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16.1.16

Grandes frustrações


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Dica (204)

Marisa Matias marca a diferença



«Marisa Matias é a candidatada do BE que, tal como o PCP, optou por marcar o seu terreno político. A diferença é que Marisa Matias é uma política de primeira água e de superior qualidade. E tem marcado a campanha de forma clara na defesa dos interesses do BE. Além disso tem sabido reagir com dignidade a uma vil, sórdida e boçal campanha sexista contra si, que tem mostrado o lado mais reles do machismo de lúmpen.»

São José Almeida, Público, 16.01.2016 


N.B. – Candidatos do PS é o que menos falta, mas Helena Roseta apoia Marisa Matias.
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Apoio Marisa também por isto



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Derrota ideológica e vitória política



José Pacheco Pereira, num belo texto do Público de hoje:

«Uma coisa a esquerda deve compreender com toda a clareza: a direita venceu a batalha ideológica nos últimos anos. Mais: essa vitória tem profundas repercussões nos anos futuros e molda a opinião pública. É uma vitória muito perigosa e pegajosa, porque se coloca no terreno daquilo que os sociólogos chamam “background assumptions”, molda o nosso pensamento sem trazer assinatura, parece a “realidade” quando é uma construção ideológica. No entanto, convém não confundir duas coisas distintas, a ideologia e política. E a direita perdeu a batalha política, o que ajuda a ocultar a sua vitória ideológica. O problema é que a solidez da vitória ideológica é maior do que a solidez da vitória política. (…)

A verdade é que em termos ideológicos, e também em termos políticos, passámos do cinema para a lanterna mágica. Andámos para trás, e isso acontece mais vezes do que aquilo que se deseja. Com a experiência de um Tea Party à portuguesa, ficamos “liberais” à americana. Por isso, lá tive, a contragosto e moendo-me todo, que voltar a falar a linguagem paupérrima da dualidade esquerda-direita.

Este retorno ao dualismo esquerda-direita foi uma vitória do PP de Monteiro-Portas e do Bloco de Esquerda. A sua vítima foi o centro político e o antigo PSD reformista. Ver o PSD de Passos e seus amigos a aceitar com toda a naturalidade serem classificados de direita, foi uma ruptura clara e explícita com o PSD de Sá Carneiro. Do outro lado, o PS evitou cuidadosamente auto nomear-se de esquerda, como se a palavra tivesse sarna, já para não dizer que os diminuía face aos seus novos amigos da banca e dos negócios nos últimos anos. A “terceira via” foi o caminho. Renderam-se todos aos “mercados” como Deus ex machina da política e isso desarmou-os ideologicamente. Por isso, todo o espectro político está puxado à direita e, por reflexo, deixou apenas franjas na esquerda. (…)

Mais relevante para perceber o que se passou é ver como o programa social virou parte do centro e da direita para o radicalismo e puxou parte da esquerda para ocupar esse centro. Será que a esquerda não se interroga se muitas das medidas que hoje enuncia como sendo o supra-sumo da esquerda, como seja a reposição de salários e pensões, não são propriamente de esquerda, e só se tornaram de esquerda pela radicalização da direita? Muitas vezes pergunto se a maioria daquilo que hoje passa por ser um radicalismo da esquerda (e que a direita saliva ao ouvir) não é pouco mais do que moderadamente social-democrata ou democrata-cristão. (…)

A aceitação de que a classificação política dos outros seja feita pela direita radical, coisa que a ala direita do PS interiorizou completamente, é um dos aspectos dessa vitória ideológica. A direita mais radical interiorizou em muitos portugueses um modo de pensar, uma maneira de defrontar os problemas, uma forma de questionar, uma interpretação da vida social, da economia, do estado, que é de facção, mas que muitos aceitam sem questionar. (…)

Recoloquemos aí muito daquilo que é hoje uma falsa fractura ideológica, não porque isso seja um limbo ideológico, mas porque essa recolocação ajuda a limpar o terreno. Depois podemos partir para as fracturas ideológicas do passado, que conhecemos como de esquerda e direita e analisá-las e teremos algumas surpresas pela inversão de alguns papéis. E depois podemos voltar ao limbo inicial para ver se ele subsiste para além de um sistema de valores e se o podemos arrumar de outro modo, limpando-o da superioridade moral que acarreta o uso de valores em política. Para combater a ideologia da direita radical precisamos de algum retorno à moralidade, como os espanhóis compreenderam com as suas “marchas pela dignidade”, e depois então vamos à política pura e dura para nos desentendermos, a boa coisa do debate em democracia e liberdade.» 
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15.1.16

Dica (203)


What Economic Policy For The Euro Area? (Maria João Rodrigues) 
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Nova sondagem – nenhuma surpresa




Eurosondagem, 15.01.2016. 

O PS que «embrulhe» o imbróglio de que não quis sair ao não apoiar qualquer candidato. Mais: em não ter dado importância às presidenciais, identificando alguém capaz de vencer Marcelo Rebelo de Sousa – o que não é o caso nem de Maria de Belém nem de Sampaio da Nóvoa. 

Mas António Costa viverá bem com Marcelo em Belém – no problem, por aí. Essa é que é essa. 
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Mulheres em chefias de «big corporations»? Vou recuar mais de três décadas



Esta notícia da Apple, pela qual se fica a saber (se se confirmar como verdadeira) que aquela big corporation «não quer mais mulheres nem negros nas chefias», fez-me recuar mais de três décadas, ao início dos idos de 80, quando eu também andava por uma outra corporation, geralmente conhecida por «Big Blue?.

Em Portugal, contavam-se então pelos dedos de uma mão (vá lá: mais dedo, menos dedo…) o número de mulheres que ocupávamos posições de chefia (não de topo, é verdade, que para isso foi preciso esperar mais uns tantos anos, mas a partir de então foi um dado adquirido). Quando uma 6ª ou 7ª mulher foi promovida felicitei o responsável pelo facto, que, entre dentes, me sussurrou: «Se ela fosse preta, isso é que era!» Porquê? Porque na IBM era já grande a pressão, a nível mundial, para respeitar integração a nível de género, deficiência e etnia.

Nunca pensei que a tantos anos de distância, em pleno século XXI, ainda fosse possível aconselhar que se vote contra uma proposta que prevê «o aumento da diversidade entre os quadros de topo». Por onde andou o chamado primeiro mundo nestas últimas décadas? 
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Sempre quero ver se alguém boicota a idolatrada maçã




«A informação consta da documentação enviada aos accionistas da Apple, e que pode ser consultada no site da empresa, com uma recomendação muito clara do conselho de administração de "votar contra" a proposta que prevê o aumento da diversidade entre os quadros de topo.» 
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Vale tudo por Belém



«Depois dos debates presidenciais, entrámos na campanha em si. As televisões estão cheias de imagens dos candidatos à solta pelo país. Eles são dez, cada um no seu estilo e no seu local. Alguns repetem locais. Parece um "rally-paper" de esgrouviados. (…)

Chegámos a um ponto em que já não sabemos se foi Tino ou Marcelo que disse, ou fez, determinada coisa, porque é plausível ter sido qualquer um deles. Podia ter sido Tino a fazer piadas (melhores do que as de Marcelo) na agência funerária e Marcelo a enfiar um pau simbólico numa praia (com a ajuda do taxista que o transporta). Nesta campanha, o provável próximo PR podia ter feito, ou dito, exactamente o mesmo que o Tino. Por onde tu andas, Tino! (…)

Veja o leitor este exemplo e tente acertar, se for capaz e estiver para aí virado. Quem terá sido o candidato que declarou que um dos seus primeiros gestos como PR será para com Ronaldo... Hum? Quem será o grande intelectual que diz: se eu for PR deste país, vou logo acudir ao Ronaldo, coitado, que ficou sem casa nas cheias. Hum? Não... Não foi o dos óculos esquisitos. Também não foi o ex-padre do PCP. Podia ter sido se fosse para chamar o CR7 e nacionalizar-lhe os bens. Acabou o tempo. Veja a solução no parágrafo abaixo.

O professor Marcelo das análises aos problemas profundos do país, dos lares de idosos, da marmita da bolacha, do desemprego e da pobreza, mal chegue a Belém, vai falar com o Ronaldo. Tanta sabedoria, tanta vida, tanta pátria e faz o que faria qualquer "teenager". Provavelmente, quer uma "selfie" com ele. (…)

Sempre pensei que, assim que chegasse a Presidente da República, o seu primeiro gesto não fosse para com os que tudo têm. Do que conheço de Marcelo, esperava que o seu primeiro gesto fosse para os que foram donos disto tudo. Marcelo ainda me surpreende.»

João Quadros

14.1.16

Um hotel mítico




Este, em San Pedro de Atacama, no Chile, onde passei alguns dias inesquecíveis. Já lá vão mais de cinco anos. 
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Dica (202)



Os erros de Marcelo. (Francisco Louçã) 

«Por isso, a minha conclusão – e recomendação a quem disputa as eleições, que não Marcelo – é esta: ignorem a segunda volta, concentrem-se no que conta mesmo, que é o dia 24 de Janeiro. Quanto mais falarem de segunda volta mais se afastam dos eleitores, mais se refugiam numa bolha de discurso político que enumera as conveniências próprias das candidaturas mas que nada tem que ver com a vida das pessoas.

. O “todos contra Marcelo” ou “tudo contra Marcelo” é um favor a Marcelo, pois é duvidoso que mude a atitude dos outros eleitorados mas certamente ajuda a motivar os eleitores de direita e assim dispensa esse candidato de o procurar fazer, mantendo-o no conforto do seu discurso passeante e costista, como se nada fosse com ele.»
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Poupança, mothafucka!



Ricardo Araújo Pereira na Visão de hoje:

«Há um subgénero do rap chamado gangsta rap, que descreve o estilo de vida dos bandidos. Breio que qualquer rap sobre actividades bancárias deve ser incluído neste subgénero. (…)
Talvez seja altura de mães de todo o mundo actualizarem as suas advertências às crianças. Em vez de “não aceites doces de ninguém”, mudar para “não aceites doces de poupança de ninguém”.»

Na íntegra AQUI.
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No labirinto das campanhas


Começam a surgir hinos de campanha. E eu a ter saudades deste, absolutamente inesquecível e inigualável:


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As facturas que hão-de vir



Isabel do Carmo no Público de hoje:

«No Ministério da Saúde, entre Dezembro 2011 e 2015 o pessoal da Saúde foi reduzido em 11,2% em número. Em orçamento muito mais. As mortes mais visíveis estão aí para pagar a factura.

Para além das facturas imediatas e escandalosas, resultantes da ideologia e da prática da austeridade, tais como a falência do BANIF e a morte de doentes em fins-de-semana por falta de intervenção especializada, há as facturas que este Governo vai ter de pagar e que a população empobrecida vai pagando e que se reflectem no médio e longo prazo. Sem escândalo. (…)

Quanto à morte de doentes devida a fins-de-semana sem determinada especialidade, a responsabilidade também é rastreável. As escalas de urgência foram assinadas por directores de serviço e de urgência, foram sancionadas por directores clínicos, que por sua vez integram direcções do hospital com o conselho de administração, o qual reporta à Administração Regional de Saúde. Também se pode ver quem protestou, reclamou, denunciou, por vias internas ou externas. Porque há quem tenha muito “respeitinho” e há quem não tenha. Como escreveu Ana Arendt, a obediência também é uma responsabilidade. (…)

Os números falam por si. Em Maio de 2015 estavam sem médico de família atribuído 126.152 utentes na Região Norte, 150.757 no Centro, 799.006 em Lisboa e Vale do Tejo, 42.579 no Alentejo, 114,742 no Algarve. Total: 1.233.236. Se considerarmos que um médico de família deve ter entre 1.500 e 1.800 utentes, façam-se contas. E contratos. Percebe-se que vão ter que se hierarquizar prioridades e estabelecer fases, agrupamento a agrupamento. Mas têm que ser feitas. E o custo das urgências hospitalares irá compensar, diminuindo.

De acordo com o Sindicato dos Enfermeiros faltam 25 mil enfermeiros no nosso país. A presença de enfermeiros nos cuidados na comunidade diminui as vindas ao Centro de Saúde e melhora a condição das doenças crónicas; os enfermeiros suficientes e sem estarem exaustos na enfermaria diminuem as infecções hospitalares e há estudos que avançam uma diminuição em 7 por cento da taxa de mortalidade. É necessário trazê-los de volta dos países para onde tiveram que emigrar. A conta dos contratos salda-se a curto prazo com os benefícios económicos para o SNS. Tal como é necessário não deixar fugir alguns dos melhores especialistas médicos para os serviços privados, por razões puramente financeiras.

Tudo isto é consequência dos cortes feitos no SNS e que são objectivos. De 2005 para 2010 o orçamento para a Saúde subiu de 5.834 milhões para 8.698 milhões; de 2012 para 2015 desceu de 9.694 milhões para 7.402. Num país que é um dos países da Europa com menos custos per capita na Saúde e em que há mais comparticipação que “sai do bolso” dos cidadãos, onde é que foram cortar estes milhões? Antes de tudo no pessoal, em número, em salários e em pagamento de horas extraordinárias. No Ministério da Saúde, entre Dezembro 2011 e 2015 o pessoal da Saúde foi reduzido em 11,2% em número. Em orçamento muito mais. As mortes mais visíveis estão aí para pagar a factura.

Mas as doenças e as mortes invisíveis, as ocultas, essas não aparecerão nos jornais e estender-se-ão por médio e longo prazo. Com um quarto da população na zona da pobreza, não se morre de fome, mas adoece-se por carências.

A falta de nutrientes marca as crianças e a sua aprendizagem. As infecções respiratórias dos adultos foram mais frequentes. Os tratamentos dentários e oftalmológicos não foram feitos. A falta de auto-estima, a depressão e os pensamentos suicidas são uma mancha de óleo. Esta quietude da população pode aliás explicar que 62% tenham votado à esquerda e possibilitado a solução alternativa mais surpreendente da Europa, sem ser precedida de movimento de massas. E que agora se fale de esperança, baixinho e com cuidado, não vão os deuses acordar.» 
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13.1.16

Finalmente, Marcelo identifica-se com muitos dos meus amigos



Quem anda pelo Facebook entender-me-á. 
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Horário de 35 horas para a administração pública - Histórico




Sobre um dos temas do dia, e para entender de que se está a falar, procurei dados sobre a evolução histórica dos horários de trabalho na função pública. Os dois quadros aqui publicados resumem-na bem, na minha opinião.(Para ler, clicar em cada um deles.) 

(Daqui)
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Dica (201)




«It is a mistake to focus basic education on job-specific skills that a changing world will render redundant in a few years. The objective should be to equip students to enjoy rewarding employment and fulfilling lives in a future environment whose demands we can neither anticipate nor predict. In 20 years, we will probably not be using the Black Scholes model, or referring to the case of Bloggs v Bloggs. But the capacities to think critically, judge numbers, compose prose and observe carefully — the capacities that education can and should develop — will be as useful then as they are today.» 
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Marcelo: que se lixem os horários




Há alguém, minimamente escolarizado, que não saiba que os museus fecham à segunda-feira? Há alguém que duvide que MRS não foi a Foz Côa para que o respectivo museu abrisse propositadamente para ele o visitar? Podia ter-se limitado a lanchar num lar da terceira idade, também deve existir um por perto.
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Ovo estrelado ou mexido?



«Cícero deu bons conselhos ao seu irmão mais velho, Marco Túlio Cícero, quando este se candidatou a eleições: "Não faças promessas específicas; queda-te em generalidades"; " o mais importante da tua campanha é dar esperança às pessoas e gerar sentimentos bondosos face a ti".

Marco Túlio ganhou. Não há a certeza de que qualquer um destes conselhos seja importante nesta campanha presidencial. Quando estamos a discutir se um candidato é melhor ou pior porque dorme mais ou menos horas mostrando a indigência do debate eleitoral. Ou seja, a campanha presidencial é um ovo. Chocado pela descrença nacional pela política.

Marcelo, Maria ou Sampaio podem ser eleitos. Mas são as janelas de oportunidade para o país, como dizia alguém, que estão em causa. O país não pode continuar a ser um ovo estrelado em que alguns molham o pão. Ou mexido, que outros dividem. A questão da presidência é, no entanto, uma mistura de ovos. Uns fora do prazo. Outros ainda passíveis de ser consumidos. É esse um dos dilemas de Portugal. Marcelo tem razão ao dizer que não há "clivagens ideológicas" entre os candidatos. O pior é o reflexo disso: esta campanha é um deserto absoluto, sem um oásis visível. Os candidatos andam e não deixam vestígios das suas pegadas. Ganhará o que causar menos incómodo aos cidadãos.

Estamos defronte de um dilema: país de descobridores, Portugal nunca descobriu um destino consensual para si. Sempre saltou como os cangurus, de megalomania em delírio existencial. O seu tecido educacional, cultural, político ou social nunca se consolidou. Continuamos amarrados à Europa e reféns de uma incapacidade total de, em vez de criarmos mais elefantes brancos, percebermos o que pode ser a alavanca da nação.

Que país, no fundo, queremos construir? As presidenciais poderiam ajudar a semear essas questões. Alguma coisa precisa de agitar esta campanha. Pode ser uma brisa ou uma tempestade de ideias. Qualquer coisa. Os eleitores costumam ser, de alguma forma, inocentes. Mas não merecem este silêncio ensurdecedor dos candidatos a Belém.»

Fernando Sobral

12.1.16

É mais ou menos isto


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O momento guterrista de Costa



Daniel Oliveira, Expresso diário, 12.01.2016 
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Oxalás



Ojalases, del Río de la Plata con amor y con esperanza

Ojalá seamos dignos de la desesperada esperanza.

Ojalá podamos tener el coraje de estar solos y la valentía de arriesgarnos a estar juntos, porque de nada sirve un diente fuera de la boca, ni un dedo fuera de la mano.

Ojalá podamos ser desobedientes, cada vez que recibimos órdenes que humillan nuestra conciencia o violan nuestro sentido común.

Ojalá podamos merecer que nos llamen locos, como han sido llamadas locas las Madres de Plaza de Mayo, por cometer la locura de negarnos a olvidar en los tiempos de la amnesia obligatoria.

Ojalá podamos ser tan porfiados para seguir creyendo, contra toda evidencia, que la condición humana vale la pena, porque hemos sido mal hechos, pero no estamos terminados.

Ojalá podamos ser capaces de seguir caminando los caminos del viento, a pesar de las caídas y las traiciones y las derrotas, porque la historia continúa, más allá de nosotros, y cuando ella dice adiós, está diciendo: hasta luego.

Ojalá podamos mantener viva la certeza de que es posible ser compatriota y contemporáneo de todo aquel que viva animado por la voluntad de justicia y la voluntad de belleza, nazca donde nazca y viva cuando viva, porque no tienen fronteras los mapas del alma ni del tiempo.

Eduardo Galeano

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Presidenciais: o PS no seu labirinto



«António Costa lançou o mote e declarou, numa reunião do seu partido, que agora as eleições são umas “primárias da esquerda”, esclarecendo que a disputa é entre Nóvoa e Belém. (…)

Para sacudir o capote, não está mal. O PS não toma posição pela primeira vez na sua história, porque acha que de nada lhe serve e o assunto está arrumado. Depois desta demonstração de entusiasmo efervescente, lançar a toalha das primárias deve ser por diversão.

O PS desistiu das eleições e esse será sempre um dos factos políticos mais importantes, mais graves e com mais consequências destas eleições. Podia ter tido então a discrição de manter um silêncio grave sobre a sua abdicação. Era mais digno. Escusava de atiçar os candidatos para uma luta que só os diminui, porque um voto trocado entre Belém e Nóvoa é indiferente ao resultado final das eleições e esta querela é uma prenda para Rebelo de Sousa.»

Coreia: pop na tensão militar



«A experiência nuclear da Coreia do Norte foi uma provocação que poderá ter sérias consequências na política de alianças políticas e militares na Ásia.

A resposta da Coreia do Sul à provocação nuclear da Coreia do Norte foi feita com música. No caso através dos altifalantes colocados junto à linha de demarcação desmilitarizada entre os dois países.

As canções dos grupos de K-pop (pop coreano) tentaram serenar os ânimos, já que são escutadas com paixão do outro lado da fronteira. Uma das canções, do grupo Apink, "Let Us Just Love", diz simplesmente isto: "Please let us stop fighting… sometimes we doubt and argue but still I love you." Foi uma resposta diplomática à pressão do regime de Kim Jong-un, materializada através do alegado teste de uma bomba de hidrogénio. As autoridades de Seul tinham deixado de utilizar os altifalantes em 2004 durante um período de acalmia nas relações entre as duas Coreias. No meio deste aumento da tensão, os Estados Unidos têm também pressionado a China para que refreie o seu apoio ao regime de Pyongyang. Pequim, cujo esfriamento das relações com o regime de Kim Jong-un é visível desde a chegada ao poder deste, também percebe que a provação nuclear apenas reforça as ligações, sobretudo militares, entre a Coreia do Sul e o Japão, com a cobertura dos EUA, algo que tem tentado evitar há algum tempo com a sua estratégia económica.

Ao mesmo tempo os EUA fizeram voar um bombardeiro B-52, armado com mísseis nucleares e com outros capazes de atingirem os "bunkers" subterrâneos norte-coreanos, sobre os céus da Coreia do Sul. O B-52 partiu da base aérea de Guam, numa demonstração de que os EUA não hesitarão em apoiar um dos seus mais importantes aliados na região, se a Coreia do Norte tiver alguma intenção agressiva. A provocação do regime norte-coreano permitem também aos Estados Unidos surgirem como os mais sólidos "protectores" de aliados como a Coreia do Sul ou o Japão, os mais ameaçados por qualquer opção militar de Pyongyang. Para os EUA esta ameaça norte-coreana serve para reforçar o seu papel central na região, defendido por políticos como Hillary Clinton (que poderá ser a próxima presidente americana), num contexto de "contenção" da China. A Coreia do Sul, que tem conseguido gerir com cautela as suas relações com os EUA e a China, deverá seguir a sua política: se os EUA são um aliado militar fundamental, a China é uma peça essencial para resolver o xadrez norte-coreano.»

Fernando Sobral

11.1.16

António Guterres não se cala




«Eu não me recordo na minha vida de uma fase em que a comunidade internacional fosse tão incapaz de encontrar soluções para os problemas que a paz infelizmente tem vindo a enfrentar. (...) 

Vivemos num mundo que já foi bipolar, que já foi unipolar e que hoje é caótico e a capacidade da comunidade internacional intervir é cada vez mais reduzida e, por isso, a imprevisibilidade e a impunidade proliferam e não só os conflitos aumentam como, pior, o comportamentos dos agentes nos conflitos é cada vez mais grave.» 
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Dica (200)



The New Geo-Economics. (Joseph Stiglitz) 

«In 2016, we should hope for the TPP’s defeat and the beginning of a new era of trade agreements that don’t reward the powerful and punish the weak. The Paris climate agreement may be a harbinger of the spirit and mindset needed to sustain genuine global cooperation.»
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Umas eleições de candidatos ambidestros



Marcelo invade o centro: “Eu sou a esquerda da direita”.

E Marcelo não é o único. O senhor reitor também não desdenha.
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A Páscoa ainda vem longe



... mas há por aí tantos candidatos a PR católicos que.
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Schwarzenegger a Belém?



«Arnold Schwarzenegger foi durante oito anos governador da Califórnia. Mais tarde, quando como piada, recordou que dois meses antes de ser eleito nem pensava ser candidato.

A caminho do programa de Jay Leno os seus neurónios brilharam: "Ia ser tão giro se anunciasse que me ia candidatar… Toda a gente ia adorar. E então disse ao Leno que me candidatava. Toda a gente me perguntava: qual é o teu plano? E quem é que está no teu 'staff'? Eu não tinha um plano. Nem tinha staff." Dois meses depois o "Conan republicano" era governador. Na América nada nos pode admirar. Washington é, muitas vezes, a face ficcionada de Hollywood. Não estando disponível para Belém, teremos de substituir Schwarzenegger por outro candidato. Mas, como é visível nesta penosa campanha presidencial, no meio da gritaria onde nada se ouve, não há um candidato assim, bárbaro como Conan. Chegados à fase crucial da corrida, separa-se a água do azeite. E, claro, o jogo está reduzido a Marcelo Rebelo de Sousa, Sampaio da Nóvoa e Maria de Belém.

Todos têm algo em comum: fazer esquecer Cavaco Silva. Quanto ao resto, algo os separa. Nem que seja pela agressividade. No debate na SIC, contra Marcelo, Nóvoa jogou ao ataque, porque só isso pode agregar a esquerda à sua volta. Quando Maria de Belém debater com Marcelo terá de usar frases letais e não o sorriso: só isso motivará o povo de esquerda a votar em si. As águas turvas da campanha agitaram-se. O que é bom. Para que Marcelo também não surja como prisioneiro da vitória anunciada no horóscopo. Nóvoa e Maria de Belém devem saber que ele dificilmente poderá mudar de discurso, a menos que pretenda atraiçoar aqueles que lhe poderão dar a vitória. Mas, claro, não é a defender que o PR deve levar chefes de Estado estrangeiros a almoçar em lares de idosos, para lhes "mostrar o país", como defende Maria de Belém, que se eleva o nível da campanha. Aquela que tem vindo a reflectir a degradação do nosso universo político. O tédio, afinal, é um dos piores inimigos da democracia.

10.1.16

Excelente



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Dica (199)



Declaração de voto & inimputáveis. (Alexandra Lucas Coelho) 

 «Depois de ver Marcelo Rebelo de Sousa na capa do PÚBLICO, pensei que este domingo seria boa altura para uma declaração de voto. (…) 

A coragem de Marisa Matias também ficou evidente no frente-a-frente com o professor mais televisionado de Portugal, quando ele meteu os pés pelas mãos quanto ao BES e aos cortes nos salários e pensões. Confio na frontalidade tanto quanto desconfio de estar bem com deus e o diabo.» 
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Júlio Pomar, 90



Júlio Pomar faz hoje 90 anos.

E um exemplar deste quadro tenho eu, aqui à minha frente.
(«A Refeição do Menino», gravura, litografia, 1951.)
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Funcionário zeloso


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Quem somos e para onde vamos?



«O país que voltou a discutir política e deixou, por momentos, a hegemónica ideologia da economia como língua franca, dividiu-se. Entre a maioria que deixou de o ser e uma outra que, de forma minoritária (o PS), ocupou o poder com apoio de outra maioria. (…)

Mas o certo é que o país continua muito vulnerável, entre uma dívida impagável e uma corrupção latente, que os sucessivos "casos bancários" apenas realçam. Continuam por responder as questões que efectivamente importam: quem somos, onde estamos, para onde vamos? É isso que não se tem debatido na campanha para as presidenciais, transformadas numa telenovela televisiva e num deserto de ideias. E é isso, também, que os partidos que continuam a dividir a maioria dos votos continuam a não discutir, seja por medo de se olhar ao espelho, seja por não compreender que fenómenos como o da pulverização espanhola poderão um dia destes chegar a Portugal de forma violenta e inesperada.

É certo que o futuro deste recanto continua a estar dependente do que a União Europeia decide (ou não decide), numa altura em que os seus problemas parecem não terminar. E onde todos, por uma razão ou por outra, já ignoram o que diz Bruxelas ou, mesmo, Berlim. Vive-se num clima de salada russa que um dia destes terá de dar lugar a algo mais claro e límpido. Seja aqui, seja na Europa que se diz uma união e que parece antes uma desunião pouco organizada.»

Fernando Sobral