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5.12.15

Dica (176)



A rábula da vírgula. (Francisco Louçã) 

«A rábula da vírgula serve simplesmente para o PSD e o CDS lavarem a alma e confortarem os seus desesperados. Foi o melhor favor que fizeram a Costa. Ao primeiro-ministro basta por agora falar calmamente sobre o país para aproveitar a vantagem que, graciosamente, os derrotados das eleições e do parlamento lhe ofereceram. 

Já ganhou mais uma semana.»
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Foi você que pediu um Presidente da República?




Vamos lá começar a tirar umas pérolas do baú.
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Democracia e guerra perpétua



«E agora, senhoras e senhores, a “guerra contra o terror”! Pensando bem, nela já estávamos desde o 11 de Setembro, mas em cada nova curva desta eterna história do Ocidente cercado de inimigos reemerge esta retórica paranóica do “isto agora é a sério!” Ou seja, depois das guerras mundiais e das guerras coloniais do séc. XX, passámos a viver num estado de guerra perpétua? Não se dizia que o fim da Guerra Fria trouxera o Fim [feliz] da História? Onde ficou tudo quanto se disse sobre o triunfo de um modelo de sociedade capitalista e radiante, de um way of life que só o Ocidente soubera criar e que lhe cabia ensinar ao resto do mundo?... (...)

Levante-se, portanto, a nação em armas, e que se deixe de “bons sentimentos” e de “acolhimento generoso”! Guerra é guerra! Requer disciplina social, como a imposta pelo estado de emergência em França, ou suspendendo normas previstas na Declaração Universal de Direitos Humanos (incluindo a interdição da tortura), como se fez nos EUA, no Reino Unido ou, desde há semanas, em França. Requer mais recursos, como os que vêm pedindo os falcões de serviço para os orçamentos militares, dispensando qualquer limite de endividamento público. E requer soldados, como os muitos que agora acorrem aos centros franceses de recrutamento (de 100-150/dia em 2014, passou-se para 1500 desde os atentados de 13 de Novembro — cf. Le Monde, 19.11.2015).

Espero que ninguém julgue que tudo isto se faz sem consequências para a democracia, sem riscos para a nossa liberdade e a nossa segurança. E não falo apenas de segurança perante a violência dos terroristas, mas perante a dos Estados que se dizem em guerra contra o terror. Quantos inocentes já foram, e vão ser, vítimas da sua violência? Não falo só de Guantánamo ou das prisões ilegais da CIA; falo de centenas de franceses cujos direitos têm sido violentados desde que o Governo impôs o estado de emergência, sujeitos a interrogatórios violentos sem que contra eles um juiz tenha pronunciado uma só acusação, cujas casas são rebentadas! Não se julgue que se trata apenas de cidadãos de religião muçulmana, tão franceses como os demais; falo de activistas ecologistas e/ou daqueles que se manifestam contra os abusos policiais.

Como diz um centro de investigação da Queen Mary University (Londres), “o contraterrorismo” tem sido pretexto “para tornar sistémica a violência de Estado e para reprimir a oposição de qualquer natureza política: social ou religiosa, de protesto ou separatista. (…) Conflitos armados de longa duração entre atores estaduais e não estaduais têm sido transformados em guerras domésticas contra o terror, minando os princípios do Direito Internacional que gere o uso legítimo da violência.” (Building Peace in Permanent War, International State Crime Initiative&Transnational Institute, 2015)»

Manuel Loff

Wifi?


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5 e 6 de Dezembro, RTP2, 21h40 - «Operação Angola - Fugir Para Lutar»



O filme de Diana Andringa, aqui referido, é transmitido hoje e amanhã.



(Na imagem, a Nota do Ministério do Interior sobre fuga dos estudantes, publicada no Diário de Lisboa, 15.07.1961.) 
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4.12.15

Dica (175)

Vêm aí as presidenciais - para início de conversa



Nas redes sociais, há muita gente de esquerdas várias bem mais preocupada em atacar e ridicularizar Maria de Belém do que Marcelo Rebelo de Sousa, quando é este o mais perigoso em todos os planos.

Acho um erro por duas razões:
  • MªdeB é a única candidata que poderá roubar votos à direita e evitar, talvez, que MRS ganhe logo na primeira volta. Não tenho números, obviamente, mas posso citar o caso de uma família inteira de ferrenhos eleitores PSD (alguns mesmo militantes activos) que não votarão Marcelo porque o consideram não confiável, mitómano, etc., etc. e que pensam optar por MªdeB. Nunca votariam num candidato mais à esquerda. 
  • Ela não desistirá a favor de ninguém e não me parece que seja o momento de lançar apelos lancinantes para união à esquerda (leia-se: desistências de alguns candidatos a favor de Sampaio da Nóvoa), como está a acontecer. Não regressemos ao mito do «voto útil», deixemos o processo avançar. Afinal nem correu mal nas legislativas... 
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Também somos notícia por bons motivos

Ecos da sociedade "low-cost"



«O futuro tranquilo desenhado pelo Estado social ruiu. Aquele, intranquilo, sem redes de salvação, construído pela globalização económica e sedimentada pelo pensamento único, foi construído nos últimos anos.

Portugal, nesse aspecto, serviu como laboratório, através da medicina forçada da troika do Governo de Passos Coelho. A nova ordem, construída à volta da tecnologia e do fim das fronteiras, cercou o modelo democrático, em que prevalecem interesses não eleitos. E onde a lei da sociedade "low-cost" se instalou. Numa Europa histérica com a dívida e incapaz de pensar o seu lugar quando confrontada com crises como a dos refugiados, Portugal necessita de um modelo económico. Que não seja este, servido a frio pela troika, baseado na desvalorização salarial, considerada "única forma" de criar um país que vive das exportações. Mas um modelo baseado apenas nos salários baixos nunca terá futuro. Algum país terá sempre salários mais baixos para ganhar competitividade aí. Por isso é necessário investimento e conhecimento. Aquilo que foi desprezado nos últimos quatro anos. (...)

Vivemos embalados por este universo de "Black Friday" alargado aos dias todos.

A sociedade dos saldos reflecte este empobrecimento servido às classes médias, destruindo-as e afectando a sustentação da democracia. Os novos consumidores alimentam-se e vestem-se de produtos "low-cost", deslocam-se na Ryanair, e são cada vez mais uma maioria, encaixotados entre salários muito baixos e uma instabilidade laboral total. A eles retira-se a capacidade de alargarem o seu conhecimento e a sua capacidade crítica. Esta "nova pobreza" assemelha-se à "iliteracia" cada vez mais visível e que nos atira para modelos pré-revolução Fordiana. (...) Foi também este modelo servido com gelo aos portugueses, em nome de uma economia só de exportação, com base em baixos salários. A questão é que a História não se define em Excel nem é previsível. O "fim da história" foi anunciado com pompa e circunstância. Mas, está-se a ver, isso foi um logro.»

Fernando Sobral

3.12.15

Presépios e refugiados


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Godard, 85



Jean-Luc Godard nasceu em 3 de Dezembro de 1930. Esse grande senhor do cinema desde há mais de meio século, da «Nouvelle Vague», dos «Cahiers du Cínéma», da época em que nos precipitávamos para salas de cinema hoje fechadas desde que um novo filme chegava a Portugal ou, mesmo antes disso, quando assistíamos a duas ou três sessões por dia num qualquer pequeno cinema do Quartier Latin em Paris, anda por cá há oito décadas e meia.

Tenho bem presente a sua primeira longa metragem – À bout de souffle – e outras se seguiram, das quais guardo num «cofre» muito especial La chinoise e, sobretudo, para sempre, Pierrot le fou.







«Qu'est ce que je peux faire ? J'sais pas quoi faire ! Qu'est ce que je peux faire ? J'sais pas quoi faire ! Qu'est ce que je peux faire ? J'sais pas quoi faire!»
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República das maçãs



Ricardo Araújo Pereira na Visão de hoje: 

«Os novos iPhone do sr. Tim são, tal como as bananas do sr. Timóteo, "praticamente idênticos" aos anteriores. Sabendo que há, em princípio, mais consumidores de bananas do que de iPhone, por que razão merecem as bananas do sr. Timóteo menos atenção da imprensa do que os zingarelhos do sr. Tim? Porque é que falar das bananas do sr. Timóteo é publicidade e falar da maçã do sr. Tom é jornalismo tecnológico?» 

Na íntegra AQUI.
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Uma enorme tentação

O terramoto



«Cecil B. DeMille deu uma vez um conselho aos aspirantes a realizadores: "Comecem com um terramoto e depois construam um clímax."

DeMille realizou, por exemplo, "Sansão e Dalila", o épico religioso sobre o lutador cujo segredo da força estava em não cortar o cabelo, e a mulher que o seduz descobre o que o faz forte e o trai. António Costa, com um gesto mágico, provocou um terramoto na vida política nacional: Passos Coelho desmoronou-se, Cavaco Silva refugiou-se num abrigo e ele foi nomeado primeiro-ministro. (...)

Há, neste novo ciclo político, quem ainda viva a pensar que uma catástrofe se pode viver em câmara lenta e que, em dado momento, se pode carregar num botão que diz "pausa". No meio de tudo isto o PSD e o CDS acenam com o apocalipse em versão de moção de censura. Nada que espante: os próximos meses serão de regresso à Idade da Pedrada: o Governo será o alvo de todas as pedras.

Mas, depois do OE aprovado, e de se saber se Bruxelas flexibiliza a sua ração de austeridade para que Paris (e eventualmente Roma e Madrid) não quebre todos os compromissos orçamentais, se verá qual o território que António Costa pisará. Este é um Governo do PS. Mas que terá de negociar permanentemente à esquerda. E com Bruxelas. Perante a guerra de guerrilha da direita. Costa não tem perfil para ser o Sansão traído do filme de Cecil B. DeMille. Mas há muitas Dalilas por aí.»

Fernando Sobral

2.12.15

Uma estreia



José Manuel Pureza presidiu hoje, durante algum tempo, a sessão da Assembleia da República – desengravatado. Julgo que foi uma estreia, não me lembro de algo de semelhante ter alguma vez acontecido. Nem durante o PREC.

O hábito não faz o monge, mas o monge faz o hábito.
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Dica (174)



Quando o imoral se torna banal. (Mariana Mortágua) 

«A fuga ao Fisco, o "planeamento" ou "engenharia" fiscal não são excepções, são a regra na gestão diária das grandes empresas, e todos os anos significam milhares de milhões de euros de receita perdida para o Estado. São estas empresas, estes empresários, banqueiros e advogados que não hesitam um segundo em exigir mais austeridade enquanto clamam por novas descidas no IRC, cavando assim uma desigualdade - entre trabalho e capital - que ninguém parece querer encarar.»
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Quem se lembra disto?

«Não à guerra»



Vicenç Navarro no Público.es. Excertos que não dispensam a leitura do texto na íntegra:

«Hoy existe una movilización en Europa para ir a la guerra como consecuencia del ataque terrorista del ISIS en París, que mató a 130 personas. El enfado creado por este acto de terrorismo, que es el último de una larga lista de hechos semejantes acaecidos en Europa y en otros países, explica que exista una demanda por parte del gobierno francés, liderado por el Presidente socialista François Hollande, para que se establezca una alianza de gobiernos, liderada por el de Francia, que, en un acto de guerra, bombardee el territorio controlado por el ISIS, con el objetivo de eliminarlo. (...)

A la luz de la experiencia de intervenciones previas, no hay duda de que tal guerra creará una enorme lista de muertos, la mayoría civiles, es decir, personas que no están combatiendo. Y lo que es igualmente preocupante es que aumentará, y no disminuirá, el número de terroristas que expandirán su terrorismo a lo largo de territorios europeos y de Oriente Medio. (...)

¿Qué consiguieron las guerras anteriores?
La pregunta que debe hacerse es “¿qué se ha conseguido con ello?”. Hoy el radicalismo fundamentalista islámico es más fuerte que nunca. Y está expandido por todo el mundo. En realidad, incluso cuando se enviaron tropas, como ocurrió en los casos de Irak y Afganistán, tales tropas no consiguieron erradicar el radicalismo fundamentalista islámico. (...)

¿Qué debería hacerse? 
Para encontrar soluciones hay que entender de dónde viene el problema de Al Qaeda, ISIS y otros movimientos fundamentalistas islámicos parecidos, tema clave que se intenta ocultar. Y hasta que ello ocurra, no podrá solucionarse el problema. Y las raíces de este problema están en la enorme pobreza y miseria que ha existido en estos países, resultado de estar gobernados por regímenes feudales –como lo es hoy, por ejemplo, Arabia Saudí- que contaron con el apoyo de los gobiernos de países occidentales, que se beneficiaban del fácil acceso a los recursos de estos países.

Tal miseria y opresión generaron el surgimiento de movimientos progresistas que rompieron con tales regímenes, amenazando no solo las estructuras de poder de aquellos países, sino también los intereses de los países occidentales, los cuales, a fin de impedir la victoria de estas fuerzas progresistas, o con el objetivo de derrotarlas en caso de que gobernaran, establecieron y/o apoyaron a fuerzas radicales fundamentalistas islámicas, que eran profundamente antiprogresistas. (...)

Las alternativas a la guerra
Ahí está la raíz del problema. Si en realidad estos gobiernos quisieran parar estas guerras deberían cambiar sus políticas casi 180º. Tendrían que ayudar a que se hagan las reformas que beneficien a la mayoría de estas poblaciones, y no solo a una minoría. Y en cada uno de estos países, existen tales fuerzas políticas (enormemente reprimidas por el ISIS). El Partido de los Trabajadores de Kurdistán es un ejemplo de ello. Sus tropas están luchando exitosamente. Es a estas fuerzas a las que se tendría que apoyar, pues son las que viven en aquellos territorios y representan los intereses de las clases populares de estos países.

Hoy el gran interrogante es qué fuerzas políticas canalizarán el enorme enfado de las clases populares de los países árabes y/o de cultura musulmana. Las alternativas son claras. O son las fuerzas progresistas (lo que, con razón, afectará a los intereses de grupos económicos enormemente influyentes sobre los Estados del mundo occidental), o serán los fundamentalistas religiosos islámicos que, sin resolver la enorme miseria en estos países, se perpetúan en el poder a base de la ideología religiosa que relativiza el dolor y la muerte como un paso para llegar a la eternidad.» 
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1.12.15

Hino da Restauração



Nunca tinha reparado no seguinte: a letra do Hino da Restauração mete PàF, Avante e Mocidade Portuguesa!

Portugueses celebremos
O dia da redenção,
Em que valentes guerreiros
Nos deram livre a Nação.

A fé dos campos de Ourique,
Coragem deu e valor,
Aos famosos de quarenta,
Que lutaram com ardor.

P'rá Frente! P'rá Frente!
Repetir saberemos as proezas Portuguesas
Avante, Avante,
É voz que soará triunfal,
Vá avante mocidade de Portugal,
Vá avante mocidade de Portugal.


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Há 60 anos, a recusa de Rosa Parks



No dia 1 de Dezembro de 1955, em Montgomery, a parte da frente de um autocarro reservada a passageiros brancos já não tinha nenhum lugar vago e o condutor ordenou que Rosa Parks se levantasse e cedesse o seu. Recusou e foi presa. Foi um marco importante na luta pelos direitos dos negros nos Estados Unidos.

A história deste acontecimento e de tudo o que se seguiu está bem resumida nos 6 minutos deste vídeo.




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Trump e Monteiro



«Donald Trump não é o proprietário do Trump Taj Mahal, nem do Trump Palace, nem do Trump Park Avenue nem do Trump Soho, nem dos muitos edifícios Trump que existem na América Latina ou no Cáucaso.

Há também água-de-colónia Trump, cartões de crédito Trump e chocolates Trump que se assemelham a barras de ouro. Os empresários compram a utilização do seu nome porque há muitos consumidores que acreditam nele. Trump atrai atenção e esse é o seu valor. Até os seus dois divórcios foram "bons para o negócio". Sérgio Monteiro não é Donald Trump. Mas, a acreditar no que diz a comunicação social, o Banco de Portugal vê nele um potencial idêntico ao de Donald Trump: o seu nome vende. Por isso contratou-o, por uma pechincha de 30 mil euros/mês, para conseguir vender o Novo Banco.

Com um vendedor assim, acredita o Banco de Portugal, ninguém resistirá. Monteiro venderá o Novo Banco como pipocas, imobiliário, os transportes colectivos de Lisboa e Porto ou a TAP. Não duvidamos do sucesso da tarefa. A venda da TAP revela-o, embora existam uns pormenorzitos que carregam as costas dos contribuintes que deveriam ser mais bem explicados.

No Banco de Portugal, Sérgio Monteiro não tem clientes: tem fãs. E isso parece ser uma garantia de sucesso antecipado. Trump costuma dizer: "Tornei-me rico. Posso fazer este país muito rico." Por isso concorre a Presidente dos EUA. Mais modesto, Monteiro não se candidata a PR de Portugal. Ele é um PR de si próprio. Só se espera que não se distraia e não venda todo o país. Para que Vítor Bento não tenha de emendar as suas proféticas palavras de há dias e ter de dizer: "Num ano, nenhum dos grandes bancos será nacional."»  

Fernando Sobral

Lá chegaremos


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Woody Allen, 80



Woody Allen nasceu em 1 de Dezembro de 1935 e é a partir de hoje um improvável octogenário. Ele que disse ser «radicalmente contra» a sua própria morte e que nunca foi um génio mas apenas «um humorista do Brooklyn com sorte».

Não me canso de ler este seu texto:

Na minha próxima vida quero vivê-la de trás para a frente
Começar morto para despachar logo o assunto.
Depois acordar num lar de idosos e sentir-me melhor a cada dia que passa. Ser expulso porque estou demasiado saudável, ir receber a pensão e começar logo a trabalhar. Receber logo um relógio de ouro no primeiro dia. Trabalhar quarenta anos até ser novo o suficiente para gozar a reforma. Divertir-me, embebedar-me e ser de uma forma geral promíscuo, e depois estar pronto para o liceu. Em seguida a primária, fica-se criança e brinca-se. Não temos responsabilidades e ficamos um bebé até nascermos. Por fim, passamos nove meses a flutuar num SPA de luxo com aquecimento central, serviço de quartos à descrição e um quarto maior de dia para dia, e depois....voilá!
Acaba tudo com um orgasmo!




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30.11.15

O duelo



«Na política não há nada de mais estimulante do que ter um adversário que nos tenta destruir. Isso obriga-nos a valorizar a nossa existência. Cavaco Silva e António Costa pareceram, na tomada de posse, dois homens à beira de um duelo.

Mas se Cavaco foi excessivamente agressivo, Costa fez do apelo à conciliação a sua bandeira. São duas estratégias claras: Cavaco, aliado ao sector mais militante do PSD e do CDS, pensa que é pela guerrilha que se destruirá Costa. Este, sensatamente, percebeu que é pela diplomacia que se esvaziará o ruído da direita e se ocupará o deserto que é o centro político de hoje. Portugal não vai aguentar um duelo permanente. Mas também não haverá condições objectivas para isso. Num dos contos de Joseph Conrad, dois oficiais do exército de Napoleão vão-se batendo em duelo durante 15 anos enquanto a Europa continua numa guerra sangrenta. Como se estivessem acima disso. Portugal não aguentará isso, mesmo que haja desprezo e vingança pelo meio.

Neste duelo entre Cavaco e Costa não tem de haver um vencedor, porque há um vencido claro: o actual Presidente da República, porque esta Assembleia da República sobreviverá à sua partida. O poder de Cavaco é efémero: está de saída e a sua voz política vai eclipsar-se a partir daí. Vamos entrar num outro tempo político que termina com a era do cavaquismo e que poderá fazer implodir a hegemonia ideológica de um PSD rendido às teses do CDS e dos gurus que manobram os cordelinhos por trás. Marcelo Rebelo de Sousa já percebeu isso. Este Governo não será frágil, como julgam PSD e CDS. E Cavaco. Ninguém assaltou o Palácio de Inverno com tropas bolcheviques. Mas a política (até económica) será diferente a partir de agora.»

Fernando Sobral

Que tal uma consultazita ao Google


... antes de ir para uma cimeira sobre uma tema específico?

A gafe de António Costa na cimeira europeia.

Diana Andringa: «Operação Angola - Fugir Para Lutar»



Documentário com dois episódios, RTP2, 5 e 6 de Dezembro (depois do Jornal da Noite).


«Enquanto o leão não tiver o seu próprio historiador, 
a glória continuará a ir para o caçador»
(ditado africano citado por Pedro Pires, presidente de Cabo Verde) 


Diana Andringa conseguiu finalmente concretizar um dos seus velhos sonhos: o mais do que louvável projecto de preservar, em filme, a memória de um episódio marcante da resistência anticolonial, muito pouco conhecido em Portugal.

Em Junho de 1961, cerca de 60 estudantes das então colónias portuguesas – entre os quais os ex-presidentes de Cabo Verde e Moçambique, Pedro Pires e Joaquim Chissano, e os ex-primeiros-ministros de Angola e Moçambique, Fernando Van Dunen e Pascoal Mocumbi – fugiram clandestinamente de Portugal, onde se encontravam, para escapar à repressão pela polícia política da ditadura portuguesa, a PIDE, evitar a mobilização militar ou juntar-se aos movimentos de libertação.

A fuga colectiva foi levada a cabo com o apoio do Conselho Mundial das Igrejas e a participação activa de uma organização ecuménica radicada em França, a CIMADE. Foram jovens protestantes norte-americanos que, seguindo directivas da CIMADE, conduziram os fugitivos de Lisboa, Coimbra e Porto para França, atravessando a Espanha franquista, onde chegaram a ser presos. O documentário Operação Angola - nome de código dado à missão – refez essa viagem, com dois desses protestantes norte-americanos – Charles Roy Harper, Chuck, que os conduziu em Portugal e Bill Nottingham, que os conduziu em Espanha – e o angolano Miguel Hurst, actor e filho de um dos casais participantes na fuga - Jorge e Isabel Hurst – introduzindo, ao longo da viagem, descrições feitas por vários outros fugitivos em entrevistas realizadas em 2011, em Cabo Verde.




Em 2011, sob a égide do então Presidente da República de Cabo Verde, Comandante Pedro Pires, realizou-se em Cidade da Praia um encontro de participantes na Fuga de 1961. Estas imagens datam desse 50º aniversário.



A importância da preservação destas memórias é bem resumida num ditado africano citado pelo presidente de Cabo Verde, Pedro Pires, no encontro realizado em Cabo Verde: «Enquanto o leão não tiver o seu próprio historiador, a glória continuará a ir para o caçador»

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Há alguns anos, Diana Andringa escreveu um texto que se encontra disponível online e que pode servir de «aperitivo» para o documentário: Fugir para lutar.
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29.11.15

Dica (173)



The Paris Attack And Its Aftermath. (Jürgen Habermas) 
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Óleo de fígado de bacalhau?


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Paris, hoje



Place de la République, a propósito da conferência sobre o Clima e porque estão proibidas manifestações. 
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António Costa e os dilemas do PSD



«O filósofo escocês Thomas Carlyle escreveu em 1843 que: "A democracia é o desespero de não encontrar heróis que nos dirijam." As suas palavras tornaram-se hoje uma profecia a ter em conta.

Basta olharmos para a Europa para percebermos a inexistência da liderança política, especialmente numa sociedade cada vez mais técnica e globalizada. (...) A História do século XX foi marcada por personalidades fortes que tiveram acção determinante para alterar o rumo dos acontecimentos. Mas hoje encontramos cada vez mais exemplos de nulidade andante. .

Esta ideia de sociedade, onde os valores económicos espezinham todos os outros, não é boa nem para a economia de mercado. Mas foi ela que motivou a radicalização da sociedade portuguesa onde se destruiu, nestes últimos quatro anos, o fiel da balança: a classe média. Quando olhamos para este país radicalizado, entendemos melhor o que sucedeu. O PSD esqueceu-se da sua matriz social-democrata e encostou-se a um discurso à direita, que teve o condão de abrir uma caixa de Pandora que muitos acreditavam que nunca poderia acontecer: o desvio à esquerda do PS e a criação de condições para uma aliança com o PCP e o BE de apoio a um Governo de António Costa. Enxotado pela coligação durante quatro anos, o PS não quis mais ser a muleta de uma política de hegemonia cultural seguida com rigor ideológico extremo. A direita continua a alimentar esta bipolarização mas, claramente, se o novo Governo conseguir aprovar o OE de 2016 e sustentar a sua acção nos próximos seis meses, as vozes que agora se vão ouvir numa guerrilha extrema tenderão a ficar cansadas. O ambiente político e económico europeu também terá uma palavra a dizer sobre o assunto. António Costa, mestre do jogo político, sabe que esta bipolarização extremada será o seu melhor sustentáculo no difícil convívio com as sugestões do PCP e do BE.»

Fernando Sobral
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