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30.5.15

Aqui ao lado, anda-se nervoso

Num 30 de Maio, o fim de muitos sonhos



Foi exactamente há 47 anos que o general de Gaulle pôs fim a um mês verdadeiramente alucinante que a França viveu em 1968. Numa alocução difundida pela rádio, que viria a ficar célebre, dissolveu a Assembleia Nacional e anunciou a realização de eleições antecipadas: contra o perigo do «comunismo totalitário», «La Réplubique n'abdiquera pas!»



Nessa mesma noite, uma gigantesca manifestação de apoio (500.000 pessoas?) invadiu os Campos Elíseos e marcou o desejo de «regresso à ordem», que os resultados das eleições que tiveram lugar em 23 e 30 de Junho confirmaram com uma vitória esmagadora da direita.


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Dica (62)





«Hay que ser conscientes de que el enorme colapso del PP es ahora consecuencia de su enorme crecimiento en las elecciones anteriores, en el año 2011, resultado, no del atractivo del PP, sino del rechazo del electorado al gobierno del PSOE presidido por el Sr. Zapatero que, precisamente, inició tales políticas. En aquella elección anterior, el PP barrió como resultado de la imposición de las políticas neoliberales por parte del gobierno Zapatero y la enorme impopularidad de tales políticas neoliberales. Fue precisamente este colapso del PSOE lo que generó también el cuestionamiento del bipartidismo y el surgimiento del movimiento 15-M, y más recientemente, del partido político Podemos. El colapso del PP es también ahora lo que ha generado la aparición de Ciudadanos. En ambos casos, el surgimiento de estos nuevos partidos es consecuencia del descenso del bipartidismo, resultado de la puesta en marcha de las políticas neoliberales por parte de los dos partidos mayoritarios.» 
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Pura má-criação – diria eu



(Clicar na foto para ler a legenda)

Expresso de 30.05.2015

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Esquecimento e memória selectiva



José Pacheco Pereira, no Público de hoje:

«Que papel tem o esquecimento na actual campanha eleitoral?

O esquecimento e a memória selectiva, que é outra forma de manipular a memória, são duas armas centrais no discurso político das eleições de 2015, quer para a coligação PSD-CDS quer para o PS.

O PS estará sempre sob a sombra da prisão e das acusações a José Sócrates. É uma sombra que não vai diminuir mas aumentar, até porque as peripécias do processo vão ganhar novas características, logo maior atenção mediática. E Sócrates precisa de “usar” a seu modo a campanha eleitoral para obter leverage na opinião pública e no PS.

Embora o processo que levou à bancarrota tenha causas próximas e dele não estejam distantes o PSD e o CDS, e essas causas próximas sejam muito importantes para explicar o que aconteceu — até porque a bancarrota não estava “inscrita nas estrelas” —, a coligação vai usar o trauma da memória da véspera do dia “em que não havia dinheiro para pagar salários e pensões”, para demonizar não só a governação Sócrates mas o “socialismo”. Este “socialismo” inclui os governos de Cavaco Silva, mesmo que não o nomeie.

Este vai ser o aspecto mais ideológico da campanha, o seu conteúdo crítico do “Estado social”, aliás de qualquer papel do Estado, com excepção do Estado fiscal e repressivo e o abandono de qualquer perspectiva social-democrata por parte do partido que usa esse nome. Como o artista “antigamente conhecido como Prince”, durante algum tempo, um nome impronunciável, também o “social-democrata” do nome do PSD permanecerá impronunciável. No entanto, durante a campanha eleitoral o artistavai-nos de novo dizer que este nome se pronuncia “social-democrata”, para desgosto dos puristas neoliberais que sempre acharam que o PSD não é confiável, embora confiem, e muito, em Passos.»
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Boire un petit coup c'est agréable




É isto o que temos, estamos bem entregues.
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29.5.15

E andamos nós governados por esta gente


..(...)

Nicolau Santos, no Expresso diário de 29.05.2015. 
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Parece que a coligação PSD/CDS anda à procura de candidatos «independentes»




A notícia é de Fevereiro, mas não me parece que tenha perdido actualidade apesar de algumas piruetas que o PS deu entretanto. 
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Tudo isto é absolutamente sinistro!




«Um porta-voz do Fundo Monetário Internacional diz que são falsas as declarações atribuídas ontem pelos media de todo o mundo à líder do FMI. (...)

“Ninguém na Europa deseja o Grexit”, afirmou Christine Lagarde ao Frankfurter Allgemeine Zeitung. Mas o diário optou por transformar esta frase num título mais alarmista: “Lagarde admite possibilidade de Grexit”. O próprio jornal, provavelmente após queixa da entrevistada, alterou mais tarde o título na edição online para “Lagarde não descarta Grexit”. (...)

Mas o efeito da notícia já tinha sido conseguido. E assemelha-se a algo que os gregos já assistiram nas vésperas das eleições de 2012, com tentativas de aterrorizar a população grega com a perspetiva da saída do euro que alimentam a corrida aos depósitos bancários e fragilizam o sistema financeiro no momento em que as negociações de Bruxelas entraram na recta final.»
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Economistas versus Políticos



«Depois de o PS ter ido pedir ajuda a um grupo de 12 economistas, para que executassem um plano pré-programa eleitoral, eis que o PSD recusa ir pelo mesmo caminho e junta uma equipa de 20 economistas, em que três deles pedem anonimato (e não se sabe a identidade de outros cinco) para elaborarem um plano pré-programa eleitoral. A democracia é isto. A possibilidade de os partidos poderem escolher caminhos distintos.(...)

Já lá vai o tempo em que os programas de governo partiam de ideias de políticos. Agora já não é bem assim. Um partido que quer ser do arco da governação, e respeitado lá fora, não faz política sem primeiro contratar economistas para definirem que política deve fazer. Ou seja, os economistas fazem o projecto da casa e escolhem a mobília. Cabe à política o papel de decidir em que posição vamos pôr o sofá. Já lá vão, quase, quatro dezenas de anos, desde a célebre rodagem até à Figueira da Foz e ainda continuamos com esta obsessão em procurar um rumo, pondo um economista ao leme. Isto já é mais parvo do que o Sebastianismo.

Se, por um lado, este modelo baseado em moldes políticos definidos por técnicos de contas asfixia, de algum modo, a política, o que me parece negativo, por outro, o facto de podermos ter, pelo menos, 11 economistas para cada lado, permite que, em caso de empate - ou seja, caso as propostas sejam muito parecidas -, seja possível tirar as dúvidas através de um jogo de futebol no Estádio Nacional. Recomendava uma equipa de arbitragem da UTAO.»

João Quadros

28.5.15

Ide e lede

Linguagem corporal?



Ricardo Araújo Pereira, na Visão de hoje: 

«Três quartos da primeira página [do Público] de domingo eram dedicados a um trabalho sobre linguagem corporal. O título era: "Um especialista em linguagem corporal analisou os depoimentos na comissão parlamentar do inquérito do caso BES e chegou a conclusões surpreendentes. As conclusões surpreendentes são, em resumo, estas: todos, ou quase todos os inquiridos mentiram à comissão ou, pelo menos, não disseram tudo o que sabiam. Peço ao leitor que contenha a surpresa. Imagino os espasmos violentos que experimenta nesta altura.» 

Na íntegra AQUI.
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Dica (61)



Bi-partidarismo: “A escrita na parede”? 

«Na actual situação, os partidos tradicionais do designado “arco da governação” dos países afectados pela política austeritária de resposta à crise, imposta pelas instituições de governo da União Europeia, estão a aceitar soluções similares às dos seus malogrados antecessores. Sentem dificuldades em contrariar a marcha dos acontecimentos e em defender o interesse dos povos que representam face a políticas europeias que se têm revelado profundamente destrutivas. Parece ser mais fácil “não fazer ondas” e viver, como franja protegida, no meio da tempestade. A elite que governa os principais partidos identifica-se mais com os colegas da Europa do que com o seu próprio povo? Ou, pior, acredita na eficácia das políticas impostas pelos países credores? » 
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28 de Maio – uma data que ainda nos «prende»



Recordo-a quase todos os anos, não só para preservar a memória, mas porque deixou marcas que ainda hoje sofremos na pele – conscientemente ou nem por isso.

Em 1926, um dia terrível e decisivo na nossa História marcou o fim da 1ª República e esteve na origem do Estado Novo. Todos os anos havia comemorações, mas duas ficaram na memória.

Foi num outro 28 de Maio, mais concretamente em 1936, no 10º aniversário da «Revolução Nacional», que Salazar proferiu um discurso que viria a ficar tristemente célebre: «Não discutimos a pátria...»



Ainda num outro aniversário – no 40º, em 1966 – o chefe do governo, então com 77 anos, viajou pela primeira vez de avião até ao Porto (entre os outros passageiros, acompanhado pela governanta) para assistir às celebrações que tiveram lugar em Braga.



Não se ouve, neste vídeo, uma frase do discurso que deixou o país suspenso: «Eis um belo momento para pôr ponto nos trinta e oito anos que levo feitos de amargura no Governo». Mas Salazar continuou: «Só não me permito a mim próprio nem o gesto nem o propósito, porque, no estado de desvairo em que se encontra o mundo, tal acto seria tido como seguro sinal de alteração da política seguida em defesa da integridade da pátria».

E ficou – até que uma cadeira cumpriu a sua missão histórica. 
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27.5.15

Genéricos ao serviço dos animais


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Solidariedade europeia com a Grécia


Apelo dos movimentos gregos para uma mobilização de bases europeia
Unidos contra a austeridade e a injustiça social

O resultado da corrente batalha contra a austeridade definirá o futuro não só dos gregos mas também dos povos da Europa que lutam por mais democracia e igualdade. Durante os governos anteriores, a Grécia costumava ser a cobaia, mas tornou-se agora o exemplo positivo que algumas foças querem esmagar.

É preciso, portanto, construir uma frente de militância política e social europeia contra a pressão das instituições da UE, que estão a estrangular a sociedade grega ao reiniciar os programas de austeriade implementados ao longo dos últimos quatro anos por outros governos, com resultados catastróficos. O povo grego, com o seu voto de 25 de janeiro, condenou as políticas de austeridade, bem como as leis contra os trabalhadores e os programas de privatização. As políticas defendidas pelo SYRIZA adoptaram as exigências dos sindicatos e dos movimentos sociais da Europa durante os últimos 10 anos. Agora precisamos do apoio desses movimentos para ajudar a afastar estas pressões e proceder a um programa progressista de justiça social. O establishment europeu, porque está com medo, precisa de castigar o novo paradigma de democracia e de justiça social defendido pelos representantes do povo grego: não o vamos deixar!

No período que vai de agora até Junho, haverá negociações entre o governo grego e as instituições europeias. A elite económica tem dificuldade em aceitar que alguém desafie as suas políticas e proponha um plano alternativo para a economia. Estão a usar todas as formas de chantagem contra o povo grego e o seu governo. Mostrem-nos que não estamos sozinhos nesta luta!

É imperativo pressionar estas instituições para que abandonem este comportamento inaceitável. Há que fazê-las aceitar que são os cidadãos da Europa que têm de decidir o seu futuro. Com base nas decisões tomadas recentemente no encontro de Atenas, de dia 2 de Maio, nós, uma coligação alargada de organizações sociais, sindicatos e redes, intelectuais, artistas, organizações de migrantes e vários grupos políticos progressistas, ecologistas e da esquerda activos na Grécia, propomos uma série de acções internacionais, a ter lugar entre 20 e 26 de Junho, de forma a criar um ambiente social e político positivo que apoie a luta grega. Nesse sentido, queremos organizar um evento aqui, em Atenas, no dia 27, para partilhar as nossas e as vossas experiências de mobilização e solidariedade. É importante para transformar os povos europeus de espetadores passivos a participantes activos desta história.

Este evento providenciará o espaço necessário para estes atores exprimirem as suas preocupações em relação às negociações mas, sobretudo, para trazer à superfície a necessidade de contrabalançar as pressões do sistema contra as exigências do governo grego, anti-austeritárias e pela justiça social. É extremamente importante enviar uma mensagem política clara. A sociedade grega não está sozinha. Temos de mostrar que todos nós estamos decididos a apoiar as exigências continuadas deste movimento. O povo grego decidiu quebrar o consenso neoliberal, e fê-lo votando por um governo de esquerda que apoiasse esse programa. A solidariedade e o gigantesco apoio popular serão a melhor maneira de confrontar o nosso lado com a elite económica e política europeia.

Vamos lutar por uma Europa da dignidade e da solidariedade contra a Europa do lucro, a Europa-Fortaleza. Apelamos a todas as forças políticas e sociais que façam parte desta semana de solidariedade para construir coligações nacionais fortes, para apoiar a luta contra a austeridade europeia.

Activista fora do sofá



Ada Colau, a activista que o povo elegeu alcadesa.

«Estudou Filosofia, mas nunca acabou o curso, envolvendo-se nas lutas antiglobalização e no movimento Ocupa. Em 2006, entrou no Movimento por uma casa digna em Espanha e em 2009 foi fundadora da PAH [Plataforma de Afectados pelas Hipotecas] de Barcelona, uma das primeiras do país. Há uma década que faz da luta pelo direito à habitação a sua principal ocupação. Para além da PAH, de que foi porta-voz até Maio de 2014, trabalhava como responsável pela área da Habitação no Observatório de Direitos Económicos, Sociais e Culturais.

Os habitantes de Barcelona habituaram-se a vê-la com a T-shirt verde do STOP Desahucios, a campanha que nasceu em 2010 para impedir despejos através de acções de desobediência civil. Chegou a ser presa num protesto à porta do Banco Popular – nas redes sociais, partilha-se agora uma fotografia em que um polícia a tenta obrigar a levantar-se do chão com a legenda: “Senhora alcadesa, precisa de ajuda?”» 
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Banco de Portugal: supervisão que parece um queijo suíço



«Em 1931 o poderoso governador do Banco de Inglaterra, Montagu Norman, exausto, retirava-se para descansar no estrangeiro. O mundo financeiro parecia um vulcão e nas ruas os desempregados, sem futuro, criavam "gangs".

Winston Churchill escrevia a um amigo que se falava que algo de terrível poderia acontecer e era claro: "Espero que enforquemos Montagu se isso acontecer. Eu virarei a opinião do Rei contra ele". A cadeira de governador é, às vezes, parecida com a cadeira eléctrica. Mas, paradoxo total, todas a querem. Mesmo correndo o risco de ser electrocutados devagar ou devagarinho.

Em Portugal todos a desejam, mesmo que só o digam em surdina. Até Carlos Costa deseja manter-se. Apesar do labirinto do BES, do buraco negro do papel comercial, do que não se sabe de outras entidades bancárias e das hesitações várias em vários momentos da sua maratona. (...)

Mas, mesmo assim, o governador é o garante de uma "supervisão" que parece, em Portugal, um queijo suíço: suscita dúvidas por todos os poros. (...) Num país como este ele deveria ser o garante da segurança e, por isso, deveria ser o denominador comum de quem se sucede no poder.

A sucessão de Carlos Costa está a ser tratada (...) num condomínio privado entre S. Bento e o Terreiro do Paço. É pouco. Até porque Carlos Costa molhou-se bastante no meio da chuva do BES e do papel comercial. Mas o seu sucessor aparente, António Varela, também parece caminhar em terreno minado. Espera-se apenas uma coisa: sensatez.»

Fernando Sobral
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26.5.15

«Aqui jaz»... mais uma livraria



Uma das melhores livrarias, que conheci, onde passei algumas horas ainda há 5 ou 6 anos e que agora vai desaparecer: La Hune, no nº170 do Boulevard Sanit-Germain de Paris, situada entre os míticos cafés Les Deux Magots e Café de Flore, fechará portas dentro de alguns dias. 


Comentários para quê.
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E se o Grexit fosse um sucesso?


cerveja obs

«Mas a grande questão é o que acontecerá um ano ou dois depois do Grexit, onde o risco real para o euro não é que a Grécia falhe mas que tenha êxito. Suponhamos que um novo dracma muito desvalorizado atrai uma avalanche de britânicos bebedores de cerveja para o Mar Jónico e que a Grécia começa a recuperar. Isso incentivaria muito, noutras paragens, os que contestam a austeridade e a desvalorização interna da moeda .»

Paul Krugman

[Publicado originalmente no Observatório da Grécia]
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Dica (60)




«Clearly, our creditors’ demand for more austerity has nothing to do with concerns about genuine reform or moving Greece onto a sustainable fiscal path. Their true motivation is a question best left to future historians – who, I have no doubt, will take much of the contemporary media coverage with a grain of salt.» 
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E para continuar a falar de Espanha


«Foi mesmo uma vitória para as esquerdas.

Primeiro, porque as esquerdas conseguiram o mais importante nas eleições mais difíceis: demonstrar que o bipartidismo (em Portugal, o termo consagrado é “alternância”) pode ser posto em causa. (...) Segundo, porque este desequilíbrio do sistema político tradicional permitiu vitórias fundamentais, como a de Alda Colau em Barcelona e de Manuela Carmena em Madrid. Levaram o movimento social à vitória eleitoral. (...)

Agora, como é de esperar, haverá discussão entre as esquerdas de outros países sobre como interpretar estes resultados e até haverá quem os reclame como se fossem seus. Vale a pena uma reflexão sobre estas lições, sobretudo porque em Portugal ninguém se prepara para as acompanhar.

Vale a pena porque, num tempo em que a Grécia anuncia que já não tem mais dinheiro para pagar aos credores institucionais e caminha para a insolvência, todas as questões europeias são mais relevantes do que nunca. A União Europeia, que não permitiu ao governo grego reestruturar a dívida e continua a exigir a redução das pensões, muito menos aceitará em Espanha uma política que se desvie da austeridade. Estamos portanto todos no mesmo barco.

Por isso mesmo, é pena que em Portugal as esquerdas estejam divididas para fazerem o contrário do que deu a vitória em Espanha. Uns porque acham que é apoiando o centro que terão “um pé no governo” e, portanto, favorecem o “voto útil” no PS, esperando que a alternância resolva os problemas do país. Outros, a maioria, porque acham que a convergência é inútil e há pouco a fazer.

Uns e outros estão errados. Uns porque não podem o que querem e outros porque não querem o que podem.»

Uma Espanha diferente




«Na dinastia Ming, o imperador mandava decapitar o cozinheiro se não gostava de algum dos pratos que lhe eram servidos às refeições. Nas democracias ocidentais, os votos fazem cair ou oscilar quem confecciona os pratos consumidos pelos cidadãos.

Os resultados das eleições espanholas de domingo mostram que o mundo dos cozinheiros dos partidos que partilham regularmente a cadeira do poder está a ser desafiado por uma nova geração de Ratatouilles, ou melhor, de Remys com adiantado sentido de gosto e faro político. (...)

A repartição do poder em Espanha poderá agora conduzir a alianças diferentes ou, pelo contrário, ajudar à ingovernabilidade crónica, lembrando os tempos mais tórridos da política italiana do século XX. Até que chegou Silvio Berlusconi, o "reformador" criado pelos seus canais televisivos. E sabe-se que nem todos os povos, especialmente se estão reféns de crises económicas, convivem pacatamente com a instabilidade.

Mas o que é evidente em Espanha é que o Podemos simboliza uma outra política que vai contaminando sociedades empobrecidas e desequilibradas. Muitos cidadãos decidiram votar em si mesmos através do Podemos, algo que Pablo Iglesias pode não querer, mas o qual, pragmaticamente, necessita. A maioria dos cidadãos já não está na direita nem na esquerda: está nos que se sentem inseguros, na miséria escondida e, sobretudo, numa classe média vencida, pilhada e humilhada. Todos os que votaram nas alternativas buscam um discurso combativo, onde a dignidade se contrapõe ao discurso único da austeridade. PSD, PS e CDS deveriam ir rever "Ratatouille".»

Fernando Sobral

25.5.15

Dica (59)




«Enfim, assim vai a Segurança Social, raiz de todos os males e, paradoxalmente, expediente à mão de semear para uma coisa e o seu contrário. Entre 600 milhões de um lado, reabilitação urbana por via de um Fundo que não pertence ao Estado mas aos trabalhadores e pensionistas, do outro lado, TSU para trás e para a frente, etc., as perspectivas não são famosas.» 
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A poesia vai



A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?» E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive de voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
– Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? –

Manuel António Pina, Poesia, saudade da prosa.
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Too big to fail

Espelho meu, quem é mais liberal do que eu?



«Passos Coelho critica algumas soluções do PS por serem demasiado liberais, ele que nem aceitaria tal coisa, cruzes canhoto.

Responde alguém do PS: mas Passos Coelho já defendeu o mesmo. E dá-se como exemplo uma conversa antes das eleições em que actual primeiro-ministro propunha a normalização do contrato a prazo, para que seja fácil despedir a qualquer momento.

Então, das duas uma.

Uma: o que Passos Coelho defendeu é, ela por ela, a proposta de Mário Centeno, o chefe dos doze apóstolos do PS, para o mercado de trabalho. Para Centeno, até poderia haver contrato sem termo, mas a empresa poderia sempre terminá-lo a qualquer instante. O que dá igual ao que Passos Coelho propunha. (...)

Ou, então, duas, é o PS que está a copiar as soluções de Passos Coelho. Na TSU, a proposta é, mais uma vez, só ligeiramente diferente: o PS corta mais na TSU (e o PSD e o CDS recuaram na sua proposta), distribui o corte entre empresas e trabalhadores, promete uma vaga compensação com impostos misteriosos do lado das empresas e reduzir as pensões futuras do lado dos trabalhadores. (...)

A competição será decidida pelo espelho mágico, que é o que sobra nestas circunstâncias: espelho meu, espelho meu, quem é mais belo do que eu, quem é mais liberal do que eu?»

Francisco Louçã

24.5.15

Dica (58)



Como si votáramos por vez primera.

«El futuro que espera a la democracia con el nuevo sistema de partidos que emerja hoy de las urnas no está escrito, como nada en la vida: eso es lo que rodea a estas elecciones de cierto aura inaugural.» 
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Imprensa falsa?

O fim da política como a conhecemos



«A crise financeira trouxe à tona de água muito do que se escondia no fundo dos rios de Portugal: o estilhaçar do Estado social, a corrupção endémica, a partidarização excessiva que contaminou a administração, a pobreza geral do país (económica, moral e cultural).

A crise vai contaminar os partidos políticos que se sucedem na governação desde o 25 de Abril, numa espécie de condomínio privado, como sucede mesmo aqui ao lado, em Espanha. A destruição acelerada das classes médias, que trocavam a sua segurança pelo voto no PS, PSD e CDS, está a destruir o palco fulcral destes partidos: o centro. A insegurança geral veio para ficar, porque faz parte da globalização. Por isso esquerda e direita, liberais e marxistas, estão confundidos. A política submeteu-se à gestão, os políticos aos técnicos, os visionários aos burocratas. É neste ácido sulfúrico que os partidos do sistema se estão a corroer. (...)

Há uma sociedade em mutação profunda, das relações de trabalho (e este deixou de ter o valor que tinha há décadas) aos comportamentos sociais. E os partidos não entenderam ainda que isto está a demolir os pilares da democracia como eles a entendiam e a partir da qual organizavam o seu assalto ao poder.

A fuga de portugueses deste país mostra que se ainda há uma válvula de escape, isso não durará para sempre. O neoliberalismo global está a destruir a segurança e as obrigações e vínculos. Nenhum emprego está já seguro. Nenhum sistema de segurança pode ser garantido. A "competência" atropela todos os outros valores sobre os quais as sociedades que ainda conhecemos foram construídas. É uma panela de pressão que tem todos os perigos imagináveis. Os partidos políticos portugueses, para lá dos floreados, vão um dia destes confrontar-se com isso.»

Fernando Sobral