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2.1.16

Mas por que é que Assis e Pacheco Pereira não trocam de partido?

Presidênciais e «Voto Contra»



Certa esquerda (muita) inventou agora um nome diferente para o «Voto Útil»: chama-lhe «Voto Contra». E parece feliz por ter descoberto algo que não existe e por não querer votar no/a candidato/a com que mais se identifica.

Dou um exemplo para que fique mais claro: nas redes sociais, encontra-se um batalhão de gente de esquerda, que gostaria de votar Marisa Matias ou Edgar Silva e que diz que votará Sampaio da Nóvoa «contra» Marcelo Rebelo de Sousa. É não perceber nada do que é a matemática de uma primeira volta de eleições presidenciais e a diferença da realidade numa eventual segunda.

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Junto um texto publicado por Miguel Cardina, hoje, no Facbook:

«Os debates sobre as presidenciais, agora iniciados, mostraram-nos a persistência de um fenómeno político nestas eleições: o populismo. Ele revela-se de múltiplas maneiras: na tónica indistinta na corrupção (Paulo Morais), na reivindicação da capacidade de interpretar diretamente o “sentir do povo” (Tino de Rans), na meritocracia como hipótese de organização social, tendo como paradigma o paleio do empreendedorismo, feito de start-ups bem-sucedidas e frases supostamente inspiradoras (Jorge Sequeira), nos apelos à “independência” como virtude (de Marcelo a Sampaio da Nóvoa).

Importa perceber que o populismo não é (apenas) um recurso demagógico. O facto de ele ser mobilizável – ao ponto de organizar o discurso, implícito ou explícito, dos candidatos – resulta da sua capacidade de atração. Hoje, o populismo é sexy. Ou seja, é sexy falar genericamente da “classe política” como coisa à parte, é sexy pegar no conceito de “corrupção” e tomá-lo como uma espécie de pecado primevo, é sexy entender os partidos como sendo todos iguais e acusá-los de constituírem uma corporação de interesses.

O certo é que o populismo tem sido, também, politicamente ineficaz. É verdade que José Manuel Coelho teve quase 5% nas últimas presidenciais e Marinho Pinto surpreendeu nas europeias. Mas mesmo este último - talvez a versão mais promissora do populismo luso - acabou por se afundar eleitoralmente nas últimas legislativas. Para além da inexistência de um líder carismático (que surge sempre, havendo as circunstâncias), em Portugal a “hipótese populista” tem falhado porque não tem conseguido afirmar dois aspectos essenciais: por um lado, não conseguiu criar espaços alternativos à intermediação política (parlamento, partidos, sindicatos), que pudessem ser receptáculo e amplificação do seu discurso; em segundo lugar - sobretudo pela importante presença social das esquerdas, mas também pela inexistência dos tais espaços políticos que o conformem – o populismo, nas suas diferentes emanações, tem sido incapaz de articular um discurso moral sobre a crise que seja externo, e até antagónico, a um discurso político sobre a crise.

E a verdade é que - mesmo sem grande sucesso eleitoral e sem grande capacidade de construir lastro político – o populismo tem alimentado candidaturas. Porquê? Porque é o discurso que conjuga, como nenhum outro, denúncia e despolitização. É o discurso confortável que permite criar um “exterior” da política, que seria o lugar habitado pela autenticidade e pela defesa do bem comum, e o “interior” da política, habitado por uma classe indistinta de oportunistas mancomunados. Tornar a política mais politizada é um caminho, não só para conter o populismo, mas também para dar consistência às formas de denúncia às desigualdades e às injustiças.»
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Dica (192)




«Não, não é verdade que “duas pessoas sérias com a mesma informação têm de concordar”, porque senão não havia a diferença que faz a democracia. E o problema destas mistelas ideológicas com a “realidade” é que põem em causa a democracia, são a forma pós-crise actual do autoritarismo.»
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Boliqueime espera por ti


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A esperança espanhola



Manuel Loff no Público de hoje:

«E vão três! Durante o ano que acabou, os três países da Europa do Sul que foram sujeitos a políticas radicais de austeridade neoliberal, em geral desenhadas entre Bruxelas, Frankfurt e Nova Iorque, viram os seus governos serem largamente derrotados pelo voto popular. Em Janeiro, na Grécia; em Outubro, em Portugal; há duas semanas atrás, em Espanha. Em todos os casos confirma-se uma forte viragem à esquerda. (…)

A austeridade neoliberal imposta à Espanha ao longo dos últimos cinco anos (o primeiro dos quais, como em Portugal, a cargo do governo socialista de Zapatero) sustentou-se em três tipos de instrumentos, cujo peso relativo é diferente nos casos português e grego. Em comum aos três casos, uma aposta demasiado óbvia em fazer pagar aos mais pobres e aos assalariados os custos de uma globalização feita para encobrir o aventureirismo financeiro, espécie de estádio final da desfaçatez do capitalismo, e para accionar o mais potente dos aspiradores que têm promovido, desde há 40 anos, uma concentração sem paralelo da riqueza. No caso espanhol, o governo de Rajoy (um desses dirigentes da direita, tão incaracterístico quanto Passos e Samaras, a quem nestes países se recorreu para desempenhar este papel) sujeitou a Espanha a um programa duríssimo de cortes nos programas sociais e nos salários das administrações públicas (quer a gerida pelo governo central, quer as que dependem das Comunidades Autónomas) e de precarização generalizada da contratação, que fez do país um caso excepcional à escala europeia e de desvalorização do valor económico e simbólico do trabalho.

O segundo dos instrumentos é uma consequência da intensidade do primeiro: nenhum outro governo europeu (com a eventual excepção do húngaro) respondeu ao protesto social com semelhante dose de violência policial. (…)

Reduzido à irrelevância política o novo fenómeno nacionalista espanhol dos Ciudadanos, tornada impossível uma maioria de direita entre estes e o PP, aos socialistas espanhóis abre-se agora a possibilidade de seguir o modelo português, isto é, o de uma negociação à esquerda que permita dar passos decisivos na resolução, quer da questão social (revogar a legislação neoliberal toda, revalorizar o trabalho, recompensar os milhões de espanhóis que pagaram o preço da austeridade), quer da questão nacional, abrindo um processo de negociação com a Catalunha que passa forçosamente pela revisão da Constituição. O problema para os socialistas é que, como eles gostariam, não lhes basta virar à esquerda na política social para conseguir uma maioria no Parlamento: têm mesmo de obter o apoio (ou, pelo menos, a tolerância) dos independentistas catalães (com 17 dos 350 deputados), o que os levaria a quebrar alguns dos tabus estruturais da política espanhola e discutir um novo modelo de Estado. Ao contrário do que com grande ligeireza e patetismo se tem descrito (quer em Espanha, quer por cá, por exemplo), uma tal evolução nada tem a ver com os espantalhos do desmantelamento da Espanha ou da sua balcanização. Tem a ver, isso sim, com uma esperança muito intensa na mudança, na vontade de resolver problemas que parecem bloqueados. De, uma e outra vez, negar que não haja alternativas.» 
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1.1.16

Por supuesto


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No 53º aniversário da Revolta de Beja



Há três anos, por ocasião do 50º aniversário do Golpe de Beja, 23 participantes elaboraram um texto, pouco conhecido, e que divulgo de novo. Como afirmam, o objectivo foi «contribuir para resgatar a “memória apagada” dessa efeméride, remetida como está para o limbo dos acontecimentos avulsos, insignificativos; situação, aliás, em consonância com muitas outras relativas à memória da resistência antifascista».

«Os subscritores, participantes sobrevivos da Revolta Armada de Beja – cujo quinquagésimo aniversário ocorre no próximo 1º Janeiro – pretendem, através da divulgação pública desta evocação, contribuir para resgatar a “memória apagada” dessa efeméride, remetida como está para o limbo dos acontecimentos avulsos, insignificativos; situação, aliás, em consonância com muitas outras relativas à memória da resistência antifascista; e em contraste flagrante com o desvelo comemorativo dedicado ao chamado Estado Novo, seus personagens e afins.

Na realidade, o combate e a resistência contra a ditadura e o fascismo em Portugal, constituíram um processo histórico contínuo ao longo de metade do séc. XX. Nesse processo insere-se a Revolta de Beja...porque aconteceu e ficou selada em sangue e morte. A sua importância e significado são-lhe conferidos pelo fluxo histórico no seu todo. Não foi um episódio isolado, fora do contexto da luta comum do povo português pela libertação de um regime ditatorial.

Com efeito, no caso da Revolta de Beja, é fácil estabelecer a sua ligação orgânica com o grandioso movimento de massas/levantamento popular provocado pelas eleições presidenciais em 1958; vindo a ser, exactamente, o general Humberto Delgado o impulsionador da Revolta de Beja e, como tal, figurando em 1º lugar na lista dos 87 incriminados pronunciados para julgamento no Tribunal Plenário Fascista.

Na sequência imediata da Revolta de Beja, eclodiu em Março desse mesmo ano de 1962, a revolta estudantil de maiores proporções contra o regime; o 1ºde Maio desse ano foi assinalado pelos trabalhadores e outros sectores da população com a maior força e amplitude de sempre. E o processo histórico continuou, já com a guerra colonial, por mais 12 anos, até 1974.

Tem sido prática corrente, após o derrubamento do fascismo até aos dias de hoje, minimizar a importância e o significado da Revolta de Beja. Obras antigas e recentes, de pretensa intenção histórico/cronológica, nem sequer anotam o acontecido. Mas bastaria ter consultado a imprensa da época para ver em grandes parangonas a dimensão do impacto e do sobressalto que provocou no País e além-fronteiras. O ditador tão emocionado ficou (citando) “com os acontecimentos das últimas semanas” que perdeu a voz e alguém teve de ler-lhe o discurso na sessão da Assembleia Nacional de 3 Janeiro; e cancelada teve de ser a costumada manifestação de desagravo.

Mas não serão certamente a contrafacção histórica ou a posição negacionista, até hoje dominante, que conseguirá alterar o significado patriótico/cívico/ético da Acção Revolucionária de Beja; que conseguirão apagar no registo da história o facto de “ter acontecido”; que abalarão as convicções e o orgulho, mantido sempre enquanto houve/houver alento pelos revoltosos de Beja, por terem dado corpo e presença e não terem recuado na hora de confirmação.

A 50 anos de distância temporal, neste ensejo evocativo os abaixo-assinados sentem-se felizes por poderem afirmar que a Revolta Armada de Beja insere-se, com honra, no processo histórico de luta e resistência do Povo Português contra a ditadura e o fascismo.

Simultaneamente, manifestam óbvia solidariedade, respeito e admiração, para com todas as outras “memórias apagadas”, por idênticos e obscuros propósitos de desvalorização do historial da resistência antifascista portuguesa.

Resta portanto, aos resistentes sobreviventes da Revolta de Beja saírem em defesa da causa pela qual empenharam as suas vidas, que continua a ser a Causa da Liberdade pela Justiça Social, a qual, neste século XXI, corresponde a ser a Causa contra o retrocesso civilizacional, contra o neoliberalismo que retira todos os recursos da economia real para entregá-los ao capital financeiro, avassalando o mundo e ameaçando o destino das gerações vindouras. 

Assim foi aqui feito,
Evocando o Cinquentenário da Revolta Armada de Beja.
Em Lisboa, na última semana do ano 2011

Airolde Casal Simões / Alexandre Hipólito dos Santos / Alfredo da Conceição Guaparrão Santos / António da Graça Miranda / António Pombo Miguel / António Ricardo Barbado/ António Vieira Franco/ Artur dos Santos Tavares / Delmar Silva / Edmundo Pedro / Eugénio Filipe de Oliveira / Fernando Rôxo da Gama / Francisco Brissos de Carvalho / Francisco Leonel Rodrigues Francisco Lobo / João Varela Gomes / José Duarte Galo / José Hipólito dos Santos / Manuel da Costa / Manuel Joaquim Peralta Bação / Raul Zagalo / Venceslau Luís Lopes de Almeida / Victor Manuel Quintão Caldeira / Victor Zacarias da Piedade de Sousa 
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Um ritual das manhãs de 1 de Janeiro



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Os discursos de Ano Novo do inefável Américo Tomás



Um dos rituais imperdíveis de cada primeiro dia do ano era ouvir o discurso que o presidente da República dirigia ao país, se bem me lembro por volta da hora do almoço. Nunca desiludia: havia sempre um cunho bem filosófico, como neste de 1 de Janeiro de 1966:

«Decorreu célere, como os que o precederam, o ano que acabou de sumir-se na voragem do tempo. Outro o substituiu, para uma vida igualmente efémera. Nesta mutação constante, afigura-se haver agora um fenómeno de visível incongruência, pois, quando tudo se processa a ritmo que se acelera constantemente, pareceria lógico que de tal circunstância resultasse um aparente alongamento no tempo e não precisamente o inverso. Se sempre o presente, mal o é, se torna logo em passado, nunca, como nos nossos dias, tão evidente verdade pareceu mais evidente.»

E quem ousaria desmentir isto?

«À medida que a população aumenta, vai aumentando, também, a maldade; e tudo seria diferente se, em vez de aumentar a maldade, aumentasse a bondade.» (1 de Janeiro de 1969)

No mesmo comprimento de onda, pode-se ouvir aqui, na voz do próprio, o que disse em 1 de Janeiro de 1965.

Logo teremos… Cavaco Silva. Pela ÚLTIMA vez!!!! 
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Se é para desejar um bom ano...


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31.12.15

Entrem em 2016 com o pé esquerdo



Não se enganem. Bom Ano!
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Vemos, ouvimos e lemos



Há 47 anos, Francisco Fanhais cantou pela primeira vez a Cantata da Paz, com letra de Sophia Melo Breyner, numa vigília contra a guerra colonial. Relembrar aqui:


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Amicum ex machina



Ricardo Araújo Pereira na Visão de hoje: 

«Sem querer menosprezar a imaginação de Walt Disney, creio que o mundo de José Sócrates tem mais fantasia. (…) As personagens de Walt Disney vivem num mundo de fantasia, no qual o dinheiro não tem o valor que lhe damos na vida real, ao passo que Sócrates vive num mundo muito parecido com o nosso, mas onde o dinheiro também não tem o valor que lhe damos na vida real. (…)

Sócrates vive num mundo de fantasia porque tem um amigo fantástico. A explicação parece um deus ex machina mas não é. É um amicum ex machina.»

Na íntegra AQUI.
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O grande mal-estar continua



Um importante texto de Joseph E. Stiglitz.

«O ano de 2015 foi globalmente difícil. O Brasil entrou em recessão. A economia chinesa registou os seus primeiros solavancos sérios depois de quase quatro décadas de crescimento alucinante. A Zona Euro conseguiu evitar um desmoronamento à conta da Grécia, mas manteve-se numa situação de quase-estagnação, contribuindo para o que seguramente será visto como uma década perdida. Para os Estados Unidos, 2015 era suposto ser o ano que finalmente viraria a página da Grande Recessão que teve início em 2008, mas, em vez disso, a retoma norte-americana tem sido mediana. (…)

A estrutura económica desta inércia é fácil de compreender e existem remédios facilmente acessíveis. O mundo confronta-se com uma deficiência da procura agregada, resultante da conjugação de uma desigualdade crescente e de uma insensata vaga de austeridade orçamental. Os que estavam no topo gastaram muito menos do que aqueles que estavam no fundo – e, por isso, à medida que o dinheiro sobe, a procura desce. E países como a Alemanha, que mantêm excedentes externos de forma consistente, estão a contribuir significativamente para o problema-chave da insuficiência da procura global. (…)

A única cura para o mal-estar mundial reside no aumento da procura agregada. A ambiciosa redistribuição de rendimentos poderia ajudar, tal como uma profunda reforma do nosso sistema financeiro – não só para evitar que este penalize as restantes pessoas como também para conseguir que os bancos e outras instituições financeiras façam aquilo que é suposto fazerem: fazerem corresponder as poupanças de longo prazo com as necessidades de longo prazo em matéria de investimento.

Mas alguns dos problemas mundiais mais importantes exigirão investimento dos governos. Essas despesas públicas são necessárias em infra-estruturas, educação, tecnologia, ambiente e facilitação das necessárias reformas estruturais em todos os cantos do mundo.

Os obstáculos com que a economia global se confronta não têm as suas raízes na economia, mas sim na política e na ideologia. O sector privado criou a desigualdade e a degradação ambiental com que temos agora que contar. Os mercados não conseguirão, por si só, resolver estes e outros problemas críticos que criaram nem devolver a prosperidade. São necessárias políticas governamentais activas. (…)

Os optimistas dizem que 2016 será melhor do que 2015. Isso até pode vir a acontecer, mas só de forma imperceptível. Se não solucionarmos o problema da insuficiente procura agregada global, o Grande Mal-Estar vai continuar.» 
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Sim, eu apoio a Marisa Matias



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30.12.15

2016 é bissexto? Sim, é


  • São bissextos todos os anos múltiplos de 400.
  • São bissextos todos os múltiplos de 4 e não múltiplos de 100.
  • Não são bissextos todos os demais anos.
Outra formulação:
  • De 4 em 4 anos é ano bissexto.
  • De 100 em 100 anos não é ano bissexto.
  • De 400 em 400 anos é ano bissexto.
  • Prevalecem as últimas regras sobre as primeiras.
(Daqui)

Aretha Franklin, com 73, há 3 semanas




(Daqui)
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Idiotia e Felicidade



Este texto de Alexandre O'Neill foi escrito há mais de 30 anos, mas qualquer semelhança com a actualidade não é pura coincidência.

«Como pode ser-se idiota e, ao mesmo tempo, feliz, pergunta-me um leitor? Pois explico já. A idiotia e a felicidade são ideias muito vagas, difíceis de cingir em conceitos de circulação universal, digamos. Mas, pensando melhor, acho que certa idiotia é susceptível de conferir ao idiota seu proprietário (ou seu prisioneiro) uma espécie de segurança em si próprio que o levará, em determinados momentos, julgo eu, a uma beatitude muito próxima do que se pode chamar estado de felicidade. Assim sendo, não vejo incompatibilidade entre o ser-se idiota e o ser-se feliz. Bem sei que há várias maneiras de se chegar a idiota. (...)

Ora, um idiota que é infeliz por saber que é idiota já pode estar a caminho de deixar de o ser. É uma possibilidade. É a tal luz no fundo do túnel, como se disse tantas vezes a propósito da situação económica deste idiota de país.

Não se espante, por conseguinte, o leitor de que um qualquer idiota possa, ao mesmo tempo, ser feliz. É, até, assaz corrente. Há idiotas que se consideram inteligentíssimos, o que é uma forma muito comum de idiotia, e extraem dessa certeza alguma felicidade, aquela maneira de felicidade que consiste em uma pessoa se julgar muito superior às que a rodeiam.
O leitor gostaria de ser ministro ou secretário de Estado? Pois fique sabendo que há quem goste, embora - será justo dizê-lo - também há quem o seja a contragosto, por dever partidário ou patriótico.

Os idiotas, de modo geral, não fazem um mal por aí além, mas, se detêm poder e chegam a ser felizes em demasia podem tornar-se perigosos. É que um idiota, ainda por cima feliz, ainda por cima como poder, é, quase sempre, um perigo.
Oremos.
Oremos para que o idiota só muito raramente se sinta feliz. Também, coitado, há-de ter, volta e meia, que sentir-se qualquer coisa.»

Alexandre O'Neill, Uma Coisa em Forma de Assim, 1980 
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Um país de barba rija



Mulheres? Não existem.
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16 anos de enjoos



«O ano termina com uma boa notícia. 16 anos depois, Portas sai da liderança do CDS. Foi a sua resolução de ano novo e um dos meus desejos quando mordi uma das velas no meu aniversário.

O anúncio foi feito segunda-feira na comissão política, mas claro que ninguém acreditou e toda a comissão política pensou que na terça já ia ser diferente. Mas não. Tudo indica que agora é mesmo verdade, o PP vai perder as iniciais. O partido com o ferro de Paulo Portas vai perder o ganadeiro. Poucos políticos conseguiram ter um partido com as mesmas iniciais que tinham nas cuecas ou nas meias em crianças. Um partido botão de punho. (…)

Recordar que Paulo Portas começa carreira no jornalismo com nojo da política e que termina a carreira de político sem enjoos. Muitas vezes nos questionámos, aqui no café ao pé de casa, o que diria o Independente dos submarinos. Ou do Irrevogável. Portas seria o Cavaco de Portas do Independente.

Portas, qual Luís Filipe Vieira, quer apostar nas novas gerações, na formação das escolas do PP. Nuno Melo pode ser aposta. Entra na categoria nova geração pois, apesar do cabelo branco, quando abre a boca fala como um miúdo de quinze alcoolizado. Para Nuno Melo, a política é uma viagem de finalistas.

Outra potencial candidata das oficinas do PP é Assunção Cristas. Representa um lado mais beato do PP já a roçar o CDS. Só o nome – Assunção Cristas – deve valer votos dos mais crentes. Há igrejas e cultos com nomes menos capazes. Dizem alguns fãs do ex-Governo que Assunção pode ter o voto dos agricultores, ou seja, para aí umas setenta pessoas. Assunção ficou famosa, enquanto ministra da Agricultura, por ter rezado a Deus para acabar com a seca e por ter ficado grávida. E uma coisa não teve nada a ver com a outra.

Pedro Mota Soares é outro candidato jovem. Ou melhor, uma daquelas pessoas de idade indefinida, como o actor Manuel Marques. Tanto pode parecer ter dezoito anos como cinquenta e dois. De moto é um puto, no Audi do Governo parece um velhinho marreco. Pedro Mota Soares é, provavelmente, o candidato mais queimado na opinião pública. A sua passagem pela Segurança Social faz com que muita gente pense que ele nem mota devia guiar. (…)

Vamos ver quem irá para o lugar de Portas. Aceitam-se apostas. Pelo meu lado, começo este ano com muita fé. Um 2016 sem Paulo Portas e Aníbal Cavaco Silva, seja o que lá vem, a coisa promete. Bom ano.»

João Quadros

29.12.15

Se a moderação pagasse taxa...

Com amigos como Marcelo, o SNS não precisa de inimigos



«Perante as desgraças ocorridas no Serviço Nacional de Saúde em consequência dos cortes determinados pelo Governo PSD/CDS veio Marcelo Rebelo de Sousa afirmar-se um defensor do Estado Social e lembrar que até votou a favor da Constituição.

Deixemos para depois tudo o que o PSD fez para torpedear a entrada em vigor da Constituição e as tentativas golpistas que fez para a revogar por via referendária e fiquemos para já por Marcelo e pelo SNS.

Era Marcelo o líder do PSD, em 1996 e 1997, quando decorreu a IV revisão constitucional. O Projecto do PSD propunha nada menos que a eliminação da gratuitidade tendencial do Serviço Nacional de Saúde (já a transformação da gratuitidade em tendencial tinha sido proposta pelo PSD na revisão de 1989 e aceite então pelo PS). Em 1996 o PSD pretendia acabar com a gratuitidade, mesmo que tendencial.

Essa proposta do PSD foi amplamente debatida na Comissão Eventual de Revisão em 25/09/1996 e foi aí rejeitada pelo PCP e pelo PS em 14/05/1997 após um debate em que o PSD (pela voz de Marques Guedes) a defendeu energicamente.

Em plenário, o CDS fez sua a proposta do PSD, que foi votada favoravelmente pelo PSD e pelo CDS e rejeitada pelo PCP e pelo PS, não tendo obtido a necessária maioria de dois terços.

Marcelo Rebelo de Sousa era líder do PSD, que pretendia eliminar da Constituição a gratuitidade tendencial do SNS. Tão amigo que ele é agora do Estado Social.»

António Filipe, deputado do PCP, ontem no Facebook.
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Dica (191)




«Desculpem, mas não há peru, rabanadas e lampreias de ovos que me façam passar o engulho da factura que neste final do ano veio parar outra vez aos bolsos dos contribuintes por mais um banco que entrega a alma ao criador, no caso o Banif, no caso mais 3 mil milhões. É de mais, é inaceitável, é uma ignomínia para todos os que estão desempregados ou caíram no limiar da pobreza por causa desta crise e mais uma violência brutal para os que continuam a pagar impostos (e que são apenas cerca de 50% de todos os contribuintes).» 
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A ideologia e a realidade



«À guisa de brinde de fim de ano, Cavaco Silva decidiu oferecer-nos mais uma pérola na intervenção que fez, na semana passada, no encerramento do Conselho da Diáspora. "Observando a zona euro”, disse o PR, “verificamos que a governação ideológica pode durar algum tempo, faz os seus estragos na economia, deixa facturas por pagar, mas acaba sempre por ser derrotada pela realidade".

O tópico é um dos temas fetiche de Cavaco Silva, mas é significativo que, em fim de mandato, o PR queira sublinhar o pouco que evoluiu ao longo da sua vida política. Para Cavaco, existe uma única maneira de ver o mundo e de tomar decisões, uma única maneira de pensar e de sentir, uma única perspectiva possível, um único interesse possível, um único objectivo possível, uma única atitude: a sua. Ele marcha bem, os outros marcham mal. Como o próprio explicou uma vez, Cavaco acha que duas pessoas que possuam a mesma informação não podem deixar de decidir a mesma coisa. Não querendo atrever-se a afirmar que a sua ideologia e que os seus interesses são melhores que os outros, Cavaco coloca-se, como sempre fez, fora do mundo, acima do mundo, acima da política, acima da ideologia. As suas opiniões não são opiniões, são factos. Ele não é político, não é ideológico, não defende interesses particulares. Os outros sim. A sua política é a política que é, a dos outros a política que não pode ser. Ele é… Deus.

Para Cavaco, a realidade impõe todas as escolhas e a política poderia reduzir-se a um programa de computador, alimentado pela informação relevante. Para Cavaco não há várias escolhas possíveis porque a realidade proíbe as escolhas. Cavaco é figadalmente contra a democracia, contra a possibilidade de escolher. A própria ideia de escolha e de vontade é infantil, impossível. E, quem tenta escolher, quem tenta moldar o presente e o futuro de acordo com a sua visão do mundo e a vontade dos cidadãos, choca contra a brutal violência da realidade, deixando “facturas por pagar”. Para Cavaco, a Natureza tem horror às escolhas. Cavaco finge que não sabe que cada um de nós tem interesses e desejos diversos, que diferentes grupos sociais têm diferentes visões e objectivos. Cavaco quer convencer-nos de que a política consiste em fazer sempre o jogo do mais forte, da “realidade”, em nunca tentar escolher. Cavaco é um colaboracionista na alma, sempre obedecendo ao mais forte e tentando convencer-nos a obedecer também, a nunca pensar, a não desejar.»

José Vítor Malheiros

28.12.15

Et maintenant, que vais-je faire

Boas Entradas antecipadas


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E Marcelo também vai lá chegar?


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Dica (190)



Desistências presidenciais. (Francisco Louçã) 

«Se algum candidato ou candidata desistir, é porque quer favorecer a vitória de Marcelo Rebelo de Sousa na primeira volta. Como o seu eleitorado é transversal e tem sido um êxito a sua afirmação como “anti-Cavaco” ou pelo menos como “pós-Cavaco”, quem quer que se retire, deixando de polarizar votos, favorece a abstenção, perde votos até para Marcelo e só ajuda marginalmente outros candidatos … que demonstraram que são incapazes de ser suficientemente polarizadores por si mesmos, ou seja, que se mostram derrotados.

Mais vale que se trate a ideia da desistência como ela merece: os únicos candidatos que são pressionados a desistir pelos eleitores da sua própria área são os do PS, porque as suas candidaturas não definiram um campo forte nas eleições presidenciais. Esses eleitores sentem que o PS desistiu das presidenciais. É um erro pensar que algum acontecimento mágico vai resolver o problema criado pelo seu fracasso. Mais vale que os candidatos e candidatas deitem as mãos à obra.» 
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Tempo de brindes e favas



«Há uma tradição que se perdeu. Os bolos-reis deixaram, talvez por não ser politicamente correcto, de ter brindes e favas. Ou talvez porque os brindes deixaram de sair aos portugueses. E estes só têm de se contentar com favas sucessivas: são eles que pagam sempre os desvarios alheios.

Neste Natal após a "saída limpa", que agora parece ter sido uma "saída encardida", a fava maior foi a do Banif, óptima para pensarmos na consoada sobre o que não desejaríamos para Portugal nem em 2016, nem nos próximos anos. Sobretudo não desejaríamos que a elite fosse económica com a verdade. E que a partilhasse. Algo que só faz no momento de aumentar impostos e de pedir mais sacrifícios a um país pobre. A fava do Banif saiu ao novo Governo, porque o anterior preferiu, com a militante ajuda do Banco de Portugal, apresentar apenas brindes. (…)

O último momento de humor foi da responsabilidade de Cavaco Silva que veio dizer que "observando a Zona Euro, verificamos que a governação ideológica pode durar algum tempo, faz os seus estragos na economia, deixa facturas por pagar, mas acaba por ser derrotada pela realidade". Julgar-se-ia que Cavaco estava a disparar na direcção do Governo de Passos Coelho, o mais ideológico desde o de Vasco Gonçalves, mas não. Os seus alvos são os gregos e, presume-se, António Costa. Há quem não entenda que o pragmatismo é uma fava.»

Fernando Sobral

27.12.15

Dica (189)





«“Vamos fazê-lo como apoio ao programa anti-austeridade [do Governo português]. Estamos a criar uma coligação anti-austeridade por toda a Europa”, disse Jeremy Corbyn ao MorningStar.

“O Governo grego passou por um período terrível e o Banco Central Europeu tratou-o de forma vergonhosa. O caso mais interessante na Europa é agora o do Governo português e o seu programa anti-austeridade”, comentou ainda o líder trabalhista.» 
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Alípio de Freitas – RTP2, hoje, pelas 21:30



Documentário sobre Alípio de Freitas

Para lá da personagem que lutou, o filme é um espaço de encontro e diálogo com a pessoa de Alípio que continua ainda hoje a combater, porventura usando ferramentas diferentes, mas movido pela mesma perseverança.Em Portugal era padre, no Brasil foi revolucionário. Alípio de Freitas mudou-se de Bragança para São Luís do Maranhão em 1957. Deixou a pobreza para viver no meio da miséria. O golpe militar de 1964, que depôs João Goulart, afastou o padre português da igreja e aproximou-o dos comunistas. Zeca Afonso dedicou-lhe uma canção, depois de ele ter sido preso e torturado em 1970. O realizador Tiago Afonso ouviu as suas memórias e os seus ideais. Alípio continua a combater, mas agora usa outras armas.

(Daqui)


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Acudam à direita que a matam!



Uma «pérola» de Rui Cardoso Martins, no Público de hoje.

«Defenestrada a PàF do Palácio do Governo, sequestrado o PS pela, ai que horror Virgem Santíssima, esquerda comunista, só faltava a Paulo Vírgula Portas um novo submarino a explodir na cara dos portugueses: o Banif.»


Na íntegra AQUI.
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O ano em que tudo mudou



Vale muito a pena ler o texto de São José Almeida no Público de hoje. Uma espécie de resumo da matéria, não dada mas vivida.

Excertos:

«Se há um ano lhe dissessem que Pedro Passos Coelho ganhava as eleições legislativas de 2015 e que António Costa as perderia, acreditava? E se lhe acrescentassem que Passos tomaria posse como primeiro-ministro para, passados 12 dias, cair no Parlamento perante uma moção de rejeição do programa de Governo apresentada pelo PS e aprovada com o voto favorável do BE, do PCP e do PEV, daria uma gargalhada de incredulidade? E se lhe assegurassem que horas antes da votação o PS assinou com o BE, o PCP e o PEV, acordos bilaterais, abriria a boca de espanto? E se lhe avançassem em seguida que, apesar de o PS ser o segundo partido no ranking eleitoral, Costa seria empossado primeiro-ministro e o seu programa de Governo salvo no hemiciclo pelo BE, pelo PCP e pelo PEV, da moção de rejeição apresentada pelo PSD e pelo CDS, escangalhava-se a rir?

Pois é. Sem que ninguém sequer imaginasse possível, 2015 foi um ano cheio no domínio da política e nem as mais ousadas previsões conseguiram antecipar a reviravolta que o país viveu. Uma reviravolta que não é apenas formal e reduzível a jogos partidários e parlamentares, representa um corte real com uma maneira de fazer política e uma alteração estrutural no modelo de funcionamento do sistema político português.

De um momento para outro, a forma de funcionar da política institucional mudou. Há quem atribua a viragem a uma necessidade de sobrevivência política e à fome de poder do líder do PS. Mas a facilidade com que Costa o fez indicia que houve uma ruptura mais profunda e que o secretário-geral dos socialistas apenas surfou a onda que já estava em formação. Isto é, que a radicalização à direita que representou a governação do Governo conjunto do PSD e CDS, provocou a resposta à esquerda e abriu espaço a uma mudança no PS que possibilitou o entendimento deste partido com as formações da extrema-esquerda parlamentar. (…)

Quando se viu perder eleições e apenas com 86 deputados (em 2001 tinha tido 74), Costa olhou em volta e avançou para abrir um caminho até então nunca realmente tentado, um acordo à esquerda. Mas ao nível do que é a mudança de regime não basta a disponibilidade de António Costa para fazer história, ou segundo outras análises, a sua vontade de ser poder a todo o custo. Há um factor decisivo: a disponibilidade do PCP para permitir que o PS seja Governo. (…)

Depois de ter sido ultrapassado pelo BE e pelo CDS em número de deputados, ainda que a CDU tenha ganho mais um mandato parlamentar, num total de 17, para obter os seus objectivos estratégicos, o PCP alterou a sua posição táctica e estendeu a passadeira vermelha a Costa. E até o PEV, que ocupa dois dos mandatos conquistados pela CDU ganhou o protagonismo de assinar um acordo com o PS.

Determinante para a solução de Governo do PS com apoio à esquerda no Parlamento foi a anuência do BE. Aliás, a forma como o Bloco de Esquerda deu a volta por cima é um dos acontecimentos políticos do ano. Depois de em Novembro de 2014 ter saído dividido do Congresso e com uma solução de liderança fragilizada que apostava numa direcção colegial e em manter Catarina Martins como porta-voz, o Bloco recuperou eleitoralmente, transformando-se no terceiro partido e mais que duplicando o número de deputados passando de 8 para 19. (…)

Um dos momentos em que Catarina Martins marcou pontos na campanha foi precisamente quando, no final do debate televisivo com Costa atirou para cima da mesa a garantia de que o BE apoiaria um Governo do PS mediante três condições: os socialistas deixarem cair a baixa da TSU, o congelamento e novos cortes nas pensões e prestações sociais e o regime conciliatório de cessação de contractos laborais.» 
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