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27.2.16

Faz de conta que estou lá (17)



Lago Louise e Glaciar Victoria, Parque Nacional de Banff, Canadá, 2008. 
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Dica (233)




«Os grandes bancos europeus são o elo mais fraco da crise que vai chegando. Depois de terem recebido a quantia astronómica de 661 mil milhões de euros desde 2008 em ajudas públicas, os bancos estão descapitalizados (uma parte dos seus activos vale menos do que o declarado ou, por outras palavras, é tóxica) e têm dificuldades em pagar as suas responsabilidades de curto prazo.» 
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Eutanásia já e praticada. Alguém duvida?



«“Vivi situações pessoalmente, não preciso de ir buscar outros exemplos. Vi casos em que médicos ministraram insulina àqueles doentes para lhes provocar um coma insulínico. Não estou a chocar ninguém porque quem trabalha no SNS sabe que estas coisas acontecem por debaixo do pano, por isso vamos falar abertamente”, sublinha Ana Rita Cavaco.»

Por esta razão e por muitas mais, é necessário debater, legalizar e regulamentar a morte assistida que inclui a eutanásia. A Petição lançada para esse efeito tem neste momento mais de 6.800 assinaturas e pode ser subscrita AQUI
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Fugitivos de outras décadas



Em 7 de agosto de 1991, depois de voltar de Cuba com uma carga de cana de açúcar, o Vlora foi atacado por uma multidão de cerca de 20.000 albaneses, durante a descarga, em Durrës. Forçaram o capitão a navegar para Itália e, em 8 de agosto de 1991, chegaram a Bari.

A história do Vlora é lembrada como um dos muitos episódios da onda de imigração que ocorreu em Itália entre 1990 e 1992 e continua a ter sido o maior desembarque de imigrantes naquele país nos tempos modernos.

(Daqui)

Há uma certa tristeza nisto tudo



Excertos do texto de José Pacheco Pereira no Público de hoje:

«Há uma certa tristeza nisto tudo, mas as coisas são como são. O país conhece um ritmo depressivo quotidiano. De vez em quando, há um crime hediondo. Uma mãe mata as filhas. De vez em quando, é preso alguém importante e respeitável. Um procurador. De vez em quando, há um pequeno sobressalto porque alguém quer pôr árvores a servir de separadores de uma estrada. De vez em quando, há um pequeno sobressalto porque alguém quer deitar abaixo umas árvores. De vez em quando, há uma jovem actriz de telenovelas que tem cancro e, como não sabe viver fora dos holofotes, leva o seu cancro a tudo quanto é capa. As melhoras. De vez em quando, há mais um caso de violência doméstica. De vez em quando, um pescador ou um operário ou um desempregado que arredonda o seu orçamento apanhando bivalves no Tejo morre afogado. De vez em quando.

Há uma certa tristeza nisto tudo, mas as coisas são como são. Quase sempre, a todas as horas, há futebol. Discute-se antes, durante, depois. Os canais noticiosos, que deviam acrescentar-se aos canais desportivos, são tanto ou mais desportivos e cada vez menos noticiosos. Se um começa um painel sobre futebol, nenhum outro se atreve a fazer qualquer outra coisa que não seja outro painel sobre futebol. Nada mobiliza mais os portugueses, em particular como espectadores, telespectadores, ouvintes, conversantes, tertulianos e habitantes de mesas de café, do que a bola.

Há uma certa tristeza nisto tudo, mas as coisas são como são. Na política, o país está num impasse, mas parece que não. Como acontece por toda a Europa, a impotência do poder político democrático face ao poder económico castrou governos eleitos e submeteu-os a entidades obscuras como os “mercados”, onde o grosso do dinheiro que circula não tem pai nem mãe, a não ser numa caixa de correios das ilhas Caimão. O sistema político democrático, a representação partidária tradicional, está numa crise que parece não ter saída. Os partidos do “arco da governação”, ou seja, os que têm o alvará de Bruxelas, do senhor Schauble, da Moody’s e da Fitch, ainda ganham as eleições num ou noutro país, mas ninguém os quer ver a governar outra vez, pelos estragos que fizeram à vida dos homens comuns para salvar a banca, não tendo no fim salvado coisa nenhuma. (…)

Há uma certa tristeza nisto tudo, mas as coisas são como são. Como não saímos da cepa torta, habituamo-nos depressa a considerar a cepa torta como a “realidade”. Já não nos governamos, para gáudio de alguns, indiferença de muitos e preocupação de um punhado de lunáticos, que ainda pensam que votam em Portugal, para que governantes portugueses eleitos por esse voto governem Portugal. Ainda são fiéis ao principio da revolução americana de que “no taxation without representation”, e por isso é o Parlamento português que deveria fazer o Orçamento e não uma mistura de governantes estrangeiros acolitados por uma burocracia escolhida pela fidelidade ao cânone alemão. Há uma certa tristeza nisto tudo, mas as coisas são como são. Num certo sentido, eu percebo por que razão o futebol é tão importante. É como cantar blues, ponderada a diferença de qualidade. Seria melhor arranjar um Django, mas não aparecem a pedido.» 
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26.2.16

Faz de conta que estou lá (16)



Grande Palácio, Bangkok, Tailândia, 2012.
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A esta não resisto

A series «of fortunate events»



«O OE 2016 foi, finalmente, aprovado. Pela primeira vez na democracia portuguesa, um OE foi aprovado com os votos favoráveis do PCP, BE e PEV. A geringonça ganhou o Paris-Dakar. (…)

Num momento histórico para a esquerda, não podiam faltar as citações de cantores revolucionários como Sérgio Godinho, Zeca Afonso, Jorge Palma e outros. Parecia o festival do Avante ou a futura tomada de posse de Marcelo. Foi estranho ver as bancadas responderem com citações. A "este é o primeiro dia das nossas vidas", dito por Centeno, respondia João Almeida com: "Ai Portugal, Portugal", de Jorge Palma. Nunca Jorge Palma foi citado por alguém que se embebeda com bombons de ginja. Não foi agradável. Parecia que os deputados estavam a usar as letras, a poesia, dos nossos maiores artistas como os miúdos usam as cartas de poderes. (…)

Foi uma espécie de discussão no trânsito usando letras de canções em vez de insultos básicos. Fez muita falta uma parte da letra de José Mário Branco sobre o FMI. A aprovação do OE de 2016 foi um momento histórico sob vários pontos de vista, excepto o de Portas, que não apareceu.

A esquerda unia-se, numa "coligação impossível", para aprovar um OE "sem acordo entre as partes" previamente "chumbado por Bruxelas". O OE passou todas as pragas do Egipto. É como se todos velhos do Restelo tivessem feito zero no cartão do bingo da desfortuna. A azia dos comentadores era indisfarçável. O Orçamento do Estado de 2016 fez as acções da farmacêutica da Kompensan galgar a bolsa.

Era suposto que uma série de desagradáveis eventos acabasse com a história do trio. Mas não foi assim. Desde um acordo numa folha de papel que se desfazia com o toque, ao olhar mortal de chumbo de Aníbal, passando pela trituradora de alternativas da Comissão Europeia e acabando no terror dos mercados, a geringonça galgou tudo. Eu vendia a geringonça à NASA. Citando o Armstrong, o que não é da música, foi um pequeno passo para a humanidade.»

Dica (232)

O "Brexit" e o conto de fadas



«Num dos episódios de "Sim, sr. Ministro", Jim Hacker e Sir Humphrey mostram claramente o que os divide sobre a presença dos britânicos na Europa. Diz Humphrey: "Ministro, a Grã-Bretanha teve sempre o mesmo objectivo de política externa pelo menos durante 500 anos: criar uma Europa desunida.

Por causa disso combatemos com os holandeses contra os espanhóis, com os alemães contra os franceses, com os franceses e italianos contra os alemães, e com os franceses contra os alemães e os italianos. Dividir e governar, como vê. Para que é que iríamos mudar agora, se sempre resultou tão bem?" (…) Neste momento, seguindo a linha cínica de "Sim, sr. Ministro", os britânicos já não se precisam de preocupar: a União Europeia é uma bagunça em que estão todos contra todos. Por causa de tudo. O "Brexit" é, por isso, uma questão que apenas é relevante para alguns sectores como a City londrina. Militarmente a Grã-Bretanha é fundamental na Europa, mas já decide as suas intervenções por si própria. E em termos de aliança está mais próxima dos EUA, da Austrália ou do Canadá, no grande eixo anglo-saxónico global.

A Grã-Bretanha sempre desconfiou, com razão, desta Europa que vai sendo cada vez mais uma moeda (o euro) e um exército de burocratas sediados em Bruxelas que estão apenas preocupados com os défices excessivos e não com o problema de milhões de migrantes, a crise do desemprego ou os atentados às liberdades em diferentes países do Leste europeu. Que Europa é esta, pois então? E para que é que a Grã-Bretanha quer fazer parte dela? A Europa é hoje um castelo de Kafka com pés de barro. Não é uma "Europa solidária e socialmente sensível", como alguns sonhavam. As críticas ao "egoísmo" britânico esquecem o que fez na II Guerra Mundial perante uma Europa em guerra. Mas a Europa escusa de ficar espantada: quando a libra não se integrou no euro, a cotação do petróleo do mar do Norte ficou fora da moeda europeia. E com isso ela deixou de poder ser, um dia, um combatente a sério do dólar. Portugal pode olhar para o seu sonho europeu: seguimos as "recomendações" de Bruxelas e os resultados são visíveis: umas finanças anémicas, uma dívida impagável, um sector bancário vendido a pataco a estrangeiros, a destruição gradual da indústria, agricultura e pescas. E, claro, uma emigração contínua. O sonho de nos aproximarmos do "rendimento médio" dos europeus esfumou-se e hoje Bruxelas considera que é com salários baixos que lá vamos.

O conto de fadas é de terror. E a ameaça britânica vem, pelo menos, agitar este pântano. Pense-se um pouco: enquanto Portugal tem sido temente do que diz Berlim e Bruxelas, a Irlanda percebeu há muito quem são os seus aliados (os EUA e a Grã-Bretanha). O investimento que acolhe e lhe serviu para driblar a crise vem dali e não de uma Europa que usa só os mesmos instrumentos para humilhar os mais fracos e salvar os mais fortes. Estamos a ver, com o OE de António Costa, o que é a Europa de Kafka que criámos. Pode ser que o "Brexit" nos ajude a abrir os olhos.»

Fernando Sobral

Está quase


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25.2.16

Faz de conta que estou lá (15)



Glaciar Mendenhall, (perto de Juneau), Alasca, USA, 2008. 
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Dica (231)




«A decisão unilateral dos dez países da “rota dos Balcãs” para travar a entrada de refugiados vai ensombrar a reunião dos ministros do Interior europeus, que se realiza hoje em Bruxelas. A Grécia ameaça com o poder de veto enquanto os 28 não cumprirem o seu compromisso sobre o acolhimento de refugiados.»
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Dickens na Beira Interior



Ricardo Araújo Pereira na Visão de hoje:

«O Centro de Solidariedade Social de S. João da Beira, na Covilhã, abrigou numa nova ala duas pessoas que viviam em condições de pobreza extrema. A Segurança Social de Castelo Branco inspecionou o centro e aplicou uma multa de 10 mil euros, porque a obra ainda não estava licenciada. (…)

10 mil euros é um preço simbólico a pagar por quem se atreve a abrigar pessoas necessitadas ilicitamente. Imagino o sofrimento dos utentes. Aquele acolhimento digno e humano nem devia estar a saber-lhes bem, se tinham consciência de que estavam a usufruir dele sem o carimbo requerido pela lei. (…) O mundo da solidariedade está perdido.» 

Na íntegra AQUI.
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A morte assistida e a carta de Lincoln



Este texto de Laura Ferreira dos Santos, do Público de hoje, fica aqui na íntegra:

«O último filme de Tarantino, Os oito odiados, situado uns anos após a Guerra Civil americana, começa com uma cena em que, numa tempestade de neve assustadora, um caçador de recompensas negro, Major Marquis Warren (Samuel Jackson), pede “boleia” a uma diligência, de modo a poder levar no tejadilho os cadáveres de três criminosos à cidade de Red Rock. Dentro da diligência está outro conhecido caçador de recompensas, O. B. (James Parks), algemado a uma mulher que vai levar para a forca na mesma cidade.

O. B. identifica o Major como sendo aquele negro envolvido na Guerra a quem o próprio Lincoln teria escrito uma carta de amizade. Devido a esta fama, dá-lhe de facto boleia, pergunta-lhe se leva consigo a carta e lê-a em silêncio.

Muitas cenas passadas, acabámos por saber que a carta fora forjada pelo Major, de modo a tentar proteger-se dos brancos esclavagistas. Mas, nessa altura de carnificina, revelar a verdade já não lhe traz más consequências.

No final do filme, só restam dois homens vivos, a caminharem rapidamente para a morte: o Major e quem seria o próximo xerife de Red Rock. E é nesse contexto que, tendo os espectadores já esquecido a carta de Lincoln, Tarantino, no que me pareceu um golpe de génio, põe o xerife a perguntar ao Major se pode ler a carta, mesmo sabendo-a falsa. Pela primeira vez, ouvimos o seu conteúdo, um rasgado e bem escrito elogio ao Major em tom de amizade. Há até nela uma nota de intimidade, quando é atribuído a Lincoln o facto de a sua Mary Todd ter acabado de chamar por ele, o que queria dizer que eram horas de se deitar. O futuro e agonizante xerife elogia a subtileza desse pormenor, amassando depois a carta e deitando-a ao chão.

Pouco tempo depois do final do filme, fiz uma associação curiosa: aquela carta falsa de Lincoln fazia-me lembrar todos os argumentos geralmente usados contra a morte assistida, como se fossem os mais verdadeiros deste mundo: nos países despenalizadores, muitíssimas mortes não são realizadas a pedido, tratando-se portanto de homicídios, facto cristalino que, dizem os delatores, vem até em fontes oficiais, fontes não mostradas por eles; na Bélgica é possível eutanasiar-se crianças de qualquer idade, a pedido dos pais ou por decisão médica (mentira que desmontei neste Jornal), “mata-se” (claro que os opositores queriam dizer “assassina-se”) quem quer que não se sinta de bem com a vida, afirma-se sem pudor que quem é a favor da despenalização se assemelha a alguém que empurra um desesperado pela ponte abaixo, classifica-se de “vítima inocente” quem lúcida e reiteradamente pede para morrer de modo a não sofrer de doença que torna a sua vida num inferno.

Como é público, sou uma doente oncológica. Escrevi 700 páginas – julgo que de qualidade - em dois livros a favor da morte assistida, vários textos neste Jornal. Quando não aguentar mais, vão dizer-me que não reflecti o suficiente? Ou os cuidados paliativos vão querer-me basicamente sedada durante inúmeros anos, contra a minha vontade e a do marido, mas com a cumplicidade ditatorial do Estado? Haja respeito pelas minhas convicções, pela minha dor e sofrimento e a de tantos outros. Se essa altura chegar, acham que será fácil separar-me de quem mais gosto? Continuarão a querer que me suicide sozinha, como parece advogar o Bastonário da OM?

Há histórias terríveis nos cuidados paliativos. Que não nos são contadas. Faça-se tudo contra a dor, mas respeitem a minha dignidade até ao fim respeitando as minhas convicções mais íntimas e reflectidas sobre o sentido da vida e da morte. Respeitem a minha vida privada, como o reclama a Convenção Europeia dos Direitos Humanos (art.º 8), vida privada não sujeita a referendos.

E, afinal, o que os detractores da morte assistida afirmam nem sequer consegue ter a bela retórica da suposta carta de Lincoln. As minhas desculpas a Tarantino.»

Professora aposentada da UMinho, autora de “A morte assistida e outras questões de fim-de-vida” (Almedina, 2015) (laura.laura@mail.telepac.pt) 
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O imortal Passos



«Há quem diga que o sábio Empédocles, que era um favorito dos deuses, se atirou para dentro do vulcão Etna para desaparecer e mostrar que era imortal. Um seu admirador, Pausanias, foi prestar-lhe homenagem, mas descobriu uma sandália dele junto ao vulcão.

O que o levou a chegar a uma triste conclusão: Empédocles era mortal. O discurso de Pedro Passos Coelho no final do debate que aprovou o OE foi muito mais do que uma crítica áspera e radical ao Governo e à maioria que aprovou o OE. Foi uma prova de vida. Julgando-se imortal, até porque a sua bancada se levantou para o aplaudir, o líder do PSD julga que o tempo lhe dará razão e o levará de volta ao poder. Julga ter a bênção dos deuses de Bruxelas e das agências de "rating" para esse sonho.

Ao recusar-se a discutir qualquer alteração ao OE, não apresentando propostas para o fazer, Passos Coelho mostra uma das sandálias que deixou junto ao vulcão onde pretende provar a sua imortalidade: no Governo passou a vida a pedir consensos ao PS, apesar de nunca ter feito nada para os conseguir. Ou seja: Passos não é um homem de diálogo: prefere os monólogos. Isso, claro, é bom quando se está no poder e se distribui benesses à volta. Quando se está na oposição, das duas, uma: ou jamais se deseja estar no poder ou então tem de se fazer conciliações para acalmar uma clientela que ambiciona sempre umas migalhas. E o PSD não é um partido que ame ficar irremediavelmente longe do poder.

Por isso, Passos tem de jogar de forma rápida: o PSD não o entronizará para sempre. Se dentro de alguns meses, contra as suas previsões, não conseguir voltar ao poder ou, pelo menos, dinamitar o Governo do PS, Passos terá de começar a olhar para as sombras. Aí lhe pedirão mais discurso social-democrata, de consensos, e menos discurso pseudoliberal, de radicalismo militante. Será aí que Passos terá de provar o que vale. Até lá terá de esperar que os deuses de Bruxelas o ajudem na sua árdua tarefa de provar que é imortal como Empédocles.»

Fernando Sobral

24.2.16

Faz de conta que estou lá (14)



Templo de Chaukhtatgyi, Buda Reclinado, Yangon, Birmâmia, 2009.

(O Buda tem 66 metros de comprimento e 30 de altura.)
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Dica (230)




«Britain will be weakened and will have to knock at the door of the EU to start negotiating a trade agreement. In the process it will have lost its bargaining chips. The EU will be able to impose a trade deal that will not be much different from what the UK has today as a member of the EU. At the same time it will have reduced the power of a country whose ambition it is to undermine the cohesion of the union.»
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Novela ADSE



Vai por aí uma discussão confusa cujo desfecho ainda não é fácil de prever. 

Mas se a ADSE é tão boa e tão lucrativa, e se se pretende agora que abranja, para além de funcionários públicos, também similares, descendentes e ascendentes (julgo que gatos e cães não estão previstos), por que raio é que não criam uma ADSE 2.0 para o resto da população? 

Qual é a ideia? Cavar ainda mais o fosso entre trabalhadores do privado e do público? Confessar, implicitamente, que o SNS é incontrolável e sacudir, para fora dele, o maior número possível de pessoas? A ver vamos, já que a procissão ainda está a sair do adro. Quando a poeira pousar, voltarei certamente a este tema. 
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Posse do novo PR – um dia de surpresas ou nem tanto assim



Paulo de Carvalho cantará isto, da sua autoria?


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Faria hoje 88 anos



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O OE de Jekyll e Hyde



«A mulher de Robert Louis Stevenson acordou numa noite de 1885 com os gritos do marido. Este estava a sonhar. E ficou irritado: "Porque me acordaste? Estava a sonhar com um conto de terror."

Aparentemente foi nessa noite que nasceu o estranho caso do doutor Jekyll e do senhor Hyde. Nele, o respeitável Jekyll bebe algo que o transforma no brutal Hyde, que se dedica a cometer crimes horrorosos. Vendo o debate sobre o OE deste ano quase se poderia perguntar quem faz de Jekyll ou de Hyde quando se fala de impostos. Será que cada partido se transforma em Hyde quando chega a S. Bento? Haverá ali alguma poção mágica que transtorna até os mais puritanos dos seres humanos? A acreditar no que se escutou, penosamente, no Parlamento nestes últimos dois dias, parece que sim.

É certo que não se discutiu seriamente nada sobre o OE. Tudo se resumiu a uma heróica carga ligeira da oposição contra o Governo, onde a forma foi sempre superior ao conteúdo. Ninguém está equivocado: os impostos directos foram substituídos por indirectos, Bruxelas e as agências de "rating" voam como abutres sobre a cabeça de Portugal, e cada partido posiciona-se para umas eleições que poderão surgir quando, e se, a situação económica se degradar ou o Governo achar que pode ganhar com isso. Perante isso, a sociedade portuguesa parece passiva e politicamente correcta, típica daquela que o filósofo espanhol Ortega y Gasset considerava técnica e consumista e onde os homens perdiam os seus valores. Muitas das intervenções no Parlamento foram pura representação. E demonstraram um vazio político e trivial. Não se discutiu o real, mas sim conceitos vazios que têm apenas que ver com o poder. Todos sabem que este é o OE possível, porque Bruxelas põe e dispõe. Com estes juros a dívida é uma grilheta eterna. Sabendo isso, PS e PSD olham-se nos olhos como pistoleiros em busca da arca perdida. E Passos Coelho, entre Jekyll e Hyde, ou regressa depressa ao poder ou eclipsa-se.»

23.2.16

Faz de conta que estou lá (13)



Wat Phra That Doi Suthep, Chiang Mai, Tailândia, 2012.
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Dica (229)




«Um dos conselheiros do governo alemão alerta para os perigos da proposta de se criar um “mecanismo de insolvência” na zona euro que leve a uma reestruturação das dívidas paga exclusivamente pelos investidores privados.» 
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Ajoelhar no milho



«No tempo do Marquês de Pombal existiam castigos muito comuns que se aplicavam aos alunos mal comportados: a palmatória ou o ajoelhar no milho. Este consistia em que o aluno se ajoelhasse com os joelhos nus sobre grãos de milho cru.

Além da dor e dos vestígios que deixava (hematomas profundos), funcionava como humilhação. O vexame caiu em desuso. Nos últimos dias muitos membros da nossa pequena e média elite têm discorrido sobre o facto de o Governo ter "ajoelhado" perante Bruxelas. Gostariam do regresso do castigo de ajoelhar no milho. Uns clamam contra o facto para que os portugueses se esqueçam que eles próprios ajoelharam em silêncio e em privado perante a troika de uma forma ainda mais ostensiva: ajoelhando-se ainda antes de alguém pedir isso, para mostrarem o seu afinco e fé. Outros, aparentemente, saúdam o facto porque acham que Portugal, para se redimir, deve estar debaixo de uma tutela ou de uma canga por parte dos iluminados de Bruxelas, "para aprender".

Ajoelhar é um sinal de submissão. Quem se levanta vive. Bruxelas e o seu coro de Schäubles, Dijsselbloems e Moscovicis desejam que Lisboa se ajoelhe perante eles. Não têm coragem para pedir o mesmo a Londres, mas isso é outro assunto. Que tem mais que ver com ser forte com os fracos e fraco com os fortes.

Portugal é, há muitos séculos, um servo da dívida. Mas sempre garantiu alguma soberania, apesar das suas elites. Por isso o que custa não é este ajoelhar contínuo. É o secreto prazer que alguns têm em louvá-lo. Como se o nosso destino fosse sempre ter de haver um mestre-escola, de preferência estrangeiro, a dar-nos reguadas pelo mau comportamento, a empobrecer as gentes deste país, a destruir qualquer ponta de orgulho nacional que nos possa restar.

Há quem deseje que não sejamos independentes. Preferem que sejamos um colonato de Bruxelas e a praia de Frankfurt. Alguns devem estar desejosos de ser os concessionários locais dessa empreitada. Porque já empenharam o seu orgulho.»

Fernando Sobral

À atenção do futuro PR




Marcelo Rebelo de Sousa vai andar num tal frenesim no dia da posse que ainda fala de política interna na mesquita e diz uma ave-maria na Assembleia da República.

E, já agora, que alguém lhe diga que vai presidir a um país laico e que era escusado iniciar o mandato com rezas.
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Sempre, sempre


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Uma União Europeia de lordes e de servos



Excertos do texto de José Vítor Malheiros no Público de hoje:

«O acordo alcançado na semana passada entre o Reino Unido e os restantes países-membros da União Europeia, que se saldou, segundo a declaração do primeiro-ministro britânico, David Cameron, na atribuição de um “estatuto especial” para o seu país (o Conselho Europeu chama-lhe “a new settlement for the UK within the EU”), constitui mais um prego no caixão da União Europeia, independentemente do resultado do referendo britânico de Junho.

O acordo veio provar mais uma vez que, no seio da UE, não existe igualdade nos direitos dos Estados-membros e que não existe princípio plasmado nos tratados que não possa ser esquecido ou modificado, se isso for feito para benefício de um país rico e poderoso e para conveniência e reforço interno de um governo de direita. (…)

O que é especialmente chocante é que as instâncias dirigentes da UE decidiram ceder à chantagem britânica não porque houvesse de facto algum problema social ou financeiro relevante no país devido à imigração em massa (que a direita nacionalista britânica agita como principal papão e que Cameron decidiu abraçar como causa própria por razões eleitoralistas), mas, simplesmente, porque isso se transformou numa questão de sobrevivência para o Governo conservador.

De facto, não há nenhuma urgência no Reino Unido que possa justificar a medida excepcional agora tomada ou que se possa comparar, de perto ou de longe, à importância da crise das dívidas soberanas dos últimos sete anos e à destruição social e económica causada pelas políticas de austeridade. No entanto, a propósito da Grécia, que continua a viver uma situação de emergência social, ou de Portugal, a União Europeia não sentiu necessidade de considerar para estes países nenhum “new settlement within the EU” e forçou-os a adoptar políticas recessivas e de promoção da desigualdade sem quaisquer contemplações. Como também não sentiu necessidade de adoptar quaisquer medidas vigorosas de defesa dos direitos humanos – que deveriam ser a pedra basilar da União Europeia – perante os desvios antidemocráticos de certos países (com a Hungria de Viktor Orban à cabeça). Como também não sentiu necessidade de lançar (mesmo) um programa de emergência de acolhimento dos refugiados de África e do Médio Oriente e continua a arrastar os pés enquanto o Mediterrâneo se enche de cadáveres. Como também não sente nenhuma pressão para construir uma política externa que sirva os interesses da paz e do desenvolvimento, em vez de uma que apenas serve os interesses hegemónicos dos EUA e dos fabricantes de armamento.» 
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Perguntas incómodas


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22.2.16

Faz de conta que estou lá (12)



Ilha de Miyajima, Santuário Itsukushima, Japão, 2005.
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Na Europa, não somos todos iguais



«Foi divulgado há alguns dias o relatório da auditoria realizada pelo Tribunal de Contas europeu para a Comissão sobre os resgates da Irlanda, Portugal, Roménia, Hungria e Lituânia. A primeira conclusão a que chegaram os auditores foi a arbitrariedade e a falta de equidade na actuação da Troika na aplicação de critérios distintos nos diversos países. Impuseram-se condições diferentes em situações similares. Na verdade, este comportamento não é novo, tem sido uma constante nos organismos internacionais. Talvez o caso mais evidente, e também o mais antigo, seja o das missões levadas a cabo pelo FMI na América Latina e noutros países subdesenvolvidos.

A falta de protocolos e de regras concretas permite que as actuações da Troika se realizem no vazio, guiadas apenas pela discricionariedade dos seus membros, por análises subjetivas e por ideologias particulares. Há, no entanto, um factor ainda mais negativo que aumenta a arbitrariedade em todas as decisões das instituições europeias: é que nem todos os países são iguais, nem têm a mesma influência em Bruxelas. A discriminação foi evidente desde o início, quando tanto a França como a Alemanha excederam largamente o défice estabelecido pelo Pacto de Estabilidade sem que as autoridades comunitárias fossem capazes de aplicar o expediente por défice excessivo.»

Continuar a ler aqui.
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Dica (228)




«Nos últimos dez dias falou-se mais de eutanásia do que nos últimos dez anos. Falou-se muito e, em muitos casos, falou-se mal, desconversou-se. Bastou o Manifesto “Direito a morrer com dignidade” - lançado sem pré-aviso ou autorização dos quartéis generais partidários mas com a intenção de aproveitar o novo ciclo político - para a prepotência de matriz conservadora vir a terreiro com tudo o que de pior tem a política portuguesa: a politiquice e a cretinice. O plano é simples, não discutir a eutanásia mas o referendo e intoxicar a discussão com argumentos terroristas e imbecis.» 
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Mulheres: todas estúpidas e ignorantes?



15 homens, 0 mulheres. 
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Um homem só



«Quando, há alguns anos, os GNR cantavam sobre os "homens temporariamente sós", não estavam a pensar em Carlos Costa. Até porque o governador do Banco de Portugal é, há muito, um homem definitivamente só.

Não apenas porque as condições meteorológicas exteriores aconselhavam há muito o seu recolhimento noutras latitudes, mas também porque o trabalho incessante que tem desenvolvido no Banco de Portugal tem-se revelado um prodígio de nulidade. Nada que tivesse demovido o anterior Governo de o reconduzir, depois de ele ter sido o bode expiatório de muitas decisões governativas e de ter sido atacado directamente por membros do anterior Executivo. E de Carlos Costa ter aceitado manter-se, mesmo sabendo que as eleições legislativas estavam à porta. Pior: sucessivas intervenções (ou falta delas) mostraram sempre um governador em busca do seu destino. Há dois casos recentes (e já nem se fala do BES, ainda por explicar convenientemente, e do Banif) que mereciam que o Banco de Portugal deixasse de se colocar numa torre de marfim, ao abrigo do seu estatuto de independência, como se não tivesse de abrir a boca sobre nada.

Por um lado, seria conveniente que o Banco de Portugal explicasse como foi possível que José Veiga estivesse prestes a comprar um banco em Cabo Verde e que, depois de a bolha ter explodido, ter vindo dizer confortavelmente que o processo estava nas mãos do Novo Banco. Por outro, seria conveniente que Carlos Costa explicasse, se isso não fosse um incómodo muito grande, porque continua a não partilhar um relatório da Boston Consulting Group para avaliar a sua acção no BES. Como se o BdP tivesse gasto 300 mil euros num documento secreto que é uma espécie de pudim flã só para um comensal. São demasiadas ideias amarrotadas e adulação pelo segredo para passarem sem uma chamada de atenção. Ao criticar Carlos Costa, António Costa tem um volume de argumentos inatacável. Pode pôr-se em causa o método. Ou o efeito na frágil imagem de Portugal no mundo. Mas isso não iliba o solitário Carlos Costa.»

Fernando Sobral

21.2.16

Faz de conta que estou lá (11)



Lagoas Altiplânicas (a mais de 4.000 metros de altitude), Atacama, Chile, 2010. 
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Il est interdit d’interdire


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Ai, Europa…



«Diz-se que, enquanto o Titanic se afundava, no salão de festas a orquestra continuou a tocar. A ter sido assim, deve ter havido um momento em que, ou porque a água chegou aos instrumentos ou porque chegou o pânico aos instrumentistas, a orquestra desafinou.»

Manuel António Pina, Jornal de Notícias, 2010. 
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Os últimos dias políticos de Cavaco



«Por estes dias, Portugal tem um Presidente que já não o é e um outro que, não sendo, é-o de facto. Cavaco Silva, aparentemente, deixou de ser Presidente da República, mas ainda ninguém o avisou do facto. Porque muitas vinganças servem-se frias.

Marcelo Rebelo de Sousa despacha com Mário Centeno e António Costa, enquanto vai formando a sua equipa para Belém. Cavaco fala de vez em quando, manda para trás uma ou outra lei, mas já ninguém o ouve. Como se fosse um fantasma que ocupa Belém por empréstimo até ser desalojado por falta de pagamento da renda. É o triste fim de um político que marcou Portugal durante décadas e transformou o país num "cavaquistão" material e ideológico. (…)

O "cavaquismo" nasceu numa época em que todos sonhavam em Portugal. E havia meios para tornar esses sonhos possíveis. Representou também o "assalto" ao poder por parte de quem não integrava o eterno circuito Estoril/Cascais que quase sempre determinou a política entre nós. Cavaco não era um "deles", mas tiveram de o engolir, à espera do momento certo para o riscarem do mapa.

Demorou tempo, mas o próprio "cavaquismo" foi criando o seu território minado, do BPN ao mundo dos negócios de muitos de alguns dos seus mais declarados membros. E, sobre isso, Cavaco nunca conseguiu afastar-se, porque sempre foi amigo dos seus amigos. Mas a nova geração de dirigentes do PSD e do PP nunca tiveram uma relação de fidelidade a Cavaco. Desprezavam-no, mesmo. Consideravam-no um "provinciano" com manias de "mestre da economia". Eles, que na maior parte dos casos vestem camisolas ideológicas segundo a meteorologia, encaram a política como uma via para o poder, para as cumplicidades negociais, para a sustentação de uma "elite" não eleita que deve ter sempre o poder entre nós. Cavaco era suportado, mas não fazia parte desse clube do Bolinha.

Cavaco, fechado em Belém, deixou de perceber nestes últimos anos a mutação do poder. Defendeu Passos, mas este nunca retribuiu. Atacou António Costa, e ganhou um inimigo. Todos eles assistem agora, com Marcelo, aos tristes dias do final de mandato de Cavaco. Antes de partir de Belém e de ser esquecido. Todos fazem agora de conta que ele já não está em Belém. Como fim político, é a mais triste das homenagens.»

Fernando Sobral

Direito a morrer com dignidade – Petição


No seguimento do Manifesto recentemente lançado sobre este tema, e como tinha sido anunciado, está agora disponível uma Petição que pode ser assinada através do «site» ou diretamente AQUI
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Isto não vai acabar bem




Os mesmos dirigentes europeus que espezinharam a Grécia, e que obrigam Portugal a mais austeridade por causa de umas miseráveis décimas a mais ou a menos num défice que não representa mais do que uns trocos, dão tudo isto ao Reino Unido. Chamem-lhe «realpolitik», se quiserem, mas isto não vai acabar bem. 
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