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6.6.15

Aceitar / Não aceitar



«Creio que, desde muito pequeno, a minha infelicidade e, ao mesmo tempo, a minha felicidade, foi não aceitar as coisas com facilidade. Não me bastava que explicassem ou afirmassem algo. Para mim, ao contrário, em cada palavra ou objecto começava um itinerário misterioso que às vezes me esclarecia e às vezes chegava a estilhaçar-me.

Em suma, desde pequeno, a minha relação com as palavras, com a escrita, não se diferencia de minha relação com o mundo no geral. Eu pareço ter nascido para não aceitar as coisas tal como me são dadas.»

Julio Cortázar

Nesta tarde de Sábado


Se está pronto para receber um murro no estômago, não deixe de ler este magnífico e arrepiante texto de Paulo Varela Gomes:

Morrer é mais difícil do que parece.

Dica (67)



The death of a party. 

«At the end of the day, Darwin’s theory of the survival of the fittest seems to find its perfect application in the competitive, ruthless and unpredictable political arena. The biggest or strongest do not always make it. On the contrary, it is the most adaptable and flexible who often survive.» 
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Duas pesadas heranças: a de 2011 e a de 2015




José Pacheco Pereira, no Público de hoje:

«A táctica eleitoral da coligação PSD-CDS é só uma: levar a votos em 2015 a herança da bancarrota de Sócrates e nunca, jamais, em tempo algum, permitir que se faça o julgamento de 2015 da herança governativa de Passos Coelho-Portas. A estratégia da coligação PSD-CDS é manter na vacuidade do seu programa eleitoral as mesmas políticas de 2011-5, escondendo deliberadamente o seu conteúdo impopular através de fórmulas ambíguas e da mentira por omissão. (...)

Se o PS fosse outro e não estivesse manietado pela sombra incómoda do preso n.º 44, pelas grilhetas europeias e pela procura pomposa da respeitabilidade e da “confiança” (dadas pelo “outro”), mimetizando o discurso da coligação com os mesmos pressupostos, embora com nuances nas medidas, esta táctica de apenas falar do país de 2011 e silenciar o país de 2015 poderia ser contraproducente. Assim não é. Do ponto de vista do conflito de “narrativas”, a coligação tem vantagem. Deu-se a transformação do PS num partido de secretaria, que se manifesta essencialmente através de declarações à imprensa, intervenções parlamentares em que não brilha, apoio a uma central sindical que se péla por fazer acordos “responsáveis” e vê o mundo do trabalho perder força todos os dias como se não fosse com ela, da participação nas internacionais europeias do socialismo em que não se conhecem nem posições, nem diferenças e por aí adiante. Se o PS não estivesse tão acomodado, já há muito teria percebido que vai a caminho de um desastre. (...)

Muitos portugueses não se sentem representados no sistema político. Esses portugueses foram os alvos do “ajustamento” dos últimos anos. Uma parte importante é aquilo a que se chama "classe média", mas não só. São todas as pessoas com quem um governo que as desprezava actuou de má-fé. Esses portugueses são de esquerda e de direita, para usar as classificações tradicionais, e não são só “de esquerda”. Tratados como o sendo pela linguagem sectária do PCP ou do BE, ficam alienados e isolados, pasto do populismo, ou, ainda pior, da apatia e anomia política. E são esquecidos pelo PS, que tem medo de, ao falar por eles, cair no anátema de ser um Syriza nacional.

Este Governo e esta coligação não mudaram – esta é a herança de 2015. Estão mansos, em modo eleitoral, mas são os mesmos e, acima de tudo, não conhecem outras soluções senão as mesmas que aplicaram com zelo ultratroikista. Os seus alvos não mudaram, os seus amigos não mudaram, a sua ideia de um Portugal singapuriano não deixou de existir, bem pelo contrário. (...) Dizem apenas: votem na avozinha e não vejam o lobo mau por baixo do disfarce.» 
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5.6.15

Um pouco de humor

Garcia Lorca nasceu num 5 de Junho



Federico del Sagrado Corazón de Jesús García Lorca nasceu em Granada, em 5 de Junho de 1898.

Poeta e dramaturgo, conta-se entre as primeiras vítimas da Guerra Civil Espanhola. Foi fuzilado, com 38 anos, em Agosto de 1936, entre 17 e 19, pelo seu alinhamento político com os Republicanos e por ser declaradamente homossexual.

Todos os anos, nessa data, em Viznar, perto de Granada, ciganos cantam, dançam e dizem poesia em honra de Lorca e de cerca de 3.000 fuzilados pelos franquistas, cujas ossadas se encontram por perto.



Mas um dos seus «cartões de visita» será sempre:


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Grande Argentina!

Programas eleitorais, quem os não tem



«A conferência para a apresentação das Linhas Orientadoras do Programa Eleitoral da Coligação PSD/CDS-PP foi um déjà vu da apresentação da reforma do Estado de Paulo Portas. Não aconteceu nada em meia dúzia de páginas com espaçamento triplo e discursos a bold.

A total vacuidade. Nem o nome da coligação se deram ao trabalho de inventar. No cartaz, só estava escrito: Acima de tudo Portugal PSD/CDS. Não acredito que a coligação se vá chamar uma coisa que soa a título de música do festival da canção da RTP. E é má ideia dizer vender a TAP e chamar que a Acima de tudo Portugal quer vender a TAP. Fazia mais sentido, dado que as poucas coisas que este Governo cumpriu foram as privatizações, um "Acima de tudo os chineses". (...)

Depois, o vice começou a enumerar as nove garantias e senti falta que fossem doze, e que houvesse doze passas, porque aquilo eram desejos. Uma mistura entre desejos e... promessas. Uma espécie de conversa de "personal trainer" que também nos dá a catequese. Houve um momento em que o ouvi dizer "e comer batata doce e sumos de fruta". No final, quando já tudo dormitava, Portas garantiu que a reforma da Segurança Social será feita "por consenso", o que me leva a suspeitar que vamos ter de descontar para o consenso.

Depois surgiu Passos, com voz colocada, com ar de quem diz: "Chegou o pai. Eu explico o que se passa". Qual vendedor de aspiradores desata a dizer, não o que vai fazer, mas as tropelias que já fez? E descreve um Portugal absolutamente estonteante, com crescimento acima de todos os níveis europeus, desemprego a desaparecer a galope, um serviço de saúde como nunca se viu no mundo, feito com muito menos, e ficamos a pensar que fantástica deve ser a erva em Massamá.»

João Quadros
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Dica (66)




«En réalité, les créanciers semblent de plus en plus désemparés par la fermeté grecque. Ils lancent des ultimatums, mais ne peuvent accepter de tirer les leçons d'un rejet de ces derniers, autrement dit provoquer le défaut grec. Peu à peu, leur position de faiblesse devient plus évidente. Et ils commencent à reculer. Selon le Wall Street Journal, les créanciers abandonneraient désormais leurs exigences de réductions d'effectif dans la fonction publique et de réformes du marché du travail.» 
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4.6.15

Morreu Victória, activista angolana


Texto de Adolfo Maria, recebido através de Diana Andringa: 

In Memoriam de Victória de Almeida e Sousa

Angola perdeu hoje mais uma das suas valorosas filhas. Em 3 de Junho de 2015, faleceu em Lisboa, após complicações pós-operatórias, Victória de Almeida e Sousa, nascida em Luanda, em 13 de Agosto de 1936. Era filha de Agnette de La Vieter de Almeida e Sousa, e João de Almeida e Sousa, conhecido nos meios luandenses por "Cachimbinha".

Em 1954, a Tó – tinha este nome para nós, amigos e familiares – concluiu no Liceu Salvador Correia de Luanda o curso liceal (sétimo ano – então correspondente ao actual 11º ano – que dava acesso imediato à Universidade).

Iria mais tarde fazer estudos universitários em Portugal (nesse tempo não havia ainda universidades em Angola). Em Março de 1965, sendo estudante de medicina, e com 28 anos de idade, foi presa pela polícia política salazarista, a PIDE, submetida a torturas (incluindo a chamada estátua e privação total de sono). Pertencia a um grupo de nacionalistas angolanos negros, mestiços e brancos que exerciam actividades conspirativas em Luanda e em Lisboa, em prol do MPLA e da extensão da luta às cidades angolanas. Faziam parte desse grupo João Baptista, Victória de Almeida e Sousa, Henrique Guerra, Lucas, Rui Ramos, Arminda Faria, Milton Tavira e Astrid Carvalho. Os quatro primeiros aqui citados foram severamente maltratados por aquela polícia. O Tribunal da Boa Hora condenou a maior parte dos elementos a penas de prisão. Victória de Almeida Sousa saiu da cadeia em 30 de Junho de 1967 (há quarenta e oito anos!)

A repressão de que fora vítima e a vigilância policial não a impediram de, a par dos seus estudos universitários, dedicar-se ao apoio aos presos políticos angolanos que jaziam nas cadeias em Portugal. No Forte de Peniche, estava encarcerado o então padre Joaquim Pinto de Andrade. Este e Agostinho Neto tinham sido presos em Luanda pela PIDE, em Junho de 1960, juntamente com outros nacionalistas, e deportados para Portugal. Neto, então presidente de honra do MPLA, fugira em 1962 para Marrocos e viria a assumir a chefia do Movimento, cedida pelo presidente em exercício, Mário Pinto de Andrade, irmão do padre deportado em Portugal. Quando Joaquim Pinto de Andrade sofreu várias prisões neste país, a direcção do MPLA nomeou-o presidente de honra do Movimento.

Na continuação de visitas ao padre Joaquim Pinto de Andrade, a dedicada solidariedade da Victória Almeida e Sousa foi-se transformando em afecto mútuo tão intenso que os levou a projectarem casar-se, o que implicou demoradas e trabalhosas diligências de Joaquim junto do Vaticano para obter renúncia aos votos e autorização de casamento. Obtida esta, seguiram-se porfiados esforços a fim de conseguirem autorização dos esbirros da PIDE para que o casamento se pudesse efectuar na cadeia. Finalmente, o ex-padre Joaquim e a Victória casaram-se pelo civil no forte de Peniche, em Novembro de 1971. Depois da saída de Joaquim da prisão, realizaram o casamento religioso católico em 1973.

Após a revolução militar de 25 de Abril, de 1974 que repôs as liberdades cívicas em Portugal, Victória e Joaquim e a sua bebé recém-nascida, Naima, viajaram para Paris e em seguida para o Congo- Brazzaville. O presidente de honra do MPLA, Joaquim Pinto de Andrade, iria encontrar o seu Movimento profundamente dividido. Ainda tentou arbitrar o conflito entre as três facções, mas, após o fracassado Congresso de Lusaka, em Agosto de1974, aderiu à Revolta Activa, da qual se tornou líder.

Regressados em 1975 a Luanda, Victória de Almeida e Sousa e o seu marido enfrentaram numerosas e sucessivas manifestações de hostilidade por parte dos militantes e da direcção do MPLA e Joaquim Pinto de Andrade viria a ser proibido de ter emprego público. Vitória entregava-se abnegadamente ao exercício da sua profissão de médica, não só nos hospitais como em socorro de gente desfavorecida.

Nos primeiros meses de 1976, quando a repressão do regime ditatorial instalado com a Independência se abateu sobre alguns elementos da Revolta Activa, Tó e Joaquim acorreram em auxílio moral e material às famílias dos presos e, dignamente, manifestaram o repúdio pelas prisões efectuadas (há testemunhos rendendo homenagem à sua acção [1]). O seu espírito solidário continuaria a manifestar-se pelos anos fora, depois do 27 de Maio de 1977 e consequente repressão, nas obras de assistência aos desfavorecidos, promovidas por organismos da Igreja Católica.

Joaquim Pinto de Andrade faleceu em Fevereiro de 2009 no meio do desvelo da sua companheira e dos seus filhos Naima, Amílcar e Djamila. E a Tó, de saúde debilitada, continuou a acorrer solidária a membros de toda a sua numerosa família e a amigos necessitando de conforto moral, a pessoas carenciadas. Colaborava estreitamente com organizações que fazem utilíssimas acções de apoio social, como a da irmã Domingas (de que tanto me falava). Deste modo, e de acordo com as suas profundas convicções cristãs, a Victória ajudava os desprotegidos sociais, sobretudo crianças. Antes de baixar ao hospital para uma delicada cirurgia à coluna, Victória de Almeida e Sousa estava trabalhando com os filhos na conclusão de um livro de homenagem ao seu falecido companheiro, Joaquim Pinto de Andrade.

Inesperadamente, a Tó partiu do nosso convívio. Perdemos a sua terna presença e a sua discreta e permanente solicitude. Morreu uma mulher de extrema sensibilidade, inteligente e corajosa. Morreu uma angolana que sofria com os sofrimentos dos seus compatriotas. Morreu uma mulher que soube lutar pela independência de Angola, pela liberdade, pela aplicação dos direitos humanos, pela justiça social. Viva a cidadã Victória de Almeida e Sousa!

Adolfo Maria
Lisboa, 3 de Junho de 2015

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[1] Ver Adolfo Maria, Angola - sonho e pesadelo, Edições Colibri, Lisboa 2014

Somos felizes



Ricardo Araújo Pereira na Visão de hoje: 

«Os fetichistas de pés ficam felizes com a mera contemplação de pés. Talvez o primeiro-ministro seja um fetichista de desemprego. Ou de dívida. Ou de pobreza. (...)

A confirmar-se que estamos felizes, talvez os portugueses queiram experimentar um pouco de sofrimento, para desenjoar de tanto nirvana.»

Na íntegra AQUI.
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Dúvida metafísica


Por que é que Benfica e Sporting não assinam um acordo de regime para assegurar a estabilidade governativa na 2ª circular? 
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Hoje é 4 de Junho



Consideradas todas as diferenças, e estando portanto fora de causa qualquer semelhança entre situações, é irresistível divulgar hoje esta foto, encontrada por aí. 

Sobre os acontecimentos de 4 de Junho de 1989, leia-se: Tiananmen foi há um quarto de século
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Centro Nacional de Cultura




Muito honrada por feito parte da direcção que «esquerdizou» o Centro Nacional de Cultura, 1968-1969. (E até me citam largamente...)

«Este período abre a porta para uma fase de esquerdização do CNC que conheceu o seu auge na ‘primavera marcelista'. O CNC que sempre tinha sido uma instituição de debate cultural, assume-se como pólo contestatário nos anos seguintes. Católicos progressistas, intelectuais descontentes, uma geração mais jovem do que a dos fundadores do Centro.»
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Governo maioritário



«Quando Mefistófeles promete duas décadas de felicidade em troca da alma do doutor Fausto, este decide que o negócio vale a pena. Para que o contrato tenha valor simbólico é assinado com sangue e não com tinta.

É, no fundo, um empréstimo: a felicidade em troca do pagamento com a alma. Nesse aspecto Portugal trocou as voltas a Fausto: empenhou logo a alma em troca dos empréstimos do FMI e da União Europeia. (...)

Os executivos maioritários são uma obsessão do PR. Mas, claro, num mundo político em estilhaços (como se viu agora em Espanha), cada vez vai ser mais difícil fazer alianças e acordos pontuais. E em Portugal, a acreditar no que dizem as sondagens, serão necessários pactos muito complicados para conseguir qualquer Governo maioritário.

A mentalidade bipartidarista está a esboroar-se e chegará a Portugal. No que Cavaco Silva se equivoca é que o grande pacto que Portugal precisa é de longo prazo e não de legislatura e tem a ver com a renovação das instituições políticas e com a premência de um modelo de País em termos económicos, culturais e sociais.

Uma aliança governativa, para garantir um executivo maioritário, é só uma ambição de curto prazo. Só serve para que o Governo cumpra o que Bruxelas, Berlim e Frankfurt impõem. E é aí que Cavaco Silva fragiliza a sua posição e surge mais como um defensor da ortodoxia europeia do que do interesse futuro do País.»

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3.6.15

Dear Greece


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Mesmo na maior das desgraças

Corda aos sapatos, dr. Pires de Lima, corda aos sapatos

Os gregos são os nossos vizinhos



«É provável que haja um acordo qualquer de última hora que impeça a Grécia de falir nos próximos dias. É evidente que as coisas nunca acabarão em bem (o voto do povo grego é incompatível com a linha dura da zona euro), mas podem acabar em mais ou menos. (...)

Talvez Tsipras tenha sido eleito com um mandato impossível: acabar com a austeridade numa Europa em que a austeridade foi sufragada pela maioria dos que se sentam nos conselhos europeus, e não apenas por Merkel. Mas a derrota de Tsipras provará que não há caminhos alternativos fora da “linha justa” da Europa que expulsou a social-democracia enquanto ideologia de governo.

Uma ruptura da Grécia com a Europa – um cenário com consequências imprevisíveis – daria, à partida, razão ao governo português, que aproveitou estes anos para provar que “era bom aluno”. Seria a vitória do TINA (There is No Alternatives, como a ideologia vigente na Europa ficou conhecida) e um soco no PS, que promete genericamente que um novo governo socialista faria um corte com a política de austeridade, por muito que Costa se tenha empenhado em se afastar do Syriza nos tempos recentes. Mas, independentemente de qual dos discursos seria mais favorecido no worst case scenario, na realidade a fragilidade de Portugal deixaria o país acorrentado à derrota grega. Se se abrir a caixa de Pandora, é provável que os juros da dívida de Portugal disparem como no auge da crise do euro. Portugal devia estar a torcer pela Grécia – infelizmente não está. O PSD percebe-se porquê, o PS entende-se mais dificilmente.»

Ana Sá Lopes

Dica (65)



A próxima crise.  

«As actuais opções políticas estão a participar activamente na criação de uma nova crise. É um erro pensar que os instrumentos de política contra-cíclica estejam esgotados – pelo menos para os países que dispõem de moeda própria. As políticas a seguir não se escolhem pela sua eficácia teórica, mas sim por quem sai vencedor do conflito social. Aqui chegados, é certo que não há grandes motivos para optimismo.» 
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2.6.15

Quando até os cruzeiros matam



Um terrível naufrágio, provocado por um ciclone repentino, terá causado a morte a muitos dos 458 passageiros, quase todos chineses, que faziam um cruzeiro no rio Yangtze. Pelas imagens que vi, não se tratava de uma barcaça superlotada (bem longe disso), mas sim de um barco sólido, de quatro pisos e com capacidade para mais de 500 pessoas, muito semelhante àquele em que fiz parte do mesmo percurso, há cerca de onze anos.

Nesse tempo, não me parece que muitos chineses fizessem já turismo deste tipo e o drama de envolvia o Yangtze tinha a ver com as consequências da construção da Barragem das Três Gargantas, que fez subir as águas do rio e desaparecer do mapa muitas aldeias, com a consequente mudança de mais de um milhão de pessoas para outras paragens. O processo ainda estava então em curso e, através do guia que me acompanhava, «conversei» com uma rapariga que vendia bugigangas a turistas, junto de um pequeno pagode, numa escarpa onde um bote nos deixou. Explicou que ia sair dali e que a família já deixara aquele local que, pouco tempo depois, ficaria inundado. Estavam agora longe? Não, nem por isso: só a dois dias de viagem, de comboio…

Entretanto, a empresa da barragem das Três Gargantas «comprou» a luz que chega a nossas casas, muitos chineses já passeiam em cruzeiros e o Yangtze – que eu vi sempre como um perfeito lago – engoliu centenas deles. O mundo mudou muito desde 2004.



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Silly season em todo o seu esplendor!



Associação lança campanha em defesa dos caracóis.

«Esta é a primeira parte de uma específica acção de sensibilização contra o uso e exploração de caracóis, esses mesmos seres sencientes que são cozidos vivos e tão frequentemente consumidos nas épocas mais quentes do ano. Pretendemos alertar para o facto de que, assim como nós, estes animais sentem e por tal sofrem nas circunstâncias em que são instrumentalizados apenas para satisfazer o palato de quem os procura como petisco.»
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Alô, Portalegre! A AR espera por vós




Depois das celebrações do Dia da Criança, que o Município de Portalegre decidiu celebrar com um confronto entre miúdos muito pequenos, onde unas (os maus, certamente) atacavam outros munidos com capacetes e viseiras, sem se saber se os segundos chegaram a simular qualquer carga policial, as redes sociais não se fizeram esperar e antevêem participação em futuras manifestações em frente à Assembleia da República. (A segunda foto foi entretanto retirada da página do Município em questão no Facebook, mas ficaram lá outras.)

Portugal está um pouco desorientado, mas nem tanto assim! Poupem-nos. 
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Espanha: um outro país e um outro futuro?



«Grecia nos precedió y el pueblo trabajador eligió a Syriza para gobernar y construir otro país, justo, libre y democrático, contra todas las trampas, golpes bajos y chantajes de una Europa vieja, egoísta y caduca. Y el 24 de mayo de 2015 también empezó un cambio en España. Una transformación cuyo origen probablemente se inició hace cuatro años con la sacudida de la conciencia colectiva que fue el 15M. (...)

Es el principio del fin de esta gente, de esta derecha cavernícola y neofranquista que lleva más de dos décadas saqueando y arruinando el país y que, con toda probabilidad, se hundirá en las próximas elecciones generales de noviembre. Pero el triunfo no nos ha de permitir dormirnos en los laureles, porque ahora empieza de verdad el trabajo difícil. Y para ese trabajo hay que fajarse y apuntalarse porque estará plagado de obstáculos, asechanzas, obstrucciones y dificultades.

Empieza una época en la que la derecha mentirá más que nunca, pondrá trampas diversas y lanzara ataques de todo tipo… para que los gobiernos de la unidad popular fracasen. Pero antes emponzoñarán hasta el aire para que no se formen esos gobiernos de izquierda. (...) Frente a las falacias estúpidas de la derecha sobre la “fragmentación” de tantos partidos y grupos de izquierda, nosotros proclamamos que lo que ellos llaman fragmentación es la expresión de la pluralidad y de la libertad del pueblo trabajador. (...)

No va a ser fácil, pero es cierto, y ya no es solo un sueño, que se puede empezar a cambiar este país si aceptamos el reto y estamos dispuestos a luchar desde ahora por unas regiones y por unas ciudades más justas, democráticas y solidarias. Básicamente depende de nosotros, del pueblo trabajador.»

Xavier Caño – ATTAC Madrid

1.6.15

Dica (64)




«Es la primera vez que, en Europa, las autoridades de un país ponen en marcha un proceso de auditoría independiente con participación ciudadana. Y eso hace que esta iniciativa lanzada por Zoé Konstantopoulou, la Presidenta del Parlamento griego, sea un gesto democrático ejemplar, sabiendo que al final corresponde a la ciudadanía griega y a las autoridades del país tomar las decisiones que juzguen pertinentes.» 
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Aos gregos não estará reservado o destino de Tântalo


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Os senhores que comandam as «instituições» e decidem sobre dinheiros leram umas histórias sobre a mitologia grega e decidiram que Tântalo pode ser um modelo a impor como exemplo aos actuais helénicos. Considerando que estes insistiram em provar ambrósia que não lhes estava reservada no Olimpo dos mercados, e que se portaram mal nos sacrifícios que ofereceram aos deuses, mostram-lhes água e manjares sem deixarem que os alcancem para matar a sede e a fome. E gostariam que a situação se eternizasse – como para Tântalo.

Passaram quatro meses desde as eleições, acabou a semana, mais uma que seria «a decisiva», e tudo se encontra praticamente na mesma. Multiplicam-se reuniões públicas, semipúblicas e privadas e as propostas gregas continuam a não ser suficientes para que UE, BCE e FMI aceitem que há linhas vermelhas que o governo grego não quer – nem deve – pisar ou deixar que sejam pisadas.

Tsipras chegou a anunciar que já se estava na fase de redigir o rascunho de um acordo, mas foi rebate falso; as trapalhadas com supostas declarações de Christine Lagarde segundo as quais a responsável pelo FMI admitiria uma saída da Grexit para breve, posteriormente desmentidas por um porta-voz da organização, provocaram uma compreensível corrida aos levantamentos bancários; continuam os rumores sobre divergências entre Angela Merkel e o seu ministro das Finanças; etc., etc, etc.

Entretanto, os Estados Unidos põem a questão grega em cima da mesa da reunião do G7 por razões óbvias embora não explicitadas: um afastamento da Grécia da UE, por saída do euro ou não só, é a última das exposições desejáveis em termos geopolíticos. Situação que não é nova, mas que se revela hoje especialmente sensível, com o problema da Ucrânia por resolver e com a vaga de migrações vindas de Leste. Estive nesse estranho país que é o Chipre há duas semanas e a importância do factor geográfico, quando se olha para o bloco Grécia + Chipre, impõe-se com uma evidência especial visto a partir do Médio-Oriente (sim, porque Chipre não se situa na Europa, é bom lembrar). Para norte-americanos, e não só, este «muro» da UE e do euro, a Leste, não pode ser derrubado.

Como vai evoluir tudo isto? Não se sabe. Mas arrastar muito a situação só a degrada a cada dia que passa. E se é a ruptura que se pressente e se prevê como inevitável, não parece que seja temerário afirmar aquilo que muitos pensam mas poucos têm a coragem de escrever: que ela se concretize num relativo curto prazo. Há mais mundo para além da União Europeia e aos gregos não estará reservado o destino de Tântalo.

[Originalmente publicado no Observatório da Grécia
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Por quem os sinos dobram



Artigo de Alexis Tsipras, em Le Monde, 31.05.105:

«No dia 25 de Janeiro, a Europa tomou uma decisão corajosa. Ousou contestar o caminho de sentido único da austeridade rigorosa do Memorando, para reivindicar um novo acordo. Um novo acordo que permita à Grécia reencontrar o caminho do crescimento dentro do euro com um programa económico viável e sem repetir os erros do passado.

Esses erros foram pagos muito caro pelo povo grego. Em cinco anos, o desemprego subiu para 28% (60% para os jovens) e o rendimento médio diminuiu 40%, enquanto a Grécia, como mostram as estatísticas do Eurostat, tornou-se o Estado da União Europeia com os maiores indicadores de desigualdade social.

Pior ainda, apesar dos duros golpes que atingiram o tecido social, esse programa não conseguiu devolver competitividade à economia grega. A dívida pública disparou de 124% para 180% do PIB. A economia grega, apesar dos grandes sacrifícios do seu povo, continua prisioneira de um clima de incerteza contínua, gerada pelos objectivos não exequíveis da doutrina do equilíbrio financeiro, que a obrigam a ficar num círculo vicioso de austeridade e de recessão.

Pôr fim ao círculo vicioso

O principal objectivo do novo governo grego nestes últimos quatro meses foi o de acabar com o círculo vicioso dessa incerteza. Um acordo mutuamente benéfico, que irá fixar objectivos realistas em relação aos excedentes orçamentais, reintroduzindo uma agenda de desenvolvimento e de investimentos – uma solução definitiva para o caso grego – é agora mais necessário que nunca. Além disso, um tal acordo irá marcar o fim da crise económica europeia que rebentou há sete anos, pondo fim ao ciclo de incerteza para a zona euro.

Hoje, a Europa está prestes a tomar decisões que irão desencadear uma forte retoma da economia grega e europeia, acabando com os cenários de um “Grexit”. Estes cenários impedem a estabilização a longo prazo da economia europeia e são susceptíveis de minar a todo o momento a confiança quer dos cidadãos, quer dos investidores na nossa moeda comum.

No entanto, alguns defendem que o lado grego nada fez para ir nessa direcção porque se apresentou às negociações com intransigência e sem propostas. Será mesmo assim?

Dado o momento crítico, mesmo histórico, em que vivemos, não só para o futuro da Grécia mas também para o da Europa, gostaria de aproveitar esta mensagem para repor a verdade e informar de forma responsável a opinião pública europeia e mundial sobre as intenções e as verdadeiras posições assumidas pelo novo governo grego. 

(Continuar a ler AQUI.) 
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As árvores ainda morrem de pé?



«Nada muda nem se transforma. Em finais do século XIX, Oliveira Martins escrevia: "Baixa o câmbio? Aparece cá o mal-estar, porque o mais líquido dos rendimentos portugueses é o dinheiro que vem constantemente em troca da nossa exportação anual de gente". Olhe-se para os resultados do "programa de ajustamento": impostos insuportáveis e emigração brutal. Em troca de quê? Do dinheiro que nos permite continuar a navegar à tona de água e do que vai permitindo continuar a alimentar grupos de interesses que sobrevivem a todas as catástrofes. É certo que Portugal é um país pacato: é mais fácil o Marquês de Pombal encher-se para celebrar a vitória de um clube do que um largo qualquer se encher de gente a clamar contra a discussão vergonhosa sobre as pensões e a segurança social a que assistimos, como se isso não implicasse o futuro de muita gente. Há muitos anos a RTP transmitiu uma das peças de teatro que ficaram na memória colectiva, com a grande Palmira Bastos: "As Árvores Morrem de Pé". Nela, uma frase soava como definidora de uma resistência que Portugal deveria ter face a esta insignificância que ocupou o país: "Morta por dentro, mas de pé, de pé, como as árvores".»  

Fernando Sobral

31.5.15

«A Europa está numa encruzilhada»


Artigo de Alexis Tsipras, publicado hoje, 31 de Maio, no jornal Le Monde e traduzido AQUI para português. 
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Mosaicos e mais mosaicos



«Regresso» a Paphos, antiga capital de Chipre, que tem muitos motivos para ser visitada, entre os quais um impressionante conjunto de mosaicos da era romana, datado dos séculos II ao IV d.c. e que só foi descoberto, no início da década de 60 do século XX, por escavações mais ou menos fortuitas. Representam cenas mitológicas e a vida quotidiana dos proprietários de quatro grande casas: de Dionísio, Teseu, Orfeu e Aeon.

Ficam aqui algumas fotos que não conseguem, de modo algum, dar uma ideia da riqueza e da dimensão do que está em causa.






Dica (63)



Grécia mais perto de aderir ao banco dos BRICS. 

Há mais mundo para além da União Europeia!
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Final da Taça? Sim, em 20 de Junho de 1969



Nunca tinha ido ao Jamor, mas em 22 de Junho de 1969 lá estive, como muitos milhares de pessoas, não por causa do jogo Benfica-Académica mas em solidariedade com a luta académica de Coimbra, que estava então ao rubro. Cartazes, 35.000 comunicados distribuídos, palavras de ordem.

Pela primeira vez, o desafio não foi transmitido pela RTP, pela primeira vez, também, a taça não foi entregue pelo presidente Américo Tomás. Foi um grande dia de luta.




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