Páginas

9.1.16

Dica (198)




«Susan Sarandon, Vanessa Redgrave e Ai Wewei estiveram junto dos refugiados em Lesbos e Atenas, com mensagens de solidariedade e contra o medo que está a ser semeado na opinião pública internacional.» 
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Boa imagem


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09.01.1908, Simone de Beauvoir



Simone Lucie-Ernestine-Marie Bertrand de Beauvoir nasceu a 9 de Janeiro e faria hoje 108 anos.

Tudo já foi escrito sobre Simone, mas vale talvez a pena recordar o papel decisivo de uma das suas obras: Le Deuxième Sexe. Se esteve longe de ser um manifesto militante ou arauto de movimentos feministas que, em França, só viriam a surgir quase duas décadas mais tarde, a verdade é que os espíritos não estavam preparados para a problemática da libertação da mulher, tal como Simone de Beauvoir a abordou, nem para a crueza da sua linguagem.

As reacções não se fizeram esperar, tanto à esquerda (onde o problema da mulher estava fora de todas as listas de prioridades), como, naturalmente, à direita. François Mauriac escreveu: «Nous avons littérairement atteint les limites de l’abject», Albert Camus acusou Beauvoir de «déshonorer le mâle français».

Esta obra foi certamente uma das maiores «pedradas» que levei como leitora no início da idade adulta. Estudante recém-chegada a Lovaina, com uma mala quase de cartão, ida desta west coast salazaríssima e com dezanove anos – tentem imaginar o cenário. Apanhei então, em cheio, a grande repercussão do livro na Europa francófona.

Para a sua compreensão e consagração terá sido decisivo o sucesso nos Estados Unidos, onde foi publicada em 1953. O movimento feminista, em que Betty Friedman e Kate Millet eram já referências, estava aí suficientemente avançado para a receber. Efeito boomerang: Le Deuxième Sexe «regressou» à Europa no fim da década de 50, com um outro estatuto, quase bíblico, e teve a partir de então uma longa época de glória.

Paralelamente, iam sendo publicadas outras obras da autora, como a trilogia das Memórias – o que mais apreciei de tudo o que dela li e que não foi pouco (Mémoires d’une jeune fille rangée (1958), La force de l’âge (1960), La force des choses (1963)).

Simone de Beauvoir nunca provocou grandes empatias e foi sempre objecto de discussões sem fim sobre a sua importância relativa quando comparada com a de Sartre. Mas, goste-se ou não, estava no centro do Olimpo que Paris era então – quando, no Café de Flore, toda a gente vivia envolta em fumo e Juliette Greco cantava «Il n’y a plus d’après».


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Isto lembra-me a campanha das presidenciais


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O paradoxo das presidenciais



«A pré-campanha da eleição do Presidente da República foi um espectáculo triste. Foi-o pela falta de qualidade do debate político, pela ausência de verdadeira discussão sobre o futuro por parte dos candidatos. Foi-o também pela falta de comparência da comunicação social. Foi notória a ausência de critério jornalístico que seleccionasse, priorizasse e hierarquizasse. Isto para já não falar do absurdo de organizar três frente-a-frente por dia ao longo de uma dezena de dias. O resultado foi uma cacofonia aparentemente democrática, baseada num suposto critério igualitário, que amalgama tudo e todos e funciona como um apelo à abstenção do eleitorado, vencido pelo cansaço e pela inexistência de condições de escolha. (…)

Na democracia pós-25 de Abril, nenhum Presidente foi eleito sem ter origem ou apoio explícito de partidos. (…) Na eleição em curso, a falta de peso dos partidos é determinante para a falta de dinâmica das candidaturas, impossibilitando-as de descolar e impedindo a repetição do confronto esquerda-direita, que se viveu no processo das legislativas. A ausência dos partidos será determinante para o resultado.

À direita, (…) o facto de Marcelo não ser o candidato de Passos e o PSD oficial ter fugido até à última hora, criou uma situação potenciadora da atitude populista de Marcelo de fazer de conta que não quer o apoio do PSD, depois de ter andado longos meses em pré-campanha junto das estruturas do partido a propósito dos 40 anos do partido. (…)

Já à esquerda (…), perante a fuga de Guterres, o PS ficou perdido. E o líder então eleito, António Costa, acabou por informalmente mostrar que apoiaria Sampaio da Nóvoa, o ex-reitor sem origem partidária, mas que se movimentara antes na área política do PS, colaborara com o partido e tinha já o apoio formal de referência dos socialistas como Mário Soares e Jorge Sampaio.

Só que as divisões no PS entre os apoiantes de Costa e os do anterior líder, António José Seguro, acabaram por criar espaço para que a ex-presidente do partido Maria de Belém Roseira sentisse que podia avançar com o seu desejo de ser candidata. Consumou-se assim no plano da eleição presidencial a divisão dos socialistas, acabando por determinar a falta de gás quer da candidatura de Nóvoa, que da de Belém. Por isso a campanha prossegue deslaçada, sem o suporte político consistente que caracterizou anteriores embates presidenciais, mesmo quando havia vencedores anunciados à partida.» 

8.1.16

Dica (197)




«Desde o início, Nóvoa e Rebelo de Sousa escolheram apresentar-se como candidatos de centro, porque é aí que acham que se ganham as eleições. Ora, Nóvoa, que é um homem de esquerda, passou por isso a declarar que a sua candidatura não é de esquerda, ou seja, que ele não é ele. Rebelo de Sousa, que é um homem de direita, passou a declarar que só se sente bem ao centro, ou seja, que ele não é ele. (…)

Ora, com o debate de ontem, Nóvoa teve que se situar à esquerda, o que pode causar engulhos a quem é candidato na área do PS, e Marcelo teve que se situar à direita, o que lhe dá um baço institucionalista que ele queria evidentemente evitar.»
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O Presidente mais popular de sempre, na hora da despedida



Eurosondagem, 08.01.2016
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A Assembleia da República e as suas diferentes maiorias




Um voto de condenação apresentado pelo Bloco de Esquerda sobre a «repressão em Angola» e com um apelo à libertação dos «ativistas detidos» teve os votos a favor do PAN e de seis deputados do PS, a abstenção deste partido e do PEV e os votos contra de PSD, CDS e PCP.

Que disse este último? «O PCP demarcou-se totalmente desta iniciativa do BE, apresentando uma declaração de voto na qual se adverte que outras forças políticas "não poderão contar" com os comunistas "para operações de desestabilização de Angola". Reiterando a defesa e a garantia das liberdades e direitos dos cidadãos, cabe às autoridades judiciais angolanas o tratamento de processos que recaiam no seu âmbito, de acordo com a ordem jurídico-constitucional, não devendo a Assembleia da República interferir sobre o desenrolar dos mesmos, prejudicando as relações de amizade e cooperação entre o povo português e o povo angolano.» E a Coreia do Norte ali à esquina. 
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08.01.1969 – Primeira «Conversa em Família» de um (outro) Marcelo



Quem anda por estas terras já há muito tempo, recorda-se das célebres «Conversas em Família» (foram 16) que Marcelo Caetano dirigiu ao país entre 8 de Janeiro de 1969 e 28 de Março de 1974.

Na primeira, cujo conteúdo os mais interessados podem ler no Diário de Lisboa do dia seguinte, frisou o embaraço do governo para aumentar salários sem desequilibrar o orçamento nem agravar o custo de vida. Nem sei o que diga e o que sinto, a 47 anos de distância: uma sensação (falsa, eu sei) de tempo parado, uma espécie de sina nas linhas traçadas na palma da mão, como cantava Hermínia Silva.

Não encontrei a imagem e o som dessa primeira «Conversa», mas deixo o vídeo da última: em 28 de Março de 1974, já depois do golpe falhado das Caldas, o presidente da Conselho não sabia – e nós também não – que nunca mais teríamos aqueles cinzentos e sinistros serões na sua companhia. Ponto final.


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Tsunami de debates



«Nunca uma campanha para a Presidência teve tanto destaque nos media. Há debates a dois, a três, a cinco, a dez! Três frente a frente à mesma hora em canais diferentes, e não é novela. (…)

Sabendo que até podemos pôr Marcelo a debater com Marcelo, porque Marcelo diz uma coisa e o seu contrário, é difícil apanhá-los em concordância. Podemos tapar o ecrã da TV e jogar Master Mind com os candidatos, que estão em estúdio, a fazer de pinos. Na passada segunda-feira, vi o candidato Tino em dois canais ao mesmo tempo. Se há alguém capaz de parecer omnipresente é o Vitorino de Rans. Cansa. "Qual é a sua maior referência?" "Ramalho Eanes." "Porquê?" "Porque sim."

Não sei se é boa ideia esta dose maciça de debates. Corremos o risco de o próximo Presidente chegar ao primeiro dia de mandato com o estado de graça já gasto. Todos mais fartos dele do que do anterior ao fim de um ano. Apanhamos uma dose tão grande de debates com esta gente que, no dia das eleições, ganha o Cândido Ferreira porque se baldou aos debates todos. (…)

Preferia que os debates fossem em eliminatórias. Por exemplo, Marcelo-Tino a eliminar. Um mata-mata. Um candidato popularucho e o Tino de Rans. Ou um Paulo Morais contra a cadeira vazia de Cândido Ferreira. Tanto fazia, porque o Paulo Morais só ia lá falar da corrupção. (…)

Fazendo um ponto da situação, ninguém está verdadeiramente feliz com os candidatos à Presidência. Claro que damos desconto porque é para ir substituir Cavaco Silva. É como se nos tivessem estado a fazer tratamento de canais e agora chegámos à fase em que só temos de escolher de que cor queremos a massa. Naqueles momentos em que vemos Jorge Sequeira, com óculos de soldar, a fazer trocadilhos e inversões com a língua portuguesa - a demo-cracia não pode ser do demo. A democracia não é obra do demónio, mas do povo. Uma povocracia , conseguimos suportar quase sem crítica porque nos lembramos das vacas que sorriem e dos bancos que estão sólidos.»

João Quadros

7.1.16

Dica (196)




«The upcoming referendum on the United Kingdom’s continued membership in the European Union, almost certain to be held this year, could turn out to be yet another major catastrophe to hit Europe. If, as seems increasingly plausible, British voters chose to leave, the result would be a profoundly destabilized EU – and a shattered UK.» 
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O combate real ao crime imaginário



Ricardo Araújo Pereira na Visão de hoje:

«Na semana passada, a Polícia de Segurança Pública emitiu um alerta contra certos alertas. Parece que o Facebook está cheio de mensagens que aconselham as pessoas a prevenirem-se em relação a crimes que, na verdade, não existem, e a PSP vê-se na obrigação de combater agora o crime imaginário. (…)

Uma das histórias fictícias que passam por verdadeiras nas redes sociais conta que um homem, primo de vários utilizadores do Facebook, passeava tranquilamente pelas ruas de São Mamede de Infesta quando, sem querer, esbarrou com uma senhora vestida de burca, que por causa disso deixou cair a carteira. Quando o homem apanha a carteira e a devolve à mulher, ela fica tão sensibilizada com aquela simpatia que lhe deixa um aviso: “Não passe o ano na Baixa do Porto, pois está em preparação um ataque terrorista”. Alertar para a hora e o local dos atentados é, neste momento, a gorjeta dos muçulmanos imaginários.»

Na íntegra AQUI.
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Até o mítico Flórida já é chinês!

Portugal a cores



«Numa campanha digna da televisão a preto e branco, o candidato presidencial Edgar Silva tirou da cartola uma das frases que a marcarão: "O país não precisa de um Cavaco Silva a cores." Falava de Marcelo, claro, numa altura em que o tempo começa a ser curto para aqueles que necessitam de convocar o candidato favorito para uma segunda volta. É esse o jogo de Sampaio da Nóvoa e Maria de Belém, à espera que o seu discurso demasiado táctico tenha como resultado aquilo com que fazem os habitantes do deserto: olham para o céu à espera de uma chuva que os venha salvar. Para isso precisam de destruir os rivais importunos, coisa que não têm feito com precisão letal, para defrontar um Marcelo que parece exorcizar a direita. A retórica tem sido medíocre, mas o problema é que a campanha revela como o rei vai nu. (…)

Vivemos um tempo de fim de impasse e estamos na véspera de rupturas importantes. Depois de quatro anos de austeridade que transformaram o país numa comédia triste dos "jornais de actualidades" dos anos 1930 e 1940, o país precisa realmente de trocar o preto e branco pelas cores. E aí a frase de Edgar Silva diz mais do que o simples remoque a Marcelo e a Cavaco. Portugal precisa de colorir o seu futuro, com sonhos no meio da realidade da dívida que o cerca.»

Fernando Sobral

6.1.16

Antes que o dia acabe



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Dica (195)




 «Alexis Tsipras insiste que o acordo assinado com os credores não obriga a que a diminuição da despesa com a Segurança Social seja financiada apenas por cortes nas pensões. “Os credores têm de compreender que iremos respeitar à letra o acordo, mas isso não significa que iremos ceder a exigências descabidas”.» 
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Marcelo, o independente


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Nos meandros das presidenciais



Francisco Louçã deu ontem uma excelente entrevista à TVI, na qual falou das próximas eleições presidenciais e não só. Neste curto excerto, aborda o que me interessa realçar e que coincide, exactamente, com aquilo que penso já há um certo tempo: é a primeira vez na história da democracia que o PS não apoia qualquer candidato, para os eleitores daquele partido é incompreensível a guerra entre Sampaio da Nóvoa e Maria de Belém e seria muito mais natural que um desistisse a favor do outro; o PS desistiu das eleições e «António Costa mostra não se sentir muito preocupado com o convívio com um presidente como o professor Marcelo Rebelo de Sousa».

Assino por baixo, por cima, por onde se preferir. E acrescento o que Louçã não disse: era bom que os/as pupilos/as do senhor reitor Sampaio da Nóvoa parassem com os apelos lancinantes para que outras candidaturas desistam a favor daquela que apoiam (concretamente as de Marisa Matias e de Edgar Silva) para que não se corra o risco de a candidata de «direita» Maria de Belém poder, eventualmente, passar a uma segunda volta.

1º. Goste-se ou não de MªdeB, colocá-la do lado de Marcelo Rebelo de Sousa é um erro e uma afronta;

2º. Pressionem António Costa para que resolva o imbróglio em que está metido (e que, de certo modo criou) e que dará, ele sim, mais do que provavelmente, a vitória a Marcelo. Ou seja: Costa, que tantas credenciais de negociador tem, consiga a «fusão» das duas candidaturas da área do PS;

3º. Deixem os outros em paz.
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Comam Bolo-Rei, republicanos, comam bolo-rei


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A entropia total



«Um dos princípios físicos da segunda lei da termodinâmica diz-nos que todo o sistema tende à desordem e degrada-se devido ao aumento da entropia. Portugal, tal como a Europa, está submetido com paixão a essa lei.

A crise económica acentuou a deterioração do sistema político, tornando ainda mais evidente a sua falta de capacidade para responder aos desafios do presente e do futuro. A patética forma como a Europa está a construir novas fronteiras em nome da segurança elimina uma das poucas coisas em que existia a ficção de um continente unido: a livre circulação. A austeridade totalitária, que agora está a ser esquecida em nome da flexibilidade que França, Espanha e Itália exigem, implode à vista de todos. A Polónia atira para o lixo a liberdade de expressão (valor central da "superioridade moral" europeia) como se fosse um trapo velho. Pelo caminho, sufocada pelos refugiados que chegam às suas costas sem descanso, a Europa continua à procura de uma política credível para resolver uma bomba-relógio que tem nas suas mãos. (…)

A Europa, a que nos acolhemos em busca de calor maternal depois do fim do império, é hoje uma farsa semelhante àquela que motivou movimentos como o Dada nos tempos da Primeira Guerra Mundial. É claro que tudo isto está ausente dos debates que envolvem os candidatos presidenciais nacionais que se começam a parecer com um triste grupo de tertulianos que discutem o futuro do país à mesa de um café.

A entropia transferiu-se para a preguiça política e os candidatos a Belém dissolvem-se no seu café com leite sem sabor e sem aroma. Numa Europa intragável assistimos a uma campanha intratável.»

Fernando Sobral
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As terríveis declarações de Guterres




«A única entidade que verdadeiramente gere esta situação são os contrabandistas e os traficantes, visto que a União Europeia e os Estados têm sido incapazes de gerir colectivamente esta situação. E o que temos tido é um caos no movimento das pessoas.»
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5.1.16

Entendido?


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Marcelo: a fazer de morto



«Marcelo foi um comentador televisivo excelente, mas conforma-se no papel de candidato suficiente. Não há alegria na sua campanha, não se vislumbra uma campanha sequer. Não entusiasma ninguém porque preferiu desaparecer. Não levanta ondas. Desaparecido sem combate, porque fosse ele jogador de boxe e só treinava a cintura - para se desviar dos golpes, das luvas dos outros nove que contra si estão apontadas. (…) Ao candidato a Presidente da República exige-se a não resignação. Se lá chega em ponto morto, porque haveremos de acreditar que será ele depois a puxar por isto?»

Sérgio Figueiredo

Quem sucede a Cavaco?



«Cavaco sai pelo próprio pé, fechando três décadas de cavaquismo que foram minguando até desaparecerem. Não entramos numa era de crise de identidade. Pelo contrário, a política voltou às instituições, depois de anos em que foi substituída pela economia como discurso mínimo. (…)

São uma dezena que agora, todos os dias, se sucede em debates amorfos e sonolentos que apenas despertam cansaço. A liberdade de, em democracia, cada um poder ser candidato a um cargo público relevante transformou agora as eleições para a Presidência da República num quase "reality show". O que torna esta eleição triste. Há candidatos que não se percebe o que ali estão a fazer ou o que, de diferente, propõem.

Edgar Silva e Marisa Matias são emanações dos seus partidos. Maria de Belém e Sampaio da Nóvoa, com paninhos quentes, querem apenas passar à segunda volta na esperança de federar os votos à esquerda. Paulo Morais esgota-se na corrupção que vê como fantasmas em todo o lado. A Henrique Neto, que poderia ser a voz da lucidez, falta frescura. Marcelo passeia-se, aclamado pela comunicação social. Há sobretudo demasiada mansidão num país domesticado pela austeridade, fustigado pela emigração e cercado pela dívida. Não se pede que qualquer dos candidatos traga uma fórmula mágica para transformar Portugal. Mas os portugueses precisam de ser galvanizados com um sonho. Só que os candidatos, até agora, falam apenas do seu próprio passado. Em forma de bocejo prolongado.»

Fernando Sobral

Marcelo mente, mente, mente…

4.1.16

E um sorriso tornou-se amarelo


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Dica (194)




«Optimists say 2016 will be better than 2015. That may turn out to be true, but only imperceptibly so. Unless we address the problem of insufficient global aggregate demand, the Great Malaise will continue.»
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Marcelo dixit. E ninguém se riu?


«Há um problema que é o seguinte. Há duas campanhas simultâneas, a presidencial e as autárquicas em São João da Madeira. Talvez seja sensato não misturar a campanha partidária e a não partidária», Marcelo Rebelo de Sousa, justificando a ausência de Passos Coelho da sua campanha. 
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O adeus de Portas



«O maior desafio que se coloca a um político é sobreviver ao seu próprio êxito. Paulo Portas, ao dizer adeus, quer sair galardoado pelas suas maiores vitórias: ter conseguido delimitar a linha ideológica do Governo durante quatro anos e ter vendido ao PSD uma coligação onde o PP conseguiu mais deputados do que teria se voasse sozinho. Portas afasta-se como vencedor num teatro de derrota. O PS ocupa o poder e parece difícil removê-lo de lá nos próximos tempos. Assim Portas sabe que, na bancada parlamentar, poderia fazer brilhantes discursos sobre a "geringonça", mas que esta continuaria a rodar, arriscando-se a ser atropelado por ela. É uma batalha que não lhe interessa ter, deixando-a, como cicuta, para Passos Coelho, político que sempre viu como uma criatura dos verdadeiros criadores: Portas e os núcleos ideológicos académicos que definiram a nova direita portuguesa e o modelo de país criado pela austeridade.

Pragmático e astuto, Portas retira-se para poder voltar depois. Promove uma luta de variantes de Iznogoud, que desejam ser o sultão no lugar do sultão Portas. Nada contra: ele continuará a ser a fonte ideológica do PP onde todos irão buscar a água. Portas não quer ser Kerensky e ficar como a figura mais importante da oposição ao czar, no caso António Costa. Para depois acabar como um débil aliado de um futuro PSD que renascerá das cinzas da oposição com outro líder e, talvez, uma vocação mais social-democrata. Portas não quer o PSD no centro: quere-o acorrentado à nova ideologia de direita com que o contaminou. Portas vai agora viver no território dos negócios, onde deixou as suas bandeiras ao longo destes anos. Talvez queira ser como Napoleão, para um dia poder fugir de Elba para regressar ao trono. Mas aí, muito provavelmente, já não será S. Bento que quererá ocupar. Sabe que o PP poderá ser hegemónico ideologicamente na sociedade portuguesa, mas nunca será um partido de massas. Mas ele, criador de criaturas, tem um sonho que acredita possível: Belém. Daqui a uns anos.»

Fernando Sobral

3.1.16

Dica (193)



PIGS, ¿rebelión en la granja? 

«Como Grecia, Portugal había sido “rescatado” por la Troika, al precio de reducciones salariales, pérdida de derechos laborales y sociales, privatizaciones, etcétera, casi tan duras como las impuestas a los griegos. Y ,sin duda, por ello el país ha reaccionado privando a la coalición de partidos neoliberales de centro derecha de su mayoría absoluta y dando la oportunidad al Partido Socialista de rehabilitarse y formar junto con partidos de izquierdas (Bloco de Esquerda y Partido Comunista) un gobierno anti-austeridad que inquieta a la Comisión Europea y a las instituciones financieras neoliberales. (...)

En fin, a la vista de lo ocurrido en Grecia, Portugal, España e Italia cabe preguntarse, ¿ha sido 2015 el año de la rebelión en la granja, léase la neoliberal Unión Europea, de los menospreciados PIGS?»
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E por falar em Peniche



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Peniche: há 56 nos, a mais espectacular fuga em tempos de fascismo



No dia 3 de Janeiro de 1960, Álvaro Cunhal, Carlos Costa, Francisco Martins Rodrigues, Francisco Miguel, Guilherme da Costa Carvalho, Jaime Serra, Joaquim Gomes, José Carlos, Pedro Soares e Rogério de Carvalho fugiram da Fortaleza de Peniche, numa iniciativa absolutamente espectacular.

A mais completa e mais documentada descrição que já li da fuga foi feita por José Pacheco Pereira, em 31 páginas do terceiro volume da biografia de Álvaro Cunhal (*).

«Mesmo que, por qualquer motivo, a fuga tivesse sido abortada na sua segunda fase – o trajecto para os esconderijos na zona de Lisboa –, nem por isso deixaria de poder ser considerada um enorme sucesso político para o PCP e um momento alto contra o regime de Salazar. Poucas fugas de carácter político se lhe podem comparar, mesmo incluindo as mais célebres fugas ocorridas durante a II Guerra Mundial. Na história do movimento comunista, é um acontecimento ímpar.» (p. 724)

(*) Álvaro Cunhal. Uma Biografia Política. O Prisioneiro (1949-1960), volume 3, p.702-732.

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Projectos para 2016?



Transparência e verdade



«Têm sido a verdade e a transparência que têm ficado detidas neste jogo de interesses que governa Portugal há muito. É delas que os portugueses necessitam em 2016. Quando, nos escombros do BES, do BPN e do Banif, se descobre a montanha de dívidas incobráveis a empresas que aparentemente faliram ou simplesmente não pagaram, sobretudo na área da construção civil, entende-se melhor a célebre "solidez" da banca nacional que foi apregoada por Carlos Costa e pela Autoridade Bancária Europeia.

Parte da nossa banca era um Hércules cujos músculos eram um exercício de cirurgia plástica. Passado o momento da fotografia e do vídeo publicitário, tudo era uma ilusão. Só que a ficção serviu para alguns cozinharem os seus negócios e lucros, deixando as dívidas para quem as paga sempre: os contribuintes assolados por impostos e cortes salariais. Como sociedade justa, Portugal mostra o seu melhor. Em tempos liberais a isto chama-se socialização dos prejuízos. O problema é que toda esta vergonhosa transformação alquímica do dinheiro de uns nos prejuízos da maioria não tem tido consequências. Os culpados são "zombies" que a justiça se mostra incapaz de inculpar e a que as autoridades fecham os olhos como numa inevitabilidade. Portugal precisa de quem fale verdade e seja transparente. Para que os portugueses não sejam os suspeitos do costume que pagam os desvarios de alguns. Será pedir muito?»

Fernando Sobral