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14.2.15

Lido por aí (235)


@João Abel Manta

* No es el descontento, es la desafección (José Ramón Montero e Mariano Torcal Loriente)

* ‘If I weren’t scared, I’d be awfully dangerous’ (Yanis Varoufakis)

* Varoufakis vs. Piketty: um embate para prestar atenção (Antonio Luiz M. C. Costa)
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Não foi o Syriza



Miguel Sousa Tavares, no Expresso de 14.02.2015:

«Qualquer benefício obtido pelo Governo grego na situação actual de estrangulamento financeiro em que vive terá o efeito de uma bofetada em Passos Coelho e Paulo Portas. Pois que significará duas coisas: que não estamos condenados ao TINA (“There Is No Alternative”), e que vale mais não abdicar de ser um parceiro europeu, com voz própria e ainda que desprezada, do que ser um mero vassalo da vontade e interesses alemães, ajoelhando aos pés de Schäuble, como fez Vítor Gaspar, prometendo-lhe obediência eterna em troca de uma “atençãozinha” (tão ao nosso jeito e tradição).

Portas — que costumava ser sensível a estas coisas — sabe muito bem que a vitória do Syriza e a sua postura perante Bruxelas e a Alemanha têm um efeito de atracção e contágio virais: eis um pequeno país, arruinado e pobre, que, em vez de se manter como pedinte, estendendo a mão e agradecendo, reivindica a sua quota-parte de soberania nacional, que os tratados europeus garantem. Por muito que custe a Passos Coelho entender estes detalhes, o Syriza foi eleito pelos gregos, em eleições livres e contra todas as ameaças e avisos de Bruxelas, para inverter a política do Governo da Nova Democracia de Samaras — cuja gestão era a única que a troika consentia. Esse detalhe — a manifestação de soberania nacional de um povo — é tudo aquilo que a UE, capturada pela Alemanha e pelo interesse alemão, não suporta. Mas não foi o Syriza que conduziu a Grécia à ruína e sim a ND e o PASOK; não foi o Syriza que instituiu na Grécia um sistema corrupto e um Estado clientelar; não foi o Syriza que fez batota com os dinheiros europeus e que permitiu toda a espécie de falcatruas e de evasões fiscais; e não foi o Syriza que, depois de ter arruinado o país, chamou a troika e lhe pediu montes de dinheiro emprestado — o qual, na sua maior parte, foi usado para safar a banca alemã, que, por ganância criminosa, tinha apostado forte na ruína financeira da Grécia. Não houve nada de inocente na forma como Bruxelas e Berlim assistiram à falência do Estado grego. É preciso ver para lá da babugem das marés, para lá dos fóruns de Davos e dos Conselhos Europeus.

Com um horizonte de gerações de miséria pela frente para pagar a dívida, a Grécia votou no Syriza contra a troika. Esperar ou exigir que o Syriza, eleito com um mandato expresso para mudar de agulha, continuasse a “honrar” o que o Governo anterior acordara com a troika, era o mesmo que dizer que Bruxelas não reconhece qualquer efeito ou legitimidade à vontade manifestada pelos povos da União — excepto se forem suficientemente grandes para poderem causar estragos gerais. Para desconforto dos trogloditas da direita, o Governo do Syriza não propôs nada de radical, nada do género “não pagamos, ponto final”. Pelo contrário, fez propostas que, além de justas e mais do que justificadas, são exequíveis e de interesse comum — desde que o interesse comum seja a defesa da Europa, coisa que eu há muito duvido que seja o interesse estratégico alemão. Esta mensagem, já entendida por muita gente que se desabituara de pensar “out of the box”, não chegou ainda, nem chegará, à actual maioria. Não só porque no horizonte há eleições e não é altura para começar a reconhecer que tudo esteve errado, mas também porque eles foram formatados assim e nada é mais penoso à ignorância do que a dúvida.

Há duas maneiras de um país endividado conseguir condições para pagar a dívida: ou pelo crescimento económico, gerando receitas sobrantes para tal, ou pelo empobrecimento, canalizando todos os recursos (mais impostos, menos prestações sociais, privatizações a qualquer preço), para, antes de tudo mais, pagar aos credores. Este último caminho foi o que a Alemanha impôs como castigo aos países do Sul, foi o que a troika executou e foi o que o Governo português entusiasticamente subscreveu (Passos chegou a fazer o elogio do empobrecimento e até houve um secretário de Estado que fez a apologia da emigração). Aqui e na Grécia conhecemos os resultados trágicos desta ‘solução’. O pior de tudo ainda, aquilo que demonstra como a solução estava errada, é que depois de fazer a economia regredir a padrões de há anos ou décadas, nem a dívida parou de aumentar nem se alterou nada de substancial na estrutura da despesa pública, de modo a evitar que, tal como Portas prometeu, o Estado português nunca mais se veja em situação de falência. Tudo foi um tremendo erro económico, resultante de uma irresponsável arrogância ideológica. É por isso que nem Passos, nem Portas, nem Cavaco Silva (que lhes deu sempre uma indecente cobertura política) podem admitir que a Grécia obtenha o que quer que seja. Detesto os palavrões políticos, mas não encontro outra forma de classificar esta atitude senão como uma posição antipatriótica, ditada pela mais mesquinha das razões.» 
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Incompetente, mentiroso, ou as duas coisas

O tempo das chamas



«O consenso é, nas sociedades, na política, na economia ou na cultura, uma pequena acalmia antes das tempestades. A paz na Europa, construída após a sangrenta II Guerra Mundial, fez-se em torno de consensos: a democracia política e o Estado social.

Agora todo esse equilíbrio parece estar em perigo. Sente-se o fim de um ciclo para o início de outro. A destruição das classes médias pela austeridade e pelo fim do crescimento económico sem fim ameaça a democracia política. Os extremos políticos ganham fôlego. Nas margens da Europa o fanatismo ganha militantes sem fim. No centro da Europa a linha que separa a paz da guerra lembra o que sucedeu antes da I e da II Guerra Mundial: uma pequena faísca pode degenerar num incêndio. (...)

A substituição das ideologias pelo consenso económico-financeiro fingiu ter terminado com a ideia de conflito. As ideias foram substituídas por interesses. As palavras foram substituídas por números. Como se as sociedades e os cidadãos se adaptassem a tudo. Os políticos tornaram-se contabilistas e assistiram impávidos ao fim da política como a religião do nosso tempo (especialmente depois da Revolução francesa) e ao renascer da religião como política, onde o deserto de valores e a implosão do Estado fazem regressar as regras primárias de segurança: a família, o clã, o território. (...)

A política é um teatro: e a essência da dramaturgia, como dizia Aristóteles, é o conflito. Quanto maior e mais intenso for o drama, maior e mais intenso é o espectáculo. Estamos a viver isso. É difícil que os povos do Sul continuem a acreditar neste modelo. Em que o euro amarra e desfaz todas as possibilidades de fuga.

Um continente que oferecia bons empregos, com bons direitos sociais e boas pensões, não vai oferecer à próxima geração nada disto. Sem futuro, que sobra aos povos? Os Estados de bem-estar da Europa (que chegaram a Portugal ou Espanha muito tarde) têm contas crescentes porque as suas populações envelheceram. Sem crescimento económico constante isto é impossível de manter. A austeridade veio aliás quebrar definitivamente essa ligação. O fim de um ciclo está defronte dos nossos olhos.»

Fernando Sobral

13.2.15

Um país a passo de caracol



... ou de caranguejo, se se preferir. 
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15 de Fevereiro – Apoio à luta do povo grego



No dia 15 de Fevereiro, em resposta ao apelo lançado pela Grécia, por toda a Europa se convocam manifestações em solidariedade com o povo grego e em repúdio pela arrogância e a hostilidade reveladas pelas instituições europeias.

É tempo de sair à rua e enviar um sinal claro de que estamos todos no mesmo barco e não aceitamos a miséria que nos querem impor.

Porque a nossa luta é internacional, aqui e agora, somos todos gregos.

Braga
15h30
Arcada
Evento Facebook

Lisboa
15:00 Largo de Camões ---> Largo Jean Monnet
Evento Facebook

Portimão
15:30
Câmara Municipal de Portimão
Evento Facebook

Porto
15:30
Praça da Batalha
Evento Facebook

Viseu
SÁBADO, 14 de Fevereiro, 15:00
Avenida da Europa
Evento Facebook

Lido por aí (234)

Querida Grécia,



«Escrevo esta carta sem ser segundo as regras do novo acordo ortográfico porque sei que vocês também gostam de não respeitar as regras. (...)

Escrevo-lhe para pedir desculpa pelo nosso Presidente, pelo nosso Governo e por um sujeito de pavilhões auriculares extensíveis que trabalha para a televisão do Estado. Sei que o que peço é demasiado. Sei que não me pode perdoar tudo, mas podemos negociar. (...)

Gostava muito que nos perdoasse, pelo menos, metade das coisas horríveis que o nosso PM tem dito sobre si. Mas se acha que as declarações do nosso PM ofendem a sua pátria, lembre-se que ele usa um pin com a nossa bandeira. Como é que acha que nós nos sentimos?! Se ele não usasse o maldito pin, talvez passasse por PM da Baviera e não tínhamos de sofrer tanta vergonha.

Quanto ao nosso Presidente, eu podia usar a desculpa de que ele já não está em condições, mas não quero enganar ninguém. Ele sempre foi assim. É uma pessoa horrível, mas somos nós que temos de viver com ele desde pequeninos, Querida Grécia.(...)

Por isso peço, Querida Grécia, que nos perdoe pelo menos 80% dos disparates que o nosso Presidente diz. O resto, não peço que nos desculpe. Espero que esqueça com o tempo. Prometo que vamos tentar esquecê-lo primeiro.

Com os melhores cumprimentos,

P.S.: Pare de me enviar iogurtes, Querida Grécia. Sou lacto-intolerante e isso não é negociável.»
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12.2.15

Neste país pouco original do medo


Crónica de Diana Andringa, hoje, na Antena 1: 

Ah o medo vai ter tudo, tudo (Penso no que o medo vai ter e tenho medo que é justamente o que o medo quer) O medo vai ter tudo, quase tudo e, cada um por seu caminho, havemos todos de chegar, quase todos, a ratos.

Alexandre O’Neill escreveu o «Poema pouco original do medo» quando vivíamos em ditadura e o medo das autoridades era o meio de controlo exercido sobre nós desde crianças. Em 25 de Abril de 1974, acreditámo-nos livres desse medo. Em democracia, poderíamos vigiar e prevenir os abusos de poder. Mas pouco mais de 30 anos tinham passado quando um jovem negro, morador na Amadora, me disse que a filha, então de uns três anos de idade, tinha esse medo que julgáramos banido para sempre: medo de homens fardados. De polícias.

O que na semana passada aconteceu na Cova da Moura justifica o medo da menina. E perturba-me mais do que antes do 25 de Abril de 1974, porque a violência de Estado era então feita contra mim, contra todos nós. E hoje é em nosso nome, da nossa segurança, do nosso medo, que essa violência é aplicada.

Um medo criado, em grande parte, pelo abuso das palavras. Em 2005, um incidente em Carcavelos agigantou-se em arrastão. Dez anos depois, a entrada de meia dúzia de jovens desarmados numa esquadra torna-se uma «invasão». São palavras criadas pelo medo que todos os dias nos é incutido sobre o outro, o de outra cor, de outra religião, de outro modo de vida. Medo. Sem medo, que polícia não se cobriria de ridículo ao tratar a entrada de seis jovens desarmados na sua esquadra como uma invasão? Que jornalistas dariam crédito a essa versão? Sem medo, como se explicaria o abuso das palavras e da força contra cidadãos, por parte daqueles mesmos que deviam protegê-los dos abusos? A esta hora já terá tido lugar, frente ao Parlamento, uma manifestação de protesto contra esse medo que se vive na Cova da Moura e em outros bairros do país. O medo dos moradores agredidos, e o medo dos agentes, que os transforma em agressores. Gostaria que fôssemos muitos a dizer alto que não aceitamos a violência policial nem o racismo, a recusar que essa violência e esse racismo sejam exercidas em nosso nome. A recusarmos ter medo e transformar-nos em ratos ou nesses eunucos que, como cantava Zeca Afonso, «quando os pais são feitos em torresmos, não matam os tiranos, pedem mais».




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Tristes figuras...



António José Teixeira, no Expresso diário de 12.02.2015 (excerto):

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Em tempo de «selfies»



Riacrdo Araújo Pereira, na Visão de hoje:

«De todas as fotografias contemporâneas, a mais perigosa é a selfie – ou, em português, a propriazinha. A selfie é o equivalente moderno da PIDE. Também persegue, tortura e mata. A PIDE contava com umas dezenas de inspectores pouco espertos e alguns bufos diligentes. As selfies contam com milhões de utilizadores pouco espertos e o facebook, o instagram e o twitter. Uma selfie, para os meus leitores do século XX, é uma fotografia que uma pessoa tira a si mesma, em geral com um telefone. A PIDE, para os meus leitores do século XXI, era a polícia política do Estado Novo. Há quem morra a tirar selfies em posições perigosas. Há quem seja torturado durante anos pela memória de uma selfie irreflectida. (…)
Freud estava distraído – provavelmente, a fotografar os próprios pés junto de uma piscina.

Na íntegra AQUI
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Maratona 2.0


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11.2.15

Europa, escuta





Lisboa, 11 de Fevereiro de 2015
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Lido por aí (233)


@João Abel Manta

* Has Barack Obama Prevented Grexit? (George Irvin)

* Ninguém é cidadão (Nuno Ramos de Almeida)

* O cancro da Grécia ou o ébola da Ucrânia? (Ferreira Fernandes)
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É assim


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Mesquinho, como sempre

Grécia: dois passos em frente?



«Lenine explicou um dia aos bolcheviques o acordo com os sociais-democratas de Kerensky para derrubar o czarismo. Era simples: um passo atrás, dois passos em frente.

Lenine acreditava que a vanguarda armada acabaria por tomar o poder pela força, afastando depois os aliados circunstanciais. Antonio Gramsci tinha uma outra fórmula: para ele o poder era o domínio sobre o aparelho de Estado; a hegemonia era o domínio psicológico da multidão. Lenine acreditava que se tomava o poder para conseguir a hegemonia: Gramsci prescrevia a hegemonia para se ser levado ao poder de forma suave e óbvia.

O Syriza tomou o poder depois de assegurar a hegemonia junto das multidões gregas. E alargou a sua hegemonia aos europeus que olham para esta UE como se ela fosse o símbolo da ditadura financeira sobre a democracia política. Tsipras joga com o medo e este nunca foi tão grande. Não por causa dos défices. Mas porque a Ucrânia está às portas de uma guerra sem limites e a Grécia faz parte da NATO.

As reuniões de hoje e amanhã e o risco de a máquina do dinheiro ser desligada, obrigando a Grécia a sair do euro, poderão abrir uma crise sem limites. Mas é aí que o Syriza vence: o destino desta Europa decide-se nestes dias. E não é uma decisão financeira. É política. O Norte deixou de desconfiar do Sul: é hostil a ele. E o Syriza venceu esta batalha: sem que ninguém o quisesse, atrelou o destino de Portugal, Chipre e Itália ao da Grécia. Obama já percebeu isso. O chanceler austríaco também. Tudo pode acontecer, mas está já escrito nas estrelas: este euro tem os dias contados.»

Fernando Sobral

10.2.15

Lido por aí (232)

Solidariedade, impõe-se – já amanhã, 11.02.2015



Vigília em solidariedade com o povo grego e em repúdio pela arrogância e a hostilidade reveladas pelas instituições europeias

Neste dia, realiza-se uma importante reunião do Eurogrupo, que irá definir a posição da zona euro em relação à renegociação da dívida grega.

Os últimos dias revelaram a hostilidade de instituições e governos europeus relativamente à própria possibilidade de uma política que devolva um mínimo de esperança e dignidade a milhões de pessoas sem emprego e sem direitos, obrigadas a viver na rua ou às escuras, sujeitas à fome e privadas de cuidados médicos.

Estão em jogo questões decisivas que ultrapassam o quadro nacional da Grécia.

É tempo de sair à rua e enviar um sinal claro de que estamos todos no mesmo barco e não aceitamos a miséria que nos querem impor. Porque a nossa luta é internacional, aqui e agora, somos todos gregos.  
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(Notícia do AVGI, jornal do Syriza: «Portugueses nas ruas: 'Solidariedade com a Grécia, Basta de Chantagem!'»)
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É também isto


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Escolher combates



Serge Halimi, em Le Monde Diplomatique (ed. portuguesa) de Fevereiro de 2015:

«Na Grécia e em Espanha, o crescimento de uma esquerda que se opõe às políticas de austeridade encoraja os defensores de uma mudança de rumo da União Europeia. Cada vez mais formal, o debate democrático terá muito a ganhar com isso. Tanto quanto terá a perder com o confronto cultural e religioso, com o "choque das civilizações" que os autores dos atentados de Paris quiseram provocar. (...)

Decididamente, a Europa existe! O então primeiro-ministro grego Antonis Samaras não esperou muito tempo antes de utilizar, com perfeita delicadeza, o assassinato colectivo nas instalações do Charlie Hebdo: «Hoje aconteceu em Paris um massacre. E, aqui, alguns encorajam ainda mais imigração ilegal e prometem a naturalização!»

Um dia mais tarde, em Atenas, Nikos Filis, director do I Avgi, diário de que o Syriza, coligação da esquerda radical, é o principal accionista, retira perante nós uma lição muito diferente do crime cometido por dois cidadãos franceses: «O atentado pode vir a orientar o futuro europeu. Seja no sentido de Le Pen e da extrema-direita, seja no de uma abordagem mais sensata do problema. Porque a procura de segurança não pode ser resolvida apenas pela polícia». No plano eleitoral, este tipo de análise traz tão poucos resultados na Grécia como nos outros Estados europeus. Vassilis Moulopoulos sabe-o. No entanto, este conselheiro de comunicação de Alexis Tsipras não se preocupa: «Se o Syriza tivesse sido menos intransigente na questão da imigração, já teríamos obtido 50% dos votos. Mas esta escolha é um dos poucos pontos em que estamos todos de acordo!»…

Há anos que as políticas económicas praticadas no Velho Continente fracassam, e na Grécia e em Espanha ainda mais lamentavelmente do que noutros países. Mas, enquanto noutros países da União Europeia os partidos de governo parecem resignar-se ao crescimento da extrema-direita, e até contar que ela assegurará a sua manutenção no poder por permitir uma união contra a mesma, o Syriza e o Podemos abriram uma outra perspectiva. Na Europa, ninguém à esquerda cresceu tão depressa como eles. Inexistentes, ou quase, no início da crise financeira há cinco anos, conseguiram desde então realizar dois feitos. Por um lado, surgiram como candidatos credíveis ao exercício do poder. Por outro, talvez estejam prestes a relegar os partidos socialistas dos seus países, co-responsáveis pela catástrofe generalizada, para o papel de forças secundárias.» 
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9.2.15

Lido por aí (231)

Alexis e Yanis



Nicolau Santos, na Expresso Economia de 07.02.2015. 
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Ide e lede


Paul Krugman, The Tie That Doesn’t Bind.

«A genuine government of the left, as opposed to the center-left, is very different — not because its policy ideas are wild and crazy, which they aren’t, but because its officials are never going to be held in high esteem by the Davos set. Alexis Tsipras is not going to be on bank boards of directors, president of the BIS, or, probably, an EU commissioner. Varoufakis doesn’t even like wearing ties — which, consciously or not, is a way of declaring visually that he is not going to play the usual game. The new Greek leaders will succeed or fail, personally, based on what happens to Greece; there will be no consolation prizes for failing conventionally.

Do Berlin and Brussels understand this? If not, they are operating under a dangerous misconception.»
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O euro, a Alemanha e o resto



«Num dos mais memoráveis diálogos do filme "Casablanca", o capitão Renaud pergunta a Rick: "Porque é que veio para Casablanca?" Diz Rick: "Vim para Casablanca por causa das águas." Renaud: "Quais águas? Estamos no meio do deserto." Rick: "Informaram-me mal."

É tudo uma questão de má informação, de ilusão ou mesmo de alucinação que assistimos hoje na Europa. Quando se tornou o euro um deus a quem se sacrifica tudo e todos, o resultado trágico era previsível. Não há água para nadar e descobrir outras paragens. Há deserto para todos perecerem de sede. (...)

O euro tornou-se um garrote: vai asfixiando devagar as suas vítimas, em nome do combate à dívida e à estabilidade da moeda. A única libertação para quem está já sem pinga de oxigénio é a expulsão do euro. Que é o que Draghi e os seus compadres estão a fazer à Grécia, mesmo com paliativos temporais. Nada se resolverá, nem mesmo com as ameaças das vitórias do Podemos em Espanha ou da extrema-direita no Norte da Europa ou em França, enquanto a Alemanha não se sentir ameaçada nos seus interesses.

É óbvio que é necessário um pacto geral na Zona Euro sobre as dívidas públicas. Se ele não se fizer, o aquecimento global político acabará por tornar a Europa do Iluminismo num imenso deserto. Diferente da terra das águas livres que teriam prometido a Rick antes de ir para Casablanca.»

Fernando Sobral
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8.2.15

Lido por aí (230)

Grécia, Portugal - A Luta É Internacional



«As eleições gregas vieram agitar as águas paradas do pântano europeu. A vitória do SYRIZA, que se propõe romper com as políticas da Troika, desafia a ideia dominante de que não existe alternativa ao empobrecimento generalizado e à austeridade infinita.

Os últimos dias revelaram a hostilidade de instituições e governos europeus relativamente à própria possibilidade de uma política que devolva um mínimo de esperança e dignidade a milhões de pessoas sem emprego e sem direitos, obrigadas a viver na rua ou às escuras, sujeitas à fome e privadas de cuidados médicos. Parece evidente que estão em jogo questões decisivas que ultrapassam o quadro nacional da Grécia.

O Governo português já se mostrou indisponível para qualquer esforço conjunto para reduzir o peso da dívida à escala europeia e encontrar soluções que permitam responder à catástrofe social em que vivemos. Orgulha-se mesmo de ter aplicado com sucesso medidas que empobreceram muitos e enriqueceram poucos, enquanto a dívida pública aumentou, o défice derrapou e o desemprego atingiu dimensões inéditas. Quando garante que Portugal não é a Grécia, espera que aceitemos com resignação o atual estado de coisas, como se fosse possível ignorar que acaba de se recusar na Grécia o que nos querem fazer engolir em Portugal.

Neste momento decisivo em que a resistência ganha novo alento, por toda a Europa se convocam manifestações em solidariedade com o povo grego e de repúdio pela arrogância e hostilidade reveladas pelas instituições europeias. É tempo de sair à rua e enviar um sinal claro de que estamos todos no mesmo barco e não aceitamos a miséria que nos querem impor. Porque a nossa luta é internacional, aqui e agora, somos todos gregos.»

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11 de Fevereiro de 2015
Vígilia em solidariedade com o povo grego e em repúdio pela arrogância e a hostilidade reveladas pelas instituições europeias

«Neste dia, realiza-se uma importante reunião do Eurogrupo, que irá definir a posição da zona euro em relação à renegociação da dívida grega.

Os últimos dias revelaram a hostilidade de instituições e governos europeus relativamente à própria possibilidade de uma política que devolva um mínimo de esperança e dignidade a milhões de pessoas sem emprego e sem direitos, obrigadas a viver na rua ou às escuras, sujeitas à fome e privadas de cuidados médicos.

Estão em jogo questões decisivas que ultrapassam o quadro nacional da Grécia.

É tempo de sair à rua e enviar um sinal claro de que estamos todos no mesmo barco e não aceitamos a miséria que nos querem impor. Porque a nossa luta é internacional, aqui e agora, somos todos gregos.»

Lisboa, 18:00
Representação da Comissão Europeia em Portugal
Largo Jean Monnet, 1 - 10º, 1269-068 Lisbon
Evento Facebook

Porto 18:00
Praça Carlos Alberto, 4050 Porto
Evento Facebook

Sesta



Algures na Birmânia, enquanto a mãe trabalha numa fábrica de tijolos.
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Syriza, sonhos e pesadelos



José Pacheco Pereira, no Público de ontem, 07.02.2015:

«Uma das coisas que a vitória do Syriza e o conjunto de eventos posteriores têm mostrado é a sua importância para todo o espectro político da Europa. Neste sentido, os gregos podem falhar em tudo, que nada será de novo igual nem na Grécia, nem na Europa.

Quando um acontecimento gera tão intensos sonhos e pesadelos, estamos perante a história. Pode ser uma nota de pé de página, um parágrafo de meia dúzia de linhas, mas ficará na história da Europa. Embora não esteja certo, admito que possa vir a ser o mais importante momento europeu depois da unificação alemã. (...)

Os adversários do Syriza, que são os “ajustadores inevitáveis”, sabem que se deu um ponto sem retorno. Nós sabemos disso e eles sabem que nós sabemos que eles também sabem. Mas um ponto sem retorno não significa que o caminho seja unívoco, apenas que as coisas já não voltam para trás. Mesmo que, no fim de tudo isto, o Syriza seja varrido da governação, os gregos remetidos para uma maior pobreza, e os alemães e os seus aliados e colaboracionistas tenham conseguido domar a “revolta” grega, a paz podre destes últimos anos não mais voltará. (...)

Eu também tenho um desejo simples e modesto, com muito poucas ilusões. Desejo que as coisas corram bem para os gregos, que eles comecem a sair do buraco infernal em que foram colocados, e que possam, pelo seu acto corajoso de votar contra o statu quo, mostrar que a ditadura da “inevitabilidade” é um deserto mental perigoso, útil para se subordinar Portugal aos poderes europeus e alemães, fragilizar a democracia e empobrecer os portugueses. É por isso que a milhas do Syriza se pode saudar a mudança que o Syriza trouxe a um mundo estagnado e pantanoso, maldoso e desigual. Não preciso de explicar mais nada, pois não?» 
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