida –, na qual se anunciava que o PS apresentaria um Projecto de Resolução relacionado com o tema, a ser discutido no próximo dia 22, juntamente com textos do PCP e do BE e duas petições, uma do Manifesto dos 74 e outra da IAC.

Respondi-lhe logo que não acreditava que o «novo» PS usasse a palavra «reestruturação», num documento oficial, por razões eleitoralistas óbvias (mas confesso que não pensei que «renegociação» fosse ostracizada). Em todo o caso, preparei-me para ler (finalmente...) a posição oficial daquele partido sobre o tema, mas ela continua a não existir: no dia, esperado há muitos meses, em que a AR vai debater vários posicionamentos, de partidos e de cidadãos, a única coisa que vem do Largo do Rato é... uma proposta para um debate!

O texto (aqui na íntegra) não podia ser mais incolor e mais inodoro. Eis a conclusão:


Ou seja: depois de anos a ouvirmos todos os especialistas, de todos os quadrantes, portugueses e não só, depois de lermos n estudos, com vários matizes, sobre a dívida e formas de a abordar, o PS, que sabe tão bem como toda a gente que estamos perante opções eminentemente políticas, refugia-se num texto vago que parece querer adiar tudo, uma vez mais, para o dia do nunca. 
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Lido por aí (141)

O Lago dos Cisnes 2.0



«A Europa sonha que está a dançar, ao som de Tchaikovsky, uma nova versão de "O Lago dos Cisnes". Berlim acredita que é a reencarnação do príncipe Siegfried e que, nestes dias de crise muito nebulosa, encontrou a rainha dos cisnes, a rainha Odette, a deusa da austeridade.

Mas, condenada ao feitiço do mago Rothbart, Odette foi transformada em cisne e só à noite consegue recuperar a aparência humana. Ou seja, só depois de penar com a tortura fiscal e o desemprego é que Odette poderá ser libertada do jugo da austeridade. Só que, encantado pela feiticeira Odile, que fingia ser Odette, o príncipe esquece o juramento e rompe-o. (...)

Não será pois só pelo combate ao défice que a Europa sairá do feitiço do cisne com reumático que hoje é. Por isso quando o Governo português aponta para um crescimento económico de 1,5% e se olha para o comportamento das economias europeias e para a canga dos limites dos défices, parece que a Europa está a entrar na fase da esquizofrenia. O bailado alemão é agora um equilíbrio desastrado em cima de um "skate" por parte de quem só pensa nos interesses próprios. E, no meio de tudo isso, Portugal nem é um cisne. É o ganso que paga impostos. E juros da dívida.»

Fernando Sobral

19.10.14

Serviço Público



ATENÇÃO: estão a ser recebidos falsos mails atribuídos às Finanças. Ler o que o Paulo Pinto escreveu hoje no Jugular. 
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Manuel António Pina – ainda



Relendo algumas das crónicas do seu último ano, repesco esta (de 24:07:2012), tão actual que até arrepia.

O fato novo do Rei

Quem, como eu e a generalidade dos portugueses, não percebe nada de Finanças nem consta que tenha biblioteca e ouve repetidamente dizer, ao fim de um ano de inauditos sacrifícios, desemprego, miséria e fome, que "estamos no bom caminho", acabando por descobrir que afinal, em Março, a dívida pública portuguesa cresceu mais 26 mil milhões em relação a Março de 2011 (reinava então Sócrates, cognominado pelo actual Governo de "o Gastador"), perguntar-se-á legitimamente onde irá dar o "bom caminho".

Mas talvez, quem sabe?, seja assim que se combate a dívida, aumentando a dívida. Como o desemprego se combate facilitando e embaratecendo os despedimentos e destruindo emprego.

Dir-se-á que nem eu nem os portugueses mais pobres cuja existência tem sido imolada no altar da dívida, somos economistas, do mesmo modo que o menino que não conseguiu ver a fatiota invisível do Rei e gritou "O Rei vai nu" não era, obviamente, alfaiate. Mas quem escute as homilias diárias dos alfaiates da política de austeridade demonstrando, mediante equações só acessíveis a pessoas inteligentíssimas e com vastas bibliotecas, que "não há alternativa", esperaria ver o Rei, já não digo com sapatos novos, mas ao menos um pouco mais apresentáveis do que há um ano.

Sobretudo depois de, em Janeiro, o alfaiate-mor ter anunciado no Parlamento que 2012 seria o "ano de viragem económica para o país". 
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Lido por aí (140)

Dois anos sem Manuel António Pina



Manuel António Pina morreu em 19 de Outubro de 2012 e a memória do que representou, com tudo o que lhe devemos, mantém-se intacta e enorme. Os seus livros cá ficaram, mas nunca mais lemos as suas preciosas crónicas diárias. Na situação em que nos encontramos, e numa altura em que o leque de comentadores na nossa imprensa de referência se fecha e deixa cada vez mais a desejar (na minha modesta opinião, claro), MAP faz-nos muita, muita falta.

Em jeito de homenagem, releia-se uma grande entrevista de Nuno Ramos de Almeida, publicada exactamente oito meses antes do fim de MAP: «A vontade que tenho era pôr um cinturão de bombas e rebentar com essa malta toda».

E, também, o que julgo ter sido a última crónica que publicou no JN:

Coisas sólidas e verdadeiras (01.08.2012)

O leitor que, à semelhança do de O'Neill, me pede a crónica que já traz engatilhada perdoar-me-á que, por uma vez, me deite no divã: estou farto de política! Eu sei que tudo é política, que, como diz Szymborska, "mesmo caminhando contra o vento/ dás passos políticos/ sobre solo político". Mas estou farto de Passos Coelho, de Seguro, de Portas, de todos eles, da 'troika', do défice, da crise, de editoriais, de analistas!

Por isso, decidi hoje falar de algo realmente importante: nasceram três melros na trepadeira do muro do meu quintal. Já suspeitávamos que alguma coisa estivesse para acontecer pois os gatos ficavam horas na marquise olhando lá para fora, atentos à inusitada actividade junto do muro e fugindo em correria para o interior da casa sempre que o melro macho, sentindo as crias ameaçadas, descia sobre eles em voo picado.

Agora os nossos novos vizinhos já voam. Fico a vê-los ir e vir, procurando laboriosamente comida, os olhos negros e brilhantes pesquisando o vasto mundo do quintal ou, se calha de sentirem que os observamos, fitando-nos com curiosidade, a cabeça ligeiramente de lado, como se se perguntassem: "E estes, quem serão?" Em breve nos abandonarão e procurarão outro território para a sua jovem e vibrante existência. E eu tenho uma certeza: não, nem tudo é política; a política é só uma ínfima parte, a menos sólida e menos veemente, daquilo a que chamamos impropriamente vida. 

Finalmente, reserve-se algum tempo deste Domingo para ver, ou rever, este excelente filme de Ricardo Espírito Santo:


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