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10.10.15

Istambul hoje


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Depois do ataque em Ankara. 
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A ler para dar a maior gargalhada dos últimos dias


Esta senhora deve ter tido família a fugir para o Brasil depois do 25 de Abril de 74, ou do 11 de Março de 75, e está a refrescar memórias.


(Ah, e é fundamental ver a biografia da autora.)
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Calou-se há 52 anos



Uns dizem que morreu em 10 de Outubro de 1963, outros que foi no dia seguinte, poucas horas antes do seu grande amigo Jean Cocteau.

Piaf colou-se para à «pele» da minha geração, como tantos outros cantores sobretudo franceses, quando este país era quase tão sombrio como os vestidos pretos que ela nunca largou. Mas acrescento uma nota pessoal: acabada de regressar de Portugal, onde tinha vivido a primeira parte da crise académica de 1962, eu vi-a e ouvi-a, em Lovaina, no mesmo dia (vim a sabê-lo algumas horas mais tarde) em que 1.500 estudantes foram presos na Cantina da Cidade Universitária de Lisboa. «L'hymne à l'amour» ficou para sempre associado, em mim, ao Dia do Estudante.



Mais:







P.S. - Site de homenagem a Piaf, criado por ocasião do 50º aniversário da sua morte.
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Autoretrato


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A surpresa



«O PS não foi sozinho alternativa – e Costa não resolveu o problema. Ao contrário do que se assegurava há um ano, o pólo de atracção do protesto não foi António Costa. O PS ganhou apenas 180 mil votos (de 28% para 32,4%). Juntamente com a derrota de Sócrates em 2011, o PS continua com os seus piores resultados desde 1991 (segunda maioria absoluta de Cavaco). Os partidos do “arco da governação” (ou, pelos vistos, da NATO, segundo Cavaco...) continuam em queda: no seu conjunto (PS, PSD, CDS) obtêm o resultado mais baixo desde 1985. O problema, portanto, não está nos líderes, não estava em Seguro, nem sequer em Costa. Era bom que os cultores das lideranças, tão de moda, que parecem julgar que o mundo se resume a uma leitura de marketeiro, reconhecessem que os eleitores também votam em ideias, em atitudes, o que explica que um milhão de portugueses tenham votado no BE e na CDU sem que precisassem de sentir que votavam Catarina Martins ou Jerónimo de Sousa para Primeiro-Ministro. Os socialistas deveriam tentar perceber porque é que uma grande parte dos eleitores já não acredita (e de forma que parece consolidar-se) na alternância sem alternativa, no slogan de “só nós conseguimos pôr de lá para fora os que lá estão”, como ocorreu em 2005 (em seu favor) e em 2011 (contra o PS).

Afinal, isto virou mesmo à esquerda! E essa foi a surpresa destas eleições. Enganou-se quem, com a habitual ligeireza, desvalorizou o ciclo de maior contestação social dos últimos 30 anos, e achou que a esquerda “radical” bem podia sair à rua, convocada pela CGTP ou pelo Que Se Lixe a Troika!, porque, uma vez chegadas as eleições, todos voltariam ao redil e votariam nos “suspeitos do costume”. É ou não significativo que o BE tenha duplicado a sua representatividade depois de o terem declarado morto e, pelo contrário, quem, como o Livre, reclamava uma “esquerda de governo” e criticava a “esquerda de protesto”, tenha saído arrasado das urnas, perdendo metade dos poucos votos que obtivera para o Parlamento Europeu? É ou não significativo que a CDU, apesar do voto útil no PS e dos 260 mil novos eleitores do BE, tenha ganho mais apoio (sobretudo no Norte) pela 4ª eleição consecutiva?

Quem quis mudar a sério foi à esquerda do PS que confiou o seu voto: 1.113 mil votos (+315 mil), 20,7% de quem foi às urnas, constituem hoje um bloco sociopolítico (plural, como tudo na sociedade) de quem continua, apesar de toda a pressão das sondagens a favor do “voto útil”, a não confiar nos socialistas para fazer a mudança. (...)

Os que se mostram horrorizados com a possibilidade de um acordo de mínimos à esquerda denunciaram anos uma “esquerda do bota-abaixo” que, ao contrário de outros países, não contribui para a “governabilidade”. Deixaram-se surpreender com a frontalidade com que o PCP e o BE mostraram abertura para viabilizar um governo do PS para impedir o regresso da direita, não fazendo mais do que aquilo que disseram toda a campanha: que os seus votos não faltariam para procurar uma solução contra a continuação do que temos. O PS sabe que esse é o pressuposto básico de uma mudança. De um mínimo de esperança.»

9.10.15

Dica (148)



E agora, PS? (José Soeiro)

«Se outra coisa não resultasse destes últimos dias, há pelo menos duas que são já certezas importantes. A primeira é que não é inevitável que, com um parlamento maioritariamente à Esquerda, seja a Direita a formar governo. A segunda é que o discurso sobre o “voto útil” à Esquerda, se já fazia pouco sentido, morreu definitivamente a partir de agora. (...)

O PS está diante de uma escolha determinante. Pode rejeitar um Governo da Direita e decidir ser parte de uma solução alternativa, que passe por defender pensões, emprego e salários, desafiando assim a austeridade que se tornou a regra europeia.»
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9.10.1978. Gente como Brel não devia morrer



Adormeceu num 9 de Outubro. Excepto que estava muito longe de ser velho como os velhos que tão bem cantou: «Les vieux ne meurent pas, ils s’endorment un jour et dorment trop longtemps».



Mais:




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Reunião PàF / PS



Resumo com ilustração possível.
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Afinal havia outro



«Se o voto é a arma do povo, desta vez, o povo armou uma valente confusão.

O resultado eleitoral criou um quadro surrealista de tal forma que não é descabido dizer que Costa, o maior derrotado das eleições, se tornou o homem mais poderoso de Portugal. Tão poderoso que até pode ser PM. Confuso? Foi o que eu escrevi no início do texto. (...)

O Presidente da República passa um atestado de incompetência a quem votou BE ou CDU e anula os votos de um milhão de portugueses, dizendo que votaram em vão, porque não conta com esses votos, porque não obedecem a determinados compromissos que nós temos. Vamos lá ver. Se realmente partidos que apoiam a saída da NATO não contam, então não deviam estar no boletim de voto. Votou CDU, mas não viu as letras pequeninas, no final do boletim de voto, onde dizia, "atenção, para governar só contam votos em partidos que querem Portugal na Nato". (...)

Chegamos, agora, ao início do texto, perante o quadro de não maioria à direita (a tal maioria que o Presidente da República definiu, antes das eleições, como condição essencial para aceitar um governo), toda e qualquer solução passa por António Costa. O PSD e o PP já deram por isso, e a coligação veio logo mostrar-se disponível para dar presidência do Parlamento ao PS; e uma caixa de mon-chéri.

De repente, Costa é o novo sexy platina. Atacado pelos seguristas no interior do partido, António Costa é desejado por todos fora dele. O Bloco de Esquerda deseja fazer governo com ele. O PCP apoia um governo de Costa. Passos Coelho e Portas querem chegar a uma solução de governação com Costa, e o Presidente mandou o ex-PM ir falar com ele. Imaginem se Costa tivesse ganho as eleições?! Já havia estátuas com António Costa a cavalo na Avenida da Liberdade.»

João Quadros

Agora não sobra ninguém


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8.10.15

José Rodrigues dos Santos, o intocável


Diz-se que aquilo que se passou ontem foi um erro. Mas isto não foi, data de Janeiro e nada aconteceu a JRS. É o serviço público que temos e esta criatura nunca é beliscada.


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Resultados eleitorais, mortos e vivos



Ricardo Araújo Pereira na Visão de hoje:

«Um eleitor dirigiu-se a uma assembleia de voto e foi impedido de votar porque os cadernos eleitorais indicavam que estava morto desde 2013. (...)

Além de fazer uma limpeza dos cadernos eleitorais para os expurgar mortos, há que fazer igualmente a limpeza dos registos de óbito para os expurgar de vivos. (...)

Na minha opinião, um defunto que se dá ao trabalho de se dirigir a uma assembleia de voto deveria ser autorizado a exercer o seu direito. Há cidadãos vivos com menos respeito pela República.»

Na íntegra AQUI.
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O texto do dia


Ferreira Fernandes, no DN. Fica aqui na íntegra:

Aníbal, Pedro, Paulo, António, Jerónimo que...

Em bom, é assim: "João amava Teresa que amava Raimundo/ Que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili/ que não amava ninguém. /João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,/ Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,/ Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes/ que não tinha entrado na história." Em bom, é assim, célebre poema assinado por Carlos Drummond de Andrade. Ao poema, ele chamou Quadrilha. Não, não é isso que estão a pensar, mas no sentido da tradicional contradança. Por isso me permito uma versão portuguesa, citando políticos, para aqui trazidos por nos darem música. Sai cantiga de escárnio e maldizer: Aníbal apadrinhava Pedro que casara com Paulo que desdenhava Pedro que piscava o olho a António que se encontrava com Jerónimo que se queria vingar de Catarina que também instigava António que não sabia o que fazer. Aníbal foi para o Algarve reformado, Pedro e Paulo continuaram casados, sonhando com umas terceiras núpcias, grandes como as primeiras, melhores do que as segundas, António hesitou na passagem de nível, olhou para a esquerda, olhou para a direita, foi talvez atropelado, apanhou talvez o comboio do poder, Jerónimo progrediu para 18 deputados, talvez até 19, e mesmo 12 era bom logo que fossem mais do que Catarina que invejou André Lourenço e Silva, que tinha um cão chamado Nilo e não entrou na história porque é deputado do PAN e só se interessa por periquitos.

P.S. – E se esta notícia fosse de ontem, Ferreira Fernandes teria certamente incluído Edgar na sua cantiga de escárnio e maldizer. 
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Os donos do jogo



«No momento de votar os cidadãos têm a sensação de ser os donos do jogo. Elegem e obliteram os políticos. Mas, passado o calor do momento, dão-se conta que o seu poder se esvaiu. E ficou nas mãos de quem, recolhidos os votos, vence as eleições. Aí, depois da exaltação das promessas, regressa-se à realidade. (...)

Quem perdeu pode dizer que os eleitores não agradecem. É verdade. Neste novo mundo os cidadãos são interessados no que se lhe oferece. PSD e CDS perceberam este novo "trade-off".

A coligação ofereceu mais confiança a quem tinha de decidir. Conhecendo o passado e o presente, os eleitores escolheram aquele que consideram que vai representar melhor os seus interesses no futuro. Mesmo com um Governo sem maioria no Parlamento e que dependerá de um PS que dificilmente se radicalizará por agora. Porque precisa de lamber as feridas e de reencontrar o seu próprio futuro. O problema da dívida mantém-se e por isso a necessidade de compromisso entre os que assinaram o Tratado Orçamental da UE mantém-se. E isso, ninguém duvida, reforça a vitória do PSD/CDS.

Mas, sem maioria absoluta (...), PSD e CDS terão menos espaço de manobra para continuar a sua estratégia de "destruição criativa" e de hegemonia cultural, que tão bons resultados lhe deram até agora. Ou seja, o seu caminho, está agora minado. Venceu, mas pode perder a prazo. Para já PSD e CDS surgem como os donos do jogo. Mas, num Parlamento mais radicalizado, agora não têm todos os trunfos do baralho.»

» Fernando Sobral

7.10.15

Vai uma ajudinha?


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7.10.1950 – A invasão do Tibete pela China



Há 65 anos, em 7 de Outubro de 1950, um ano depois da criação da República Popular da China, o Tibete foi invadido pelas tropas de Mao Tsé-Tung que assumiu o controlo da região.

A história do que se seguiu é conhecida: em 1959, o Dalai Lama fugiu para a Índia e instalou em Dharamsala o Governo do Tibete no Exílio.

Há refugiados tibetanos espalhados por todo o mundo, com especial relevo para os países mais próximos (Índia, Nepal, Butão) onde comunidades, em geral muito pobres, preservam uma forte identidade cultural e vivem frequentemente de artesanato mais do que rudimentar.

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Que las hay las hay



15 horas, sozinha em casa, silêncio absoluto. Um aparelho Tomtom GPS, apagadíssimo há que tempos, acende-se sozinho e oiço: «VIRE À DIREITA». 

(Juro que é verdade.)
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Dica (147)




«O Presidente não se apoquenta com as dificuldades do país. Nem sequer condiciona a forma como o segundo governo Passos-Portas vai actuar, pois só lhe pede banalidades e a repetição ritual dos compromissos com as autoridades europeias (que Cavaco Silva, avisado, sabe que não vão ser cumpridos em 2015, mas isso serão contas do rosário do Presidente seguinte). Mas quer sobretudo erguer uma fronteira e, de caminho, avisar o PS sobre veleidades que possa ter acerca de mudar o jogo tradicional.»
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Cavaco Silva. Da vergonha alheia



Na comunicação de ontem à noite, Cavaco Silva riscou do mapa da Assembleia da República 36 deputados – os do BE e os do PCP – e deitou assim para o seu caixote do lixo privado os votos de 994.757 eleitores. Certamente que acarinha muito mais os 4.059.431 abstencionistas, já que esses não beliscaram os seus planos, nem o obrigaram a reflectir tanto que não celebrou a República a que preside. 

Cavaco Silva não presta, nunca prestou a não ser para os seus apaniguados. Ontem excedeu-se e talvez tenha sido bom. Envergonhemo-nos: a vergonha pode ser boa conselheira. 

Isto e muito mais já foi dito e escrito por 10.000 comentadores, encartados ou de sofá. Siga a dança.
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6.10.15

His Master Voice



O texto de dois assessores de Cavaco Silva, hoje publicado, algumas horas antes de o «dono» falar. 
 

Ide e lede



«Além do PS - o grande perdedor destas eleições - houve outros derrotados. Pequenos partidos mas pesadas derrotas, tal era a ambição e a expectativa anunciada - "seremos a grande surpresa da noite eleitoral de domingo", dizia ao Expresso Rui Tavares, a primeira figura do Livre/Tempo de Avançar. (...)

A ilusão de que um partido pode construir-se a partir do que comentadores dizem ou escrevem, diária ou semanalmente, por mais consagrados que sejam e por maiores que sejam as suas audiências, mesmo usando e abusando do truque de transformar crónicas em (mal) disfarçados apelos ao voto e sistemáticos e destemperados ataques às candidaturas de esquerda, revelou-se no dia 4 de Outubro isso mesmo, uma ilusão que o voto dos eleitores transformou em derrota.» 
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Dica (146)



O Bloco de Catarina vai ser o novo PS? 

«O PS de hoje não discute, portanto, a liderança de António Costa. Discute a sobrevivência.»
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O voto inútil



Excerto do artigo de José Vítor Malheiros no Público de hoje:

«A direita ganhou porque o partido/coligação mais votado é de direita e porque vai formar governo. Mas perdeu porque os cidadãos deram à esquerda quase o dobro de votos que deram à direita e porque o governo de direita viverá numa instabilidade constante devido à falta de apoio parlamentar.

A esquerda ganhou porque teve quase duas vezes mais votos que a direita. Mas perdeu porque não se consegue entender para formar governo, nem sequer para concretizar uma actividade legislativa consequente.

A direita ganhou porque a esquerda não a irá derrubar com medo de que o PSD e o CDS se vitimizem e consigam uma maioria absoluta em eleições antecipadas. A esquerda ganhou porque vai ter o governo a comer da sua mão no Parlamento.

Quanto aos partidos, é isto.

Quanto aos cidadãos, é diferente. Os cidadãos votaram maioritariamente contra a política de austeridade mas vão continuar a ter um governo neoliberal austeritário. Perderam. O seu voto foi inútil.

Os cidadãos votaram maioritariamente à esquerda, mas não vão ter um governo de esquerda porque as organizações de esquerda não conseguem construir uma plataforma comum elementar que reúna o PS com os partidos à sua esquerda. Perderam. O seu voto foi inútil.

Os cidadãos que votaram no PS, por convicção ou “voto útil”, todos decididos a impedir a vitória da direita, vão ver o PS a viabilizar, “violentamente” ou não, o governo PSD-CDS. António Costa fez, na própria noite das eleições, a lista das suas moderadas exigências para deixar passar o governo de direita e Fernando Medina repetiu o discurso ontem nas comemorações do 5 de Outubro. Costa não vai fazer coligações negativas que tragam instabilidade. Os votantes no PS perderam. O seu voto foi inútil.

Como foi inútil o voto dos 43% que se abstiveram e a quem se pode aplicar a citação de Einstein sobre os militares: por que razão têm estas pessoas um cérebro, quando uma simples medula espinal seria suficiente para as suas necessidades?

A principal conclusão destas eleições é esta: não há voto mais inútil do que o “voto útil” porque ele irá trair a vontade dos eleitores na primeira oportunidade.

Os portugueses vão continuar a empobrecer, com a excepção dos cinco por cento de cima. O nosso património colectivo vai continuar a ser dilapidado e oferecido a baixo preço aos amigos dos cinco por cento. Os serviços públicos vão continuar a degradar-se e a ser privatizados. Passos e Portas vão continuar a dobrar a espinha perante os diktats estrangeiros.» 
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5.10.15

Grécia: o «plano B» de Costas Lapavitsas



Chama-se «Um Programa de Salvamento Social e Nacional para a Grécia», tem 48 páginas na versão em inglês e foi escrito pelos economistas Costas Lapavitsas e Heiner Flassbeck, ex-secretário de Estado das Finanças do ministro alemão Oskar Lafontaine entre 1998 e 1999.

Está AQUI.


A Grécia não está parada, nem só a cumprir o Memorando. 
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Dica (145)




«Se um dos grandes problemas nacionais é a dívida, o PS não tem nenhuma alternativa àquela preconizada pela coligação. Ao apoiar o Tratado Orçamental e ao ter desistido da reestruturação, mostrou que a alternativa dos socialistas é difícil de explicar e trabalhosa de pôr em prática. » 
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Eleições – Balanço de uma noite de Outono



Nas eleições de ontem, houve vencedores e vencidos apesar de não estarmos em campeonatos de futebol. A democracia tem as suas regras e os seus preços.

1 – Por um voto se ganha e o PàF ganhou. Não vale a pena falar de derrota. Perdeu 700.000 votos relativamente a 2011? Sim, mas aguentou-se depois de quatro anos que deviam ter sido arrasadores em termos eleitorais. Preocupante? Certamente, mas foi assim.

2 – O maior vencido foi António Costa que arrastou com ele o PS. Desperdiçou o capital de popularidade que a vitória interna no partido lhe dera e nem lhe terá passado pela cabeça que a vitória nas eleições de ontem não seria um passeio de Outono. Convenceu-se de que o PS podia ter um programa que agradasse ao senhor Schaeuble e a uma maioria esmagadora de portugueses – e enganou-se. Nem conseguiu diminuir a abstenção que, afinal, foi a maior de sempre e, como se tudo isto não fosse suficiente, fez uma má campanha, unipessoal, aos gritos e com tiros em tantos pés que uma centopeia não desdenharia. Cereja em cima do bolo: o mau e displicente discurso de derrota, que fez ontem à noite. O PS só pode queixar-se de si próprio e não vale a pena atirar culpas à esquerda e à comunicação social quando nem o desesperado apelo ao «voto útil» lhe valeu!

3 – Outros vencidos foram os novos pequenos partidos, nomeadamente os que resultaram de cisões no Bloco, com destaque para o Livre / Tempo de Avançar. Será interessante, muito interessante, seguir o seu futuro próximo...

4 – Vencedores? Antes de mais o Bloco de Esquerda, sem dúvida, pelos resultados que excederam todas as expectativas ao mostrarem um partido vivo e convicto, com mensagens claras, de gente nova e menos nova (não há só duas ou três «meninas», não, olhe-se para o novo grupo parlamentar...). Catarina Martins, as irmãs Mortágua, mas também José Manuel Pureza, José Soeiro e outros 14, lá estarão em S. Bento. E os outros, os «velhos» Louçã, Rosas e Fazenda, não desertaram.

O PCP manteve-se quase igual a si próprio, crescendo um pouco. Bloco e PCP terão agora cerca de mais 1/3 dos deputados que tinham na legislatura anterior, 27% dos 230 – uma vitória indiscutível da esquerda anti-austeritária.

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Os dias, meses e anos que se seguem serão certamente muito duros e cheios de incertezas. Mas o mundo não acabou ontem e, como escreveu já hoje Mariana Mortágua, «o tempo é de esperança e serenidade. Que todas as forças políticas saibam estar à altura do desafio»
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República - com ou sem presidente



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