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5.3.16

Faz de conta que estou lá (24)



Bariloche, Argentina, 2011.
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Dica (238)



Morrer sim, mas devagarinho? (Francisco Teixeira da Mota) 

«Aceitar a legalização da eutanásia exige-nos a capacidade de aceitar que o “outro em sofrimento” não queira viver um pesadelo existencial sem outra saída que não seja a morte e possa evitar esse pesadelo e pôr termo à vida de uma forma não clandestina e angustiada mas antes, tanto quanto possível, tranquila e em paz. É também a possibilidade de alguém a quem amamos não ter de sofrer absurdamente.» 
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O retrato de Cavaco



Será assim que ficará na galeria dos ex-presidentes, em Belém.

Enigmática ficará sempre a razão da escolha do artista que o pintou: Barahona Possollo. Mas foi pena que Cavaco Silva não tivesse recorrido a uma das facetas da arte do pintor porque então, sim, estaríamos em plena originalidade: «Também de salientar é a forte carga erótica (em particular homoerótica) de uma parte da sua obra, com a representação de corpos muitas vezes nus, sempre muito belos e jovens». É vê-los aqui.

Nada disto teria importância se o que resultou não fosse simplesmente horrível, desde a expressão à vestimenta abrilhantada e àquela caneta na mão (para assinar exactamente o quê?...), aos livros encadernados de enfeitar estantes e ao tinteiro antigo, agalheteirado, saído de uma qualquer loja de antiguidades da Rua de S. Bento.

Enfim… provavelmente é mesmo um bom retrato do retratado. 
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Ó tempo, volta para trás



José Pacheco Pereira no Público de hoje:

«Quem veja nestes dias um noticiário da televisão sem som parece que o tempo andou para trás. Passos Coelho passeia-se por feiras e encontros de empresários, “inaugura” escolas em autarquias do PSD, tratado como primeiro-ministro, com a postura oficial de um primeiro-ministro, com a bandeira da lapela usada pelos membros do seu Governo e que continua a usar para não deixar dúvidas que se considera ele próprio o primeiro-ministro com direito ao cargo, que outros usurparam numa espécie de golpe de Estado. (…)

Nem sequer é como líder do PSD, logo da oposição, mas como candidato numa eleição interna de um partido. António Costa ao lado dele, informal e com comitivas mais ou menos caóticas, com a clara má vontade dos seus acompanhantes empresariais, parece, esse sim, um candidato em passeio eleitoral. De um lado a pompa do Estado e da função, do outro o aspirante esforçado a um qualquer cargo eleitoral de uma autarquia. (…)

Um certo facilitismo e complacência que surgiram à esquerda com a vitória política da formação do Governo não correspondem a uma alteração significativa das condições prevalecentes nas vésperas das eleições legislativas. Ou seja, Passos Coelho está bem onde está e é Costa que está numa terra de ninguém que ainda não foi efectivamente ocupada e que corre o risco de nunca o vir a ser. Voltemos à pergunta: por que razão é que a “velha” política custa tanto a desaparecer?

Há várias respostas a esta pergunta e todas complementares. Primeiro, porque existe um considerável apoio popular e eleitoral à política do ex-PaF, há muita bipolarização agressiva. O PaF teve um bom resultado eleitoral no contexto das eleições em 2015 e, em particular, o PS perdeu-as. A legitimidade da maioria que resultou dos acordos PS-BE-PCP é inquestionável como a afirmação de que uma maioria dos portugueses queria mudar em 2015 e votou contra o Governo anterior do PaF. Mas se tudo isto é verdade, nem por isso se transforma numa grande vantagem política, se der origem a um governo defensivo que se comporta como estando sitiado e a forças políticas que o apoiam mais olhando para o seu umbigo do que para a conjuntura geral.

Segundo, porque o PS, permanecendo no terreno da ortodoxia europeia, não se consegue libertar para fazer a política que pretende. Com algumas pequenas concessões e menos rigorismo europeu, podia, mas ninguém lhe fez essas concessões. (…)

Por isso, o país, apesar de ter tido uma revolução política, está longe de sair do terreno da “velha política”, e as enormes pressões nacionais e internacionais, que todos os dias fazem marcação ao Governo lembram-lhe que “não há alternativa”. (…)

Com o PS este clamor quase diário de declarações e ameaças é para irem à jugular do Governo e acabar com ele. E, para acabar com ele, basta colocá-lo entre os controleiros de Bruxelas e as agências de rating, de um lado e do outro os seus aliados à esquerda que se colocaram imprudentemente atrás de várias linhas vermelhas que sabem muito bem que o Governo pode ter de atravessar. Sim, porque o PS entre a “Europa” e os seus aliados vai sempre escolher a “Europa”.

Por isso, a estratégia de Passos Coelho tem sentido do ponto pessoal e partidário. Não é por acaso que Passos Coelho alimenta a esperança de eleições a curto prazo, mesmo que, por conveniência, o disfarce — aliás, bastante mal. (…) E, no curto prazo, não é uma estratégia irrealista, bem pelo contrário. Passos tem tudo a seu favor a curto prazo e tudo contra a médio. (…)

O debate final do Orçamento e algumas declarações recentes de responsáveis do Bloco, do PCP e da CGTP já mostravam maior consciência do problema. Mas a chave está no PS. O PS sabe muito bem o que aí vem e que precisa de ter uma resposta política concertada face às exigências “europeias” e que estão longe de poder ser acomodadas por um qualquer pacífico plano B. O que lhe vai ser pedido pode ser apenas um “sinal”, como agora se diz, mas esse “sinal” será sempre de rendição — obrigar o Governo a fazer a política do “ajustamento”, e, mais do que isso, com os alvos habituais do “ajustamento”: trabalhadores, funcionários públicos, pensionistas, classe média.

É suposto haver uma seta do tempo. Ela explica por que razão só com um enorme esforço e energia se é capaz de fazer a pasta dos dentes regressar ao interior da bisnaga. Mas o que a situação actual revela é que há demasiados dedos a tapar a pasta para não sair, e a pasta precisa de muito mais força para os contornar. O tempo pode voltar para trás, porque ainda não andou decisivamente para a frente.» 
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Alguma dúvida?


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4.3.16

Faz de conta que estou lá (23)



Baku, Azerbaijão, 2011. 
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Não é falta de senso, é de consciência



Henrique Monteiro, no Expresso diário de hoje.

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Dica (237)




«Temos tido uma relação muito leal com o PS na gestão deste processo, do Orçamento, da especialidade, e antes também. Neste Orçamento, digo isto sem necessidade de ser modesta, há muitas medidas que não seriam possíveis se não saíssem de um processo negocial deste género. Este processo e o acordo melhoraram o Orçamento, criaram uma baliza. O Governo, ao estar limitado por um acordo, sabe que, faça o que fizer, não pode nunca atacar salários, pensões e o preço dos bens essenciais.» 
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Obrigada, Maria Luís!



Acordei a meio da noite com um sentimento estranho de contentamento. Depois percebi que ontem foi um grande dia para todos os que se opuseram à AD, ao PàF e a todo o mal que fizeram durante os últimos anos: agora só não vê quem não quer o tipo de gente a que estivemos entregues. Aleluia!

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Emérito Coelho



«Em tempos, Santana Lopes, após ser PM, quando lhe perguntaram o que ia fazer, disse: vou andar por aí. Passos decidiu que, depois de ser PM, ia andar por todo o lado.

Passos faz inaugurações, visita escolas, fábricas e exposições. O mesmo Passos que desapareceu dos cartazes de campanha nas legislativas, agora, é omnipresente. No fundo, Passos ainda se julga PM. O ex-primeiro-ministro parece a ex-namorada que ainda continua a ir visitar os "sogros". O pin de Portugal é o sinal do seu estado de loucura - acabou, filha, desanda.

Passos vai ter de ser operado para remover o pin de Portugal. O uso do pin, com a nossa bandeira, tornou-se uma teimosia. Quanto mais insistirmos que é ridículo usar aquilo, mais ele o vai usar. Quem tem filhos adolescentes, sabe do que estou a falar. Aposto que o ex-PM nem tira o pin no banho. Pode sofrer mas não o vão apanhar sem o último símbolo do que já foi. Se, por acaso, lhe cai o pin, é como se lhe tivesse caído uma lente de contacto - "Ninguém se mexa! Caiu-me o pin. Não o pisem, a não ser que estejam descalços". (…)

Resumindo, o ex-líder do PàF vê-se como uma espécie de Dalai Lama, neoliberal, que continua a ser o líder do governo tibetano no exílio após a invasão do país pelos comunas da China.»

João Quadros
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Maria Luís não vai sozinha


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3.3.16

Faz de conta que estou lá (22)



Mosteiro de Gerard, Arménia, 2012.
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ADSE: a esquerda refém do eleitoralismo



Assino por baixo, da primeira à última linha, o texto de Daniel Oliveira no Expresso diário de hoje:

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Humor e mudanças sócio-económicas



Ricardo Araújo Pereira na Visão de hoje:

«A cineasta Leonor Teles ganhou um Urso de Ouro para melhor curta metragem pelo filme Balada de um Batráquio. (…) Um jornal perguntou: “Quer ter um papel numa eventual aproximação entre os ciganos e o resto da sociedade?” Leonor Teles respondeu: “Eu não! Fiz o filme, o que há a fazer é as pessoas irem vê-lo e tirarem dele o que entenderem. Não me cabe a mim ter o papel de juiz”.(…)

No dia seguinte, o JN noticiava na capa: “Venda de sapos de loiça dispara”. Alguns comerciantes que ainda não sabiam que os ciganos tinham uma superstição com sapos ficaram a saber pelo filme e foram esgotar os stocks de batráquios de porcelana. Um dia negro para quem acredita que os problemas sociais se resolvem à força de curtas-metragens humorísticas.»

Na íntegra AQUI.
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Bem melhor do que ser ministro é tê-lo sido




«Esta empresa sediada em Londres tornou-se líder da gestão de crédito malparado em Portugal, ao adquirir no ano passado a Whitestar e a Gesphone, duas empresas do mesmo ramo. A Whitestar está também envolvida na gestão de crédito malparado do Banif. 

Num documento classificado como "confidencial" mas disponível na internet, a empresa revela gerir 5.5 mil milhões de euros e ter como clientes em Portugal os bancos Santander, Banif, Millennium BCP, Banco Popular, Montepio, Finibanco, Crédito Agrícola, Cofidis, entre outras empresas de renome do setor financeiro.» 
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Trump e o Pato Donald



«Orson Welles, sempre com uma visão sombria da vida, costumava dizer: "A popularidade não deveria ter importância na eleição dos políticos. Se dependêssemos da popularidade, o Pato Donald e os Marretas teriam assento no Senado."

Ou na Casa Branca, poderíamos acrescentar. Os resultados da "Super terça-feira" tornaram tudo mais claro no campo democrata: Bernie Sanders mostrou que é uma agradável surpresa, atraindo o eleitorado jovem, mas Hillary Clinton parece imbatível. Já no campo republicano, a popularidade de Donald Trump sobrepôs-se ao conservadorismo evangélico e ideológico de Ted Cruz ou Marc Rubio. Trump começa a depender só de si e Ted Cruz só pode esperar que todas as outras candidaturas se eclipsem e apostem tudo nele. Mas é de Trump que todos têm medo. Do candidato que fez do medo dos outros (especialmente dos mais furiosos dos americanos, a sua classe trabalhadora branca) a sua força. Sem ideologia clara, Trump dividiu a América não entre ricos e pobres, mas entre trabalhadores e parasitas e entre americanos e emigrantes.

Não está só neste mundo de extremos: muita da Europa que parece em pânico com Trump acolhe com abraços Viktor Orbán, o primeiro-ministro húngaro (que diz quase o mesmo que o Darth Vader republicano) enquanto chicoteia os governos atolados em dívida ou sem meios para fazer face à crise dos refugiados. Trump sossega os democratas: o seu radicalismo será, por certo, batido pelo centrismo (e a sua posição de falcão em termos internacionais) de Hillary Clinton. Mas abriu uma caixa de Pandora nos EUA que não se via há muito: um populismo que tem que ver com o "cowboy" da memória americana. Se Ted Cruz é o evangélico da América profunda à conquista de Washington, Trump é o sobrevivente (vencedor, mesmo que perca algumas vezes) que os americanos sonham ser. E ele, com o seu discurso básico, simboliza o miserável mundo do Twitter: nada é elaborado, tudo é "sim" ou "não". Trump é mais do que um populista. É o espelho de um mundo que recusa pensar.»

Fernando Sobral

Futurologia


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2.3.16

Faz de conta que estou lá (21)



Cataratas de Vitória, Livingstone, Zâmbia, 2007.
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Noémia Delgado



Com Alexandre O'Neill, com quem foi casada, em 1961.

Dica (236)




«As estrelas parecem alinhar-se para que o governo de esquerda venda o Novo Banco em saldo a um grande banco europeu (demasiado grande para falhar), com enorme prejuízo para contribuintes, para particulares e para a economia portuguesa, num remake do que ocorreu ao Banif no final de Dezembro. Os custos somam e seguem e medem-se em demasiado numerosos milhares de milhões de euros. E os dinheiros dos contribuintes portugueses (e de particulares portugueses) servem para recapitalizar grandes bancos europeus, estrangeiros, com o amém do Banco de Portugal.

Mas os portugueses podem estar tranquilos, está tudo bem… está tudo sempre bem …»
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Espanha, hoje


Goste-se ou não do Podemos e/ou de Iglesias, vale a pena ouvir o discurso deste, hoje, no quadro da tentativa de investidura (que falhará) de Sánchez.


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Hollywood e o ensino



«O grande cartaz onde está escrito "Hollywoodland" não se destinava, no início, a promover a terra dos sonhos do cinema. Era publicidade de uma empresa imobiliária que queria vender casas paradisíacas.

O cartaz tinha 50 mil luzes eléctricas que piscavam durante a noite. Muitas fundiam-se e havia um homem que tinha uma única missão: substituí-las. Nada de muito diferente do que se passa no Ministério da Educação. Cada ministro é contratado para substituir as lâmpadas que se vão fundindo. Alguns, como Maria de Lurdes Rodrigues ou, mais recentemente, Nuno Crato, esmeraram-se. Entretiveram-se a rebentar mais umas quantas, talvez a sonhar com um cartaz sem luzes a piscar. A animada conversa sobre cinema entre o ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, e a deputada do CDS, Ana Rita Bessa, apesar de divertida, mostra que a educação continua a ser um filme. Não digno de um Óscar, mas frequentemente próximo de uma série B ou Z. (…)

Os professores, neste país, têm sido tratados como "custos". E não como investimento. Criou-se uma cultura de valores inversos, onde não há uma luta da civilização contra a ignorância. E, nesse caso concreto, a escola pública tem sido demolida com rigor sádico. Talvez por isso Nuno Crato seja condecorado. A política seguida há anos ignora o ensino como base de uma sociedade democrática: fechou-se entre currículos que mudam como cogumelos e a conversão dos professores em inimigos públicos perfeitos. Tendo-se transformado a educação num mercado de lucro, caminha-se alegremente para o paraíso perdido: uma Hollywood que deixará de estar iluminada, porque todas as luzes estão fundidas.»

Fernando Sobral

1.3.16

Faz de conta que estou lá (20)



Bergen, Noruega, 2011.
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«Está na altura de reconhecermos o direito à morte assistida»



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Abóboras cozidas



«Kim Jong-un, que julga governar um país de desenhos animados, diz ter uma arma assombrosa que transforma tanques de guerra em "abóboras cozidas". Não sendo Flash Gordon, Kim é um ilusionista pop. Diverte enquanto não comete loucuras.

A Europa, mais conservadora, tem também as suas fotocópias de Kim. Estas são mais discretas mas vão contaminando aquilo que, há uns anos, era o sonho de uma Europa justa, poderosa e iluminista. Rendida à fé da austeridade e à sobrevivência do euro, a Europa tornou-se uma abóbora cozida. As crises institucionais para a formação de governos estáveis, ultrapassadas em Portugal, mas tempestuosas em Espanha e Irlanda, são sintomas de uma gripe mais sólida.

A Europa está sob o efeito de um degelo e ainda não quis reparar nisso. As fracturas parecem cogumelos a nascer com a Primavera. A crise dos refugiados, o previsível fim de Schengen como o conhecemos, a "democracia musculada" dos países do Leste da UE ou o "Brexit" são muito mais do que nuvens passageiras. São tempestades demasiado fortes para se fingir que não existem. Mas numa Europa que só pensa em números (os dos défices, mas não os outros…) é evidente que, mais tarde ou mais cedo, alguém tivesse de começar a falar do tabu: o pagamento das dívidas soberanas. (…)

Mas chegará o dia em que renegociar a dívida não será um tabu. Sabe-se que ela é impossível de pagar. E que aumentou com as aspirinas da troika. Ninguém, neste momento, pode dizer: "Não pago." Será excomungado e guilhotinado em Bruxelas e Berlim. António Costa, que não quer acabar como uma abóbora cozida, vai esperar.» 

Fernando Sobral

Ministro do Ensino Superior: «interviram», «tinhemos»?





Esta senhor não caiu da Lua, é catedrático no IST («fala, portanto - pobres alunos…), foi secretário de Estado durante 6 anos. Inadmissível, ponto.
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Eutanásia – A ler, em silêncio e com respeito




«Tenho um colega, a quem já pedi, que me vai ajudar. As despedidas são difíceis, e esta, a definitiva, deve ser complicadíssima. A única coisa que gostava de fazer era dar um beijinho aos meus filhos. Não quero que estejam presentes, mas faço questão que saibam como o pai morreu. De resto fiz tudo, gozei a vida que me fartei, vou de barriguinha cheia. E acho que hoje ainda vale a pena viver. Apesar de ter ajudado estas quatro pessoas a morrer, sei que ajudei muito mais a viver. Muito mais.» 
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A UE não aparece no álbum de fotografias



«Pense nos acontecimentos históricos dos últimos 60 anos em todo o mundo. Mais ou menos a partir da segunda Guerra Mundial. Vá, faça um esforço de imaginação. Não, não precisa de saber nada de história. Não é um teste nem um concurso. Não ganha nada mas também não há respostas erradas. É só uma experiência. Comece por onde lhe der mais jeito, ali pelos anos 60 do século passado ou mesmo um pouco mais para trás, ou só depois do 25 de Abril, conforme a sua idade, a sua memória, o seu gosto pessoal e os seus conhecimentos de história.

Pode escolher os acontecimentos que quiser: grandes datas políticas, marcos científicos, revoluções sociais, saltos tecnológicos, choques culturais… Já conseguiu? Está a ver desfilar na sua mente uma série de imagens, como numa daquelas apresentações de documentários televisivos, cheias de imagens a preto e branco? Acrescente as imagens a cores. Podem ser excertos de filmes. Pode juntar documentos, quadros, música (não se esqueça da música). Já está? Está no meio de um turbilhão de recordações pessoais, de recordações importadas dos filmes que viu e dos livros que leu, de discursos e canções, de fotos e de bocados de telejornal, de capas de discos e de manchetes de jornais?

Bom, agora a pergunta: alguma das coisas que evocou tem alguma coisa a ver com a União Europeia? (…)

E havia alguma imagem, alguma referência que tivesse a ver com os Estados Unidos? Provavelmente havia. É natural. (…)

Havia alguma imagem, alguma referência que tivesse a ver com um país europeu específico além de Portugal? Com a França, a Itália, o Reino Unido? Ou com a África do Sul, o Brasil, a China? Ou com uma organização internacional? Provavelmente havia. Até a insípida ONU gerou imagens de que nos recordamos: Che Guevara a dirigir-se à Assembleia Geral, Colin Powell a mostrar as “provas” das armas de destruição maciça do Iraque, Malala Yousafzai a discursar, até a (falsa) imagem de Nikita Khrushchev a bater com o sapato…

Será isto importante? É, porque significa que a União Europeia não representa nada, não está associada a nada de particular e, principalmente, não está associada a nada de que nos possamos orgulhar. Significa que a União Europeia, antes e agora, não conquistou espaço nem no nosso coração nem na nossa mente. Não conquistou sequer aquilo a que a gente do marketing chama “share of mind”. Não nos vem à ideia. Não faz parte das nossas narrativas, da nossa história emocional, da nossa história pessoal. Significa que é necessário um violento esforço intelectual para a invocar à nossa memória. Significa que, mesmo quando nos vem à ideia, a UE nos vem pelas más razões, porque nos enfia o pé na porta e nos quer impor a sua vontade, seja a austeridade seja a Europa-fortaleza da xenofobia, mas sem sequer o afirmar de forma clara.

Significa que esta entidade, apesar de condicionar de forma crescente as nossas vidas, não nos mobiliza e não nos inspira. Pelo contrário: cada vez mais, envergonha-nos. (…)

O problema é que a UE não aparece no nosso álbum de fotografias nem cumpre os requisitos mínimos para ser convidada para o nosso próximo aniversário.»

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Com IVA a 23% ou não…



… somos os primeiros!

(Daqui)

29.2.16

Faz de conta que estou lá (19)



Gondar, Etiópia, 2013.
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Dica (235)



Uma forte náusea. (Francisco Louçã) 

«Talvez o problema não seja então da nacionalidade dos capitais, que aliás são bastante indiferentes a essa mesquinhez. É da natureza da banca e da finança em tempos de crise: joga-se, perde-se, endivida-se, paga-se, pagamos. O controlo público procura simplesmente restabelecer as condições para decisões coerentes sobre o bem comum, como o sistema bancário. E a capacidade de controlo soberano exerce-se de modo diferente quando enfrentamos Ricardo Salgado e Carlos Costa ou Ana Botin e Mario Dragui, como é bom de ver.» 
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Eutanásia: de farisaicos está o país cheio



Ordem dos Médicos ou Santo Ofício?

A Ordem dos Médicos, em comunicado assinado pelo seu bastonário, insurge-se contra as declarações públicas da bastonária da Ordem do Enfermeiros, nas quais afirmava, sobre casos de eutanásia, “vivi situações pessoalmente, não preciso de ir buscar outros exemplos”, concluindo que “quem trabalha no Serviço Nacional de Saúde sabe que estas coisas acontecem por debaixo do pano, por isso vamos falar abertamente”.

A enfermeira Ana Rita Cavaco não disse nada que alguém não soubesse, constatou uma evidência e confirmou factos conhecidos, até por anteriores declarações de vários médicos, feitas em diversos contextos e circunstâncias.

Diz a Ordem dos Médicos que “deconhece qualquer caso de eutanásia explícita ou encapotada nos hospitais do SNS”, afirmação que só não surpreende porque a Ordem dos Médicos desconhece muita coisa que se passa nos hospitais.

O que surpreende é a iniciativa, anunciada no mesmo comunicado da Ordem dos Médicos, de participar ao Ministério Público das declarações da bastonária dos enfermeiros. As declarações são públicas, a queixa não faz qualquer sentido e nada acrescenta. Só serve mesmo para satisfazer os impulsos corporativos e exibir a costela inquisitorial do senhor bastonário.

João Semedo no Facebook
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Poesia e prosa



«Um dos mais célebres governadores de Nova Iorque, Mário Cuomo, era conhecido pelos seus discursos atraentes e vigorosos. Foi ele que, um dia, disse a quem o queria ouvir: "Faz-se campanha com a poesia, mas governa-se com a prosa."

Há quem não esteja de acordo com esta sensata tese. Por exemplo, Arménio Carlos, o líder da sempre irrequieta CGTP, já mostrou que prefere sempre a prosa à poesia. Mesmo que o Governo seja mais dialogante. Às vezes duvida-se mesmo se não prefere executivos que possa combater com ferro e fogo do que aqueles que tentem, em momento de prosa cerrada, trazer alguma poesia para a vida política, económica e social. O Governo de António Costa sabe, também, que alguma da poesia que partilhou durante a campanha eleitoral e que sustenta um acordo à esquerda no Parlamento terá de chocar com a prosa dos números frios das Finanças. O PSD de Passos Coelho, nesse aspecto, é como a CGTP: prefere sempre a prosa, seja no Governo ou na oposição. Não há ali a mais ténue tentação poética, talvez porque isso não faça parte da cultura da elite partidária que agora ali ocupa o poder.

A Moody's, que costuma ser defensora de uma prosa seca e ríspida, cedeu por momentos à poesia e consegue dar um aval ao OE de António Costa e Mário Centeno, permitindo alguma acalmia nas turbulências internacionais. O elogio, sendo uma surpresa poética, calou os arautos do papão dos "mercados", que estavam à espera de prosa digna de um taco de basebol. Mas este país continua a não ter tempo para a necessária poesia: o Novo Banco, filho pródigo dessa "resolução" que destruiu o BES e criou um vácuo, arrasou com uma prosa fina como uma lâmina: mil empregos serão eliminados sem apelo nem agravo. Não admira que Ricardo Salgado pergunte: e eu é que era Nero? Portugal navega entre estas duas margens, procurando um porto de abrigo onde possa suspirar um pouco e oxigenar os pulmões. Para que, um dia destes, possa ler um pouco da melhor poesia portuguesa. E bem precisa disso.»

28.2.16

Faz de conta que estou lá (18)



Granada, Nicarágua, 2014.
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Dica (234)




«Socorro-me do Sérgio Godinho para constatar que, de facto, há dias de manhã em que um homem à tarde não pode sair à noite nem voltar de madrugada. Ontem, para o Bloco de Esquerda, foi um desses dias.» 
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O’Neill e Amália, que tristezas não pagam tonterias


Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.

Que perfeito coração
morreria no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.

Alexandre O'Neill



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Ele há dias em que...


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O mérito de Passos Coelho



«Passos Coelho disse no Parlamento que é o garante da unidade da esquerda. A declaração é surpreendente. Sobretudo num homem que tem demonstrado não ser capaz de grandes lucubrações e exibe com regularidade um pensamento bastante linear.

Dá ideia de que, por uma vez, ele percebeu a complexidade da realidade. Ou então alguém lhe fez um desenho.

De qualquer modo é isso mesmo. Acertou. A direita portuguesa, que ele tão bem representa, não só é o garante da unidade da esquerda como, com a aprovação do Orçamento do Governo de António Costa, conseguiu realizar um inesperado paradoxo. O radicalismo da direita gerou bom senso na esquerda radical. (…)

A estratégia de irrelevância e cedência seguida pela direita não é só um erro, é uma investida objetiva contra Portugal. É uma desvalorização do país. Ora é esse ataque aos interesses nacionais que levou a esquerda radical a apoiar um Governo que não é o seu, mas com o qual foi possível estabelecer um acordo de recuperação e defesa da nação soberana. Um dia, quando passar a fase da frustração, a direita vai perceber isto. E vai perceber também que se Passos Coelho é o símbolo, e a prática, da perda nacional, e, por consequência o aglutinador da esquerda, tem de ser removido. O Presidente Marcelo Rebelo de Sousa já o percebeu e, conhecendo-se a sua mecânica, tudo fará para que isso aconteça.

É por isso que a declaração de Passos no Parlamento é tão interessante. Por uma vez parece ter percebido o que está em causa. Mas, por outro lado, revela o lado patético do seu empreendimento. Imagina talvez que a "geringonça" da esquerda não vai funcionar e, mais cedo do que mais tarde, irá regressar ao poder e voltar a castigar, eventualmente com ainda mais raiva, os portugueses. Percebeu mal. É que precisamente enquanto ele se mantiver à frente do PSD e das câmaras televisivas que o seguem por todo o lado, a esquerda não vai ceder. Nunca.»

Leonel Moura