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23.5.15

Quebra-cabeças



Diz-se que foi resolvido por crianças de 8 anos, mas... orientais. Não acredito que o Crato sonhe que o mesmo possa acontecer por cá. Mas tem graça e nem é difícil. Boa sorte! 

O enunciado está AQUI
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Dica (57)




«Syriza is more than twice as big as any other party. It would get 36.5% of the vote, to a dwindling 15.5% for Nia Demokratia.» 
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Governabilidade e democracia




Manuel Loff, no Público de hoje:

«Por cá, como o sistema eleitoral é – até ver! – proporcional, os lamentos pelos riscos da “ingovernabilidade” já começaram há muito tempo. É verdade que os resultados são sempre distorcidos pelo método de Hondt (quanto menos deputados por distrito, mais os dois maiores partidos são favorecidos por serem os únicos a conseguirem eleger), mas até Rui Ramos tem razão quando diz que “o nosso sistema eleitoral, ao contrário do inglês, não faz maiorias absolutas a partir de um terço dos votos. (...) Pois bem, imaginemos: se a direita tiver um terço dos votos, deve, por acaso, governar? É legítimo governar-se contra a vontade da maioria sem se dar prioridade à vontade da maioria? Mesmo que o PS não queira ponderar negociar com os 20% de votos à sua esquerda, deve Passos voltar a governar? Hoje, governa com os votos (de há quatro anos) de 50,4% dos votantes, que, já então, não eram mais do que 29% dos eleitores inscritos. Quer esperar governar com o apoio de quantos: 20%? Só porque ficaria à frente do segundo partido? E os votos dos outros, lixo? Mas, afinal, o que são as eleições? A liga de futebol? A Eurovisão? Winner takes all?...

Quanto mais o bipartidarismo entrar em crise, quanto mais os socialistas de turno se parecerem às direitas, mais eles vão querer obrigar os cidadãos a escolher entre cinzento-escuro e cinzento-claro, entre um sr. Juncker, à direita, que diz que há que privatizar e um sr. Dijsselbloem, socialista, que diz que privatizar é o que há que fazer, entre uma CDU de Merkel e um SPD que, depois de garantirem em campanha que são alternativa um ao outro, acabam a governar juntos. Quanto mais assim for, mais gente desistirá de votar e mais se nos vai querer impor a discussão patética sobre sistemas eleitorais que, em vez de garantir a representatividade democrática, devem garantir a “estabilidade governativa”. E suceder-se-ão as propostas alucinadas de engenharia eleitoral. Quanto mais os maiores partidos forem obrigados a considerar as opiniões de quem, mesmo não ganhando eleições, representa uma parte importante da sociedade, mais eles vão dizer que as coligações não funcionam, que há que blindar as vitórias com “prémios de maioria” (à grega ou à italiana), barreiras de entrada no Parlamento contra os pequenos partidos (à alemã) ou métodos maioritários que reduzem a pó a representação das minorias e inflacionam artificialmente a representação dos grandes(-cada-vez-mais-pequenos) partidos. Um sistema que convida cada cidadão a votar – mas, depois, a ter de tolerar governos apoiados por minorias cada vez mais pequenas com maiorias parlamentares absurdamente fora da realidade.

É representativo um sistema desta natureza? E é democrático?» 
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22.5.15

Era assim




Como estará?
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Dica (56)




«A proposta dos círculos uninominais tem uma contradição, um perigo e uma certeza. 

A contradição: o programa propõe a imposição de uma quota de um terço de mulheres nos cargos de direcção das empresas cotadas em Bolsa (pg.122), mas dispõe-se a abdicar da quota de representação das mulheres no parlamento, uma lei que tem sido um sucesso. De facto, ao instituir os círculos uninominais (um candidato por partido por cada círculo, pg. 4), o PS impede que haja instrumento para determinar uma representação de candidatura paritária, total ou aproximadamente, entre homens e mulheres. Os partidos vão escolher o candidato que quiserem e está fora de causa que, se o PS de Vila Franca de Xira escolher um homem para candidato, se imponha ao PS de Alhandra que tenha que propor uma mulher. Nem a lei pode impor que, se houver um círculo de compensação, as mulheres tenham que encabeçar essa lista.» 
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Memória histórica


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Lixaram-nos as férias



«António Costa tinha prometido um projecto de programa eleitoral para o início de Junho, mas eis que ele aparece duas semanas mais cedo. (...) Fiquei desgostoso porque ia ser a minha leitura na praia - então como é que está a TSU, hoje? - Hoje de manhã estava boa, mas começou a descer durante a tarde. - Aqui, no programa do PS, diz que afinal não vai descer muito. Mas o FMI diz que vai subir. - Vai descer. Estou com dores no joelho a que fui operado. Ou vem lá chuva ou é a TSU das empresas que vai descer. (...)

Este Verão já deu para ver ao que estamos destinados. Só vai haver um tema - eleições! (...) Provavelmente, vão passar aviões com aquelas fitas com mensagens. Olhamos para o céu e passa a cara do Portas. Vamos ao mar e temos de pisar uma alforreca para evitar um saco plástico do PS. Adormecemos à sombra, depois de uma sangria, ao som das ondas e das frases de campanha - "o PSD criou o IRS amigo das famílias" - e ficamos naquele torpor entre a realidade e o sonho, que é assinalado por um bocadinho de baba, e vemos o IRS a fazer castelos de areia com os miúdos, a preparar-lhes as sandes e a dizer baixinho - schiiiiiiiu, que o pai adormeceu. Um IRS tão amigo da família que, em vez de tirar o sono, não quer que ninguém incomode o descanso do pai. Estamos quase a fechar a pestana quando somos acordados pelo IVA inimigo dos restaurantes que nos vem lembrar que não pagámos a sangria.

Aníbal Cavaco Silva é das pessoas mais torcidas que já conheci, não se podia ir embora sem nos estragar o Verão. Férias em campanha eleitoral, não são férias. Para isso, vou para Albufeira.»

João Quadros
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21.5.15

Não deixemos que a Europa escreva a sua tragédia grega


grecia111

O grupo «Les Économistes Atterrés» divulgou recentemente um longo texto de Philippe Légé, que merece ser lido na íntegra: «Ne laissons pas l’Europe écrire sa tragédie grecque».

O autor faz um resumo do historial das finanças públicas gregas desde os anos 80, sublinha a inépcia das políticas de austeridade dos últimos anos, analisa as características e efeitos da reestruturação da dívida e termina com o que considera poder significar, neste momento, «Ajudar a Grécia».

Destaco e traduzo o capítulo final:

Ajudar a Grécia

Temos de nos render à evidência: os credores privados sofreram perdas com a reestruturação de 2012. Mas esta chegou demasiado tarde e permitiu por isso que muitos tivessem podido reduzir a exposição a que estariam sujeitos, transferindo uma parte dos riscos para instituições públicas. Os bancos podem agradecer aos principais responsáveis dessa transferência, a começar pelo presidente do BCE, Jean-Claude Trichet, e pelo presidente francês Nicolas Sarkozy, que atrasaram a inevitável reestruturação. Enquanto os bancos credores se livravam assim a tempo, revendendo os seus títulos ao sector público, a austeridade orçamental e salarial deslocava a economia grega. A política imposta pela troika gerou uma tal catástrofe humanitária, e provocou também uma tal queda da actividade, que o considerável prolongamento da maturidade da dívida pública e a importante redução das taxas de juro se revelaram insuficientes.

A esmagadora maioria do povo grego não tem qualquer responsabilidade na situação das finanças públicas do país. Esta deriva de práticas desenvolvidas por uma aliança entre empresas multinacionais e uma classe dominante local que «é mais competente para captar a riqueza produzida, directamente ou por intermédio do Estado, do que para investir e inovar» [1]. Por outro lado, os empréstimos permitidos à Grécia engrossaram as encomendas feitas a empresas europeias. As autoridades europeias deixaram que estas práticas se desenvolvessem durante anos e devem aceitar hoje as propostas razoáveis do governo de Tsipras para lhes pôr fim através da reforma fiscal. Para que esta política possa ter sucesso, a dívida grega tem de ser reestruturada. Será preciso recordar que até a capacidade da Grécia para pagar ao FMI 879 milhões de euros em Maio de 2015 é incerta, quanto mais a exigida para os cerca de 6,7 mil milhões de euros de títulos públicos gregos detidos pelo BCE, que atingem o prazo em Julho e em Agosto de 2015? O Eurogrupo finge não compreender e joga a política do pior cenário, respondendo com uma recusa absoluta aos pedidos de Alexis Tsipras, ao mesmo tempo que o BCE exerce uma chantagem antidemocrática [2]. Neste contexto, é assombroso ouvir Michel Sapin, ministro francês das Finanças, afirmar que o governo francês é «um traço de união, um facilitador» e que a «reorientação da Europa já teve lugar» [3]. A tragédia continua. Quantos actos serão ainda necessários para fazer cair as astúcias das instituições europeias e dos interesses que prosseguem? Os dirigentes da União Europeia pensam verdadeiramente que uma saída da Grécia da zona euro, e portanto um incumprimento global da sua dívida, é uma solução desejável?

Esta mistura de inflexibilidade e de recusa dos dirigentes europeus é inquietante mas não é o único problema. Na Grécia, a austeridade orçamental e salarial reduziu a procura, inclusive de bens importados. Mas se a actividade voltar a arrancar, o país não terá indústrias que permitam substituir por produções nacionais os artigos de consumo importados, finais e intermédios, e há hoje poucos sectores com capacidade de exportação. A crise também reduziu o aparelho produtivo por causa de falências em série. Os serviços representam 71% do PNB grego, mas o desenvolvimento do turismo e do transporte marítimo não é ilimitado.

Reconstruir uma economia exige investimentos. A questão vai-se pôr, com ou sem euro, mas de formas diferentes. Se o governo grego mantiver o euro e conseguir acabar com a austeridade orçamental e salarial, a Grécia verá o seu deficit corrente aumentar de novo porque a organização da zona euro não foi modificada. Fora do euro, a desvalorização da nova moeda fará subir drasticamente os preços das importações sem que, no curto prazo, a produção nacional possa substituí-las. Além disso, será limitada um pouco (por causa dos consumos intermédios) a redução de preço das exportações.

Portanto, seja qual for o cenário, a economia grega precisa de investimentos produtivos – já. A reforma fiscal é necessária, mas não será suficiente para libertar os recursos necessários. Devia ser o banco europeu de investimentos a completar esse esforço. Por outro lado, «a experiência grega não faz mais do que ilustrar o mau funcionamento estrutural da governação económica da Europa e os desafios com que estão confrontados os estados membros» [4]. A não ser que queiram anular periodicamente a dívida pública dos países periféricos, o que não seria viável durante muito tempo, o que os países do Norte da Europa devem fazer é aumentar os salários e as despesas públicas. Não há muito tempo a perder. Ajudar o povo grego é, para os povos da Europa, ajudarem-se a si mesmos.»

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[1] Michel Husson, «Grèce: une économie dépendante et rentière», A l’encontre, 12 de Março de 2015.
[2] Benjamin Coriat et Philippe Légé, «Oui, la Grèce doit pouvoir rester dans la zone euro», Libération, 26 de Janeiro de 2015. Jean-Marie Harribey et Esther Jeffers, «La BCE contre le peuple grec», Nota de «Les Economistes Atterrés», Fevereiro de 2015.
[3] Audição de Michel Sapin na Comissão de Finanças da Assembleia Nacional, 18 de Março de 2015.
[4] Catherine Mathieu et Henri Sterdyniak, «La dette grecque, une histoire européenne», blog OFCE, 6 de Fevereiro de 2015.

[Publicado originalmente no Observatório da Grécia
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Arguido, precisa-se



Ricardo Araújo Pereira, na Visão de hoje:

«Marco António Costa, vice-presidente do PSD, está a ser investigado pelo Departamento de Investigação e Acção Penal do Porto. Espero, sinceramente, que seja inocente. Depois do encarceramento de um Sócrates, não sei se Portugal aguentaria a prisão de um Marco António. Uma coisa é sermos um país de gente corrupta, outra coisa é sermos uma revista à portuguesa passada na antiguidade clássica. »

Na íntegra AQUI.
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Alguma dúvida?


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Foi de barco que a Europa chegou a Creta e se tornou humana



Um grande texto de Pedro Góis no Público de hoje:

«A relação da União Europeia com o Mediterrâneo (e através dele com o mundo) está em crise. Na verdade estamos perante uma guerra civil intercontinental. Uma guerra civil de baixa intensidade. Não querendo ver este grande mar como um lago interior que une duas margens mas, ao invés, como um muro que separa dois mundos, a UE cria uma fronteira que separa em vez de unir. (...) A guerra civil é, como sempre, entre irmãos. É sempre trágica porque nela nos matamos uns aos outros ao tentar não morrer. A guerra civil é trágica porque matamos com medo de morrer. O gatilho é sempre o medo.

A ironia vem de não percebermos que a Europa é, ela própria, o resultado de uma migração. (...)

Em sucessivos momentos, a União Europeia tem tido medo da liberdade. Quando desafiada a aceitar a liberdade de circulação interna adiou, protelou, estabeleceu períodos de transição. Foi assim com a adesão de Portugal e de Espanha, depois com a adesão de vários países do leste da Europa. É assim com a Turquia. Mas, quando perdeu o medo da liberdade, a circulação das pessoas não provocou invasões de uns povos pelos outros. Ao contrário, criou uma sensação de liberdade em todos os que descobriram que as fronteiras não existem. Criou o Erasmus e os amores Erasmus e os filhos desses amores europeus ou as lowcost que reinventaram o turismo. (...)

Num momento em que as migrações são um desafio político, a provocação é o de pensar mais longe, muito mais longe. Não bastam quotas minimalistas e segurança maximalista. A estratégia europeia para as migrações tem que ser a de, num prazo realista, criar condições para a desinvenção do passaporte. Para fazer um trabalho de longo prazo que permita a liberdade de circulação de tod@s. Sei que não é para amanhã mas creio que um dia será. Se foi possível libertar os capitais e depois os produtos e serviços dos estreitos territórios onde se moviam, também será possível promover a liberdade de circulação global. Não tenhamos medo que não virão hordas de bárbaros invadir o nosso jardim.

Sem utopias não há esperança e sem esperança não há futuro. Pela liberdade global de circulação de pessoas é um grito do (e com) futuro. No fundo pela abolição da obrigatoriedade de viver onde não se quer e do direito universal de sonhar por “greener pastures”. Pela liberdade de ir.» 
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Serás pobre


O texto de Sandra Monteiro em Le Monde Diplomatique (ed. portuguesa) de Maio de 2015:

«Trabalhes ou estejas desempregado, serás pobre. É esta a mensagem subjacente às transformações que estão a ser feitas, em simultâneo, no mundo do trabalho e na protecção social no desemprego. É esta a sociedade de pobreza, com mais pobres e maior intensidade de pobreza, que está a ser construída de forma estrutural, porque o que se passa ao nível das remunerações salariais e da protecção social tem efeitos sobre todo o edifício económico, social e político. Uma sociedade que era já das mais desiguais antes da crise está a tornar-se mais desigual ainda.

Portugal caracteriza-se há muito por níveis salariais extremamente baixos quando comparados com a média europeia. Mas a «desvalorização interna» dos últimos anos mostra que termos salários que são pouco mais de metade da média dos salários na União Europeia (56,4%) não é ainda suficiente nesta corrida para o abismo do trabalho (quase) escravo. Nos últimos anos, além dos cortes salariais no sector público (26%) e no sector privado (13%), registou-se uma acentuada quebra dos salários nos novos contratos e nos contratos a termo (e mais no trabalho feminino do que no masculino). Assim, entre 2012 e 2013, «verificou-se uma travagem a fundo e os salários recuaram 1,9%, correspondendo agora a uma média de 808 euros mensais líquidos»; e os trabalhadores que sofreram um corte maior, de 6% no último trimestre de 2013, foram os diplomados do ensino superior, apesar de continuarem a ter, em média, salários mais elevados.» 

Continuar a ler AQUI.
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20.5.15

Dica (55)



Escrever sobre a Grécia não é fácil... 

«Sabendo nós que a hostilidade da elite do poder europeu tem feito mossa nas convicções europeístas de uma maioria da direcção do Syriza que esperava ter mais margem de manobra, tornam-se salientes duas questões que reverberam para lá da Grécia: qual será a prazo, curto e médio, o efeito disto e haverá condições para alterar a linha? É que os termos há muito que estão claros: ruptura ou rendição.» 
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Sobre a «violência no futebol»

Costa Gravas: «a democracia é que é radical»



Quem viu «Z», sobretudo antes do 25 de Abril, nunca esquecerá este magnífico filme realizado por Costa Gravas após o golpe dos coronéis na Grécia. Uma versão restaurada foi agora exibida no Festival de Cannes, pretexto para uma homenagem ao autor, aplaudido de pé pela assistência.

Costa Gravas não esqueceu o actual momento vivido no seu país: « Há quem diga que temos um governo de radicais. Isso não é verdade. O governo grego não é radical. O que é radical na Europa moderna é a própria democracia».

Entrevista desta semana, pelo canal Arte:


(Fonte: infoGrécia – sem dúvida, o melhor site em português com notícias sobre a Grécia.)
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19.5.15

Novas oportunidades para sair da sua zona de conforto




«A oferta de emprego, divulgada no site do Ministério do Serviço Público, indica que a função será “executar os condenados à morte” e não exige qualquer qualificação particular ou experiência.»
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Galeano e o futebol



«Como todos os uruguaios, eu também quis ser jogador de futebol. Jogava muito bem, era uma maravilha, mas só de noite, enquanto dormia: de dia era o pior perna de pau que já passou pelos campos do meu país. Como adepto, também deixava muito a desejar.(...)

Os anos passaram e, com o tempo, acabei por assumir a minha identidade: não passo de um mendigo de bom futebol. Ando pelo mundo de chapéu na mão e nos estádios suplico:

– Uma linda jogada, pelo amor de Deus!

E quando acontece o bom futebol, agradeço o milagre – sem me importar com o clube ou o país que o oferece.»

Eduardo Galeano, Futebol, Sol e Sombra.
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Dica (54)



Apelo do Syriza à solidariedade dos povos europeus.

«Estamos num momento decisivo e é necessária vontade política dos nossos parceiros europeus para ultrapassar este impasse. Este apelo não é só um apelo à solidariedade, é um apelo para o respeito que é devido aos principais valores europeus.

Neste quadro, o Syriza apela a todas as forças sociais e políticas progressistas e democráticas que têm consciência de que a luta da Grécia não se limita às suas fronteiras, mas constitui uma luta pela democracia e justiça social na Europa.» 
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A mini-feijoada



«O país já não tem dinheiro para mega-feijoadas para comemorar qualquer coisa. Por isso, nestes tempos de austeridade, os líderes políticos contentam-se com mini-feijoadas. Foi esse o cenário do jantar comemorativo de um ano "sem troika" e de assinatura da coligação entre PSD e CDS. (...) Não conseguiram abrir uma garrafa de espumante para celebrar a saída do "lixo" carimbado pelas agências de "rating" na testa do País, porque quatro anos depois continuamos no latão da reciclagem.

Mas enfim, não se pode ter tudo, mesmo com políticos transformados em mágicos. Compreende-se o clima de festa dos partidos da coligação: nada está perdido. E a derrota não é certa. Assim é possível fazer um fogo-de-artifício à volta de canas virtuais. Repare-se num dos "sucessos" do Governo. Apesar de acreditar que controlou a dívida pública, ela era pouco mais de 93% do PIB em 2010 e agora está perto dos 129%. Nada mau como medalha de boa acção do Governo. O desemprego é o que se sabe. Centenas de milhares de portugueses emigraram e deixaram de assombrar as contas e o Governo ainda exulta com a "descida gradual" dos sem-emprego, após ter conseguido taxas recorde neste sector. Como vitória deve ser apenas moral. (...)

Cada político empanturra-se com o prato de que mais gosta. Mas transformar uns feijões mal cozidos numa feijoada pode causar uma indigestão.»

Fernando Sobral

18.5.15

Foi isto que eles estiveram a festejar em Guimarães?

Alexandre O'Neill e o futebol



«O que perde o futebol não é o jogo propriamente dito, mas todo o barulho que se faz à volta dele. É impossível a gente alhear-se do futebol, falado, comentado, transmitido, relatado, visto, ouvido, apostado, gritado, uivado, ladrado, festejado, bebido. O futebol passa deste modo a ser uma chateação permanente. É que não há tasca, pastelaria, salão de jogos, barbearia, recanto de jardim público, quiosque, bomba de gasolina, restaurante, Assembleia da República, supermercado, hipermercado, livraria, loja, montra, escritório, colégio, oficina, fábrica, habitação, diria até, onde, de algum modo, não se ouça falar do jogo que decorre, decorreu ou decorrerá. Quando há transmissão via TV ou Rádio, então a infernização é total. (...)

É grave? Não é grave? Sei lá. Verifico, apenas, que é assim por toda a parte. E isso massacra, desgosta, faz perder a razoabilidade, a isenção, o bom senso, a simples tineta.»

Alexandre O’Neill, Já cá não está quem falou.
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Dica (53)




«The child was alone in the apartment the mother was absent. The single mother had recently found a job in a factory and she was leaving her daughter alone to earn a living for both of them. (...)

With an express decision issued by the local prosecutor, the 32-year-old mother lost the custody over her daughter for “having neglected a minor”.»
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Quem ganhou com as privatizações?




Fundamental ouvir para recordar a história dos factos e interpretar a realidade actual. 
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País partido ao meio



«A lei da inércia vai sustentando o Governo, ao estilo do personagem dos desenhos animados, o célebre Coyote, que conseguia não cair no precipício, como se flutuasse no ar. Mas por fim precipitava-se no abismo quando olhava para baixo.

Lição política: o melhor é não olhar para o que se fez. É isso que o Governo faz: mira os dados do PIB, esquece os da dívida, olha para os das exportações e oblitera os do desemprego. Com a greve da TAP, o Governo faz o pino e aproveita a desastrosa aventura dos pilotos para privatizar a todo o vapor, como se não existisse amanhã. Nem tempo.

A questão é que, como insinuam as sondagens, os portugueses não encontram no PS uma voz de confiança. (...) O País vai ficar dividido ao meio, sem uma maioria clara, e em busca de acordos de regime ao estilo da sopa de pedra: atira-se tudo lá para dentro, mexe-se, e depois logo se vê o sabor. (...)

Mas talvez os discursos políticos não sejam tão diferentes. São flores do mesmo jardim plantado pelo Tratado Orçamental, pelo euro e pelo BCE. E, por isso mesmo, o embate esperado tornou-se num empate sonâmbulo.

Mais do que uma qualquer impossibilidade de alianças após as eleições, e o caos decorrente das presidenciais logo a seguir, o que transpira destas sondagens é que o País parece uma jangada imóvel. À espera de uma brisa que não aparece.» 

Fernando Sobral