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26.12.15

Dica (188)




«Quando souber que o banco vai ser intervencionado, agora diz-se “resolvido”, mexa-se ainda mais depressa. Dívidas e dívidas, endivide muito as suas empresas da constelação Ilhas do Canal-Bahamas-Delaware-Vanuatu, os negócios dos últimos dias são os melhores. Vai tudo desaparecer na voragem, o Estado vai pagar isso tudo, vai incluir a sua dívida no “banco mau” e nos seus incobráveis, e vai portanto compensar o capital que falta ao “banco bom”. A sua dívida é um “activo” que foi desactivado.» 
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Jean Ferrat faria hoje 85



O grande Jean Ferrat, representante típico de gerações de intérpretes politicamente engagés, para sempre ligado a «Nuit et Brouillard» e a tantos outros títulos, o eterno compagnon de route do Partido Comunista Francês, que não hesitou em denunciar a invasão de Praga em 1968.




C'est un nom terrible Camarade / C'est un nom terrible à dire / Quand le temps d'une mascarade / Il ne fait plus que fremir / Que venez-vous faire Camarade / Que venez-vous faire ici / Ce fut à cinq heures dans Prague / Que le mois d'août s'obscurcit.

Mas para além de tudo isto ficará para sempre:


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O melhor ministro do governo AD, não é verdade?



«Situação no hospital de Lisboa levou o BE a interpelar o ex-ministro da Saúde, Paulo Macedo, por quatro vezes.»
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Ausente até aos Reis


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Por que é que se pode acabar com tudo menos com os bancos?



Excertos de um texto de José Pacheco Pereira no Público de hoje:

«A história do Banif é exemplar dos tempos que correm. Ela mostra tudo o que está errado nas políticas europeias e nacionais, se é que se pode falar ainda de “políticas nacionais”. Aliás, o caso do Banif revela até que ponto os governos aceitam ser geridos pela burocracia europeia não eleita, em decisões objectivamente contrárias ao interesse nacional e à sua própria vontade, eles que são eleitos. Este é um dos aspectos mais preocupantes da actual situação política portuguesa e europeia, a utilização muitas vezes abusiva e excessiva, das chamadas “regras” europeias para impor políticas ideológicas conservadoras e soluções que correspondem a interesses particulares de outros países, de outras bancas, de outras economias, a Portugal. Ou pensam que é tudo neutro e “técnico”?

Chegados à porta da burocracia europeia, – e as decisões tomadas sobre o Banif são tomadas pela burocracia de Bruxelas que acha que sabe melhor governar Portugal que o voto dos portugueses, – encontramos uma entidade que não é neutra, que serve os interesses políticos e económicos dos maiores países europeus em que não ousa tocar nem ao de leve, e cujo afã de “uniformização”, sendo típico das burocracias, leva a aplicar critérios que nem a banca alemã cumpre, a economias debilitadas como a portuguesa. Ao impedir a incorporação do Banif na CGD, – que, lembre-se, Passos Coelho queria privatizar, – actuou contra o interesse nacional legitimamente interpretado por um governo eleito. Seria bom que o senhor Presidente da República nos falasse então do “superior interesse nacional”. (…)

O que mostra o Banif? Que os bancos podem falir como qualquer outra empresa, mas que as consequências dessa falência são pagas sempre pelo dinheiro público. (…) A banca é sempre uma excepção e contestar essa excepção, – a da “saúde” do sistema financeiro que claramente está acima da saúde dos portugueses, – é “ideologia” como disse o Presidente da República numa das suas mais ideológicas intervenções em nome da “realidade”.(…)

O Banif falido colocaria em causa a “confiança” no sistema financeiro, faria estragos na economia das ilhas, provocaria mais desemprego no sector bancário, onde ele é já elevado, perderia o estado o dinheiro que lá colocou numa decisão que o governo anterior tem que explicar muito explicadinha? Acredito que sim, várias destas consequências negativas verificar-se-iam, mas os depósitos até 100.000 euros seriam honrados, acima disso seriam perdidos. Não sei quem retirou o dinheiro no dia negro que se seguiu à “notícia” da TVI, mas acredito que muitos estariam na condição de ter mais de 100.000 euros, porque se há coisa que as pessoas hoje “sabem” é do risco de perderem o dinheiro que tem nos bancos. (…)

O governo de António Costa fez bem em ser expedito, mas as críticas que o BE e o PCP e muitos portugueses lhe fazem de não ter rompido com os privilégios especiais da banca pagos com o erário público, tem sentido. Ficou a promessa de que será o último caso e, quando o Novo Banco regressar à mesa do orçamento, espero bem que não se repita o que se passou com o Banif. (…)

É que para sairmos desta lama que nos tolhe temos que pensar diferente, falar diferente, e fazer diferente. Nem que seja pouco diferente, visto que, como isto está, basta um pouco de diferença para parecer uma revolução. Por isso, ó ideólogos, valia a pena ser mais economicamente liberal com os bancos e menos com as pessoas, mas isso hoje parece radicalismo.» 
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24.12.15

Póstumos Natais



Ladainha dos póstumos Natais

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito

David Mourão-Ferreira, in «Cancioneiro de Natal»
 

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É o que se pode arranjar


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Entrevista com Deus - balanço de 2015



«Negócios: Em tempo de balanços, pareceu-nos correcto entrevistar a mão que embala o berço da humanidade. Connosco, para fazermos um resumo de 2015, temos, Deus.

Olá, Deus. Obrigado por estar aqui hoje, quando, provavelmente, preferia estar a fazer as compras de Natal.

Deus: Eu não festejo o Natal. O Natal é uma festa do consumismo. Uma espécie de sonho húmido do ministro Centeno. Eu só festejo a austeridade. Mas festejo em grande. (…)

Negócios: Como viu as eleições no nosso país. Acha que Costa fez batota?

Deus: Eu não quero mistura com políticos. Sou um bocado como deputado do PAN. Estou lá, mas é como se não estivesse. Confesso que sei o que se passa na vossa Assembleia da República mas, não é por querer, é porque a Heloísa Apolónia fala muito alto. (…)

Deus: Eu estive para impedir a aliança de esquerda em Portugal. Não fosse o discurso de vitória do Marco António Costa e agora o PàF era Governo. Mas aquilo irritou-me. Ai, já ganhámos e vamos ser Governo – não é assim.

Negócios: O futuro a Deus pertence.

Deus: Não é isso. Detesto gente que maltrata a Matemática. O meu filho era péssimo. Porque é que acha que o enviei à Terra?

Negócios: Para nos salvar a todos?

Deus: Não. Foi castigo por causa das notas a Matemática. É inadmissível que escrevam, sobre o filho de um Deus perfeito: "Jesus Cristo que não sabia nada de finanças". O meu filho só era bom com parábolas.
A Matemática é a mãe do Universo. Andámos uns anos, mas ela fugiu com um sociólogo. Por isso é que eu enviei o Crato à Terra: para que todas as crianças do quarto ano soubessem cálculo integral e brincassem com integrais no recreio.

Negócios: Houve alguma coisa que tenha feito em 2015 de que se tenha arrependido?

Deus: Nem por isso. Até porque se eu quiser volto com o tempo atrás e faço outra vez. Mas talvez tenha estado pouco atento ao drama dos refugiados. Confiei na Europa. Não se pode. Para o ano estou a pensar fazer uma guerra mundial para ver se voltam a recuperar os grandes princípios e ideais europeus. É matemático.»

23.12.15

Quem fala assim não é gaga



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Pedro Tamen: Não Digo do Natal



Não digo do Natal – digo da nata
do tempo que se coalha com o frio
e nos fica branquíssima e exacta
nas mãos que não sabem de que cio

nasceu esta semente; mas que invade
esses tempos relíquidos e pardos
e faz assim que o coração se agrade
de terrenos de pedras e de cardos

por dezembros cobertos. Só então
é que descobre dias de brancura
esta nova pupila, outra visão,

e as cores da terra são feroz loucura
moídas numa só, e feitas pão
com que a vida resiste, e anda, e dura.

Pedro Tamen, in Antologia Poética 
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Cavaco Silva. Aguente, aguentem!



E veja-se AQUI quanto tempo falta para o adeus.
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Esta não é a minha praia


O Orçamento Rectificativo do governo do PS acaba de passar na Assembleia da República com abstenção do PSD e votos contra de BE, PCP, PEV, CDS e PAN. Continuamos no mundo de TINA (There Is No Alternative)? Talvez, mas esta não é a minha praia. 
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O vento de Espanha



«O bipartidarismo implodiu, mas não desapareceu. Há em Espanha uma sensação de ingovernabilidade, mas a chegada do Podemos serviu para que a questão da corrupção passasse a ser vista com outros olhos e a do Ciudadanos permitiu que a ilusão autonómica (sobretudo na Catalunha) tivesse de descer à terra. PP e PSOE ganharam, mas perderam.

Notícias do solstício de Inverno que chegou mais cedo a Espanha. Mas não deixa de ser curioso como Espanha e Portugal estão hoje ligados como ramos da mesma árvore ibérica, da mesma crise europeia, da mesma divisão Norte/Sul. O discurso vencedor de Mariano Rajoy parecia fotocopiado do de Passos Coelho na noite da vitória. Talvez cortesia do PPE, que manda um resumo para todos os partidos irmãos. Ganhámos, mas sem maioria, mas devemos ser chamados para governar.

Rajoy, como Passos Coelho, será. Mas que fará com a sua vitória, se a direita urbana, muito semelhante ao nosso PP (do Ciudadanos), não tem deputados suficientes para lhe dar conforto parlamentar? O PSOE, com o resultado mais magro possível, consolou-se à sua maneira. Mas ficou refém do Podemos, o único partido que efectivamente ganhou, e que agora vive um momento de decisões estratégicas leninistas: como ocupar o poder? PSOE e Podemos estão condenados a destruir-se pelo mesmo território, mas podem tentar um beijo de morte, para imitar a solução portuguesa, que é diferente: o PS continua a ter um poder superior ao BE ou ao PCP.

Nada disto é indiferente para Portugal e para a Europa. A via da austeridade como "solução única" sofreu mais uma derrota no sul. E a Espanha não é Portugal: é uma das economias musculadas da Europa. Se espirrar a contaminação é grande. É aí que António Costa, com a intranquilidade que os resultados de Espanha trazem, poderá ganhar espaço para uma situação melindrosa que tem de gerir. Como se viu no caso do Banif e se verá no problema do défice, da dívida, do OE de 2016 e no Novo Banco. Sem falarmos de outras minas e armadilhas que a "destruição criativa" de Passos Coelhos e dos magos teóricas do pretenso "liberalismo" que tentam enxertar na vida dos portugueses, deixaram como memória e herança.

A Espanha não poderá andar muito tempo numa crise de governação, porque a pressão das autonomias e a fórmula de ajuste externo em forma de ajuda aos bancos não esconde tudo. A grande Natália Correia dizia que "somos todos hispanos". Não se sabe. Mas agora estamos muito próximos de o ser.»

Fernando Sobral

22.12.15

Pelo menos que se salvem estes



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É tudo o que tenho a dizer



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Gedeão - Dia de era bom



Dia de Natal

Hoje é o dia de era bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.


É dia de pensar nos outros- coitadinhos- nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua
miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.

É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
Entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.


De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus
nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso
antimagnético.)


Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.


Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de
cerâmica.


Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.


A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra- louvado seja o Senhor!- o que nunca tinha pensado
comprado.


Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.


Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha,
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.


Ah!!!!!!!!!!

Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.


Jesus
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.


Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.


Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.


Dia de Confraternização Universal,
Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.



António Gedeão
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Dica (188)

O dinheiro tem cheiro


«Portugal tem descoberto, nos últimos anos, que, pelo contrário, o dinheiro tem aromas de difícil remoção. Sentiu isso com o BPN, com o BPP e com o BES. Está agora a entender-se que o Banif não foi, em tempo próprio, sujeito a uma lavagem com sabão macaco. E que agora aí está, para que os portugueses paguem mais uma máquina de lavar roupa suja por mãos invisíveis.

Não deveria ser uma sina. Mas começam a ser demasiadas ilusões estilhaçadas para um país tão pequeno. (…)

As eleições não podem explicar tudo. Ou podem? Passos Coelho, Maria Luís Albuquerque e Carlos Costa não podem simplesmente dizer que Alice vivia no país das maravilhas do Banif e que, por isso, ficaram extasiados com o néon das suas cores.

Vendido por um preço qualquer, a situação a que chegou o Banif representa a falência de um modelo ideológico que acreditava que a auto-regulação era a solução para todos os problemas. Agora, nem Hércules limparia tudo o que ficou escondido debaixo da cama de interesses que não são muito claros.

Pode ter sido uma questão de romantismo medieval a inacção dos responsáveis do anterior Governo e do BdP até há pouco tempo. Só que o dinheiro, nesta era em que é escasso, sai caro aos portugueses e tem cheiro. Como mostra o FMI, quando, abrindo o coração, diz que a reestruturação da dívida deixou de ser um assunto tabu. O Banif foi vendido em saldo. Quase oferecido. Só que o assunto não morre aqui. O banco vive. As culpas não podem morrer solteiras.»

Fernando Sobral

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21.12.15

Espanha: é isto, qualquer que seja o desfecho

Os responsáveis pela morte do 7º banco português



Nicolau Santos, Expresso diário, 21.12.2015.
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Espanha em marcha



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Dica (187)




«Muitos dos responsáveis desta calamidade passam entre os pingos da chuva. Alguns são reciclados para outras prebendas e pavoneiam-se na praça dos interesses. Continuam a achar-se grandes gestores pagos a preço de ouro. Outros vieram encartados pela política para servirem, promiscuamente, interesses estranhos à actividade. Todos se especializaram em capitalistas de passivos.» 
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Banif e não só



«Há um prejuízo ainda não contabilizado gerado pela gestão de Passos Coelho e Paulo Portas, com Vítor Gaspar e Maria Luís Albuquerque, a troika e os ideólogos de serviço em algumas universidades portugueses que tornaram Portugal num laboratório pretensamente liberal.

Mas que nada tem a ver com aquilo que Adam Smith vislumbrava. O rebentamento do "caso Banif" e o que mais se verá a seguir mostram o pântano onde Portugal se foi atolando.

No passado recente Portugal contratou a sua pobreza futura. Não foi uma rosa que Passos legou: foram apenas os seus espinhos. A bomba de efeito retardado está a rebentar nas mãos do novo Governo e dos portugueses. O Banif há muito que deveria ter sido vendido, para evitar este sangramento em praça pública. A célebre "resolução" que Bruxelas e Frankfurt celebraram terá o fim das tristes ideias como Wokfgang Munchau demonstrava esta semana no "FT" quando falava do suicídio de um cliente de um banco italiano que transformou um caso financeiro, num social e político. E, como dizia ele, sendo assim, não há soluções de "resolução" que resistam. A Europa vai ter de mandar às malvas a sua política cega de austeridade. E foi isso que o PSD de Passos não quis ver. E ainda não quer ver. (...)

Afastando-nos dos EUA e aliando-nos apenas às opiniões da Alemanha. Portugal tornou-se periférico, empobrecido económica e culturalmente, e fornecedor de mão-de-obra qualificada para outros países europeus. Pagando os contribuintes portugueses o que os outros contratavam sem formar. Por detrás irrompeu um novo mundo de "negócios" à sombra do Estado, afastado o Dono Disto Tudo.»

Fernando Sobral

20.12.15

Espanha – com o que se sabe até esta hora...


... sobre as eleições de hoje, está a parecer que «nuestros hermanos» vão acabar por pedir a António Costa que vá ensiná-los a fazer uns «acuerdos». Ainda é cedo, mas uma coisa parece certa: o bipartidarismo foi chão que deu uvas.


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Um país em forma de assim

Sinceridade à esquerda



Excertos de um texto de Manuel Loff no Público de 19.12.2015:

«Debate sobre o Estado da Nação na Assembleia da República. Paulo Portas, depois de anos nas vestes de ministro (mais ou menos irrevogável), decidiu voltar a vestir-se de director do Independente – perdão, de deputado da oposição – e quis dar conselhos a António Costa a propósito das greves marcadas pelos estivadores do Porto de Lisboa: “Não pode pedir ali aos camaradas da Intersindical para acabarem com o sindicalismo superagressivo?” Nem vale a pena discutir se Portas sabe que o sindicato que a convocou não é da CGTP porque o seu objectivo é sempre o de culpabilizar quem, no mundo do trabalho, se levanta para defender direitos. A novidade reside, sim, no facto de um Primeiro-Ministro socialista ter entendido a pergunta, não simplesmente como uma provocação, mas como “um insulto à Intersindical, ao PCP e ao Governo”. Mais: que tenha estendido ao universo sindical a tese de que não deve haver excluídos entre aqueles que configuram a representação da vontade democrática: “não aceito que a Concertação Social se faça com as confederações patronais e com uma [só] confederação sindical”, isto é, com a UGT e não com a CGTP (PÚBLICO, 17.12.2015). (...)

Quebrada a regra que impunha que o PS prolongasse indefinidamente a lógica de 1975, há quem se pergunte até que ponto esta viragem seja sincera, quer da parte do PS, quer da parte dos seus parceiros à esquerda. Ora a (in)sinceridade dos atores políticos é uma daquelas discussões que, colocada num campo estritamente moral/filosófico, foge ao essencial: importante é avaliar na prática o que fazem aqueles que participam nos processos de decisão. Não sei se os comunistas e os bloquistas acham sincera a mudança de atitude dos socialistas relativamente a eles, e vice-versa. Sei que a mudança só será real enquanto o cumprimento daqueles acordos se verificar e contribuir para reverter efectivamente o empobrecimento, a depressão social, o desrespeito pelos direitos. (...)

Neste novo quadro, como pode assegurar a sua própria viabilidade um governo que depende de apoios políticos exteriores à sua área política? Garantindo uma relação de confiança entre aqueles cujo apoio é necessário assegurar. Basta que seja verificável a afirmação “nós sabemos que podemos confiar naqueles com quem criámos esta solução de Governo” (Costa, PÚBLICO, 3.12.2015).

Mas não é esta a essência do Estado de Direito? Ou da própria democracia? Não depende a sua qualidade do grau de confiança nas relações jurídicas e sociais? Todos estes anos, desde 2010, de revogação unilateral, por parte do poder político e dos poderes económicos, de contratos, pensões, salários, prestações, direitos, não produziram uma perda de confiança na norma escrita, na palavra do poder? Esta nova experiência política, que não resolverá, seguramente, todos ou sequer a maioria dos problemas económicos e sociais, pode ao menos contribuir para fazer recuar este presidencialismo do Primeiro-Ministro que Cavaco inaugurou em 1985 e que todos os seus sucessores (Guterres menos que os demais) quiseram imitar. Esta arrogância de quem acusa sempre o mexilhão de resistir à onda sem se deixar esmagar. É essencial forçar quem governa a submeter-se à negociação com aqueles que representam interesses diferentes dos seus; com quem representa aqueles que, antes de se verem obrigados a cumprir, têm o direito de serem ouvidos. E de resistir.» 
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